Seres celulares

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Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

“Uma pequena batida no canto da mesa do meu escritório e a ínfima rachadura começou a surgir. Uma rachadura diagonal no celular que se auto proclamava “inquebrável” produzido com “tecnologia militar”. Uma mancha escura não tardou a acompanhar a rachadura, tal qual um ferimento que se abre e sangra levemente, e o pequeno aparelho parecia “enlouquecer”. Não aceitava mais os comandos, abria e fechava telas a esmo, vibrava alarmes, desligava ligações, desfazia textos. Tudo isso para meu desespero.

Sim, pode parecer dramático, pode parecer novelesco, mas meu estado de espírito era sim: desesperador.

Pare para pensar, antes de formar seu julgamento sobre meu equilíbrio mental… Quantas coisas o celular substituiu nos últimos tempos: câmera, rádio, telefone, cartas, telegramas, e-mails, mensagens de texto, notebooks, e, cartão do banco! Isso assim, por cima. Que eu me lembre. Talvez você lembre de outros tantos usos.

Eu que trabalho com produção cultural e projetos, tenho diversos arquivos e rotinas organizados nesse, e através desse, pequeno aparelho eletrônico. Me vi, suspensa! Era como ser demitida pela tecnologia e estar isolada da humanidade, incomunicável.

Calma! Disse a mim mesma e abri o notebook. Por um “milagre” tecnológico o whatsapp web estava ativo na tela do computador! Alívio! Temporário. Logo perceberia que “nem tudo” poderia ser feito ali. Mas, era sim, um pouco tranquilizador não estar totalmente apartada do mundo! Ufa!

Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

Sem notificações em vermelho em uma tela constantemente brilhante, silêncio na ausência de constantes ligações, poucas interrupções ao longo do dia, notei em mim, mais foco, consegui terminar uma leitura parada há tempos, enquanto esperava na fila do banco para sacar um dinheiro, de papel! Veja bem! Conversei com as pessoas ao meu redor com mais calma e me senti menos pressionada pelo tempo.

Em nove dias, um novo aparelho chegou. Chips trocados e a ilusão terminou! Várias mensagens em atraso para responder. Boletos que não foram validados no “DDA”, históricos de mensagens importantes apagadas no whatsapp, fotos de trabalhos a recuperar, postagens a serem feitas fora do prazo, Pix a enviar, aplicativos bancários e de comunicação com o governo a serem revalidados, etc, etc, etc…

Lembrei-me, então, em um momento caótico, das aulas de biologia no Ensino Fundamental, onde a professora jamais poderia adivinhar naquela época, o quanto estava certa e o quanto estava sendo visionária enquanto afirmava sem exitar: somos seres celulares!”.

(Texto de Luciana Marinho Albrecht, escrito e publicado em 01 de julho de 2026 nas suas redes sociais)

Leia mais sobre esta escritora, contadora de história e agente cultural, Luciana Marinho Albrecht: www.neipies.com/processos-criativos-e-inspiracoes-literarias-femininas/

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