Talvez o esclarecimento comece assim. Não pela recusa dos dados, mas pela coragem de não lhes entregar a última palavra. Recursos são necessários. Avaliações também. Mas nenhuma recompensa financeira pode substituir o trabalho coletivo de pensar o sentido da educação.
(Por Amarildo Luiz Trevisan)
Na manhã seguinte à divulgação do IDEB, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, que é o principal indicador da qualidade do ensino público e privado no Brasil, a diretora chegou à escola carregando uma pasta azul, três planilhas e uma preocupação que não cabia em nenhuma célula do Excel.
Na sala dos professores, alguém perguntou:
*E então, melhoramos?
Ela respirou antes de responder.
*Depende.
Essa palavra costuma anunciar problemas. Quando o médico diz “depende”, o paciente aperta os braços da cadeira. Quando o mecânico diz “depende”, o motorista já imagina a conta. Na educação, “depende” geralmente significa que a realidade não coube no indicador.
A nota da escola havia subido um pouco, mas não o suficiente. O fluxo escolar melhorara, embora a aprendizagem continuasse abaixo da meta. Alguns estudantes avançaram, outros permaneceram quase no mesmo lugar. Havia ainda os que deixaram de frequentar as aulas porque precisavam trabalhar, cuidar dos irmãos ou simplesmente atravessar uma cidade sem transporte adequado.
Nada disso aparecia com nitidez no número.
O Ideb não retiraria automaticamente os recursos regulares do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, que é o principal mecanismo de financiamento da educação pública básica no Brasil. Era importante deixar isso claro. Entretanto, poderia pesar no acesso da rede à complementação-VAAR, uma parcela adicional de recursos da União destinada a premiar avanços na aprendizagem, na gestão e na redução das desigualdades. Ou seja, o VAAR (Valor Aluno Ano Resultado) é um repasse de dinheiro feito pelo governo federal do Brasil para estados e municípios, e este recurso faz parte do FUNDEB.
A professora de Matemática fez as contas.
*Então, quem melhora recebe mais?
*Em princípio, sim.
*E quem não melhora?
*Pode deixar de receber o recurso adicional.
A professora ficou alguns segundos olhando para o quadro.
*Mas quem não melhora talvez seja justamente quem mais precisa de ajuda.
A diretora fechou a pasta azul. Certas conclusões não exigem calculadora.
No intervalo, um representante da secretaria apareceu na escola. Trazia gráficos coloridos e um vocabulário sem recreio: metas, evidências, desempenho, eficiência, monitoramento, responsabilização.
Explicou que a rede precisava reagir. Era necessário identificar descritores críticos, reorganizar os conteúdos, acompanhar resultados e alinhar práticas. Falava com segurança. Os gráficos subiam e desciam como montanhas-russas, embora ninguém parecesse se divertir.

Uma professora levantou a mão.
Podemos discutir por que nossos estudantes estão aprendendo menos?
O técnico apontou para um slide.
*Isso está contemplado no plano de intervenção.
*Mas podemos discutir o que entendemos por uma boa educação?
Ele hesitou. Procurou a resposta entre os gráficos, mas aquela pergunta não constava na apresentação.
*No momento, precisamos focar os indicadores.
Era uma resposta eficiente. Também era uma maneira educada de encerrar o pensamento.
Kant escreveu que é muito cômodo permanecer na menoridade. Não preciso pensar, dizia ele, se posso simplesmente pagar. Alguém se encarregará da tarefa tediosa em meu lugar.
Na escola, a frase parecia ter ganhado uma atualização administrativa: não é necessário pensar se podemos medir, classificar, premiar ou ameaçar com a perda de recursos adicionais. Outros já decidiram o que importa. Basta perseguir a meta.
O índice passa a funcionar como tutor. Diz à escola onde chegar, em quanto tempo e por qual caminho. Se ela obedece e melhora, recebe a recompensa. Se não consegue, pode perder justamente o apoio que talvez lhe permitisse melhorar.
É como retirar o colete salva-vidas de quem ainda não aprendeu a nadar, sob a alegação de que os melhores nadadores merecem mais incentivo.
Ninguém ali era contra avaliações. A diretora sabia que dados ajudam a revelar problemas escondidos. Os professores também queriam conhecer os resultados de seu trabalho. O problema começava quando o número deixava de ser uma pergunta e passava a ser a resposta.
Uma escola pode aumentar sua nota treinando estudantes para provas. Pode reduzir reprovações sem garantir aprendizagem. Pode selecionar prioridades pensando no próximo indicador. Pode, enfim, tornar-se mais eficiente em produzir resultados e menos capaz de perguntar para que, para quem e a que custo educa.
Ao final da reunião, o técnico recolheu o computador e anunciou:
*Se todos fizerem a sua parte, alcançaremos a meta.
A diretora olhou pela janela. No pátio, uma menina dividia o lanche com um colega. Dois estudantes discutiam uma notícia. Um professor ajudava um rapaz que pensava em abandonar a escola. Nada daquilo apareceria no Ideb. Ainda assim, talvez ali estivesse uma parte importante da educação que se pretendia avaliar.
Antes de sair, a professora de Matemática voltou à pergunta inicial:
*Afinal, melhoramos ou não?
A diretora abriu novamente a pasta, olhou as planilhas e depois tornou a fechá-la.
*O número diz uma coisa. Agora precisamos descobrir o que a escola tem a dizer.
Talvez o esclarecimento comece assim. Não pela recusa dos dados, mas pela coragem de não lhes entregar a última palavra. Recursos são necessários. Avaliações também. Mas nenhuma recompensa financeira pode substituir o trabalho coletivo de pensar o sentido da educação.
Porque, quando pagar parece mais fácil do que pensar, quase sempre alguém pensa por nós. E raramente é quem conhece o nome, a história e as dificuldades das crianças que aparecem apenas como números na planilha.
Autor:Amarildo Luiz Trevisan, licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020).

Edição: A. R.










