As falácias das correlações espúrias

Será que é possível mesmo eliminar experimentos controlados trocando-os por grandes massas de dados? O fim da teoria? O método científico pode ser abandonado, como chegou a ser ventilado?

Da amostra com poucos dados ao big data ou, se preferirem, da Estatística convencional à nova onda da Ciência de Dados, não estamos imunes à tentação de sucumbir às falácias das correlações espúrias.

Foi para lançar um pouco de luz sobre esse tema que o economista argentino Walter Sosa Escudero escreveu o instigante livro “Borges, big data y yo”, publicado em 2020, na série de divulgação científica “Ciencia que ladra…”, da editora Siglo Veintiuno. O que Sosa Escudero conseguiu demonstrar, com maestria, é que sobre a obra de Borges ainda não se disse tudo e sempre há algo novo para ser buscado, ao se valer de textos seminais como “Funes el memorioso” e “La biblioteca de Babel”, entre outros, para servir de porta de entrada, pela via da literatura, à nova era do big data.

Ainda que a diferença seja gritante, nos métodos e no uso de ferramentas de trabalho, há sutilezas nem sempre perceptíveis que separam a Estatística clássica da novel Ciência de Dados. A Estatística, em geral, sai da parte (a amostra) para o todo. O seu objetivo não é meramente analisar dados e sim ver o que há por detrás deles. Dar respostas úteis a custos baixos.

Estão aí, como exemplos do nosso cotidiano atual, as pesquisas de intenção de votos, que os Institutos, em vez dos 158 milhões de eleitores brasileiros habilitados, escutam mil, dois mil, três mil, etc., buscando, dentro de uma margem de erro (para mais e para menos), uma aproximação do resultado verdadeiro se a eleição fosse hoje e aqueles os candidatos. Vale a mesma lógica quando a pesquisa trata da taxa de desemprego e outros indicadores econômicos, se faz por amostragem de domicílios e não pelo método censitário (todos os domicílios) que é moroso e caro.

E a Ciência de Dados, com a profusão de informações que a interconexão da era digital propiciou, seja em dados massivos e métodos de análise, big datamachine learning e Inteligência Artificial, virou uma espécie de versão millennial da estatística, que intenta deixar a parte (amostra) de lado e com seus algoritmos poderosos busca extrair informações de “todos os dados”. Será que é possível mesmo eliminar experimentos controlados trocando-os por grandes massas de dados? O fim da teoria? O método científico pode ser abandonado, como chegou a ser ventilado?

big data não é e nem nunca será todos os dados, por maior que seja o seu número. E nem sempre mais dados significa melhores dados e melhor resultado.

Se esse “mais dados” contribuir para melhorar a qualidade do sinal sem aumentar o ruído, sim. Mas, muitas vezes temos o oposto, especialmente quando, deliberadamente ou não, se deixa de lado a possibilidade de errar, que é inerente a qualquer teste estatístico. Ou, quando se imagina que tendo em mãos um oceano de dados (ou com nem tantos assim) pode se justificar qualquer coisa.

Não se elimina impunemente o erro de qualquer teste estatístico. O importante é que esse erro fique abaixo de um determinado nível.

Na pandemia do coronavírus vivemos tempos áureos de celebração às correlações espúrias e suas falácias. Gente com boa reputação profissional pregando soluções inusitadas para o grave problema que assolava a humanidade com base em algumas (ou até muitas) relações que, possivelmente, aconteceram por mera casualidade ou, de fato, nunca significaram nada relevante, mesmo que identificadas pelo clássico coeficiente de correlação de Pearson, que, nem todos sabem, em séries de dados com tendências claras, podem ser encontradas correlações que nos dados mesmo não existem, especialmente de causa e efeito.

Leia também: www.neipies.com/o-coronavirus-e-a-verdadeira-guerra/

Walter Sosa Escudero cita um exemplo muito ilustrativo sobre a relação entre os gastos públicos na Argentina e a audiência da série de TV The Big Bang Theory naquele país, entre 2007 e 2013, com correlação de 98,6%.

Ainda bem que nenhum iluminado, falaciosamente, vislumbrou que a solução para reduzir o déficit fiscal na Argentina bastaria limitar a transmissão televisiva de The Big Bang Theory. Não creio que seria muito diferente caso se usasse um exemplo similar, audiência de novelas por exemplo, e o caso brasileiro.

Cair em tentação com as falácias das correlações espúrias é algo muito perigoso, pois são relações que aparentam serem verdadeiras, mas não são.

O próprio Jorge Luis Borges, conforme fecha a questão Sosa Escudero, alertou sobre o perigo que exerce o fascínio pelo excesso de dados, quando, quase no final de “La biblioteca de Babel”, escreveu: “Yo conozco distritos en que los jóvenes se prosternan ante los libros y besan com barbarie las páginas, pero no saben descifrar una letra”.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Olha o super El Nino aí, gente!”: www.neipies.com/olha-o-super-el-nino-ai-gente/

Edição: A. R.

Cristianismo pode continuar sendo luz para a humanidade

Entrevistamos Michael de Oliveira, mais conhecido como Maiky, um estudioso e propagador do Cristianismo ao seu modo: ativo e partícipe de movimentos religiosos, fazendo trabalho na comunidade cristã católica onde reside e produzindo material para reflexão e orientação cristã a partir da Bíblia Sagrada em vídeos ou em forma de um Curso.

Chama atenção sua dedicação, responsabilidade e visão crítica do mundo, da religiosidade e da sociedade. Por esta razão, a nosso convite, Maiky (ou Michael de Oliveira) é o entrevistado do site neste momento histórico tão rico e tão controverso em que está passando nosso querido Brasil.

Conheça Maiky por ele mesmo.

Fale-nos sobre você e sua trajetória pessoal e profissional.

Sou natural de Serafina Corrêa/RS, vindo de uma família religiosa desde muito jovem pude participar das vivências na Igreja Católica, de pastorais, de grupos, movimentos, enfim.

Em 2003 mudei-me para Passo Fundo onde constituí família e se tornou a minha casa. Sou casado com Aline, professora municipal, desde 2003 e tenho um filho, Samuel, com 18 anos, barbeiro bem conceituado já apesar da juventude.

Sou Bacharel em Filosofia pelo IFIBE, Licenciado em Ciências Sociais pela UFRGS, possuo MBA em Gestão Pública pela UNOPAR e Especialização em Ensino de Filosofia (UFSM) e também em Teologia (FOCUS), voltado bastante para a Teologia Bíblica. Por mais que minha área de estudo seja quase que completamente nas Ciências Humanas, sou Servidor Público desde 2011, prestando serviço junto à Secretaria de Finanças do Município. Imagina só, alguém “de humanas” trabalhando diretamente com “exatas”, mas gosto muito e sou realizado no serviço público.

Conte-nos sobre as tuas vivências comunitárias: grupos de jovens, grupo de casais, animação de missas, participação em diferentes eventos religiosos.

Neste assunto é difícil ser sucinto, pois orgulhosamente tenho muita caminhada.

Como falei anteriormente, desde cedo estou nessa lida, comecei com grupos de oração em Serafina Corrêa, participava de grupo de jovens da RCC. Lembro bem que tivemos, também, missões redentoristas por volta do ano de 1996 onde tínhamos encontros com os missionário e missionárias envolvendo a juventude, foi uma ação que me marcou. Fui coordenador de grupos, também da Pastoral dos Coroinhas em Serafina Corrêa.

Quando vim para Passo Fundo me estabeleci na Paróquia São Cristóvão, onde vivo até hoje e que sempre me deu muito suporte, espiritual e até mesmo material, sou muito grato por ter crescido espiritualmente nessa Paróquia. Foi aqui que comecei a compreender que o que nós fazemos deve ser efetivamente um serviço, deve ser um auxílio às pessoas mais vulneráveis.

Sou músico, então sempre tenho atuação paroquial nas músicas da liturgia e de vários movimentos. Participei do MCJ (Movimento de Casais Jovens) que nos deu suporte enquanto família. Inclusive, eu e minha esposa, fomos coordenadores deste movimento em Passo Fundo.

Atualmente atuo muito junto do Movimento Acampamento, que trouxe uma dinâmica diferente de vivência, onde eu me encaixei muito bem nessa dinâmica e este movimento trouxe novos ares até mesmo para nossa Paróquia.

Anunciaste, recentemente, a elaboração de um livro chamado “O logos encarnado”. Como foi esta experiência da escrita e o que almeja com este livro?

Este livro não deixa de ser a realização de um sonho. Um sonho que nem sempre sonhei, é algo que foi amadurecendo aos poucos. Talvez o início se deu a partir de 2009, quando comecei a faculdade de Filosofia, tive ótimos professores. A filosofia foi algo que me fez retornar ao mundo da literatura, lê-se muito, leituras densas, o que, pouco a pouco, vai nos conquistando.

Somando essa formação com minha atuação junto à comunidade paroquial e movimentos, foi surgindo cada vez mais a inquietação tão natural do filósofo. Para mim não bastava mais dizer que “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1), eu queria saber o que de fato isso quer dizer, então parti em busca de literatura sobre isso, fazendo o exercício dialético de pegar uma tese, uma antítese, para chegar em uma síntese.

