PORONGOS

Giovanni deve causar polêmica com seu livro. Ele apresenta dados importantes sobre as tropas, mostrando o papel dos Lanceiros, dos Infantes, a composição étnica, sem esquecer os indígenas.

Não fiz a chamada pelo título do livro de Giovanni Mesquita por precaução. Pois, meu esforço aqui será para que as pessoas leiam minha resenha de, agora sim, QUEM FOI TRAÍDO EM PORONGOS?

Giovanni Mesquita é, de fato, um historiador corajoso. Já tinha nos entregue o primeiro volume da biografia de Bento Gonçalves. Estamos à espera do segundo.

Giovanni não só nos apresenta dados inéditos extraídos das centenas de documentos que consultou, como fez comparações entre eles, mostrando contradições muitas vezes que quase ninguém observou ou não escreveu até agora.

Não toma os ditos como verdades, questiona, e as relações que faz com a recente Lava Jato são de uma clarividência incrível. Cuidado para não comprar uma versão de um terceiro como a verdade e fazendo um julgamento. Mostra as contradições da chamada carta RESERVADÍSSIMA com os fatos ocorridos e as circunstâncias da trama do massacre em Porongos, em novembro de 1844.

Mostra com precisão o que ninguém mostrou: as diferenças internas no Partido dos Farroupilhas.

Que Davi Canabarro é culpado da derrota de Porongos fica evidente, não se precaveu da iminência do ataque do inteligente e sagaz Chico Pedro, o Moringue, mesmo sendo avisado. Era um prepotente, pois achava que Moringue não se aproximaria ao sentir sua moringa. Talvez seja esta a razão do massacre dos Lanceiros Negros.

Canabarro tinha um papel importante naquele momento da guerra, mas não tinha a simpatia de Bento Gonçalves e muito menos do General Neto. Era tido como um burro.

Giovanni deve causar polêmica com seu livro. Ele apresenta dados importantes sobre as tropas, mostrando o papel dos Lanceiros, dos Infantes, a composição étnica, sem esquecer os indígenas.

Giovanni também enfrenta algumas cabeças coroadas da historiografia e do memorialismo local, como o professor Moacir Flores, o jornalista Juremir Machado da Silva. Contesta as conclusões de Raul Carrion.  É louvável a exegese que faz dos escritos do historiador Alfredo Varela.

O livro traz uma sensata Apresentação do escritor Paulo Timm.

As polêmicas vão surgir, porque é voz corrente que Canabarro traiu, e a prova seria a tal carta. Porém, ela pode ter sido uma forma sem princípios de Moringue com a anuência de Caxias para dividir mais a Minoria e a Maioria, dentro do Partido dos Farroupilhas, com vistas ao tal acordo de paz que aconteceu no Ponche Verde.

Giovanni estará na Feira do Livro de Porto Alegre. O livro está na Livraria Isasul, na Riachuelo, 1236.

Não deixe de ler QUEM FOI TRAÍDO EM PORONGOS!

Autor: Adeli Sell. Professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Caminho de cercas: um livro e tanto”:  www.neipies.com/caminho-de-cercas-um-livro-e-tanto/

Edição: A. R.

Nos dias dos Professores e Professoras

Que a gente nunca esqueça: não precisamos ser heróis, precisamos ser respeitados, valorizados e ter condições de fazer bem aquilo que escolhemos fazer. E, nessa caminhada, que nunca nos faltem bons colegas para caminhar ao nosso lado.

Nos dias dos Professores e Professoras meu pensamento vai muito além das homenagens e das mensagens bonitas. Vai para cada colega que conheci nas diferentes escolas por onde passei, para as histórias que compartilhamos, para os desafios que enfrentamos, para as aprendizagens que construímos juntos e tudo aquilo que, de alguma forma, deixou marcas em mim.

Tenho muito respeito por cada professor com quem tive o privilégio de conviver. Sei que, por trás de cada aula, existe muito mais do que aquilo que os outros conseguem enxergar. Existe planejamento, estudo, preocupação, cansaço, criatividade, renúncias, frustrações e, apesar de tudo, a disposição de recomeçar no dia seguinte.

Ser professor em uma sociedade tão desigual é também conviver diariamente com realidades que nos desafiam, que nos indignam e que nos fazem perceber que a educação nunca é um ato neutro. Ensinar é abrir possibilidades, ampliar horizontes e ajudar a construir um mundo em que as oportunidades não sejam privilégio de poucos.

Mas também precisamos ter consciência de que não podemos romantizar nossas dificuldades, nem aceitar como natural a desvalorização de uma profissão tão essencial. O respeito ao professor precisa se traduzir em reconhecimento, condições dignas de trabalho, salários justos e políticas públicas que compreendam a educação como prioridade de verdade, e não apenas como discurso bonito.

Olho para a minha trajetória e sinto uma imensa gratidão por tudo o que a profissão me proporcionou. Aprendi muito enquanto ensinava. Aprendi sobre pessoas, sobre diferenças, sobre limites, sobre recomeços e, principalmente, sobre resiliência. A escola me ensinou que nem sempre teremos as respostas, que nem todos os dias serão bons e que, muitas vezes, precisamos encontrar forças justamente quando estamos cansados.

Também ganhei algo que levo comigo com muito carinho: amizades verdadeiras, algumas daquelas que o tempo, a distância e as mudanças de escola não conseguiram apagar. Amizades que ultrapassaram os portões da escola e se tornaram parte da vida. Porque, felizmente, a profissão também nos presenteia com pessoas que fazem a caminhada valer a pena.

E se hoje eu pudesse agradecer por tudo, agradeceria não apenas pelas conquistas, mas também pelos desafios que me fizeram crescer, pelas trocas que me ensinaram a olhar de outra forma, pelos colegas que me inspiraram e até pelas dificuldades que me lembraram por que tantas coisas ainda precisam mudar.

E que a gente nunca esqueça: não precisamos ser heróis, precisamos ser respeitados, valorizados e ter condições de fazer bem aquilo que escolhemos fazer. E, nessa caminhada, que nunca nos faltem bons colegas para caminhar ao nosso lado.

Que todos os dias dos Professores e Professoras sejam felizes!

Autora: Rosane Rúpulo Mendes. Também escreveu e publicou no site “Quanto custa a felicidade do seu filho?”: www.neipies.com/quanto-custa-a-felicidade-do-seu-filho/

Edição: A. R.

Deixe a criança viver apenas o tempo dela: o de ser criança

A criança só deseja mesmo um tempo para viver a sua infância do seu jeito, sem relógios, sem cronômetros e sem agendas. Que toda a brincadeira dure o tempo da criança poder sentir que ser criança é para vida inteira e que ela não precisa correr para se tornar grande como costumamos dizer-lhe.

A mãe diz “Para dentro, dormir!”, o menino responde “Mãe, só mais um pouquinho!”. E neste pouquinho pedido pelo menino o tempo corre e a mãe fica brava. Quantos pais já não passaram por este tipo de situação? O que fazer diante do tempo de uma criança?

Sim, deixemos a criança viver o tempo dela, ou seja, o tempo de ser criança e não ter hora marcada para tantas tarefas, compromissos e eventos. Que cada criança possa junto com seus pais ou responsáveis ter o direito de escolher a hora de ir ao dentista, a hora de tomar banho e outros horários que possam ser combinados.

Nós, adultos, somos apressados demais e queremos que as crianças sejam iguais a gente, nos acompanhando na correria do dia a dia, das reuniões intermináveis, do trabalho cansativo, do pouco sono. Sabe qual é o maior castigo para uma criança nos dias de hoje? É determinar o seu tempo para brincar.

Vejo muitos pais estabelecerem um tempo para que suas crianças brinquem pelas ruas, corram, pulem e se divirtam. Fico triste quando a mãe ameaça bater no filho porque já está tarde e ela quer dormir, mas a criança não tem pressa nenhuma, ela não está com um pingo de sono. E entra em casa chorando enquanto seus amiguinhos ainda podem desfrutar de mais um tempinho para a brincadeira.

Também obrigamos as crianças a acordarem cedinho para ir à escola, e esquecemos que há muitas que são dorminhocas. Não pensamos na possibilidade da criança ter tido uma noite mal dormida ou mesmo que ela ainda não dormiu seu soninho completo e já estamos as levando para escola ainda dormindo nos nossos ombros. Como é triste ser criança num mundo onde o tempo é quem dá as ordens!

Marcamos o horário do dentista ou do pediatra bem na hora que a criança tinha combinado ir salvar seu ursinho do lobo mau, e acabamos interrompendo a sua aventura de ser herói ou heroína, porque não combinamos com ela o horário que desejariam sair de casa. Tudo na infância parece ser determinado por nós, adultos inconsequentes.

A criança tem o poder de escolher o tempo de ficar embaixo do chuveiro, de se alimentar com paciência ou correndo, de fazer uma escolha ou até mesmo de querer adiantar o final da historinha que lhe contamos por que ela está ansiosa para saber quem vai sair vitorioso.

