O que é o sionismo dos judeus?

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Recentemente foi lançado o livro “Contra o Sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista”. O autor do livro é Breno Altman, jornalista e fundador de Opera Mundi, com uma linha editorial progressista, onde escreve e apresenta os programas 20 Minutos e Outubro.

Altman é judeu. Se declara antissionista. E o que seria sionismo?

O Sionismo se originou antes da Primeira Guerra mundial e pode ser considerado um movimento político-religioso de uma parte dos judeus, principalmente da Europa e Estados Unidos, que visava a criação do Estado de Israel. Pensaram em criar Israel em regiões não povoadas, como na Patagônia Argentina ou no Congo/África, mas o nacionalismo sionista escolheu a Palestina, região densamente povoada pelos palestinos/árabes.

Poderiam ter criado Israel na Europa ou nos Estados Unidos, onde a maior parte dos “auto declarados” judeus vivia. Foi uma escolha deles, judeus europeus/estadunidenses, não precisavam ter criado o Estado de Israel na Palestina. 

Os sionistas (uma parte dos judeus) não querem outras pessoas morando no mesmo local que eles, querem um local/país habitado somente por eles judeus (isso seria racismo?), porque se consideram o povo escolhido por Deus.

O local escolhido por eles sionistas para estabelecer seu país (a Palestina) seria a Terra Prometida por Deus para os judeus.  Dessa forma, eles judeus teriam o direito “sagrado” de acesso e posse das terras da Palestina, onde há árabes vivendo a milênios. Por isso a ocupação, invasão e expulsão dos palestinos, hoje genocídio. Os sionistas governam Israel. Há judeus que não concordam com os judeus sionistas.

Sionismo é a doutrina que rege Israel. Não é a religião judaica que determina a natureza do Estado de Israel.

Assista também: https://www.youtube.com/live/7TvL0FP64Eo?si=RqQ9Mg3kgURzS3WI

Mas quem eram, ou quem são os judeus? Quem pode ser considerado judeu?

O intelectual judeu Shlomo Sand, do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Tel Aviv/Israel, no livro “A invenção do povo judeu”, diz que os judeus não são um povo. Ele afirma que a compreensão dos judeus como um povo foi criação do sionismo. Que os “autodenominados” judeus tem origem em vários povos com culturas e histórias diferentes.

Dessa forma, judeus não constituem uma nacionalidade e tampouco podem ser resumidos como seguidores de uma religião, porque muitos judeus são ateus ou agnósticos. A suposta origem dos judeus na Mesopotâmia/Canaã, há mais de 3.000 anos, está muito distante no tempo para ser caracterizada como uma identidade nacional.

O sionismo judeu, ainda antes da criação de Israel, criou braços paramilitares, como o Irgun e o Lehi, que recorreram à violência contra alvos militares e civis, operando do mesmo modo do atual Hamas, que agora chamam de terrorista. Begin, dirigente sionista do Irgun, organizou a explosão em 1946 do Hotel Rei Davi em Jerusalém, matando 91 pessoas. Mesmo assim, Begin, que explodiu o hotel em 1946, foi primeiro-ministro de Israel de 1977 a 1983.

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Boa leitura!

Autor: João Carlos Loebens. Também escreveu e publicou no site “Negacionismo: força destrutiva, inclusive o negacionismo econômico”: www.neipies.com/negacionismo-forca-destrutiva-inclusive-negacionismo-economico/

Edição: A. R.

Educação a Distância (EaD): solução ou problema para a Educação?

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A expansão vertiginosa da modalidade EaD ocorrida nos últimos tempos tem provocado intensos debates em diversos âmbitos da sociedade: pesquisadores, intelectuais, políticos, empresários, professores, gestores, estudantes, profissionais liberais, famílias, instituições educativas, meios de comunicação, redes sociais, especialistas, formadores de opiniões tem se manifestado intensamente sobre o assunto das mais diversas formas.

No coração deste debate, ou, talvez, nas entrelinhas, a modalidade enfrenta dilemas, barreiras, críticas, defesas e elogios. A modalidade enfrenta barreiras que vão além da tecnologia, tocando na estrutura social do funcionamento das instituições de ensino, bem como na estrutura pedagógica do como ocorre os processos pedagógicos.

O isolamento do estudante, marcado pela falta de convívio social e pela troca de experiências contextuais; a alta evasão reconhecida pelos próprios números do Ministério da Educação e pelas Secretarias Estaduais, decorrentes da dificuldade que os alunos que frequentam essa modalidade apresentam tem gerado desistências em massa; a exclusão digital, provocada pelo fato de que muitos alunos (geralmente os mais pobres) não possui acesso à internet de qualidade ou equipamentos adequados; a precarização docente, decorrente de profissionais com pouca formação, na maioria das vezes nominados como tutores, sobrecarregados de tarefas, mas remunerados ou com contratos temporários; a massificação padronizada, produzida por plataformas digitais com conteúdos descontextualizados e estranhos às realidades regionais.

Estes, citados acima, são alguns dos dilemas recorrentemente apontados pela literatura crítica que vê EaD um perigo de desmonte de uma educação minimamente qualificada para formar nossas crianças, jovens e adultos que são empurrados para esta modalidade de escolarização.

Possivelmente um dos pontos mais críticos da EaD, diz respeito a formação de professores. A formação, importante sublinhar, não pode ser reduzida a um processo simplificado de treinamento, ou a diplomação vergonhosamente vendida em cursos comercializados no insaciável mercado educacional.

A ausência da presencialidade, a interlocução com colegas e professores que ocorre na modalidade presencial, a falta de convívio direto com a rotina e os desafios da sala de aula física, a perda da dimensão afetiva que ocorre nos tempos e espaços de diálogo em sala de aula, bem como o aligeiramento (de)formativo, são problemas incontornáveis resultantes dos questionáveis processos de formação na modalidade EaD dos professores.

Diversos estudos indicam que a modalidade EaD tornou-se o principal motor do “empresariamento” ou “mercantilização da educação. Como bem nos lembra o pesquisador francês Christian Laval (2019), A Escola não é uma Empresa. No entanto, a lógica da empresa tem sido cada vez mais fagocitada no cotidiano das escolas. Políticos neoliberais, secretários de educação, gestores, setores empresariais da educação tem se abraçado nos princípios da racionalidade neoliberal (Dardot e Laval, 2016) para replicar a lógica da empresa no funcionamento da escola.

No Ensino Superior, a modalidade EaD tornou-se o campo fértil para proliferar a lógica empresarial que se faz presente na “economia de escala” *(um único professor grava aulas para milhares de alunos , reduzindo drasticamente o custo  por matrícula e aumentando os lucros para os donos do empreendimento), na substituição de professores por tutores (demissão de professores qualificados com mestrado e doutorado e contratação de monitores com baixa remuneração e formação técnica limitada), na financeirização (instituições de ensino transformadas em empresas de capital aberto, listadas inclusive na Bolsa de Valores, onde o lucro dos acionistas muitas vezes supera a preocupação com a aprendizagem e a formação dos alunos) e na absorção da lógica do mercado (o estudante é tratado como cliente, o professor/tutor como um mero prestador de serviço e o diploma como um produto que pode ser adquirido de forma rápida e barata).

A modalidade EaD, apresentada de forma entusiasmada pelos empresários da educação e pelos políticos de plantão que mais estão preocupados em se manter no poder e ter o apoio dos grandes grupos econômicos que veem na formação crítica dos estudantes uma ameaça aos seus ganhos fáceis, produz um conjunto de perigos à democracia e a soberania do país.

Nada melhor para dominar e explorar um povo do que tirar-lhe a oportunidade de ter acesso a um processo educacional que promova a formação crítica, a consciência dos problemas que nos ameaçam e a compreensão dos mecanismos que produzem a desigualdade e a injustiça social.

Quando o país e as instituições formativas se tornam reféns dos grandes grupos empresariais que transformaram a educação num balcão de negócios (Fávero e Trevisol, 2020), corremos um sério perigo de comprometer as bases fundamentais da formação das próximas gerações.

Indico alguns destes perigos provocados pelo crescimento descontrolado da EaD: a) o apagão cognitivo e técnico, decorrente da (de)formação de professionais com baixo repertório crítico; b) o monopólio do pensamento, resultante da padronização de currículos controlados por poucas corporações que controlam as plataformas digitais, manipulam o que deve ser ensinado e excluem a possibilidade do contraditório considerado fundamental para a saúde de uma democracia; c) subordinação da soberania educacional, onde os processos educativos tornam-se subservientes aos ditames do poder econômico cujas decisões sobre o que e como ensinar passam a seguir os interesses do mercado financeiro e não as necessidades sociais e científicas do país; d) drenagem dos subsídios públicos para os poderosos grupos empresariais da educação que ditam a agenda do Ministério da Educação e absorvem grande parte dos recursos públicos pela prestação de serviços que supostamente prestam a educação pública.

Na convergência das reflexões apresentadas até aqui, gostaria de comentar e apresentar uma breve síntese do artigo “O novo marco normativo da educação à distância no ensino superior: uma esperança possível para a excelência acadêmica? (Trevisol; Fávero; Mikolaiczik e Consaltér, 2026) publicado na última semana na qualificada (Qualis A1) Ensino em Revista.

No final deste escrito está o link para o acesso do artigo completo. A motivação de fazer esta síntese, é apresentar o leitor desta coluna um escrito mais condensado das reflexões e argumentos apontados no artigo.

O artigo “O novo marco normativo da educação à distância no ensino superior: uma esperança possível para a excelência acadêmica e formativa?” analisa criticamente o processo de expansão da Educação a Distância (EaD) no ensino superior brasileiro, tomando como eixo central a relação entre regulação estatal, neoliberalismo, flexibilização, privatização e precarização da formação universitária. O ponto de partida é a constatação de que a EaD deixou de ocupar uma posição periférica no sistema brasileiro de educação superior e passou a constituir um dos principais mecanismos de expansão das matrículas, especialmente no setor privado. Em 2024, pela primeira vez, a EaD ultrapassou a presencialidade em número de matrículas, representando 51% do total.

A investigação é orientada por uma questão fundamental: as mudanças na legislação educacional são capazes de conter os processos de precarização da formação superior associados à expansão da EaD? Para responder a essa questão, os autores analisam comparativamente os dois marcos regulatórios mais recentes da modalidade: o Decreto nº 9.057/2017 (Brasil, 2017) e o Decreto nº 12.456/2025 (Brasil, 2025). A pesquisa é de natureza bibliográfica e documental, possui abordagem qualitativa e utiliza a Análise de Conteúdo, tendo como categorias previamente definidas a flexibilização e a privatização.

O argumento central desenvolvido no artigo é que a EaD não pode ser compreendida simplesmente como uma inovação tecnológica ou como uma alternativa metodológica à educação presencial. É necessário inseri-la nas condições econômicas, políticas e sociais que estruturam o ensino superior brasileiro. A universidade, enquanto instituição social, expressa as contradições da sociedade na qual está inserida; portanto, as transformações que atingem a educação superior também refletem disputas entre diferentes projetos de sociedade e de formação.

Nessa perspectiva, o problema não está na EaD enquanto modalidade educacional em si. Os autores reconhecem que ela pode ampliar oportunidades de acesso ao ensino superior, particularmente em regiões nas quais a oferta presencial é limitada. A questão crítica reside, sobretudo, na forma como a modalidade vem sendo apropriada pelo mercado educacional, convertendo a educação em serviço comercializável, submetendo a formação à racionalidade empresarial e subordinando decisões pedagógicas a critérios de eficiência, escala, produtividade e rentabilidade.

O artigo, portanto, desloca o debate da oposição simplista entre educação presencial e EaD para uma questão mais profunda: qual projeto de educação superior está sendo construído por meio da expansão da EaD? Essa pergunta permite perceber que a expansão quantitativa da modalidade não necessariamente corresponde à democratização substantiva da educação. A ampliação das matrículas precisa ser confrontada com as condições de permanência, conclusão, qualidade da formação, trabalho docente, interação pedagógica e compromisso social das instituições.

De que forma o neoliberalismo se faz presente na EaD do ensino superior brasileiro

A presença do neoliberalismo na EaD aparece, no artigo, principalmente pela transformação da educação superior em mercadoria e campo de investimento econômico. A racionalidade neoliberal desloca o sentido da universidade como espaço de formação humana, produção de conhecimento, pensamento crítico e participação social para uma instituição cada vez mais orientada pelos princípios da concorrência, eficiência, produtividade, resultados e empregabilidade.

Nesse contexto, a EaD apresenta características particularmente adequadas à expansão de uma lógica empresarial. Sua estrutura permite ampliar significativamente o número de estudantes sem que os custos cresçam na mesma proporção. A possibilidade de trabalhar com materiais padronizados, plataformas digitais, grandes contingentes de estudantes, tutores e estruturas administrativas racionalizadas favorece modelos de negócio baseados na economia de escala. O artigo relaciona esse processo ao fenômeno internacional denominado edu-business, caracterizado pela transformação da educação em negócio e pela atuação de grandes grupos educacionais.

