Uma emblemática manifestação ortodoxa reúne fieis há mais de 100 anos

Um dos gestos mais simbólicos da celebração envolveu as crianças da comunidade, que formaram uma fila para receber doces, chocolates e bombons distribuídos pelas senhoras presentes. O ato representa o desejo de que os falecidos desfrutem de uma vida plena e doce no céu, mantendo viva uma tradição carregada de significado.

Mantida há mais de 100 anos, uma emblemática manifestação ortodoxa voltou a reunir fiéis no último domingo (19), em Campina das Missões. A celebração do Dia de Finados Ortodoxo, conhecido como Radonitzá, reforça os laços culturais e espirituais da comunidade descendente de imigrantes russos na região.


De acordo com o pesquisador campinense e cônsul honorário da Rússia no Estado, Jacinto Anatólio Zabolotsky, a tradição ocorre nove dias após a Páscoa Ortodoxa. Como a data normalmente cai em dia de semana, a programação é antecipada para o primeiro domingo, facilitando a participação de familiares vindos de diferentes localidades, que se deslocam até o município para homenagear seus entes queridos.


Reconhecida como o berço da imigração russa no Rio Grande do Sul, Campina das Missões preserva com zelo suas raízes culturais. Um dos principais símbolos dessa herança é a Igreja Ortodoxa Russa do Apóstolo João Evangelista, localizada na Linha Paca Sul, no interior do município, onde ocorrem as celebrações.

A programação teve início com a realização da Divina Liturgia na igreja. Em seguida, os fiéis se dirigiram ao cemitério ortodoxo para as orações fúnebres, conhecidas como “Panihida”, em memória daqueles que já partiram. Ao final do rito, o sacerdote realizou a bênção dos túmulos, em um momento marcado por respeito e emoção.

Um dos gestos mais simbólicos da celebração envolveu as crianças da comunidade, que formaram uma fila para receber doces, chocolates e bombons distribuídos pelas senhoras presentes. O ato representa o desejo de que os falecidos desfrutem de uma vida plena e doce no céu, mantendo viva uma tradição carregada de significado.


Segundo Zabolotsky, a prática é realizada de forma ininterrupta desde a fundação da igreja, em 1912, somando atualmente 114 anos de história. Após as cerimônias religiosas, os participantes se reuniram no salão paroquial ortodoxo para um almoço de confraternização, reforçando o espírito comunitário que atravessa gerações.

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Leia também: https://www.neipies.com/campina-das-missoes-imigrantes-russos-no-rio-grande-do-sul/
Fotos: Jacinto Zabolotsky

Fonte: Rádio Missioneira

Edição: A. R.

Reflexão espírita sobre a responsabilidade de ser mãe

A conscientização gradativa sobre o relevante papel de ser mãe e a sua influência na harmonização do filho, na vida física, irá conduzir a humanidade para o mundo de regeneração. Todo nenê precisa ser acolhido com amor e esperança.

A gestante é merecedora sempre do maior respeito e admiração, não importando sua idade, condições socioculturais, estado civil, raça, cor, etc. Ela está sendo cocriadora da vida, atendendo a lei divina, materializando, dentro de seu próprio corpo o casulo que o espírito, filho de Deus, utilizará para a grandiosa experiência da vida.

Por tratar-se de projeto muito complexo que envolve dois planos, o material e o espiritual, representa para a futura mãe momentos de expectativas e inquietações pela amplitude que se reveste tal investimento.

A gestação é fenômeno originado pela união sexual de duas pessoas diferentes, consensual ou não. As duas são responsáveis pelas consequências e as duas deveriam assumi-las. Como a gestação ocorre no ventre materno e não no corpo do pai este, algumas vezes, não se envolve o suficiente com a nova responsabilidade. Na realidade, ambos estão gestantes, pois o feto liga-se fluidicamente ao pai e a mãe.

A providência divina confia à mulher-mãe o filho por mais ou menos nove meses antes de nascer. Durante a gestação ele é praticamente só da mãe. Ocorrendo forte inter-relacionamento nessa fase. A mãe está biológica e espiritualmente mais ligada ao filho do que o pai. Na mãe se conjugam o instinto natural e a virtude moral de maneira mais profunda pois maternidade vem a ser a plenitude do sentimento feminino que norteia o progresso.

Concepção, gravidez, parto e devoção afetiva representam estações difíceis e belas de um ministério sempre divino, que exige paciência e carinho, renúncia e entendimento.

