Cristianismo pode continuar sendo luz para a humanidade

167

Entrevistamos Michael de Oliveira, mais conhecido como Maiky, um estudioso e propagador do Cristianismo ao seu modo: ativo e partícipe de movimentos religiosos, fazendo trabalho na comunidade cristã católica onde reside e produzindo material para reflexão e orientação cristã a partir da Bíblia Sagrada em vídeos ou em forma de um Curso.

Chama atenção sua dedicação, responsabilidade e visão crítica do mundo, da religiosidade e da sociedade. Por esta razão, a nosso convite, Maiky (ou Michael de Oliveira) é o entrevistado do site neste momento histórico tão rico e tão controverso em que está passando nosso querido Brasil.

Conheça Maiky por ele mesmo.

Fale-nos sobre você e sua trajetória pessoal e profissional.

Sou natural de Serafina Corrêa/RS, vindo de uma família religiosa desde muito jovem pude participar das vivências na Igreja Católica, de pastorais, de grupos, movimentos, enfim.

Em 2003 mudei-me para Passo Fundo onde constituí família e se tornou a minha casa. Sou casado com Aline, professora municipal, desde 2003 e tenho um filho, Samuel, com 18 anos, barbeiro bem conceituado já apesar da juventude.

Sou Bacharel em Filosofia pelo IFIBE, Licenciado em Ciências Sociais pela UFRGS, possuo MBA em Gestão Pública pela UNOPAR e Especialização em Ensino de Filosofia (UFSM) e também em Teologia (FOCUS), voltado bastante para a Teologia Bíblica. Por mais que minha área de estudo seja quase que completamente nas Ciências Humanas, sou Servidor Público desde 2011, prestando serviço junto à Secretaria de Finanças do Município. Imagina só, alguém “de humanas” trabalhando diretamente com “exatas”, mas gosto muito e sou realizado no serviço público.

Conte-nos sobre as tuas vivências comunitárias: grupos de jovens, grupo de casais, animação de missas, participação em diferentes eventos religiosos.

Neste assunto é difícil ser sucinto, pois orgulhosamente tenho muita caminhada.

Como falei anteriormente, desde cedo estou nessa lida, comecei com grupos de oração em Serafina Corrêa, participava de grupo de jovens da RCC. Lembro bem que tivemos, também, missões redentoristas por volta do ano de 1996 onde tínhamos encontros com os missionário e missionárias envolvendo a juventude, foi uma ação que me marcou. Fui coordenador de grupos, também da Pastoral dos Coroinhas em Serafina Corrêa.

Quando vim para Passo Fundo me estabeleci na Paróquia São Cristóvão, onde vivo até hoje e que sempre me deu muito suporte, espiritual e até mesmo material, sou muito grato por ter crescido espiritualmente nessa Paróquia. Foi aqui que comecei a compreender que o que nós fazemos deve ser efetivamente um serviço, deve ser um auxílio às pessoas mais vulneráveis.

Sou músico, então sempre tenho atuação paroquial nas músicas da liturgia e de vários movimentos. Participei do MCJ (Movimento de Casais Jovens) que nos deu suporte enquanto família. Inclusive, eu e minha esposa, fomos coordenadores deste movimento em Passo Fundo.

Atualmente atuo muito junto do Movimento Acampamento, que trouxe uma dinâmica diferente de vivência, onde eu me encaixei muito bem nessa dinâmica e este movimento trouxe novos ares até mesmo para nossa Paróquia.

Anunciaste, recentemente, a elaboração de um livro chamado “O logos encarnado”. Como foi esta experiência da escrita e o que almeja com este livro?

Este livro não deixa de ser a realização de um sonho. Um sonho que nem sempre sonhei, é algo que foi amadurecendo aos poucos. Talvez o início se deu a partir de 2009, quando comecei a faculdade de Filosofia, tive ótimos professores. A filosofia foi algo que me fez retornar ao mundo da literatura, lê-se muito, leituras densas, o que, pouco a pouco, vai nos conquistando.

