Seres celulares

Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

“Uma pequena batida no canto da mesa do meu escritório e a ínfima rachadura começou a surgir. Uma rachadura diagonal no celular que se auto proclamava “inquebrável” produzido com “tecnologia militar”. Uma mancha escura não tardou a acompanhar a rachadura, tal qual um ferimento que se abre e sangra levemente, e o pequeno aparelho parecia “enlouquecer”. Não aceitava mais os comandos, abria e fechava telas a esmo, vibrava alarmes, desligava ligações, desfazia textos. Tudo isso para meu desespero.

Sim, pode parecer dramático, pode parecer novelesco, mas meu estado de espírito era sim: desesperador.

Pare para pensar, antes de formar seu julgamento sobre meu equilíbrio mental… Quantas coisas o celular substituiu nos últimos tempos: câmera, rádio, telefone, cartas, telegramas, e-mails, mensagens de texto, notebooks, e, cartão do banco! Isso assim, por cima. Que eu me lembre. Talvez você lembre de outros tantos usos.

Eu que trabalho com produção cultural e projetos, tenho diversos arquivos e rotinas organizados nesse, e através desse, pequeno aparelho eletrônico. Me vi, suspensa! Era como ser demitida pela tecnologia e estar isolada da humanidade, incomunicável.

Calma! Disse a mim mesma e abri o notebook. Por um “milagre” tecnológico o whatsapp web estava ativo na tela do computador! Alívio! Temporário. Logo perceberia que “nem tudo” poderia ser feito ali. Mas, era sim, um pouco tranquilizador não estar totalmente apartada do mundo! Ufa!

Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

Sem notificações em vermelho em uma tela constantemente brilhante, silêncio na ausência de constantes ligações, poucas interrupções ao longo do dia, notei em mim, mais foco, consegui terminar uma leitura parada há tempos, enquanto esperava na fila do banco para sacar um dinheiro, de papel! Veja bem! Conversei com as pessoas ao meu redor com mais calma e me senti menos pressionada pelo tempo.

Em nove dias, um novo aparelho chegou. Chips trocados e a ilusão terminou! Várias mensagens em atraso para responder. Boletos que não foram validados no “DDA”, históricos de mensagens importantes apagadas no whatsapp, fotos de trabalhos a recuperar, postagens a serem feitas fora do prazo, Pix a enviar, aplicativos bancários e de comunicação com o governo a serem revalidados, etc, etc, etc…

Lembrei-me, então, em um momento caótico, das aulas de biologia no Ensino Fundamental, onde a professora jamais poderia adivinhar naquela época, o quanto estava certa e o quanto estava sendo visionária enquanto afirmava sem exitar: somos seres celulares!”.

(Texto de Luciana Marinho Albrecht, escrito e publicado em 01 de julho de 2026 nas suas redes sociais)

Leia mais sobre esta escritora, contadora de história e agente cultural, Luciana Marinho Albrecht: www.neipies.com/processos-criativos-e-inspiracoes-literarias-femininas/

Violência contra a mulher: grupos reflexivos para agressores provocam diminuição da reincidência

Repercutimos matéria do Jornal Correio do Povo que relata importante experiência desenvolvida junto aos agressores homens, visando sua reeducação, como forma de evitar reincidência de violência contra as mulheres. Iniciativas de reeducação vêm sendo implementadas, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais.

(Por Leticia Pasuch e Lúcia Haggström)

“Da lista, são duas Paulas, duas Marines e duas Gislaines. Onze delas tinham menos de três décadas de vida. Outras três tinham os 30 anos completos. Três também dividiam a mesma idade, 24. A mais nova tinha apenas 15 anos. Já a mais velha, 77. Seis décadas a separaram, mas o feminicídio não escolhe faixa etária.

As 42 mulheres brutalmente assassinadas até o dia 26 de junho deste ano, que entraram para a estatística no Rio Grande do Sul, mudam de nome, idade e profissão. Em praticamente todos esses casos, o principal suspeito é o companheiro ou ex-companheiro da vítima, que não aceitava o fim do relacionamento.

Na maioria das ocasiões, não havia medida protetiva de urgência, mas os homens já tinham apresentado comportamentos abusivos. Em outros, até havia, mas a determinação não foi respeitada. As maneiras dessas vidas serem tiradas também apresentam um padrão. Em muitos casos, são com facadas ou com armas de fogo, com objetos ou com estrangulamento – todos, sem exceção, com crueldade.

Uma das vítimas era bombeira civil. Outra, servidora municipal. Ainda, uma era ex-vereadora e diretora de secretaria estadual. Uma delas teve sua vida tirada dentro da própria casa. Dentro de casa, também, uma filha presenciou sua mãe ser assassinada. Outra mãe foi encontrada sem vida em uma plantação de soja. Deixou um filho, cuja idade ainda não enchia uma mão.

No ano em que se comemora o 20º aniversário da Lei Maria da Penha, mais de seis mulheres morrem a cada mês só por serem mulheres no Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado. A prática, que antes era uma qualificadora do crime de homicídio, desde o ano passado é considerada crime autônomo, podendo a pena ser aumentada caso a vítima seja gestante ou puérpera.

AUMENTO DE CASOS APESAR DO AUMENTO DA PENA

Na prática, a mudança permitiu a criação de estatísticas mais precisas sobre ocorrências dessa natureza, além, é claro, de aumentar as penas para quem as pratica. No entanto, só nos primeiros seis meses deste ano o número de casos já ultrapassou 50% dos 80 registrados em todo o ano anterior.

Para Elizabeth Mazeron, psicóloga e socióloga que estuda violência há mais de 10 anos, os números ajudam a entender que medidas repressivas sozinhas não ajudam a resolver o problema. “Não adianta simplesmente prender esse sujeito, tem que fazer um trabalho com ele para que possa recuperar o sentimento de que pertence a um espaço, de que ele não precisa controlar tudo e agredir para garantir sua condição de homem”, afirma. Em nível nacional, mais da metade dos homens que cometem algum tipo de violência de gênero volta ao sistema prisional por crimes relacionados à Lei Maria da Penha.

Conforme a juíza do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Foro Central I de Porto Alegre, Madgéli Frantz Machado, o feminicídio é um crime complexo e, por isso, o combate às ocorrências não pode ser tratado apenas com aumento de pena.

“Todo mundo quer ouvir que, porque aumentou a pena, e agora é a maior prevista no Código Penal, ajudou a diminuir os casos. Mas, em qualquer lugar do mundo, é verificado que somente aumentar a pena não vai erradicar as ocorrências”, explica a magistrada, que é responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS).

 Juíza responsável pelo 2º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Madgéli Frantz Machado | Foto: Alina Souza

A juíza defende que iniciativas de reeducação sejam mais eficientes, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais. Dentro do juizado, é desenvolvida uma série de ações que preveem o apoio às vítimas e, também, os Grupos Reflexivos de Gênero, direcionados a homens que queiram participar voluntariamente ou por determinação para quem é alvo de medida protetiva ou que responde por ocorrência relacionada à Maria da Penha. Esses grupos promovem debates sobre os direitos das mulheres e os papéis de gênero dentro de uma sociedade saudável desde 2011.

FENÔMENO CULTURAL

Os casos de feminicídio deste ano percorreram todas as macrorregiões do Rio Grande do Sul: Metropolitana, Serra, Vale do Taquari e do Rio Pardo, Fronteira-Oeste, Campanha, Sul, Litoral, Noroeste e Norte. Embora tenham ocorrido em endereços, famílias e histórias distintas, e sob circunstâncias aparentemente particulares, carregam semelhanças impossíveis de desassociar: um mesmo roteiro de ciclo de violência, que envolve a escalada de diferentes insultos, ameaças, abusos e agressões.

Mesmo que sociólogos e profissionais da saúde entendam o feminicídio e as violências de gênero como fenômeno cultural, diferente de outras agressões e homicídios, a previsão legal de pena não é específica quando se trata da ressocialização de pessoas que respondem por crimes que tenham perspectiva de gênero.