E por falar em histórias, chamo a atenção dos contadores de histórias e professores para que não levem tanto tempo nas suas contações de histórias, pois as crianças não ficam presas a uma narrativa oral por mais linda que ela seja, a criança gosta de movimentar-se e não de ficar paradinha por tanto tempo.

Há criança que por qualquer coisa se distrai e acaba perdendo a concentração, por isso as histórias que lhes contamos devem ser rápidas, educativas e com um final feliz já que o mundo está tão cheio de coisas tristes.

O tempo da criança é aquele onde ela balança os pezinhos na sala do psicólogo, sentada numa cadeira a cantarolar uma canção para distrair a sua ansiedade. Sim, temos muitas crianças ansiosas na atualidade devido a tantos estímulos desnecessários a sua pequena idade que lhes damos como uma forma de passatempo.

E o tempo mais bonito da criança é o de sentir-se realmente uma criança, a ficar quietinha olhando uma formiga carregar uma folhinha nas costas, a querer abrir apressada o presente recebido, a ficar muito tempo ao lado dos avós.

Saiba, querido leitor, que as crianças têm dificuldades em assimilar o nosso tempo porque os delas são diferentes dos nossos. Elas ainda não conseguiram compreender o motivo de ter horário para tudo na vida. Elas só querem poder brincar o dia todo até se cansarem e ir dormir para no dia seguinte brincar novamente.

Os pais costumam fazer festas de aniversários para suas crianças em dias e horários que talvez elas nem gostem, mas são obrigadas a participarem para não deixarem tristes nós, adultos chatos. Tem criança que dorme cedo, tem criança que dorme tarde, tem criança que custa a dormir. E daí? É o tempo delas, e temos que respeitar.

Nesta coisa de tempo não respeitamos a autonomia da criança e estabelecemos horários para tudo nas suas vidas. Nunca nos preocupamos se o horário da natação, do cinema, do museu ou até mesmo o turno de estudos na escola está bom para a criança. Matriculamos as nossas crianças nas escolas sem lhes darmos o direito de escolherem.

A criança só deseja mesmo um tempo para viver a sua infância do seu jeito, sem relógios, sem cronômetros e sem agendas. Que toda a brincadeira dure o tempo da criança poder sentir que ser criança é para vida inteira e que ela não precisa correr para se tornar grande como costumamos dizer-lhe.

Talvez um dos tempos mais bonitos para a criança é na noite de Natal quando ela espera, ansiosamente, pela meia-noite, a hora que o Papai Noel chegará trazendo o presente tão esperado. Infelizmente, muitas vezes atropelamos esse tempo mandando as crianças para cama mais cedo e tirando delas o encantamento, quando não lhes dizemos que Papai Noel não existe, é invenção do comércio. Muitos de nós não somos mais crianças por fora e muito menos por dentro.

Deixo você, querido leitor, com o poema “O relógio” de Vinicius de Moraes onde ele nos diz nos seus versos lindos “Passa, tempo, tic-tac. // Tic-tac, passa, hora. // Chega logo, tic-tac. // Tic-tac, e vai-te embora. // Passa, tempo. // Bem depressa. // Não atrasa.
Não demora.” E assim, no tic-tac do tempo da criança esperamos o momento certo da borboleta sair do casulo.

Autora: Rosangela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A criança também tem segredos que devem ser respeitados”: www.neipies.com/a-crianca-tambem-tem-segredos-que-devem-ser-respeitados/

Edição: A. R.

A Casa Azul

É difícil, para não qualificar de impossível, ler esse livro sem ser tomado pelo sentimento de empatia. Especialmente se você conheceu os personagens. Caso, em algumas passagens, você não sentir a sua voz embargar e os seus olhos marejarem, lamento, mas é necessário buscar quando você deixou de ser um ser humano.

Alguns hão de lembrar, outros, menos atentos à mutação acelerada da paisagem urbana de Passo Fundo, não. Refiro-me a uma casa antiga de madeira, pintada de azul, janelas amarelas e telhas francesas, incrustada no centro de um terreno localizado na Rua Paissandu, ao lado da Galeria Central, de fronte ao Colégio Marista Conceição, onde, atualmente, funciona um estacionamento rotativo e um serviço de lavagem automotiva.

Aquela casa, mais especificamente as pessoas que viveram nela, é o tema e dá o nome ao novo livro de Leandro Malósi Dóro, “A Casa Azul – Histórias de uma Passo Fundo que deixou de existir”, ora em fase de pré-lançamento, com versão disponível para leitura e revisão. A capa traz a marca do traço inconfundível do exímio desenhista Leandro Dóro.

O livro “A Casa Azul”, pela temática, poderia ser um romance. Não é. Foi escrito no formato de contos. São oito capítulos e 208 contos breves, que abrangem as memórias de Elvira (a avó), Hilda (a mãe) e Leandro (o filho e autor) e suas relações com Passo Fundo, cobrindo o período que vai de 1940 a 2002. Cada capítulo, na forma de homenagem para Hilda e Elvira, e não é difícil entender a razão, uma vez que foram as encomendas preparadas por elas que garantiram a sobrevivência familiar, leva o nome de doces ou de salgados. Sucedem-se: Pão de ló; Brigadeiros; Empadinhas; Risoles; Marta Rocha; Coxinhas; Fios de ovos; e Torta de nozes.

Acesse o link do livro:

https://drive.google.com/file/d/12HZ8eKBE3QhTmXOQcBAacwbdbwGx5CAI/view?usp=drivesdk

Os personagens e as histórias são reais, mas, evidentemente, o autor colocou pitadas de ficção, muitas vezes sem conseguir o intento, para amenizar ou colorir com traços de suavidade o que soa trágico. Apenas Elvira, Hilda e Leandro, nas histórias, mantêm as suas identidades verdadeiras.

Os demais têm os seus nomes levemente modificados, visando à preservação de identidades, mas que, com relativa facilidade, para quem tem o mínimo de conhecimento sobre Passo Fundo, podem ser identificados. Ou você não consegue associar “Álvaro de Castro, o jornalista de Passo Fundo ligado à criação de O Pasquim”, com Tarso de Castro? Ou relacionar “as irmãs Ibde quase sempre apareciam juntas. A mais velha conduzia a outra pelo braço…”, com aquelas duas senhoras, as irmãs Dipp ou as professoras Suria e Gessi, que habitavam uma residência na Av. Brasil, na quadra entre as ruas Fagundes dos Reis e Capitão Eleutério, cuja fachada preservada foi recentemente inaugurada e colocada uma placa de identificação dos antigos moradores daquela casa?

Leandro Dóro, além das habilidades como desenhista e cartunista, é dono de texto forjado no jornalismo, que se sobressai nas histórias do livro “A Casa Azul”. São contos de leitura fácil e agradável, cujos conflitos dos personagens surgem e se resolvem em poucos parágrafos, com a brevidade que é característica do estilo jornalístico.

Leia: https://www.neipies.com/author/leandrodoro/

A história de Elvira e Hilda, nas memórias de Leandro Dóro, é marcada pelo trabalho e pela tragédia do vício em jogo do patriarca da família, que as deixou desamparadas, quando da sua morte. Exímias cozinheiras e doceiras, recomeçaram a vida com o apoio do trabalho no internato do Colégio Marista Conceição. Foram os irmãos da ordem que as ajudaram na aquisição da Casa Azul. Seguiram nessa atividade profissional até quando a saúde permitiu.

Leandro Dóro entrou na vida delas em 1975. Hilda, apesar da idade relativamente avançada e ainda solteira, nunca deixou de acalentar o sonho de ser mãe. Leandro foi adotado. Mas, só soube disso aos 5 anos de idade, durante uma ida ao médico. O que aconteceu nesse dia? Não vou tirar a surpresa de ninguém. Descubram lendo o livro.

Eu conheci Hilda e a Casa Azul, no começo dos anos 1990, quando fui buscar uma encomenda de doces e salgados para alguma festa que não lembro mais qual era. Elvira havia morrido em 1985.

Leandro Dóro eu conheci na redação de O Nacional, em 1995. Depois, passou para o Diário da Manhã. Naquele veículo, como repórter, fez várias entrevistas comigo, sobre trigo e clima. Também estive na Casa Azul, mais umas duas ou três vezes, na década de 1990, conversando com Dóro sobre trabalhos de ilustração. E com Hilda, que apreciava a leitura, tive outros contatos, levando ou buscando publicações no prédio da General Osório, até pouco antes da sua morte. Uma mulher que não passou em vão nessa vida.

A casa azul envelheceu, os problemas de vazamentos do telhado e de apodrecimento do assoalho se avolumaram. A habitabilidade do local estava ameaçada. Hilda envelheceu, os anos de trabalho árduo cobraram o seu preço.

