Repercutimos a linda, emocionante e magnífica manifestação feita por Ivaldino Tasca em evento em sua homenagem na UPF (Universidade de Passo Fundo). O título Benemérito da Instituição foi concedido pela primeira vez na história da Instituição. O título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento.
Segue, na íntegra, a manifestação do homenageado que, gentilmente, nos cedeu o material. Ivaldo Tasca integra também a APLetras (Academia Passo-Fundense de Letras).

Começo com o que me fascina sobre Passo Fundo!
Quando nos desligamos de Cruz Alta, nos tornamos o 23º município do Estado: hoje somos 497 territórios. Desses 497 municípios, cerca de 120 – no todo ou em parte – estão no território original criado em 28 de janeiro de 1857.
Como município tínhamos área superior a 80 mil quilômetros quadrados e aqui viviam 7.586 pessoas. Esses 80 mil quilômetros são agora irrisórios 784,4 km², menor que a área do antigo distrito de Soledade que hoje possui 1.125 km² de extensão e aqui vivem perto de 217 mil pessoas!
Gosto de citar esses números para destacar que se o tamanho do território despenca, jamais perdemos o posto de terceiro polo de saúde dos três estados do Sul, de maior polo educacional e cultural da região, de pujante centro universitário, com setores comercial e construção civil de expressão no Norte gaúcho.
***
Sigo com o que foi outro fator do alicerce que deu sustentação para nossa força, nosso vigor: em termos étnicos, ao contrário de todo o Norte gaúcho, onde cada recanto está no singular, Passo Fundo sempre esteve no plural.
Algo fundamental para nossa pujança. Primeiros foram os portugueses e afrodescendentes que, vindos de Sorocaba, São Paulo, acampavam aqui quando se dirigiam ao extremo sul em busca de mulas para as minas de prata de Potosí na Bolívia e de Minas Gerais.
Depois um abençoado processo migratório veio para fazer a diferença: os alemães são os primeiros a se fixarem e logo foram seguidos por italianos, sírios, libaneses, judeus, poloneses, austríacos, franceses e espanhóis…
Passo Fundo tem no TREM outro grande e determinante fator para se tornar Pólo Regional. Ele deslancha um processo desenvolvimentista que, no início do Século XX, nos fez “explodir.
Nas primeiras décadas desse século as mudanças econômicas, tecnológicas, culturais, sociais, artísticas são tão expressivas, tão marcantes que o período foi definido como a Belle Époque (Bela Época) passo-fundense e tem no trem um dos fatores primordiais para tal situação efervescente que traz a modernidade.
Quando inicia o Século 20, Passo Fundo começa a enriquecer com atuação dos empreendedores que foram fenomenais na produção primária, na implantação da indústria, na produção de cerveja, na exportação de madeira, consolidação de um comércio com repercussão regional, no cultivo e exportação erva-mate, na criação de gado, na produção de charque (uma de nossas charqueadas teve a dimensão daquelas que foram pujantes no Sul do Estado), na produção e exportação de embutidos para o centro do pais, nas olarias, no cultivo de grãos, na industrialização do leite…

***
Em 1914, surge o Hospital de Caridade que vira Hospital da Cidade. Quatro anos depois, chega o Hospital São Vicente, numa pequena casa onde está o EENAV. Os dois são as raízes do que somos hoje: o terceiro polo medico dos três estados do sul. Hoje são 10 hospitais.
Foi num ritmo estonteante que chegamos na década de 1950, tendo, entre dezenas de outros fatores econômicos, políticos, sociais e culturais em um forte e competente ensino secundário – com Instituo Educacional, EENAV, Notre Dame, Conceição – que desperta a necessidade de uma Universidade.
Nesse contexto, surge a Sociedade Pró-Universidade de Passo Fundo (SPU), presidida pelo médico Cesar Santos e, em 1956, surge o Consórcio Universitário Católico, idealizado pelo Bispo Dom Cláudio Colling.
Da fusão de ambos, brota a Universidade de Passo Fundo, oficializada em cerimônia especial em 6 de junho de 1968, na qual discursei em nome dos universitários, embora contrariando alguns…
***
Quando organizamos um livro em que 21 professores da UPF fazem rápida abordagem sobre sua passagem pela instituição, eu escrevi:
“Que a obra pronta, por si só, nem sempre relata o sacrifício despendido para erguê-la, a quantidade de suor que escorreu dos rostos obreiros, os conflitos estressantes vivenciados por quantos nela estiveram envolvidos como parte de um sonho, nem de onde saiu o dinheiro para consolidá-la. Também não revela quantos cérebros e mãos foram preciso para consolidá-la. A obra já em uso no cotidiano raramente dá a ideia da envergadura do desafio enfrentado desde os primórdios. A contemplar a obra pronta poucos saberão do seu significado, das mudanças que provocou, do impacto causado em seu entorno.”
Depois de consolidada eu escrevi, em outro livro, que “A Universidade de Passo Fundo, que orgulha a todos, resultou de longa, e às vezes penosa, caminhada coletiva.”
“A UPF, como nosso grande patrimônio, resultante dessa capacidade criadora dos passo-fundenses, não é obra de uma pessoa, ou de um partido, ou de uma ideologia. Isso é um fato”.
Metade da década de 60, a década de 70, parte da década de 80, registram incríveis iniciativas positivas e estonteantes momentos perturbadores.

