Belchior e a escola

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Quando olho para mim e para meus colegas professores, percebo que sucumbimos a algo bem maior do que nós. Mas, ao mesmo tempo, percebo o quanto ainda queremos reagir e lutar de verdade pela educação, pela nossa própria existência e pela nossa humanidade.

Por isso, cuidado, meu bem: há perigo na esquina…

O saudoso e fantástico cantor e compositor Belchior alertava, em uma de suas mais belas canções, para termos cuidado, pois o perigo estava sempre à espreita, talvez ali, na esquina.

A música “Como Nossos Pais” fala de uma geração que sonhou com mudanças, acreditou na possibilidade de transformar o mundo, mas que, aos poucos, percebeu-se presa às mesmas estruturas que antes criticava.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=206l2dJTECg

A profissão de professor sempre foi uma atividade difícil e, desde sempre, apresentou seus desafios, suas utopias e seus perigos. Gerenciar dezenas de turmas abarrotadas de alunos em um ambiente caótico, no qual se transformou a escola pública, sempre foi algo desafiador e, sem exageros, perigoso.

Mas nunca foi tão problemático e perigoso como é nos nossos dias.

O que vou falar aqui, creio, seja a realidade da maioria dos professores. Ao menos é a minha realidade.

Todo dia, quando um professor sai de sua casa em direção à escola, ele precisa ligar todas as luzes de alerta. Não existe mais a possibilidade de chegar a uma escola, não importa onde ela esteja localizada, pensando que tudo será perfeito, que todos os alunos vão ouvi-lo, que a hora do recreio será um momento de confraternização e regozijo e que tudo acontecerá como foi descrito em nossas formações iniciais.

O professor lida hoje com uma gama variada de problemas e situações para as quais ele não está preparado — e talvez nunca esteja —, pois algumas coisas simplesmente não deveriam fazer parte de um ambiente escolar que se diz transformador e humanizador.

A qualquer momento, podemos ter um problema grave com um aluno, com um colega, com a direção ou com um pai irritado. Em uma manhã ou tarde que deveria ser tranquila, pode surgir um episódio capaz de mudar completamente a carreira e a história de um professor ou professora.

Soma-se a isso as ameaças externas, como, por exemplo, um vereador que entra na escola para fiscalizar se não estamos “doutrinando”; as ameaças do chamado movimento Escola Sem Partido; ou, ainda mais grave, as agressões físicas e psicológicas contra os profissionais da educação. Há também o risco extremo de um criminoso qualquer entrar na escola para atirar contra professores, funcionários e alunos.

Vejam que eu nem falei da falta de apoio e suporte das secretarias, dos baixos salários ou da falta de estrutura das escolas. De tantos problemas novos, os velhos parecem perder parte de seu grau de gravidade.

O projeto neoliberal para a educação é mesquinho e desumano com todos, inclusive com os alunos e famílias que dependem da educação pública e que se iludem com as peças midiáticas e com os discursos de que temos uma escola de qualidade e de que somos, de fato, uma cidade educadora.

Tudo não passa de um projeto de promoção política e pessoal, no qual milhares de professores, estudantes e famílias pagam a conta para que alguns poucos se refestelem em congressos promovidos por empresas privadas de educação, que desejam apenas o dinheiro público para bancar seus interesses pessoais e corporativos.

Quero encerrar minha reflexão com uma parte da música de Belchior que é muito significativa para mim, como professor e como líder sindical que fui. Ela diz o seguinte:

“Minha dor é perceber que, apesar de tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos…”

Quando olho para mim e para meus colegas professores, percebo que sucumbimos a algo bem maior do que nós. Mas, ao mesmo tempo, percebo o quanto ainda queremos reagir e lutar de verdade pela educação, pela nossa própria existência e pela nossa humanidade.

Leia também: www.neipies.com/professores-sob-ataque-o-silencio-do-poder-e-o-colapso-da-escola/

Autor: Professor Doutor Eduardo Albuquerque.

Lançamento de seu livro “É para copiar”, nov/2016.

Edição: A. R.

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