Os dados, baseados no Painel Estatístico Censo da Educação 2024 (Brasil 2025b), apresentados pelos autores são expressivos. Em 2024, 79,8% das matrículas do ensino superior brasileiro estavam no setor privado. No caso específico da EaD, 86% dos estudantes estavam matriculados em instituições privadas com fins lucrativos, 10% em instituições privadas sem fins lucrativos e apenas 4% em instituições públicas. No ingresso, a assimetria também é evidente: no setor privado, 73% dos ingressantes chegaram pela EaD, enquanto no setor público predominou amplamente a modalidade presencial.

Essa configuração evidencia que a expansão da EaD não ocorre de maneira neutra. Ela está fortemente vinculada à privatização do ensino superior, especialmente quando a modalidade se transforma em estratégia de expansão de grandes conglomerados educacionais. O mercado encontra na EaD condições favoráveis para a ampliação das matrículas, redução de custos, padronização dos processos formativos e expansão territorial por meio de polos.

A racionalidade neoliberal (Dardot e Laval, 2026) manifesta-se também na precarização do trabalho docente. O artigo identifica processos como contratação de professores horistas, demissão de doutores, enfraquecimento dos planos de carreira, aumento do número de estudantes por professor, substituição do professor pelo tutor, redução de componentes curriculares considerados pouco rentáveis ou pouco relacionados à formação profissional e ampliação dos investimentos em marketing (Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér, 2026).

Essa transformação altera a própria concepção de docência.

O professor tende a deixar de ser compreendido como intelectual responsável pela mediação pedagógica, pela formação crítica e pela produção de conhecimento e passa a ocupar posições fragmentadas dentro de uma cadeia produtiva educacional. A separação entre professor conteudista, professor regente, tutor, mediador pedagógico e outros profissionais pode produzir uma divisão técnica do trabalho semelhante àquela encontrada em modelos empresariais (Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér, 2026).

Outro aspecto importante é a plataformização da educação. As tecnologias deixam de constituir apenas instrumentos pedagógicos e passam a organizar a própria experiência formativa. A plataforma pode determinar ritmos, materiais, atividades, avaliações, interações e formas de acompanhamento. Nesse modelo, a formação corre o risco de ser reduzida a um conjunto de procedimentos previamente estruturados e mensuráveis (Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér, 2026).

O neoliberalismo aparece, ainda, pela valorização crescente de metas, indicadores, resultados e eficácia em detrimento de dimensões menos facilmente mensuráveis da formação. O artigo alerta para o risco de substituir uma educação voltada à formação de sujeitos críticos e participativos por uma educação subordinada à lógica dos resultados e da eficiência.

Desse modo, a questão fundamental não é simplesmente perguntar se a EaD utiliza tecnologias, mas quem controla essas tecnologias, para quais finalidades elas são utilizadas e a serviço de qual projeto de formação. Quando subordinada prioritariamente à lógica mercantil, a tecnologia pode contribuir para intensificar a padronização, a despersonalização e a precarização da experiência universitária.

Os indicativos do novo marco legal da EaD no ensino superior

O Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025 (Brasil, 2025), representa uma mudança significativa em relação ao Decreto nº 9.057/2017 (Brasil, 2017). O novo marco surge em um contexto de crescimento acelerado da EaD e de críticas relacionadas à qualidade da formação, à precarização do trabalho docente e à expansão desregulada do setor privado. Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér (2026) reconhecem que a nova legislação apresenta avanços importantes, mas questionam se esses avanços são suficientes para romper com as bases neoliberais que estruturam a modalidade.

Entre os principais avanços identificados estão:

  • valorização da excelência acadêmica, da formação para a cidadania e do compromisso social das instituições de educação superior;
  • reconhecimento do direito à qualidade, permanência e aprendizagem;
  • valorização da docência;
  • organização do ensino superior em modalidades presencial, semipresencial e a distância;
  • exigência de algum nível de presencialidade nas diferentes modalidades;
  • garantia de tempo de integralização equivalente entre os formatos;
  • previsão de controle de frequência em atividades síncronas mediadas;
  • proibição da oferta integralmente a distância para cursos da área da saúde e licenciaturas;
  • valorização da produção escrita nas avaliações;
  • exigência de plataformas capazes de assegurar efetivamente a interação pedagógica;
  • proibição do compartilhamento de sedes e polos (Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér, 2026).

Essas mudanças representam uma tentativa de recuperar dimensões formativas que haviam sido fragilizadas pela regulamentação anterior. Particularmente significativa é a preocupação com a presencialidade, com a interação pedagógica e com a formação de professores. A proibição da formação integralmente a distância nas licenciaturas constitui, para os autores do artigo, um mecanismo importante de proteção da qualidade da formação docente. Entretanto, os autores do artigo sustenta que o novo marco não rompe completamente com a flexibilização e a privatização. Permanecem brechas capazes de permitir que a lógica empresarial continue atuando.

Um dos principais problemas refere-se à própria organização do trabalho pedagógico. O decreto estabelece diferentes funções para o professor (regente, conteudista, mediador pedagógico, tutor, coordenador e outros profissionais), sem que todas as atribuições estejam suficientemente definidas. Essa polissemia pode favorecer a contratação de profissionais mais baratos e a substituição progressiva do professor por trabalhadores com funções mais restritas e menor custo. Outro ponto problemático é o estabelecimento de até 70 estudantes por docente ou mediador pedagógico nas atividades síncronas mediadas. Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér, (2026) questionam se é possível assegurar acompanhamento efetivamente pedagógico e aprendizagem significativa em grupos dessa dimensão.

Também merece atenção a possibilidade de utilização de espaços de parceiros privados como polos EaD. Para os autores do artigo, isso pode preservar mecanismos de expansão empresarial da modalidade, permitindo que atividades educacionais sejam desenvolvidas em espaços que não possuem necessariamente finalidade exclusivamente educacional. Soma-se a isso a possibilidade de avaliação por amostragem dos polos, que pode dificultar a identificação de condições precárias de infraestrutura.

Há, portanto, uma contradição interna no novo marco regulatório: de um lado, ele amplia exigências de qualidade, presencialidade, interação, docência e formação; de outro, conserva mecanismos de flexibilização que podem ser apropriados pelas instituições privadas para reduzir custos e ampliar a escala de atendimento. Outro elemento destacado pelos autores no artigo é o prazo de dois anos para implementação das novas regras. Isso significa que, no momento da elaboração do artigo, ainda não era possível avaliar seus impactos concretos. Além disso, Trevisol, Fávero, Mikolaiczik e Consaltér (2026), alertam para a possibilidade de mudanças políticas durante esse período interferirem na efetivação do marco regulatório.

Contribuições ou achados para uma visão crítica da EaD

Uma primeira contribuição/achado do artigo é evidenciar o fato de que a expansão da EaD não pode ser confundida automaticamente com democratização do ensino superior. Embora possa ampliar o acesso em determinadas regiões e para determinados grupos, o acesso só se transforma em democratização quando acompanhado de condições adequadas de permanência, aprendizagem, conclusão e formação de qualidade. A elevada evasão constitui, nesse sentido, um dos principais sinais de alerta apresentados pelo artigo.

O segundo achado é a existência de uma forte relação entre expansão da EaD e precarização do trabalho docente. A ampliação do número de estudantes, a fragmentação das funções, a utilização intensiva de tutores e mediadores, a contratação de profissionais com menor custo e a perda de espaço dos professores com maior qualificação evidenciam que a redução dos custos pode ocorrer às custas das condições de trabalho e da qualidade da mediação pedagógica. O artigo registra, inclusive, situações em que um tutor pode chegar a acompanhar aproximadamente mil estudantes.

O terceiro achado diz respeito à padronização da formação. A educação passa a ser organizada por materiais didáticos, plataformas, conteúdos e processos avaliativos que podem ser reproduzidos em grande escala. Embora a padronização possa favorecer determinados níveis de organização, ela também pode empobrecer a experiência universitária quando substitui a diversidade intelectual, a autonomia pedagógica e a relação dialógica entre professores e estudantes.

O quarto achado refere-se à desintegração da universidade enquanto espaço de formação humana. Quando a universidade passa a operar prioritariamente segundo os critérios do mercado, conhecimentos, disciplinas, professores e experiências formativas são avaliados por sua rentabilidade imediata. O artigo alerta que, nesse cenário, objetos culturais podem transformar-se em objetos de consumo e a experiência universitária pode tornar-se mais isolada e empobrecida.

O quinto achado consiste na necessidade de compreender a EaD como parte de uma transformação mais ampla do ensino superior brasileiro. Não se trata apenas de uma modalidade de ensino, mas de uma estratégia vinculada a mudanças estruturais na organização da universidade, no trabalho docente, no currículo, na gestão e nas relações entre Estado e mercado.

Por fim, o artigo mostra que a regulação estatal é necessária, mas não suficiente. O novo marco representa uma tentativa importante de corrigir distorções produzidas pela legislação anterior, especialmente ao reforçar a qualidade, a presencialidade, a docência e a interação pedagógica. Contudo, enquanto a lógica de privatização, mercantilização, flexibilização e expansão baseada na escala permanecer estruturalmente preservada, a legislação terá dificuldades para produzir uma transformação efetivamente substantiva (Fávero e Mikolaicsik, 2024).

EaD é solução ou problema: uma esperança possível, mas ainda sob disputa

A principal contribuição do artigo está em demonstrar que o debate sobre a EaD precisa ultrapassar a polarização entre “tecnologia” e “tradição”, ou entre “presencial” e “a distância”. O problema fundamental é político, econômico, pedagógico e formativo: trata-se de decidir que concepção de educação superior se deseja construir.

O novo marco regulatório de 2025 pode ser interpretado como uma reação do Estado diante dos efeitos da expansão acelerada da EaD após 2017. Ele introduz princípios e mecanismos capazes de favorecer maior qualidade, sobretudo ao recuperar a importância da presencialidade, da docência, da interação pedagógica, da formação cidadã e do compromisso social. Contudo, o próprio artigo demonstra que esses avanços convivem com mecanismos de flexibilização que preservam condições favoráveis à privatização e à mercantilização.

Por isso, a resposta à pergunta presente no título — “uma esperança possível para a excelência acadêmica e formativa?” — precisa ser cautelosa. Existe, efetivamente, uma possibilidade de avanço, mas ela dependerá menos da existência formal do decreto e mais de sua implementação, fiscalização e interpretação política e pedagógica. A legislação poderá contribuir para conter a precarização somente se houver condições efetivas para que suas exigências sejam cumpridas e fiscalizadas.

Uma visão crítica da EaD não significa negar suas possibilidades. Ao contrário, significa defender que a tecnologia esteja subordinada às finalidades educacionais, e não que a educação seja subordinada às finalidades da tecnologia ou do mercado.

A EaD pode constituir uma importante modalidade de democratização do acesso ao conhecimento, desde que preserve qualidade acadêmica, interação humana, trabalho docente digno, acompanhamento pedagógico, formação crítica, autonomia intelectual e compromisso social.

O grande desafio, portanto, é impedir que a expansão quantitativa seja tomada como sinônimo de democratização. Uma política de educação superior verdadeiramente democrática deve preocupar-se não apenas com quantos estudantes ingressam, mas com o que aprendem, como aprendem, em que condições estudam, quem os acompanha, quais experiências formativas vivenciam e em que condições concluem seus cursos.

Nesse sentido, o artigo sustenta uma posição crítica diante da permanência da racionalidade neoliberal na EaD. A questão central não é rejeitar a modalidade, mas disputar seu significado. É necessário defender uma EaD que não transforme a universidade em empresa, o estudante em consumidor, o professor em trabalhador precarizado e o conhecimento em mercadoria. A excelência acadêmica e formativa somente poderá constituir uma realidade quando a expansão da modalidade estiver efetivamente subordinada ao direito à educação superior de qualidade e à formação humana, científica, ética, democrática e socialmente comprometida.

Assim, o novo marco legal deve ser compreendido como um avanço importante, porém insuficiente. Ele abre possibilidades de resistência à precarização, mas mantém contradições que precisam ser enfrentadas. A efetiva democratização da EaD dependerá, portanto, da capacidade do Estado, das instituições de educação superior, dos docentes e da sociedade de disputar permanentemente os sentidos da formação universitária diante das forças de mercantilização e flexibilização que atravessam o ensino superior brasileiro.

Para os que tiverem interesse, segue o link de acesso ao artigo completo acima sintetizado: https://www.researchgate.net/publication/413920765_O_novo_marco_normativo_da_educacao_a_distancia_no_ensino_superior_uma_esperanca_possivel

Referências:

BRASIL. Decreto nº 9.057 de maio de 2017: Regulamenta o art. 80 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Presidência da República, 2017. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/d9057.htm. Acesso em: 26 set 2025.