A violência doméstica é classificada pelos especialistas como o tipo mais persistente da história e de difícil combate, já que, por séculos, foi sustentada por um sistema que naturaliza a submissão feminina.

Para a psicóloga e socióloga Elizabeth Mazeron, os avanços culturais que questionam essa lógica são recentes, assim como o estabelecimento de direitos específicos dessa população. “Até a década de 1970, no Brasil, ainda existia a previsão da legítima defesa da honra. Quer dizer, a mulher era tida como uma propriedade do homem, a quem ele podia dispor como quisesse. Se ela não obedecesse, ele podia matá-la e ter uma pena abrandada.” Apesar de a maioria dos feminicídios deste ano ter sido cometida por homens, em um deles a vítima foi morta pela ex-namorada, que também não aceitou o término do relacionamento.

Na contramão dos avanços legais, atualmente têm ganhado proeminência movimentos que reforçam estereótipos de gênero. Na avaliação da socióloga, esses comportamentos são resultado de uma nova configuração social que questiona o que antigamente era estabelecido como a identidade masculina. “É quase como se o homem estivesse tentando encontrar seu lugar de novo na sociedade. Quando o poder de um lado é ameaçado, a tendência é que haja reação, mas isso é sempre uma tensão cultural. Não dá nem para supor isso como uma coisa biológica.”

ESCALADA DE VIOLÊNCIA

Conforme um levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), levando-se em consideração os 80 casos de feminicídio registrados em 2025, em 75% das ocorrências não havia sequer um boletim de ocorrência registrado contra o autor. Deste mesmo montante, 95% não tinham medidas protetivas de urgência ativas no momento do crime. Esses números passam a impressão equivocada de que essas mulheres são vítimas de um descontrole repentino.

Na maioria esmagadora dos casos, antes de ocorrer uma agressão física, já são identificados comportamentos nocivos relativos à violência verbal, ciúmes excessivo, controle financeiro, patrimonial e a contenção de liberdades, como a socialização com determinadas pessoas, o monitoramento da localização da mulher, entre outras formas de controle que são normalizadas e, em alguns casos, podem escalar para outras violências, como ameaças e abuso sexual.

“A questão de controle é uma situação complicada e podemos identificar que fica mais difícil ainda no Interior, em zonas rurais. Às vezes, a distância também dificulta a esses órgãos [de proteção]”, destaca Bibiana Veríssimo, dirigente do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública do Estado (DPE-RS).

A legislação define como estupro a satisfação da lascívia sem o consentimento do outro. A partir dessa definição, uma em cada quatro mulheres que estão em um relacionamento relata já ter se sentido forçada a ter relação sexual. Levantamentos realizados em diferentes regiões do Brasil dão conta de que mais de 80% dos homens não percebem essa prática como violência quando não há emprego de ameaça direta.

Muitas vítimas, além de sofrerem violências simbólicas por parte dos seus companheiros, ainda enfrentam o julgamento social ao tomar medidas a respeito dos abusos que sofrem. Foi o caso de A.S., que tinha 23 anos quando conheceu J.C.F., de 22. Ao longo do relacionamento, ela começou a notar comportamentos mais agressivos por parte dele, geralmente relacionados ao consumo de álcool. Após idas e vindas, ela tomou providências legais. Foi acolhida pelo Projeto Borboleta, iniciativa idealizada pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJRS.

“Tem gente que fala ‘tu não apanhou’. Eu posso não ter apanhado fisicamente, mas com as palavras, com uma batida forte na porta. Ou quando abria uma cerveja. Ele não é alcoólatra, mas aquilo me remetia a alguma coisa ruim. Quando ele bebia, principalmente com a família dele, ficava totalmente diferente”, relata a mulher, que chegou a solicitar medida protetiva contra o marido.

Ela conta que foi criticada por ter recorrido à rede de proteção naquele caso, mesmo que vivesse em situação de violência psicológica.

Para a socióloga, essa invisibilização é parte de um sistema que permite que essas violências não só se perpetuem, mas escalem. “O que a gente vê são feminicídios que sempre acontecem depois de outras violências. Essa ideia da explosão não cola. Mais que isso, a violência está acontecendo dentro de casa e todas as pessoas que estão no entorno percebem que existe alguma coisa errada. Mas vai sendo naturalizado”, explica. Ela destaca, inclusive, que esses comportamentos podem, muitas vezes, ser entendidos como demonstração de afeto tanto pela vítima como pelas pessoas que convivem com ela.

No exemplo do casal citado anteriormente, a medida protetiva foi expedida contra J.C.F. em 2018. Na época, a Justiça determinou que ele participasse dos grupos reflexivos. Ele conta que, durante o ano em que frequentou, aprendeu sobre leis de proteção às mulheres e teve a oportunidade de repensar comportamentos junto com outros homens, sendo alguns detidos e respondendo por violências físicas contra mulheres.

MUDANÇA DE CULTURA

A juíza Madgéli reforça que a cultura do machismo enraizada na sociedade é como uma “prestação de contas” para os outros homens. Portanto, todos eles acabam sendo pressionados por ela. “Qualquer violência contra a mulher, ele pratica porque está pressionado por uma cultura para agir assim, para os iguais dele, no grupo do churrasco e do futebol, com os amigos do WhatsApp. É a questão do pertencimento. Para pertencer aos ‘machos’, ele tem que agir assim. Se não agir, está fora.”

Especialistas defendem que o caminho para que isso seja desconstruído entre os homens – e na sociedade em geral – envolve trabalhar com a prevenção e com a mudança da cultura. “A gente tem visto no Brasil que o simples fato do recrudescimento da legislação não é suficiente. O que realmente muda algo é a prevenção, a cultura”, destaca Bibiana Veríssimo.

Os grupos reflexivos de gênero podem não só reduzir essa reincidência, mas servir como disparadores desta mudança, defende Aline Vettorazzi, psicóloga e coordenadora técnica Projeto Borboleta, que abrange os Grupos Reflexivos de Gênero no TJRS. O espaço é para ser de escuta e reflexão, e para que os agressores entendam seus atos, se responsabilizem e, assim, possam mudar suas condutas, na direção de quebrar o ciclo de violência.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza

Mas os homens resistem a participar dos grupos de reflexão. “A ideia é, justamente, que a gente consiga trabalhar essa resistência, para ele entender por que foi chamado”, complementa. Ela lembrou que, no ano passado, quatro homens procuraram os grupos voluntariamente, o que é uma exceção, e, por isso, ainda há a necessidade de que exista determinação legal.

A participação dos homens pode ser determinada pelo juiz ou juíza em diferentes momentos do processo judicial, como na medida protetiva de urgência, na condição para concessão de liberdade ou na condenação criminal. Neste caso, pode entrar como pena substitutiva, como condição de suspensão condicional de pena ou durante a execução da pena. Além disso, a participação pode ser considerada favoravelmente na aplicação da pena. No Rio Grande do Sul, são 64 comarcas que contam com Grupos Reflexivos, segundo dados do TJRS.

Após a conclusão dos encontros, o Judiciário acompanha por dois anos a situação, para verificar a reincidência do participante. A juíza Madgéli aponta que o índice de reincidência da violência doméstica entre os homens participantes é de aproximadamente 7%. Apesar de não haver dados recentes sobre a reincidência entre não participantes dos grupos no Rio Grande do Sul, levantamentos realizados em estados como Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso do Sul revelam que cerca de 80% dos homens voltam ao sistema prisional por ocorrências relacionadas à Lei Maria da Penha.

As reuniões envolvem um estilo específico de conversa com os participantes. Por meio dos chamados facilitadores, que medeiam os encontros, é utilizada uma metodologia com promoção de atividades e dinâmicas para que os assuntos surjam.

