Há três tipos de escritores: os que escrevem para si, os que escrevem para os outros e os que escrevem para a História.
Os que escrevem para si desejam, primordialmente, se expressar. Sua escrita está associada ao prazer de escrever. Não costumam atentar para a técnica, praticando uma escrita automática, espontânea. Como seu principal objetivo é se autoexpressar, não têm o hábito de estudar crítica literária e, consequentemente, de criticar seus próprios escritos ou os escritos alheios.
Os que escrevem para os outros desejam ser lidos pelo maior número possível de pessoas. Sua escrita está associada ao aspecto “artesanal” da linguagem, seja esse trabalho prazeroso ou não. Estudam a técnica, como forma de fazer um melhor uso da escrita para cativar o leitor. Sua escrita não é espontânea, mas estudada, pendendo para um fim específico, ou seja: a comercialização do livro, visto como produto, entretenimento. A autoexpressão, aqui, fica em segundo plano. O importante é escrever para ser lido por alguém e, de preferência, por muitos.
Os que escrevem para a História desejam realizar uma obra que fique para a posteridade, entre para o cânone literário. O objetivo, não raro, é “se perpetuar através dos tempos por meio da escrita”. O corpo morre, mas a letra permanece. Nem é preciso dizer que, dos três tipos de escritores mencionados aqui, esse é o mais ambicioso, obsessivo. Tanto o prazer quanto o sofrimento estão submetidos a um objetivo transcendente. A técnica é permanentemente desenvolvida, servindo como meio para a criação de formas originais de escrita.
Em pouco mais de uma década estudando literatura e escrita criativa, conheci vários escritores. A partir de minhas leituras e experiências no meio, cheguei a conclusão de que existem, de um modo geral, três tipos de escritores: os que escrevem para si, os que escrevem para os outros e os que escrevem para a História.
O que difere um tipo de escritor do outro é a sua “linha de horizonte”, seu objetivo, sua prioridade.
Nenhum tipo, porém, é puro: mesmo naquele que deseja escrever somente para se autoexpressar, há uma centelha, um mínimo desejo de pelo menos uma vez escrever algo tão bom que mereça permanecer na História. Por outro lado, quem escreve buscando a perfeição, nem que seja por alguns instantes se deixa levar pelo prazer de simplesmente escrever por escrever.
O primeiro traz um pouco da aspiração do terceiro, sem estar apto a realizá-la. O segundo, embora domine a técnica, não aspira fazer voos tão altos a ponto de escrever um clássico. Já o terceiro não pode se contentar em simplesmente escrever por escrever, nem pode se dar por satisfeito com o domínio da técnica: é preciso ir mais longe!
É possível conciliar, em um nicho literário, esses três tipos? Um é prejudicial ao outro? Ou benéfico? Um é melhor que o outro? Em quê? São independentes ou interdependentes?
“Em verdade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra: que em geral nem sabem ler”. (Eduardo Galeano. Em defesa da palavra).
Próximo de ter cometido 105.000 assassinatos e, no decorrer da pandemia, ter vilipendiado os vitimados e seus familiares, desdenhado e negado a letalidade do covid-19 desde o início com suas pérolas macabras como: “histórico de atleta; brasileiro se joga no esgoto e não pega nada; vai morrer 800 pessoas; não sou coveiro; e daí? é como chuva todo mundo pega; cloroquina; vermicida; chá de picão; botar um sanfoneiro desafinado que pra ruim precisava aprender o básico sobre tocar sanfona “homenagear” os vitimados; temos que tocar a vida…” e outros vitupérios e, sobretudo, negligenciado ao deixar o Ministério da Saúde jogado as traças nas mãos dum aprendiz de genocida que, em pouco tempo, superou seu mestre, agora apresenta o ranking dos governadores, observem bem, não é do Estado, é dos governadores, onde ocorreram mais mortes.
Uma tentativa insana de se eximir da sua irresponsabilidade e responsabilizar os governadores pelo elevado número de morte. É ou não é um assassino covarde, parasita e sanguessuga?
Todo pusilânime, quando se defronta com um problema, nunca apresenta a solução. A mediocridade de pessoas com esta característica não permite apontar o rumo a ser seguido.
Tendo ciência das suas limitações, o pusilânime sempre sai em busca dum culpado. Característica própria dum sujeito abjeto. Os governadores estaduais tiveram a sua parcela de culpa, sobretudo ao cederem no decorrer da pandemia as vontades dos mercadores da morte e do presidente. Mas a maior parcela de culpa é do genocida.
Mesmo que tente manipular a opinião do conjunto da sociedade, conseguirá, no máximo, a aceitação de suas insanidades junto aos seus [as] energúmenos neófitos do núcleo duro. O que é muito. Jamais imaginei que 25% dos membros da sociedade brasileira fossem proto-fascistas pusilânimes. Mas temos 75% que não são. E serão eles [as] que o farão pagar pelos teus crimes.
Não adianta apostar na falta de memória do povo brasileiro. Nós lembraremos todo dia, como um mantra, que é um genocida covarde, parasita e sanguessuga. Assuma vossa responsabilidade. Você tinha consciência disso quando afirmou, em abril, quando tínhamos 6.000 crimes cometidos, na cerimônia de posse do Taich como Ministro, ao dizer: “abrir o comércio é um risco que eu corro: se agravar [o número de mortos] vai cair no meu colo”.
Caiu no teu colo. Sei que é pedir demais a um psicopata de elevado nível como tu mas não custa tentar: assuma que errou. Reconheça que teu descaso pela vida resultou neste elevado número de mortes. Não negue mais a letalidade do coronavírus.
Faça um pronunciamento público se solidarizando com os familiares dos vitimados [as] e peça desculpas a sociedade brasileira pelo genocídio. Pare de procurar culpados e combata o covid-19 com a política correta.
Ainda dá para salvar umas 80.000 vidas ou mais. Mesmo assim, se me ouvir, adotar a política correta a partir de hoje e estancar a pandemia, por uma questão de sinceridade, antecipo que não descansarei em vida enquanto não vê-lo, junto com sua corja toda, definhando atrás das grades pagando pelo genocídio que cometeram nestes 5 meses com a política errada. FOOOOOOOOORA BOLSONARO E SUA CORJA!
Genocídio, foi classificado em 1943 pelo jurista polonês, Raphael Lemkin: “Por genocídio entendemos a destruição de uma nação ou grupo étnico”. É o que está acontecendo entre nós?? (José Ernani Almeida). Veja mais aqui.
Amado pai, cuide da sua criança para ela se tornar um adulto maravilhoso seguindo o caminho do Senhor.
Ser pai é uma grande bênção de Deus. Aqueles que se alegram com a notícia de que serão pais são bem-aventurados pelo Senhor, mas aqueles que negam a missão de pai sofrerão no dia do Juízo Final. A missão de ser pai é dada a todo bom e justo homem que constrói uma família e sabe bem cuidar dela. No entanto, nos últimos anos temos visto os pais relaxarem diante dessa missão. Talvez pelos tempos líquidos que estamos vivendo onde tudo tem que ser descartável e rápido ou pela falta de amor a Deus.
Um verdadeiro pai preocupa-se em educar e instruir os seus filhos no caminho do Senhor. Fica contente de poder levá-los à escola sempre que possível, ajuda-lhes a tirar as dúvidas em relação as coisas ao seu redor, conversa com os filhos sobre as coisas que os perturbam o pensamento e mais ainda reza junto com o filho.
A oração no lar é uma importante atividade para a família ratificar os seus laços com Deus todos os dias.
No entanto, poucas são as famílias, atualmente, que costumam agradecer, na mesa, ao Senhor pelo pão de cada dia, pelo alimento que comem. E quando isso é feito, muito raramente, sempre a iniciativa parte da mãe, ou seja, da mulher. É a mulher quem está administrando o lar nos últimos dias. A ela cabe todas as tarefas domésticas, inclusive o culto familiar ao Senhor. Isso porque muitos pais estão perdendo o hábito de falarem com Deus. Alguns só recorrem ao Senhor em momentos de desespero e dor. O que é errado, pois Deus quer que estejamos com Ele na alegria e na tristeza.
Se há um exemplo a ser seguido de pai no mundo, esse é Deus. Ele é bondoso, misericordioso e tem compaixão dos seus filhos.
Criou-nos à sua semelhança, dotando-nos de inteligência e vontades. Deixou-nos o poder de escolhas entre fazer o bem ou o mal. Está sempre a perdoar o filho que erra, tantas vezes forem necessárias. Ouve os nossos clamores. Mas também nos castiga quando não o escutamos ou achamos que somos superiores a Ele. Deus é um bom pai para a humanidade, principalmente para o que crê nEle. Sigamos os seus ensinamentos na Palavra Sagrada e não cairemos em tentações porque Ele nos ensina a como sermos bons cristãos.