BRASIL. Decreto Nº 12.456, De 19 de maio de 2025: Dispõe sobre a oferta de educação a distância por instituições de educação superior em cursos de graduação e altera o Decreto nº 9.235, de 15 de dezembro de 2017, que dispõe sobre o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação das instituições de educação superior e dos cursos superiores de graduação e de pós-graduação no sistema federal de ensino. Brasília, 2025c. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decreto-n-12.456-de-19-de-maio-de-2025-630398639. Acesso em: 26 set. 2025.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

FÁVERO, Altair Alberto; MIKOLAICZIK, Daniê Regina. O avanço do neoliberalismo sob regulação do Estado: o curso de Licenciatura em Pedagogia e o predomínio da educação a distância. PARADIGMA (MARACAY), Venezuela, v. XLV, p. e2024003–17, 2024. Disponível em: https://revistaparadigma.com.br/index.php/paradigma/article/view/1548. Acesso em 9 jan. 2026.

TREVISOL, Márcio Giusti; FÁVERO, Altair Alberto; MIKOLAICZIK, Daniê Regina; CONSALTÉR, Evandro. O novo marco normativo da educação a distância no Ensino Superior: uma esperança possível para a excelência acadêmica formativa? Ensino Em Re-Vista, Uberlândia, MG, v.33, p.1-26, 2026. Disponível em:

http://doi.org/10.14393/ER-v33e2026-25 Acesso em: 10 set.2026.

FÁVERO, Altair Alberto; TREVISOL, Marcio Giusti. Quando a educação se torna um negócio: ideologia neoliberal na educação e a cristalização do novo senso comum pedagógico. Educação Unisinos, São Leopoldo, v. 24, 2020. DOI: 10.4013/edu.2020.241.19585. Acesso em: 17 mar 2026.

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo: Boitempo, 2019.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero –altairfavero@gmail.com. Também escreveu e publicou no site “Plataformização da educação e a indução de um currículo escolar administrado”: www.neipies.com/plataformizacao-da-educacao-e-a-inducao-de-um-curriculo-escolar-administrado/

Edição: A. R.

Escola de Contadores de Histórias: o início

Recebi como presente uma frase do meu xará, o Gabriel, que de forma espontânea disse: “professor, ainda seremos melhores amigos”. Já somos, meu querido, já somos. E são as histórias que vão levar essa amizade ainda mais longe.

Não basta apenas fazer, é preciso também ensinar a fazer. Com esse espírito educador, de quem deseja compartilhar não só conhecimento, mas também vivências enriquecedoras, propus o projeto Escola de Contadores de Histórias, uma iniciativa que teve contemplação de recursos do Edital PNAB Passo Fundo – 2025.  A ideia era simples e clara: levar oficinas formativas a educadores e crianças, transformando pessoas e espaços e garantindo engajamento em torno da arte da oralidade.

Com o apoio de cinco profissionais da contação de histórias de Passo Fundo (Luciana Marinho, Cássio Borges, Vanessa Hickmann, Ezequiel Silva e eu), foram estruturados dois grupos de aprendizes.

A turma de educadores, com as oficinas ocorrendo no espaço da Casa Drum Música e Arte e a turma infantil, em parceria com a Assistência Arquidiocesana da Leão XIII, com atividades que tiveram lugar no Centro de Juventude do Bairro Záchia. Fizemos e acontecemos, como diz o provérbio popular, com a circulação dos oficineiros duas vezes com cada grupo, propondo interações, dividindo técnicas, estimulando à narração. Ocupamos a Feira do Livro de Passo Fundo com uma apresentação em sua programação oficial e promovemos um festival dedicado aos novos narradores. Levamos livros para as crianças participantes do projeto, inundando-os de leitura.

O êxito dessa ação toda se propagou. A Escola de Contadores de Histórias tomou vida própria e se deslocou a outras instituições e municípios. Pensando em contar um pouco desse movimento pioneiro, criei um diário, com anotações pessoais daquilo que vi, ouvi e ajudei a criar.

O que vocês lerão são fragmentos do que ocorreu nessas oficinas, divididos em capítulos curtos. Oxalá essa gana de contar histórias também atinja os leitores. Merecemos – e precisamos! – cada vez mais retornar ao nosso ímpeto imaginativo, de agentes da palavra, para tornar um mundo um pouco melhor. Assim espero.

CAPÍTULO 1

O dia 04 de setembro de 2025 amanheceu chuvoso. Nada de anormal em se tratando do estado mais meridional do Brasil, onde a água tem sido recorrente e castigante. Problemas à parte, foi essa a data que escolhemos para o primeiro encontro de uma série de oficinas visando formar contadores de histórias e espalhar essa arte.

Era o princípio do projeto Escola de Contadores de Histórias, a minha menina dos olhos, que me despertou à consciência da necessidade de formar novos narradores. A responsabilidade daquele pontapé inicial era minha e eu me sentia entusiasmado.

Estive no Bairro Záchia, em Passo Fundo, em um Centro de Juventude mantido pela Assistência Social Arquidiocesana Leão XIII, um local onde a arte e a cultura andam de mãos dadas com uma vontade tremenda de transformar vidas. A chuva atrapalhou um pouco os planos, é verdade. Nem todos os que habitualmente frequentam o espaço estiveram presentes. Mesmo assim deixamos a imaginação tomar conta. Tratei de conhecer um por um, apertar-lhes a mão, apresentar-me. Fiz-me igual a eles; se a minha estatura e a idade destoam para cima em relação a esse público, a imaginação nos coloca em pé de igualdade.

Não foi uma atividade longa, dada a situação. Batemos papo, contei a história “Uma aventura pra lá de doce” (livro de minha autoria) e os desafiei a criarem o final da narrativa. Onde estaria o caderno de receitas de Dona Maria? Essa parte sempre me surpreende. A obra tem um final aberto. O caderno sumido não aparece; fica a cargo do leitor pensar qual é o seu paradeiro. Foi uma mudança da primeira para a segunda edição do livro, pois o final que eu havia criado estava muito aquém daquilo que poderia ter sido.

Ao final apresentamos as nossas ideias e encerramos com a clássica aventura do Zé e do Mané, a jornada de dois amigos narrada com os dedos. Algumas luzes se acenderam nesse primeiro contato. A obra contada tocou em uma memória afetiva especial na vida deles: os doces feitos pelas avós. Nada melhor do que um carinho de avó em forma de comida. É sinônimo de segurança, proteção. É sinônimo de saber ancestral, de raiz. Para uma criança, isso tem um forte significado.

Da personalidade deles, alguns mais expressivos, outros introspectivos. A curiosidade era a mesma. O brilho no olho também. Ao ouvirem a história e, depois, participarem da sua construção, mesmo quem era tímido deixou espaço para o mágico se manifestar. Contar histórias é também saber ouvir, internalizar, deixar fluir. Uma hora a flor desabrocha.

Ao me despedir, recebi como presente uma frase do meu xará, o Gabriel, que de forma espontânea disse: “professor, ainda seremos melhores amigos”. Já somos, meu querido, já somos. E são as histórias que vão levar essa amizade ainda mais longe.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin – Gabito. Também escreveu e publicou no site “Uma cidade contadora de histórias”: www.neipies.com/uma-cidade-contadora-de-historias/

Edição: A. R.

Entre o discurso e o voto: de que lado está o servidor?

Talvez esteja aí uma das maiores injustiças desse debate: quando o serviço público não funciona, frequentemente se olha primeiro para quem está na ponta e quase nunca para quem deveria garantir as condições para que ele funcionasse.

Você, servidor público, sabe melhor do que ninguém o que falta para o serviço público funcionar melhor.

Falta estrutura. Faltam equipamentos que funcionem. Faltam materiais, insumos, pessoal e, muitas vezes, condições mínimas para fazer o trabalho como deveria.

Mesmo assim, você continua.

É você quem abre a escola, atende no posto de saúde, orienta o cidadão, fiscaliza, limpa, conserta, organiza documentos, dirige veículos, cuida das crianças, mantém setores funcionando e, muitas vezes, tira solução de onde parece não existir.

E ainda precisa ouvir reclamações por problemas que não criou.

Talvez esteja aí uma das maiores injustiças desse debate: quando o serviço público não funciona, frequentemente se olha primeiro para quem está na ponta e quase nunca para quem deveria garantir as condições para que ele funcionasse.

Um equipamento velho não é responsabilidade do servidor. A falta de insumo não é responsabilidade do servidor. Uma estrutura inadequada não é responsabilidade do servidor. A falta de planejamento e investimento também não.

Mas, mesmo assim, cresce o discurso de que é preciso “enxugar a máquina”, reduzir servidores, flexibilizar direitos e mexer na estabilidade.

Agora, alguns candidatos apresentam a reforma administrativa como se ela fosse a grande resposta para os problemas do Estado.

Mas vamos combinar: reforma administrativa não conserta equipamento quebrado, não compra medicamento, não coloca professor onde falta professor e não abastece uma unidade de saúde.

Problemas de gestão não se resolvem transformando o servidor em vilão.

Servidor público não pede que o Estado seja ineficiente. Ao contrário. Quer trabalhar melhor, ser respeitado e ter condições para entregar à população o serviço que ela merece.

E ele próprio faz parte dessa população.

Ele e sua família também precisam de escola, saúde, transporte, segurança, atendimento e de tantos outros serviços públicos. Quando o serviço funciona bem, o servidor também ganha. Quando funciona mal, ele também enfrenta a fila, a falta de atendimento, a escola sem estrutura e o posto sem recursos.

Defender um serviço público de qualidade, portanto, não é defender apenas o trabalho do servidor. É defender aquilo que também faz parte da sua própria vida.

Por isso, é preciso olhar com atenção para o discurso político.

Quem passa um mandato inteiro ou uma campanha inteira atacando servidores, tratando direitos como privilégios e o serviço público como um peso para o Estado está dizendo, antes mesmo de ser (re)eleito, qual será sua relação com quem trabalha e com aquilo que é público.

Não é apenas retórica eleitoral. É uma escolha de visão de Estado.

Quando a solução apresentada é sempre reduzir servidores, retirar direitos, enfraquecer carreiras ou tratar a estabilidade como privilégio, acaba-se colocando nas costas de quem está na ponta uma responsabilidade que muitas vezes pertence a quem administra, planeja e decide onde os recursos serão aplicados.

E aqui é preciso fazer uma distinção importante: cobrar o servidor é legítimo. Transformá-lo no culpado por tudo é injusto e ignora a responsabilidade de quem gere os recursos.

A sociedade tem todo o direito de exigir um serviço público melhor. O servidor também.

Mas é preciso perguntar quem oferece as condições para que esse serviço aconteça.

Porque é muito fácil cobrar rapidez de quem trabalha com sistema lento. Cobrar atendimento de quem não tem pessoal suficiente. Cobrar resultado de quem recebe equipamento ultrapassado. Cobrar eficiência de quem precisa improvisar todos os dias.

Não dá para cobrar o resultado e esconder as condições em que o trabalho é feito.

Não existe serviço público sem servidor.

Quando se enfraquece quem está na ponta, enfraquece-se também a escola, a saúde, a assistência, a fiscalização e tantos outros serviços dos quais todos nós dependemos.

Por isso, servidor, não basta ouvir o que um candidato e seu partido prometem. Preste atenção em como ele fala de você e de seu trabalho, mas olhe, sobretudo, para o que seu partido fez quando teve de votar seus direitos e suas condições de trabalho. Porque, na política, discurso de campanha é promessa; voto é posição.

E a sociedade precisa fazer o mesmo.

Na hora de votar, não olhe apenas para quem promete “modernizar” o Estado ou “enxugar a máquina”. Pergunte o que isso significa na prática. Pergunte quem vai perder direitos, quem vai trabalhar com menos recursos e, principalmente, quem vai pagar a conta quando o serviço público for enfraquecido.

Porque, no fim das contas, a conta chega para todos.

O servidor não precisa de políticos que o tratem como problema. Precisa de gestores que entendam que valorizar quem trabalha também é uma forma de valorizar o serviço que chega à população.

E o eleitor precisa olhar além daquilo que quer ouvir em uma campanha. É preciso olhar para o histórico, para as posições e, principalmente, para as escolhas feitas quando foi preciso votar. Porque quem chega ao poder tratando o servidor como inimigo dificilmente vai enxergá-lo como parceiro depois da eleição.

Quem pretende enfraquecer, desmontar ou até mesmo extinguir o serviço público não merece o voto de quem vive dele, trabalha nele e depende dele.

Autor: Jonas A. Fusiger. Já publicamos no site outro texto de sua autoria: Professores sob ataque: o silêncio do poder e o colapso da escola”: www.neipies.com/professores-sob-ataque-o-silencio-do-poder-e-o-colapso-da-escola/. Fusiger mantém o blog Pulsar Debates: https://www.pulsardebates.com.br/

Edição: A. R.