“Por exemplo, o que é ser homem hoje? Questões de transgeracionalidade. O que aprendi com as figuras da minha referência na infância? Como cheguei a este ponto? Com quem aprendi isso? De onde vem esse comportamento? A ideia toda é trabalhar essas questões”, cita Aline. O objetivo é que os homens se enxerguem como pares, gerando uma identificação. “É uma pessoa que está ali na mesma situação que ele.”

Ainda, é essencial trabalhar o que os homens entendem por violência. Segundo a psicóloga, muitos deles pensam que ela é apenas física e que a Lei Maria da Penha deveria ser aplicada para outros casos, não os deles. Dentro das discussões, os frequentadores são motivados a falar de outras dependências, como álcool e drogas, além da sua saúde mental, que interfere nesse comportamento.

A partir das conversas, é possível identificar a maneira como os homens enxergam as mulheres. Segundo Aline, apesar de haver uma variedade de percepções, a grande maioria descreve-as com um discurso racional, como se fossem iguais a eles, com os mesmos direitos. Porém, com o desenrolar das dinâmicas, são revelados estereótipos de gênero intrínsecos.

Está em tramitação na Justiça uma proposta de institucionalizar os Grupos Reflexivos do Tribunal de Justiça em todo o Estado e já há uma resolução do Conselho Nacional de Justiça que traça os requisitos mínimos para o projeto. Segundo a juíza Madgéli, esse processo irá favorecer a ampliação do número de grupos. “Vai, de fato, formar uma política pública.”

Aline Vettorazzi, psicóloga e servidora responsável pelo Projeto Borboleta | Foto: Alina Souza

RESSOCIALIZAR É COMBATER A VIOLÊNCIA

Tendo em vista a brutalidade com que, muitas vezes, esses crimes são cometidos, é necessária a retirada dos autores do convívio em sociedade, como uma medida cautelar de preservação da integridade das vítimas. No entanto, o alto índice de reincidência desses crimes leva a crer que apenas a reclusão não é suficiente para combater a violência de gênero.

Os resultados alcançados pelos Grupos Reflexivos de Gênero, no entanto, indicam uma alternativa viável para a prevenção e combate à escalada da violência. A Lei de Execuções Penais prevê que as sentenças estabelecidas devam “proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”, diz o texto.

A socióloga Elizabeth Mazeron entende que a maioria dos autores de violências contra a mulher tem a capacidade de rever seus comportamentos e se corrigir, entendimento reforçado pela eficácia dos grupos. “Funciona como uma contenção, como se fosse um superego externo. Para a pessoa que não tem essa repressão introjetada, ela passa a ser grupal. Sem dúvida funciona e tem eficácia justamente por esse caráter de ter alguém de fora exercendo um controle”, avalia a especialista, que descarta a hipótese de que todos os autores desses crimes sejam incapazes de ter empatia, apesar da crueldade empregada.

No caso do grupo coordenado pelo TJRS, a ideia é a prevenção da escalada das violências. Mais da metade dos homens que participam das reuniões não têm antecedentes criminais. “A maioria tem uma conduta social idônea, não tem envolvimento em outros processos. Por isso, essa mulher também fica em uma situação de dificuldade de romper o silêncio, porque ela diz: ‘Esse homem é maravilhoso. Todo mundo o ama’”, diz Aline Vettorazzi, o que vai na contramão da ideia de que os autores dos crimes sejam casos isolados e extraordinários.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza

No caso de J.C.F., a participação no grupo foi determinante para a melhora em vários aspectos da sua vida. “Ali, aprendi muita coisa. Já falei para uns colegas como funciona, e eles nem faziam ideia da lei das mulheres.” Desde que cumpriu a determinação de frequentar o grupo, ele parou de beber, tem sido mais presente com os filhos e tem mais facilidade de identificar situações de violência.

Em uma conversa com uma colega de trabalho, o homem auxiliou aquela família a sair de uma situação de violência. “O padrasto batia nela e na mãe dela, uma senhora de idade. Eu dei o telefone do projeto para essa minha colega e ela ligou. Aí foram na casa e verificaram o que estava acontecendo”, relatou.

Há dois anos, J.C.F. e A.S., o casal mencionado no início da reportagem, decidiram reatar o relacionamento e hoje trabalham os impasses da relação na terapia conjugal. O marido assumiu para si a responsabilidade de conversar com os filhos sobre comportamentos dentro de um relacionamento e já aconselhou o mais velho a participar voluntariamente dos grupos, como uma maneira de formação. O casal, que antes fazia parte da estatística do ciclo da violência, hoje figura como exemplo do poder restaurativo da educação.

Apesar de histórias como essas serem revigorantes, elas representam uma realidade nada comum. Historicamente, a ressocialização enfrenta entraves financeiros e políticos. “Todo mundo merece esse direito de ser corrigido. Mas esbarramos no sistema prisional, com 150% acima da sua capacidade, com insalubridade absurda”, afirma a socióloga Elizabeth Mazeron, destacando a importância de medidas educacionais no enfrentamento a essa realidade.

A defensora pública concorda que os Grupos Reflexivos de Gênero vão ao âmago das pessoas que já tiveram uma condenação e que são potenciais reincidentes. Nas suas palavras, para que a cultura da violência não se reproduza, os homens precisam refletir.

“O sistema penal, ao meu ver, não ressocializa ninguém. Acho que, inclusive, a pessoa certamente não vai estar em um lugar que vai melhorá-la para a sociedade, muito pelo contrário. A gente tem diversas violações de direitos humanos. A ressocialização acaba sendo importante com esses programas de análise, de forma que atinja efetivamente aquele agressor”, disse.

Outras iniciativas do órgão, responsável pelo acolhimento integral e jurídico de acesso à justiça da vítima de violência doméstica durante as medidas protetivas, também auxiliam na prevenção. Entre elas, está o programa Chega Disso, desenvolvido pelos núcleos de Defesa da Mulher e de Defesa da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública. Inicialmente voltado ao sistema socioeducativo, o projeto foi ampliado e passou a alcançar escolas. Atualmente, equipes capacitam profissionais da educação para trabalhar temas relacionados aos direitos humanos e à prevenção da violência.

“Já teve várias escolas interessadas e, hoje, a gente está com centenas de adolescentes tendo essa possibilidade. A gente capacita a equipe pedagógica das escolas justamente para replicarem essa educação em direitos e tentar prevenir”, afirma a defensora sobre a iniciativa que, no ano passado, atendeu 25 mil pessoas.

A Defensoria também desenvolve ações voltadas aos chamados órfãos do feminicídio, crianças e adolescentes que perderam suas mães em decorrência desse crime. Em parceria com a Defensoria Pública da União, o projeto Vidas que Ficam é destinado a fazer a busca ativa dessas crianças e adolescentes para auxiliar na sua proteção integral. A iniciativa, criada em novembro de 2025, busca assegurar direitos previdenciários e assistenciais, além de acompanhar questões relacionadas à guarda, tutela e outras medidas de proteção.

PROTEÇÃO INSUFICIENTE

Em 95% dos casos de feminicídio levantados em 2025 pelo governo do Estado, não havia medida protetiva de urgência ativa contra os autores. Ou seja, a lei ajuda a proteger a vida das mulheres. No entanto, embora as medidas protetivas sejam fundamentais, as mulheres ainda sofrem com violências diversas e medo constante. Há casos de mulheres que chegam a pedir a medida, mas voltam atrás e de outras que nunca chegam a recorrer à rede de proteção.

Diferentes fatores justificam essa realidade. Aline lembra que os casos de violência podem ser silenciosos e, para muitas vítimas, difíceis de identificar. “A gente tem que lembrar que, às vezes, a mulher pode levar três ou mais anos para conseguir romper um relacionamento desse tipo, porque uma das características da violência doméstica e familiar é que ela é paradoxal. Aquela pessoa, infelizmente, já teve momentos bons com essa que está em situação de violência. Essa mulher vai dizer: ‘Mas ele já fez tanta coisa boa, a gente já viveu tanta coisa legal’”, exemplifica a psicóloga. “A pessoa fica enredada nessa situação, não consegue sair, como se ficasse presa em uma teia de aranha.” Por conta de um senso comum que culpabiliza a mulher, ela também pode se colocar responsável pela violência sofrida.