E por falar na Palavra Sagrada também temos visto poucos pais preocuparem-se em ensiná-la a seus filhos, em fazerem a leitura dela em comunhão com a família. O livro da Bíblia Sagrada só serve para decorar a estante. Nunca sai do lugar. Um dia, as traças comerão as suas páginas e ninguém verá. Um livro onde podemos educar os nossos filhos para o exercício do bem no caminho do Senhor, eis o melhor livro de todos os tempos. Sua leitura deveria ser tarefa obrigatória no lar. Mas o pai, chefe da família, prefere assistir ao noticiário na televisão e depois ir dormir para trabalhar no dia seguinte.
O bom pai sabe andar por caminhos bons e praticar a justiça com seus filhos, por isso encontramos a seguinte mensagem em Provérbios 20:7 “O homem justo leva uma vida íntegra; como são felizes os seus filhos!” Aquele que honra o seu trabalho, cuida da sua família com amor e responsabilidade e segue o que diz o Senhor é um homem justo para Deus. Esse certamente trará contentamento para os seus filhos, alegrando-nos diante das suas ações e palavras. Ser justo não só com os de casa, mas com os desconhecidos também.
O bom pai que educa os seus filhos para o caminho do bem e os ajuda a fazerem as lições de casa, logo é um homem justo, também. Mas é preciso aprender em tudo isso a temer a Deus, pois quem o teme mostra sinal de respeito ao nosso criador. Por isso em Provérbios 14:26 encontramos “Aquele que teme o Senhor possui uma fortaleza segura, refúgio para os seus filhos.” Sim, irmãos Deus é o nosso refúgio e salvador.
Alguns lares estão passando por diversos problemas porque os pais não se entendem mais com os filhos, há verdadeiras discussões, brigas, intolerâncias, desrespeito. Porém, aquele pai que se fortalece na Palavra, que ensina aos seus filhos a amarem Deus sob todas as coisas, esse sim estará mostrando a sua fortaleza e um refúgio para os seus filhos quando eles pensarem que nada mais no mundo faz sentido.
Conhecer que Deus é o nosso refúgio no caso dos jovens e adolescentes nesse momento pelo qual passamos da humanidade é de necessidade ímpar. Nossos jovens são vítimas de propagandas midiáticas que levam ao consumismo utópico o dia todo, passam horas no celular e nas redes sociais, não têm mais amigos de verdade, seus mundos são os virtuais. Muitos quando não conhecem o refúgio em Deus, passam a usar drogas, abandonam os estudos, deixam de se amar e descuidam da higiene do corpo e ainda há aqueles que desejam tirar as suas vidas. Tudo isso porque o pai fracassou na sua missão de ensinar o caminho de Deus aos seus filhos.
Aleluia – Deus é o nosso pai.
É preciso educar os filhos desde a tenra idade no caminho de Deus. Levando-os aos domingos à igreja ou templo, como desejarem. Ensinando desde cedo a Palavra de Deus. Sendo exemplos de bondade, esperança, fé e coragem para os nossos filhos. É assim que lemos em Provérbios 22:6 “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles.”
Muitas vezes o pai olha para o seu filhinho a brincar de ser médico e começa a educá-lo pensando em oferecer-lhe uma vida adulta cheia de bens materiais e espirituais para que nunca lhes falte a bonança e a felicidade. Quando lhe perguntam o que será o seu filho responde com altivez a melhor profissão do mundo.
O pai que instruir e educar seu filho com o cuidado que é necessário certamente o verá seguir os seus objetivos traçados lá na infância, porque são espelhos para os filhos. É preciso imaginar junto com a criança. Se ela brinca de ser professor, o pai deve brincar com ela também.
O que me preocupa são aqueles pais que querem impor as suas vontades aos seus filhos arbitrariamente. Quando os mesmos não seguem os seus objetivos nos estudos e escolhem outras profissões, vemos muitos pais desgostosos. Às vezes queremos que o nosso filho seja um astronauta, mas a sua vontade não é a mesma que a nossa e nem tem vocação para isso. Então, precisamos aceitar e respeitar as suas escolhas. Se ele prefere ser um cantor de rock que siga a sua carreira com amor e dedicação desde que não se desvie do caminho de Deus.
Agora quero entrar em uma questão mal compreendida nos dias atuais. O castigo que os pais devem dar aos seus filhos.
Deus não mandou em lugar nenhum na Bíblia Sagrada que uma criancinha apanhasse de vassouradas, palmatórias ou levassem beliscões, puxões de orelhas e ficassem ajoelhadas em cima de caroços de milhos por várias horas. Deus não ensinou isso a ninguém. As palavras encontradas em Provérbios 13:24 nos falam o seguinte “Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo.” Esse castigo que Deus nos chama a atenção é para aqueles pais que os filhos cometem erros e eles passam a mão nas suas cabeças dizendo que está tudo bem, que ele não fez nada de errado. Disso Deus não gosta. Contudo, quando o pai chama a atenção do filho, lhe tira o celular das mãos por algumas semanas, proíbe-o de ir ao shopping por uns dias ou corta a sua mesada por uns tempos esses são exemplos de castigos que Deus gosta e aprova. Deus não incentiva a violência entre pai e filho.
Alguns pais têm gestos que desagradam ao Senhor.
O ato de chamar a atenção do filho em público, humilhá-lo diante dos amigos e familiares não é bom. A criança ou o jovem só ficará com mais raiva ainda. E aquela raiva pode crescer tanto dentro dele que chegará uma hora em que explodirá de alguma forma, razão pela qual temos visto tantos filhos agredirem fisicamente os seus pais. É preciso que o pai chame o garoto num lugar onde os dois estejam a sós e o repreenda com palavras duras, mas ao mesmo tempo afetuosas. Um pai sabe muito bem fazer isso se é com Deus em seu espírito.
E por último, acredito que não menos importante ao Pai é ensinar aos seus filhos a amarem-no e respeitá-lo em todas as ocasiões. Não importa a idade. Mesmo que o filho já tenha completado meio século de vida ele deve respeitar seus pais. Isso é o que encontramos em Êxodo 20:12 “Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Então, é preciso que os filhos amem os seus pais para que possam ter uma vida de sabedoria aqui na terra. A vida longa de que nos fala a Palavra Sagrada é aquela que segue o caminho do Senhor e faz tudo conforme o que Ele pede, assim o bom homem terá a felicidade que se tornará infinita em sua vida, ou seja, longa.
Também deve o pai ensinar aos seus filhos a amarem e honrarem o nosso Deus, pai de todas as coisas da terra. É importante que a criança cresça nos ensinamentos do Senhor, lendo a Bíblia para crianças, assistindo desenhos animados sobre a criação do mundo e a vida de Jesus Cristo. O filho deve honrar nosso grande pai que é Deus.
Que os pais possam refletir sobre os ensinamentos acima mencionados e que passem a se dedicarem mais as suas famílias, não se deixando ser consumido pela exaustão do trabalho sem cessar, pois Deus nos pediu para descansarmos no sétimo dia. Amado pai, cuide da sua criança para ela se tornar um adulto maravilhoso seguindo o caminho do Senhor. Seja um bom pai assim como é Deus para todos nós. Amém!
Sugestão de atividade pedagógica – Ensino Religioso
O texto “O exercício de ser pai segundo Deus” é escrito com base na crença no Deus cristão e assim deve ser lido e interpretado. Nem todas as religiões pensam o Transcendente (Ser Superior) do mesmo jeito, mas independentemente dos nomes e das ideias que se tem dele, a busca é muito parecida nas diferentes religiões ou tradições religiosas.
Questões para aprofundar conhecimentos
Esta atividade pode ser aplicada a turmas do nono ano do Ensino Fundamental, seguindo orientações da Nova BNCC no Componente Curricular Ensino Religioso. Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida. Objeto de Conhecimento: Imanência e transcendência. Habilidades: (EF09ER01RS-01) Definir imanência e transcendência expressas pelas Tradições Religiosas em seus livros sagrados. (EF09ER02RS-01) Propor, com base nos escritos sagrados, soluções cotidianas que contemplem a valorização da vida, o respeito, altruísmo.
Após ler o texto, copiar/destacar uma frase ou um pensamento que mais lhe chamou atenção no texto.