Com o advento das redes sociais muita coisa nos é apresentada, eu fui filtrando o que tem conteúdo do que não é tão bom. A partir disso muito estudo bacana começou a surgir, eu nessa ânsia de buscar a informação, segui nessa estrada, realizando cursos bíblicos, confrontando os meus conceitos preestabelecidos e compreendendo cada vez mais sobra os textos bíblicos que me fascinam.

Tendo já uma bagagem, elaborei um projeto e apresentei ao Pe.Vanderlei, pároco da São Cristóvão, me propondo a ministrar um curso bíblico, pois percebia que algumas pessoas – e isso não é desmerecimento, é apenas falta de oportunidade – não conseguiam encontrar os livros em uma Bíblia, percebi que essa experiência de manuseio faltava.

A proposta foi muito bem acolhida pelo Pe.Vanderlei, então, no ano de 2025 fizemos o primeiro curso Bíblico, cerca de 40 pessoas participaram em 8 meses de curso, abordando os 4 evangelistas, mais o livro do Apocalipse.

Na primeira aula eu já avisava que o meu objetivo é “criar a desilusão”, pois na minha concepção, os textos bíblicos não nos devem deixar iludidos, acreditando que a cena de uma cobra falante que convence Adão e Eva a comer um fruto foi, de fato, uma cena real. Vou apresentando o contexto da cena, o motivo pelo qual se escreveu daquela forma, o que acontecia no mundo quando aquele texto foi escrito, enfim, costumo dizer que nós devemos entender o que “está DITO” na Bíblia, não o que “está ESCRITO”.

O livro foi quase que algo natural, pois compilei o material que eu disponibilizo aos alunos pegando uma temática específica, que é esse paralelo entre, principalmente, o Evangelho de João e o livro do Gênesis. João vai dialogar com o mundo helenista, utilizando a filosofia grega para apresentar o Cristo, libertador do povo onde, até mesmo os gregos se encaixam, vai falar que o Logos não é algo abstrato, é um homem que ele conheceu e o chama de amigo.

A ideia de disponibilizar um livro é exatamente para que as pessoas que o lerem deixem de lado o peso da culpa por não serem perfeitos. O próprio Cristo, invariavelmente, quando curava falava para os doentes: “teus pecados estão perdoados”. Era após isso que ele dizia para “levantar e andar”. Isso ocorre pelo peso da culpa daquelas pessoas que consideravam que qualquer problema físico era por conta de um suposto pecado que a lei mosaica incutia. Jesus não vem para abolir a lei, mas para levá-la a perfeição (Mt 5,17). Levar a lei a perfeição é exatamente apresentar a misericórdia que passava à margem da lei.

Nas suas redes sociais, postas vídeos sobre estudos bíblicos e reflexões cristãs. Aliás, material com boa qualidade e consistência pedagógica. De onde veio esta ideia de compartilhar estes conhecimentos por vídeo através da Escola Bíblica?

Agradeço a deferência, que bom que os vídeos estão atingindo pessoas, especialmente pessoas inteligentes e com conteúdo.

Quando criei o curso bíblico, que nominei como “Escola Pedro de Estudo Bíblico Católico”, criei um perfil no Instagram para postagem de alguns conteúdos. Um dos conteúdos que se mostrou mais prático de disponibilizar, como as aulas sãotodas gravadas, comecei a fazer recortes de temas intrigantes, sem exceder um minuto e meio, para gerar essa vontade de buscar mais.

Sempre pensei que o conhecimento que temos deve ser compartilhado, senão de nada vale, a ideia de compartilhar os vídeos vai nessa ideia, está sendo bem interessante os feedbacks recebidos, os comentários, normalmente muito positivos. Obviamente que nem todos pensam da forma como eu coloco, isso também é interessante, as vozes divergentes, acho sensacional quando alguém discorda do que eu falo, assim podemos fazer o exercício dialético que gera o crescimento de quem está disposto a crescer. Não tenho nenhuma pretensão de ser a voz da verdade definitiva.

Na sua visão, num Brasil tão polarizado e disputado por narrativas falaciosas, como deve ser a postura de um cristão?

Eu penso que o Cristão deve ser crítico, em todas as áreas, deve ser observador, não deve, de modo algum, comprar uma tese sem questionar. Obviamente, enquanto católico, eu estou sob o guarda-chuva de Roma, eu não questiono qualquer ação de qualquer Papa, é a minha fé. Intimamente posso questionar? Lógico que sim, mas o que a Santa Sé, o que o Catecismo fala, eu devo seguir e não tenho como pregar o contrário.

Nessa área, penso a Igreja como uma grande Empresa, tem suas regras, se eu não pretendo seguí-las eu posso buscar outro lugar que seja mais próximo do que eu penso. Isso quer dizer que considero a Igreja Católica uma instituição perfeita? Absolutamente. Temos vários problemas, várias coisas para evoluir, muita coisa para rever e, certamente, no futuro tudo isso será feito. Eu posso dizer que sou um progressista, nem um pouco conservador, mas compreendo os limites e problemas que algumas ações podem gerar.

Então, respondendo a pergunta, o Cristão deve ser crítico, especialmente no que se refere a notícias falsas que circulam nos grupos religiosos, especialmente pentecostais, mas também em alguns grupos católicos.

Como, na sua visão, o Cristianismo pode continuar sendo luz para a humanidade?

Talvez essa seja a pergunta mais fácil de responder. Basta que o Cristão compreenda os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus (Sermão da montanha). Nesta parte está o cerne da boa nova, tudo o que o cristão deve fazer para bem representar a missão do Cristo. Estes 3 capítulos nos ensinam a traduzirmos em ações o que professamos com a boca, pois “Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha” (Mt 5,15 e Lc 8,16).

Quando nos dermos conta do que o Cristo professou nas bem-aventuranças perceberemos a riqueza que temos para a humanidade, pois aí Ele fala quem são os bem-aventurados (que quer dizer “pessoas felizes”), são os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos, ou seja, a FELICIDADE para Jesus não é a FACILIDADE que algumas instituições que não compreenderam o Evangelho pregam.

O cristianismo será luz efetiva para a humanidade quando compreendermos a mensagem do Cristo.

O que mais gostaria de comunicar aos leitores deste site, feito de publicações críticas e reflexivas sobre temas como cidadania, educação e espiritualidade?

Eu gostaria de deixar uma mensagem de integração entre esses três pilares: cidadania, educação e espiritualidade, penso que não caminham separados. A minha própria trajetória mostra isso: ser um servidor público atuante é um exercício de cidadania; estudar, ministrar cursos, palestras e incentivar o pensamento crítico é educação; e tudo isso ganha sentido e profundidade na espiritualidade e na vivência do Evangelho.

Para os leitores deste espaço, o meu convite é que continuem alimentando a coragem de pensar, de questionar e de buscar a essência das coisas. Não fiquem na superfície, seja na fé, na política ou na vida comunitária. Que a nossa espiritualidade nos faça melhores cidadãos e que a educação nos dê as ferramentas para transformar o mundo à nossa volta com misericórdia e empatia.

Aproveito para convidar a todos para acompanharem o nosso trabalho na Escola Pedro de Estudo Bíblico Católico (@EscolaPedroPassoFundo), nossas reflexões nas redes sociais e, em breve, a leitura do livro “O Logos Encarnado”. Que possamos juntos continuar esse exercício de buscar o Logos que é a verdade que nos liberta e nos torna verdadeiramente felizes.

Edição: A. R.

Como fazer a prevenção do suicídio: educação na infância e na juventude

A escassa educação moral numa família destituída da verdadeira iluminação cristã, com pais desatentos que não corrigem as inclinações perniciosas dos filhos, favorece as ocasiões de desequilíbrios desesperados em que eles tombam ao primeiro choque de contrariedade tão comum na vida social.

Os pais e demais adultos, no lar, precisam estimular o desabrochar das tendências positivas inatas na criança e no jovem. O lar é fundamental para a construção de caráter sólido nos filhos. Os pais devem ser as primeiras autoridades que os filhos aprendem as respeitar e acatar. Eles representam Deus na Terra e precisam encaminhar os filhos ao legitimo cumprimento do dever além de não descurar da educação moral e espiritual dos mesmos.

Os filhos precisam do pão espiritual tanto quando do alimento material. Precisam nutrir o corpo e o espírito.

Orar, no lar, com os filhos desde pequenos falar em Deus e suas leis eternas, mostrar a Natureza como a prova da existência de Deus, conversar sobre Jesus, nosso irmão e Mestre, nutrir a alma do filho com fé e esperança desde o nascimento até a juventude.

Contar muitas fábulas, histórias edificantes que passem mensagens de boa moral, vai promover a educação das emoções básicas: medo, raiva, tristeza, alegria e afetividade.

A escassa educação moral numa família destituída da verdadeira iluminação cristã, com pais desatentos que não corrigem as inclinações perniciosas dos filhos, favorece as ocasiões de desequilíbrios desesperados em que eles tombam ao primeiro choque de contrariedade tão comum na vida social.

Os filhos precisam aprender a superar as tristezas, as perdas, não serem satisfeitos em todas as suas exigências. Ensinar os filhos a perder e encontrar novos caminhos. Fazer os filhos experienciarem os momentos difíceis que a família às vezes passa, compartilhar com eles a dor e o esforço que se faz para superá-los.