Outro entrave está nas iniciativas de proteção que já existem, mas que não chegam a todas. Além de várias mulheres não terem conhecimento dos acessos, diversos programas não existem em determinadas regiões. A defensora pública Bibiana Veríssimo lembra que o acesso é mais difícil ainda para aquelas que moram no Interior.

Para a juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre, Karen Luise de Souza, a escassez desses registros de ocorrência evidencia a insuficiência da rede de proteção. “A ausência de um boletim não é ausência de violência, é ausência de proteção! É o Estado esperando que a vítima percorra um caminho impossível para a sua sobrevivência”, afirmou a magistrada em uma palestra ministrada na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP) em março deste ano.

Considerando que a violência contra a mulher não faz parte de episódios isolados, ela também é parte de um fenômeno que tem marcadores sociais e intersecções de raça e classe. O Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base nos dados consolidados do ano anterior, levantou que, no Brasil, 67,5% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. “Não quer dizer que mulheres brancas e ricas não sofram violências, mas a maioria das mulheres mortas por feminicídios é negra e com baixa escolaridade. A gente tem um recorte social e econômico que tem que ser contemplado. A gente pode pensar muito mais em estruturas de proteção do que de punição”, disse a socióloga.

Para a defensora pública, se a Lei Maria da Penha fosse aplicada efetivamente, os números de feminicídios não seriam tão altos. Ela destaca a importância de haver uma conscientização por parte de quem trabalha nos órgãos de tomada de decisão para investir nas políticas públicas de combate à violência.

No núcleo da Defensoria Pública, composto em maioria por mulheres, Bibiana Veríssimo ressalta que trabalha para entender cada vez mais sobre os casos das vítimas para pensar em como romper o ciclo. “Como a gente pode fazer um atendimento melhor e como orientar melhor. Não para achar culpados, mas para pensar na possibilidade de se evitar novas mortes, novas violências sexuais e tantas violências possíveis que a gente sofre todos os dias.”

TRANSFORMAR EM POLÍTICA PÚBLICA

Mesmo com os importantes avanços ao longo de duas décadas de implementação do marco mais relevante da política de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, o principal ponto defendido pelas especialistas é que não seja necessária a criação de novas leis, mas sim, a capacidade de implementá-las de modo efetivo. Avaliar o papel de políticas públicas, segundo elas, envolve examinar se os mecanismos existentes têm sido capazes de prevenir a reincidência, reduzir as mortes das mulheres e assegurar proteção suficiente às que estão em risco.

Para a defensora pública, mais do que pensar em novas iniciativas, é importante investir em programas permanentes. “Às vezes muda nome, muda acolhimento. A vítima tem que percorrer uma rota infinita de atendimentos, o que é cansativo, gera desgastes físico e emocional. Ela tem que repetir aquilo que aconteceu com ela infinitas vezes para diferentes agentes públicos. Isso não melhora a vida dela em nada, muito pelo contrário, acaba revitimizando.”

Bibiana também destaca a importância de se analisar três eixos que significam investimento em reeducação. O primeiro, a proteção da mulher, com as medidas protetivas que, na sua visão, podem ser ampliadas. Outra questão é a punição e repressão, não envolvendo o sistema penitenciário, mas trabalhando nos Grupos Reflexivos de Gênero. Por fim, a prevenção, citando as ações da Defensoria Pública.

A ressocialização, aliada a uma mudança de cultura, é um atestado de que, ao menos, uma lição foi aprendida às duras custas das vidas que foram ceifadas e a garantia de que outras mulheres não encontrem o mesmo fim. Investir em discussões sobre os aspectos culturais do crime e da educação em direitos pode ajudar na construção de uma sociedade mais pacífica para todos”.

FONTE: https://www.correiodopovo.com.br/especial?ndk=1782637192428_uid_cb6d7752_e1e4bcc1a039413e985b75e9d1864d5faea6d0af&ndc=

Leia também:

Obra da escritora Marli Silveira que aborda o drama dos feminicídios no Brasil. A autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. Silveira revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher. www.neipies.com/antes-que-o-dia-aconteca-contribuicoes-no-enfrentamento-ao-feminicidio/

Edição: A. R.

“Antes que o dia aconteça”: contribuições no enfrentamento ao feminicídio

“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?

Marli Silveira já afirmou, em artigo publicado no site, que “percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto”.

Leia mais: www.neipies.com/ressentimento-e-feminicidio/

Repercutimos, aqui, posições que demonstram seu conhecimento e sua grande preocupação com a temática violência contra as mulheres, agora tema de um livro.

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Em novo livro, onde aborda o drama dos feminicídios no Brasil, a autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. A autora revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher.

“O tema dos afetos não é esporádico na minha obra, principalmente nos textos em que articulo categorias da Filosofia. Nos livros O pêndulo da angústia, Daseinspedagogia e Psicagogica da experiência estética, para citar alguns, indico a relação entre os afetos e a ética originária, a educabilidade e a condução estética de base ontológico-existencial, respectivamente.

Agora, no Antes que o dia anoiteça, procuro explicitar a relação entre o afeto do ressentimento e o feminicídio. Quando ancoramos nosso estudo na perspectiva nietzschiana, alargada pelas leituras psicanalíticas e antropológicas, reconhecemos as implicações desse afeto no gesto feminicida.

A reatividade e a memória recalcitrante, para citar dois aspectos importantes, ambientam, circulam e atravessam a existência de homens violentos. Disso não decorre que todos os afetados pelo ressentimento sejam feminicidas e que também pudéssemos ignorar outros aspectos importantes que concorrem para a potencialização da violência contra a mulher, como este sistema patriarcal e misógino que referência e orienta o manejo cultural e existencial em que estamos inseridos.

Acredito, contudo, como tentei demonstrar na obra, que o ressentimento está implícito no gesto feminicida, inclusive, em pesquisas que reconhecem a dimensão afetiva que circula no espaço doméstico, esse humor aparece “agarrado” à circularidade referencial e auto referencial.

Podemos dizer que há uma gramática afetiva que circula e orienta comportamentos e modos de se compreender e visibilizar ou invisibilizar, produzindo e implicando a existência humana no mundo e no tempo.

É importante ressaltar pelo menos duas outras questões: que o livro e a minha postura teórica não têm como mote psicologizar o feminicídio e a violência, mas reconhecer as implicações de afetos na e para a existência humana, e o que entendemos por afeto, ou seja, quais são os marcadores que orientam a nossa compreensão dos afetos. É importante que o livro seja lido”.

***

Silveira revela como, na sua visão, a sociedade deve fazer um melhor enfrentamento do feminicídio, sendo mais assertiva no seu combate.

“Percebemos alguns movimentos na sociedade, entre eles e de um lado, uma crescente apresentação da mulher, ocupando lugares e posições que eram reconhecidos como masculinas. De outro, um processo inverso, uma espécie de resistência, inclusive odiosa, de grupos e pessoas que se articulam existencialmente a partir de afetos que alimentam e retroalimentam práticas e discursos violentos, preconceituosos e avessos às mulheres, não apenas. Como existências “fracassadas” que não podem voltar no tempo para refazer experiências e organizam suas vidas a partir de certo compromisso para que a vida dos outros, que considera menor e ou responsável pelo seu fracasso, sejam igualmente esmagadas.

Em termos gerais, pode-se dizer que há uma circulação de afetos impeditivos do vigor existencial que decorre, do ponto de vista cultural, dessa contínua exposição à falta de uma orientação segura, com papéis determinados, em que prevalece um desejo de se voltar ao passado, de se repetir scripts e experiências.

O ódio está para o ressentimento como a alegria para a compaixão. Percebemos também outro movimento: certa parcimônia por parte daqueles (daquelas) que se sentem confortáveis nos seus nichos, socialmente percebidos como intelectual e ideologicamente solidários e corretos. O caso do feminicídio expõe a complexa e dura realidade de se alastrar por todos os matizes culturais, econômicos, formativos, etc., mesmo que existam grupos e contextos mais vulneráveis. É como reconhecer que todos os homens são potencialmente violentos e as mulheres matáveis.