Somando essa formação com minha atuação junto à comunidade paroquial e movimentos, foi surgindo cada vez mais a inquietação tão natural do filósofo. Para mim não bastava mais dizer que “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1), eu queria saber o que de fato isso quer dizer, então parti em busca de literatura sobre isso, fazendo o exercício dialético de pegar uma tese, uma antítese, para chegar em uma síntese.

Com o advento das redes sociais muita coisa nos é apresentada, eu fui filtrando o que tem conteúdo do que não é tão bom. A partir disso muito estudo bacana começou a surgir, eu nessa ânsia de buscar a informação, segui nessa estrada, realizando cursos bíblicos, confrontando os meus conceitos preestabelecidos e compreendendo cada vez mais sobra os textos bíblicos que me fascinam.

Tendo já uma bagagem, elaborei um projeto e apresentei ao Pe.Vanderlei, pároco da São Cristóvão, me propondo a ministrar um curso bíblico, pois percebia que algumas pessoas – e isso não é desmerecimento, é apenas falta de oportunidade – não conseguiam encontrar os livros em uma Bíblia, percebi que essa experiência de manuseio faltava.

A proposta foi muito bem acolhida pelo Pe.Vanderlei, então, no ano de 2025 fizemos o primeiro curso Bíblico, cerca de 40 pessoas participaram em 8 meses de curso, abordando os 4 evangelistas, mais o livro do Apocalipse.

Na primeira aula eu já avisava que o meu objetivo é “criar a desilusão”, pois na minha concepção, os textos bíblicos não nos devem deixar iludidos, acreditando que a cena de uma cobra falante que convence Adão e Eva a comer um fruto foi, de fato, uma cena real. Vou apresentando o contexto da cena, o motivo pelo qual se escreveu daquela forma, o que acontecia no mundo quando aquele texto foi escrito, enfim, costumo dizer que nós devemos entender o que “está DITO” na Bíblia, não o que “está ESCRITO”.

O livro foi quase que algo natural, pois compilei o material que eu disponibilizo aos alunos pegando uma temática específica, que é esse paralelo entre, principalmente, o Evangelho de João e o livro do Gênesis. João vai dialogar com o mundo helenista, utilizando a filosofia grega para apresentar o Cristo, libertador do povo onde, até mesmo os gregos se encaixam, vai falar que o Logos não é algo abstrato, é um homem que ele conheceu e o chama de amigo.

A ideia de disponibilizar um livro é exatamente para que as pessoas que o lerem deixem de lado o peso da culpa por não serem perfeitos. O próprio Cristo, invariavelmente, quando curava falava para os doentes: “teus pecados estão perdoados”. Era após isso que ele dizia para “levantar e andar”. Isso ocorre pelo peso da culpa daquelas pessoas que consideravam que qualquer problema físico era por conta de um suposto pecado que a lei mosaica incutia. Jesus não vem para abolir a lei, mas para levá-la a perfeição (Mt 5,17). Levar a lei a perfeição é exatamente apresentar a misericórdia que passava à margem da lei.

Nas suas redes sociais, postas vídeos sobre estudos bíblicos e reflexões cristãs. Aliás, material com boa qualidade e consistência pedagógica. De onde veio esta ideia de compartilhar estes conhecimentos por vídeo através da Escola Bíblica?

Agradeço a deferência, que bom que os vídeos estão atingindo pessoas, especialmente pessoas inteligentes e com conteúdo.

Quando criei o curso bíblico, que nominei como “Escola Pedro de Estudo Bíblico Católico”, criei um perfil no Instagram para postagem de alguns conteúdos. Um dos conteúdos que se mostrou mais prático de disponibilizar, como as aulas sãotodas gravadas, comecei a fazer recortes de temas intrigantes, sem exceder um minuto e meio, para gerar essa vontade de buscar mais.

Sempre pensei que o conhecimento que temos deve ser compartilhado, senão de nada vale, a ideia de compartilhar os vídeos vai nessa ideia, está sendo bem interessante os feedbacks recebidos, os comentários, normalmente muito positivos. Obviamente que nem todos pensam da forma como eu coloco, isso também é interessante, as vozes divergentes, acho sensacional quando alguém discorda do que eu falo, assim podemos fazer o exercício dialético que gera o crescimento de quem está disposto a crescer. Não tenho nenhuma pretensão de ser a voz da verdade definitiva.