Leandro virou adulto e, no final de 2001, quando foi demitido da função de repórter do extinto jornal Diário da Manhã, deixou Passo Fundo e foi viver em Porto Alegre, onde reside. Hilda vendeu a casa em 2002 e foi morar em um apartamento na Rua General Osório. Nesse local, viveria até a sua morte, em 2022.

Finalizo dizendo que é difícil, para não qualificar de impossível, ler esse livro sem ser tomado pelo sentimento de empatia. Especialmente se você conheceu os personagens. Caso, em algumas passagens, você não sentir a sua voz embargar e os seus olhos marejarem, lamento, mas é necessário buscar quando você deixou de ser um ser humano.

Acesse o link do livro:

https://drive.google.com/file/d/12HZ8eKBE3QhTmXOQcBAacwbdbwGx5CAI/view?usp=drivesdk

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Madeireiros e construtores pelos pincéis de Klenia Sanchez”: www.neipies.com/madeireiros-e-construtores-pelos-pinceis-de-klenia-sanchez/

Edição: A. R.

Fé madura não teme o conhecimento

Estudar é romper com a alienação, recuperar a capacidade de pensar, questionar, discernir e escolher por si mesmo.

Estudar faz toda diferença. Leiam. Invistam em conhecimento.

Aparência, ostentação, títulos eclesiásticos, prestígio, tudo isso passa. É vaidade. A idade chega para todos. O corpo envelhece, os títulos perdem o brilho, a aparência muda.

Mas aquilo que aprendemos nos acompanha até o fim.

E não parem na Bíblia. Leiam de tudo. Leiam autores que pensam diferente de vocês. Saiam da bolha religiosa. Leiam filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, literatura, romances, ficção científica. Leiam história. Leiam ciência.

Não tenham medo de encontrar ideias que desafiem aquilo em que vocês acreditam. Uma fé que não suporta perguntas precisa de proteção. Uma fé madura não teme o conhecimento.

Dá pena perceber quanto tempo passou enquanto algumas pessoas continuam presas a uma linguagem, a conceitos e a visões de mundo de décadas atrás. O vocabulário carregado de jargões religiosos denuncia isso. E, em alguns ambientes, até as escolhas políticas revelam o quanto o pensamento crítico foi substituído pela repetição de discursos prontos.

Estudar é romper com a alienação, recuperar a capacidade de pensar, questionar, discernir e escolher por si mesmo.

Não deixem que ninguém pense por vocês.

Leiam. Estudem. Questionem. Ampliem a consciência.

Quem experimenta uma metanoia, jamais se rende a paranoias.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Conhece um alfabeto existencial”: www.neipies.com/conhece-algum-analfabeto-existencial/

Edição: A. R.

Uma sociedade intemperizada

Apologistas da discórdia não faltam, enquanto cresce a intolerância no mundo. Uma época em que, nas redes sociais, pululam, prós e contras, discursos laudatórios, na forma de vídeos, áudios ou textões, sobre xenofobia, colonialismo, racismo, sexismo, homofobia, transfobia e muitos outros desse mesmo tipo, até o especismo, quando entra na pauta o direito dos animais e a relação humana com esses passa a ser questionada.

Mais do que uma modernidade líquida, na acepção de Zygmunt Bauman, nessa terceira década do século XXI, sobressaem-se tempos de uma sociedade intemperizada. E se o processo do intemperismo, levado a cabo por agentes meteorológicos e biológicos, é capaz de causar a degradação física e química dos minerais que constituem as rochas, tudo indica que, no tocante à humanidade, ao longo da evolução, algo similar, todavia numa esfera intangível, também se passou.

Especificamente, no que diz respeito a não dar o devido valor ao princípio da dignidade da pessoa humana, a não dar importância a virtudes, sejam elas cardeais (as fundamentais, como a justiça) ou teologais (a fé, a esperança e a caridade), e, acima de tudo, no universo dos sentimentos, ao deixar que a fraternidade e a empatia cedessem seus postos para congêneres menos nobres. O pior é que isso acontece no dia a dia de cada um de nós e, na maioria das vezes, não nos apercebemos.

Quem um dia leu, e admitamos, para a construção da nossa hipótese, que isso foi há bastante tempo (antes da popularização das redes sociais pelo menos), a distopia de George Orwell, 1984, talvez, jamais tenha esquecido a “Cerimônia do Ódio”.

Aquela de apenas dois minutos diários, que o Grande Irmão concebeu para consolidar a união do povo. Para isso, o rosto do “desprezível” Emmanuel Goldstein, todos os dias, quando surgia na tela, não se fazia necessário mais do que 30 segundos para o público começar a exarar todo o seu ódio, com cusparadas e xingamentos de “porco! porco! porco!”. E se dois minutos por dia, na ficção de Orwell, eram mais do que suficientes para gerar uma catarse coletiva de ódio, imagine, atualmente, o efeito que tem, sobre muita gente, o consumo na palma da mão, nos seus aparelhos celulares, quase 24 horas por dia, de vídeos/áudios/textos que propagam fake news produzidas com técnicas de Inteligência Artificial e destilam ódio sobre tudo e sobre todos, especialmente sobre os que são diferentes (as ditas minorias) ou que, politicamente, defendem pensamentos divergentes.

Vivemos tempos de maus vencedores.

Quem se iludiu, quando, em 21 de janeiro de 2025, durante celebração ecumênica na Catedral Nacional de Washington, que a pregação da sacerdotisa da Igreja Episcopal, Mariann Edgar Budde, em prol da comunidade LGBTQIAPN+ e dos imigrantes irregulares nos EUA, ao apelar em nome de Deus, pudesse despertar algum nível de empatia no recém-empossado presidente Donald Trump, teve suas expectativas frustradas. Donald Trump pode ter muitas virtudes, certamente as têm, pois, pela segunda vez, democraticamente, foi conduzido à presidência da nação mais importante do mundo.

Mas, empatia não faz parte do seu vocabulário. E, tudo indica, o Deus que Trump tanto faz referências, não é o mesmo Deus da sacerdotisa Mariann Budde. Ela apelou em nome de um Deus acolhedor. E Trump parece seguir uma dessas versões rancorosas e vingativas de Deus do Antigo Testamento, que alguns pastores neopentecostais usam e abusam para atemorizar os fiéis seguidores das suas Igrejas.

Apologistas da discórdia não faltam, enquanto cresce a intolerância no mundo. Uma época em que, nas redes sociais, pululam, prós e contras, discursos laudatórios, na forma de vídeos, áudios ou textões, sobre xenofobia, colonialismo, racismo, sexismo, homofobia, transfobia e muitos outros desse mesmo tipo, até o especismo, quando entra na pauta o direito dos animais e a relação humana com esses passa a ser questionada.

A paixão justiceira se sobrepõe à Justiça. As redes sociais viraram tribunais de exceção em que julgamentos sumários, sem o devido rito do contraditório, arrasam reputações com base em supostas “provas” nem sempre verdadeiras. Inimigos imaginários são criados à mancheia no ambiente virtual.

Uma realidade paralela, na qual muitos se orgulham de viver, embora, não raras vezes, sem se dar por conta que não passam de massa de manobra de algum poderoso de plantão. Um universo onde os princípios de civilidade há muito deixaram de vigorar.

Infelizmente, os indícios de que tempos melhores virão são poucos. A esperança é que, assim como o intemperismo, na escala de milhões de anos, consegue transformar rocha bruta em solo fértil, quem sabe esse “intemperismo” dos valores e sentimentos, que ora assola a humanidade, também não acabe, ao estilo schumpeteriano, pela via da “destruição criativa”, forjando uma nova sociedade.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “A falácia das correlações espúrias”: www.neipies.com/as-falacias-das-correlacoes-espurias/

Edição: A. R.

A criança também tem segredos que devem ser respeitados

A criança tem o direito de guardar seus segredos? Você é daqueles pais, professores ou responsáveis que quer saber de tudo o que a sua criança pensa, brinca, local onde esconde seus brinquedos, o que sente e outras tantas coisas do mundo dela?

A criança tem o direito de guardar seus segredos? Leitor querido, o que me diz desta pergunta. Você é daqueles pais, professores ou responsáveis que quer saber de tudo o que a sua criança pensa, brinca, local onde esconde seus brinquedos, o que sente e outras tantas coisas do mundo dela? Se você é assim, pare um pouco para ler este meu pequeno ensaio. Prometo que hoje não vou me alongar. É um assunto novo para mim e estou no início dos meus estudos.

Todos nós temos segredos. As crianças também têm os delas e precisamos respeitá-los. É claro que mantendo o cuidado, a responsabilidade, o afeto, a segurança e a proteção cuidadosa e respeitosa.

O que não podemos e não devemos nunca fazer é invadir a privacidade e a intimidade das nossas crianças garantidas por Lei. É coisa que frustra e dá tristeza ter a vida íntima exposta. Toda criança precisa ter seu cantinho reservado na casa onde possa esconder suas coisinhas sem que ninguém saiba. Essas é uma das coisas que quero falar dentre outras que acho importante.