Tem outro dado e é assustador, que também se dirige a outras formas de violência: a localização antropológica. A violência contra a mulher ocorre dentro de casa ou nos espaços e relações que ela mantém. Não é por acaso que Márcia Tiburi faz uma leitura do lar/espaço doméstico pelo recorte de Agamben, inserindo o corpo da mulher no âmbito do homo sacer e da via nua. Como um corpo reduzido e confinado, desamparado e matável.

São leituras duras, mas fundamentais. Então, creio que um dos primeiros passos é o reconhecimento de que somos uma sociedade violenta, que desde muito agride e é implacável contra as mulheres. Que a história e a vida das mulheres se confundem com a violência. Talvez um segundo passo seja no sentido de (re) abotoar a formatividade aos princípios humanísticos. E aqui não falo apenas do espaço da escola, mas de todos os espaços pelos quais circulam afetos, discursos e práticas que orientam a nossa disposição existencial.

Enquanto o manejo compreensivo de nós e do mundo estiver atrelado a orientações violentas e desprovidas de ética, embebido de afetos embrutecedores e alargados pelas bolhas covardes que confundem e empobrecem a socialidade humana, continuaremos orbitando contextos aterrorizadores.

É preciso que a gente se diga; enfrentar e se colocar em jogo. Também sou, também somos violentos”.

***

Como enfrentar discursos que ainda reforçam atitudes agressivas dos homens? Que discursos são estes? Como desarmá-los?  Marli Silveira enfrenta esta questão, abordando tanto questões antropológicas como questões culturais de naturalização da violência feminina.

“Se olharmos debaixo para cima (como exercício de pensamento), compreendendo que somos constituídos pelo que nos acontece, pelos sentidos advindos dessa trama antropológica, poderíamos considerar, talvez com desníveis, que todos os espaços são violentos. A violência não é apenas física, em muitos casos a violência física representa o ápice de um sistema e programa continuados de esgarçamento humano. A própria sociedade, para poder suportar a dinâmica desigual, castradora e fracassada, empurra para certos contextos e grupos a visibilização da violência, tornando aceitável e tolerável situações e mortes.

Não podemos fugir ou escamotear a realidade; não podemos continuar invisibilizando e naturalizando violências e desumanidades.

“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?

***

Marli Silveira responde, de forma enfática, sobre a complexidade da temática, que não se resolverá somente com maior rigor das leis.

Na sua visão, “no caso da violência contra a mulher muitos são os aspectos envolvidos e tal complexidade acaba impondo uma barreira importante na efetiva abrangência das leis e programas que atuam para contrapor esse quadro. Eu acrescentaria ainda outro ponto nesta discussão: o empobrecimento da mulher. Há um processo continuado de empobrecimento da mulher, empurrada para situações de vulnerabilidade econômica, social e cultural, tornando-se vítima em potencial da violência.

A proximidade com a extrema vulnerabilidade tem sido um fator fundamental tanto na captura da mulher pelo crime, quanto pela miséria e sujeição social. Os afetos e o sistema patriarcal, combinados ao lar como este espaço em que há a autorização para se matar mulheres, potencializam a violência. De outro, precisamos reconhecer a importância e a necessidade dos marcadores legais e de programas voltados às mulheres, pois sem eles a realidade seria ainda mais dura e violenta.

***

Sobre como esperar, num futuro próximo, relações mais saudáveis e proativas entre homens e mulheres, a autora afirma.

“Há em mim uma disposição para sonhar e imaginar outros mundos, mas já não sei se temos mais tempo. Há um cansaço humano orbitando os espaços dos sonhadores e todos/todas que um dia defenderam a vida.

Os discursos e a cultura de violência arrastam a humanidade para o precipício, um simples sopro nos empurrará para a queda e o colapso de um projeto de humanidade. No fundo, se pensarmos bem, somos no mínimo “cúmplices” de alguma forma de violência. Reconhecer, quem sabe, seja um suspiro”.

Edição: A. R.

O que Michelangelo pode ensinar ao futebol brasileiro

O jogo contra a Escócia parece ter despertado uma alma que há tempos não era invocada. A essência do futebol brasileiro estava, sem dúvidas, incorporada naquele time.

“A Copa deveria acontecer logo depois das eleições”, me disse uma amiga outro dia desses. O motivo? Só assim para o Brasil se unir de novo.

E ela tem razão. É preciso um pretexto forte para nos lembrar de quem somos nação.

“Vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo”.

Inspirado nas ideias de Platão, para Michelangelo a forma ideal já existia na mente de Deus e estava, de certo modo, refletida ou aprisionada dentro da matéria. O trabalho do escultor era um ato quase espiritual de quebrar a “prisão de pedra” para trazer a alma, a essência da figura, para fora.

E, acredite você ou não, um técnico da seleção brasileira deve ser, antes de tudo, um escultor. Porque o futebol brasileiro é arte. Uma arte que precisa dos elementos certos para se manifestar. Na Grécia Antiga, esses elementos essenciais eram três:

  • Proporção: quando nada falta e nada sobra.
  • Beleza: quando os pés esquecem o peso e passam a brincar com a bola.
  • Harmonia: quando o Brasil inteiro joga junto.

Um bom escultor tem a consciência de que não é um braço ou uma perna isolada que faz uma obra de arte; é o todo. E isso fica claro na resposta unânime do Mister em toda entrevista em que um repórter insiste em eleger o “diamante da temporada”.

O Brasil tem disso: o nosso imaginário cultural ainda espera pelo Salvador. O Neymar ocupa esse lugar para muitos, o futebol e o político também. Mas, sinceramente, e sabe-se lá se foi fruto do acaso ou de uma escolha técnica, o fato de o “Menino Ney” não ter jogado até então fortaleceu a unidade da equipe.

Quando não há um messias em campo, os outros são obrigados a crescer. Assim, a gente deixa de esperar “Jesus chegar” para fazer alguma coisa e assume a própria responsabilidade. Para Kant, isso se chamaria maioridade.

É também tarefa do escultor intuir o lugar exato de cada elemento. Alisson no ataque e Vini Júnior no gol seria o fim já no início! Existe uma inteligência na composição: cada parte encontra sentido não isoladamente, mas em relação ao todo.

Para os gregos antigos, a arte possuía algo de espiritual. O verdadeiro escultor não era apenas aquele que moldava a matéria, mas aquele capaz de despertar o melhor da humanidade através da sua obra.

Talvez seja isso que sentimos diante de um time que realmente funcione: algo maior do que onze jogadores correndo atrás de uma bola. Há um sentimento raro de pertencimento, de integração, de reconhecimento.

Porque, no fundo, a seleção é um espelho. E quando ela joga como arte, revela também algo sobre nós: um povo criativo, que improvisa na falta, ginga na adversidade, persiste depois dos tombos e que, apesar de tudo, ainda encontra razões para sorrir.

Se conseguíssemos canalizar esse mesmo espírito de união e maturidade para a nossa política… já imaginou até onde poderíamos chegar?

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Pé direito e pé esquerdo e o andar do Brasil”: www.neipies.com/pe-direito-pe-esquerdo-e-o-andar-do-brasil/

Edição: A. R.

Cantorias de quintal: uma bela obra de Eloí Elisabete Bocheco

No quintal de casa, legumes e verduras inventam brincadeiras poéticas
e cantigas de roda. Inspirando-se na poesia popular, a autora brinca
com as formas, cheiros, sabores e cores da horta.

A beterraba, a cebola, a batata, o jiló e outros moradores do quintal são personagens destes
poemas. Uma festa poética que começa no fundo da terra, se disfarça
nos arbustos comestíveis e, levada pelo vento, passeia pelo céu da boca
e do mundo.