A autora Rosângela Trajano escreve: “Se há um exemplo a ser seguido de pai no mundo, esse é Deus”. Explique, a partir do texto, porque Deus é um modelo de pai a ser seguido.
Que gestos dos pais agradam a Deus, na concepção dos cristãos?
Que gestos dos pais desagradam a Deus, na concepção dos cristãos?
Qual é a orientação sobre o uso da Bíblia que a autora sugere na vida das famílias?
Interprete, dizendo o que entendeu, a letra da música de Gilberto Gil: “O nome de Deus pode ser Oxalá, Jeová, Tupã, Jesus, Maomé. Maomé, Jesus, Tupã, Jeová, Oxalá e tantos mais. Sons diferentes, sim, para sonhos iguais”. Veja mais aqui.
Amor rima com flor e com professor. Francês só rima com freguês, do capitalismo e do consumismo utópico.
Quem ensina a crianças deve saber o quanto elas gostam de nos abraçar e cheirar. Com essa preocupação, sempre fui às minhas aulas o mais bem vestida possível nas escolas que não exigem fardamento, gastei muitas vezes o meu salário quase todo para comprar um perfume francês que tivesse um cheiro agradável e que ficasse fixo no corpo durante várias horas.
Criança gosta de sentir cheiro bom. Aliás, todo mundo gosta.
Pois bem, com o ensino remoto, nada mudou em mim. Continuo me arrumando para dar aulas e o mais engraçado de tudo isso é que uso o meu mais caro e cheiroso perfume antes de começar a dar aula remota. Talvez no meu inconsciente eu pense que os alunos vão sentir meu cheiro e, por isso, devo estar cheirosa e bem arrumada.
Conheço uma amiga que passa o melhor batom nos lábios para dar a sua aula remota. Cada um se reinventa como pode nesse distanciamento social que vivemos, longe dos abraços e cheiros dos nossos alunos.
Tenho um colega professor que coloca gravata e camisa de manga comprida para dar sua aula remota. Ele diz que se sente mais importante com a gravata. É como se ela lhe desse um poder maior diante das câmeras. Na sala de aula, ele tem a lousa para impor o seu poder; no ensino remoto, a gravata. Poder esse não de superioridade ou de se achar o melhor, mas de impor respeito diante dos alunos que estão longe e não sabemos o que estão fazendo.
Durante esses quase cinco meses de aula remota já consumi quatro vidros de perfume francês. Além de lavar bem os cabelos com xampu, secá-los, penteá-los e deixá-los bem arrumados para aparecer no vídeo um pouquinho mais bonita, também tomo um banho de perfume francês para ficar cheirosa. Mamãe vive a me perguntar para que tanto perfume se os alunos não vão me cheirar, se a conexão da internet não transmite ainda o nosso cheiro. Eu fico sem saber o que responder. Só sei dar aulas estando perfumada.
Conheço uma professora que tem uma mania diferente da minha. Cada um do seu jeito, e eu respeito. Ela gosta de calçar belas sandálias para dar aulas remotas, mesmo sem aparecerem nos vídeos. Diz ela que era o costume da sala de aula física. E lá vai de salto alto para frente das câmeras numa elegância que só ela tem.
Os nossos professores são mesmos os melhores do mundo. Não por isso que digo aqui, mas por serem criativos num mundo onde a criatividade está perdendo espaço para o que já está pronto, o que não dá trabalho. Tipo: o material didático para o professor que traz a aula pronta para ser dada. Motivo para outro ensaio literário. Por hoje, quero falar apenas de perfumes, sandálias e criatividade.
Em tempos de pandemia, cada professor do Brasil inteiro, em sua casa, resolveu de um jeito criativo dar a sua aula remota para que o aluno do outro lado da tela não se disperse ou a ache chata.
Sim, porque uma hora de aula remota pode ficar cansativa se o professor não tiver criatividade para fazer com que os seus alunos fiquem sentados de frente para a tela do computador ou smartphone vendo alguém tentar explicar coisas que, para eles, até mesmo pessoalmente, podem ser difíceis de entender. Na aula remota, não há tempo para explicações repetidas.
Neste mundo de perfumes e criatividade, encontrei uma professora amiga minha que me mandou umas fotos das suas belas aulas remotas. Fiquei surpresa! Espantada! Tudo lindo! Vale ressaltar que é uma professora de escola pública, não desmerecendo os professores de escola privada, pois esses podem comprar perfumes franceses. Já os professores de escolas públicas mal podem comprar um batom. Mas essa minha amiga professora é uma artista e tem maquiagem em casa comprada em lojas de importados onde tudo sai pelo preço de R$ 1,99, aqui na minha cidade.
Essa minha amiga já deu aula maquiada de vampiro para uma aula sobre contos de terror, com o rosto maquiado num formato de borboleta, com tranças de algodão enormes na cabeça para falar dos contos de fadas e segurando um guarda-chuva para não se molhar no meio da chuva que caía na sua linda imaginação dentro de casa. Ela me mandou as fotos, as quais salvei no meu celular.
Fiquei deslumbrada com a sua criatividade! Seus alunos amam as suas aulas e alcançaram notas muito boas em suas avaliações. O seu computador ainda é um velho desktop do início do século, que, de vez em quando, trava no meio da aula. Mas ela sabe bem lidar com ele. A sua conexão com a internet é lenta e, às vezes, as suas aulas são interrompidas mesmo no meio da explicação.
O importante nisso tudo é saber reinventar-se. Reinventar é a palavra do momento com o ensino remoto. Descobriram e passaram a valorizar não só o professor de Artes Visuais e Cênicas da escola, mas os professores de todas as disciplinas.
Conheço uma professora de Geografia que desenhou o rostinho de cada aluno seu e colou-o em palitos de churrasco numa mesinha. Fez isso para que, quando a saudade bater, possa ir lá e olhar para eles. Os desenhos são horríveis, mas valeu a sua intenção. Valeu a sua originalidade.
Acredito que cada um de nós, professores, tem o próprio jeito de matar as saudades dos nossos alunos com o distanciamento social devido a essa pandemia.
Voltando aos meus perfumes franceses, eles não são importados, não, viu, gente? São legítimos. E custam os olhos da cara. Vai-se assim embora o meu salário do mês. O que mais sinto falta nos meus alunos nesse ensino remoto é o cheiro no rosto e a seguinte expressão dita com todo o carinho do mundo: “Tia só vive cheirosa.” A tia continua cheirosa mesmo que vocês não consigam sentir o meu cheiro.
Os alunos se espelham nos seus professores, isso é verdade. Sempre gostei de dar aulas com roupas esportivas para incentivar a prática dos esportes nos meus alunos. De repente, eles começaram a me chamar para campeonatos de karatê, futebol de salão e corridas na praia. Eu, com quase metade de um século vivido, não tenho mais fôlego para correr atrás de meninos numa quadra esportiva, apesar de amar os esportes.
O mais interessante é que eles gostam do meu jeito de me vestir. Mas, o perfume francês eles amam muito. Já chegaram a me dizer isto: “Tia, hoje estou cheirosa igual a senhora.” E estava mesmo. Meus olhos encheram de lágrimas porque, num país onde o salário mínimo mal dá para comprar uma cesta básica, como os pais dessas crianças poderão comprar perfumes franceses?
Quem não pode comprar perfume francês compra os da Avon, que são tão cheirosos quanto os meus. Tenho uma amiga que só sente o cheiro de perfume francês quando está perto de mim ou passa de frente a uma loja de perfumes no shopping. Cada um com o seu cheiro. O importante é estar cheiroso diante das câmeras.
Outro dia, brincando com os alunos, eles acharam um furinho no meu sapato e ficaram espantados. Fiz de tudo para esconder deles os furinhos nos meus sapatos e roupas velhinhas que tanto gostavam, mas não teve jeito. Não fizeram nenhum comentário. Ao contrário, sorriram e me mostraram os furinhos dos seus sapatos também. Crianças são mesmo o melhor que há no mundo.
Na minha infância, tive uma professora que cheirava a flores. Era a melhor professora do mundo para mim naquela época! Quando ela ia chegando na escola a gente corria para abraçá-la e cheirá-la. Ela dizia toda sem jeito: “Estou suada, crianças”. Também pudera, já vinha de outra escola num ônibus lotado. Eu me lembro bem do seu cheiro de flores do campo. Talvez eu tenha adquirido esse hábito de dar aulas toda cheirosa dessa professorinha que me ensinou o á-bê-cê com tanto carinho.
Que todos nós, professores e professoras, possamos continuar cheirando a perfumes francês ou a flores. Afinal, amor rima com flor e com professor. Francês só rima com freguês, do capitalismo e do consumismo utópico. Agora vou me perfumar para a minha primeira aula do dia. Bom dia a todos! Boas aulas!
