Repercutimos matéria do Jornal Correio do Povo que relata importante experiência desenvolvida junto aos agressores homens, visando sua reeducação, como forma de evitar reincidência de violência contra as mulheres. Iniciativas de reeducação vêm sendo implementadas, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais.
(Por Leticia Pasuch e Lúcia Haggström)
“Da lista, são duas Paulas, duas Marines e duas Gislaines. Onze delas tinham menos de três décadas de vida. Outras três tinham os 30 anos completos. Três também dividiam a mesma idade, 24. A mais nova tinha apenas 15 anos. Já a mais velha, 77. Seis décadas a separaram, mas o feminicídio não escolhe faixa etária.
As 42 mulheres brutalmente assassinadas até o dia 26 de junho deste ano, que entraram para a estatística no Rio Grande do Sul, mudam de nome, idade e profissão. Em praticamente todos esses casos, o principal suspeito é o companheiro ou ex-companheiro da vítima, que não aceitava o fim do relacionamento.
Na maioria das ocasiões, não havia medida protetiva de urgência, mas os homens já tinham apresentado comportamentos abusivos. Em outros, até havia, mas a determinação não foi respeitada. As maneiras dessas vidas serem tiradas também apresentam um padrão. Em muitos casos, são com facadas ou com armas de fogo, com objetos ou com estrangulamento – todos, sem exceção, com crueldade.
Uma das vítimas era bombeira civil. Outra, servidora municipal. Ainda, uma era ex-vereadora e diretora de secretaria estadual. Uma delas teve sua vida tirada dentro da própria casa. Dentro de casa, também, uma filha presenciou sua mãe ser assassinada. Outra mãe foi encontrada sem vida em uma plantação de soja. Deixou um filho, cuja idade ainda não enchia uma mão.
No ano em que se comemora o 20º aniversário da Lei Maria da Penha, mais de seis mulheres morrem a cada mês só por serem mulheres no Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado. A prática, que antes era uma qualificadora do crime de homicídio, desde o ano passado é considerada crime autônomo, podendo a pena ser aumentada caso a vítima seja gestante ou puérpera.
AUMENTO DE CASOS APESAR DO AUMENTO DA PENA
Na prática, a mudança permitiu a criação de estatísticas mais precisas sobre ocorrências dessa natureza, além, é claro, de aumentar as penas para quem as pratica. No entanto, só nos primeiros seis meses deste ano o número de casos já ultrapassou 50% dos 80 registrados em todo o ano anterior.
Para Elizabeth Mazeron, psicóloga e socióloga que estuda violência há mais de 10 anos, os números ajudam a entender que medidas repressivas sozinhas não ajudam a resolver o problema. “Não adianta simplesmente prender esse sujeito, tem que fazer um trabalho com ele para que possa recuperar o sentimento de que pertence a um espaço, de que ele não precisa controlar tudo e agredir para garantir sua condição de homem”, afirma. Em nível nacional, mais da metade dos homens que cometem algum tipo de violência de gênero volta ao sistema prisional por crimes relacionados à Lei Maria da Penha.
Conforme a juíza do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Foro Central I de Porto Alegre, Madgéli Frantz Machado, o feminicídio é um crime complexo e, por isso, o combate às ocorrências não pode ser tratado apenas com aumento de pena.
“Todo mundo quer ouvir que, porque aumentou a pena, e agora é a maior prevista no Código Penal, ajudou a diminuir os casos. Mas, em qualquer lugar do mundo, é verificado que somente aumentar a pena não vai erradicar as ocorrências”, explica a magistrada, que é responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS).

Juíza responsável pelo 2º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Madgéli Frantz Machado | Foto: Alina Souza
A juíza defende que iniciativas de reeducação sejam mais eficientes, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais. Dentro do juizado, é desenvolvida uma série de ações que preveem o apoio às vítimas e, também, os Grupos Reflexivos de Gênero, direcionados a homens que queiram participar voluntariamente ou por determinação para quem é alvo de medida protetiva ou que responde por ocorrência relacionada à Maria da Penha. Esses grupos promovem debates sobre os direitos das mulheres e os papéis de gênero dentro de uma sociedade saudável desde 2011.