Veja aqui: https://www.youtube.com/shorts/KjZhE1JhGc4

Da autora:

Eloí Elisabete Bocheco, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo-RS e pós-graduada em Alfabetização e Metodologias de Leitura. Atuou como alfabetizadora, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Trabalhou como animadora da biblioteca escolar, foi coordenadora do ensino de língua e literatura, dentre outras atividades ligadas ao ensino.

O texto literário foi sempre o grande aliado na tarefa de criar a corrente de paixão pela leitura, e na criação de uma memória literária na vida de crianças e jovens com quem conviveu nos anos de magistério.

Teve, na juventude, grandes mestres de leitura e destaca especialmente a professora Ana Schirley Favero e Paulo Bragatto Filho no ensino básico e o professor Henrique Manuel Ávila, na graduação em Letras na Universidade de Passo Fundo/RS.

Leia mais: www.neipies.com/eloi-elisabete-bocheco-universo-infantil-na-escola-na-paixao-e-na-literatura/

Onde adquirir a obra Cantorias de quintal: www.physaliseditora.com/product-page/cantorias-de-quintal

Edição: A. R.

O frio que não suportamos nos outros

O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano.

O poeta Manuel Bandeira viu uma realidade que o inquietou. Dono de uma poesia crítica, em linguagem simples, cotidiana e profunda, escreveu.

“Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio / catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem.”

A denúncia poética foi registrada por Bandeira ainda em 27 de dezembro de 1947. Ocorre que ele não apenas enxergou o fato. Ele o viu. E há uma diferença fundamental nisso, pois enxergar é aptidão biológica, enquanto que ver é uma atitude política, ética, sensível.

Por esses dias também vi um homem deitado na calçada. Fazia frio, com previsão de esfriar mais. Todos passavam, mas ninguém se importava com ele. Estavam ocupados com seus afazeres.

Eis que uma mulher o viu, se comoveu, mas, ao mesmo tempo, sentiu medo. Quem será? Por que estará aí desse jeito? O que fazer? Ou nada fazer como todos, revestindo-se de frieza? As inquietações se acumulavam. São elas que podem nos levar à ação primeira e mais fundamental, qual seja:  aproximar-se de quem consideramos como próximo não apenas por proximidade física, mas por vínculo humano.

Os moradores e moradoras em situação de rua são nossos próximos. Eles não só sentem frio e fome. Também sentem solidão, tristeza, abandono. Enquanto comia um pão e tomava o café que lhe foi oferecido, o homem da calçada disse-me que ali estava porque tinha perdido o amor à vida e se sentia só.

O que fazer para não perder o amor à vida? O que é possível ser feito para recuperar a vontade de viver e conviver? Como agir em relação a si e aos outros sobre questões como essas? As perguntas que emergem de realidades sofridas não requerem respostas apenas teóricas. Elas nos convocam para ações concretas.  

O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano. Não há como ser profundamente solidário sem colocar-se no lugar do outro, daquele que necessita, sem preconceitos e sem juízos condenatórios.

Por outro lado, há um frio que pode estar em nós, mesmo no contexto do aquecimento global. Um frio de outra natureza: da indiferença, da insensibilidade diante da dor, da fome, dos problemas dos outros. Essa frieza humana só pode ser combatida com acolhida, empatia e amor fraterno.

As campanhas por doação de agasalhos na cidade, no estado e por outros estados onde faz frio estão em pleno andamento. São muito necessárias. E nos fazem pensar sobre a importância da solidariedade. Mas, não só. Também da reflexão mais ampla.

Saber agir diante das mudanças climáticas e diante das permanências das desigualdades, da fome, do frio, da perda do sentido da vida, dos sofrimentos ocasionados pelas mais diferentes situações é um dos grandes desafios do nosso tempo. Não vamos permitir que o frio do clima se instale em nossas mentalidades, em nossos comportamentos e relacionamentos.

De acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População da Situação de Rua da UFMG, o Brasil possui cerca de 388 mil pessoas vivendo em situação de rua.

Os dados são obtidos a partir da atualização do CadÚnico, instrumento do governo federal e que é utilizado por todas as cidades brasileiras para o registro dessas populações e o acesso às políticas sociais. Os números são sempre imprecisos, dada a inexistência de um censo da população em situação de rua e também pela mobilidade e alteração contínua das pessoas nessa condição.

Para além dos casos particulares e do número total, bem como das causas que levam muitas pessoas a viverem em situações de rua, existem diversas atitudes possíveis e importantes. A primeira é despir-se de preconceitos. Associar a isso a promoção da cidadania, o fortalecimento de políticas públicas de acolhida, escuta ativa, assistência social, psicológica, espiritual, de saúde física e mental. Também o apoio e a contribuição às pessoas e instituições que já vêm realizando esse trabalho. Orientar a buscar ajuda nos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CRAS) e nas unidades públicas de atendimento como os albergues e Centro POP.

Permanecer na rua não é crime. Afinal, a rua é de todos; a cidade é pública. Porém, a falta de opção de não permanecer na rua é que deve nos fazer refletir e agir enquanto humanos e cidadãos.

Tudo o que pudermos fazer além da indiferença já é importante. Mas, o mais importante é ver e não apenas enxergar. Dar uma palavra de encorajamento antes que uma de apedrejamento. Estender a mão antes que virar as costas. Em tudo, a sensibilidade, o calor humano e a solidariedade ainda são a melhor medida para enfrentar as friezas da vida!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Emergências climáticas e migrações forçadas”: www.neipies.com/emergencias-climaticas-e-migracoes-forcadas/

Edição: A. R.

O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados. Que história é esta?

O elemento central é a lenda do Minhocão do Jacuí, uma criatura gigantesca e misteriosa que habita as profundezas do rio, sendo responsável por fenômenos inexplicáveis e, por vezes, temida pelos moradores.

O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados é uma obra de ficção fantástica e mergulha no sulrealismo folclórico e nas lendas da região do Rio Grande do Sul, especialmente ligadas ao Rio Jacuí e seus afluentes. Está catalogada na Biblioteca Nacional na categoria LENDAS DO SUL. A história gira em torno de elementos místicos e da relação entre a natureza e o ser humano.

O livro narra as aventuras de um grupo de personagens, como o menino, o seu cãozinho Tupy e o misterioso MONGE BARBUDO, que vivia próximo ao Rio Jacuí numa caverna rodeada pelo POÇO DO PANÇUDO, onde hoje é a cidade de ESPUMOSO/RS.

A trama é ambientada em um cenário que mistura a realidade da vida ribeirinha com o imaginário popular desde as origens dos nativos e colonização.

O elemento central é a lenda do Minhocão do Jacuí, uma criatura gigantesca e misteriosa que habita as profundezas do rio, sendo responsável por fenômenos inexplicáveis e, por vezes, temida pelos moradores (que já foi documentário nas estórias extraordinárias da RBS-TV).

Conheça aqui: https://share.google/m7uo0N2GGo6JQ5aiC

À medida que os personagens exploram a região, eles se deparam não apenas com os mistérios do Minhocão, mas também com os Lagos Encantados, locais mágicos onde a natureza se manifesta de forma extraordinária e onde lendas antigas ganham vida. Esses lagos podem guardar segredos, criaturas fantásticas e até mesmo portais para outras dimensões ou épocas.

E há sim, um mapa de tesouro, sobre a custódia dos JESUÍTAS que estiveram na região um enigma para elucidar as peripécias desta história…? Será verdade mesmo, ou é mais uma história de pescador! Aonde está o tesouro dos Jesuítas?

Comece essa aventura… mas não se esqueça que o Monstro do Jacuí é o guardião do Rio. Cuidado com a família do Minhocão! A narrativa envolve: Descoberta: Os protagonistas descobrem indícios da existência do Minhocão e dos lagos, despertando sua curiosidade. Aventura: Eles embarcam em uma jornada para desvendar esses mistérios, enfrentando desafios e perigos ao longo do caminho.