O algoritmo escraviza a massa formada por milhares de profissionais sem qualquer expectativa. São os descartáveis que se submetem, por absoluta falta de opção, a tal situação.
O discurso atual é o mesmo que se apresenta em toda a crise: emprego, só em uma relação próxima da informalidade. É o que está acontecendo. Jovens que, com muita dificuldade conseguiam adiar a entrada no mercado de trabalho para estudar, agora são obrigados a buscar novas alternativas.
Onde elas estão? Em atividades degradantes, na condição de entregadores por aplicativo ou como empregadas domésticas. Aos poucos, estes “empreendedores”, como segmentos da direita insistem em chamar, são empurrados para informalidade.
Hoje, o Brasil tem quase 13 milhões de desempregados. Se somar o contingente daqueles que desejam trabalhar, mas não estão procurando emprego no momento, estamos falando de mais de 30 milhões de brasileiros, segundo o economista e professor da Unicamp, José Dari Krein.
Se isto não bastasse, Paulo Guedes, aposta todas as fichas em uma flexibilização ainda maior da legislação trabalhista. Isto é, nos planos do governo figura até a liberação de contratos por hora, em recolhimento de FGTS nem do INSS. É a precarização total das garantias trabalhistas.
As relações trabalhistas passam por uma total desumanização. Departamento de recursos humanos vai aos poucos desaparecendo. O patrão de carne e osso, idem. Agora, tudo é através de plataformas: Uber, Ifood, Rappi.
O algoritmo escraviza a massa formada por milhares de profissionais sem qualquer expectativa. São os descartáveis que se submetem, por absoluta fata de opção, a tal situação.
Um estudo identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. Segundo a pesquisa, cerca de metade recebia até 520 reais por semana antes da pandemia.
Depois, 71,9% declararam receber até 520 reais, e 83,7% até 650 reais. O relatório ainda acrescenta que as empresas estão promovendo uma redução do valor da hora de trabalho dos entregadores em plena pandemia.
Na visão de muitos, o entregador é um microempresário, empreendedor. Trata-se de sucesso individual, jamais de pobreza. Os entregadores são “parceiros” das plataformas, não são trabalhadores.
Logo, não precisam de nenhuma garantia, nenhuma cobertura ocial. Fazendo jornadas de mais de dez horas diárias eles se enquadram no discurso da “meritocracia”, embora vítimas da exploração mais descarada que os leva a um tratamento caracterizado pela indignidade.
Enir Tormes é professora de educação infantil na rede municipal de Passo Fundo, trabalha com a turma Pré 2, com crianças da faixa-etária de 5 anos, na Emei Sonho Encantado, em Passo Fundo, RS.
Como professora, sempre priorizou a educação da qualidade, onde muitas vezes teve que utilizar de recursos próprios para qualificar sua prática pedagógica, onde investiu muita na profissão, fazendo formações, comprando livros e materiais para poder ofertar aprendizagens significativas junto às crianças.
Sempre gostou de contar histórias e foi aperfeiçoando as técnicas para envolver, ao máximo, as crianças.
Agora, com o isolamento físico e social, a professora Enir continuou se desafiando e buscando mecanismos de continuar aprimorando seu fazer pedagógico. Como forma de manter vínculos com as crianças, mesmo sem conhecimentos técnicos prévios para gravar, editar e postar vídeos, criou um canal no youtube com o nome “Contando e recontando” Prô Enir. Acesse aqui.
A iniciativa vem contribuindo para o desafio de estar interagindo com alunos via espaços virtuais, nos quais a rede Municipal de ensino vem implementando o uso de da plataforma Google Classroom para envio de materiais e aulas às crianças, o que facilita já ter iniciado este processo via rede social, onde a contação de histórias é um excelente recurso.
Conheça Enir Tormes por ela mesma.
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SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que mais te desafia como professora?
Professora Enir:Nestes trintas anos de profissão docente o que mais me desafia e me motiva é poder acompanhar o desenvolvimento desses pequenos seres durante essa etapa de sua vida. É incrível a capacidade de aprendizado das crianças, sua receptividade, seu carinho e sua pureza. Ver o brilho no olhar dos meus alunos a cada nova descoberta, as conquistas diárias e a superação diante das dificuldades me encanta.
Como profissional, o desejo de buscar novos conhecimentos e experiências sempre me levaram a estar sempre renovando minha ação, onde o tempo de profissão nunca foi um limitador, nunca me acomodei!
Vem sendo uma vida dedicada a profissão docente, sempre priorizei a preparação das minhas aulas, a busca de novos conhecimentos, onde muitas vezes a profissão foi colocada como prioridade na minha vida.
SITE NEIPIES: Qual é, na sua visão, a importância de uma educação infantil de qualidade para o desenvolvimento integral das crianças?
Professora Enir:A Educação Infantil é fundamental e essencial porque desenvolve um papel de relevância na formação humana e social da criança.
É nesta fase que a criança desenvolve-se fisicamente, socialmente, cognitivamente e emocionalmente.
A Educação Infantil é fundamental para demais fases do desenvolvimento que irá influenciar no desempenho escolar futuro das nossas crianças, além de cumprir como base para formação da vida adulta, lembrando que estudos apontam que é por volta dos 5 anos que formamos a nossa personalidade.
Aqui cabe um alerta, pois a escola é o primeiro ambiente que os pequenos têm contato fora de casa e onde irão socializar-se de forma mais intensa e frequente, sendo a porta de entrada de descobertas de um novo mundo, os profissionais da educação infantil tem uma grande responsabilidade em suas mãos.
SITE NEIPIES: Conte-nos um pouco do seu amor à profissão, sobre os investimentos que sempre fizeste para dar o melhor que podes para as aulas com as crianças.
Professora Enir:Como falei anteriormente, sempre investi muito tempo e meus recursos financeiros na compra de equipamentos, livros, materiais pedagógicos, o que me chateia, pois abrimos mão muitas vezes de estar com nossas famílias, no exercício de uma profissão que não é valorizada.
Professor no nosso pais é muito mal remunerado, onde pagamos para trabalhar.
Nesta pandemia, estamos tendo que nos reinventar, no entanto, com recursos próprios.
Na faixa-etária que trabalho tenho feito formações especificas, como musicalização, contação de histórias, psicomotricidade para aperfeiçoar meu trabalho, no entanto, com pouca valorização.
Quando falo que fico chateada é porque não é fácil ser professor, não é fácil ter que se reinventar diariamente, onde se quisermos dar uma boa aula temos que ir atrás da formação, livros, jogos e ainda levar para sala de aula todos os equipamentos.
Eu invisto, mas não acho que é justo, temos que ter investimento na educação, formação de qualidade e professores valorizados.
SITE NEIPIES: Quando, como e porquê decidiste criar um canal no yotube para guardar e depois compartilhar as tuas contações de histórias?
Professora Enir:O canal veio com os novos desafios de estar buscando outras formas de interação com as crianças, compartilhar minhas práticas pedagógicas e contribuir com educação de qualidade.
Nas nossas escolas acontecem muitas coisas boas que muitas vezes ficam restritas às salas de aula, com canal no youtube tenho conseguido compartilhar meu trabalho, interagir com as crianças e desafiar outros professores(as) a revelar sua prática.
Meu canal do youtube reflete o meu fazer pedagógico de forma virtual, diante do que é possível, neste momento de pandemia.
SITE NEIPIES: Que projetos tens para o uso da plataforma digital para as aulas remotas e à distância?
Professora Enir:O desafio de fazer o canal do youtube foi me instrumentalizando a utilizar e explorar as ferramentas digitais, o que vai me ajudar a utilizar de forma mais atraente, interessante e lúdica na plataforma, de forma a atender melhor as especificidades da criança pequena.
Por se tratar de crianças pequenas a metodologia e a abordagem é diferenciada, pois quem irá acessar a plataforma e registrar as atividades serão os pais, que muitas vezes, também terão suas limitações quanto ao uso das ferramentas ou a ter acesso aos recursos necessário como internet e/ou computador. Nem sempre os pais irão conseguir acompanhar ou ter paciência ou disposição para orientar e auxiliar nas tarefas.
Quantos aos projetos pretendo trabalhar de forma criativa, humanizadora e participativa, onde estarei disponibilizando minhas histórias, músicas, sequências didáticas e o meu tempo dentro carga horária para auxiliar as famílias na realização das atividades.
Ainda, tenho disponibilizando para colegas professores as atividades que venho postando no canal e na plataforma, estando à disposição para contribuir com este processo.