Antes de começarmos falando propriamente dos segredos das crianças quero fazer vocês rirem um pouco sobre os segredos familiares mais “cabeludos” que as crianças vez ou outra costumam revelar nos eventos públicos, festas e outros locais com a inocência de um ser que não sabe direito o que está acontecendo ao seu redor e conta tudo o que viu e ouviu numa pureza encantadora ou preocupante de quem ouve, dependendo do assunto.

A outra coisa que acho por deveras importante é respeitarmos o que as crianças conversam com seus amigos imaginários. Não devemos ficar fazendo uma espécie de interrogatório policial com as crianças pensando que elas estão inseguras nos seus mundinhos, pois elas sabem se defender no mundo do faz de conta com seus heróis, suas histórias e suas aventuras.

Entre as crianças também existem segredos que devem ser respeitados. Elas confiam mais umas nas outras do que em nós adultos porque pensam, agem e falam com a mesma simbologia. As crianças que aprendem a guardar os segredos dos amiguinhos vão crescer e farão laços de amizade confiáveis. É preciso respeitar esse espaço da criança.

Se a criança cochicha para outra uma coisinha deixemos as duas com seus segredinhos. Elas se entendem e se aceitam nos seus pequenos mundos de normas e regras que também precisam ser obedecidas. Não vale contar o que foi cochichado para um adulto. E não insista em saber. Ao contrário respeite o motivo da criança não ter expressado em voz alta a sua fala.

Existem muitos segredos entre as crianças e os animais de estimação. Quanto mais amarem os seus bichinhos mais passarão a confiar neles e até mesmo porque sabem que só elas os compreendem nas suas linguagens de bichos, que nenhum adulto saberá conversar com um bichinho e descobrir o segredo revelado a ele. As crianças também costumam acreditar que os bichos dividem seus segredos com elas e isso ensina a compartilhar sabedoria, amizade e afeto.

Também nunca revelar em público um segredo que a criança não tem como esconder de você, principalmente quando ela faz xixi na cama ou cocô na roupinha. Se ela não disser para ninguém é porque não quer sentir “vergonha”, não quer que ninguém saiba que já crescidinha está fazendo suas necessidades biológicas fora do lugar apropriado. Este é um assunto que deve ser conversado com muito respeito e cuidado. Sempre que a criança estiver disposta para falar sobre isso e não a invasão da sua intimidade com falas de castigo ou coisa parecida.

Claro que as crianças devem ser protegidas de estranhos nas telas azuis ou até mesmo fora de casa. Todo cuidado é pouco, mas querer saber tudo o que a criança pensa e sente sobre o mundo e as pessoas ao seu redor pode ser um pouco invasivo e colocá-la numa reflexão de que ninguém respeita o seu jeitinho de ser e sua vontade de não querer contar nada para ninguém. Eu falo dos segredos inocentes próprios da infância, não dos que causam insegurança e preocupação.

Não é que a criança não confie na gente, adultos que tudo querem saber, mas é uma questão de autonomia, de respeito a si próprio, de autocuidado da criança ter seus segredos guardados. Se a criança esconde um brinquedo num canto e você acha, não quebre o encanto dizendo que descobriu o lugar onde ela guarda seus brinquedos. A magia e o encanto são algo preciosos na infância.

Nós, adultos, acreditamos ser legítimo conhecer tudo o que as crianças fazem, como agem, seus interesses e desinteresses, seus medos, suas raivas, seu contato com o próprio corpo, seus desejos e até mesmo seus amiguinhos. Fazemos isso como forma de proteção, mas até que ponto podemos respeitar os segredos da nossa criança?

Deixar que ela decida o momento de contar o que acha importante que saibamos. A proteção demasiada muitas vezes se torna em invasão à intimidade.

Quando amamos nossas crianças sabemos muito bem como elas agem, com quem falam e fazem amizades. Não é preciso passarmos o dia todo as enchendo de perguntas sobre o que estão pensando ou sentindo. Temos hoje ferramentas tecnológicas que protegem as crianças contra os perigos dos aparelhos celulares, podemos rastrear os sites que as nossas crianças visitaram. Há formas de respeitarmos os segredos das crianças, e isso é preciso conhecer para garantir que seus direitos não sejam violados.

Os direitos assegurados às crianças no Estatuto da Criança e do Adolescente nos oferece mais segurança e cuidado para com elas. Eu não estou falando de deixamos as crianças ao Deus dará, mas respeitamos seus pequenos mundos, seus amiguinhos e seus personagens imaginários. Aceitar que a criança poderá ficar tranquila que ninguém vai rir do seu segredo, mesmo aquilo que já sabemos e ficamos em silêncio só para não quebrar o encanto.

A criança muitas vezes deseja um brinquedo que ela sabe os pais não podem comprar, fica com aquilo guardado dentro de si. Um dia, quando menos esperar ela poderá dizer que sempre teve vontade de ganhar aquele brinquedo, mas nunca quis falar porque achou ser difícil para o papai ou a mamãe comprá-lo.

É coisa de criança também guardar segredos. Faz parte da infância.

Difícil para alguns de nós compreendemos se levarmos para a questão da proteção e da segurança excessivas, mas será aceito e concordado com quem ama a infância e a respeita como autônoma porque até para ser feliz nesta vida é preciso tornar-se criança outra vez.

Termino hoje com os versos do lindo poeta português Miguel Torga intitulado “Sei um ninho” que nos diz nos seus versos “Sei um ninho. // E o ninho tem um ovo. // E o ovo, redondinho, // Tem lá dentro um passarinho // Novo. // Mas escusam de me atentar: // Nem o tiro, nem o ensino. // Quero ser um bom menino,
E guardar // Este segredo comigo // E ter depois um amigo // Que faça o pino // A voar…”.

Portanto, se uma criança sabe onde fica um ninho e não quer lhe contar respeite o segredo até ela revelar ou o passarinho crescido começar a voar.

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A voz da criançao direito de falar de si e de fazer escolhas”: www.neipies.com/a-voz-da-crianca-o-direito-de-falar-de-si-e-de-fazer-escolhas/

Edição: A. R.

VOTO NECRÓFILO: ainda há tempo… de retomar a potencialidade primária…

“Deus nos proteja da maldade de gente boa e da bondade da pessoa ruim”. Chico César. Deus me proteja (2015)

As comemorações dos vitoriosos no resultado do primeiro turno das eleições brasileiras fizeram lembrar o “Viva la muerte!”, pronunciamento do general Millán Astray na Universidade de Salamanca (1936). O filósofo Miguel Unamuno, que à época era o reitor, o classificou como “necrófilo” e “insensato”. Trataremos de refletir sobre o necrófilo. Deixamos o insensato para outro momento, ocasião em que Agostinho, o Santo, talvez possa nos ajudar, visto que chamou de insensato àquele que não acredita em Deus. Por ora, um pelo outro: um necrófilo dificilmente poderia ser “temente a Deus”.

Erich Fromm, em “O Coração do Homem” (1965, p. 42-44), fez uma “descrição da pessoa necrófila” que, segundo ele, segue a exemplos: Hitler, Eichmann e Stalin – se escrevesse agora acrescentaria os “Bolsonaros”. Ele entende que a necrofilia é um “modo de vida”, mais do que uma ação transitória. Em geral, o necrófilo se faz passar por construtor, salvador, protetor, bom pai, um líder que eleva a nação, razão pela qual, por um bom tempo pode haver complacência com ele.

Uma pessoa com orientação necrófila, segundo Fromm, “é atraída e fascinada por tudo o que não é vivo, tudo o que é morto”. Os necrófilos “moram no passado, nunca no futuro”; aliás, eles odeiam e temem o futuro, orientando-se ao passado, no qual fixam seu “desejo de certeza e segurança”, e alimentam a lembrança de emoções tidas no passado ou que acreditam tê-las tido. Outra característica é que “são frios, distantes, devotos da ‘lei e da ordem’” [mais da ordem do que da lei, sem problemas em sacrificar a segunda pela primeira, e nisso consiste a justiça], com valores que “são exatamente o inverso dos [valores] que ligamos à vida normal”. Têm atitude favorável em relação à força, como uma capacidade ou desejo de matar: o necrófilo “ama a força”, sua maior façanha não é gerar vida, mas destruí-la.

O necrófilo “ama tudo o que não cresce, tudo o que é mecânico”. Tem o “desejo de transformar o orgânico em inorgânico”: atua para fazer coisas as pessoas (“sentimentos e pensamento vivos são transformados em coisas”), das quais quer se apropriar. Ele reforça a “memória em vez de experiência”, o “ter, em vez de ser”, “gosta de controle”. Ele “teme profundamente a vida”, visto que ela é “desordenada e incontrolável”. O necrófilo se deixa atrair “pela escuridão e pela noite”, por tudo o que o aparta da vida e se dirige contra ela. Ele é como que um “fascinado pela destruição”.