FENÔMENO CULTURAL
Os casos de feminicídio deste ano percorreram todas as macrorregiões do Rio Grande do Sul: Metropolitana, Serra, Vale do Taquari e do Rio Pardo, Fronteira-Oeste, Campanha, Sul, Litoral, Noroeste e Norte. Embora tenham ocorrido em endereços, famílias e histórias distintas, e sob circunstâncias aparentemente particulares, carregam semelhanças impossíveis de desassociar: um mesmo roteiro de ciclo de violência, que envolve a escalada de diferentes insultos, ameaças, abusos e agressões.
Mesmo que sociólogos e profissionais da saúde entendam o feminicídio e as violências de gênero como fenômeno cultural, diferente de outras agressões e homicídios, a previsão legal de pena não é específica quando se trata da ressocialização de pessoas que respondem por crimes que tenham perspectiva de gênero.
A violência doméstica é classificada pelos especialistas como o tipo mais persistente da história e de difícil combate, já que, por séculos, foi sustentada por um sistema que naturaliza a submissão feminina.
Para a psicóloga e socióloga Elizabeth Mazeron, os avanços culturais que questionam essa lógica são recentes, assim como o estabelecimento de direitos específicos dessa população. “Até a década de 1970, no Brasil, ainda existia a previsão da legítima defesa da honra. Quer dizer, a mulher era tida como uma propriedade do homem, a quem ele podia dispor como quisesse. Se ela não obedecesse, ele podia matá-la e ter uma pena abrandada.” Apesar de a maioria dos feminicídios deste ano ter sido cometida por homens, em um deles a vítima foi morta pela ex-namorada, que também não aceitou o término do relacionamento.
Na contramão dos avanços legais, atualmente têm ganhado proeminência movimentos que reforçam estereótipos de gênero. Na avaliação da socióloga, esses comportamentos são resultado de uma nova configuração social que questiona o que antigamente era estabelecido como a identidade masculina. “É quase como se o homem estivesse tentando encontrar seu lugar de novo na sociedade. Quando o poder de um lado é ameaçado, a tendência é que haja reação, mas isso é sempre uma tensão cultural. Não dá nem para supor isso como uma coisa biológica.”
ESCALADA DE VIOLÊNCIA
Conforme um levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), levando-se em consideração os 80 casos de feminicídio registrados em 2025, em 75% das ocorrências não havia sequer um boletim de ocorrência registrado contra o autor. Deste mesmo montante, 95% não tinham medidas protetivas de urgência ativas no momento do crime. Esses números passam a impressão equivocada de que essas mulheres são vítimas de um descontrole repentino.
Na maioria esmagadora dos casos, antes de ocorrer uma agressão física, já são identificados comportamentos nocivos relativos à violência verbal, ciúmes excessivo, controle financeiro, patrimonial e a contenção de liberdades, como a socialização com determinadas pessoas, o monitoramento da localização da mulher, entre outras formas de controle que são normalizadas e, em alguns casos, podem escalar para outras violências, como ameaças e abuso sexual.
“A questão de controle é uma situação complicada e podemos identificar que fica mais difícil ainda no Interior, em zonas rurais. Às vezes, a distância também dificulta a esses órgãos [de proteção]”, destaca Bibiana Veríssimo, dirigente do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública do Estado (DPE-RS).
A legislação define como estupro a satisfação da lascívia sem o consentimento do outro. A partir dessa definição, uma em cada quatro mulheres que estão em um relacionamento relata já ter se sentido forçada a ter relação sexual. Levantamentos realizados em diferentes regiões do Brasil dão conta de que mais de 80% dos homens não percebem essa prática como violência quando não há emprego de ameaça direta.
Muitas vítimas, além de sofrerem violências simbólicas por parte dos seus companheiros, ainda enfrentam o julgamento social ao tomar medidas a respeito dos abusos que sofrem. Foi o caso de A.S., que tinha 23 anos quando conheceu J.C.F., de 22. Ao longo do relacionamento, ela começou a notar comportamentos mais agressivos por parte dele, geralmente relacionados ao consumo de álcool. Após idas e vindas, ela tomou providências legais. Foi acolhida pelo Projeto Borboleta, iniciativa idealizada pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJRS.