Primeiro catador de materiais recicláveis conhecido no mundo a defender uma tese de doutorado é do RS

A tese inédita, de 520 páginas, foi defendida dia 02 de setembro de 2026, em Cruz Alta, onde funciona a Cooperativa de Materiais Recicláveis UNICCA na qual Alexandre trabalha e sobre a qual fez a sua tese. A mesma foi defendida durante o Encontro Estadual de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis. 

(Por Alexandro Cardoso, Catador, doutor em Antropologia Social (UFRGS)

Não foi apenas a defesa de uma tese de doutorado. Foi um encontro de saberes, trajetórias e lutas que afirmou, dentro e fora da universidade, que catadoras e catadores de materiais recicláveis produzem conhecimento, organizam a vida coletiva e enfrentam diariamente aquilo que chamo de máquina de moer mundos.

Minha tese, defendida dia 2 de setembro de 2026, em Cruz Alta, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS), tem como título “Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis Enfrentam a Máquina de Moer Mundos: Território Vivo e Reciclagem Popular na Cooperativa UNICCA”.  A mesma teve como orientador o Prof. Dr. Jean Segata (UFRGS) e como banca examinadora os professores doutores Cornelia Eckert (UFRGS), Stella Maris Schmall da Cruz (UTFPR) e Dirceu Benincá (FURG).

A tese não nasceu de um olhar distante sobre uma comunidade, como se pesquisadores e pesquisadas ocupassem lados separados. Nasceu da experiência de quem é catador, vive o trabalho da reciclagem, participa da organização coletiva e compreende que a produção de conhecimento precisa reconhecer aqueles que, durante tanto tempo, foram tratados apenas como objeto de estudo, mão de obra barata ou parte invisível da cidade.

Minha própria caminhada ajuda a explicar de onde vem essa pesquisa.

Comecei a catar materiais recicláveis ainda na infância. Fui pai aos 16 anos e, como acontece com tantas pessoas pobres e trabalhadoras, a necessidade de garantir a sobrevivência falou mais alto do que a possibilidade de estudar. Aos 34 anos, eu tinha concluído apenas a quinta série do ensino fundamental. Não era falta de vontade ou de capacidade: era a realidade de quem precisou trabalhar desde cedo, de quem tinha responsabilidades familiares e de quem não encontrava na escola e na sociedade as condições necessárias para continuar.

Essa não é uma história individual.

Ainda hoje, muitas catadoras e catadores têm uma trajetória educacional interrompida ou uma formação escolar limitada pelas desigualdades sociais. Há também companheiras e companheiros mais jovens, que tiveram mais oportunidades e já possuem maior escolaridade. A categoria é diversa, mas a exclusão educacional continua marcando profundamente a vida de grande parte dela. Por isso, esta tese é também um chamado: que catadoras e catadores se animem a retornar à escola, a concluir seus estudos e a ocupar a universidade. Não porque um diploma, por si só, resolva as injustiças, mas porque a educação amplia horizontes, fortalece a autonomia e nos permite disputar os lugares onde se produz conhecimento e se tomam decisões.

Desde que ingressei na universidade, procurei incentivar catadoras, catadores e filhos e filhas de catadores a voltarem ou permanecerem nos estudos. Muitas pessoas concluíram a graduação; algumas já avançaram para a pós-graduação. Essa é uma das maiores alegrias dessa caminhada. Espero que, em pouco tempo, eu não seja o único catador doutor do mundo. Que outros e outras cheguem ao mestrado, ao doutorado e a todos os espaços que historicamente foram apresentados como inacessíveis para a classe trabalhadora, para a periferia e para quem vive da reciclagem.

Essa caminhada também só foi possível porque existem políticas de inclusão.

As cotas sociais são fundamentais para corrigir, ainda que parcialmente, desigualdades que começam muito antes da entrada na universidade. As bolsas de estudo são igualmente decisivas, pois não basta ingressar: é preciso garantir condições materiais para permanecer, pesquisar, escrever, participar das atividades acadêmicas e concluir a formação. Defender a universidade pública, gratuita e de qualidade é defender que pessoas como nós tenham o direito de estudar sem precisar abandonar sua origem, sua comunidade e seu compromisso com a luta coletiva.

A máquina de moer mundos é a estrutura que concentra riqueza e poder, explora trabalhadores e trabalhadoras, transforma tudo em mercadoria e destrói a natureza para manter seus lucros.

Ela atua quando os resíduos são produzidos em excesso e descartados sem responsabilidade; quando os materiais recicláveis são enterrados ou queimados enquanto pessoas sobrevivem com pouca renda; quando se retiram direitos, se privatizam serviços públicos e se tenta transformar a coleta seletiva em negócio para grandes empresas. Atua também por meio do racismo ambiental, econômico e social, que faz recair sobre as populações empobrecidas os maiores impactos da crise climática e da desigualdade.

Mas onde essa máquina tenta produzir descarte, existem pessoas que organizam resistência. Catadoras e catadores transformam aquilo que a sociedade chama de lixo em matéria-prima, trabalho, renda, cuidado ambiental e possibilidade de futuro. A reciclagem popular é essa prática construída coletivamente: ela não se limita ao ato de separar ou comercializar materiais. Ela reúne economia solidária, organização de base, educação ambiental, defesa do território, geração de renda e participação política.

A Cooperativa UNICCA, em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, é um exemplo concreto desse processo. Em seu percurso de organização, a cooperativa avançou de 20 para cerca de 60 catadoras e catadores, de 17 toneladas para aproximadamente 100 toneladas de materiais recicláveis por mês e de rendas muito baixas para uma condição mais digna de trabalho e sobrevivência. São resultados construídos por muitas mãos, com forte protagonismo das mulheres, que representam cerca de 85% da cooperativa e coordenam suas unidades de produção e gestão.

Esses números não devem ser lidos apenas como indicadores de eficiência. Eles expressam vidas que deixaram de depender exclusivamente da informalidade, pessoas que passaram a ter reconhecimento social, famílias que encontraram uma forma coletiva de garantir renda e uma cidade que pode perceber que a reciclagem não é favor, nem caridade: é serviço ambiental, trabalho essencial e parte da solução para a crise ecológica.

Por isso, chamamos a cooperativa de território vivo. Território vivo não é somente o galpão, a esteira, o caminhão ou o material separado. É o espaço onde se constroem relações de solidariedade, partilha de conhecimento, enfrentamento das violências e defesa da vida. É onde se aprende que quem separa um material em casa também precisa compreender o destino dele; que o poder público tem responsabilidade com a coleta seletiva solidária; e que as organizações de catadores devem ser reconhecidas, contratadas e remuneradas pelos serviços que prestam à sociedade.

No território vivo, a reciclagem é também hospital do planeta. Enquanto a máquina de moer mundos produz descarte, contaminação e desigualdade, catadoras e catadores evitam que toneladas de materiais sejam enterradas, retornam matéria-prima à cadeia produtiva e reduzem a pressão sobre a extração de novos recursos naturais. Fazem isso sem receber, na maior parte das vezes, o valor correspondente ao serviço ambiental que realizam. É preciso mudar essa lógica: quem cuida da cidade, da natureza e do futuro não pode continuar sobrevivendo com o que sobra.

A defesa da tese também precisou expressar essa compreensão. Ela foi realizada no território, diante de aproximadamente 150 lideranças de catadoras e catadores do RS e de outros estados com transmissão on-line e tradução para inglês e espanhol, possibilitando a participação de companheiras e companheiros de outros países. Não se tratava de transformar uma defesa acadêmica em espetáculo, mas de dar coerência ao próprio método da pesquisa. Se o conhecimento foi produzido coletivamente, se ele nasce das vivências, da luta e da organização da categoria, era justo que a categoria estivesse presente no momento de sua apresentação e avaliação pública.

A esse modo de pesquisar dei o nome de “pesquisador que vem de dentro”. Não significa abandonar o rigor acadêmico; ao contrário, significa assumir com responsabilidade o lugar de onde se fala, explicitar os vínculos com o campo e reconhecer a potência dos saberes construídos no cotidiano. A universidade pública deve ser um espaço aberto aos sujeitos historicamente silenciados, não para que abandonem suas origens, mas para que possam fortalecer a voz coletiva de seus territórios.

A tese, portanto, não encerra uma trajetória. Ela abre e fortalece uma luta: por políticas públicas de reciclagem popular, por pagamento pelos serviços ambientais, por contratos justos com as organizações de catadores, por infraestrutura, formação e reconhecimento. É uma luta contra a incineração dos recicláveis, contra a privatização da coleta seletiva e contra toda forma de exploração que trata vidas e territórios como descartáveis.

Enfrentar a máquina de moer mundos exige organização coletiva. Exige que a sociedade reconheça quem são as pessoas que estão na linha de frente da defesa ambiental. Exige que a universidade dialogue com os saberes populares e que o poder público escolha investir naqueles que fazem a economia circular acontecer todos os dias.

No território vivo da UNICCA, a reciclagem popular mostra que outro mundo não é apenas uma ideia distante. Ele começa quando aquilo que foi descartado volta a ter valor, quando uma trabalhadora conquista dignidade, quando uma catadora ou um catador decide retomar os estudos e quando a coletividade se organiza para ocupar os espaços de conhecimento e decisão. É dessa prática viva, coletiva e transformadora que nasce o enfrentamento à máquina de moer mundos.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Autor: Alexandro Cardoso. Catador, doutor em Antropologia Social (UFRGS)

Edição: A. R.

O último baile da primavera

 
Se você tivesse me beijado forte, naquela madrugada em nossos 15 anos, teríamos permanecido em nossa pequena vila, para viver um amor possível que a cidade nos roubou?

Se percorrêssemos de novo, todo o caminho desde o início, eu tentaria mudar, nas coisas que mataram o nosso amor… (Banda Scorpions) ¹

Quem dançou de rosto colado, aos seus 15 anos, vai me entender sem demora.  Quem não dançou, perdeu. Lamento!

Enquanto subíamos as escadas do salão paroquial, para uma noite inesquecível, segurávamos nas mãos partes das calças ‘boca de sino’ para que não nos pisassem a barra.

Ouvíamos a música de longe, já iniciada e sempre, sempre a banda de Caxias, visitando a nossa minúscula cidade. O lobo da Estepe tocando ‘He’s my brother’. ²

Era a sina de que o baile começava.

Semanas de espera, um dia inteiro para escolher a roupa, sem telefone em casa, sem carro, sem fakes, trocávamos opiniões na praça mesmo e ali disputávamos qual menina cada um iria levar à pista.

Na adolescência, também se joga xadrez e que ninguém ousasse a romper o acordo.

Coube a mim ficar com a colega de uma rua sem saída.  Fiquei até feliz, pois éramos bons em português e composição. Ambos, adorávamos Belchior. Não que fosse a minha escolha. A questão é que os códigos de comando vinham de quem já havia completado os 16. E até podia comprar cigarros e esnobar tragadas.

Mas o meu par não veio.  Ouviu-se, foi uma indisposição.

Na terceira música, ’Yellowriver,’(³) meus amigos saíram a procura de suas divas. Cada um dançando como podia, como em todos os inícios de bailes. Esperávamos pela primeira lenta, todavia, porque assim o rosto iria colar. Os mais tímidos, levavam as suas gurias para o meio do salão.  Inclusive eu.

Como a vida gosta muito de nos surpreender, andei por três voltas, evitando uma rejeição inesperada que se avizinhava, mas na quarta música, logo na primeira fileira de mesas, Ana Maria me olhava… Os seus pais, igualmente.

Não éramos da mesma turma na escola. O risco estava posto e na terceira, caso ela agradecesse, tudo acabaria ali mesmo.

Mas não agradeceu!

Afortunado eu, na certeza de que iríamos dançar mais três, mas o que era para ser mais uma, virou muitas; a noite inteira.

Um rosto lindo, um olhar destemido para um jovem envergonhado. No intervalo das músicas, ficávamos ali, em pé, sem saber o que fazer com as mãos, paralisados os dois, aguardando em uma espera infinita até que tocasse a próxima.

Agora, de rosto colado, um leve suor nos forçava a trocar o lado da face.  O seu perfume inominável, almiscarado, contagiava a minha alma para uma surpresa que poderia acontecer; porque a espera sempre é melhor que a chegada.

Linda ela, jovem, com um rosto de mulher, sabe-se lá no que pensava. Na chance de uma paixão explosiva, ali abracei uma boneca viva, uma fala como quem esbanjasse afeto… Mesmo que dançando de pés trocados.

Mas não foi nessa noite e o amor, improvável, durou até quando lhe dei as costas, em sua cozinha de madeira; na falta de coragem, perdi a Ana, perfeita ao meu olhar e que foram necessários 40 anos para esquecê-la, enfim.

Fui ao seu encontro, hoje, para esquecê-la.

_ Mas eu não quero que você me beije, agora, Ana de todas as minhas Marias.  Nada vai importar, nada vai nos trazer à tona, no que me foi anestesiado, adormecido e que o capricho do tempo me devolveu, assim que passei dia desses pela sua casa antiga.