A maternidade pode ser esperada, imprevista, aceita, hostilizada, socorrida ou desamparada, misto de júbilo e sofrimento, missão e prova e deve sempre traduzir intercâmbio de amor incomensurável, em que desponta o ensejo de burilamento das almas na ascensão dos destinos.  

A aparente inocência, candura e fragilidade fazem parte da pedagogia divina e servem para despertar o amor dos pais que vão cumular o filho durante a infância com as mais delicadas atenções. Essa dedicação e proteção vai até a adolescência, quando o filho apresenta seu caráter real e individual e fica independente.

Quando a mãe cuida do recém-nascido, acarinha-o, aconchega-o ao coração, banha-o, conversa na linguagem “manhez” com ele, o amamenta, olha no seu olhar e entende a sua linguagem muda ou balbuciada ou choro, o seu cérebro produz oxitocina, o chamado hormônio do amor. A mãe se inunda do sentimento de amor pelo nenê.

Esses momentos são plenos de amor puro, da mais bela energia que o sentimento humano pode produzir. Que importante será a época, na humanidade, em que todas as mães puderem viver em plenitude esses momentos mágicos em que elas são cocriadoras com Deus da vida.

A conscientização gradativa sobre o relevante papel de ser mãe e a sua influência na harmonização do filho, na vida física, irá conduzir a humanidade para o mundo de regeneração. Todo nenê precisa ser acolhido com amor e esperança.

É natural que a mãe preserve a própria independência e que não transforme a maternidade em cativeiro no qual se desequilibre. Mas, enquanto os filhos ainda crianças pedirem apoio e ternura, de modo a garantirem a própria formação moral, emocional e espiritual, a mãe deve permanecer atenta aos compromissos da maternidade.

A mãe, de certa forma, “empresta seu corpo” ao nenê de maneira permanente, mas, aos poucos saber estar ausente, por alguns momentos, para despertá-lo para a nova realidade. O primeiro espelho da criança é o olhar da mãe, nele ela se enxerga aos poucos, depois é o rosto, com seu olhar, sorriso, as expressões faciais, sua voz. A criança sente-se refletida na mãe.

Cabe à mãe, devagarinho, frustrar adequadamente o filho e com isso estabelecer a noção de limites nos primeiros meses da criança. Nessa fase, o apoio do pai ou outro adulto será importante para provocar a ruptura do bebê do corpo da mãe. É o nascimento da individualidade.

Torna-se imprescindível que os   pais tenham claro um plano moral de educação dos filhos e que reflitam sobre em que bases vão ajudar o filho a construir sua identidade, tendo sempre em vista a imortalidade do espírito. O filho necessita ser encaminhado não só para a vida material, mas também para a vida espiritual. Ele não precisa só do pão material, da roupa, do teto, da escola, mas também do alimento espiritual para sua alma.

A voz da mãe atinge o âmago do espírito imortal de seu filho quando ela conversa com a criança, quando ela canta cantigas de ninar, aconchegando o rebento ao coração, ou cantigas de roda nas brincadeiras com a criança; quando ela conta histórias edificantes, quando narra a história da família e da criança, como ela se sentiu feliz quando soube que ia ser mãe deste filho, como foi a gestação, o parto, a felicidade que ela sentiu e a família quando ele nasceu.

A mãe precisa passar a ideia para a criança que ela é amada incondicionalmente.

Os pais geralmente se preocupam mais com a carreira que os filhos deverão seguir, deixando-se impressionar pelo brilho e pelo resultado utilitário que possam advir e deixam de atentar para a questão fundamental da vida, que se resume em criar e consolidar o caráter.

Jesus nos apresenta um roteiro simples de ser seguido: Amar a Deus, sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Criar os filhos educando-os, tendo por base essa premissa e servindo de exemplo na vivência cotidiana, aplicando nos seus atos, na convivência no lar e na sociedade, essa regra, despertará na criança o desejo de ser igual ao modelo que, especialmente, a mãe oferece, e que o pai igualmente deverá ser a referência.

A mãezinha e o pai que habitualmente dedicam alguns momentos do dia para orar com a criança, desde os primeiros dias de vida, vão despertando o sentimento de filiação, de gratidão e respeito a Deus. A ideia de Deus é inata no ser, só precisa ser desperta.