“Tem gente que fala ‘tu não apanhou’. Eu posso não ter apanhado fisicamente, mas com as palavras, com uma batida forte na porta. Ou quando abria uma cerveja. Ele não é alcoólatra, mas aquilo me remetia a alguma coisa ruim. Quando ele bebia, principalmente com a família dele, ficava totalmente diferente”, relata a mulher, que chegou a solicitar medida protetiva contra o marido.
Ela conta que foi criticada por ter recorrido à rede de proteção naquele caso, mesmo que vivesse em situação de violência psicológica.
Para a socióloga, essa invisibilização é parte de um sistema que permite que essas violências não só se perpetuem, mas escalem. “O que a gente vê são feminicídios que sempre acontecem depois de outras violências. Essa ideia da explosão não cola. Mais que isso, a violência está acontecendo dentro de casa e todas as pessoas que estão no entorno percebem que existe alguma coisa errada. Mas vai sendo naturalizado”, explica. Ela destaca, inclusive, que esses comportamentos podem, muitas vezes, ser entendidos como demonstração de afeto tanto pela vítima como pelas pessoas que convivem com ela.
No exemplo do casal citado anteriormente, a medida protetiva foi expedida contra J.C.F. em 2018. Na época, a Justiça determinou que ele participasse dos grupos reflexivos. Ele conta que, durante o ano em que frequentou, aprendeu sobre leis de proteção às mulheres e teve a oportunidade de repensar comportamentos junto com outros homens, sendo alguns detidos e respondendo por violências físicas contra mulheres.
MUDANÇA DE CULTURA
A juíza Madgéli reforça que a cultura do machismo enraizada na sociedade é como uma “prestação de contas” para os outros homens. Portanto, todos eles acabam sendo pressionados por ela. “Qualquer violência contra a mulher, ele pratica porque está pressionado por uma cultura para agir assim, para os iguais dele, no grupo do churrasco e do futebol, com os amigos do WhatsApp. É a questão do pertencimento. Para pertencer aos ‘machos’, ele tem que agir assim. Se não agir, está fora.”
Especialistas defendem que o caminho para que isso seja desconstruído entre os homens – e na sociedade em geral – envolve trabalhar com a prevenção e com a mudança da cultura. “A gente tem visto no Brasil que o simples fato do recrudescimento da legislação não é suficiente. O que realmente muda algo é a prevenção, a cultura”, destaca Bibiana Veríssimo.
Os grupos reflexivos de gênero podem não só reduzir essa reincidência, mas servir como disparadores desta mudança, defende Aline Vettorazzi, psicóloga e coordenadora técnica Projeto Borboleta, que abrange os Grupos Reflexivos de Gênero no TJRS. O espaço é para ser de escuta e reflexão, e para que os agressores entendam seus atos, se responsabilizem e, assim, possam mudar suas condutas, na direção de quebrar o ciclo de violência.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza
Mas os homens resistem a participar dos grupos de reflexão. “A ideia é, justamente, que a gente consiga trabalhar essa resistência, para ele entender por que foi chamado”, complementa. Ela lembrou que, no ano passado, quatro homens procuraram os grupos voluntariamente, o que é uma exceção, e, por isso, ainda há a necessidade de que exista determinação legal.
A participação dos homens pode ser determinada pelo juiz ou juíza em diferentes momentos do processo judicial, como na medida protetiva de urgência, na condição para concessão de liberdade ou na condenação criminal. Neste caso, pode entrar como pena substitutiva, como condição de suspensão condicional de pena ou durante a execução da pena. Além disso, a participação pode ser considerada favoravelmente na aplicação da pena. No Rio Grande do Sul, são 64 comarcas que contam com Grupos Reflexivos, segundo dados do TJRS.
Após a conclusão dos encontros, o Judiciário acompanha por dois anos a situação, para verificar a reincidência do participante. A juíza Madgéli aponta que o índice de reincidência da violência doméstica entre os homens participantes é de aproximadamente 7%. Apesar de não haver dados recentes sobre a reincidência entre não participantes dos grupos no Rio Grande do Sul, levantamentos realizados em estados como Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso do Sul revelam que cerca de 80% dos homens voltam ao sistema prisional por ocorrências relacionadas à Lei Maria da Penha.