Não, não preciso dos seus abraços tardios, dos beijos desejados que tive de suportar, pois nunca os tive. E saber que a culpa não foi sua!

Quem planta indiferença colhe ausências. Então, colhi. Perdoa?

Eu preciso que você volte àquela noite. Volte comigo?

Vamos retornar juntos à sua cozinha, onde nossos passos mal pisavam o chão, para que os seus pais não acordassem.  Ali, na madrugada de um verão disfarçado, ali mesmo, onde eu esperava um beijo que não veio. Por que meus planos eram de muitos mais e que os meus 15 anos não tiveram força em vê-los pelas sombras do seu corredor, no casarão azul claro, fugidio, no qual você morava… O beijo que eu não poderia perder.

Então, volte comigo! Encontre-me na pista de dança, vamos dançar a última, ouça!  É Alone Again. (4)

Vamos voltar ao mesmo salão e sair de mãos dadas, sem nos importar com os que caminham no outro lado da calçada. Vamos andar sem pressa, cantarolando baixinho B.J.Tomas.

Quem sabe ao vencermos a esquina da praça eu já abrace seu ombro, para que o meu calor chegue até você; sem sobressaltos.

O seu convite para entrar na sua casa? Não o mude. Eu aceito!  Não acenda a luz pois ninguém pode ser testemunha. Vamos tomar um café no escuro.  Quem vai sugerir?

Eu tenho planos para esta noite. Agora eu aprendi a escolher as palavras.  Fique muito próxima a mim, pois seu rosto iluminado é um ímã para tudo o que desejo.  E temos poucas horas!

Deixe o café e me abrace.  O abraço que todos os de 15 anos sonham em receber.   Pois do abraço para um beijo seria apenas um palmo a alcançar. Poderá ser demorado, dos que ficam represados pela semana, dos que saem das missas para um passeio curto e não retornam; dos que ficaram enterrados pelos meses em que saímos juntos do Colégio e pelos tantos recreios inesquecíveis ao seu lado.

Nem precisávamos ter saído de nossa cidade.  Poderíamos construir um mundo ali mesmo. Apenas um beijo faltava naquela noite e agora que retornamos, somente nós, nossas bocas e nossos futuros; decididos pelas 3h da manhã.

Mas não era para me atender, Maria. Não é sobre nossas vidas que eu a quero hoje; eu preciso do seu retorno ao baile.

Você precisa voltar comigo, será breve. Voltemos aos nossos 15 anos para que eu possa ver com mais clareza a minha perda. É lá que precisamos nos encontrar, porque o nosso rosto colado se desfez assim que o último baile terminou e o que era para ser a primeira primavera juntos, perdeu-se em 40 anos de sonhos prorrogados.

Procurei por seu telefone nas páginas amarelas, pedi o seu nome para muitos amigos, passei mil vezes em frente à sua casa, sempre em vão. Imaginei intermináveis vezes o seu quarto e sobre qual ombro você gostava de dormir.

Pensava em almoçarmos juntos, em sair pela praça para o sorvete de todos os domingos, mãos apertadas, olhares de paixão a prova de dias nublados. Nas despedidas de todos os dias, os lábios meus acomodados nos seus.

Poderíamos passar de ano juntos, ir à Capão em nossa formatura, vivermos e construirmos um amor único, desses que se escrevem em árvores nas praças dos apaixonados; como um leve sabor de menta.

Lembra, queria ser professor. Era tudo muito lindo; seguir nossos amigos no que mais gostávamos de fazer; estudar demais, claro, amar de menos, porém.

 Por que não tomamos uns goles de café para que o nosso beijo arraste seu gosto, disfarçando o incômodo de um desejo intenso e que ainda não sabemos o seu nome?

O tempo voou e precisamos voltar àquela noite, onde nossas vidas cruzadas poderiam despertar em uma manhã sonolenta de domingo, como que rompendo um ciclo de solidão, por uma paixão que comemorava o seu primeiro dia.

Vamos voltar juntos. Nosso beijo será sem idade a provar, intenso, como quem beija antes de ir à guerra. Será o primeiro. E o último!

Eu não preciso convencê-la a ficar comigo.  Não mais!  Mas se voltar nos poucos passos em que estivemos juntos, nas músicas inesquecíveis dos 70, aceito comer migalhas italianas por dias, em troca de me ver colado a você por uma noite apenas…

Depois retornamos às nossas vidas, eu disfarçando um desejo que nunca morreu e que em 40 anos, esteve levemente soterrado; em afeto que não pude estender, pelo menos na última noite de uma primavera que arrancou você de mim.

Então, nesses últimos dias eu a encontrei nas redes. Você não imagina? Falamos de projetos, amenidades. Quase faltou coragem, novamente. Eu queria ler a sua voz, mas ainda não foi possível, porque nesses anos todos descobri que a paixão, a mais impulsiva, sempre se esconde atrás de palavras que não podemos pronunciar. Foram elas que não usei, na noite de nossa primeira chance, as mesmas, as que agora fizeram-me descobrir, que o amor não precisava muito mais do que as palavras certas para se pôr em movimento.  Mas eu não as possuía.

Você virou ausência, não resta mais, mas sobrava dor.

Ambos viajamos pra longe.

Eu me escondi, não sei bem onde.

Atenda o Whats, por favor?

Referências:

  1. Still love you, Scorpions
  2. Banda de Caxias do Sul, muito comum em bailes da época.
  3. Yellow River, Christie
  4. Alone Again, Gilbert O’Sullivan.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Por que é importante revisitar as galinhas e os galinheiros de nossa infância”: www.neipies.com/por-que-e-importante-revisitar-as-galinhas-e-os-galinheiros-da-nossa-infancia/

Edição: A. R.

Biblioteca: lugar de livros e de histórias

A alegria das crianças e a boa repercussão junto às professoras da rede municipal demonstram a importância das atividades de Contação de histórias e mediação com os livros na Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski.

A Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski, ao longo dos últimos anos, vem oferecendo às crianças e adolescentes das escolas públicas e privadas, uma visita agendada para conhecimento do acervo de livros, contação de histórias e oficinas que trabalham a socialização, como também conhecimentos de literatura.

No segundo semestre, a Biblioteca retomou estas atividades, com prévio agendamento das escolas. Durante os meses de agosto e setembro, serão trabalhadas histórias e lendas voltadas ao folclore brasileiro e gaúcho. Em outubro e novembro, o foco será a poesia de Mário Quintana, homenageado da 38ª Feira do Livro, que acontece de 4 a 15 de novembro de 2026.

A alegria das crianças e a boa repercussão junto às professoras da rede municipal demonstram a importância destas atividades. Para a equipe da Biblioteca, nos dois turnos, todas as terças e quintas-feiras são dias de alegria e prazer em servir as crianças com atividades que vão além da leitura de livros.

Para a coordenadora da Biblioteca Municipal Arno Viuniski, Vanessa Hickmann, a presença das escolas na Biblioteca é uma forma de cativar os leitores e aproximar os estudantes de todas as idades ao universo da arte, seja da literatura, da música ou do teatro. Para ela, a formação de leitores transcende o contato com o livro e a palavra escrita, sensibilizando o olhar das crianças através de uma experiência literária estética e significativa.

Hickmann destaca que as atividades também servem como uma motivação para o trabalho pedagógico, pois sente que as professoras se envolvem e percebem que ler pode ser divertido. Isso também se confirma na energia que paira durante a visita e pelo brilho do olhar das crianças. O que repercute no trabalho da sala de aula.

Leia também: www.neipies.com/biblioteca-espaco-de-livros-e-de-formacao-de-leitores/

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VISITA À BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL ARNO VIUNISKI – Depoimento de professoras

No dia 1º de setembro, os alunos dos 1º anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Arlindo Luiz Osório, com suas respectivas professoras Teresinha Janaína Burgert e Paula Brotto, realizaram uma visita à Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski.

Durante a visita, os alunos puderam apreciar uma encantadora contação da história do Saci Pererê, apresentada de forma lúdica e envolvente, com cantigas folclóricas que despertaram a curiosidade e a participação das crianças. Os alunos se envolveram com muita alegria, cantando, interagindo e vivenciando a história de maneira significativa.

Ao final da contação, foi realizado um momento de diálogo e troca de conhecimentos, no qual as crianças puderam conhecer um pouco mais sobre a origem e as características dessa lenda tão conhecida do folclore brasileiro. Foi conversado sobre o Saci como uma criança arteira e brincalhona, além de conhecerem alguns dos elementos que fazem parte de sua história, como o gorro mágico, que lhe confere poderes, o cachimbo, relacionado à cultura indígena, e a característica de possuir apenas uma perna.

Também foi explicado às crianças que, segundo a lenda, uma das formas de capturar o Saci seria retirar seu gorro mágico, fazendo com que ele perdesse seus poderes e pudesse ser colocado dentro de uma garrafa.

Após a contação da história, os alunos participaram de oficinas de leitura e brincadeiras folclóricas, ampliando a experiência e tendo contato com diferentes manifestações da cultura popular brasileira.

Para finalizar a vivência, os alunos foram conduzidos a um espaço ao ar livre, onde participaram de um agradável piquenique, compartilhando momentos de convivência, alegria e descontração.

A experiência foi maravilhosa e muito significativa. As crianças retornaram à escola entusiasmadas, felizes e cheias de histórias para contar, especialmente por terem tido a oportunidade de conhecer a Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski. Para muitas delas, essa foi a primeira oportunidade de visitar esse espaço tão importante para a cultura, a leitura e a comunidade de nossa cidade.

Foi, sem dúvida, um momento de aprendizagem, descobertas, cultura e encantamento, que ficará guardado com muito carinho na memória de nossos pequenos leitores.

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Para os estagiários Arthur e Otávio e estagiária Yasmin que integram as atividades de Contação de histórias e oficinas, é “uma experiência enriquecedora e desafiante. É uma oportunidade única este trabalho com as crianças e adolescentes, gerando na gente empatia, jogo de cintura, realização de combinados, respeito ao ritmo, singularidade e tempo de cada criança”.

Para eles, “o trabalho na Biblioteca está dentro das expectativas iniciais deste trabalho, sobretudo porque estamos fazendo o que gostamos, podemos treinar e desenvolver musicalidade com as crianças, através de atividades interativas. O trabalho com as crianças proporciona um grande prazer, devolvido para a gente em forma de carinho, sorrisos, memórias das histórias e interação”.

Por que contar a Lenda do Saci?

Uma das histórias contadas para crianças dos anos iniciais (primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental é a Lenda do Saci, escrita por Ricardo Azevedo, em seu livro Contos e lendas de um vale encantado: uma viagem pela cultura popular do vale do Paraíba, da Editora Àtica.

A seguir, texto de Eládio Vilmar Weschenfelder, doutor em Literatura sobre o significado e o alcance desta lenda.

SACI-PERERÊ: um dos mais importantes mitos brasileiros

“Os mitos e lendas são parte importante do folclore linguístico e literário de um povo. Comemorá-los, estudá-los e entender suas significações são fundamentais ao entendimento da história, da alma e da identidade brasileira.

Saci-Pererê, o mais simpático dos mitos brasileiros, surge como contraponto aos monstrengos internacionais, como os contidos no Halloween, tanto é que a cada dia 31 de outubro foi criado o Dia do Saci e seus amigos.

O escritor Monteiro Lobato foi, dentre outros escritores e estudiosos, um dos pioneiros no resgate do folclore literário brasileiro.

Em 1917 procedeu a uma consulta popular através de cartas, nas quais solicitava aos leitores do jornal O Estado de São Paulo, relatos e experiências com o simpático, travesso e moleque de uma perna só. Com a riqueza das informações recebidas, publicou a obra O Saci-Pererê: resultado de um inquérito.

Anos mais tarde, Pedrinho, já no sítio de Dona Benta, movido pela curiosidade, ouvirá da boca do Tio Barnabé, que tinha mais de oitenta anos, os relatos de que viu o Saci quando menino, ainda no tempo da escravidão, na fazenda de Passo Fundo.

Quem não conhece a obra lobatiana O Saci, que teve as primeiras edições publicadas pela Companhia Editora Nacional! Por sua vez, também o estudioso Câmara Cascudo teve como objeto de estudo o mito do Saci, sendo que o tema, a partir de então, rendeu uma série de livros, teses, filmes e artigos na imprensa.

Fisicamente, Saci é um menino afro-descendente que só tem uma perna, usa carapuça vermelha, leva na boca um cachimbo aceso e tem um furo na mão. O menino Saci é um genuíno tipo que reúne as características dos afro descendentes, europeus e de brasileiros típicos. 

Psicologicamente, Saci é um ente livre e que, por isso, vive fazendo artes do tipo: azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, embaraça os novelos de linha, esconde as tesouras, coloca sujeirinhas na comida, gora os ovos, vira os pregos para cima, atropela as galinhas, espanta os cavalos. Enfim, diz Tio Barnabé: “O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade que não faça”.