A necrofilia não é somente um traço pessoal e subjetivo. Ela também é própria de sociedades.

Há “condições sociais” para o desenvolvimento da necrofilia que estão no espírito da “sociedade industrial contemporânea”. Isto porque, nas sociedades contemporâneas há centros gigantescos nos quais os humanos são tratados “como objetos, em suas propriedades comuns, nas regras estatísticas do comportamento coletivo, não nos indivíduos vivos […] os homens são administrados como se fossem coisas […] são transformados em coisas e obedecem às leis das coisas” (p. 62). A manipulação dos gostos em vista do consumo ao máximo e em direções previsíveis, a uniformização do caráter e a seleção dos medíocres são expressões do “burocraticamente organizado e centralizado” (p. 63). Isto faz surgir o homem da organização, o homem autômato, o homo consumens, o homo mechanicus, um homem artefato. As características da orientação necrófila “existem em todas as sociedades industriais modernas, independentemente de suas respectivas estruturas políticas” (p. 65).

A descrição, senão em seu todo, em grande parte cabe a um dos candidatos à presidência: o Flávio, e, diria, a boa parte daqueles e daquela que votam nele e que pensam como ele, particularmente os que são de ultradireita, bolsonaristas. Boa parte de seus eleitores são complacentes com tudo o que fizeram (ele e seu pai) e com o que deixaram de fazer. Mesmo que com uma carga imensa de hipocrisia e cinismo (o da pior espécie), se somam a negacionismos de todo tipo em lógicas rasteiras. Sua posição e sua ação fazem a necrofilia se transmutar em necropolítica. Senão, vejamos!

Bolsonaristas defendem que as mães solo não têm outro caminho a fazer que não seja trabalhar e “abandonar” seus filhos aos “cuidados” de uma creche paga com “voucher”. Querem que elas e todas as trabalhadoras e trabalhadores trabalhem com “liberdade”, o máximo de horas (sem qualquer limite ou proteção trabalhista).

Fora o “estado paternalista”, nada de responsabilidade empresarial. Voltar a uma jornada diária de 10 a 12 horas, como no século XIX, o que já é realidade de muitos CEOs de MEI, é o mínimo. Mas isso não é problema, é sinal de exercício da liberdade no mais algo grau, é sinal de que não ter patrão é tudo, que empreender por si e para si é a saída, para todos. Mesmo que boa parte desta gente que pensa assim, não quer isso para si, pois adora ter seus dias de descanso, ter INSS para um momento de necessidade, recolher para se aposentar… O que não quer é que isso seja possível para todas e todos, particularmente para aqueles que, por serem “vagabundos” e “pobres”, vivem se locupletando com programas sociais paternalistas (contém alta carga irônica!) – devem ficar muito chateados ao ouvir que Flávio vai manter o Bolsa Família e até seguir pagando para quem estiver “empregado”.

Gente deste tipo não acha importante ter universidade pública, institutos federais, nem mesmo programas educacionais que facilitem cursos universitários, com Prouni e outros. Muitos deles até já usaram destes recursos, mas dizem que, se o fizeram, foi por seu mérito, nem que para isso tenham que ter burlado informações fiscais. Outros fizeram universidade pública e até intercâmbios internacionais, mas “também por mérito”, não foi porque houve uma política pública que abriu e manteve esta possibilidade. Xingam o “estado paternalista”, mas quando é para outros, quando for para seu próprio benefício, é mérito.

Entre eles, os piores são os que se vangloriam de sua própria ignorância “terraplanista” e acham que estudar é coisa para preguiçosos… não têm por que fazer faculdade, tem mesmo é que começar a trabalhar cedo, o mais cedo possível. Estes são os mais brutais, seja porque desde sua brutalidade querem brutalizar a todos os outros e não reconhecem o elementar: a humanidade é sempre processo de aprendizagem… hipocritamente, apesar de brutos, fazem descendência… Mas, acham que seus filhos aprenderão melhor em casa (homeschooling), para evitar que sejam “doutrinados” por “professores/as esquerdistas”: acreditam que “educação vem de berço”…

O voto bolsonarista acredita que a melhor saída para resolver os problemas comuns é eliminar (não só deixar morrer) a quem atrapalha e produz os problemas, os desafetos, isso como ação pessoal e política. Se no pessoal, cidadãos e cidadãs ainda se contém em fazê-lo, é porque não foram eliminados os “freios penais” para tal. Mas, isso se resolve na política: eleger um presidente que autorize a matar, tornaria a quem viesse a fazê-lo não um assassino, mas um eleito chamado a ser justiceiro.

Algumas imagens, entre muitas outras, são emblemáticas desta posição: o menino armado e a deputada catarinense comemorando com um relho pelas ruas. Sem explicações dóceis e sem os que dizem serem exceções… são o desejo profundo, desejos “necrófilos”.

Eleitores necrófilos não são desavisados – uns poucos até podem ser – são é mesmo convictos de que a “boa política” é aquela que é capaz de destruir a política, destruindo agentes políticos que sejam opositores, dos quais tenham discordância. No fundo, querem converter a lei em imposição da ordem orientada pela força. Não querem a “força do direito” e sim o “direito da força”.

Defendem “redemocratizar” o Brasil, como anunciou o candidato por estes dias. Atenção: para a ultradireita, democracia é sinônimo de imposição da maioria, se necessário eliminando, destruindo, as minorias – num ataque frontal a um dos princípios básicos de uma democracia, que é exatamente a preservação das minorias e da minoria como possibilidade. Uma sociedade democrática é aquela na qual uma minoria num determinado momento pode se converter em maioria noutro. Uma sociedade na qual a minora é destruída, com ela se destrói a democracia, visto instalar-se simplesmente uma ditadura, a da maioria, uma “ditadura da maioria”. Ter maioria não é sinônimo de poder tudo ou de ter todo o poder.

Numa democracia, o poder está limitado pelo direito e, particularmente, pelos direitos humanos: ninguém, nem governo e nem cidadãos/ãs, está autorizado a violar os direitos; pelo contrário está obrigado a respeitá-los, promovê-los, protegê-los e, se forem violados, a reparar a quem sofreu a violação e implementar medidas para que novas violações não se repitam. Na Constituição de 1988 estas garantias são chamadas de “cláusulas pétreas” (inclusive a maioridade penal), não suscetíveis de serem mudadas, senão que por um novo processo constituinte. Entre estes direitos também está o direito de defender direitos: colocar defensores/as de direitos humanos em risco e impedir sua atuação é inaceitável numa democracia.

O “voto necrófilo”, ainda que muitos dos que o exercem não gostem, precisa de responsabilização: esta escolha tem consequências. Não pode alegar que a escolha esteja parcialmente informada ou que seu candidato não lhe entregou todo o segredo embutido no voto. Sua escolha gera resultados que não colaboram com o processo de democratização e de humanização.

Mas, claro que nem todos os eleitores do Flávio são “necrófilos”, stricto sensu. Àqueles que não são, pode-se ainda dar o benefício da dúvida e, mais do que isso, considerando que a “potencialidade primária” do ser humano é preservar a vida (a biofilia), ainda têm chance de corrigir a patologia que, segundo Fromm, distorce a humanidade dos humanos necrófilos. Avisados do risco necrófilo, ainda podem revisar e mudar de posição.

Por isso aqueles e aquelas que ainda guardam algo da “potencialidade primária”, aqueles e aquelas que se abstiveram, deixaram de escolher ou tenham escolhido algum que não esteja entre os dois atualmente em disputa, com todo o carinho e afeto, ainda que com muita dureza, sintam-se mobilizados desde sua força interior, aquela que guia à vida e à valorização da vida. Ainda têm chance de não sucumbir totalmente ao projeto de morte e da morte. Ainda há tempo de não serem coniventes e de escapar do “voto necrófilo” e, quem sabe com isso, barrar um governo que, por ser necrófilo, também será necropolítico.

Quem sabe, com o que ainda resta de “potencialidade primária” biófila, com a coragem que é exigida pela vida (é isso que ela nos pede), construiremos “políticas de amizade” com amplos espaços de “amizade política”, de cultivo do respeito, de acolhimento e cuidado das alteridades, de proteção sem performance, “aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e mais alegre ainda no meio da tristeza”, abrindo novas veredas no grande sertão brasileiro.

Ainda há tempo…

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Para ver na fonte: FROMM, Erich. O coração do homem. Seu gênio para o bem e para o mal. Trad. Octávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.

Autor: Paulo César Carbonari, Doutor em filosofia (Unisinos), professor no Mestrado Profissional em Direitos Humanos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH). Também escreveu e publicou no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/

Edição: A. R.

Ideologia, fanatismo ou patologia social?

Compreender o bolsonarismo como uma forma de patologia social significa investigar os processos políticos, culturais e comunicacionais que favorecem a deterioração do debate público, a intolerância à diferença e a adesão a formas autoritárias de exercício do poder.

