Exposição “Cidade, Cor e Ambiente” revela detalhes invisíveis de Passo Fundo

 Mostra de estreia do fotógrafo Anthony Buqui abre dia 30 de julho na Galeria Estação da Arte, com entrada gratuita, e percorrerá três espaços da cidade até outubro

Em meio à velocidade da vida urbana, a exposição fotográfica Cidade, Cor e Ambiente propõe uma pausa. A primeira mostra individual do fotógrafo e jornalista Anthony Buqui abre no dia 30 de julho às 19h30, na Galeria Estação da Arte, em Passo Fundo, reunindo 28 fotografias que revelam detalhes, cores, formas e atmosferas que frequentemente passam despercebidos na rotina da cidade.

A mostra que estreia próximo a semana em que o município completa seus 169 anos apresenta diferentes camadas do território: os céus, os bairros, os pontos turísticos, os edifícios e as avenidas, mas também os beija-flores, insetos, árvores, sombras e cursos d’água que coexistem com o espaço urbano.

Mais do que registrar paisagens, as fotografias convidam o público a permanecer diante das imagens e observar com atenção aquilo que normalmente é atravessado pela pressa.

“A fotografia consegue transformar cenas aparentemente comuns do cotidiano em experiências de contemplação. Quando permanecemos diante de uma imagem, começamos a descobrir detalhes que normalmente passam despercebidos, especialmente nas relações entre a cor, o espaço e a presença da natureza dentro da cidade”, explica a curadora da exposição, Patrícia Vivian.

A proposta curatorial parte da percepção de que a aceleração do cotidiano reduziu o tempo dedicado à observação. Entre deslocamentos, compromissos e o fluxo constante de imagens, a cidade acaba sendo percebida de maneira fragmentada e superficial.

Nesse contexto, a fotografia assume o papel de interromper o movimento e transformar a paisagem em experiência estética. Cada imagem cria um espaço de permanência, no qual o espectador pode desacelerar, observar a composição e reconhecer elementos que já faziam parte de seu cotidiano, mas permaneciam invisíveis.

Inspirada no pensamento do filósofo francês Paul Virilio, a exposição dialoga com o conceito de poluição dromosférica, relacionado aos efeitos da velocidade sobre a percepção e sobre a experiência humana. Diante de uma cultura que transforma imagens em um fluxo contínuo, a fotografia contemplativa propõe demora, presença e intervalo.

“A fotografia contemplativa é uma forma de arte, mas também um exercício de conexão comigo mesmo e com o ambiente ao meu redor. Somos bombardeados diariamente por notícias, vídeos e milhares de conteúdos digitais, por isso precisamos criar momentos para respirar, desacelerar e nos reconectar com o território. Para mim, fotografar ajuda a acalmar a mente e a perceber detalhes que antes passavam despercebidos”, afirma Anthony, jornalista formado pela UPF, documentarista e produtor cultural.

A exposição é itinerante e percorrerá três espaços: Galeria Estação da Arte (30/07 a 16/08), Museu de Artes Visuais Ruth Schneider – MAVRS/UPF (07/09 a 02/10) e Sesc Passo Fundo (outubro). A visitação é gratuita.

A exposição é realizada com recursos do Funcultura — Fundo Municipal de Cultura de Passo Fundo, e conta com apoio cultural do Grupo Fotosul, responsável pelas molduras e pela impressão fotográfica.

Horários para visitar: Galeria Estação da Arte -Quartas e sextas das 13:30 às 17h

Sábados e domingos das 16h às 19h

Quem é Anthony Buqui:

Anthony Buqui é jornalista formado pela Universidade de Passo Fundo, fotógrafo, documentarista e produtor cultural. Cofundador da Skopo Media, atua no desenvolvimento, na produção e na comunicação de projetos culturais e audiovisuais, com trabalhos voltados à memória e à diversidade.

Em sua trajetória, participou do Projeto Geração Futura Juventudes, do Canal Futura e da Fundação Roberto Marinho, e desenvolveu experiências nas áreas de produção audiovisual e fotografia documental.

Autor Anthony Buqui. Também escreveu e publicou no site “Projeto valoriza terreiros de matriz africana no RS – exposição fotográfica itinerante”: www.neipies.com/projeto-valoriza-terreiros-de-religioes-de-matriz-africana-no-rs-com-exposicao-fotografica-itinerante/

Edição: A. R.

A onda é digital, mas o repuxo é analógico

 Repercutimos uma interessante reflexão sobre a relação do mundo digital no formato e na organização de uma rádio universitária. O autor é Gerson Pont, Gestor de conteúdo da Radio UPF.

Quem é do mar sabe da existência do repuxo, e é bem assim que enxergo o mundo hoje: o digital sendo o visível dominante e, geralmente na invisibilidade, o repuxo nadando contra.

Na vida real, o repuxo está na volta do vinil, da fita k7, das câmeras fotográficas com filme, dos álbuns físicos de fotos e também na formatação de algumas rádios.

E foi inspirado nessa força silenciosa que criamos o conceito da Rádio UPF e também seu slogan, o “feito à mão”.

Porque tudo que fazemos aqui na rádio é mesmo artesanal, da música à notícia, tudo muito pensado e não produzido em série.

No caso das músicas, é bom lembrar que a maioria das emissoras confia em um sofware, deixando de lado a figura do programador, o que não acontece com a gente.

Vale também contar aqui que a inspiração para fazer uma rádio assim veio de um alfaiate que conheci em São Paulo, no turbilhão da rua Augusta, convivendo com os modernos de plantão e ganhando dinheiro com eles. Perguntei como isso acontecia e ele me disse que nada iria substituir a tesoura do alfaiate, pois é ela que arruma a roupa que vem da fábrica sem respeitar a diferença dos corpos.