Na sua visão, num Brasil tão polarizado e disputado por narrativas falaciosas, como deve ser a postura de um cristão?

Eu penso que o Cristão deve ser crítico, em todas as áreas, deve ser observador, não deve, de modo algum, comprar uma tese sem questionar. Obviamente, enquanto católico, eu estou sob o guarda-chuva de Roma, eu não questiono qualquer ação de qualquer Papa, é a minha fé. Intimamente posso questionar? Lógico que sim, mas o que a Santa Sé, o que o Catecismo fala, eu devo seguir e não tenho como pregar o contrário.

Nessa área, penso a Igreja como uma grande Empresa, tem suas regras, se eu não pretendo seguí-las eu posso buscar outro lugar que seja mais próximo do que eu penso. Isso quer dizer que considero a Igreja Católica uma instituição perfeita? Absolutamente. Temos vários problemas, várias coisas para evoluir, muita coisa para rever e, certamente, no futuro tudo isso será feito. Eu posso dizer que sou um progressista, nem um pouco conservador, mas compreendo os limites e problemas que algumas ações podem gerar.

Então, respondendo a pergunta, o Cristão deve ser crítico, especialmente no que se refere a notícias falsas que circulam nos grupos religiosos, especialmente pentecostais, mas também em alguns grupos católicos.

Como, na sua visão, o Cristianismo pode continuar sendo luz para a humanidade?

Talvez essa seja a pergunta mais fácil de responder. Basta que o Cristão compreenda os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus (Sermão da montanha). Nesta parte está o cerne da boa nova, tudo o que o cristão deve fazer para bem representar a missão do Cristo. Estes 3 capítulos nos ensinam a traduzirmos em ações o que professamos com a boca, pois “Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha” (Mt 5,15 e Lc 8,16).

Quando nos dermos conta do que o Cristo professou nas bem-aventuranças perceberemos a riqueza que temos para a humanidade, pois aí Ele fala quem são os bem-aventurados (que quer dizer “pessoas felizes”), são os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos, ou seja, a FELICIDADE para Jesus não é a FACILIDADE que algumas instituições que não compreenderam o Evangelho pregam.

O cristianismo será luz efetiva para a humanidade quando compreendermos a mensagem do Cristo.

O que mais gostaria de comunicar aos leitores deste site, feito de publicações críticas e reflexivas sobre temas como cidadania, educação e espiritualidade?

Eu gostaria de deixar uma mensagem de integração entre esses três pilares: cidadania, educação e espiritualidade, penso que não caminham separados. A minha própria trajetória mostra isso: ser um servidor público atuante é um exercício de cidadania; estudar, ministrar cursos, palestras e incentivar o pensamento crítico é educação; e tudo isso ganha sentido e profundidade na espiritualidade e na vivência do Evangelho.

Para os leitores deste espaço, o meu convite é que continuem alimentando a coragem de pensar, de questionar e de buscar a essência das coisas. Não fiquem na superfície, seja na fé, na política ou na vida comunitária. Que a nossa espiritualidade nos faça melhores cidadãos e que a educação nos dê as ferramentas para transformar o mundo à nossa volta com misericórdia e empatia.

Aproveito para convidar a todos para acompanharem o nosso trabalho na Escola Pedro de Estudo Bíblico Católico (@EscolaPedroPassoFundo), nossas reflexões nas redes sociais e, em breve, a leitura do livro “O Logos Encarnado”. Que possamos juntos continuar esse exercício de buscar o Logos que é a verdade que nos liberta e nos torna verdadeiramente felizes.

Edição: A. R.

2 COMENTÁRIOS

  1. Agradeço a oportunidade de me expressar meu querido e a divulgação do meu trabalho, grande abraço.

  2. Agradeço pela confiança em nosso trabalho. Editorial. Este site pretende ser uma referência aos que ousam posicionar-se diante da vida e dos acontecimentos, de forma crítica e reflexiva.

DEIXE UMA RESPOSTA