Escrevo esta crônica na véspera do segundo turno das eleições no Brasil que acontecerá no dia 25 de outubro de 2026. Trata-se de um texto livre, sem muitos cuidados acadêmicos, no qual manifesto minha preocupação e perplexidade compartilhada com milhões de brasileiros que estão vivendo algo surreal: como é possível que mesmo com tantas evidências continua existindo um contingente tão grande de eleitores que vão depositar seu voto em Flávio Bolsonaro?

Minha hipótese é que estamos vivendo no Brasil uma intoxicação bolsonarista que vem de longa data, cujas consequências podem ser desastrosas para a democracia e para a vida de grande parte da população.

O que são intoxicações eletrônicas?

As intoxicações eletrônicas constituíram objeto de investigação do Grupo de Estudos e Pesquisa (Gepes) neste ano de 2026. No próximo ano, o Gepes publicará sua 17ª coletânea cujo título será Cultura Digital, Políticas e Pensamento Crítico, com previsão de publicação em maio de 2027. Dentre os quase 30 capítulos um deles terá por título “Os perigos das intoxicações eletrônicas nos processos de aprendizagem em tempos de cultura digital na escola”.

As intoxicações eletrônicas podem ser compreendidas como processos de exposição excessiva, contínua e pouco reflexiva aos fluxos de informações, imagens, mensagens e estímulos que circulam nos ambientes digitais. Não se trata apenas do tempo gasto diante das telas, mas também da maneira como os conteúdos são consumidos, interpretados e incorporados à compreensão da realidade (Desmurget, 2021). Quando a velocidade da informação, a repetição de mensagens, a sobrecarga de estímulos e a busca permanente por engajamento reduzem o espaço para a reflexão crítica, a dúvida e o diálogo, criam-se condições para o empobrecimento da experiência intelectual e para a fragilização da autonomia de pensamento (Baptista e Jerusalinsky, 2017; Jerusalinsky, 2023).

Essas intoxicações tornam-se particularmente preocupantes quando associadas à lógica de funcionamento das plataformas digitais, cujos algoritmos tendem a privilegiar conteúdos capazes de despertar emoções intensas, provocar reações imediatas e manter os usuários conectados (Fávero, Tonieto, Rosa, Trzimajewski, 2026). Mensagens que mobilizam medo, indignação, ressentimento ou entusiasmo podem alcançar ampla circulação, sobretudo quando confirmam crenças e convicções previamente estabelecidas. Nesse contexto, a repetição de informações semelhantes, a formação de ambientes informacionais homogêneos e a circulação de desinformação favorecem a construção de percepções parciais da realidade (Jerusalinsky, 2023).

O indivíduo pode passar a confundir a frequência com que uma afirmação aparece com sua veracidade, ou a intensidade emocional que ela provoca com a consistência dos argumentos que a sustentam.

A formatação dos fanatismos políticos encontra, nesse cenário, um terreno favorável. O fanatismo não decorre automaticamente do uso das tecnologias digitais, mas pode ser intensificado quando os ambientes informacionais reforçam identidades políticas rígidas, estimulam a polarização afetiva e transformam adversários em inimigos a serem combatidos. Na campanha eleitoral que estamos vivendo fica evidente nas redes sociais a predominância desta estratégia que se faz sentir na fora como grupos radicais tornaram-se incansáveis em replicar informações falsas ou criminalizar adversários políticos.

A exposição reiterada a conteúdos que desqualificam grupos opostos, atribuem todos os problemas sociais a determinados adversários ou apresentam um líder como único representante legítimo da verdade pode contribuir para a construção de vínculos políticos marcados pela adesão incondicional.

A crítica é então interpretada como ameaça, a divergência como traição e a argumentação racional como menos importante do que a fidelidade ao grupo. Desse modo, a política corre o risco de deixar de ser compreendida como espaço de disputa democrática entre diferentes projetos de sociedade para se converter em campo de confrontação moral entre grupos que se consideram mutuamente incompatíveis.

Outro aspecto importante é que as intoxicações eletrônicas podem comprometer as condições necessárias ao exercício da cidadania democrática. A velocidade dos conteúdos e a pressão por posicionamentos imediatos dificultam a contextualização dos acontecimentos, a verificação das fontes e a consideração de perspectivas divergentes (Brito Filho, 2023).

Quando o compartilhamento impulsivo substitui a análise, a indignação substitui a argumentação e a confirmação das próprias crenças substitui a disposição para rever opiniões, enfraquecem-se capacidades fundamentais para a vida democrática. O problema, portanto, não reside simplesmente na tecnologia, mas na articulação entre modelos de negócio baseados na captura da atenção, estratégias políticas de mobilização emocional, circulação de conteúdos enganosos e insuficiência de práticas educativas voltadas ao letramento midiático e digital.

A necropolítica do bolosonarismo

O artigo de João dos Reis Silva Júnior e Everton Henrique Eleutério Fargoni (2020), intitulado Bolsonarismo: a necropolítica brasileira como pacto entre fascistas e neoliberais, publicado na Revista Eletrônica de Educação, oferece uma interpretação crítica do bolsonarismo como movimento político constituído na confluência entre crises da democracia brasileira, avanço do neoliberalismo, conservadorismo autoritário e reatualização de elementos do fascismo.

A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como uma corrente partidária ou como expressão de preferências eleitorais individuais. Trata-se de um fenômeno ideológico que articula interesses econômicos, ressentimentos sociais, discursos moralistas, militarismo e formas de mobilização política centradas na figura de um líder apresentado como salvador da nação. Sua força decorre, em parte, da capacidade de transformar insatisfações legítimas com a política em adesão a uma narrativa simplificadora, que identifica inimigos, promete restaurar uma ordem idealizada e deslegitima as instituições e os grupos que oferecem resistência ao projeto autoritário (Silva Júnior e Fargoni, 2020).

A dimensão personalista e fanática do bolsonarismo se manifesta na construção de uma relação de identificação emocional entre o líder e seus apoiadores. Em vez de se fundamentar prioritariamente na discussão pública de programas, na avaliação crítica das decisões governamentais e no confronto democrático de ideias, essa relação tende a organizar-se em torno da fidelidade à pessoa do líder e à identidade coletiva que ele simboliza.

Não importa o que o líder diga ou faça, mesmo que expresse discursos horrorosos, posicionamento indefensáveis sob o ponto de vista racional ou ética, será aplaudido pelos seus seguidores. Silva Junior e Fargoni (2020) destacam no referido artigo o papel da televisão e das redes sociais na difusão de discursos de Bolsonaro, bem como a circulação de notícias falsas e a atuação de influenciadores digitais na conformação das percepções políticas. Foi este exército de seguidores que rendeu a eleição em 2018.

Nesse processo, a repetição de mensagens simplificadoras, a exploração do medo e a mobilização de sentimentos de pertencimento favorecem comportamentos dogmáticos, nos quais a crença pode se sobrepor à reflexão. O líder passa a ser percebido como alguém que encarna a vontade do povo, enquanto críticos, opositores, intelectuais, cientistas e instituições democráticas podem ser apresentados como adversários da pátria. O fanatismo político, portanto, não significa simplesmente apoiar intensamente uma liderança: significa, sobretudo, reduzir a disposição para questioná-la, relativizar fatos que a contradizem e tratar a divergência como ameaça moral ou política.

A articulação com o neoliberalismo constitui outro elemento decisivo para compreender a natureza do bolsonarismo. Conforme Silva Júnior e Fargoni (2020) argumentam, o movimento aproximou setores conservadores e autoritários de grupos empresariais e financeiros interessados na implementação de reformas econômicas, na redução da esfera pública e na ampliação das condições de valorização do capital.

Empresários gananciosos por faturar mais com seus empreendimentos abraçaram o bolsonarismo como sendo o que lhe daria a oportunidade de pagar menos impostos, reduzir ou eliminar os direitos trabalhistas dos funcionários, ampliar sua fome de dinheiro, enfraquecer as instituições reguladores e fiscalizadores, sentirem-se os novos reis do mercado.

Constitui-se em torno do bolsonarismo o pacto entre fascistas e neoliberais. Embora entre estes dois grupos não partilhe integralmente os mesmos valores, estabelecem uma convergência política em torno de objetivos que se reforçam mutuamente. De um lado, o autoritarismo mobiliza o nacionalismo, a defesa de tradições idealizadas, o anticomunismo, o militarismo e a intolerância à pluralidade; de outro, a racionalidade neoliberal privilegia a concorrência, a meritocracia, a flexibilização das relações de trabalho, a redução de direitos sociais e a transferência de responsabilidades coletivas aos indivíduos. Um casamento que mistura interesses econômicos, agendas ideológicas, fanatismo religiosos, patriotismo de fachada, sequestro dos símbolos nacionais, corrupção, perseguição as instituições que defendem direitos sociais.