Ensinar que é possível ser feliz desde que aceitem os acontecimentos da vida conforme se apresentam, a enfrentar o infortúnio com naturalidade, e que o bem-estar íntimo independe de fatores externos. Que nossa alma possui um reservatório de forças espirituais que nos ajudam a superar os problemas.

A criança tem necessidade de ser amada, protegida, nutrida, orientada para que possa desenvolver os sentimentos da afetividade, da harmonia, da saúde, do discernimento. Esses valores ela recebe dos pais, da família e da sociedade.

Se ela experimentar carência afetiva desenvolve quadros patológicos, na infância ou na juventude, necessitando terapias psicossomáticas, espirituais e morais para libertar-se da opressão e o desequilíbrio.

O amor é alimento para a vida, acalma, dá segurança reabastece de forças a pessoa. Se na fase da gestação o espírito experenciou a amargura da mãe que não desejava o filho, o pai violento, familiares irresponsáveis e os atritos domésticos difíceis provocando insegurança no processo de gestação, mais tarde irá se manifestar traumas, conflitos, transtornos de comportamentos.

No perispírito, estão os fatores necessários à evolução do ser, que oportunamente se manifestarão se forem estimulados pela educação a desabrocharem. Quando os sentimentos de culpa, mágoa, rancor, raiva, desrespeito por si mesmo, depressão e autocídio se manifestam ocorre uma reação química no organismo, a secreção de cortisol que é hormônio corrosivo para as células.

Ocorrem, também, nascimentos de espíritos predispostos, por hereditariedade, a serem depressivos, pois carregam emoções negativas graves de procedimentos equivocados de vidas passadas retidos no inconsciente. No transcorrer da vida vão liberar estes traumas que precisarão ser tratados pela psicoterapia.

Um atendimento terapêutico bem orientado eliminará a consciência a culpa e abrirá espaço para o otimismo, a autoestima, a valorizar-se a si mesmo e a conquistar novos desafios que a saúde emocional vai lhe proporcionar.

Desta forma, a pessoa desequilibrada que sente muita melancolia, insegurança e receios infundados que a desestabiliza, encontrará novos desafios edificantes. Aprenderá a enfrentar as dificuldades, desenvolvendo o habito da boa leitura, da oração, entrando em sintonia com Deus, a fazer o bem, a ter relacionamentos fraternos e manter conversações edificantes.

Pessoas que foram vítimas de ambiente emocional duramente severo, a partir do parto e na infância, pois sofreram imposições descabidas e tiveram que obedecer sem pensar, para se livrarem das imposições e castigos dos adultos, oprimindo emoções e sentimentos poderão apresentar tendências, na adolescência e na idade adulta, à loucura e ao suicídio como solução para o sofrimento.

As exigências exageradas da mãe, na época infantil, na área da higiene, exigindo obediência irracional a horários rígidos, incluindo as funções intestinais, mãe que negou afeto e a identificação emocional tornam o filho extremamente carente e com desajuste psicológico, emocional e físico. Pessoas submetidas a abuso emocional severo na infância, verbalizado por: “não devia ter nascido”, “não serve para nada”, “tu és um zero à esquerda”… ou sendo cobradas excessivamente, têm 20 vezes mais chances de tentar suicídio.

O abuso sexual severo tem um risco ainda maior. O mais intenso é o abuso emocional. O poder da palavra é mais marcante que o poder da punição física.

Tem havido aumento considerável de suicídio entre crianças e adolescentes dos 9 aos 19 anos. Um dos motivos desencadeadores é a questão do rendimento escolar, a pressão familiar e social e o uso do bullying, que estigmatiza o jovem na escola e na sociedade, provocando o isolamento social. Outro fato importante é a pessoa “se sentir um peso” no ambiente familiar e não receber atenção, diálogo, afeto…

Do livro “A vida por um fio”: suicídio: causas e consequências”.

Autora: Gládis Pedersen. Também escreveu e publicou no site “Lar, doce lar”: www.neipies.com/lar-doce-lar/

Edição: A. R.

A lenda da jaboticaba

O homem branco pouco escreveu sobre a origem da jabuticaba, mas os indígenas, que não usavam a escrita, foram recontando a história e assim nasceu a Lenda da Jaboticaba!

(Por Otávio Reichert, da Academia Santo-angelense de Letras)

Num tempo pouco distante, esta árvore não produzia frutos e servia apenas como sombra e lenha para o fogo, assim disseram os ancestrais da tribo Tupi. Isto até a índia Jaci retornar da mata trazendo nos braços um menino com as perninhas atrofiadas e curtas, porém de corpo robusto. Por sua aparência deram-lhe o nome de “Jabô”.

Os anciões da tribo determinaram que, conforme a tradição indígena, ele seria sacrificado por ter nascido com deformações físicas. Mãe Jaci implorou pela vida do seu único filho, e como ela já estava com mais de quarenta anos, o pedido foi aceito. Também porque o pai dele, português imigrante, se comprometeu a cuidar de Jabô.

Jabô não aprendeu a caminhar. E a partir dos dois anos a mãe passou a deixá-lo numa rede feita com fibras de buriti, onde uma ponta ficava atada no telheiro central e a outra num galho de árvore. Deste modo, ele ficava na sombra da ocara ouvindo o cantar dos pássaros e vendo tudo a seu redor.

Mãe Jaci percebeu que ele tinha deficiência visual e demonstrava tristeza no olhar. Vez ou outra alguns amiguinhos vinham brincar com ele; no mais, vivia solitário. Foi então que Jabô começou a conversar com a árvore, sem saber que ela entendia tudo.

Como a rede estava fixada num galho além do tronco daquela árvore, quando ele se embalava para o lado conseguia se abraçar nela, e chorando falava da vontade de correr como os demais e apanhar frutas no pomar. Com muita pena de Jabô, a árvore fez um pedido a deus Tupã, que atendeu o seu pedido.

O pajé curandeiro foi o primeiro a perceber os brotos que saíam dos troncos e galhos, principalmente onde Jabô tocava nela, inclusive rente ao chão ou próximo da rede. Eles ficaram maravilhados ao verem nascer frutinhas verdes, as quais, após seis trocas de Lua, começaram a ficar reluzentes e escuras. Mal sabiam que a árvore fez isso para Jabô melhor enxergá-las quando amadurecidas.

Depois de comer as doces frutas mais próximas, Jabô foi subindo pelo tronco para alcançar as mais altas, e desse jeito desenvolveu forças nos braços e pernas, inclusive firmando os pés. Antes mais rechonchudo, foi perdendo peso e por vezes assustava sua mãe ao encontrá-lo no alto dos galhos colhendo as jaboticabas, nome que deram em homenagem a Jabô. Sendo o pai dele lusitano, no mesmo sotaque aos demais portugueses falava “jabuticaba”.

Muitos já me perguntaram o nome da aldeia e onde Jabô viveu. Nem eu mesmo sei ao certo, pois sua linda história me foi contada num sonho da madrugada. Soube que as sementes daquela jaboticaba foram se espalhando, também levadas pelos pássaros para lugares distantes. Após o milagre outras tribos replantavam suas sementes, e assim foi se espalhando além da região Sudeste, indo de Sul a Norte do Brasil, e no passar dos séculos a jabuticabeira conquistou quase toda a América do Sul.

O homem branco pouco escreveu sobre a origem da jabuticaba, mas os indígenas, que não usavam a escrita, foram recontando a história e assim nasceu a Lenda da Jaboticaba!

Glossário:

Ocara: – espécie de telheiro, geralmente construído com um tronco central.

Troca de lua a cada sete dias. Período de maturação= 45 dias

“ïapotï’= “botão” e “kaba”= gordura.

Autor: Otavio Reichert. Poeta e declamador, palestrante cultural (ênfase Cultura gaúcha). Licenciado em Letras (Português-Inglês) pela URI Santo Ângelo. Membro da Academia Santo-angelense de Letras – ASLE, cadeira nº 12. Presidente em 2018/20. Vice-presidente 2022/24.

Pedagogia do afeto e a banalização da formação

Apresento uma breve síntese sobre estas temáticas para que os leitores da coluna do Site do Nei Alberto Pies possam ter acesso a esta discussão. O problema não está em reconhecer que a dimensão afetiva possui importância na educação. O problema reside na transformação do amor e do afeto em elementos autossuficientes, apresentados como capazes de solucionar praticamente todos os problemas educacionais.

Muito tem se falado sobre competências socioemocionais, educação dos afetos, educar com amorosidade, o amor como forma de enfrentamento do estresse emocional, autogestão dos afetos, amabilidade, resiliência, educar com ternura, dentre outros termos.

No campo das competências socioemocionais, os debates giram em torno da integração entre o desenvolvimento emocional e o aprendizado cognitivo, os desafios de sua implementação curricular nas escolas e a necessidade de parcerias entre famílias e instituições escolares para sua efetivação no cotidiano escolar. De forma mais tímida, também aparecem algumas discussões críticas as quais mostram o risco de uma visão romantizada ou até ingênua da forma como tais competências tem povoado as políticas educacionais e o cotidiano da escola.

Retomei na semana que passou um artigo que escrevi em 2018, com meu grande parceiro de pesquisa Evandro Consaltér. Evandro foi meu orientando de mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UPF e desde 2014 é um dos qualificados pesquisadores do Gepes.