SITE NEIPIES: Como sua família vê, colabora e avalia o teu trabalho desde o tempo das aulas presenciais e agora à distância?
Professora Enir:Sempre tive minha família ao meu lado, me apoiando e contribuindo. Agora mais ainda na organização de um espaço adequado para as gravações.
Mas a prática diária vai nos dando experiência e conhecimento o que libera a família de algumas tarefas, como por exemplo, filmar, hoje já consigo fazer sozinha.
Confesso que nem sempre é fácil, pois acaba tomando muito tempo da nossa vida, produzir conteúdo, gravar, editar, baixar, divulgar…
Hoje trabalho muito mais que a minha carga horária, o que gera a nossa falta no ambiente familiar.
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos pais e mães de crianças que estão na educação infantil?
Professora Enir:É calma! Você não é não precisa ser professor, na sua casa; sejam pais!
De afeto, interaja e se comunique com seus filhos; aproveite para estarem juntos curtam a infância com eles!
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos colegas professores e professoras?
Professora Enir:Vocês não estão sozinhos, este momento irá nos fortalecer ainda mais, os desafios são para crescermos coletivamente, se permita acreditar que é possível, a tecnologia pode ser uma ótima aliada à nossa prática educacional.
SITE NEIPIES: Como imaginas o futuro da educação no pós pandemia?
Professora Enir: Não será fácil, muitos desafios, pois as dificuldades serão as mesmas, agravadas pela pandemia, mas espero que tudo isso sirva para revermos o que precisa ser mudado, avançar nas possibilidades de interação, que tenhamos mais condições de trabalho, participação das famílias e que a sociedade de o valor a Escola e ao professor!
“Nesse tempo em que estamos em casa, utilizar a internet vai ser o principal recurso de acesso à escola, mas para tudo precisamos ter limites, não podemos sobrecarregar nossas crianças. Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela”. (Professora Graziela Bergonsi Tussi) Leia mais clicando aqui.
Naquela tarde, a floresta voltou a ser como antes. Havia espaço pra todos, pequeninos e gigantes.
Eu sou o Grilo Falante, conheço Pinochio e Geppetto.
Num tornado fui a Oz, caí na toca do coelho.
Quatro perguntas respondo, deitado na minha rede: 1) ─ Quando foi que a Dona Aranha quis escalar a parede? Ninguém me havia explicado, e perguntei pra toda gente: 2) ─ Por que a Dona Aranha era teimosa e desobediente? 3) ─ Que parede era aquela? 4) ─ E por que ela subiu?
Deve haver uma razão. Será que ninguém a viu? Foi meu avô quem contou, catando em sua memória. Da heroína Dona Aranha, guardava o resto da história.
Meu avô disse: “─ Eu sei a história inteira da Aranha. Presenciei, inda menino, a sua grande façanha. Foi num tempo muito antigo, em que os grandes animais dividiram a floresta, cortaram as asas da paz.
A onça-pintada e a jiboia queriam tudo pra elas. Fizeram, com os bichos fortes, grande muro sem janelas. A parte onde tinha frutas, água e som de cachoeiras seria só dos bichos grandes e não era brincadeira. ─ Do lado de cá: só os fortões, do lado de lá: os fraquinhos. Exceto Anta e Preguiça, que ficam com os pequeninhos.
Todo os bichos maiores foram construindo o muro. ─ Assim será para sempre desde agora e no futuro. ─ Do lado de lá vão ficar os grilos e as joaninhas, as formigas, caramujos, beija-flores e andorinhas. ─ Cá com os fortes, queremos carcarás e urubus, tamanduás e suçuaranas, cascavéis e urutus.
E assim tudo foi feito, meu avô tudo foi vendo. Bem no meio da floresta, grande muro foi crescendo. Que ninguém cruzasse o muro, o recado estava dado. Quem fosse desobediente seria bem mastigado.
Todos os bichinhos calaram, por um tempo foi assim. Tornou-se a comida escassa, e a água chegou ao fim.
A Dona Aranha pensou, dialogou com a Preguiça. Floresta é coisa de todos, era, o muro, uma injustiça. Mas a ideia foi da Anta, por todos logo aprovada.
Missão para a Dona Aranha, capaz de grande escalada. Chovia torrencialmente. Jiboia e onça dormindo. Pelo muro construído Dona Aranha foi subindo.
Para subir na parede a chuva foi atrapalho. Dona Aranha era teimosa, não largaria o trabalho. Já no alto do muro, bem executou a ideia. Em cada canto de pedra foi prendendo a sua teia. Embora chovesse forte, desceu trazendo as pontas da teia enorme tecida. O muro era uma afronta.
Depois de trazer as pontas de bem alto até o chão, Aranha, Anta e Preguiça chamaram todos à reunião. Cada animal pequeninho a outro daria a mão. Seguindo Anta e Preguiça fariam um grande cordão. E a teia presa ao muro foi sendo puxada aos poucos. E os grandes do outro lado: ─ Os pequenos estão loucos!
O muro foi derrubado por Grilo e Caracol, por Formiga e Abelha, e então surgiu o sol.
Jiboia e onça, nervosas, se engasgaram na verdade: ─ Como é que Anta e Preguiça tinham alguma qualidade?
Naquela tarde, a floresta voltou a ser como antes. Havia espaço pra todos, pequeninos e gigantes. Seu Sabiá compôs a música, olhando do muro a ruína.
Teimosa e desobediente, foi, a Aranha, uma heroína.
Todos os bichos do mato, cantaram até o fim da tarde. A música da Dona Aranha que hoje todo o mundo sabe: “A Dona Aranha subiu pela parede…”
Aproveitemos, ao máximo, o nosso único e maior palco, sem desperdiçar oportunidades de aprendizagem.
Se você já foi meu aluno, quero saber como você está.
Este foi o texto de um post em uma rede social.
Afinal, as últimas semanas deixaram grande vácuo. Causaram ansiedade e decepção a professores, pois não houve condições de medir e mediar a aprendizagem dos estudantes. À distância, sem trocas, ficou quase impossível saber, medir ou dar sentido às aprendizagens e conhecer resultados pelos esforços empenhados. Aí, parece, o trabalho do professor, agora à distância, perde muito em sentido e valor.
Respondendo ao meu pedido, alguns estudantes se manifestaram dizendo que estavam bem, que estão trabalhando, cuidando da sua família, que tem saudades de minhas aulas instigantes e provocativas para o pensar.
Lembraram que é preciso pensar bem, para viver melhor, como ensinaram os sábios gregos. Disseram também como a filosofia é importante para ajudar a refletir as coisas importantes da vida.
Outros destacaram o Ensino Religioso como uma disciplina que ajudou a cultivar o respeito das diferentes religiões, a partir do conhecimento. Disseram ainda que aprendendo os fundamentos de algumas religiões, fica mais fácil respeitar as religiões diferentes daquelas praticadas por cada um.
Mas o inesperado aconteceu. Um amigo, destes de rede social, comentou: “eu não fui seu aluno, mas todos os dias aprendo bastante com o Senhor aqui. Te considero também meu professor, mesmo nunca tendo frequentado tuas aulas”.
Pois é, edito um site, gravo vídeos e sou bem ativo nas redes sociais. Mas qual é o alcance destas ferramentas para a educação? Será que estes conhecimentos possuem também poder de nos humanizar, de nos tornar seres humanos melhores?
Decidido, voltei à rede social e postei: se você é meu aluno e eu ainda não sei, me avise: quero saber como você está”.
Agora, mais do que nunca, quero saber mais sobre esta ideia de ensinar sem saber que se está ensinando. Quero estar disponível para aqueles que ensino, mesmo sem saber.
Já aprendi que educar vai além da escola, pois ela não é o único lugar de aprendizagens significativas. Educar significa entender que sempre é tempo de aprender e de ensinar e que não há idade e nem espaços físicos ou sociais determinados para as aprendizagens relevantes para vida de todos nós.
Alivia saber que há possibilidades de educar fora das salas de aula, nestes tempos de isolamento físico e social. Salas de aula (presenciais ou virtuais) são importantes na vida dos estudantes e professores e jamais podem ser substituídas porque permitem relação direta, relacional e significativa entre estudantes e professores. Mas, …
Compreender as relações de aprendizagem fora das escolas é importante e necessário.
Vida e palco, escola e passagem se fundem na maior arte que é viver. Mas, quem é ligado à educação sabe que nunca sabemos tudo e sempre haverá muito o que aprender. Somos eternos aprendizes.