O discurso de renovação moral e de combate aos inimigos da nação oferece legitimidade popular a um projeto econômico que pode aprofundar desigualdades e concentrar riqueza e poder. Assim, enquanto a retórica política mobiliza afetos e identidades, as reformas econômicas reorganizam as relações entre Estado, mercado e sociedade. É nesse sentido que Silva Júnior e Fargoni (2020) identificam um pacto entre o autoritarismo de inspiração fascista e os interesses neoliberais.

A consequência mais dramática dessa convergência aparece naquilo que Silva Junior e Fargoni (2020) denominam necropolítica: uma forma de exercício do poder que estabelece, direta ou indiretamente, quais vidas serão protegidas e quais poderão ser expostas à morte, ao abandono e à precarização. A categoria necropolítica está associada à produção de inimigos, à desvalorização da vida humana, ao negacionismo científico, à militarização e à intensificação da exclusão de grupos historicamente vulnerabilizados.

A pandemia de Covid-19 tornou particularmente visível esse problema, segundo a análise do que aconteceu em 2020 com o desastroso Governo Bolsonaro, diante da minimização da gravidade da doença (“Era só uma gripezinha”), dos conflitos com orientações científicas (a constante troca de ministros da saúde, indicação de cloroquina, invermectina e outros medicamentos em vez de providenciar a compra imediata de vacinas) e das própria atitudes presidenciais que contribuíram para desacreditar medidas de proteção (negar o uso da máscara, da vacina, vulgarizar o lockdawn, detre outros).

A necropolítica não se restringe, contudo, à morte física: manifesta-se também na desproteção social, no enfraquecimento de direitos, na indiferença diante da desigualdade e na naturalização de condições de vida que expõem determinados grupos a riscos desproporcionais. Quando a violência é legitimada pela linguagem política, a ciência é tratada como inimiga e a existência de populações vulneráveis deixa de orientar a responsabilidade pública, a democracia perde parte de seu fundamento ético. O fanatismo personalista contribui para esse processo quando transforma decisões governamentais em demonstrações de lealdade ao líder e enfraquece a capacidade coletiva de responsabilizar o poder.

Em síntese, a interpretação de Silva Júnior e Fargoni (2020) permite compreender o bolsonarismo como um fenômeno no qual personalismo, fanatismo político, autoritarismo e neoliberalismo se articulam na produção de uma ordem social excludente. A centralidade do líder favorece a adesão emocional; a fabricação de inimigos alimenta a polarização; o negacionismo enfraquece os critérios públicos de validação do conhecimento; e a convergência com interesses econômicos sustenta reformas que podem restringir direitos e aprofundar desigualdades.

A necropolítica representa o desdobramento extremo dessa combinação quando a proteção da vida deixa de constituir um princípio universal e passa a ser subordinada a interesses políticos, econômicos e ideológicos. Essa leitura não exige afirmar que todo conservador ou defensor de políticas de mercado seja fascista, mas reconhecer que determinadas alianças podem conferir legitimidade democrática a práticas autoritárias e a políticas socialmente destrutivas. A defesa da democracia requer, portanto, mais do que eleições: exige instituições responsáveis, valorização da ciência, direitos sociais, pluralismo político e formação crítica capaz de resistir à manipulação e à desumanização.

Bolsonarismo como patologia social: fake news, fanatismo religioso e neofascismo

O bolsonarismo é frequentemente analisado na literatura acadêmica e no debate público não apenas como uma vertente política ou ideológica, mas em chaves que cruzam a sociologia, a psicologia social e a ciência política, compreendendo-o como um sintoma de patologia social, fenômeno de opinião pública ou articulação neofascista/autoritária.

Compreender o bolsonarismo como uma forma de patologia social significa investigar os processos políticos, culturais e comunicacionais que favorecem a deterioração do debate público, a intolerância à diferença e a adesão a formas autoritárias de exercício do poder.

A expressão não deve ser entendida como diagnóstico clínico de indivíduos ou como desqualificação de todos os eleitores de Jair Bolsonaro, mas como uma categoria crítica para analisar relações sociais que passam a naturalizar a mentira, a violência simbólica, a perseguição aos adversários e o enfraquecimento de valores democráticos. Dois estudos contribuem particularmente para essa interpretação: o artigo Bolsonarismo e a psicologia das massas 100 anos depois, de Fábio Santos Bispo, Melissa Festa Scaramussa e Beatriz Oliveira da Silva, publicado em 2022, e o artigo O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica, de João Feres Júnior e Carolina Almeida de Paula, publicado na revista Dados, em 2025. Embora adotem abordagens diferentes, ambos ajudam a compreender que a força do bolsonarismo não pode ser explicada apenas pela adesão a valores conservadores: é necessário examinar também os vínculos afetivos, as formas de identificação política e os circuitos de informação que sustentam suas crenças e práticas.

Um dos mecanismos centrais desse fenômeno é a circulação de fake news e de versões alternativas dos fatos. Bispo, Scaramussa e Silva (2022) retomam a psicologia das massas de Sigmund Freud para analisar como a intensificação das emoções, a identificação com o grupo e a idealização de uma liderança podem enfraquecer a disposição individual para verificar informações. Nessa dinâmica, uma mensagem não precisa ser verdadeira ou estar sustentada em evidências para adquirir força política: basta que confirme crenças anteriores, provoque indignação ou reforce a sensação de pertencimento.

As redes sociais potencializam esse processo ao permitir a circulação contínua de conteúdos, a formação de comunidades relativamente fechadas e a repetição de narrativas que apresentam os adversários como ameaças. Os autores também destacam a desqualificação de universidades, jornalistas, cientistas e instituições públicas como parte de uma estratégia que explora a desconfiança social para fazer prevalecer uma suposta verdade alternativa. Assim, a mentira política deixa de ser apenas um recurso ocasional de propaganda e passa a integrar uma forma de organização da experiência coletiva, na qual a fidelidade ao grupo pode se sobrepor à verificação dos fatos (Bispo, Scaramussa e Silva, 2022).

O estudo de Feres Júnior e Almeida de Paula (2025) amplia essa interpretação ao argumentar que a esfera comunicacional constitui um elemento central para compreender o bolsonarismo. Com base em uma pesquisa qualitativa nacional realizada por meio de grupos focais com apoiadores persistentes e pessoas arrependidas do voto em Bolsonaro, os autores examinam não apenas as preferências políticas dos participantes, mas também seus hábitos de consumo de informação e os modos pelos quais constroem suas interpretações da realidade.

A hipótese central é que o acesso facilitado a versões alternativas dos acontecimentos e a narrativas políticas concorrentes ajuda a conectar grupos com motivações distintas. Mensagens sobre corrupção, segurança pública, família, gênero, religião, patriotismo e economia podem mobilizar públicos diferentes em torno de uma mesma liderança, ainda que não exista completa unidade entre seus interesses ou convicções. Essa abordagem permite perceber que o bolsonarismo não se reduz a uma ideologia inteiramente homogênea: sua coesão é produzida, em parte, por circuitos de comunicação que selecionam, reforçam e difundem narrativas capazes de manter a identificação política (Feres Júnior e Almeida de Paula, 2025).

A relação entre fanatismo religioso e bolsonarismo deve ser compreendida nesse contexto de mobilização das crenças e dos afetos. O problema não está na religiosidade em si, nem na participação política de cristãos, evangélicos ou católicos, mas na instrumentalização política da fé quando determinadas lideranças apresentam suas posições como expressão exclusiva da vontade divina e convertem adversários políticos em inimigos morais ou espirituais.

No cenário analisado pelos dois artigos, temas relacionados à sexualidade, à família, aos valores tradicionais e à chamada ideologia de gênero foram mobilizados para estabelecer vínculos entre a liderança bolsonarista e segmentos religiosos. A política passa, então, a ser interpretada por meio de uma oposição moral entre o bem e o mal, na qual apoiar determinado líder pode adquirir o significado de defender a família, a pátria ou a própria fé. Essa sacralização da liderança dificulta o questionamento crítico: uma crítica ao governante pode ser percebida como agressão às convicções religiosas do grupo, enquanto informações contraditórias são rejeitadas como parte de uma conspiração contra os valores que ele afirma defender. O fanatismo emerge quando a crença deixa de conviver com a reflexão, a pluralidade e a possibilidade de revisão e passa a exigir fidelidade incondicional. É importante, entretanto, não confundir esse processo com a totalidade das comunidades religiosas, que são diversas e também podem constituir espaços de solidariedade, justiça social e resistência ao autoritarismo (Feres Júnior e Almeida de Paula, 2025).

A articulação entre desinformação, mobilização religiosa e neofascismo torna-se mais evidente quando se observa a construção de uma liderança personalista, apresentada como alguém que desafia as instituições, enfrenta inimigos supostamente poderosos e representa diretamente a vontade de um povo idealizado. Bispo, Scaramussa e Silva (2022) interpretam essa identificação a partir da psicologia das massas: o líder pode ser idealizado não necessariamente por suas virtudes tradicionais, mas por sua imagem de alguém que rompe convenções, afronta adversários e manifesta abertamente impulsos de agressividade.