***
Preciso dizer, também, desde logo, que se hoje estou aqui é graças a centenas de pessoas que dedicaram o melhor de suas vidas para tornar realidade o Ensino Superior em Passo Fundo. Elas é que deveriam estar aqui…
Muitas pessoas foram perseguidas, algumas foram obrigadas a deixar a cidade, outras foram presas e algumas, inclusive, torturadas.
Quando veio a ditadura, eu integrava o grupo que no Colégio Conceição organizou o primeiro curso de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, considerado subversivo após o golpe de 64.
Depois disso tudo foi complexo, assustador, pois tive intensa atuação como estudante universitário e, na sociedade, como jornalista.
Muitos fatos foram doentios, patológicos, insalubres e oprimiram também minha família. Foi também um tempo de queimar livros e diferente documentos de diferentes movimentos de luta contra a ditadura, com ajuda da mãe.
Quando presidi o Diretório Acadêmico João Carlos Machado, a direção da Faculdade de Direito entendeu como “terrível subversão” reagir contra o aumento das anuidades. Por causa disso fui defenestrado desse curso e do curso de Filosofia.
Como incurso na lei de Segurança Nacional por participar do Congresso da UNE em Ibiúna, nunca mais entrei numa sala de aula.
Foi um período de pressão e opressão. Em Passo Fundo, praticamente todos que tinham alguma postura política foram chamados pelo comando local da unidade do Exército para “explicações”. Eu estive lá, o padre Alcides lá esteve lá e vários estudantes e professores estiveram lá.
Na ânsia de controlar possíveis atividades subversivas, o Comandante cometeu exageros.
Nesse contexto, o fiscal do Imposto de Vendas e Consignações (IVC que virou ICMS) multou o negócio do meu pai que acabou falindo. Ao pedir, por exemplo, a nota de carne de ovelha, ele falou: sabe seu Tasca, tem que cuidar de seu filho, ele é tido como um comunista radical e isso não é bom…”
Quando contratado pela então pujante Cia. Jornalística Caldas Junior Caldas Junior, um destacado colega jornalista local liga para o diretor dizendo que era absurdo ter um subversivo como correspondente…
Entre várias circunstâncias de grupos que tisnaram a UPF, cito a tentativa de inviabilizar a candidatura do padre Alcides Guareschi a Reitor. Num dia de dezembro – creio de 1981 – o padre Eli Benincá chega na redação de O Nacional e informa que um grupelho estava articulado para impedir que o padre Alcides Guareschi fosse eleitor reitor da UPF.
O grupo, foi o que disseram, já tinha feito contato com Brasília, articulando ações para esse objetivo. O que fazer? O máximo que eu poderia fazer era produzir um texto denunciando tal postura.
Foi o que fiz. Pela complexidade do momento, solicitei que o padre Ely lesse o texto antes de publicar. Ele e leu e acho muito agressivo! Rescrevi, aumentei a agressividade e publiquei esse texto com o seguinte título: “Caça às bruxas continua: a abertura não chegou na Universidade de Passo Fundo.”
Em 1982, Guareschi foi escolhido reitor e um dia o padre Benincá me disse que, sem aquele meu escrito, isso não teria acontecido.
***
A Universidade de Passo Fundo (UPF) é uma instituição comunitária sem fins lucrativos, considerada um dos maiores polos educacionais do Sul do Brasil. Referência em ensino superior, pesquisa e inovação, a UPF se destaca por sua forte ligação com o desenvolvimento econômico e social do norte do estado gaúcho.
Possui conceito máximo (nota 5) em avaliações do Ministério da Educação (MEC) e é classificada como a 6ª melhor universidade privada do Brasil.
Neste momento, preciso agradecer por esta homenagem e não sei como. Estar aqui, hoje, é algo extraordinário para mim. Assim, apelo para o óbvio e do fundo do meu coração digo: muito obrigado à Universidade de Passo Fundo por este momento de felicidade.
Digo Obrigado para quem lutou pela UPF!
Da mesma forma digo muito obrigado por esses amigos que estão aqui neste momento me inundando de contentamento, de intensa satisfação e muita alegria.
Obrigado Mara, Janaína e Júlio!
Veja também: https://www.youtube.com/shorts/ZCF9B_P6YhI?t=2&feature=share
Créditos fotos: Arquivo pessoal/ Assessoria de Imprensa/UPF


Edição: A. R.











Foi muito bom e edificante este momento de homenagem e, sobretudo, reconhecimento a Ivaldino Tasca pela trajetória e engajamento pela democracia no Brasil e em Passo Fundo.