Na verdade, todo o consumidor é único e é por isso que as novas tendências do varejo apontam para a necessidade do atendimento personalizado. Quem não gosta de ser conhecido pelo nome quando entra num estabelecimento? Nada que nossos avós já não fizessem, com seus caderninhos de anotação.

Pode ser parodoxal, mas a IA pode ajudar e esse caderninho começar a cruzar dados, oferecendo pistas de como atender melhor esse consumidor.

Por fim, e ainda falando de nossa rádio: escolhemos um formato de programação chamado “adulto contemporâneo”. Tudo então é adequado a ele. Além da música e da notícia – as trilhas, vinhetas, formato da locução e as promoções.

Lembrando que segmentar também é caminho para atender melhor, pois é praticamente impossível agradar a todo mundo.

Ficam dois convites: escutar nossa rádio e observar o que, no seu dia a dia, pode ser exemplo de repuxo dentro de um mundo digital.

Leia também: www.neipies.com/o-radio-tambem-educa/

Acesse: www.upf.br/radio/

Gerson Pont, Taís Rizzotto, Cris Jaqueline e Zulmara Colussi – apresentadores do Café Expresso

Com uma seleção musical feita à mão e notícias que impactam a vida da comunidade, o Café Expresso é o principal programa de notícias da Rádio UPF. No ar de segunda a sexta-feira (7h às 9h e das 12h às 14h), apresenta notícias gerais e culturais, previsão do tempo, informações acadêmicas, prestação de serviço e entrevistas com especialistas sobre vários assuntos. São quatro horas diárias de programação local.

Leia também: Localizada na Universidade de Passo Fundo, emissora reinventou a programação e consolidou um formato que une música, jornalismo e prestação de serviço. https://coletiva.net/por-dentro/radio-upf-sintonia-entre-musica-e-noticia/

Autor: Gerson Pont, Gestor de conteúdo da Radio UPF. Este texto foi originalmente publicado na Revista Universo UPF, número 24, maio de 2026.

Edição: A. R.

Do amigo Sol

Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.

A gente morava ali onde o mundo se dividia em duas esquinas de Passo Fundo. De um lado, a uma quadra, o Protásio Alves; do outro, bem na frente, o Conceição. Eu era o filho adotivo, o menino que trazia no sangue um mapa que ninguém sabia ler, mas que minha mãe e minha avó desenhavam com o suor da cozinha do colégio, nos tempos em que o Conceição ainda era internato. Foi ali que elas costuraram minha bolsa de estudos, entre o cheiro de feijão e o vapor das panelas grandes.

Mas aí veio o Sarney. E com o Sarney veio aquela dança louca de moedas que sumiam antes que a gente pudesse aprender o nome delas. Para piorar, resolvi brigar com o filho do médico. Ele me batia sempre. Um dia cansei, reagi, e os irmãos maristas — que de caridade tinham apenas o verniz — decidiram que a heresia de enfrentar a elite da cidade custaria a minha bolsa.

Fui jogado no Protásio Alves. No primeiro dia, a civilidade do Conceição desmoronou: um guri, no pátio, batia nos outros com uma mangueira de borracha preta. Era o caos cinza de uma escola pública no fim dos anos oitenta. Uma loucura mental. Mas o ser humano se adapta ao cimento quente. Fiz amigos.

Aí veio o verão. São Francisco de Assis, a praia de água doce, o sol estalando na pele e meus primos correndo. Minha mãe, com aquele olhar que só as mães que adotam de corpo e alma possuem, parou e olhou para a minha perna esquerda.

— Tá entortando — ela disse, baixinho, como quem descobre uma rachadura no vidro da janela.

De volta a Passo Fundo, começou a via-crúcis. Mais de vinte médicos. Um terrorismo silencioso nos consultórios. Falavam em cortar os nervos, em encurtar a outra perna. Um guri na cidade já tinha perdido a perna por causa daquilo. Mas minha mãe tinha uma teimosia sagrada, dessas que dobram o destino. Disse não para todas as lâminas e serras, até que um médico propôs uma cirurgia experimental: enfiar um pedaço de osso entre a minha tíbia e o perônio.

Deu certo. Mas o preço eram dois meses de gesso e imobilidade no inverno. Como eu era gordo, as muletas eram minhas inimigas. Perdi as aulas, a matemática virou um deserto de números incompreensíveis, e eu rodei de ano. Três invernos seguidos, três cirurgias, o cheiro de flores da janela do quarto, a TV de tubo ligada e as pilhas de gibis.

Num desses invernos, alguns colegas do Protásio foram me visitar. Lembro deles sentados na beira da cama, rindo de piadas que eu não entendia, com os olhos parados, brilhantes e vagos no escuro do quarto. Eu era ingênuo demais para sacar o que era aquela lentidão. Para passar o tempo, comecei a desenhar minhas próprias histórias em quadrinhos. Criava mundos onde as pernas não dobravam e as pessoas não tinham os olhos estáticos.

Anos depois, o desenho virou realidade quando um amigo resolveu se candidatar a vereador. Saí do quarto para a campanha. Era preciso encarar o vento da rua. E foi aí que reencontrei a turma que tinha se perdido no final dos anos oitenta.

A notícia veio como um sussurro de vento sul: estavam quase todos com o “bichinho”. O HIV. Na virada da década, a moda entre os drogados mais velhos era a cocaína injetável. Em algum apartamento em frente a Padaria Cruzeiro, eles compartilharam a mesma seringa. Uma comunhão maldita. Todos se contaminaram. Até o guri que batia nos outros com a mangueira de borracha no Protásio tinha pego, mas ele já estava perdido demais na droga para conseguir socializar.

E no meio de toda aquela poeira, brilhava o Sol.