A transgressão das normas de convivência pode ser reinterpretada pelos apoiadores como autenticidade e coragem, enquanto a hostilidade contra grupos considerados diferentes é apresentada como demonstração de força. Essa dinâmica guarda afinidades com mecanismos historicamente explorados pela propaganda fascista, como a fabricação de inimigos, o culto à liderança, a mobilização de ressentimentos e a deslegitimação de instituições que limitam o poder. No caso brasileiro, discursos de exaltação do militarismo, apologia à violência e ataques à legitimidade de instituições democráticas podem contribuir para normalizar práticas autoritárias (Bispo, Scaramussa e Silva, 2022). Isso não significa que todos os apoiadores compartilhem um projeto neofascista plenamente consciente, mas que determinados mecanismos de mobilização podem favorecer a erosão do pluralismo e a aceitação de soluções autoritárias.

É justamente nesse ponto que a noção de patologia social adquire força explicativa. Uma sociedade passa a apresentar sinais de deterioração democrática quando a mentira se torna um instrumento habitual de mobilização, a divergência é tratada como ameaça, a ciência é desacreditada por conveniência ideológica e a fidelidade a uma liderança se sobrepõe à responsabilidade de avaliar criticamente suas decisões. Bispo, Scaramussa e Silva (2022), destacam que durante a pandemia de Covid-19, a circulação de discursos negacionistas e de informações prejudiciais à saúde pública, evidenciando que as consequências da desinformação ultrapassam o campo eleitoral e podem afetar diretamente a proteção da vida.

O estudo de Feres Júnior e Almeida de Paula (2025), por sua vez, chama atenção para a importância dos hábitos de consumo de informação e dos circuitos comunicacionais na sustentação do bolsonarismo. Em conjunto, essas análises permitem compreender que o fenômeno não se explica simplesmente pela existência de pessoas conservadoras ou religiosas, mas por uma articulação entre identificação afetiva, desinformação, polarização moral e formas de comunicação que podem tornar determinadas crenças resistentes à crítica. Quando essa articulação enfraquece a capacidade de reconhecer fatos compartilhados e de conviver democraticamente com o dissenso, o problema deixa de ser apenas individual e passa a comprometer as condições coletivas da vida democrática.

Em síntese, interpretar o bolsonarismo como patologia social significa reconhecer uma forma de organização política na qual fake news, instrumentalização da religião e mecanismos de mobilização neofascista podem se reforçar mutuamente. A desinformação oferece narrativas simplificadoras; o fanatismo transforma essas narrativas em certezas protegidas contra o questionamento; e a identificação com uma liderança personalista converte a adesão política em vínculo afetivo e moral.

As redes digitais ampliam a circulação dessas mensagens e favorecem sua repetição, enquanto a desqualificação das instituições científicas, jornalísticas e democráticas reduz os espaços de verificação e debate. Enfrentar esse processo exige fortalecer a educação crítica, o letramento midiático, a formação científica e a cultura democrática, sem estigmatizar a diversidade religiosa ou presumir que todos os apoiadores de uma corrente política sejam iguais.

A questão fundamental é preservar as condições sociais para que as crenças possam ser discutidas, as informações verificadas, as lideranças responsabilizadas e as diferenças reconhecidas. A defesa da democracia depende, em última instância, da capacidade de impedir que a fidelidade a um líder ou a um grupo se torne mais importante do que a verdade factual, a dignidade humana e o direito de todos à participação política. Que tenhamos coragem de defender a democracia e tudo o que ela representa para o POVO BRASILEIRO.

Referências

BISPO, Fábio Santos; SCARAMUSSA, Melissa Festa; SILVA, Beatriz Oliveira da. Bolsonarismo e a psicologia das massas 100 anos depois. Trivium — Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 14, número especial, abr. 2022. Disponível em: PePSIC/SciELO.

BRITO FILHO, Cláudio Orestes. Intoxicação digital. Paraíba: Espaço APMED, 2023. Disponível em: https://crmpb.org.br/artigos/espaco-apmed-intoxicacao-digital. Acesso em: 20 jul. 2026.

BAPTISTA, Angela, JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Editora Ágalma: Salvador, 2017.

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Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Para entender o discurso de ódio”: www.neipies.com/para-entender-o-discurso-de-odio/

Edição: A. R.

Casa da Mãe, lugar de irmãos

Nós, católicos, não adoramos Nossa Senhora, pois adorar é reconhecer alguém como Deus e prestar-lhe culto supremo. Na doutrina católica, a adoração é devida somente a Deus. Nós veneramos Nossa Senhora pelo respeito e dignidade que Ela merece, como Mãe de Deus e nossa intercessora.

A devoção popular a Nossa Senhora Aparecida começou ainda no ano de 1717, quando três pescadores receberam a missão de apanhar peixes para o banquete oferecido ao Conde de Assumar, governador da província, que iria visitar o povoado de Guaratinguetá, em SP. Um tanto frustrados, pois sabiam que, se não conseguissem, sofreriam consequências, decidiram lançar suas redes mais uma vez. Foi então que, no rio Paraíba do Sul, pescaram primeiro o corpo e depois a cabeça de uma imagem de terracota da Virgem Maria, unindo-as milagrosamente, iniciando uma história que foi adquirindo, cada vez mais, significado para o povo, tanto é que, no ano de 1930, foi declarada a padroeira do Brasil.

Em 1980, o governo brasileiro decretou o dia 12 de outubro como Feriado Nacional Oficial em honra a Nossa Senhora Aparecida, data em que milhões de fiéis participam de romarias, procissões, missas e visita a santuários, em todo o país.

Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, não é diferente. A Romaria realizada na cidade é um dos maiores e mais expressivos eventos religiosos da região sul do Brasil. Celebrada sempre no segundo Domingo do mês de outubro, reúne dezenas de milhares de fiéis que viajam de diversas cidades para demonstrar sua fé, agradecer por graças alcançadas e renovar seus pedidos à padroeira do país e da Arquidiocese de Passo Fundo.

Ainda é madrugada, quando as ruas e avenidas da cidade são tomadas de devotos, que percorrem muitos quilômetros a pé, para prestar sua homenagem a Mãe Aparecida. Todos caminham na mesma direção, para a casa da Mãe, onde se encontram com os irmãos. Cada romeiro expressa, do seu modo, o amor e o respeito para com Nossa Senhora, andando com os pés descalços, carregando flores, velas, crianças vestidas de anjos e com o manto de Nossa Senhora Aparecida. Enfim, o evento é marcado por uma grande expressão de fé.

A Romaria fortalece a identidade cultural da região, promovendo a solidariedade, a paz e a comunhão entre pessoas de diferentes idades e classes sociais, unidas pela mesma devoção.

Aliás, é bom que se diga que nós, católicos, não adoramos Nossa Senhora, pois adorar é reconhecer alguém como Deus e prestar-lhe culto supremo. Na doutrina católica, a adoração é devida somente a Deus. Nós veneramos Nossa Senhora pelo respeito e dignidade que Ela merece, como Mãe de Deus e nossa intercessora. Essa distinção é fundamental para compreender a profundidade da nossa fé, que não diminui a glória divina, mas exalta a grandeza de Deus por meio da obra que Ele realizou em Maria.

A Romaria, portanto, não é apenas um ato de devoção popular, mas também um testemunho público dessa fé, que reconhece em Maria o exemplo perfeito de entrega à vontade de Deus.

Cada passo dado em direção ao santuário é uma oração silenciosa, um gesto de confiança e um ato de amor. A Romaria nos convida a refletir sobre a nossa própria jornada de fé. Assim como Maria se colocou a caminho para visitar Isabel, nós também somos chamados a sair de nós mesmos, a ir ao encontro do outro, a levar a alegria do Evangelho a quem precisa.

A figura de Nossa Senhora Aparecida transcende a dimensão estritamente religiosa, consolidando-se como um dos maiores pilares do patrimônio cultural, histórico e da identidade nacional brasileira. Reconhecida oficialmente como a Padroeira do Brasil, sua representação está intrinsecamente ligada à formação sociocultural do país.

Que Nossa Senhora Aparecida continue a nos inspirar e guiar em cada passo de nossa caminhada. Que sua bênção maternal nos fortaleça na fé, na esperança e na caridade, para que possamos ser instrumentos de paz e amor em nossas comunidades.

Fotos: Ladir Casagrande

Autor: Padre Ladir Casagrande. Natural de São Valentim do Sul – Formado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo, em Teologia pelo Itepa e Comunicação Social pela Unisinos. Atualmente estou como pároco da Paróquia Santo Antônio em Passo Fundo, vice-diretor do Grupo Planalto de Comunicação e coordenador da Caritas Arquidiocesana de Passo Fundo.

Edição: A. R.

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