As reuniões envolvem um estilo específico de conversa com os participantes. Por meio dos chamados facilitadores, que medeiam os encontros, é utilizada uma metodologia com promoção de atividades e dinâmicas para que os assuntos surjam.
“Por exemplo, o que é ser homem hoje? Questões de transgeracionalidade. O que aprendi com as figuras da minha referência na infância? Como cheguei a este ponto? Com quem aprendi isso? De onde vem esse comportamento? A ideia toda é trabalhar essas questões”, cita Aline. O objetivo é que os homens se enxerguem como pares, gerando uma identificação. “É uma pessoa que está ali na mesma situação que ele.”
Ainda, é essencial trabalhar o que os homens entendem por violência. Segundo a psicóloga, muitos deles pensam que ela é apenas física e que a Lei Maria da Penha deveria ser aplicada para outros casos, não os deles. Dentro das discussões, os frequentadores são motivados a falar de outras dependências, como álcool e drogas, além da sua saúde mental, que interfere nesse comportamento.
A partir das conversas, é possível identificar a maneira como os homens enxergam as mulheres. Segundo Aline, apesar de haver uma variedade de percepções, a grande maioria descreve-as com um discurso racional, como se fossem iguais a eles, com os mesmos direitos. Porém, com o desenrolar das dinâmicas, são revelados estereótipos de gênero intrínsecos.
Está em tramitação na Justiça uma proposta de institucionalizar os Grupos Reflexivos do Tribunal de Justiça em todo o Estado e já há uma resolução do Conselho Nacional de Justiça que traça os requisitos mínimos para o projeto. Segundo a juíza Madgéli, esse processo irá favorecer a ampliação do número de grupos. “Vai, de fato, formar uma política pública.”

Aline Vettorazzi, psicóloga e servidora responsável pelo Projeto Borboleta | Foto: Alina Souza
RESSOCIALIZAR É COMBATER A VIOLÊNCIA
Tendo em vista a brutalidade com que, muitas vezes, esses crimes são cometidos, é necessária a retirada dos autores do convívio em sociedade, como uma medida cautelar de preservação da integridade das vítimas. No entanto, o alto índice de reincidência desses crimes leva a crer que apenas a reclusão não é suficiente para combater a violência de gênero.
Os resultados alcançados pelos Grupos Reflexivos de Gênero, no entanto, indicam uma alternativa viável para a prevenção e combate à escalada da violência. A Lei de Execuções Penais prevê que as sentenças estabelecidas devam “proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”, diz o texto.
A socióloga Elizabeth Mazeron entende que a maioria dos autores de violências contra a mulher tem a capacidade de rever seus comportamentos e se corrigir, entendimento reforçado pela eficácia dos grupos. “Funciona como uma contenção, como se fosse um superego externo. Para a pessoa que não tem essa repressão introjetada, ela passa a ser grupal. Sem dúvida funciona e tem eficácia justamente por esse caráter de ter alguém de fora exercendo um controle”, avalia a especialista, que descarta a hipótese de que todos os autores desses crimes sejam incapazes de ter empatia, apesar da crueldade empregada.
No caso do grupo coordenado pelo TJRS, a ideia é a prevenção da escalada das violências. Mais da metade dos homens que participam das reuniões não têm antecedentes criminais. “A maioria tem uma conduta social idônea, não tem envolvimento em outros processos. Por isso, essa mulher também fica em uma situação de dificuldade de romper o silêncio, porque ela diz: ‘Esse homem é maravilhoso. Todo mundo o ama’”, diz Aline Vettorazzi, o que vai na contramão da ideia de que os autores dos crimes sejam casos isolados e extraordinários.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza
No caso de J.C.F., a participação no grupo foi determinante para a melhora em vários aspectos da sua vida. “Ali, aprendi muita coisa. Já falei para uns colegas como funciona, e eles nem faziam ideia da lei das mulheres.” Desde que cumpriu a determinação de frequentar o grupo, ele parou de beber, tem sido mais presente com os filhos e tem mais facilidade de identificar situações de violência.
Em uma conversa com uma colega de trabalho, o homem auxiliou aquela família a sair de uma situação de violência. “O padrasto batia nela e na mãe dela, uma senhora de idade. Eu dei o telefone do projeto para essa minha colega e ela ligou. Aí foram na casa e verificaram o que estava acontecendo”, relatou.