O Sol tinha cabelos cacheados, longos, uma aura de anjo decaído. Ele pintava à mão as faixas de lona da campanha do nosso candidato. Foi ele quem me levou para o Barril 2000, no Boqueirão. Era um redemoinho. A gente ficava na calçada, bebendo cerveja, tocando violão e gaitas de boca, berrando as letras dos Cascaveletes, do TNT, do The Doors. Uma urgência de viver que parecia pressentir o fim do estoque de oxigênio.

— Onde é que tu anda indo, guri? — minha mãe perguntou um dia.

Antes que eu respondesse, o rádio na cozinha anunciou: um grupo de jovens tinha desenhado uma cruz com gasolina no asfalto perto do Barril 2000 e ateado fogo de madrugada, causando um acidente.

— Não são teus amigos, né? — ela me olhou, desconfiada.

— Claro que não, mãe.e

Era mentira. Eram eles. E o Sol estava lá, rindo, com aqueles cachos imensos onde, às vezes, ele escondia um baseado para mais tarde.

A campanha acabou, quase vencemos. Passamos a nos refugiar no New Kids, rock ao vivo na veia, bebendo até o dia clarear e o céu de Passo Fundo ficar daquela cor de chumbo úmido. Foi numa dessas noites que alguém encostou no meu ombro e soltou:

— O Sol tá com o vírus.

Ele e a Babu. Mas a doença, naqueles tempos de AZT que parecia veneno, não tirava o magnetismo do Sol. No meio da pista, as gurias — grunges de camisas xadrez, hippies de saias longas — cercavam o Sol e a Babu. Abraçavam, beijavam no rosto, num carinho desesperado, mas ninguém transava por medo de se contaminar.

O Sol era da umbanda. Tinha uma regra sagrada: ninguém podia tocar no topo da cabeça dele.

— Se encostar no meu cabelo, o espírito passa — ele avisava, sério, com aqueles olhos imensos.

Quando ele caía de cama e ia para o hospital, a salinha de espera virava uma filial do New Kids. Trinta, quarenta pessoas sentadas no quarto, esperando o Sol voltar a brilhar. E ele voltava. Parecia indestrutível.

Aí a vida deu o seu tranco. Virei jornalista, mudei de rotina, as madrugadas de cerveja barata foram substituídas pelas últimas máquinas de escrever e pelos primeiros computadores na redação. Nos afastamos.

A última vez que vi o Sol, ele passou por mim. Dirigia um carro. Estava bonito, ao lado de uma namorada. Tinham ido morar em Santa Catarina; ela também era soropositiva. Parecia que tinham encontrado um pacto de silêncio e sal com o mar.

Na virada do milênio, dezembro de 1999, eu estava em casa, tenso com o tal do Bug do Milênio, com medo de que os computadores ficassem loucos e o mundo parasse de funcionar à meia-noite.

O mundo não parou. Mas, logo depois, no calor abafado do verão de Passo Fundo, cruzei com um amigo de adolescência na calçada.

— Tu soube? O Sol morreu.

Foi seco. Sem aviso, como o clique de um disjuntor que desliga a luz de um quarto inteiro. A gente sabia que ia acontecer, mas quando acontece, o silêncio que fica é maior do que a nossa capacidade de entender.

Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.

Desconheço se o espírito dele passou para mim. Mas sinto que, desde aquele dia, uma parte daquela luz frenética e perigosa dos anos noventa continua acesa, bem aqui dentro, insistindo em não apagar.

Autor: Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Amazônia Tupã”: www.neipies.com/amazonia-tupa/

Edição: A. R.

Conhece algum analfabeto existencial?

Dizem que falta amor no mundo. Talvez falte também interpretação de texto. Se Cristo é a chave hermenêutica das Escrituras, o amor é a chave hermenêutica da vida. Somente através das lentes do amor seremos capazes de compreender, de fato, a sua mensagem.

Saber de cor as letras do alfabeto não é o mesmo que saber ler. Ler exige reconhecer as combinações entre letras, sílabas e fonemas, percebendo os sentidos que emergem desse encontro. Saber soletrar palavras também não significa compreender o que está escrito. É preciso discernir o significado produzido pela relação entre elas.

Entender uma frase isolada é muito diferente de captar a mensagem que o texto inteiro deseja transmitir. Para isso, não basta observar apenas as palavras. É necessário atentar para os sinais, as vírgulas, os silêncios, os espaços e, sobretudo, para os sentimentos que o texto pretende despertar.

Assim também acontece com a vida.

Julgamos dominar assuntos, conhecer fatos, compreender pessoas e relacionamentos, quando, na verdade, muitas vezes não passamos de analfabetos funcionais da existência. Ou, simplesmente, analfabetos existenciais.

Gabamo-nos de títulos, diplomas e especializações, mas ainda não saímos do beabá da alma.

Estar informado sobre um fato não significa possuir a verdade.

Se alguém usa uma suposta verdade para chantagear, manipular, ameaçar, difamar ou obter vantagens, então o que possui não é a verdade, mas apenas fragmentos de informação possivelmente distorcidos, desencontrados, exagerados, adulterados ou mal interpretados. A verdade jamais serve à opressão. Sua vocação é libertar.

Muitas “verdades” carregam intenções inconfessáveis que, cedo ou tarde, acabam reveladas.

Não leia um livro pela metade e imagine conhecer sua conclusão. Não tente adivinhar o desfecho antes do tempo. Tampouco aceite spoilers de quem afirma saber tudo sobre a história. O que hoje parece sem sentido talvez encontre significado apenas no último capítulo.

A verdade que se revela no final, na realidade, esteve insinuando-se o tempo inteiro ao longo da trama. Pena que tantas vezes nos distraímos com informações inúteis e perdemos o essencial.

Dizem que falta amor no mundo. Talvez falte também interpretação de texto. Se Cristo é a chave hermenêutica das Escrituras, o amor é a chave hermenêutica da vida. Somente através das lentes do amor seremos capazes de compreender, de fato, a sua mensagem.

 Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Tire as sandálias dos teus pés”: www.neipies.com/tire-as-sandalias-dos-teus-pes/

Edição: A. R.

Especificidades de dois tipos de amor: o amor profissional e o amor familiar

O amor é a força da vida. E também a energia dos processos de aprendizagem. Mas, é importante perceber que se tratam de dois tipos de sentimentos.

O amor familiar se caracteriza por ser um suporte para que se tenha o prazer de bem viver. O amor profissional se caracteriza pela responsabilidade de ajudar a encontrar o prazer de aprender.

O primeiro representa o convite para a participação no banquete da vida. O segundo assegura que o aluno não é um intruso no banquete dos conhecimentos. O amor profissional se caracteriza pela relação com a beleza e a importância de cada Campo Conceitual, no domínio científico.

Sara Pain, em sua sabedoria, propõe a seguinte cena para simbolizar dois momentos básicos da relação professor e aluno.

Imagine-se viajando num trem, duas pessoas, uma olhando para a outra, sentadas frente a frente, se uma dessas pessoas dirigir seu olhar para a paisagem mutante que a janela do trem oferece, ocorre sempre, que a outra pessoa vai buscar o que a primeira passa a olhar. Isto é, para manter a tarefa ensinante, a professora precisa estabelecer afetivamente uma relação desejante de ensinar a cada aluno, sem excluir nenhum.

E, a cada dia, dirigir seu olhar para a riqueza das ideias do campo conceitual a ensinar. Se a professora não é, ela mesma, encantada pelo que ensina, dificilmente despertará verdadeiro interesse dos seus alunos pelo que tem como objetivo. Por outro lado, se a professora não estabelece uma certa cumplicidade com todos os seus alunos, tendo como núcleo as conceitualizações que ela se propõe a oferecer-lhes, certamente, os que ficarem fora desse vínculo, não aprenderão.

Essa competência não vem por si só, quando alguém se torna professor. O amor profissional do mestre, entre ele e alunos, é parte essencial das condições de sucesso dos atos de ensinar e de aprender. Mas, trata-se de um amor profissional diferente do familiar ou social. Ele se concretiza nas malhas do desejo do professor de proporcionar conhecimentos. O amor familiar e as amizades sociais se caracterizam provocando o gosto de sermos pessoas humanas bem relacionadas com outras.

Certamente, para além do amor profissional, como indispensável para bem ensinar, são necessários outros dois conhecimentos: o do conteúdo científico a propiciar aos alunos e o conhecimento de como ensinar esse conteúdo, que é um outro precioso campo científico – o da DIDÁTICA de cada campo conceitual.

E, para nossa felicidade há muito de novo nesse, também novo, campo científico de como se ensina, pois não se nasce professor. Precisamos nos tornar professores.

Autora: Esther Pilar Grossi, escrito em 15/09/2025, em uma de suas redes sociais. Já publicamos no site outras reflexões de sua autoria como Para que Escola de tempo integral: www.neipies.com/para-que-escola-de-turno-integral/ e A não-aprendizagem: violência instituída: www.neipies.com/a-nao-aprendizagem-violencia-instituida

Edição: A. R.

UPF concede título de Benemérito da Instituição a Ivaldino Tasca

Concedido pela primeira vez na história da Instituição, o título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento.

O jornalista, radialista, escritor, pesquisador e editor Ivaldino Tasca recebeu, na manhã desta terça-feira, 14 de julho, o título honorífico de Benemérito da Universidade de Passo Fundo (UPF), dedicado a personalidades que tenham prestado serviços relevantes à Universidade. Concedido pela primeira vez na história da Instituição, o título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento. A concessão foi realizada durante sessão do Conselho Universitário (Consun), com a presença de professores, familiares e amigos do homenageado.  

Repercutimos fala da Reitora da instituição, Professora e Doutora Bernadete Dalmolin.

Membros do Conselho Universitário / Professores, funcionários e acadêmicos da UPF/ Comunidade de Passo Fundo e região.

Querido homenageado, familiares e amigos

Senhoras e senhores, que acompanham esta homenagem.

Há pouco mais de um mês, a UPF comemorou 58 anos. Celebramos não apenas a passagem do tempo, mas o reconhecimento de uma história de inúmeras alegrias, desafios e aprendizados. Este momento privilegiado – o de aniversariar -, seja na vida das pessoas ou na vida das instituições, provoca o pensar sobre o caminho já percorrido e, por consequência, o reencontro com a própria essência.

É neste ponto que a história de Ivaldino Tasca e a história da Universidade de Passo Fundo se entrelaçam. Nascido em Barra Funda, mas passo-fundense de coração desde os seus 12 anos, Tasca compreendeu que o futuro de um povo depende da solidez com que ele preserva o seu passado.

A sensibilidade e a curiosidade de Tasca não o deixaram ser apenas um observador do nascimento e do crescimento da UPF, mas lhe permitiram registrar seu desenvolvimento e ter sua vida inteira muito ligada à Universidade.

Por suas palavras, estão salvaguardadas as memórias dos professores e dos funcionários fundadores, o testemunho dos precursores, a experiência dos que nos antecederam.

Foi ele quem reuniu essas vozes na obra “Eu & a UPF: memórias”. Com Tasca, também é possível resgatar a compreensão primeira da natureza comunitária de nossa universidade, seus valores e sua missão, no livro “O Comunitário na Identidade da Universidade de Passo Fundo”. Da criação do curso de Medicina às entrevistas históricas com o ex-reitor Elydo Guareschi, Tasca registrou os passos daqueles que lançaram as sementes da educação superior nesta região. Neste presente tão complexo, revisitar os princípios é vital para continuar a construir o futuro.

Com seus escritos, a história da Universidade ganhou materialidade e se transformou em um patrimônio acessível para as pessoas.