SOBRE O AUTOR:

CESAR AUGUSTO PIEREZAN, 51 anos, nascido em 19 de março de 1975, natural de Espumoso/RS, filho de Artênio Luis Pierezam, agricultor e Elvira Textor Fetalian Pierezan, mãe, professora e alfabetizadora.

Membro Vitalício da Real Academia de Letras de Porto Alegre/RS, com a Cadeira de Acadêmico Correspondente n 10. Recebeu a distinção da Cadeira n. 246 da ALMMURS – Academia de Letras dos Municípios do Rio Grande do Sul, sediada em Porto Alegre/RS, (2019).

Prêmio Cultura Nacional no Palácio Anchieta em São Paulo/SP, 2015 com seu livro “Meus Primeiros Ensaios Poéticos” que reúne poemas, contos e crônica, de 140p. Foi empossado com Acadêmico da Academia de Letras do Brasil – Seccional do Rio Grande do Sul na Cadeira 116 com o Patrono Juarez Alvez, Poa/RS, (2020). Acadêmico Imortal da Academia de Belas Artes do Rio Grande do Sul – ABARS, 2025.

Publicou o livro “O Monstro do Jacuí e o Monge Barbudo” em 2004, 21p.; em 2008, seu livro tornou-se o 1º Episódio do Documentários Estórias Extraordinárias do RBS TV de uma série de outras lendas gaúchas;  e a segunda edição com tiragem de 2.000 exemplares pela LEW Editora de Tapera, 2012, 78p. Em fevereiro de 2026, em sua terceira edição revisada e ampliada para 138p. e com cerca de quarenta imagens estilo Boobies Goodies para a garota pintar, colorir e se divertir, é um livro lúdico e infanto-juvenil, onde o imaginário toma conta desta faixa etária, cercado do mistérios, mas que é indicado a todas as idades para ser lido e degustado em família, incentivando as crianças e adultos a lerem mais.

A meta é arrojada, chegar a 100.000 exemplares publicados até 31 de dezembro de 2030. Como escutei muitas histórias em minha infância por meus pais e avós, é uma forma de gratidão, incentivar a leitura e reconhecer o quanto a leitura transforma a vida das pessoas!.. Enfim, o livro tem pitadas de patranhas, mitos, verdades, imaginação… vale a pena conferir! Está disponível em várias plataformas digitais e de marketplace, como a maior distribuidora de livros do país, a www.umlivro.com.br e www.amazon.com.br www.kobo.com.br , www.estantevirtual.com.br https://www.casadellibro.com/ (Espanha), www.googlebooks.com.br (em versões físico, digital em Kindle) e 40 livrarias físicas no País.

Vídeos sobre a história NEXJOR – UPF (em episódios):

  1. https://youtu.be/BnIDjNMUCWA?t=6
  2. https://youtu.be/Yhz-Mcbrhp8?t=13
  3. https://youtu.be/1GKwHbGRwyc?t=10

Créditos: https://www.facebook.com/memoriasdopampa

Edição: A. R.

Culpa consciente, dolo eventual e outras ficções punitivistas

Os episódios recentes envolvendo a morte de uma jovem em atividade de rope jump e a morte de um ciclista aqui na cidade de Passo Fundo revelam, cada um a seu modo, uma dificuldade recorrente do debate penal contemporâneo: a tendência de transformar acidentes em crimes dolosos pela simples gravidade do resultado.

Não poderia haver tema mais apropriado para este reencontro com os leitores.

O caso que inspira a reflexão a seguir desperta emoções legítimas: dor, indignação, tristeza e desejo de justiça. Mas também nos coloca diante de uma pergunta desconfortável: quando uma tragédia ocupa o centro das atenções, estamos realmente buscando compreender os fatos ou apenas procurando uma resposta capaz de satisfazer nossa indignação?

O texto que segue não pretende oferecer respostas definitivas. Pelo contrário, pretende convidar o leitor a refletir e a tomar posição diante de um debate que ultrapassa um caso específico e alcança uma questão fundamental: qual deve ser o papel do Direito Penal diante da comoção pública?

Ao final da leitura, convido você a responder a duas teses possíveis.

A primeira tese entende que quem assume riscos elevados e acaba causando uma tragédia deve responder de forma mais rigorosa pelos seus atos.

A segunda tese defende que a gravidade da consequência não pode substituir a análise técnica dos fatos, e que a Justiça deve julgar a conduta, não a intensidade da indignação social.

Entre essas duas perspectivas – teses -, há espaço para diferentes opiniões. E é nesse espaço que cada leitor é convidado a pensar, refletir e formar seu próprio entendimento.

Sejam todos bem-vindos novamente a esta coluna. Que a leitura provoque mais perguntas do que certezas e que o debate seja conduzido com a mesma responsabilidade que se espera da Justiça.

A todos os leitores, desejo uma boa reflexão!

***

“Quando a tragédia exige resposta, o Direito Penal não pode substituir prova por indignação, nem transformar culpa em dolo pela gravidade do resultado.

Há fatos que chegam ao debate público já acompanhados de uma sentença moral. A morte, quando filmada, compartilhada e repetida nas telas, parece dispensar mediações: alguém morreu; alguém deve pagar. O raciocínio se encerra em sua própria circularidade punitiva: se a dor é intensa, a resposta penal também deve ser.

O problema é que o Direito Penal não pode funcionar como caixa de ressonância da comoção. Sua tarefa não é negar a tragédia, mas impedir que a tragédia substitua a prova e que a comoção pública valha mais que o próprio ordenamento em vigor.

Os episódios recentes envolvendo a morte de uma jovem em atividade de rope jump e a morte de um ciclista aqui na cidade de Passo Fundo revelam, cada um a seu modo, uma dificuldade recorrente do debate penal contemporâneo: a tendência de transformar acidentes em crimes dolosos pela simples gravidade do resultado.

Não se trata de defender impunidade. Tampouco se pretende minimizar a dor das vítimas ou afastar a necessidade de responsabilização civil e penal quando houver violação de deveres objetivos de cuidado. Trata-se, antes, de preservar uma distinção elementar: culpa não se converte em dolo porque o fato é triste, revoltante ou socialmente insuportável ou reprovável.

A culpa consciente e o dolo eventual são categorias que se aproximam, mas não se equivalem. Em ambas, pode haver previsão do risco. A diferença está na posição subjetiva do agente diante do resultado possível. Na culpa consciente, o agente prevê o risco, mas confia, ainda que equivocadamente, que conseguirá evitá-lo. No dolo eventual, o agente prevê o risco e, mesmo assim, prossegue, aceitando o resultado como consequência possível da sua conduta.

A distinção parece, à primeira vista, uma charada típica dos primeiros anos do curso de Direito ou uma questão recorrente em provas de concursos jurídicos. Mas é exatamente nesse ponto que reside uma das fronteiras mais importantes da dogmática penal: não basta provar que o resultado era previsível; é necessário demonstrar que ele foi subjetivamente assumido. Por isso, a morte de alguém em uma atividade de risco não autoriza, por si só, a imputação de homicídio doloso, nem as consequências processuais e penais que essa classificação naturalmente acarreta (prisão preventiva, por exemplo).

Pode haver negligência gravíssima, imperícia absurda, imprudência intolerável. Pode haver, sim, responsabilidade penal. Mas a intensidade do resultado não altera retroativamente o elemento subjetivo da conduta. O cadáver não prova o dolo. A dor não prova a aceitação do risco, bem como a indignação não prova a vontade.

A prisão preventiva dos investigados no caso do rope jump, nesse contexto, expõe uma das faces mais preocupantes desse fenômeno: a antecipação simbólica da pena como resposta à comoção. Quando o sistema prende antes de demonstrar concretamente a necessidade cautelar, deixa de proteger o processo e passa a satisfazer a plateia.

A prisão provisória, então, deixa de ser medida excepcional e se converte em ritual público de apaziguamento: prende-se para mostrar que o Estado reagiu, embalado por uma falsa promessa, regada pelo jargão de que, com os agentes presos preventivamente, “a justiça chegaria até eles”.