No seu mestrado realizou uma pesquisa instigante e qualificada sobre a presença da Pedagogia do Afeto na formação continuada de professores. Depois de sua defesa, decidimos escrever um artigo em conjunto para ampliar o debate com a comunidade acadêmica. Trata-se do artigo “Pedagogia do afeto e a banalização da formação continuada de professores: uma análise da literatura de autoajuda nos processos formativos” (Fávero; Consaltér, 2018), publicado na revista Atos de Pesquisa em Educação.

O artigo desenvolve uma análise crítica da chamada “pedagogia do afeto”, compreendida como uma perspectiva de formação pedagógica que se materializa especialmente por meio do consumo da literatura de autoajuda destinada aos professores. O estudo parte da preocupação com a crescente presença desse tipo de literatura nos espaços escolares e nos processos de formação continuada, questionando a capacidade de seus pressupostos, prescrições e “receitas” de enfrentar adequadamente a complexidade dos problemas educacionais.

A investigação assume caráter bibliográfico e analítico e concentra-se nas obras de três autores de grande circulação no campo educacional — Gabriel Chalita, Augusto Cury e Içami Tiba —, selecionados em razão do expressivo número de exemplares vendidos. A análise organiza-se em torno de três categorias fundamentais: religiosidade, uso de metáforas e amorosidade.

Na sequência apresento uma breve síntese para que os leitores da coluna do Site do Nei Alberto Pies possam ter acesso a esta discussão.

Na introdução do artigo estabelece como ponto de partida uma contradição presente no modo como a profissão docente é socialmente representada. De um lado, existe uma retórica que enaltece a missão do professor, atribuindo-lhe um papel quase heroico na transformação dos indivíduos e da sociedade. De outro, esse mesmo discurso tende a responsabilizar o professor pelas deficiências da formação, pelo desmonte da escola e pelo fracasso do sistema educacional.

O resultado é uma representação ambígua da profissão: o professor é simultaneamente apresentado como protagonista indispensável da educação e responsabilizado por problemas que ultrapassam largamente sua esfera individual de ação.

No artigo recorremos a um estudo de Canário (2008) para caracterizar essa tensão entre a ideia da docência como “profissão mais bela do mundo” e a realidade concreta de uma profissão desgastante e esgotante. É justamente nesse cenário de desgaste profissional, desencanto e perda de reconhecimento social que os autores situam a emergência da pedagogia do afeto. Essa perspectiva oferece aos professores uma narrativa aparentemente acolhedora: diante das dificuldades da profissão, seria necessário recuperar o amor, a afetividade, a esperança, a autoestima, a motivação e a capacidade individual de transformar as relações pedagógicas. A pedagogia do afeto, nessa perspectiva, apresenta-se como uma espécie de resposta consoladora à experiência de mal-estar docente (Fávero e Consaltér, 2018).

O problema que apontamos no artigo não está em reconhecer que a dimensão afetiva possui importância na educação. O problema reside na transformação do amor e do afeto em elementos autossuficientes, apresentados como capazes de solucionar praticamente todos os problemas educacionais.

A pedagogia do afeto desloca, assim, problemas complexos — sociais, institucionais, políticos, culturais e pedagógicos — para o âmbito das disposições individuais do professor. A própria nota explicativa que incluímos no artigo, baseada na dissertação de Consaltér (2016), caracteriza essa pedagogia como aquela que, mediante apelo mercadológico, apresenta amor e afeto como elementos suficientes para resolver os problemas educacionais e proporcionar ao professor a plenitude necessária ao exercício profissional.

Outro elemento importante da introdução é a crítica ao crescimento do mercado editorial de autoajuda voltado aos professores. Esses livros, ressaltamos na introdução (Fávero e Consaltér, 2018), ingressam nas escolas e nos cursos de formação continuada oferecendo ao docente a promessa de um caminho mais simples e menos doloroso para enfrentar a profissão. Em vez da dúvida, da investigação e da reflexão crítica, oferecem respostas prontas, receitas, histórias exemplares e orientações comportamentais. Assim, o professor é convidado a consumir um produto que promete aliviar o sofrimento profissional e apresentar estratégias relativamente simples para lidar com problemas complexos.

É nesse ponto que aparece uma das teses centrais do artigo: a literatura de autoajuda pode produzir uma falsa sensação de preparo para a docência. O problema da formação continuada não seria resolvido pelo simples contato com prescrições que indicam como agir, como falar, como se comportar ou como motivar os estudantes.

A formação docente requer bases teóricas, reflexão sistemática, compreensão contextual e capacidade de problematização. Por isso, os autores propõem investigar as epistemologias que sustentam a pedagogia do afeto, procurando compreender seus pressupostos e verificar em que medida eles efetivamente contribuem para a formação docente.

A seleção de Gabriel Chalita (2001; 2003; 2004; 2008), Augusto Cury (2003; 2006a; 2006b; 2006c; 2010; 2011; 2015) e Içami Tiba (1996; 2002; 2011) é estratégica. As obras escolhidas apresentam grande circulação e forte apelo junto a professores, pais e educadores. A pesquisa, portanto, não pretende analisar qualquer concepção de afetividade na educação, mas uma determinada forma de compreender a afetividade que se dissemina por meio de uma literatura de caráter prescritivo e mercadológico. A partir dessa delimitação, os autores organizam sua análise nas três categorias já mencionadas: religiosidade, metáforas e amorosidade.

A ligação entre religiosidade e pedagogia do afeto

A religiosidade constitui uma das principais bases discursivas utilizadas pela pedagogia do afeto analisada no artigo. Os autores mostram que Chalita e Cury recorrem frequentemente ao universo religioso, especialmente à figura de Jesus Cristo, para legitimar suas concepções sobre educação, docência, amor, esperança, sensibilidade e formação humana (Fávero e Consaltér, 2018).

A relação é particularmente significativa porque Jesus é apresentado como o “mestre dos mestres”, isto é, como modelo máximo de educador. Chalita associa diretamente Cristo à pedagogia do amor, apresentando sua prática como referência para o professor. Cury, por sua vez, constrói uma série de obras nas quais Jesus é apresentado como mestre do amor, da sensibilidade, da educação, da vida, da sabedoria, da perseverança e da compaixão.
Essa estratégia possui uma consequência epistemológica importante. A autoridade da argumentação deixa de depender prioritariamente da demonstração científica e passa a ser reforçada por uma autoridade simbólica e religiosa.

Os autores do artigo observam que, diante da ausência de comprovação científica de determinadas prescrições, a pedagogia do afeto recorre ao universo místico e religioso como fonte de respeitabilidade. Assim, questões complexas da educação podem encontrar respostas aparentemente simples em episódios, ensinamentos e parábolas atribuídos a Jesus (Fávero e Consaltér, 2018).

A figura de Jesus cumpre, portanto, uma dupla função. Primeiro, oferece um modelo idealizado de professor: aquele que ama, acolhe, ensina, inspira, transforma e conduz seus alunos à felicidade. Segundo, funciona como mecanismo de legitimação das prescrições presentes nos livros. Se Jesus é apresentado como o maior educador da humanidade, seus comportamentos podem ser convertidos em modelos para a prática docente contemporânea (Fávero e Consaltér, 2018).

Esse movimento também contribui para uma idealização da própria profissão. O professor passa a ser representado quase como uma figura extraordinária, cuja missão consiste em formar pessoas felizes e transformar vidas. Consequentemente, aumenta-se sobre ele a responsabilidade individual pela felicidade dos estudantes (Fávero e Consaltér, 2018). O professor deixa de ser compreendido prioritariamente como trabalhador inserido em uma instituição, em determinadas condições sociais e políticas, e passa a ser representado como sujeito dotado de uma missão quase transcendental.

A religiosidade, portanto, não aparece no artigo apenas como um componente temático. Ela funciona como suporte epistemológico e retórico da pedagogia do afeto. A vida de Jesus, suas parábolas e seus ensinamentos são transformados em um repertório de exemplos para orientar professores diante dos conflitos, do sofrimento e das dificuldades da sala de aula (Fávero e Consaltér, 2018). A leitura dessas obras pretende produzir esperança e bem-estar, oferecendo ao professor a sensação de que existem modelos seguros para enfrentar situações complexas.

Por que a pedagogia do afeto utiliza constantemente metáforas?

A segunda categoria examinada é o uso das metáforas. Nesta seção do artigo, identificamos nas obras analisadas uma linguagem simples, acessível, carregada de analogias, histórias e imagens (Fávero e Consaltér, 2018). Essa opção discursiva está relacionada à própria característica da literatura de autoajuda: apresentar conteúdos de forma facilmente compreensível, emocionalmente envolvente e capaz de produzir identificação imediata no leitor.

As metáforas permitem traduzir questões educacionais complexas para imagens cotidianas. A criança pode ser comparada a uma planta que cresce; o professor, a um jardineiro; a criança pode ser representada como argila que recebe determinado molde. Tais imagens tornam o discurso mais acessível e oferecem ao leitor uma chave rápida para interpretar situações pedagógicas.

Em Chalita (2004; 2008), a valorização das parábolas relaciona-se novamente à figura de Jesus. Como Cristo ensinava por meio de parábolas, esse recurso narrativo passa a ser considerado um instrumento pedagógico privilegiado. Em Cury (2010), a criança aparece como uma “joia única”, enquanto professores e pais são convidados a “dançar a valsa da vida” como contadores de histórias. Em Tiba (2011), encontram-se metáforas provenientes de outros campos, como o “efeito borboleta”, empregado para afirmar que pequenas ações educativas podem produzir grandes consequências futuras.