Há dois anos, J.C.F. e A.S., o casal mencionado no início da reportagem, decidiram reatar o relacionamento e hoje trabalham os impasses da relação na terapia conjugal. O marido assumiu para si a responsabilidade de conversar com os filhos sobre comportamentos dentro de um relacionamento e já aconselhou o mais velho a participar voluntariamente dos grupos, como uma maneira de formação. O casal, que antes fazia parte da estatística do ciclo da violência, hoje figura como exemplo do poder restaurativo da educação.
Apesar de histórias como essas serem revigorantes, elas representam uma realidade nada comum. Historicamente, a ressocialização enfrenta entraves financeiros e políticos. “Todo mundo merece esse direito de ser corrigido. Mas esbarramos no sistema prisional, com 150% acima da sua capacidade, com insalubridade absurda”, afirma a socióloga Elizabeth Mazeron, destacando a importância de medidas educacionais no enfrentamento a essa realidade.
A defensora pública concorda que os Grupos Reflexivos de Gênero vão ao âmago das pessoas que já tiveram uma condenação e que são potenciais reincidentes. Nas suas palavras, para que a cultura da violência não se reproduza, os homens precisam refletir.
“O sistema penal, ao meu ver, não ressocializa ninguém. Acho que, inclusive, a pessoa certamente não vai estar em um lugar que vai melhorá-la para a sociedade, muito pelo contrário. A gente tem diversas violações de direitos humanos. A ressocialização acaba sendo importante com esses programas de análise, de forma que atinja efetivamente aquele agressor”, disse.
Outras iniciativas do órgão, responsável pelo acolhimento integral e jurídico de acesso à justiça da vítima de violência doméstica durante as medidas protetivas, também auxiliam na prevenção. Entre elas, está o programa Chega Disso, desenvolvido pelos núcleos de Defesa da Mulher e de Defesa da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública. Inicialmente voltado ao sistema socioeducativo, o projeto foi ampliado e passou a alcançar escolas. Atualmente, equipes capacitam profissionais da educação para trabalhar temas relacionados aos direitos humanos e à prevenção da violência.
“Já teve várias escolas interessadas e, hoje, a gente está com centenas de adolescentes tendo essa possibilidade. A gente capacita a equipe pedagógica das escolas justamente para replicarem essa educação em direitos e tentar prevenir”, afirma a defensora sobre a iniciativa que, no ano passado, atendeu 25 mil pessoas.
A Defensoria também desenvolve ações voltadas aos chamados órfãos do feminicídio, crianças e adolescentes que perderam suas mães em decorrência desse crime. Em parceria com a Defensoria Pública da União, o projeto Vidas que Ficam é destinado a fazer a busca ativa dessas crianças e adolescentes para auxiliar na sua proteção integral. A iniciativa, criada em novembro de 2025, busca assegurar direitos previdenciários e assistenciais, além de acompanhar questões relacionadas à guarda, tutela e outras medidas de proteção.
PROTEÇÃO INSUFICIENTE
Em 95% dos casos de feminicídio levantados em 2025 pelo governo do Estado, não havia medida protetiva de urgência ativa contra os autores. Ou seja, a lei ajuda a proteger a vida das mulheres. No entanto, embora as medidas protetivas sejam fundamentais, as mulheres ainda sofrem com violências diversas e medo constante. Há casos de mulheres que chegam a pedir a medida, mas voltam atrás e de outras que nunca chegam a recorrer à rede de proteção.
Diferentes fatores justificam essa realidade. Aline lembra que os casos de violência podem ser silenciosos e, para muitas vítimas, difíceis de identificar. “A gente tem que lembrar que, às vezes, a mulher pode levar três ou mais anos para conseguir romper um relacionamento desse tipo, porque uma das características da violência doméstica e familiar é que ela é paradoxal. Aquela pessoa, infelizmente, já teve momentos bons com essa que está em situação de violência. Essa mulher vai dizer: ‘Mas ele já fez tanta coisa boa, a gente já viveu tanta coisa legal’”, exemplifica a psicóloga. “A pessoa fica enredada nessa situação, não consegue sair, como se ficasse presa em uma teia de aranha.” Por conta de um senso comum que culpabiliza a mulher, ela também pode se colocar responsável pela violência sofrida.