E este é o bem que Ivaldino Tasca fez à UPF: ao valorizar a nossa origem e nossa identidade, legitimou o esforço de milhares de professores, funcionários e acadêmicos que construíram esta casa de ensino, de pesquisa, de extensão, de inovação.

Sua produção bibliográfica deixa, assim, um acervo fundamental para as futuras gerações compreenderem as raízes culturais desta cidade e o desenvolvimento do ensino superior no norte gaúcho.

Entretanto, sua obra vai muito além da preservação da memória institucional. Ivaldino adentra temas diversos e complexos, revelando uma sensibilidade singular para perscrutar as entranhas da vida e dar voz ao que precisa ser denunciado, refletido e transformado.

Destaco, por exemplo, uma obra cujo título foi inspirado na poetisa portuguesa Florbela Espanca: É Pensando nos Homens que Eu Perdoo aos Tigres as Garras que Dilaceram. Nela, aborda a violência contra as mulheres com uma profundidade que ultrapassa fronteiras geográficas e gerações, revelando a permanência e a atualidade desse desafio humano e social.

Outro aspecto marcante de sua produção é a permanente inquietação intelectual que o leva a dialogar com múltiplas fontes narrativas e referenciais teóricos. Em suas obras, concede voz a diferentes pensadores e pensadoras que, sob distintas perspectivas, dedicam suas trajetórias à defesa, à promoção e à preservação dos direitos humanos, enriquecendo o debate e ampliando a compreensão sobre a condição humana.

Sua presença em nossa história, contudo, vai além do registo documental. Ao longo de mais de meio século, transitando pelo rádio e pelo jornalismo impresso, documentou a modernização do campo, a efervescência política e as transformações sociais da nossa região. Tornou-se, igualmente, um parceiro histórico do ecossistema cultural que a universidade promove, participando de projetos de mediação da leitura e da literatura, de eventos acadêmicos, de iniciativas de preservação da memória coletiva.

Neste momento solene, no qual a Universidade de Passo Fundo concede o título de Benemérito a Ivaldino Tasca, reconhecemos o bem que sua pessoa e o seu trabalho – como jornalista, escritor e pesquisador – fez à instituição. Sua trajetória é parte viva da nossa história acadêmica e motivo de grande orgulho para todos nós.

Igualmente, agradecemos aos seus familiares — sua esposa, Mara, sua filha, Janaína, e seu neto — que, sem dúvida, acolheram e sustentaram o tempo necessário para que a imaginação fecunda de Ivaldino Tasca transformasse acontecimentos, inquietações e memórias em obras que hoje pertencem a todos nós.

Receba este título de Benemérito com um abraço fraterno da sua Universidade.  Muito obrigada a todos!

Créditos fotos: Fotos: Camila Guedes/ Assessoria de Imprensa/UPF

(Professora e Doutora Bernadete Dalmolin, Reitora da UPF)

Edição: A. R.

O que me fascina em Passo Fundo!

Repercutimos a linda, emocionante e magnífica manifestação feita por Ivaldino Tasca em evento em sua homenagem na UPF (Universidade de Passo Fundo). O título Benemérito da Instituição foi concedido pela primeira vez na história da Instituição. O título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento.

Segue, na íntegra, a manifestação do homenageado que, gentilmente, nos cedeu o material. Ivaldo Tasca integra também a APLetras (Academia Passo-Fundense de Letras).

Começo com o que me fascina sobre Passo Fundo!

Quando nos desligamos de Cruz Alta, nos tornamos o 23º município do Estado: hoje somos 497 territórios. Desses 497 municípios, cerca de 120 – no todo ou em parte – estão no território original criado em 28 de janeiro de 1857.

Como município tínhamos área superior a 80 mil quilômetros quadrados e aqui viviam 7.586 pessoas. Esses 80 mil quilômetros são agora irrisórios 784,4 km², menor que a área do antigo distrito de Soledade que hoje possui 1.125 km² de extensão e aqui vivem perto de 217 mil pessoas!

Gosto de citar esses números para destacar que se o tamanho do território despenca, jamais perdemos o posto de terceiro polo de saúde dos três estados do Sul, de maior polo educacional e cultural da região, de pujante centro universitário, com setores comercial e construção civil de expressão no Norte gaúcho.

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Sigo com o que foi outro fator do alicerce que deu sustentação para nossa força, nosso vigor: em termos étnicos, ao contrário de todo o Norte gaúcho, onde cada recanto está no singular, Passo Fundo sempre esteve no plural.

Algo fundamental para nossa pujança. Primeiros foram os portugueses e afrodescendentes que, vindos de Sorocaba, São Paulo, acampavam aqui quando se dirigiam ao extremo sul em busca de mulas para as minas de prata de Potosí na Bolívia e de Minas Gerais.

Depois um abençoado processo migratório veio para fazer a diferença: os alemães são os primeiros a se fixarem e logo foram seguidos por italianos, sírios, libaneses, judeus, poloneses, austríacos, franceses e espanhóis…

Passo Fundo tem no TREM outro grande e determinante fator para se tornar Pólo Regional. Ele deslancha um processo desenvolvimentista que, no início do Século XX, nos fez “explodir.

Nas primeiras décadas desse século as mudanças econômicas, tecnológicas, culturais, sociais, artísticas são tão expressivas, tão marcantes que o período foi definido como a Belle Époque (Bela Época) passo-fundense e tem no trem um dos fatores primordiais para tal situação efervescente que traz a modernidade.