Assim já escreveu filósofo e professor Sérgio Sardi: “há muito mais entre o aprender e o ensinar que uma relação direta e linear possa dar conta. Há muito mais que as palavras possam dizer. O gesto unilateral que põe, de um lado, o ensinar e, de outro, o aprender, é míope com relação ao que mais importa: o inusitado, o encontro, o prazer que confere sentido humano ao tempo das nossas vidas”.
Aproveitemos, ao máximo, o nosso único e maior palco, sem desperdiçar oportunidades de aprendizagem.
Esta crônica fará parte do Projeto Flores de Quarentena
O projeto “Flores da Quarentena” surgiu em um encontro virtual da SPV – Sociedade dos Poetas Vivos. A ideia foi proposta pelo escritor e editor Pablo Morenno e formatado com a colaboração do escritor Aleixo da Rosa e demais escritores da SPV. O principal objetivo é motivar os escritores do grupo a escrever e postar uma crônica na página homônima no Facebook. A crônica deveria ter até três mil caracteres e mostrar, real ou metaforicamente, uma flor do cotidiano da pandemia da Covid-19. Além da publicação na página da SPV, os autores dos textos se submeteriam à avaliação crítica do grupo, em reunião virtual. Assim, o projeto transformou-se também em uma oficina literária. É intenção do grupo publicar um livro, a princípio em formato de e-book e, posteriormente, em papel. Os autores que desejarem participar também do livro, que sairá sob o selo Trigais, submeterão os textos aos organizadores da antologia, com nova leitura e discussão de formato e linguagem. O projeto é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a vida na pandemia, um exercício de escrita à luz da intersubjetividade, uma valorização dos escritores e da realidade local, e uma motivação à escrita literária. Por fim, o editor Pablo Morenno pretende disponibilizar o livro em projetos de leitura em escolas, tendo jovens alunos como público-alvo.
Sei e conheço professores bem preparados em Tecnologia Inteligente, que fizeram cursos superiores, mestrado e doutorado nessa área e abraçaram essa profissão. Esta não é a realidade da maioria dos educadores públicos. O governo não sabia disso?
O foco principal destas linhas é o sistema EAD aplicado no ensino público brasileiro, durante a Pandemia do Covid 19, tendo por objetivo uma breve, mas necessária análise sobre as condições, tanto para o aluno, quanto para os educadores de como vem ocorrendo essa nova modalidade de ensino, suas facilidades e suas dificuldades.
Inicialmente, fiz uma contextualização do tema, obtidas em fontes confiáveis, da pouca literatura existente, da minha experiência pessoal em estudos não-presenciais, de diálogos com colegas do CPERS/Sindicato, de conversas diretas com professores/as estaduais do RS e de outros estados da Federação, todos/as envolvidos/as, nessa questão.
O EAD no mundo
O ensino remoto começou em 1728, com um curso por correspondência, em Boston, nos Estados Unidos, criado por um professor, de nome Caleb Phillips, o qual ensinava Taquigrafia (técnica de escrever à mão com rapidez) e que até hoje é usado, principalmente em órgão institucionais como Assembleias Legislativas, Câmara e Senado, para registro das sessões. Os correios e telégrafos eram os distribuidores do material.
Em 1833, a universidade de Lund (Suécia), implantou o curso de Composição por correspondência.
Em 1840, o professor Isaac Pitman, na Inglaterra, criou o curso de Taquigrafia de Passagens Bíblicas, também por correspondência.
Em 1856, surgiu, na Alemanha, um curso de conversação em outras línguas.
No Século XIX, o EAD foi tomando corpo e, visando, principalmente, locais de difícil acesso a pessoas que desejavam estudar, foi se expandindo em outros países como França, antiga União Soviética, Japão, Austrália, Noruega, África do Sul, Argentina, Espanha e muitos outros, além de surgirem novos cursos na Alemanha, Suécia e Estados Unidos.
Dessa forma, pode-se dizer que o EAD tem, hoje, aproximadamente, 292 anos de existência, sendo atualizado com frequência, diante das mudanças tecnológicas que surgiam. No início seu foco eram os cursos profissionalizantes, hoje, ele é encontrado e oferecido a todos os níveis de escolaridade, do ensino fundamental até a pós-graduação.
O EAD no Brasil
O registro mais antigo do EAD, ainda somente como ensino remoto, no Brasil, é de 1904 e se tratava de um curso de datilografia.
Em 1920, iniciaram os cursos via rádio, era a tecnologia daquele momento.
Em 1940, indo até 1950 apareceram os cursos mais formais, da área profissionalizante, “liderados pelo Instituto Monitor”, mais tarde, pelo “Instituto Universal Brasileiro” e, ainda, pela Universidade do Ar, do Senac e do Sesc, que permanecem, até hoje com a modalidade, aperfeiçoada às Tecnologias atuais.
Entre 1960 e 1970 surgiram outros cursos na área de educação, com o objetivo de alfabetização e a inclusão social de adultos.
Em 1970, em Brasília, teve início os primeiros cursos em EAD no terceiro grau.
Nos anos 1990, as universidades brasileiras deram seus primeiros passos de ensino, através da internet publicando e interagindo com os alunos. As iniciativas continuaram ocorrendo, o computador já estava incluído na educação a distância, já formalizada, e, em 1996, o MEC (Ministério da Educação) criou e passou a contar com a Secretaria de Educação a Distância (SEED). A legislação foi elaborada e, atualmente, garante a validade de diplomas dos cursos de EAD.
EAD na escola pública – Durante a pandemia
Para desenvolver esta temática, busquei, inicialmente, na Constituição Federal e na LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -, um caminho que apontasse alguma noção ou orientação legal onde coubesse situações como a que estamos vivenciando, nas escolas públicas, durante a pandemia.
Na Constituição da República Federativa do Brasil (atualizada), encontrei, no Art. 205 – “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”, para que o estudante se desenvolva adequadamente para exercer a cidadania e “sua qualificação para o trabalho”.
No Art. 206 – consta, entre os princípios dos seus direitos, a “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Insta, então, não caberia ao Estado ameaçar com o cancelamento de matrículas, alunos que não conseguiram, até o momento se adequar ao sistema à distância, pois, como diz o Art. 208 – é “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade” e o Parágrafo “VII – atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar” (grifos nossos), ainda transporte (que não é o caso, neste enfoque, porque as aulas não são presenciais), alimentação e assistência à saúde”.
Encontra-se, ainda, na Carta Magna, o “§ 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo (Redação dada pela EC n. 59/2009)”, o que reforça a obrigatoriedade do ensino, como dever do Poder Público. Além disso, a LDB registra atenção aos estudantes da zona rural e suas “peculiaridades”, assim como aos indígenas e quilombolas, no “TÍTULO I – Da Educação – Art. 28 – […] os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades” (grifos nossos) […] e “I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos (grifos nossos)”; “[…] II – organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar […] condições climáticas”.
Vejo ainda, que aqui, nesta Carta de 1988, já constava o sistema EAD, como está homologado no “§ 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais.
Então, para recorrer à sua utilização, durante a pandemia, uma situação emergencial, não deveria haver surpresa. No entanto, quando os Estados decidiram pelo ensino em EAD, não consideram a necessidade de preparação docente, nem discente.
Desconhecendo a realidade e apostando na popularidade do telefone celular, entenderam que comprando uma plataforma virtual, todos estariam aptos a ter a continuidade das aulas, por um sistema, que apesar de antigo na legislação federal, nunca havia sido utilizado, nem sequer preparado, para tal momento, como já estava previsto no Art. 80 – O poder público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1º – A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais […]”.
Nada ou muito pouco desta legislação foi cumprida pelo Poder Público. Não houve a devida preparação dos professores e dos alunos para enfrentarem as dificuldades para o desenvolvimento de um processo educacional desconhecido dos estudantes e trabalhadores/as das escolas públicas. Afinal, para tal tarefa, é preciso ações responsáveis e plenas em organização e orientação segura.
Não se faz uma educação de qualidade com improvisação e sem uma coordenação conhecedora do assunto, pois uma coisa é digitar tarefas e receber respostas; outra é a dedicação dos educadores ao interagir fluida, objetiva e até afetivamente.
Será que o governo pensou nos pais, que repentinamente tiveram que acompanhar os filhos nas tarefas educacionais sem nenhum preparo? Que perderam seus empregos? Neste tempo de medo, estresse, pânico, que são semeados, opressivamente, pelas notícias da cotidianas da pandemia, que já levou muitos colegas de profissão? Pela falta de atenção do Poder Público, em situações pontuais, causados por desajustes salariais e de carreira, entre outros.