É importante reconhecer que no artigo (Fávero e Consaltér, 2018), não afirmamos que toda metáfora seja necessariamente inadequada à educação. Ao recorrer a Scheffler (1974), reconhecemos que as metáforas podem funcionar como elementos linguísticos capazes de estabelecer analogias e exemplificar conceitos. A questão crítica surge quando a metáfora deixa de ser apenas um recurso de aproximação e passa a funcionar como explicação suficiente de uma realidade complexa.

É nesse ponto que Bachelard (1996) ocupa papel central na crítica dos autores. Para o filósofo, as metáforas podem constituir obstáculos epistemológicos, especialmente quando imagens particulares são transformadas em esquemas gerais. O risco está em tomar uma imagem como explicação suficiente para fenômenos que exigem elaboração conceitual mais rigorosa. Uma única palavra ou imagem pode parecer explicar uma série de fatos, mas, ao fazer isso, pode produzir simplificações e distorções.

A crítica, portanto, dirige-se ao uso excessivo e indiscriminado das metáforas como substitutas da elaboração conceitual. A pedagogia do afeto tende a transformar imagens sedutoras em respostas generalizantes: o professor como jardineiro, a aula como espetáculo, o aluno como joia, a educação como alimento ou o professor como personagem. Essas imagens podem facilitar a comunicação, mas não são suficientes para compreender as múltiplas determinações da prática pedagógica (Fávero e Consaltér, 2018).

O problema torna-se ainda mais evidente quando as metáforas reforçam a ideia de que os problemas educacionais se encontram fundamentalmente dentro do indivíduo. Se o estudante é um barco sem leme porque não sabe administrar seus pensamentos, por exemplo, a solução parece residir no gerenciamento individual das emoções. Com isso, condições sociais, institucionais, políticas e econômicas que interferem na educação são deslocadas para segundo plano (Fávero e Consaltér, 2018).

O sentido da amorosidade na pedagogia do afeto

A terceira categoria que analisamos no artigo (Fávero e Consaltér, 2018) diz respeito a amorosidade, e é, provavelmente, o núcleo mais evidente da pedagogia analisada. Mostramos nesta categoria que os livros selecionados atribuem ao amor e ao afeto uma posição central na prática docente (Chalita, 2001; 2003; 2008; Cury, 2006a; Tiba, 2002). O professor deveria dedicar aos alunos uma forma de amor semelhante ao amor dos pais pelos filhos e assumir uma postura de simpatia, acolhimento, entusiasmo, sensibilidade e motivação (Fávero e Consaltér, 2018).

A amorosidade, contudo, adquire um sentido bastante específico. Não se trata simplesmente de reconhecer a importância das relações humanas na educação. Ela é transformada em uma espécie de competência individual do professor, capaz de produzir bons resultados pedagógicos. O professor amoroso seria aquele que sabe emocionar, teatralizar sua aula, utilizar a voz, movimentar-se, contar histórias, produzir entusiasmo e envolver emocionalmente os estudantes (Fávero e Consaltér, 2018).

A docência passa, assim, a ser representada como uma performance. Cury (2006b) recomenda ao professor que fale com emoção, altere a tonalidade da voz e conduza os estudantes para o “mundo de suas ideias”. Tiba (2011), por sua vez, valoriza humor e movimentação cênica e chega a afirmar que o professor deve quase interpretar um personagem.

Essa concepção produz uma imagem de professor “fascinante” (Cury, 2015), “imbatível”, emocionalmente envolvente e capaz de superar as dificuldades por meio de suas qualidades pessoais. O professor é colocado no centro do processo educativo, como “grande agente” e “alma” da instituição escolar (Fávero e Consaltér, 2018).

A amorosidade, nesse sentido, apresenta uma dimensão ambivalente. Por um lado, reconhece elementos importantes da relação educativa, como respeito, solidariedade, tolerância, criatividade, sensibilidade e consideração pelo estudante. Por outro, ao transformar esses elementos em receitas de sucesso, reduz a complexidade da docência a um conjunto de atributos pessoais que o professor deveria incorporar (Fávero e Consaltér, 2018).

A crítica que fizemos no artigo (Fávero e Consaltér, 2018) torna-se particularmente forte porque essa concepção pode produzir uma forma de responsabilização individual. Se o professor é amoroso, criativo, divertido, teatral, motivador e emocionalmente competente, a aula tende a funcionar; se não funciona, pode-se concluir que faltou ao professor alguma dessas qualidades. A estrutura social e institucional da escola desaparece do campo de análise. Além disso, identificamos uma contradição interna em Tiba (1996; 2011): ao mesmo tempo em que se defende uma educação prazerosa e marcada pela criatividade, amorosidade e respeito, aparecem prescrições relacionadas à competição, à avaliação quantitativa e à valorização das melhores notas como estímulo à alta performance. Isso demonstra que a pedagogia do afeto não constitui necessariamente uma concepção pedagógica coerente e sistemática, mas um conjunto de prescrições que podem combinar elementos aparentemente contraditórios.

Contribuições do texto para uma análise crítica das propostas centradas na pedagogia do afeto

A principal contribuição do artigo está em deslocar a discussão da pergunta “o professor deve amar seus alunos?” para uma questão muito mais complexa: que concepção de formação docente está sendo produzida quando o amor e o afeto são apresentados como respostas privilegiadas aos problemas educacionais? (Fávero e Consaltér, 2018; Fávero e Esquinsani, 2011).

Nossa resposta no artigo tem um endereço crítico: o problema não está em negar a relevância da afetividade; está em transformar a afetividade em ponto de chegada, quando ela poderia funcionar como ponto de partida. Amor e afeto podem constituir dimensões importantes da experiência educativa, mas não são suficientes para explicar nem resolver a complexidade da educação. Os próprios autores afirmam que aquilo que a pedagogia do afeto coloca como ponto de chegada deveria constituir-se apenas como elemento motivador para a busca de respostas mais contextualizadas e consistentes (Fávero e Consaltér, 2018).

Uma segunda contribuição é mostrar que a literatura de autoajuda individualiza problemas coletivos. Ao propor que o professor encontre dentro de si a capacidade de superar as dificuldades, essa literatura tende a apagar as condições sociais que produzem o mal-estar docente (Fávero e Consaltér, 2018). O professor aparece como sujeito que precisa controlar suas emoções, melhorar sua performance, elevar sua autoestima, tornar suas aulas mais atraentes e assumir uma postura de constante motivação.

Com isso, problemas relacionados às condições de trabalho, políticas educacionais, desigualdades sociais, desvalorização profissional, organização escolar, currículo, financiamento e relações de poder podem ser substituídos por explicações centradas no indivíduo. A crítica que fizemos no final do artigo é contundente ao afirmarmos que a pedagogia do afeto ignora a origem social dos problemas da docência e reserva às soluções uma natureza predominantemente pessoal (Fávero e Consaltér, 2018).

Outra contribuição fundamental diz respeito à compreensão do professor como consumidor, e não como sujeito crítico e reflexivo. Na perspectiva discutida a partir de Romão, os livros de autoajuda oferecem receitas de comportamento e ação, reduzindo o leitor à condição de alguém que deve seguir determinados passos para alcançar sucesso, felicidade, equilíbrio ou realização profissional. A crítica emancipadora é enfraquecida justamente porque a receita elimina a dúvida e o questionamento (Fávero e Consaltér, 2018).

Essa dimensão é especialmente relevante para pensar a formação continuada. Uma formação efetivamente crítica não pode consistir apenas na transmissão de “macetes” para resolver problemas cotidianos. Ela precisa possibilitar que o professor compreenda as razões pelas quais determinados problemas existem, examine suas causas, confronte diferentes perspectivas teóricas, analise experiências concretas e construa coletivamente alternativas de intervenção.

O artigo também contribui para compreender o processo de banalização da formação continuada, anunciada no título. A banalização ocorre quando a formação é reduzida a mensagens motivacionais, histórias inspiradoras, receitas comportamentais e técnicas descontextualizadas (Fávero e Consaltér, 2018). A formação perde, então, sua densidade epistemológica e passa a ser associada ao consumo rápido de soluções.

Nesse sentido, o artigo recupera uma questão decisiva: a formação docente continuada precisa ser compreendida como um processo contínuo, de longa duração e sustentado por bons pressupostos teóricos. Não pode ser reduzida àquilo que os autores denominam “pedagogia do afeto” ou “pedagogia do abraço”, capaz de sensibilizar multidões momentaneamente, mas insuficiente para compreender a complexidade da prática docente (Fávero e Consaltér, 2018).

A contribuição mais importante, portanto, talvez seja a defesa de uma pedagogia cientificamente fundamentada, sem que isso implique a negação da dimensão afetiva. O artigo não propõe simplesmente condenar ou eliminar a pedagogia do afeto. Ao contrário, afirma explicitamente que não se trata de julgar ou condenar essa perspectiva, mas de compreender criticamente os pressupostos que explicam sua forte penetração entre professores.