Sendo um menino livre da escravidão negra no Brasil, Saci, para ter visualidade, apronta, como todo garoto, suas artes. No entanto, é especial, pois fruto da brutalidade, perdeu uma perna, significando que e a escravidão foi feroz também com as crianças afro-descendentes.

Seu cachimbo incorpora a tradição indígena, pois seus caciques selavam acordos, fumando o “cachimbo da paz”. Usa a carapuça vermelha, visto que assimilou, em parte, a cultura europeia, lembrando os imigrantes europeus e emblemas da liberdade na Roma antiga. Lembra também o barrete (gorro) adotado pelos camponeses ibéricos e os republicanos após a Revolução Francesa de 1789, assim como a força de Sansão que estava nos cabelos. Tem um furo na mão para fazer mágicas com as brasinhas acesas, as quais também servem para acender o cachimbo.  Portanto, estão presentes no Saci as características dos três povos que deram origem ao povo brasileiro: os índios, os afro-descendentes e os europeus.

Mentira ou verdade, Saci-Pererê representa o espírito de liberdade, paz, força e espontaneidade do povo brasileiro, juntamente com seus comparsas da boa fantasia: Boitatá, Caipora, Cuca, Negrinho do Pastoreio e tantos outros.

Antes das festas em homenagem ao Saci para resgatar a fantasia da criançada do Brasil, ao invés de copiar os estrangeirismos que manipulam as crianças e os jovens. Deu pra ti, Halloween. Viva o Saci-Pererê!”

 Autor: Eládio Vilmar Weschenfelder.

Fotos: Arquivos pessoais/Divulgação /Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski

FONTE do texto sobre o Saci : www.neipies.com/saci-perere-um-dos-mais-importantes-mitos-brasileiros/

Edição: A. R.

Quando alguém que a criança ama fica longe

As crianças sentem saudades de um jeito parecido com a dos adultos, sendo mais bonita, mais intensa e mais difícil de ser compreendida. A ausência causa dor, sofrimento, choro e, muitas vezes, medo de ficar sozinha para sempre, de nunca mais ver os pais, irmãos, avós, amiguinhos ou quem amam.

Para Aurora inspiração deste texto.

Acredito, caro leitor, que você já presenciou o temor de uma criança quando sabe que vai ficar longe de alguém que ama, ela começa a chorar se falam que não mais poderá ver ou sentir a presença daquela pessoa. A saudade das crianças possui uma forma própria de intensidade porque elas não compreendem ainda a maldade humana, elas não sabem o motivo por que são abandonadas, esquecidas ou trocadas por outras pessoas ou coisas que achamos melhores. Elas não nos culpam ou julgam.

Nos seus primeiros mundos elas simplesmente se perguntam onde estamos, quando iremos voltar e para onde fomos, quem nos levou para longe também aparece como pergunta.

Para acabar com a saudade as crianças tendem a perguntar a quem ficou, com insistência, quando voltaremos. Perguntam tanto sobre a pessoa que se foi que abusam e nos causam perturbação. Vão à porta de entrada da casa, abrem a porta, olham pela janela e ficam com o rostinho desapontado ao não ver a pessoa que estão sentindo falta chegar.

As horas vão se passando e a nossa ausência crescendo nas crianças. Muitas delas, têm tanto medo de ficar sem a nossa presença que à noite quando vamos colocá-las para dormir elas ficam nos perguntando se vamos trabalhar no dia seguinte, sonham com a nossa ausência do modo delas e não conseguem dormir direito pensando que fomos embora.

Uma ausência prolongada pode causar problemas gigantescos no espírito da criança, principalmente quando ela não consegue compreender o motivo e ninguém a conforta com carinho e cuidados explicando o que houve. A criança quer respostas sempre.

Uma cena tristonha é quando precisamos sair para algum lugar e a criança se agarra nas nossas pernas chorando, esperneando e pedindo para que a gente não vá, não a deixe sozinha mesmo que ela vá ficar acompanhada por um monte de gente, é da nossa presença que ela gosta e isso dói no coração. Neste momento, precisamos da ajuda de um outro alguém para confortar a criança que fica para trás enquanto necessitamos ir resolver alguma coisa na rua ou até mesmo trabalharmos.

Quem fica com a criança precisa oferecer cuidado, afeto, carinho e, principalmente, a segurança de uma companhia que ela pode contar mesmo sabendo que não vai preencher o vazio deixado por quem foi embora, mas passando a mensagem de que também podemos fazer tudo o que pudermos para ajudá-la.

Para amenizar a ausência de quem partiu, de quem precisa ficar ausente por um bom tempo, recomenda-se que a criança desenhe a pessoa que ama e está longe, brinque com seus bonecos e bonecas imaginando que é a pessoa amada e procure se distrair ao longo do tempo da ausência com atividades lúdicas e criativas que a faça esquecer da saudade.

Uma outra coisa bonita para amenizar a saudade na criança é dar para ela uma peça de roupa com o cheiro da pessoa ausente para que ela possa cheirar e sentir que não está sozinha, que logo aquele sofrimento vai passar, que logo o papai, a mamãe, os avós estarão de volta. Eles foram logo ali e voltarão em breve.

Na verdade, não devemos mentir para as crianças quanto a ausência de alguém.

Se a pessoa se foi para sempre pra longe e não poderá mais ver aquela criança, devemos aos poucos ir contando a verdade para ela. Com o tempo a criança vai conseguir substituir do coração aquele laço afetivo ausente, sem que isso signifique apagar do seu espírito a pessoa que partiu.

A criança costuma sentir tanto a ausência de alguém que ao ouvir um barulho no portão de casa, os passos de alguém na calçada ou uma voz parecida sorriem pensando que a pessoa amada chegou e poderá correr para os seus braços. Esses encontros depois de um dia inteiro distantes dos pais ou dos responsáveis devem ser grandiosos, cheios de afeto e cuidados.

Quando chegamos em casa depois de muito tempo distantes das nossas crianças, a primeira coisa que devemos fazer é abraçá-las, é fazer com que confiem em nós que sempre voltaremos, que a nossa ausência é temporal, que elas podem contar conosco ao longo do dia contemplando uma foto nossa ou conversando conosco através de aparelhos de telefone.

Algumas crianças não conseguem expressar saudades com choros, desenhos ou coisa parecida. Elas simplesmente ficam mais quietinhas, recolhidas num cantinho da casa que mais gostam, pensando na pessoa ausente. Tendem a pegar em coisas que façam lembrar da pessoa que está longe e colocar em algum lugar só delas, tipo: um pente, um batom, um relógio.

Não devemos chantagear as crianças para que parem de chorar com a ausência de quem amam porque se continuarem chorando o lobo mau ou coisa parecida vai vir pegá-las. Isso nunca. Devemos, ao contrário, respeitar seus sentimentos. Quantos de nós não sentimos saudades também? Quantos de nós sentimos saudades que chegamos a chorar escondidos? Assim, ocorre também com as crianças.

Para as crianças é mais difícil ainda compreender e aceitar a nossa ausência.

Elas pensam mais ou menos assim: se as amamos por que ficamos longe delas todos os dias? Não sabem distinguir que precisamos trabalhar, estudar, temos obrigações e deveres no mundo adulto. As crianças não sabem ainda que precisamos ficar longe delas por algum tempo para resolvermos coisas que não podemos fazer em casa.

O mais complicado é quando precisamos sair para algum lugar e devemos contar para a criança que não podemos levá-la porque o lugar para onde vamos é coisa de gente grande. Que ela deve ficar em casa à nossa espera. Para a criança isso soa como várias perguntas, tipo: Por que eu tenho que ficar em casa? Por que eu não posso ir também? Por que o lugar não aceita crianças? Que lugar é este que não aceita crianças? São tantas as perguntas que as crianças se fazem que não daríamos conta de elencá-las aqui.

Para aliviar a sua saudade a criança tende a inventar histórias com a pessoa ausente. Essa pessoa se transforma numa heroína, num herói, num personagem que faz bem à criança, que a salva de conflitos e medos. Seu mundo imaginário vai longe para amenizar a dor da ausência de quem ama. Mas, cuidado, se a criança começa a inventar personagens malvadas ou com sentimentos tristonhos essa ausência pode estar lhe fazendo muito mal e devemos observar tudo ao seu redor. As crianças costumam apresentar os seus conflitos internos através do mundo imaginário, seja desenhando, brincando ou contando histórias para gente.

Ademais, devemos ser pacientes e buscarmos compreender a saudade das crianças. Nunca, nunca mesmo as castigarmos porque não querem comer, tomar banho ou fazer coisa nenhuma porque estão com saudades de alguém que foi embora da vida delas. Elas vão entender ao passar do tempo.

As crianças conseguem conviver com a ausência ao invés de simplesmente apagá-las dos seus pensamentos e corações seja com os seus brinquedos, brincadeiras ou coisas parecidas com isso quando recebem afeto e carinho. A ausência do pai ou da mãe que já não mora mais no mesmo lar não vai durar para sempre. A criança que recebe amor e tem laços familiares fortes logo preencherá este vazio. Ela ainda está em formação e não é como a gente que temos muitas dificuldades de esquecer alguém que amamos há anos.

Deixo você, querido leitor, com os versos do poema da nossa linda poetisa portuguesa Florbela Espanca e seu poema “Saudade” que nos diz “Quantas vezes, Amor, já te esqueci, // Para mais doidamente me lembrar // Mais doidamente me lembrar de ti! //

Claro que uma criança não tem nenhum sentimento de amor como os adultos, mas ela ama com a sua inocência e tenta esquecer alguém que se foi, mas doidamente, assim como quem brinca de chamar a lua, chama doidamente pela pessoa que o seu coraçãozinho ama. E assim pergunta, curiosa: “você vai trabalhar amanhã, mamãe?” À espera de ouvir a palavra mágica: “Não!” E dormir o seu soninho na certeza de que a mamãe vai passar o dia seguinte ao seu lado.

Sabemos bem o que é isso, querido leitor!

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Ofereça à sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta”: www.neipies.com/ofereca-a-sua-crianca-uma-infancia-que-nao-precisara-ser-curada-na-vida-adulta/

Edição: A. R.

Museu da Roseli e da Ruth

Apresento memórias e vivências que tive junto ao Museu Ruth Schneider em Passo Fundo, RS.

Eu trabalhava como chargista do jornal O Nacional quando consegui entrar na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Tânia Rösing, uma das organizadoras, me deu a oportunidade. Mais do que isso: ofereceu-me um lugar na primeira fila na noite do show de Arnaldo Antunes.

“Seu olhar melhora o meu”, ele cantava.

Toda a juventude da cidade parecia ter ido parar naquela sessão de autógrafos. Depois, saímos a pé, ainda emocionados, atravessando a noite de Passo Fundo.

Meses depois, o telefone tocou no jornal.

Tânia e Roseli Preto estavam fundando um museu de artes. Eu seria o primeiro funcionário.

Chegou janeiro e pedi demissão do jornal. Tinha sido meu primeiro emprego, mas eu entrara aos dezessete anos e, apesar do tempo, continuava sendo tratado como guri. Eu já não sentia ali o respeito que achava ter conquistado.

Pensei que a vaga no museu sairia imediatamente.

Não saiu.

Os meses passaram. Nesse intervalo, trabalhei na editora Aldeia Sul, de Ivaldino Tasca, sem receber salário, e fazia aulas de informática na UPF para me preparar para o futuro cargo. Era como se eu já estivesse trabalhando para um lugar que ainda não existia para mim.

Até que, um dia, fui chamado para uma reunião com Tânia. A reunião durou exatamente dois minutos.

Entrei na reitoria da UPF. Tânia estava lá. Com sua voz trovejante, disse apenas:

— Doro, passa no setor de pessoal.

E era isso.

No setor de pessoal, porém, a recepção foi menos entusiasmada. A funcionária fez questão de deixar claro que não gostava da minha presença e que preferia outra pessoa para a vaga.

— Tu vais entrar, mas eu tinha alguém melhor para o posto.

Foi um baque. Por alguns instantes, pensei que talvez ela tivesse razão. Talvez eu não fosse mesmo a pessoa certa.

Quando cheguei ao museu, Regis Kohler terminava os espaços de exposição. O lugar se chamaria Museu de Artes Visuais Ruth Schneider — o MAVRS —, em homenagem à artista passo-fundense que havia levado sua pintura até o Japão.

Conheça Museu de Artes Visuais Ruth Schneider: https://www.upf.br/mavrs/

Naquela época, Ruth convivia com uma doença grave e sabia que lhe restavam poucos anos de vida.

Num dia, eu estava com Denise Aparecida ajudando a montar as peças quando alguém foi embora e nos esqueceu lá dentro. Ficamos trancados no museu. Tivemos de gritar pela janela até que alguém percebesse nossa existência e viesse nos salvar.