Sei e conheço professores bem preparados em Tecnologia Inteligente, que fizeram cursos superiores, mestrado e doutorado nessa área e abraçaram essa profissão. Esta não é a realidade da maioria dos educadores públicos. O governo não sabia disso?
Tenho falado com muitos colegas que se queixam dessa situação e buscam o conhecimento com outros colegas ou com os núcleos do CPERS/Sindicato. Com os alunos e pais é a mesma coisa, só não vê quem não quer.
Gostaria muito de saber como é que os trabalhadores da educação do RS vão ser ressarcidos dos gastos de energia, da compra de um celular, que abarque todas as plataformas exigidas para tal excepcionalidade; que comprou um tablet ou mesmo um notebook para atender os alunos; que contratou uma empresa provedora de internet, no mínimo estável, para que as aulas consigam ser completadas. E quais são as providências tomadas em relação à zona rural, indígena e quilombolas?
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília DF. Senado da República, 1988, atualizada em 2018.
BRASIL. LDB: Lei de diretrizes e bases da educação nacional. – 2. ed. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2018. 58 p.
BRASIL. Secretaria de Educação a Distância (SEED). Brasília, MEC – Ministério da Educação.
A mulher negra precisa de mais políticas públicas para alcançar os seus sonhos. Tornar-se reconhecida pelos seus méritos. Poder usar o seu cabelo do jeito que quiser, poder vestir-se do jeito que achar melhor e poder exercer a religião que desejar.
A mulher negra da América Latina é submissa a mulher branca e ao patriarcado ornamentado por um poder de impor regras e condições ao exercício de ser mulher. Geralmente, prefere o batom da mulher branca porque a mulher branca faz propaganda com aquele batom e fica mais bonita com ele.
Para chegar a algum lugar, ela precisa aprender a falar como uma mulher branca, vestir-se como uma mulher branca e pintar a sua alma de branca. Onde quer que vá ela terá sempre a sua frente os costumes e culturas da mulher branca prontos para oprimi-la e descaracterizá-la frente aos seus anseios e vontades.
Essa opressão ocorre nos mais diversos âmbitos da sociedade o que traz uma negação da mulher negra a si própria aceitando o que vem de fora, o que a aflige e, principalmente, o que a submete aos mais diversos desfloresceres da sua alma.
Atualmente, temos visto um movimento dessas mulheres negras no combate a submissão aos costumes da mulher branca, mas ainda é tímido e pouco aceito pela sociedade preconceituosa que ajuda a oprimir cada vez mais essas mulheres seja negando-lhes o direito de buscar o reconhecimento como profissionais valorizadas no mercado de trabalho ou seja como inferiorizando a mulher que vem da favela à procura de novos conhecimentos acadêmicos para instruir-se e conhecer os seus direitos.
Mulher negra não pode ser juíza, advogada, médica, modelo ou até mesmo professora de escola privada. Ela será sempre a negrinha da cozinha como nos tempos das senzalas e dos casarões dos ricos fazendeiros.
O que buscamos nesse ensaio é mostrar que a mulher negra da América Latina tem buscado superar essa opressão apesar da luta ainda ser por demais grande e não ser reconhecida nas esferas político-econômica-sociais dos seus países. Vou deter-me ao Brasil. E mais precisamente ao caso da mulher negra que ficou conhecida no mundo inteiro após o seu frio assassinato, a nossa querida Mariele Franco. Mulher negra, da favela, socióloga que estudou e tornou-se pelo voto popular uma das vereadoras mais votadas do estado do Rio de Janeiro.
A vereadora Mariele Franco tinha um trabalho bonito na sua comunidade e lutava para acabar com a opressão da polícia militar em relação aos pobres e negros das favelas cariocas. Não se sabe o motivo da sua morte. Mas, podemos afirmar que ela era uma mulher negra que incomodava muitas instâncias da sociedade brasileira. Por ser negra não devia estar entre os vereadores de maioria brancos e ricos.
Ela lutava por uma população subalterna à cultura dos brancos que não pode fazer uma festa na laje, ouvir um rap ou sonhar com uma vaga numa universidade pública. Mariele lutava principalmente pelas famílias que tinham seus filhos mortos pela polícia militar nas favelas cariocas. A sua favela, a da Maré, é uma das mais oprimidas do país. O seu trabalho deveras mexia com os costumes dos brancos que nunca precisaram dá explicações do que fazem ou deixam de fazer a um negro, e mais ainda, a uma mulher negra.
Segundo Böschemeier a branquitude impõe a sua voz como um privilégio diante do que afirmamos acima onde a mulher negra silencia-se diante da branca por sentir-se inferior
Assim, estou salientando o fato de que não existe branquitude em si mesma, mas sim há a manifestação social do que é entendido como “ser branco” e que se expressa nas dimensões étnico-raciais — não se restringindo ao aspecto fenotípico — , marcando o lugar ao qual pertencem os privilégios do ser, do dizer, do ocupar, do existir em um mundo que é estruturalmente racista e colonial.[1]
Essa fala do “sou branca” cai numa dimensão preconceituosa e arbitrária diante da mulher negra impondo-lhe obediência e servidão no que diz respeito aos costumes e culturas da sua sociedade. Coloca a mulher negra numa posição de desconforto e submete-a as mais desoladoras ofensas desrespeitando a sua dignidade enquanto cidadã e mulher. Traz uma branquitude opressora e desarrazoada em relação às diferenças que se colocam diante da mulher negra.
Quando do assassinato da vereadora Mariele Franco, muitas pessoas choraram, no entanto a maioria da sociedade brasileira sorriu e debochou do pranto de quem chorava por aquela mulher negra que tanto incomodava, a maior parte das pessoas que fizeram comentários ofensivos nas redes sociais sobre Mariele Franco; esses são homens e mulheres brancas que se sentiam incomodados com os seus projetos sociais voltados para os negros das favelas.
Assim como Mariele conseguiu uma formação acadêmica e o reconhecimento de parte da sociedade carioca que nela votou para vereadora, muitas mulheres negras lutam para alcançar o sonho simples de aprender a ler e a escrever. A maior taxa de analfabetos brasileiros encontra-se na população negra e moradora de favelas.
As jovens negras das favelas brasileiras não têm o direito resguardado de serem princesas num mundo onde essas devem ter olhos azuis, pele branca e cabelos louros. É um sonho que se sonha só, logo não será realizado.
Nas profundezas da caverna, encontramos uma luz no fim do túnel com mulheres como Conceição Evaristo que vêm se destacando num mercado elitizado que é o da literatura. Explicar o motivo por que Conceição Evaristo não foi aceita ano passado na Academia de Letras Brasileira é um mistério, não temos o que dizer. Todos sabem que a sua escrita simboliza a luta da mulher negra no mundo inteiro e independente de ser negra ou não escreve maravilhosamente bem, como indicam as vendas dos seus livros.
Também vemos com muito esforço e pouca divulgação algumas fábricas que produzem bonecas negras para crianças brancas. Bonecas essas que dificilmente serão o brinquedo de uma criança branca que desde cedo aprende a ignorar e menosprezar a criança negra que se senta ao seu lado na escola.
A mulher negra da favela só se torna uma princesa quando é descoberta por algum empresário do mercado da moda que trata de levá-la imediatamente para fora do país e submete-a aos mais diversos costumes europeus para adaptar-se à passarela da moda como as demais modelos brancas. Essa mulher passa a andar, vestir-se e falar como se fosse uma mulher branca. A cor da sua pele é o que chama a atenção na passarela, ela não é bonita pelas suas qualidades, mas pela cor da pele que raramente se destaca no mercado da moda. A cor da sua pele é que diz o valor do contrato. Raras são as modelos negras brasileiras. A mais famosa modelo brasileira é uma branca de olhos azuis que todos nós a conhecemos.
Apesar de sermos um país constituído na sua maior parte de mulheres negras, são as mulheres brancas que alcançam os maiores salários nas passarelas europeias. Diferente do que acontece no relato de Böschemeier, que diz ser bem tratada na universidade onde leciona, apesar de considerar-se uma branca mestiça de origem rural
A branquitude está ali, é lida no meu fenótipo e na minha maneira de usar o corpo, me permitindo falar com mais legitimidade, me alimentando de cortesias, gentilezas e amabilidades que não existem para todo mundo. Me permitindo circular em diversos âmbitos não importando tanto as roupas que eu vista, sem ser questionada — ou sendo infinitamente menos questionada — na maior parte dos territórios sociais que marcam esta sociedade desta América Latina racista e colonial. Devo dizer que ser uma mulher latino-americana nesse mundo não é pertencer a um lugar fácil — e é na luta por essa dignidade que eu me reconheço.[2]
Na verdade, o que relata Böschemeier é uma exceção à parte num local onde a maioria das mulheres brancas são aprovadas e vão estudar. Porém, ela ressalta que esse jeito cortês das mulheres brancas se dirigirem a ela não é dedicado a todo mundo. Apesar de sentir-se bem recebida na sua universidade, a autora ratifica o quanto é difícil ser uma mulher latino-americana, ou seja, a maioria dessas mulheres são negras ou pardas. Logo passam por constrangimentos e situações de opressão e submissão das suas vontades, desejos e pensamentos.