O raciocínio precisa ser testado pelo avesso. Imagine-se, com toda a carga humana que a hipótese comporta, que um filho seu fosse lançado de uma ponte em uma prática esportiva e morresse por uma falha operacional. A revolta seria inevitável e, sem dúvida, natural. A exigência de responsabilização, legítima.

Mas inverta-se a posição: imagine-se agora que seu filho fosse o responsável técnico que, por erro grave, falha de conferência, negligência ou imperícia, causasse a morte de alguém. Você aceitaria que ele fosse tratado como alguém que quis matar? Aceitaria que a falha fosse juridicamente narrada como indiferença homicida? Aceitaria que o acidente fosse convertido em dolo apenas porque o resultado foi, de fato, devastador?

É nesse exercício de inversão que o Direito Penal revela sua função civilizatória. Ele não existe apenas para punir o outro. Existe, sobretudo, para limitar a punição quando todos desejam punir. O garantismo penal não é uma gentileza oferecida aos simpáticos; é uma técnica de contenção do poder quando a emoção coletiva pede exceção.

Acidentes acontecem. A afirmação pode soar fria e duríssima diante de uma morte concreta, mas é justamente por isso que precisa ser dita com precisão. Acidente não significa ausência de responsabilidade; significa que a intenção não pode ser presumida. Significa que a resposta jurídica deve investigar dever de cuidado, previsibilidade, causalidade, protocolos, omissões e falhas concretas, sem saltar diretamente para a imputação dolosa como se o sofrimento social fosse uma prova do elemento subjetivo.

Em uma sociedade de bilhões de pessoas, atravessada por trânsito, esportes, lazer, trabalho, tecnologia, exposição, velocidade e risco, o acidente é uma possibilidade permanente da vida em comum.

O que o Direito deve fazer é distinguir o acaso inevitável da falha imputável; a falha civilmente indenizável da culpa penalmente relevante; e, por fim, a culpa do dolo. Sem essa gradação, tudo vira crime grave. Todo erro vira perversidade. Toda tragédia vira júri. Todo fato vira prisão e, por conseguinte, espetáculo. A tentação punitivista nasce justamente aí: no desejo compreensível de que uma dor intensa encontre uma resposta igualmente intensa.

Mas o Direito Penal não pode medir a imputação pela extensão do luto. A responsabilidade deve ser cobrada, sim. Mas dentro dos limites do ordenamento, da prova e da técnica jurídica. Fora disso, já não se faz justiça; apenas se organiza juridicamente a vingança.

A morte explica a comoção. A comoção explica a cobrança. Mas nenhuma delas prova o dolo. E quando o sistema esquece essa diferença, a culpa consciente deixa de ser categoria dogmática e passa a ser tratada como desculpa; o dolo eventual deixa de ser elemento subjetivo e passa a ser etiqueta de conveniência; e o processo penal deixa de ser limite ao poder para se tornar instrumento de catarse pública”.

Autor do texto: Mateus Contessa de Almeida

Dono de uma escrita elegante, argumentativa e profundamente comprometida com os princípios do Estado de Direito, Mateus Contessa de Almeida desenvolve um estilo que alia rigor conceitual e sensibilidade humana, evitando respostas fáceis para problemas difíceis. Sua produção intelectual sempre se destacou pela defesa da reflexão crítica em temas que frequentemente são capturados pela emoção e pela simplificação. Prova disso foi a excelente repercussão de sua última participação em nossa coluna, quando abordou o fenômeno da adultização da infância e seus impactos sociais e jurídicos. Aos leitores que desejarem conhecer um pouco mais de sua escrita e de suas reflexões, fica o convite para a leitura desse texto, disponível em nosso portal. Segue o link para sua apreciação, caro leitor.

www.neipies.com/adultizacao-quando-a-infancia-e-encurtada-e-a-punicao-e-antecipada/

Autora da coluna: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site “Aposta alta: quando o quer parece certo desafia o que é legal”: www.neipies.com/aposta-alta-quando-o-que-parece-certo-desafia-o-que-e-legal/

Edição: A. R.

A vida é feita de cordas invisíveis

Cada vez que confiamos em alguém, colocamos uma dessas cordas em suas mãos e nos posicionamos na outra ponta. Quem segura a corda assume uma responsabilidade enorme, porque sabe que existe alguém dependurado nela.

Há momentos em que viver exige mais do que coragem. Exige confiança.

Todos os dias entregamos partes de nós a alguém. Entregamos tempo, afeto, expectativas, sonhos. Depositamos nas mãos de outras pessoas aquilo que temos de mais precioso sem perceber que, muitas vezes, estamos assinando contratos invisíveis.

Fazemos isso porque ninguém consegue viver em permanente estado de alerta. Confiar é um ato necessário. É a ponte que nos permite atravessar a solidão e encontrar o outro.

Mas toda ponte precisa de pilares.

O problema começa quando confundimos esperança com evidência. Quando acreditamos que a bondade de alguém é real apenas porque desejamos que seja. Quando projetamos virtudes que nunca foram demonstradas. Quando enxergamos profundidade onde existe apenas aparência.

A vida, afinal, é feita de cordas invisíveis.

Cada vez que confiamos em alguém, colocamos uma dessas cordas em suas mãos e nos posicionamos na outra ponta. Quem segura a corda assume uma responsabilidade enorme, porque sabe que existe alguém dependurado nela. Alguém que pode ser sustentado ou abandonado. Alguém que pode continuar em segurança ou despencar no vazio.

O problema é que nem todos compreendem o peso dessa responsabilidade.

Há quem segure a corda com firmeza e faça de tudo para que você não caia. Há quem a segure apenas enquanto é conveniente. E há aqueles que, por egoísmo, indiferença ou crueldade, simplesmente a soltam.

Então entregamos as chaves da nossa casa interior a quem sequer aprendeu a cuidar da própria.

E um dia descobrimos que nem todas as mãos acolhem. Algumas apenas tomam. Nem todos os abraços protegem. Alguns aprisionam. Nem toda companhia deseja nossa chegada ao destino. Há quem caminhe ao nosso lado apenas para observar onde iremos cair.

As maiores feridas raramente são provocadas por inimigos. Quase sempre vêm daqueles a quem demos acesso ao que havia de mais íntimo em nós.

E quando a confiança é quebrada, não é apenas uma relação que se rompe.

É a corda que escapa das mãos de quem prometeu segurá-la.

E quando isso acontece, não é apenas o corpo que despenca. São os sonhos. São as expectativas. São as certezas que construímos sobre as pessoas e sobre o mundo.

Algo dentro de nós também se estilhaça.

A espontaneidade se recolhe.

A esperança aprende a desconfiar.

A alegria perde um pouco da sua leveza.

O coração passa a olhar para cada novo encontro como quem examina os escombros de uma antiga tragédia.

Por isso, antes de entregar sua corda a alguém, observe.

Não tenha pressa de chamar alguém de amigo.

Não tenha pressa de chamar alguém de amor.

Não tenha pressa de fazer de alguém um porto seguro.

O tempo revela o que os discursos escondem.

Caráter não se conhece pelas promessas feitas nos dias ensolarados, mas pela forma como alguém permanece quando chegam as tempestades.

Veja se a pessoa tem força para sustentar o peso da confiança que você lhe entrega. Veja se ela compreende a responsabilidade de manter as mãos firmes quando você estiver vulnerável na outra ponta.

Confiança não é um presente que se oferece de uma vez. É uma construção que se faz tijolo por tijolo.

E quanto mais valiosa for a parte de você que será entregue, mais importante é saber quem está do outro lado para recebê-la.

Porque algumas pessoas seguram a corda com tanta firmeza que se tornam abrigo para a nossa vida.

Outras a soltam sem hesitar e nos deixam cair de alturas das quais nem sempre voltamos os mesmos.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quanta verdade somos capazes de suportar”?: www.neipies.com/quanta-verdade-somos-capazes-de-suportar/

Edição: A. R.

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