Considerações finais

Em síntese, o artigo que aqui sintetizei brevemente oferece uma crítica consistente à transformação da afetividade em solução totalizante para os problemas da formação e da prática docente. Sua análise demonstra que a pedagogia do afeto, tal como aparece na literatura de autoajuda examinada, articula três elementos fundamentais: a religiosidade como fonte de legitimação e inspiração; as metáforas como recurso de simplificação e sedução discursiva; e a amorosidade como atributo individual supostamente capaz de assegurar o êxito da ação docente (Fávero e Consaltér, 2018).

A religiosidade fornece figuras exemplares, sobretudo Jesus Cristo, apresentado como “mestre dos mestres”; as metáforas tornam o discurso acessível, emocional e facilmente assimilável, mas podem converter-se em obstáculos epistemológicos quando substituem a elaboração conceitual; e a amorosidade transforma o professor em sujeito responsável pela motivação, felicidade, autoestima e sucesso dos estudantes.

O problema central não é, portanto, a presença do afeto na educação, mas sua absolutização. Quando o amor é transformado em resposta para problemas que possuem dimensões históricas, sociais, políticas, institucionais e pedagógicas, produz-se uma compreensão reducionista da docência (Fávero e Consaltér, 2018). O professor passa a acreditar que precisa encontrar em si mesmo as respostas para dificuldades cuja origem frequentemente ultrapassa sua individualidade.

Penso que a crítica apresentada no artigo é particularmente relevante para pensar políticas e programas contemporâneos de formação continuada porque alerta para o risco de substituir processos formativos sistemáticos por ações motivacionais, prescrições comportamentais e receitas de sucesso. A formação continuada precisa, ao contrário, preservar a dúvida, a reflexão, a crítica, o estudo teórico, a contextualização e a análise coletiva da prática (Fávero e Consaltér, 2018).

Desse modo, a principal contribuição do texto consiste em defender que amor e afeto podem ser dimensões importantes da experiência educativa, mas não podem ocupar o lugar da teoria, da investigação, da reflexão crítica e da compreensão social da educação.

A afetividade pode ser um ponto de partida para a construção de relações pedagógicas significativas; porém, somente uma formação continuada consistente, teoricamente fundamentada, contextualizada e crítica pode possibilitar ao professor compreender e enfrentar os complexos desafios de sua profissão (Fávero e Consaltér, 2018). O horizonte proposto pelos autores é, portanto, o de uma formação que não se contente em acalentar o professor, mas que lhe ofereça condições intelectuais para compreender criticamente sua realidade e transformá-la.

Para os que desejarem ler o artigo na íntegra, segue o link de acesso: https://www.researchgate.net/publication/328320906_PEDAGOGIA_DO_AFETO_E_A_BANALIZACAO_DA_FORMACAO_CONTINUADA_DE_PROFESSORES_UMA_ANALISE_DA_LITERATURA_DE_AUTOAJUDA_NOS_PROCESSOS_FORMATIVOS

Referências:

BACHELARD, G. A Formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

CANÁRIO, R. A escola: das “promessas” às “incertezas”. Revista Educação Unisinos, v.12, n. 2, mai./ ago. 2008, pp. 73-81.

CHALITA, G. A solução está no afeto. São Paulo: Gente, 2001.

CHALITA, G. Pedagogia do amor: a contribuição das histórias universais para a formação de valores das novas gerações. 31ª. Ed. São Paulo: Gente, 2003.

CHALITA, G. Histórias de professores que ninguém contou (mas que todo mundo conhece. São Paulo: Gente, 2004.

CHALITA, G. Pedagogia da amizade – bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente, 2008.

CHALITA, G. Educar em oração. São Paulo: Academia de Inteligência, 2011.

CONSALTÉR, E. Formação continuada de professores: entre a pedagogia do afeto e a pedagogia científica. Dissertação de Mestrado. Passo Fundo: UPF, 2016.

CURY, A. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro – RJ: Sextante, 2003.

CURY, A. O mestre do amor: Jesus, o maior exemplo de sabedoria, perseverança e compaixão. Rio de Janeiro: Sextante, 2006a.

CURY, A. O Mestre da Sensibilidade: Jesus, o maior especialista no território da emoção. Rio de Janeiro: Sextante, 2006b.

CURY, A. O Mestre dos Mestres: Jesus, o maior educador da história. Rio de Janeiro: Sextante, 2006c.

CURY, A. O Mestre da Vida: Jesus, o maior semeador de alegria, liberdade e esperança. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

CURY, A. O Mestre Inesquecível: Jesus, o maior formador de pensadores da história. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

CURY, A. Filhos brilhantes, alunos fascinantes. 2. ed. São Paulo: Academia de Inteligência, 2015.

FÁVERO, A. A.; ESQUINSANI, R. Me ame, me abrace, me acolha! saberes docentes e políticas de formação continuada. Revista contrapontos – Eletrônica, v.11, n.1, p.6-13, jan-abr, 2011. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/277194934_ME_AME_ME_ABRACE_ME_ACOLHA_SABERES_DOCENTES_E_POLITICAS_DE_FORMACAO_CONTINUADA

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro. Pedagogia do afeto e a banalização da formação continuada de professores: uma análise da literatura de auto ajuda nos processos formativos. Atos de Pesquisa em Educação, Blumenau, v.13, n.2, p.394-411, mai./ago., 2018. Disponível em:  https://ojsrevista.furb.br/ojs/index.php/atosdepesquisa/article/view/6292

SCHEFFLER, I. A Linguagem da educação. São Paulo: Saraiva, Edusp, 1974.

TIBA, I. Disciplina limite na medida certa – novos paradigmas. São Paulo: Gente, 1996.

TIBA, I. Quem ama, educa! São Paulo: Gente, 2002.

TIBA, I. Pais e educadores de alta performance. São Paul: Integrare Editora, 2011.

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Coordenador do Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Tato pedagógico: uma reflexão a partir do currículo e do professor”: www.neipies.com/tato-pedagogico-uma-reflexao-a-partir-do-curriculo-e-do-professor/

Edição: A. R.

Alvarás, algoritmos e violações: os reais desafios da advocacia

O maior dos gargalos para o exercício da advocacia é a morosidade do Judiciário. A avalanche de processos sobrecarrega a estrutura judiciária e faz com que causas se arrastem por anos ou décadas.

Advogados e advogadas de todo o país celebraram, no último dia 11 de agosto, a data que marcou a criação dos dois primeiros cursos superiores de Direito no Brasil — as faculdades do Largo de São Francisco, em São Paulo, e de Olinda, em Pernambuco, fundadas em 1827. Se por um lado a data rende homenagens a uma categoria indispensável à administração da justiça e à defesa do Estado Democrático de Direito, por outro, escancara dilemas estruturais que tornam o exercício da profissão uma verdadeira corrida de obstáculos.

O maior desses gargalos segue sendo a morosidade do Judiciário. A avalanche de processos sobrecarrega a estrutura judiciária e faz com que causas se arrastem por anos ou décadas.

Soma-se a isso a constante violação de prerrogativas profissionais e, no caso dos jovens advogados, o peso dos custos operacionais — como anuidades da OAB e certificados digitais — somado à concorrência feroz com grandes bancas. Já na advocacia criminal, o desafio é combater a histórica estigmatização social que confunde, erroneamente, o papel constitucional da defesa técnica com a própria conduta do acusado.

A revolução da IA e a fragilidade dos sistemas

O salto tecnológico trouxe novos desafios. Adotar inteligência artificial e ferramentas de automação sem perder a humanização e a essência consultiva do atendimento exige esforço contínuo de adaptação — exigência ainda mais brutal para gerações que iniciaram a carreira datilografando petições em máquinas de escrever.

Na relação com a sociedade, o avanço digital trouxe consigo o alastramento de fraudes. O “golpe do falso advogado” tornou-se uma das pragas da atualidade.

A dinâmica é cruel: criminosos interceptam dados reais de processos públicos, clonam perfis de profissionais e abordam clientes via WhatsApp prometendo a liberação imediata de alvarás mediante depósitos ou transferências prévias de “taxas cartorárias”. O problema ganha contornos alarmantes em todo o país.

Entidades como a OAB do Rio Grande do Sul e a subseção de Passo Fundo têm emitido alertas constantes para que a população não realize pagamentos ao ser contatada por números desconhecidos. A orientação é taxativa: antes de qualquer transferência, a pessoa deve contatar diretamente o advogado pelo telefone habitual ou comparecer ao seu escritório.

Mais do que a astúcia dos golpistas, essa modalidade de estelionato expõe uma ferida aberta: a fragilidade no sigilo dos dados dos tribunais e a urgência de blindar as plataformas de processo eletrônico contra vazamentos de informações sensíveis.

Autor: Júlio Pacheco. Advogado, Doutorando em Direito pela Atitus/Faculdade de Direito de Vitória-ES, Especialista em Processo Civil e em Direito Constitucional, Mestre em Direito, Desenvolvimento e Cidadania.

Edição: A. R.

A descoberta da chuva

Olha para o calçado sujo, depois para a rua deserta de telas. Abre os braços, deixa o celular pesado no bolso e encara o aguaceiro. Irado!

Quando caminho pelas ruas e vejo a galera com o rosto colado na tela do celular, percebo que o isolamento virou endereço. É como se cada um de nós estivesse trancado na própria cratera, tentando equilibrar o chão de asfalto com as coisas que a gente inventa nas redes sociais.