Quando inicia o Século 20, Passo Fundo começa a enriquecer com atuação dos empreendedores que foram fenomenais na produção primária, na implantação da indústria, na produção de cerveja, na exportação de madeira, consolidação de um comércio com repercussão regional, no cultivo e exportação erva-mate, na criação de gado, na produção de charque (uma de nossas charqueadas teve a dimensão daquelas que foram pujantes no Sul do Estado), na produção e exportação de embutidos para o centro do pais, nas olarias, no cultivo de grãos, na industrialização do leite…

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Em 1914, surge o Hospital de Caridade que vira Hospital da Cidade. Quatro anos depois, chega o Hospital São Vicente, numa pequena casa onde está o EENAV. Os dois são as raízes do que somos hoje: o terceiro polo medico dos três estados do sul. Hoje são 10 hospitais.

Foi num ritmo estonteante que chegamos na década de 1950, tendo, entre dezenas de outros fatores econômicos, políticos, sociais e culturais em um forte e competente ensino secundário – com Instituo Educacional, EENAV, Notre Dame, Conceição – que desperta a necessidade de uma Universidade.

Nesse contexto, surge a Sociedade Pró-Universidade de Passo Fundo (SPU), presidida pelo médico Cesar Santos e, em 1956, surge o Consórcio Universitário Católico, idealizado pelo Bispo Dom Cláudio Colling.

Da fusão de ambos, brota a Universidade de Passo Fundo, oficializada em cerimônia especial em 6 de junho de 1968, na qual discursei em nome dos universitários, embora contrariando alguns…

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Quando organizamos um livro em que 21 professores da UPF fazem rápida abordagem sobre sua passagem pela instituição, eu escrevi:

Que a obra pronta, por si só, nem sempre relata o sacrifício despendido para erguê-la, a quantidade de suor que escorreu dos rostos obreiros, os conflitos estressantes vivenciados por quantos nela estiveram envolvidos como parte de um sonho, nem de onde saiu o dinheiro para consolidá-la. Também não revela quantos cérebros e mãos foram preciso para consolidá-la. A obra já em uso no cotidiano raramente dá a ideia da envergadura do desafio enfrentado desde os primórdios. A contemplar a obra pronta poucos saberão do seu significado, das mudanças que provocou, do impacto causado em seu entorno.”

Depois de consolidada eu escrevi, em outro livro, que “A Universidade de Passo Fundo, que orgulha a todos, resultou de longa, e às vezes penosa, caminhada coletiva.”

“A UPF, como nosso grande patrimônio, resultante dessa capacidade criadora dos passo-fundenses, não é obra de uma pessoa, ou de um partido, ou de uma ideologia. Isso é um fato”.

Metade da década de 60, a década de 70, parte da década de 80, registram incríveis iniciativas positivas e estonteantes momentos perturbadores.

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Preciso dizer, também, desde logo, que se hoje estou aqui é graças a centenas de pessoas que dedicaram o melhor de suas vidas para tornar realidade o Ensino Superior em Passo Fundo. Elas é que deveriam estar aqui…

Muitas pessoas foram perseguidas, algumas foram obrigadas a deixar a cidade, outras foram presas e algumas, inclusive, torturadas.

Quando veio a ditadura, eu integrava o grupo que no Colégio Conceição organizou o primeiro curso de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, considerado subversivo após o golpe de 64.

Depois disso tudo foi complexo, assustador, pois tive intensa atuação como estudante universitário e, na sociedade, como jornalista.

Muitos fatos foram doentios, patológicos, insalubres e oprimiram também minha família. Foi também um tempo de queimar livros e diferente documentos de diferentes movimentos de luta contra a ditadura, com ajuda da mãe.

Quando presidi o Diretório Acadêmico João Carlos Machado, a direção da Faculdade de Direito entendeu como “terrível subversão” reagir contra o aumento das anuidades. Por causa disso fui defenestrado desse curso e do curso de Filosofia.

Como incurso na lei de Segurança Nacional por participar do Congresso da UNE em Ibiúna, nunca mais entrei numa sala de aula.

Foi um período de pressão e opressão. Em Passo Fundo, praticamente todos que tinham alguma postura política foram chamados pelo comando local da unidade do Exército para “explicações”. Eu estive lá, o padre Alcides lá esteve lá e vários estudantes e professores estiveram lá.

Na ânsia de controlar possíveis atividades subversivas, o Comandante cometeu exageros.

Nesse contexto, o fiscal do Imposto de Vendas e Consignações (IVC que virou ICMS) multou o negócio do meu pai que acabou falindo. Ao pedir, por exemplo, a nota de carne de ovelha, ele falou: sabe seu Tasca, tem que cuidar de seu filho, ele é tido como um comunista radical e isso não é bom…”

Quando contratado pela então pujante Cia. Jornalística Caldas Junior Caldas Junior, um destacado colega jornalista local liga para o diretor dizendo que era absurdo ter um subversivo como correspondente…

Entre várias circunstâncias de grupos que tisnaram a UPF, cito a tentativa de inviabilizar a candidatura do padre Alcides Guareschi a Reitor. Num dia de dezembro – creio de 1981 – o padre Eli Benincá chega na redação de O Nacional e informa que um grupelho estava articulado para impedir que o padre Alcides Guareschi fosse eleitor reitor da UPF.

O grupo, foi o que disseram, já tinha feito contato com Brasília, articulando ações para esse objetivo. O que fazer? O máximo que eu poderia fazer era produzir um texto denunciando tal postura.

Foi o que fiz. Pela complexidade do momento, solicitei que o padre Ely lesse o texto antes de publicar. Ele e leu e acho muito agressivo! Rescrevi, aumentei a agressividade e publiquei esse texto com o seguinte título: “Caça às bruxas continua: a abertura não chegou na Universidade de Passo Fundo.”

Em 1982, Guareschi foi escolhido reitor e um dia o padre Benincá me disse que, sem aquele meu escrito, isso não teria acontecido.

***

A Universidade de Passo Fundo (UPF) é uma instituição comunitária sem fins lucrativos, considerada um dos maiores polos educacionais do Sul do Brasil. Referência em ensino superior, pesquisa e inovação, a UPF se destaca por sua forte ligação com o desenvolvimento econômico e social do norte do estado gaúcho.