Em outra ocasião, eu ajudava André Piasson a organizar os arquivos históricos. Foi quando descobri que ele escrevia sobre a revolta dos motoqueiros. Anos mais tarde, aquele assunto voltaria à minha cabeça e acabaria virando livro.

Outro dia, um segurança, irritado com os gritos de uma criança durante uma visita, levou o menino ao banheiro.

– Se tu não calar a boca, corto teu pinto.

O garoto saiu correndo e chorando. O segurança acabou demitido.

Tinha também a Tânia, museóloga, que no estilo de Roseli organizava aquele prédio de dois andares que um dia tinha sido intendência municipal e agora no térreo abrigava o museu de história e no primeiro andar o de artes, com seu piso de madeira rangendo e paredes de meio metro.

Mais tarde, entrou uma estagiária de História ligada à Convergência Socialista. Quando soube quanto eu ganhava, cismou que havia alguma coisa errada. Para ela, eu era uma espécie de fraude: um funcionário efetivo que ganhava mais do que uma estagiária.

A lógica salarial era simples. A minha autoestima, nem tanto. Aquilo me abalou.

Para piorar, como eu ajudava a contar a história da cidade, alguns estagiários de História implicavam comigo. Diziam que apenas eles poderiam conduzir as visitas. Eu era um historiador amador, e isso parecia ser um crime.

Mas Roseli gostava de mim.

Muito.

Às vezes, voltávamos a pé para casa. No caminho, ela me dava conselhos.

— Doro, não faça faculdade de Artes. Tu é filho único, precisa ganhar dinheiro.

Roseli também me contava como conseguia recursos para manter o museu. Visitava a elite da cidade, sentava diante dos homens importantes e, sem muitas cerimônias, dizia:

— Assina o cheque.

Era assim que ela fazia o museu acontecer.

Ruth era outra coisa. Uma mulher de extrema simplicidade, quase uma personagem de si mesma. Certa vez, contou:

— Quando eu via uma placa escrita “Curso de Desenho e Pintura”, pensava que era para maquiagem e manicure.

O pai dela havia sido taxista do Cassino da Maroca e Ruth transformara em pintura a memória daquela boemia de Passo Fundo dos anos 1940 — um mundo de mulheres, traficantes de pneus, noites intermináveis e orquestras que vinham de Buenos Aires para tocar até a madrugada.

Ruth pintava uma cidade que já começava a desaparecer.

Eu também acabaria desaparecendo do museu.

Fui demitido, acuado pela pressão dos estudantes e profissionais de História. Nunca conte uma história sobre a história se não for formado em história. Acho que a lição foi essa. Desrespeito até hoje.

Uma semana depois, eu já era jornalista do Diário da Manhã. O editor, Álvaro Dalmagro, bateu à minha porta e perguntou se eu queria o cargo.

Fui correndo chamar minha mãe.

— Viu, mãe? Tu dizia que ninguém ia bater na nossa porta para oferecer emprego? Tá aí.

Saí do museu, mas não saí da vida de Roseli.

Mantivemos uma excelente relação. Ela me transformou em seu principal assessor de imprensa e passou a me convidar para todas as exposições.

Roseli tinha uma amizade forte com Maria Tomaselli e trazia para Passo Fundo nomes importantes das artes, como Britto Velho, Vasco Prado, Paulinho Chimendes e tantos outros.

No pátio do museu, havia uma escultura de Gustavo Nackle: um jacaré envolvido por uma cobra cuja cabeça terminava numa piroca.

Roseli, além de tudo, era uma sardenta muito charmosa.

Dizia:

— Todo artista que aparece me dá uma cantada, e eu mando ele passear.

Os artistas locais, por outro lado, não gostavam dela. Queriam o museu fechado em sua própria redoma, dedicado exclusivamente à produção da cidade. Roseli pensava diferente. Abria as janelas, trazer o mundo para dentro.

Quando reclamavam, ela apenas ria:

— A cidade tem que aprender com o museu.

Foi nesse ambiente que me juntei aos acadêmicos e entusiastas de Artes para fundar o Grupo do Museu: Sérgio Tomasini, Luciane Campana, Gustavo Ferernci, Regis, Denise e tantos outros.

Aos sábados, assistíamos a filmes de arte, como Basquiat. Reuníamos bolsistas da Espanha e da Holanda para conversar. Quando faltavam palavras, pegávamos papel pardo e pintávamos com guache.

Numa dessas tardes apareceu o poeta Pedro Marodin. Recitou seus versos e acabou se tornando nosso grande amigo.

– Amor, amor, amor, energia que não se esgota. Quanto mais amor se gasta, mais bonito o amor brota.

Na saída do museu, íamos filar degustações no supermercado ou acompanhar os artistas pela noite de Passo Fundo.

Uma vez, Paulinho Chimendes e Hugo, do Museu do Trabalho — hospedados na casa de Roseli —, perderam-se na madrugada passofundense.

Autor: Leandro Malosi Doro. Também escreveu e publicou no site “Do amigo Sol”: www.neipies.com/do-amigo-sol/

Edição: A. R.

Um monumento de presente? A origem da Cuia da Praça Marechal Floriano

A instalação da Cuia estava inserida em um contexto em que se buscava a redefinição da imagem de Passo Fundo como uma cidade moderna, progressista, ou ainda como “Capital do Planalto Médio”.

(Por Alex Antônio Vanin, membro do Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF)

Você conhece a história da Cuia da Praça Marechal Floriano?

É público e notório que, sem dúvida, a Cuia da Praça Marechal Floriano é o mais conhecido e distintivo dentre os monumentos existentes na cidade de Passo Fundo. O que não é de se estranhar: não é em todo o lugar que se encontra uma cuia gigante na praça central da cidade – nem mesmo em outras comunas do Rio Grande do Sul.

Aos forasteiros que visitam Passo Fundo, a Cuia acaba sendo um ponto de visitação obrigatório e, ato contínuo, plano de fundo de uma canônica fotografia que será a recordação da passagem pela Capital do Planalto.

Mas aí, surge uma grande questão, que pode ser posta a qualquer passo-fundense: o que você sabe sobre a história da Cuia? Quem teve a ideia de ali colocá-la? Com qual intenção? E quando isso ocorreu? Estas perguntas guiaram uma laboriosa pesquisa e a consulta a diversas fontes – ainda que escassas – sobre o mais famoso monumento da cidade de Passo Fundo.

O que se dizia sobre a Cuia

Na boca do povo, circula duas narrativas muito similares, quase unânimes, e que volta e meia são ressuscitadas como uma curiosidade marcante da cidade. A primeira versão constou por anos nos meios de divulgação oficial da Prefeitura de Passo Fundo, e diz que a Cuia “foi doada, em 7 de agosto de 1957, pelo Governador de São Paulo, como presente pela passagem do centenário de Passo Fundo”[1]. A segunda versão, que também circula no meio eletrônico em sites de divulgação turística, altera ligeiramente a narrativa precedente, afirmando que a Cuia “foi doada, em 7 de agosto de 1957, pelo prefeito de São Paulo Adhemar de Barros, como presente pela passagem do centenário de Passo Fundo”[2].

Ambas as versões, portanto, tem em comum o fato de atribuírem a origem do monumento a uma ideia de aquele ter sido um “presente” para Passo Fundo, dado por algum expoente da política de São Paulo no contexto do Centenário da emancipação político-administrativa de Passo Fundo, ocorrido em 1957. Essa suposta concessão nunca foi confirmada por nenhuma fonte documental, mas, pela excentricidade e distinção, acabou se consolidando como narrativa unânime na população local. Em pesquisa nos arquivos da Prefeitura Municipal, não foram encontrados registros acerca da instalação da Cuia no centro da Praça Marechal Floriano.

De fato, a Cuia foi instalada em 1957, no ano do Centenário de Passo Fundo. Quem caminhasse pela Praça Marechal Floriano em 1956, veria o calçamento e o ajardinamento que haviam sido projetados no início da década de 1940, nas administrações dos prefeitos Victor Graeff e Arthur Ferreira Filho, e o lago artificial que havia sido construído na década de 1920, na gestão do intendente Nicolau Vergueiro, mas não veria nenhum monumento. No centro da Praça, onde hoje está instalada a Cuia, havia uma luminária, conforme pode ser visto em um cartão postal de 1957.

A Praça sem a Cuia. Nessa vista da Praça Marechal Floriano, registrada no início de 1957, vê-se que, no lugar onde seria instalada a Cuia, existia apenas um pequeno jardim e um poste de iluminação. Acervo Fotos Antigas de Passo Fundo.

Um presente político?

Ambas as versões para a origem do monumento são similares, recorrentemente difundidas e pouco ou nada contestadas, por isso merecem ser melhor investigadas.

Para começar, cabe uma verificação inicial: em 1957, ano do Centenário de Passo Fundo, o governador do estado de São Paulo e o prefeito da cidade de São Paulo eram, respectivamente, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, políticos de destaque na cena nacional de então e antagonistas entre si. Partindo disso, convém questionar: qual seria o interesse do governador do estado de São Paulo ou do prefeito de São Paulo em fazer a doação de um monumento para Passo Fundo, município do Rio Grande do Sul? Por que interessaria, política ou pessoalmente fazer um gesto em relação a Passo Fundo e à comemoração de seu Centenário? E mais: teria o governo do estado de São Paulo ou a Prefeitura da cidade de São Paulo – com recursos públicos! – pagado por um monumento que seria colocado no centro de uma cidade a cerca de mil quilômetros de distância da capital paulista?

Considerando que isso fosse adequado e crível, isto é, que a Cuia poderia representar um aceno político de Jânio ou de Adhemar à elite política passo-fundense, ainda assim seria difícil de compreender este gesto. Sendo a Cuia entregue e inaugurada em fins de 1957, logicamente o suposto apoio teria de dar-se para o ano seguinte, 1958, quando houve eleições gerais para os governos estaduais, Câmara e Senado. Entretanto, tanto Jânio, quanto Adhemar, naquele ano, concorreram a cargos estaduais: o primeiro, para deputado federal pelo estado do Paraná, o segundo, para governador do estado de São Paulo. Logo, a forçosa narrativa de apoio eleitoral passo-fundense ou de uma jogada política visando obter votos na região, também redundam em uma hipótese descabida.

E, mesmo que houvesse algum tipo de acordo político em torno ao monumento, se a Cuia era de fato um presente tão distintivo, esse fato não haveria de ter sido noticiado na imprensa local? Efetivamente, nos jornais locais, Jânio Quadros e Adhemar de Barros aparecem encabeçando muitas manchetes, todas a tratar de fatos que ocorriam na cena política nacional daquele ano de 1957. Mas, não há qualquer menção a qualquer dos dois políticos em torno do patrocínio a um monumento em Passo Fundo.

Se, então, a Cuia nada tem a ver com Jânio Quadros ou Adhemar de Barros, afinal, qual a sua verdadeira origem?

Pelo Centenário e pela Tradição

A pesquisa começou a tomar um rumo diferente e mais concreto quando, no acervo do Instituto Histórico de Passo Fundo, foi possível encontrar o Relatório da Administração Wolmar Salton referente ao exercício de 1957, e nele ser localizado, na seção da Secretaria de Obras, “a instalação da cuia na praça Marechal Floriano[3] no rol das obras concluídas naquele ano, sem, entretanto, nenhuma referência à sua origem. Nessa mesma publicação, encontramos também a primeira foto oficial da Cuia em um material confeccionado pela Prefeitura Municipal.

O novo monumento. A primeira fotografia do monumento da Cuia publicada em uma documentação oficial da Prefeitura de Passo Fundo. Fonte: PREFEITURA Municipal de Passo Fundo. Relatório da Administração Wolmar Salton referente ao exercício de 1957. Passo Fundo: s/e, 1958, p. s/p.

Mas, foi no Arquivo Histórico Regional, folheando as edições do jornal O Nacional, que se localizou, na edição de 29 de novembro de 1957, uma nota que permitiu começar a esclarecer e desembaraçar o imbróglio que acercava a origem do monumento:

Um belo e atraente monumento na Praça Marechal Floriano

O Prefeito Wolmar Salton, neste ano do Centenário, tomou inúmeras providências úteis, não só de caráter administrativo normal, nos vários setores, senão também muito fazendo para o embelezamento da cidade. Um fato deprimia muito Passo Fundo. Era que, até há pouco tempo, a cidade achava-se desprovida de monumentos, que são a característica das cidades cultas. Tínhamos um aspecto de cidade colonial. Felizmente, este ano do Centenário conseguimos modificar, em parte, a feição da cidade, graças às iniciativas do Prefeito Wolmar Salton e do Comissariado. Uma das últimas iniciativas nesse setor, queremos destacar o monumento tradicionalista, no centro da Praça Marechal Floriano, de cuia e bomba, de cimento armado, sobre o pedestal apropriado, com um tanque à volta. De dentro da cuia sai um repuxo de água vaporizada, com iluminações verdes e encarnadas, produzindo, à noite, um belíssimo efeito[4].