O dia escorre pelo apartamento. Ele veste jaqueta jeans e um tênis branco, intacto. Vive sozinho, feito um Minotauro moderno em um labirinto de paredes de luz azul, moldadas para refletir apenas o que o algoritmo escolhe. Os amigos inventados na infância no quintal viraram avatares nas notificações. Rostos sem corpo desaparecem com um toque na tela. Evita garotas reais de mochila. Procura traços lapidados por filtros e cenários de hotéis caros que saltam no feed.

A campainha toca. Ele recebe a caixa comprada na internet. O entregador estende o papel do recibo e uma caneta. Seus dedos travam no movimento das curvas. Ele hesita, segura o plástico e copia as letras devagar, decifrando um alfabeto estrangeiro para resgatar o próprio nome.

No visor, o vídeo do influenciador de masculinidade dita regras de força. O algoritmo comanda o tom da voz. Ele quer ser mais homem, mas só precisa ser mais humano. Notícias sobre seca, fumaça no horizonte ou bombardeios passam direto. O polegar descarta o mundo. O movimento de subir a página imita uma escada rolante, uma escalada contínua, sem topo. É o castigo de Sísifo, empurrando a pedra do engajamento ladeira acima para ver o feed atualizar e a rocha rolar de volta ao ponto de partida. Mais um clique, mais um minuto, outra vida gasta no esforço de preencher um abismo.

Mais tarde, ele busca o movimento do shopping. Caminha pelos corredores climatizados de queixo baixo, atento à bateria que marca doze por cento. Falta o barro da trilha para sujar o calçado. Falta o nó-cego na corda da barraca, a linha esticada no rio. Falta o corpo no tablado do teatro, a voz unida na roda de violão, o trabalho voluntário sob a chuva.

Lá fora, o céu escurece rápido e a ventania causa estragos na cidade inteira. Protegido pelas vidraças, o rapaz não nota o tempo mudar. Um estalo ecoa do teto. Os refletores apagam. O shopping mergulha na penumbra dos geradores de emergência, mas a torre da operadora caiu. O retângulo digital nas mãos perde o sinal. A barra de dados móveis some, abrindo o vazio. No bolso, o metal esfria. Sem internet, a ilusão desmorona. O fio de Ariadne rompe.

Desorientado, vai até a saída e ganha a calçada do cruzamento. A tempestade continua. A enxurrada escura carrega o lixo direto para as bocas de lobo. Gotas grossas de chuva desabam do céu. A primeira gota bate na testa, escorre pelo nariz, alcança a boca. O vento frio atinge o peito, atravessando a jaqueta jeans. As luzes da padaria da esquina também se apagam. Carros reduzem a velocidade no escuro. Trovões reorganizam o mundo. O tênis branco afunda por inteiro na poça. A lama atinge as meias.

Olha para o calçado sujo, depois para a rua deserta de telas. Abre os braços, deixa o celular pesado no bolso e encara o aguaceiro. Irado!

Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site a crônica “Afeto não fere”: www.neipies.com/afeto-nao-fere/

Edição: A. R.

Por que estudar?

Tenho me deparado, como professor e cidadão, cada vez mais, com a seguinte pergunta: vale a pena estudar? É uma questão complexa, sem dúvida, embora não parecesse ser há alguns anos.

Se, na década de 1990, alguém perguntasse o motivo de estudar, seria taxado de ignorante. Tal cenário mudou… E isso é sintomático de nosso tempo, de um capitalismo a se autodevorar cada vez mais em sua produtividade sem norte nem sentido.

A função do capital é explorar tudo, inclusive o próprio capital. Até a década de 1990, o estudo entrava nessa conta de exploração. Estudava-se, principalmente, para ter uma vida melhor. Ora, qual o significado disso? Ganhar mais dinheiro, é claro. Até poucos anos atrás, o capitalismo contaminou o estudo, a busca pelo conhecimento e a formação do saber com suas garras de ambição.

Dentro da lógica do próprio capitalismo e da maneira como nosso mundo está estruturado, isso não era, de forma alguma, errado. Afinal, em um sistema explorador, o indivíduo, penso, deve ter, no mínimo, o direito de explorar a si mesmo e suas forças para prosperar — ganhar uma graninha a mais.

E o estudo, enfatizo, era o mantra repetido à exaustão pelas gerações anteriores, pelos meus pais e, provavelmente, pelos seus. Estudar era uma forma de o pobre, apesar de continuar a ser explorado, conseguir pelo menos uma vida mais tranquila, mais segura. Ascender, em suma, à classe média.

Porém, tudo aquilo explorado pelo capitalismo acaba também devorado. Todos conhecemos a alegoria da laranja chupada até sobrar apenas o bagaço, uma ideia excelente para representar a nós, os trabalhadores, no sistema de produção capitalista. Mas ser laranja, diria eu, não era problema, desde que o ganho fosse suficiente para criar um suco melhorzinho, ou, no mínimo, a garantia de sermos explorados com mais tranquilidade. Para isso servia o estudo.

Mas eis a consequência de tanto propagar a autoexploração do sujeito mediante o estudo em prol do capital: o próprio capitalismo acabou esgotando essa opção. As últimas duas gerações, mais ou menos, realizaram o sonho de seus pais: estudaram! E adivinha? Em sua maioria, não enriqueceram…

Pois o enriquecimento, em grande parte, nada mais era além de uma promessa propagandística do meio capitalista para fazer a roda continuar girando. As exceções — sempre há exceções! — foram usadas para enganar a maioria.

Hoje, essas gerações recém-formadas ou testemunhas do estudo de seus pais, espectadoras de sujeitos autoexplorados em função dos diplomas com a finalidade de enriquecer e fracassando nisso, têm — quem diria? — um pé atrás com o estudo.

Mas o capitalismo vai se renovando. Agora, a autoexploração está nas redes sociais, na tentativa de ganhar dinheiro pela internet e, principalmente, em ser empreendedor, empresário, autônomo. Algumas gerações adiante e, quem sabe, vamos todos implorar para voltar a ser CLT — ou algo parecido…

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site a crônica “Um prédio de cem andares”: www.neipies.com/o-predio-de-cem-andares/

Edição: A. R.

Passo Fundo e a Segunda Guerra Mundial: história, memórias e repercussões

O Brasil entrou oficialmente na guerra em agosto de 1942, após ataques de submarinos alemães e italianos a navios brasileiros, que resultaram no afundamento de 25 embarcações mercantes e em centenas de mortes. A partir desse momento, a participação do país se deu tanto em terra, quanto nos céus e nos mares.

Por Alex Antônio Vanin, Diretor de Publicações do IHPF (Instituto Histórico de Passo Fundo)

A partir daquele momento, o Brasil mobilizou a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira (FAB), em conjunto com a aviação norte-americana, garantindo a escolta de cerca de 600 comboios e a proteção de mais de 3.000 navios mercantes, além da luta antissubmarino, que resultou no afundamento de três submarinos alemães e na captura de suas tripulações.

Antes mesmo do envio de tropas à Itália, o Brasil já estava inserido nos esforços de guerra, viabilizando bases estratégicas instaladas em cidades como Natal, Recife e Salvador formaram o chamado “Trampolim da Vitória”, ponto de partida de aeronaves e suprimentos rumo à Europa e à África.

Pracinhas brasileiros na Itália, vendo-se, dentre eles, o passo-fundense Arnaldo Cesar de Almeida. Acervo Instituto Histórico de Passo Fundo.

Cabe dizer que vários passo-fundenses integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que foi enviada para combater o nazifascismo na Europa. Participando da Campanha da Itália, enfrentaram desafios e situações extremas, entre 1944 e 1945.

O lema “A Cobra Vai Fumar!”, símbolo de coragem e determinação dos combatentes, surgiu como resposta irônica à descrença popular sobre o envio de tropas brasileiras à guerra. Após 239 dias de combate em terras estrangeiras, o soldado brasileiro desfilou junto aos demais Aliados em comemoração à vitória sobre as forças do Eixo.

Em setembro de 2025, na data em que se completaram 80 anos do desembarque dos últimos pracinhas brasileiros na Campanha da Itália, o IHPF inaugurou a maior e mais complexa exposição de sua história: “Passo Fundo e a Segunda Guerra Mundial”. A mostra devolveu ao público uma narrativa local dentro de um dos maiores eventos do século XX, revelando rostos, silêncios e experiências da comunidade, com acervos de diferentes instituições, itens de mais de 10 famílias de soldados e peças de colecionadores.

Em 32 dias, a exposição recebeu mais de 1.200 visitantes, em uma média de 37 pessoas por dia, mostrando que há espaço para a história no cotidiano da população e que a memória local é capaz de dialogar com acontecimentos globais. Mais do que narrar batalhas, a participação de Passo Fundo na guerra também está registrada em acervos particulares: cartas, fotografias, objetos e jornais que revelam a experiência dos soldados e o impacto do conflito na cidade. 

Último remanescente da 2ª Guerra Mundial, Pracinha José Negri, hoje residente em Camargo, visitou a exposição em Passo Fundo. Fotografia Diogo Zanatta.

FONTE: https://ihpf.com.br/colecao-telmo-dossa-um-acervo-que-muda-a-historia-visual-de-passo-fundo-2/

Por que é importante revisitar as galinhas e os galinheiros da nossa infância?