Possui conceito máximo (nota 5) em avaliações do Ministério da Educação (MEC) e é classificada como a 6ª melhor universidade privada do Brasil.

Neste momento, preciso agradecer por esta homenagem e não sei como. Estar aqui, hoje, é algo extraordinário para mim. Assim, apelo para o óbvio e do fundo do meu coração digo: muito obrigado à Universidade de Passo Fundo por este momento de felicidade.

Digo Obrigado para quem lutou pela UPF!

Da mesma forma digo muito obrigado por esses amigos que estão aqui neste momento me inundando de contentamento, de intensa satisfação e muita alegria.

Obrigado Mara, Janaína e Júlio!

Veja também: https://www.youtube.com/shorts/ZCF9B_P6YhI?t=2&feature=share

Créditos fotos: Arquivo pessoal/ Assessoria de Imprensa/UPF

Edição: A. R.

El Niño 1877 X El Niño 2026

Bastou o anúncio de que o El Niño, ora estabelecido, viesse a público e que poderia ser um evento de intensidade forte ou até muito forte, para surgir, nas redes sociais, não se sabe de onde, a comparação incomparável do El Niño de 2026 com o El Niño de 1877. Alto lá, hoje são outros tempos, outro mundo.

A história registra que, no último quartil do século XIX, marcando o final da Era Vitoriana (1837-1901), quando a economia mundial era comandada pelo padrão ouro (não pelo dólar) e o centro do mundo ficava em Londres (não em Washington, D.C.), houve três ondas de secas severas que deixaram um rastro de destruição e mortes na faixa tropical do Planeta.

Imagens de pessoas esquálidas, morrendo aos milhares, vitimadas pela fome, especialmente nas possessões inglesas na Índia, na África e na China, pela similaridade em atrocidade e guardadas as devidas diferenças de motivação, chegaram a merecer a denominação de “holocaustos” vitorianos.

Houve quem, muitos anos depois, identificasse as digitais de El Niño nessas catástrofes climáticas. Mas, afinal, foi El Niño ou o modelo econômico impetrado pelos britânicos o responsável pela tragédia humana associada com as secas vitorianas nos trópicos que, segundo alguns historiadores, teria sido a gênese do que se convencionou, mais tarde, chamar de “Terceiro Mundo”?

Bastou o anúncio de que o El Niño, ora estabelecido, viesse a público e que poderia ser um evento de intensidade forte ou até muito forte, para surgir, nas redes sociais, não se sabe de onde, a comparação incomparável do El Niño de 2026 com o El Niño de 1877. Outros tempos, outro mundo.

A previsão do El Niño atual está assentada em uma base robusta de conhecimento científico, enquanto o diagnóstico (não previsão) do El Niño de 1877 foi feito, retroativamente, por reconstrução indireta, carregando incertezas e margem de erro elevadas, uma vez que não havia, na ocasião, o monitoramento de temperaturas das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico, na faixa equatorial. Esse monitoramento seria implementado a partir do El Niño de 1982/83, com o advento do Programa TOGA (1º de janeiro 1985 a 31 dezembro 1994).

As secas que se instauraram no mundo entre 1876 e 1879 e 1896 e 1902, admite-se, sob os auspícios de El Niño, deixaram, por baixo, 30 milhões de mortos pela fome que se instaurou na população pobre em decorrência de perdas na agricultura. Isso contabilizando-se as vítimas apenas na Índia, na China e no Brasil.

As estatísticas, evidentemente carregadas de incerteza, para esses três países, variam entre 31,7 e 61,3 milhões de mortes, havendo quem não considera desarrazoado admitir que 50 milhões de vítimas foram deixadas por três ondas de fome e doenças que assolaram o mundo nos estertores da Era Vitoriana. As digitais nessas mortes seriam de El Niño ou melhor ser creditadas aos súditos da Rainha Vitória e sua insensibilidade para com os atingidos pelas catástrofes climáticas ao levarem ao extremo do sagrado o liberalismo econômico de Adam Smith, o utilitarismo das leis de Jeremy Bentham e os princípios de liberdade e moral professados por John Stuart Mill?

Outro ponto de dificuldade extrema e repleto de controvérsias, para sustentar qualquer comparação minimamente razoável entre o El Niño de 1877 e o El Niño de 2026, é a chamada atribuição de impactos a eventos climáticos extremos. Quase sempre, contabilizados em impactos humanos, via mortalidade e morbidade; econômicos, pelos custos diretos e indiretos dos danos causados e coberturas de indenização pagas por seguradoras; e ambientais, que; não raro, são mascarados pelo grau de exposição e vulnerabilidade. A vulnerabilidade e exposição dos indianos, chineses e da população nordestina, no caso do Brasil, diante de uma seca severa associada com o El Niño de 2026, seria a mesma de 1877?

O sistema mundial de alimentação, pelo lado da oferta de alimentos no mundo hoje, não guarda a mínima relação com o que vigia em 1877, para que alguém considere plausível a morte de 50 milhões de pessoas por inanição.

Em comum com a Índia, no final do século XIX, especialmente na Região Nordeste do Brasil, os investimentos ingleses imperavam.

A região seria uma espécie de “colônia inglesa informal”. Nesse ambiente, região sensível a El Nino, assim como, pela falha das monções, na Índia, a seca também grassou no Nordeste, espalhando pobreza e mortes. A pregação de Antônio Conselheiro atraiu para as suas hostes muitos retirantes marcados pela fome e pobreza extrema causadas pelas secas que, atualmente, podem, sim, ser associadas com El Niño. No entanto, as digitais de El Niño, no caso brasileiro, não são encontráveis no cadáver de Antônio Conselheiro, que, dizem, não sem controvérsias, morreu de causas naturais; mas na pena de Euclides da Cunha nas páginas de Os Sertões, ao retratar a Guerra de Canudos, 1896-1897.