Outro entrave está nas iniciativas de proteção que já existem, mas que não chegam a todas. Além de várias mulheres não terem conhecimento dos acessos, diversos programas não existem em determinadas regiões. A defensora pública Bibiana Veríssimo lembra que o acesso é mais difícil ainda para aquelas que moram no Interior.
Para a juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre, Karen Luise de Souza, a escassez desses registros de ocorrência evidencia a insuficiência da rede de proteção. “A ausência de um boletim não é ausência de violência, é ausência de proteção! É o Estado esperando que a vítima percorra um caminho impossível para a sua sobrevivência”, afirmou a magistrada em uma palestra ministrada na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP) em março deste ano.
Considerando que a violência contra a mulher não faz parte de episódios isolados, ela também é parte de um fenômeno que tem marcadores sociais e intersecções de raça e classe. O Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base nos dados consolidados do ano anterior, levantou que, no Brasil, 67,5% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. “Não quer dizer que mulheres brancas e ricas não sofram violências, mas a maioria das mulheres mortas por feminicídios é negra e com baixa escolaridade. A gente tem um recorte social e econômico que tem que ser contemplado. A gente pode pensar muito mais em estruturas de proteção do que de punição”, disse a socióloga.
Para a defensora pública, se a Lei Maria da Penha fosse aplicada efetivamente, os números de feminicídios não seriam tão altos. Ela destaca a importância de haver uma conscientização por parte de quem trabalha nos órgãos de tomada de decisão para investir nas políticas públicas de combate à violência.
No núcleo da Defensoria Pública, composto em maioria por mulheres, Bibiana Veríssimo ressalta que trabalha para entender cada vez mais sobre os casos das vítimas para pensar em como romper o ciclo. “Como a gente pode fazer um atendimento melhor e como orientar melhor. Não para achar culpados, mas para pensar na possibilidade de se evitar novas mortes, novas violências sexuais e tantas violências possíveis que a gente sofre todos os dias.”
TRANSFORMAR EM POLÍTICA PÚBLICA
Mesmo com os importantes avanços ao longo de duas décadas de implementação do marco mais relevante da política de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, o principal ponto defendido pelas especialistas é que não seja necessária a criação de novas leis, mas sim, a capacidade de implementá-las de modo efetivo. Avaliar o papel de políticas públicas, segundo elas, envolve examinar se os mecanismos existentes têm sido capazes de prevenir a reincidência, reduzir as mortes das mulheres e assegurar proteção suficiente às que estão em risco.
Para a defensora pública, mais do que pensar em novas iniciativas, é importante investir em programas permanentes. “Às vezes muda nome, muda acolhimento. A vítima tem que percorrer uma rota infinita de atendimentos, o que é cansativo, gera desgastes físico e emocional. Ela tem que repetir aquilo que aconteceu com ela infinitas vezes para diferentes agentes públicos. Isso não melhora a vida dela em nada, muito pelo contrário, acaba revitimizando.”
Bibiana também destaca a importância de se analisar três eixos que significam investimento em reeducação. O primeiro, a proteção da mulher, com as medidas protetivas que, na sua visão, podem ser ampliadas. Outra questão é a punição e repressão, não envolvendo o sistema penitenciário, mas trabalhando nos Grupos Reflexivos de Gênero. Por fim, a prevenção, citando as ações da Defensoria Pública.
A ressocialização, aliada a uma mudança de cultura, é um atestado de que, ao menos, uma lição foi aprendida às duras custas das vidas que foram ceifadas e a garantia de que outras mulheres não encontrem o mesmo fim. Investir em discussões sobre os aspectos culturais do crime e da educação em direitos pode ajudar na construção de uma sociedade mais pacífica para todos”.
Leia também:
Obra da escritora Marli Silveira que aborda o drama dos feminicídios no Brasil. A autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. Silveira revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher. www.neipies.com/antes-que-o-dia-aconteca-contribuicoes-no-enfrentamento-ao-feminicidio/
Edição: A. R.