Saudade é como fome. Só passa quando se come a presença. (Clarice Lispector)

Enfim, marcamos os dias de nossas férias de inverno!  Mas cadê o inverno?  Quem roubou nossos dias de frio e vento espetado, nas golas puídas de casacos esquecidos…

Bem, choveu muito.  Demais!  Será que um matou o outro?

Assim mesmo, embarcamos para o Sul de todas as minhas infâncias.  Como nossa filha nasceu em cidade, vive na cidade e não imagina o que seja uma cerca, um boi, uma galinha, resolvemos dividir com ela um pedaço de nostalgia, dos anos em que convivíamos mais com os pequenos amigos do campo do que com pessoas de fato.

Primeiro, o desafio da liberdade…Sem celular.

Impossível!

Bem, como explicar que os ovos que ela tanta ama tem uma origem e local bem definidos pra existir?  Duvido que soubesse.  Bois e porcos, cachorros latindo, quero-queros pela cercania, pardais, canários, pica-paus, galinhas com a sua família pelos pátios…

Com um celular em mãos, que nem é de última geração, em um ou dois cliques, ela terá acesso para se certificar de tudo.  Mas, como viver a experiência?

Saber e provar são verbos complementares. Mas distintos.

Como explicar a ela que os ferros de passar levavam brasas para aquecer. Ela simplesmente não conhece nenhum deles.

Como falar que muitos banhos foram tomados somente em rios, porque os banheiros estavam afastados das casas.  E ali dentro não havia: nem torneira, nem água… Muitas vezes um prego na parece com pedaços de jornal… Era o papel.

E o que dizer de estradas empoeiradas, noites sem energia elétrica, galos despertando às 5, TVs em preto e branco -quando havia- e que toda informação vinha de um rádio; sabe-se lá de onde partia a sua voz.

E a vida era maravilhosa, com mil vantagens sobre a outra (vida); aquela em que nossos avós levavam e que agora, em nossa infância, com a chegada da anestesia e do Biotônico Fontoura, quem se importava?

Leia também: www.neipies.com/vida-na-roca-2/

O que esta menina viu não vai esquecer… foi a minha infância diluída em duas semanas: paisagens, bichos, casa e sobrados de madeira e pedra e onde mais ouvia:

_ O que é isso, meu Deus?

Então fui assaltado por uma memória assustadora.

Foi nos idos dos 12 anos.

Minha Mãe, zelosa e pontual, colocou pedaços de lenha encorpados na boca de um fogão azul. Pelas 7 da manhã. E foi justamente o frio com um vento glacial, como o que tínhamos na época, que me jogou de volta à cozinha da minha infância.

Vila Evangelista é um distrito histórico localizado no interior do município de Casca, no norte do Rio Grande do Sul, cerca de 70 km de Passo Fundo. A vila preserva casarões centenários de madeira, forte herança da cultura italiana, opções de gastronomia colonial e turismo rural.

Todos se arrumavam para o trabalho.  A idade me poupava ainda por alguns meses. Frio e chuva não impediriam uma família italiana completa para se trabalhar por esta idade.

_ Corrige o caráter – eu ouvia. 

Mas ainda aos 12, incompletos, ficava ‘por casa’ nas manhãs de geada e fumaça pelos vidros. Não se sabia o que poderia ser um fogão a gás. Lembrei que, rigorosamente, tudo era cozido, esquentado e requentado sobre uma chapa de ferro, quase vermelha de tanto suportar o fogo.  Nada que nos lembre de nossas fervuras pela vida.

Pelas 8, ela já pensava no que servir no almoço.

Meu Pai chegaria 12 em ponto.  Sentava-se à mesa e o seu prato era servido na hora.  Sem perguntas, sem olhares, sem comentários sobre como foi que tudo aconteceu pela manhã.

_ Filho, vá até o galinheiro e traga uma galinha para o almoço.

_ O quê?  _ Eu Mãe? Justo eu? Tenho amigos dentro do galinheiro.  Você vai me indispor e será um time de inimigos pelo pátio.

_ Vá, porque o seu Pai não se atrasa nunca. Quer enfrentá-lo? Justo no almoço?

Enfrentar o meu Pai significava perder. Apanhar, melhor.

Desci três degraus que me jogavam no primeiro pátio e olhei para o galinheiro aos fundos da casa. Foram 25 passos. O galo ‘Canto Seco’ rondava pela porta.

_ E se eu apanhar de todos? _ E se correrem atrás de mim!

Conhecia uma galinha linda, que entre as suas milhares de penas, havia uma esverdeada, puxando para um musgo que não sabia explicar. Até um nome eu lhe dei: Anastácia.

Sabia do destino de todos os galos e galinhas da minha época. E de todas as épocas. Até me perguntava sobre a razão dos vizinhos orgulharem-se do seu galinheiro se o determinismo de sobrevivência das famílias, em seguida, aniquilaria com todos.

A minha irmã, muito leitora e sempre atenta com o desgaste de todas as explicações da idade, contou-me de um país distante, onde uma família de reis e princesas foram presos e mortos como galinhas.

Não esqueci a história, e, sabendo do futuro miúdo da minha amiga, levando uma cor que mais lembrava uma pedra com musgos nas costas, dei-lhe o nome de Anastácia. Foi ela a quem procurei primeiro.  Os amigos são os primeiros sacrificados.

_ Traga pelos pés, gritava a minha Mãe, junto à porta da cozinha, investida, momentaneamente, como a crueldade de um carrasco. A fome não faz distinção.

Caminhei de costas pela parede da casa, como que esperando uma tocaia inesperada.  Assim que dobrei sua quina, estavam todos eles junto à porta.

_ Vai começar um tumulto, falei.

Chamei-a pelo nome e ela confiou na minha voz. Nem força foi preciso. Ainda fazendo carinho em seu pescoço, saí do galinheiro às lágrimas. O Galo me observava pela saída, com ódio nos olhos. Sabe-se lá se não era a sua preferida, nestas noites frias da Serra Gaúcha.

Assim que a entreguei para minha Mãe, saí correndo.

Quando penso que ela nos recebeu sorrindo, com um cabo de vassoura na mão, fui tomado por um espanto, que todos esses anos não foram suficientes para esquecer. E o que se seguiu não daria para descer a detalhes. Penso que foi a razão para não gostar de filmes de terror.

Enquanto o almoço macabro era preparado, desci ao galinheiro tentando arrumar as coisas. Mas ninguém me deu bola. Tentei falar a eles que não aconteceu o que estavam pensando.

Tentei soltá-los todos no pátio, até porque o sol resolveu botar a cara pra fora; meio tímido ainda. Mas ninguém saiu.

Lembro de ter caminhado em direção a qualquer lugar, andando a esmo, sentindo que fora o delator, julgador e ainda o executor da morte de uma amiga. A segunda Anastácia que morria de maneira infame.

Ao meio-dia, vendo meu Pai sentar-se à mesa, os pratos já estavam todos dispostos e alinhados:  arroz, os nacos suculentos de queijo, fatias de polenta que pareciam cortadas à régua. E, um prato enorme com pedaços de galinha. Aí foi demais!

Comi o suficiente para não apanhar.  Menos o prato indigesto da traição, naquela repulsa e fúnebre manhã. Comi polenta para não ser julgado à mesa, e que todo bom italiano não pode se abster.  Mas me levantei num pulo e corri para fora.

Somente anos depois consegui me perdoar, entendendo que a sobrevivência se impunha a quaisquer sentimentos.

Com a vida já adiantada, um dia falei à minha Mãe sobre a aquela manhã soturna. E ela nem precisava de justificativas, nessa altura de sua caminhada. Mesmo assim, falou:

_ Tínhamos de comer, caso contrário, você teria de descer até o frigorífico e nos comprar qualquer coisa com o que o dinheiro pudesse comprar. E nem vou falar a você o que acontece lá dentro. Pois é!

O que não vemos nos machuca menos. Quase nada.

Ela se dizia arrependida, pois fora muito fiel a sua criação; de jamais faltar com o alimento à mesa.

Mais tarde entendi, porque gosto tanto do filme ‘A Revolta das Galinhas’. Até compreendo, imagino, melhor, de como são feitos os saborosos sandubas de frango. Sob protestos, ainda posso comer alguns.

Mas em um galinheiro não piso mais.

Quanta falta de compaixão com todos os galináceos de nossa infância, que por incapacidade ou por empatia universal, não nos resistiram para que chegássemos até aqui.

No retorno desse festival melancólico de lembranças, pensava sozinho em como vou lutar para que a filha reconsidere seus hábitos alimentares. Fica difícil, claro, quando somos humanidade; prepotentes que somos.

Que coma, então! Mas que não fique sabendo da história. Não foram férias, afinal!  Foram dias e dias revisitando meus arquivos dos 10, 11 anos e, o que era para ser um esquecimento para um descanso, revirou-se pra baixo uma gaveta oculta. Que bom que foi desta forma! Fui em busca de saudade, encontrei presença.

Estas linhas são dedicadas à Anastácia e a busca pelo seu perdão.

Leia também: www.neipies.com/etica-alimentacao-e-espiritualidade/

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “A terra aceita tudo e a arrogância humana se desfaz rapidamente em poeira e esquecimento”: www.neipies.com/a-terra-aceita-tudo-e-a-arrogancia-humana-se-desfaz-rapidamente-em-poeira-e-esquecimento/

Edição: A. R.

Veja também