Em vez de dar ouvidos a comparações incomparáveis, tipo essa El Niño 1877 X El Niño 2026, ou dar voz a negacionistas de plantão, sugerimos o acompanhamento das previsões oficiais do fenômeno ENOS (El Niño – Oscilação Sul) e a montagem de estratégias para que não sejamos surpreendidos quando El Niño (e suas anomalias climáticas associadas) dar o ar da sua graça.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Olha o Super El Nino aí, gente!”: www.neipies.com/olha-o-super-el-nino-ai-gente/

Edição: A. R.

Uma cidade contadora de histórias

Contar histórias sempre ocupou papel central no desenvolvimento do ser humano enquanto espécie. Hoje, porém, a narração oral ganhou dimensão ainda maior: é vista como arte, engaja muitas pessoas como profissionais na atuação e é um motor da economia criativa. Basta ver o número de projetos, festivais, encontros e outras manifestações promovidas no Brasil e no mundo. Passo Fundo, claro, não fica fora dessa.

Considerada a Capital Nacional da Literatura, a cidade de Passo Fundo sempre apresentou vocação narradora. Desde as Jornadas Literárias, com a promoção de debates e apresentações, passando por iniciativas como o Bando de Letras, as intervenções do Mundo da Leitura, da UPF, dentre outras, muitas foram as mãos e mentes impulsionando o gosto pelas narrativas. Todavia, foi nos últimos anos, sobretudo na última década, que a narração oral de histórias ganhou ainda mais vigor em nosso território.

A inserção de novos profissionais dinamizou a cena cultural da cidade. Iniciativas de grupos e produtores independentes, da Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski, do SESC, da Academia Passo-Fundense de Letras e de diversos agentes ajudaram a dar um sentido novo à oralidade.

A gama de projetos se expandiu, os espaços foram preenchidos com intervenções variadas e até intercâmbio com outros artistas e outras cidades foram promovidos. Em determinado momento, percebeu-se a necessidade de avançar um pouco mais. E, em 2025, foi aprovada e promulgada a Lei Ordinária 5.988, de proposição do vereador Douglas Pereto, instituindo a Semana Municipal do Contador de Histórias. Estava concretizado o reconhecimento via Poder Público de um trabalho de muitos anos.

A instituição legal desse momento dedicado aos narradores orais foi apenas um primeiro passo para poder estimular ações, busca de recursos e mais participação pública na arte e na cultura.

De imediato, já em março de 2026 (mês dedicado ao artista da palavra oral), foi realizada a 1ª Semana do Contador de Histórias, com atividades em diversos pontos da cidade. Uma delas foi o encontro de profissionais da área e interessados nas dependências da APL. Tendo como objetivo o compartilhamento de experiências e ideias, o momento serviu para um alinhamento mais preciso sobre a capacidade de atuação em Passo Fundo, os desafios do ofício e, sobretudo, qual o papel que deveria ser assumido diante dessa nova perspectiva. As conversas renderam bons frutos e estimularam ainda mais a continuidade desse trabalho.

De agora em diante é necessário ainda mais esforço, tanto dos agentes culturais, quanto do Poder Público e da sociedade civil. Todos aqueles que tiverem a oportunidade da partilha de narrativas, seja no âmbito do lar, ou a nível profissional; que puderem acompanhar espetáculos, consumir produtos artísticos, divulgar artistas, devem fazê-lo.

Como dizia o poeta Antonio Machado, “caminhante, não há caminho/o caminho se faz ao andar”, temos a plena consciência de que é com o engajamento conjunto que conseguiremos chegar a um patamar de excelência no respeito à oralidade e tudo o que ela simboliza: memória, pertencimento, conexão.

***

A literatura em Passo Fundo tem se aprimorado muito nos últimos anos. Novas — e competentes! — editoras surgiram, autores se profissionalizaram, o número de contadores de histórias cresceu e as produções locais têm alcançado todo o Estado, quiçá o país.

O escritor e contador de histórias Gabriel Cavalheiro Tonin, o Gabito, é prova viva disso. Com uma vasta criação de livros e projetos, ele se aprimora a cada passo, apresentando obras dignas dos maiores catálogos. Neste episódio do Literatura Local, ele nos apresenta seu mais novo livro infantil, A Abelha e a Flor, lançado pela editora Giostri, de São Paulo!

Publicada pelo selo Giostrinho, a obra é o segundo volume de uma jornada que começou quando Gabito venceu um concurso da editora. Como tudo que é bom merece bis, ele lança agora, pela mesma casa editorial, a continuação desse enredo.

Em nosso bate-papo, também falamos sobre a formalização da Associação de Contadores de Histórias, entre outros assuntos essenciais para a nossa literatura. (Aleixo da Rosa)

Confira!

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin (Gabito). Também escreveu e publicou no site “Salvem a leitura”: https://www.neipies.com/salvem-a-leitura/

Edição: A. R.

A poesia segundo Mário Quintana

O poeta brasileiro Mário Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Ele faleceu em Porto Alegre no dia 5 de maio de 1994, aos 87 anos. Em sua homenagem, no mês de julho, editamos uma Carta escrita por ele aos poetas.

Meu caro poeta,

“Por um lado, foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa.

A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio.

Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos.

Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano.

O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.)

Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos.

Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico.

Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos.

E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

(Mario Quintana, em “80 anos de poesia”, ed. Globo, 2008)

Ouça e assista também bela homenagem à Mario Quintana: https://youtu.be/nFtO44LY-m4?si=hkYYkWcXzuD4VeFV

FONTE: https://www.algumapoesia.com.br/prosa/prosa005.htm

Edição: A. R.

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