Esta publicação é uma construção a duas mãos, de Eládio Vilmar Weschenfelder e Roseméri Lorenz, sobre a forte e enigmática Capitu. Esta experiência já rendeu um livro “O fio de aradne: textos em diálogo”, lançado em 2025, obra fruto desta parceria literária de crônicas e de microcontos. Confere aí!
A Forte e Enigmática Capitu
(Eládio Vilmar Weschenfelder)
Como um leitor machadiano, fico por detrás do significado das palavras para fins de entender os múltiplos sentidos que elas carregam. Imagino que Machado de Assis, ao finalizar a obra Dom Casmurro (1899), deva ter ficado na dúvida para atribuir um título ao romance: Dom Casmurro, ou Capitu; Capitu ou Dom Casmurro!? Talvez tenha recorrido à senha “uni duni tê”. Ou, o que é mais provável, optado pela linha da lógica realista, pois o que pretendia ressaltar era justamente a casmurrice de Bento, que o leva a duvidar da fidelidade da esposa, Capitu.
Casmurro, segundo a etimologia, significa teimoso, birrento, mal-humorado, atravancador, intransigente. Por seu turno, o radical caput significa cabeça, derivando também os termos renda per capita, pecado capital, decapitação, pena capital, dentre outros.
Concebido no final do século XIX, o romance Dom Casmurro reflete o pensamento pré-modernista da literatura brasileira. Nesse caso, Machado de Assis se antecipa às vanguardas da Semana de Arte Moderna (1922), estabelecendo uma paródia à Lenda do Ceará, Iracema, a virgem dos lábios de mel, figura tradicional do Romantismo, bucólica e oposta à Capitu, com seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” ou “olhos de ressaca”, figura tipicamente urbana.

Sob essa ótica crítica, Monteiro Lobato, no conto A vida de Oblivion[1] tece um parecer literário entre os prosadores românticos José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Bernardo Guimarães e seu juízo em pleno período Pré-modernista brasileiro:
No concerto de nossos romancistas, onde Alencar é o piano querido das moças e Macedo a sensaboria relambória dum flautim piegas, Bernardo é a sanfona. Lê-lo é ir para o mato, para a roça – mas uma roça adjetivada por menina de Sion, onde os prados são amenos, os vérgeis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonoros, as rolinhas meigas.
Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse cantar e reproduzisse a paisagem com os qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico da impressão pessoal. Vinte vérgeis que descreva são vinte perfeitas invariáveis amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas cor de jambo.
Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda gente vê carrapato, pernilongos, espinhos, Bernardo aponta doçuras, insetos maviosos, flores olentes.
Bernardo mente.
Como se percebe, Monteiro Lobato bem reflete o contexto literário brasileiro entre dois universos: o passadismo cultural, que os românticos manifestam por meio de um idealismo europeu desfocado, e, em contrapartida, os prenúncios de uma nova estética, focada no Brasil como ele é, com suas diversidades e contradições.
Sob essa ótica, Bentinho ainda concentra suas palavras e ações atreladas no passado, mostrando-se despreparado para enfrentar uma mulher como Capitu, autônoma em relação às suas escolhas.
A obra Dom Casmurro reflete, assim, justamente o estranhamento quanto a essa nova postura feminina. Desenvolve-se, desse modo, uma narrativa ambígua, fazendo com que os leitores ora duvidem, ora acreditem na inocência de Capitu, acusada de adultério, pelo marido Bentinho, com o amigo Escobar. Tanto foi que o sacerdote e o jurisconsulto se articulam para condenar a esposa. Mas o tribunal de provas era parcial e inconsistente. Por isso, por força da ficcionalidade, o julgamento fica por conta dos leitores do romance. Ao cabo de tudo, Capitu, por coerência, racionalidade e inteligência, encanta, pois é a nova mulher, independente do julgamento de um universo patriarcal, no qual anuncia o novo jeito da mulher mostrar seu empoderamento.
Enfim, Dom Casmurro não é o romance de um simples caso banal sobre infidelidade conjugal às vésperas do Século XX. Sobretudo é um tratado psicossocial sobre uma questão marital que vem desde os tempos de barbárie, em que a liberdade feminina foi sufocada pelo poder moral dos homens a decidirem sobre a postura das mulheres. Se Capitu traiu ou não, não importa. Importa é que ela deu seu grito de independência, saindo dos jugos da complexa dúvida erótica-narcisística dos tempos de repressão contra as fontes da vida humana. A caça às bruxas ainda não se consolidou, mas o espírito de liberdade ecoa fortemente na sociedade brasileira.
Olhos de Capitu
(Roseméri Lorenz)
“Foste tu,
Tu, tu, tu…”
Eu e Tu:
Nós, CAPITUS!
CAPÍTULO bem conhecido,
Envelhecido,
Mas não vencido:
A eterna culpa a nós atribuída,
Desculpa descabida
Produzida
Por almas duras,
Mal nutridas,
Inseguras,
Pelo ciúme corroídas.
Ah, quantos Bentinhos por aí!
Com ciúme até do mar!?
Ou medo de nosso olhar…
De ser por ele arrastado?
Quem é tragado
Não escapa…
“OLHOS DE RESSACA!”
Para tentar conter a ressaca,
Há sempre aquele que
Ergue barreiras, isola, exila,
Maltrata.
Acusa, julga, condena,
Sem pena!
Ataca,
E até mata!
“OLHOS DE CIGANA,
OBLÍQUA E DISSIMULADA!”
De cigana? Por quê?
Porque vemos além de você?
Porque analisamos até o que ninguém vê?
Não se esqueça:
Em sua origem latina,
“CAPITU” vem de “CAPUT”, “CABEÇA”.
De pensar não há quem nos impeça!
Inteligência é nossa renda “PER CAPITA”
A ela somos naturalmente aptas.
Mas nossa “CAPITULAR” sagacidade,
Na verdade,
Tem sido motivo
Para nos DECAPITAR.
“Se sabe pensar,
Sabe enganar!” – dizem
E assim acham normal
Nos condenar à pena CAPITAL.
Mas ser ladina,
Meu amor,
CAPITOLINA,
Não é indício de dissimulação,
De traição.
Não!
Nosso olhar oblíquo
É só um artifício
Desenvolvido em séculos de submissão.
Quantas vidas curvadas,
Olhos ao chão?
Caladas…
Se não podíamos olhar de frente,
Olhávamos de lado…
Assim, observávamos,
Analisávamos
A melhor forma de nos proteger de uma cultura cruel,
Que nos queria sempre Iracemas,
Virgens dos lábios de mel.
Ridículo papel!
Quem, assim como eu,
Ousa verticalizar o olhar,
Reivindicar autonomia,
Ser de sua vida protagonista,
Solista,
De sua própria sinfonia,
Certamente,
Já ouviu, ouve ou ouvirá:
“Essa mulher é uma demente!”
Mas podem me chamar de louca!
A mim não mais importa!
Da subjugação
Já fechei a porta.
Vocês conhecem
Aquele cumprimento nepalês
“Namastê”,
Que saúda o Deus que habita seu coração?
Pois vou propor aqui uma nova versão:
CAPITÊ:
A CAPITU que habita em mim saúda a CAPITU que habita em vocês!
[1] LOBATO, Monteiro. Contos completos. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
Edição: A. R.









Um dos meus livros preferidos, amo!