Além de fazer nenhuma menção a governador ou prefeito paulista, essa nota trouxe uma mudança total no entendimento que se tinha sobre a Cuia: em vez de ser algo externo, o monumento aparece como desejado e planejado pela Prefeitura Municipal de Passo Fundo, considerando uma suposta ausência de monumentos na cidade. Todavia, isso não é verdade.

Antes da Cuia, outros destacavam a rememoração de personagens ou datas comemorativas, como o busto do Coronel Gervásio Lucas Annes, na Praça Tamandaré, ou o Obelisco da Independência, construído na antiga Praça da República (hoje Praça Ernesto Tocchetto), ou ainda o obelisco em homenagem a Joaquim Fagundes dos Reis, no Boqueirão; todos os estes faziam referência a eventos pontuais ou a personalidades locais.

O monumento da Cuia mudou esse cenário completamente. Como se vê, o monumento estava envolto de escolhas e objetivos colocados pela administração municipal. Um destes era estético: reforçando uma narrativa de modernização do espaço urbano, conduzida pelas autoridades municipais, algo que estava em voga no Centenário, numa perene dicotomia entre passado e presente, e promessas para o futuro de uma Passo Fundo moderna, que desejava deixar no passado o “aspecto de cidade colonial”.

A Cuia, portanto, enquadrava-se dentro das iniciativas que buscavam modernizar Passo Fundo, neste caso vinculada à materialidade e à monumentalização do espaço público, entendidas como marcas distintivas de “cidades cultas”.

Tendo presente que a Cuia então havia sido deliberadamente pensada e criada pela administração pública em 1957, resolveu-se interpelar um dos filhos do então prefeito Wolmar Salton (1911-1984), o médico e escritor Jorge Alberto Salton, no sentido de indagá-lo acerca dos bastidores da colocação do monumento, na busca por informações que não seriam encontradas em documentos oficiais e que poderiam ter ficado relegadas à memória familiar.

Jorge Salton afirma que seu pai, na condição de prefeito, foi o primeiro a fazer um aceno do Poder Público ao tradicionalismo, movimento crescente no Rio Grande do Sul desde 1948. Em Passo Fundo, por exemplo, a criação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o CTG Lalau Miranda, ocorreu em 1952, como parte da interiorização das iniciativas levadas a cabo na capital do estado. Mais tarde, essas iniciativas seriam organizadas como parte do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Em 1957, no Centenário de Passo Fundo, os tradicionalistas foram pela primeira vez incluídos em uma grande cerimônia oficial do município, obtendo destaque nas comemorações e eventos.

O Centenário à gaúcha. Tradicionalistas do CTG Lalau Miranda durante as festividades do Centenário de Passo Fundo, em 1957. Revista Manchete. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Brasil.

Isto ocorreu não sem certa contestação. De acordo com Jorge Salton seu pai foi muito criticado no período, pois toda a movimentação tradicionalista na dança e na música era malvista e, por vezes, até ridicularizada.

O comentário de Salton não causa estranheza, uma vez que, naquele período, as iniciativas do embrionário MTG ainda não tinham sido alçadas ao posto de única e maior representante de uma dita “cultura gaúcha” e ainda disputava com outras formas de representação identitária no estado. Em Passo Fundo, portanto, existiam aqueles que também não viam com bons olhos a colocação de um “monumento tradicionalista” no centro da cidade, questionando a materialização dessa identidade no centro da cidade com o respaldo do Poder Público.

Assim, a instalação da Cuia estava inserida em um contexto em que se buscava a redefinição da imagem de Passo Fundo como uma cidade moderna, progressista, ou ainda como “Capital do Planalto Médio”.

O novo monumento articulava elementos da tradição imemorial indígena do chimarrão – tornada “gaúcha” dentro dos círculos tradicionalistas – com uma linguagem moderna, em cimento armado, iluminação e efeitos visuais próprios da época. A um só tempo, nota-se o esforço deliberado de construção de uma nova feição urbana, na qual memória, identidade e progresso foram mobilizados de forma estratégica para reposicionar Passo Fundo no imaginário de seus habitantes e visitantes.

Por se tratar de um monumento que não fazia alusão a um indivíduo ou data específica, a Cuia assumiu um tom universalizante e identitário potente, sendo o ponto zero de uma transformação na identidade passo-fundense.

Essa mudança identitária seria constantemente revalidada pela própria Prefeitura Municipal em gestões posteriores, em termos de difusão cultural e de apoio ao turismo, em slogans que marcaram época, como “Passo Fundo, Tchê” e a “A Cidade Mais Gaúcha do Rio Grande do Sul”, em concomitância com a popularização do gênero musical tributário da figura construída do “gaúcho”, que teve nas canções de Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, o seu expoente máximo, nas décadas de 1960 e 1970. Porém, tudo partiu da Cuia, que demarcou o início da construção de uma nova identidade citadina. Com ela, Passo Fundo e a sua população foram, paulatinamente, tornando-se “gaúchos”.

Um monumento de presente, sim

Mas, afinal, de onde veio a Cuia? Foi construída pela Prefeitura de Passo Fundo? Acerca destes questionamentos, novamente Jorge Salton esclarece o que as narrativas acerca do monumento ser um “presente de São Paulo” acabaram deturpando e multiplicando-se como versão inconteste das origens da Cuia: foi seu pai, Wolmar Salton, então prefeito de Passo Fundo, que comprou o monumento, pagando-o do próprio bolso e destinando-o à Municipalidade, que arcou apenas com os custos da instalação, conforme já apontava o seu relatório de gestão.

Retornando à pesquisa em jornais, como no Diário de Notícias, de Porto Alegre, encontrou-se uma breve notícia sobre o monumento, redigida pelo jornalista passo-fundense Carlos de Danilo Quadros, ainda em fins do ano de 1957, que corrobora com a versão da compra do monumento:

Informou ao repórter o prefeito Wolmar Salton que dita cuia fora adquirida em São Paulo, da firma lançadora do presente modelo de fonte luminosa. É toda iluminada a gás-neon. É, ao mesmo tempo, chafariz e a água sai pela parte de cima, imitando vapor de água. Este lindo ornamento da Capital do Planalto encontra-se colocado na Praça Marechal Floriano, ponto mais central da cidade. É grande o número de curiosos, principalmente forasteiros, que nestas noites de verão vão apreciar a original e sugestiva fonte luminosa de Passo Fundo[5].

A “fabricação” da Cuia, isto é, o fato de ter sido encomendada por uma empresa especializada de São Paulo na criação de “fontes luminosas” – que eram visadas à época, pelo ar de modernidade que imprimiam onde eram instaladas – explica o porquê de, em São Francisco de Paula/RS, existir um monumento em formato de Cuia que é praticamente idêntico à Cuia de Passo Fundo, inaugurada no mesmo período, em dezembro 1959[6]. Ambas, em seu formato original, contavam com os mesmos atributos, isto é, com um tanque d’água, pedestal prismático composto e a bomba, que produzia o vapor d’água que, em dias ensolarados, replicava as cores do arco-íris.

Mate compartilhado. A Cuia de Passo Fundo e a Cuia de São Francisco de Paula, instaladas em 1957 e 1959, respectivamente.

Fonte: Fotografia de Alex Antônio Vanin, 2026 / Ache Tudo na Serra. Disponível em: https://tinyurl.com/4dcm8nx6. Acesso em: 8 ago. 2026.

Após a chegada da Cuia via ferrovia, em novembro de 1957, a Prefeitura de Passo Fundo se encarregou de instalar o presente dado pelo Prefeito Wolmar Salton. A instalação da Cuia ficou a cargo dos funcionários municipais, capitaneados por Affonso Bento de Souza, da Secretaria de Obras, de quem seus descendentes preservam a única foto conhecida da instalação da Cuia na Praça Marechal Floriano.

O presente na Praça. O monumento da Cuia, na Praça Marechal Floriano, em novembro de 1957. À direita, Affonso Bento de Souza, encarregado da obra. Acervo pessoal de Margarete Regina de Souza, via Fotos Antigas de Passo Fundo (Facebook).

Jorge Salton ainda esclarece as origens dos boatos em torno da suposta “doação” da Cuia por Jânio Quadros ou Adhemar de Barros, que teria surgido nos anos seguintes à instalação do monumento no bojo das disputas políticas locais de fins da década de 1950, na antessala das eleições presidenciais de 1960, quando concorreram, simultaneamente ao cargo de Presidente da República, Jânio Quadros, Adhemar de Barros e o Marechal Henrique Teixeira Lott.

Para os chamados adhemaristas de Passo Fundo, isto é, os apoiadores da candidatura de Adhemar de Barros, do Partido Social Progressista (PSP), que eram opositores ao governo de Wolmar Salton, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), a Cuia era um motivo de crítica. Segundo Jorge Salton, a forma original do boato narrava que a Cuia teria sido uma doação de Adhemar de Barros, e teria surgido entre os próprios partidários de seu pai, para rebater e anular as críticas em torno do monumento, aproveitando-se, talvez, do fato notório de que a Cuia havia sido enviada de São Paulo para Passo Fundo. Logo, a outra versão – a do presente do “governador de São Paulo” – trata-se de uma variante, e fazia alusão ao próprio Barros, que foi governador do estado de São Paulo em período imediatamente posterior, entre 1963 e 1966.

A descoberta mais interessante em toda a busca pela origem da Cuia foi a de que a sua origem, ao fim e ao cabo, estava parcialmente correta: a Cuia foi um presente, mas não de Jânio Quadros ou Adhemar de Barros, mas do próprio prefeito de Passo Fundo à época, Wolmar Salton. Portanto, a Cuia foi, sim, um “monumento de presente”, ao mesmo tempo parte de uma deliberada e longa política de reelaboração e modernização da identidade do passo-fundense, alterando os paradigmas e referenciais identitários hegemônicos de até então.

Mais do que um presente, a Cuia se tornou, sem dúvida alguma, um monumento presente, marca do cotidiano, da memória e da história de Passo Fundo.

Referências

BATISTELLA, Alessandro; BACCIN, Diego José. História, memórias e representações: uma análise dos monumentos em Passo Fundo. Passo Fundo: Saluz, 2016.

BEVEGNÚ, Sandra Mara. Décadas de poder: o PTB e a ação política de César Santos na metrópole da serra: 1945-1967. Dissertação (Mestrado em História). Universidade de Passo Fundo. Programa de Pós-Graduação em História. Passo Fundo, 2006.

KNACK, Eduardo Roberto Jordão. Educação patrimonial: pensando sobre Passo Fundo. In: BATISTELLA, Alessandro (Org.) Patrimônio, memória e poder: reflexões sobre o patrimônio histórico-cultural de Passo Fundo. Passo Fundo: Méritos, 2011, p. 289-312.

RIBAS, João Vicente. A representação cultural gauchesca do município de Passo Fundo. 188fl. Dissertação (Mestrado em História). Universidade de Passo Fundo. Programa de Pós-Graduação em História. Passo Fundo, 2008.

RIBAS, João Vicente. Entre a tradição e a invenção: a cultura “gaúcha” no século XX. In: VANIN, Alex Antônio; BECKER, Bruna Zardo; CARVALHO, Djiovan Vinícius. Grupo Terra Pampeana: do legado artístico ao Festival Internacional de Folclore de Passo Fundo. Passo Fundo: Acervus, 2025. p. 27.

Autor: Alex Vanin. membro do Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF).

Neste site, já foi publicado texto Passo Fundo e a Segunda Guerra Mundial: história, memórias e repercussões:  www.neipies.com/passo-fundo-e-a-segunda-guerra-mundial-historia-memorias-e-repercussoes/


[1] PREFEITURA Municipal de Passo Fundo apud KNACK, Eduardo Roberto Jordão. Educação patrimonial: pensando sobre Passo Fundo. In: BATISTELLA, Alessandro (Org.) Patrimônio, memória e poder: reflexões sobre o patrimônio histórico-cultural de Passo Fundo. Passo Fundo: Méritos, 2011, p. 301-302.

[2] PRAÇA Marechal Floriano. TripAdvisor. Disponível em: https://tinyurl.com/43br7rve. Acesso em: 8 ago. 2026.

[3] PREFEITURA Municipal de Passo Fundo. Relatório da Administração Wolmar Salton referente ao exercício de 1957. Passo Fundo: s/e, 1958, p. 34.

[4] O NACIONAL. Um belo e atraente monumento na Praça Marechal Floriano. Passo Fundo, n. 8.748, 29 nov. 1957, p. 4. Acervo AHR.

[5] QUADROS, Carlos de Danilo. Um movimento original em Passo Fundo. Diário de Notícias. Porto Alegre, 22 dez. 1957, p. 18.

[6] JORNAL DO DIA. Inaugurado em São Francisco de Paula um lindo monumento tipicamente gaúcho. Porto Alegre, 17 jan. 1960, p. 8. HDBNB.

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