O que pode querer uma mulher negra moradora de uma favela além de ser dona de casa ou empregada doméstica? Muitos quereres carregam essa mulher. Alguns nunca serão conquistados e outros quem sabe com muita luta possam ser alcançados com a sua coragem e força de vontade. Falei acima do exemplo de Mariele Franco, mas agora detenho-me a falar de uma mulher negra anônima na sociedade norte-rio-grandense que veio das favelas cariocas para a cidade do Natal e casou-se com uma mulher branca.
Durante muitos anos da sua vida, foi submetida aos costumes e cultura da sua mulher, as suas vontades e quereres. Nunca buscou seus sonhos que eram muitos porque achava que ser casada com uma mulher branca já era muita coisa para ela. Essa mulher negra sempre gostou de fazer continhas. De repente, ela cismou de cursar matemática numa universidade pública e estudou para conquistar uma vaga. Foi aprovada em primeiro lugar no curso de matemática e alegre foi para a sala de aula. No seu segundo dia de aula, fez uma pergunta ao professor branco e de olhos azuis que a olhou de cima abaixo e disse-lhe mais ou menos o seguinte: matemática não foi feita para mulheres, muito menos para negras. Sem saber o que dizer essa mulher a quem procuro chamá-la de X silenciou-se diante da opressão do seu professor. Mas não desistiu do seu curso.
Seguiu em frente, formou-se e foi a laureada da turma. Achou pouco? Achou! Resolveu cursar direito e também foi aprovada na universidade pública. Vale salientar que na época do seu processo não havia cotas para negros. Ela enfrentou ampla concorrência. No curso de direito a mulher negra X se viu sozinha em meio aos seus colegas de classe ricos e brancos. Não se rendeu a opressão da sua turma. Estudou muito e finalizou seu curso. Hoje essa mulher X é uma brilhante advogada, tem a sua bela casa e vive bem num dos melhores bairros da nossa capital. Ela podia ter se deixado submeter-se as dificuldades que a vida lhe impôs, mas foi à luta e chegou onde queria. Sabemos que essa é uma história muito rara, porque poucas mulheres negras têm a mesma coragem e oportunidades da mulher X. Assim como poucas mulheres negras teriam a coragem de Mariele Franco. Muitas preferem a vidinha sem sonhos vista pela janela do metrô cheio cansadas de um dia de trabalho na casa dos patrões brancos.
A mulher negra precisa de mais políticas públicas para alcançar os seus sonhos. Tornar-se reconhecida pelos seus méritos.
Poder usar o seu cabelo do jeito que quiser, poder vestir-se do jeito que achar melhor e poder exercer a religião que desejar. Para isso, faz-se necessário um grande esforço por parte de cada uma de nós, mulheres negras, que somos vítimas dos mais atrozes preconceitos da sociedade branca. É possível que existam outras Marieles nas favelas do nosso país esperando uma oportunidade de dá o seu grito de luta e negação da opressão.
É possível que existam outras Conceição Evaristo que escrevem bem e podem sim conquistar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. É possível que existam outras mulheres iguais a mulher X que citei como exemplo mais próximo de mim e possam realizar os seus sonhos de chegarem a uma universidade pública.
As portas estão se abrindo aos poucos, conquista de parte das mulheres negras que rebelaram-se contra essa sociedade machista e opressora que só visa o melhor para si própria.
Essa cultura opressora do branco em relação ao negro tem sido estudada mais intensamente nos dias atuais e agora a desconstruímos com a expressão “decolonial”, em que o eurocentrismo perde seu espaço. A decolonização visa à superação das verdades trazidas pelo eurocentrismo e atribui ao negro uma causa maior de expressões e valores humanos, respeitando a cultura dele. O “decolonial” dá ao negro um espaço nunca antes visto, possível de rebelar-se diante de toda a opressão que lhe é atribuída.
A mulher negra, como já foi dito acima, aos poucos vai buscando o seu lugar no mundo. É uma batalha difícil, mas que nunca deve ser deixada para trás. Os obstáculos são enormes. Vencer a superioridade da cultura da mulher europeia branca é um desafio. Devemos começar impondo a história dos nossos antepassados e mostrando que somos mulheres de lutas e corajosas.
O pensamento decolonial amplia a voz da mulher negra na esfera sociocultural onde ela pode expressar os seus sentimentos e vontades sem medo de ser oprimida. Achamos mais uma luz dentro da caverna. É um pensamento que atribui a mulher negra condições de ratificar a sua cultura e costumes dentro de uma sociedade branca que não a enxerga como parte da sua história.
Entendemos também o patriarcado como figura presente nas famílias dessas mulheres brancas que impõem padrões de respeito apenas às pessoas da sua sociedade e da mesma posição social em que se encontram.
O patriarcado demarca o preconceito machista em relação a obediência das mulheres às suas necessidades, promovendo através da sua branquitude a separação étnico-racial das mulheres brancas das negras. São condutas comportamentais que devem ser excluídas do nosso pensamento e da nossa sociedade uma vez que o machismo está perdendo forças diante da nossa luta. A hegemonia que esse patriarcado efetiva objetivando o seu poder frente a dominação mundial faz o ser mulher um território a ser explorado, conforme
Precisamos nos explicar por que tanta violência contra nossos corpos, para saber que não é porque somos morenas, ou por causa das formas e tamanho de nossos corpos, ou pelo idioma que falamos, ou pelos costumes e
culturas que temos. Não somos burros desde o nascimento, não somos sujos, não somos feios. O que aconteceu é que foi imposto um sistema hegemônico que reforçou a discriminação e opressão contra nós, violência que até recebemos de nossos próprios irmãos indígenas. Para nós, a categoria junção patriarcal deixa clara as combinações, alianças, cumplicidades entre homens invasores colonizadores e indígenas originários de nossos povos. Uma articulação desigual entre os homens, mas articulação cúmplice contra as mulheres, que conspiram nova realidade patriarcal que é a que vivemos até hoje. Com dor entendemos que nossos avós traiu nossas avós e até hoje nossos jilatas ou os irmãos também se tornam cúmplices no patriarcado e traem nossas lutas como comunidades e como povos, dos quais as mulheres são metade. (Tradução livre)[3]
Parece que a mulher e mais precisamente a mulher negra não deve sair da sua morada para alcançar novos caminhos segundo a visão que se encontra no patriarcado que a veste com uma roupagem suja e feia aos olhos da sociedade branca. A branquitude dita as vestes da mulher negra sejam elas as do pensar enquanto reflexo de movimentos e revoluções que buscam o reconhecimento da cor da sua pele e do seu pensamento.
O patriarcado acaba desconstruindo a mulher no que ela tem de mais bonito que é o seu corpo, para deixá-la vestida até os pés e sem o direito de expor as suas ideias e contrapontos diante de um machismo que só verbera preconceito e negligência no que diz respeito ao reconhecimento do lugar da mulher, sim, da mulher negra mais precisamente.
Pintemos a América Latina com a nossa negritude, afinal, na noite o brilho das estrelas torna-se mais belo. Sejamos estrelas para um mundo sem opressão. Sejamos uma aquarela à janela da policromia.
Bibliografia
ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato.
PAREDES, Julieta. El feminismocomunitario: la creación de un pensamiento próprio: Community feminism: the creation of one’s own thinking. Corpus Archivos virtuales de la alteridad americana. Vol. 7, No 1 | 2017, Enero / Junio 2017.
Mulher negra nordestina catadora de caranguejos
Mulher negra tristonha
A menina dos fósforos negra Inspirada no conto de fadas de Hans Christian Andersen
[1] ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato, pág. 01.
[2] ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato, pág. 08.
[3] PAREDES, Julieta. El feminismocomunitario: la creación de un pensamiento próprio: Community feminism: the creation of one’s own thinking. Corpus Archivos virtuales de la alteridad americana. Vol. 7, No 1 | 2017, Enero / Junio 2017, pág. 07.