Naturalmente que a mãe e o pai serão os primeiros educadores a colocar limites nos filhos de forma firme e amena. Todos os pequenos deslizes da criança necessitam ser corrigidos quando ocorrem. A educação é a formação de bons hábitos que devem ser repetidos exaustivamente até serem incorporados, automatizados no comportamento dos filhos.

Uma coisa importante que a mãe deve ensinar ao filho é que ele saiba perder, ser frustrado, ouvir um “não” quando é necessário, explicando o porquê. Se a criança e o jovem aprenderem a perder, serem frustrados, eles saberão seguir em frente após a desilusão. Serão capazes de buscar um novo caminho, dando-se conta de que tudo passa. Esta é uma das qualidades mais importantes do caráter que está sendo consolidade na fase infantil e na adolescência.

Uma das virtudes da mãe deve ser a paciência, junto com a perseverança. Quem ama, educa, corrige, mostra o caminho do bem e ajuda a trilhá-lo.

Educar significa, etimologicamente, extrair, tirar de dentro. Esse é o papel da mãe e do pai, estimular o desabrochar das tendências inatas do espírito imortal ao que é bom, belo e verdadeiro. Acima de tudo, o filho biológico ou adotivo é filho de Deus e para ele é que se deve encaminhar os filhos.

Os pais, como primeiros educadores dos filhos, por excelência, devem entender que cada dia vivido no lar é uma aula de preparação para a vida adulta dos filhos quando estes vão exercer seus papéis na vida, inclusive como futuros pais.

Os pais adotivos abrem o seu coração para receber crianças em situação de orfandade ou abandono, trazendo-os para o aconchego de seus lares e de suas vidas. São detentores de grandes méritos. Criam seus filhos do coração, muitas vezes, com mais responsabilidade que muitos pais e mães biológicos.

Se o filho é adotado os pais devem dialogar com ele para que se desenvolva sob o conhecimento da verdade.

Ocorre, na atualidade, uma tendência dos pais de desistirem do papel de educadores, de autoridades morais para se tornarem “escravos” dos próprios filhos, por causa das necessidades criadas pelo universo do consumo, do imediatismo, da inversão dos valores. Nesse contexto da pós-modernidade a pessoa vai perdendo os referenciais da realidade e a substância de si mesmo. O que vale são as vitrines, o culto ao corpo, o consumo de tudo.

A realidade apresentada pela mídia é mais viva, colorida com sons especiais que dão uma ilusão sobre o prazer de viver, provocando o fascínio e vazio com a falsa ideia de que tudo o que é apresentado é o melhor.  Na verdade, isso não existe, e quando a pessoa cai na realidade ela sofre grande desencanto e se deprime. Se ela não tiver um embasamento espiritual, fé firme, ela se desequilibra.

Vivemos hoje numa sociedade decadente onde o sexo e o afeto foram banalizados e os pais estão despreparados no papel de educadores, perdidos nas questões de quem são, que lugar e função ocupam na sociedade e no lar.

Os pais precisam assumir seus papeis de pais. Não esquecer que o exemplo seguido do diálogo representa a melhor metodologia para educar. Exercitar diálogo interior consigo mesmo, fazer uma autoavaliação sobre como está exercendo a função de pai ou mãe, para o autoconhecimento e buscar transformar o que deve ser mudado em si, nos seus atos, para que educação possa ser proveitosa para os filhos.

A função materna é ser provedora das necessidades básicas do filho como a sobrevivência física e psíquica através da alimentação, do agasalho, do calor, amor e contato físico.

A representação que a mãe tem do pai de seu filho é a imagem sobre ele que ela vai passar para a criança. O que a mãe visualiza e acredita sobre os potenciais de seu nenê tornam-se importantes na representação futura que o filho terá de si próprio.

As funções maternas e paternas podem ser exercidas pelo pai ou pela mãe. Um pode, em determinado momento, exercer a função do outro, quando surge a oportunidade, o que vai favorecer do desenvolvimento emocional da criança. Ela vai se sentir cuidada e segura.

O relacionamento familiar possibilita a vivência da fraternidade e da solidariedade, todos se conhecem e se podem desculpar com mais facilidade tendo em vista o bem geral e individual.            

No lar, os filhos devem encontrar os recursos preciosos de educação para a formação equilibrada do caráter e da personalidade.

Os pais, como bons cultivadores da moral, devem plantar no coração dos filhos as sementes de tolerância e do bom entendimento. Elas vão fixar-se no cerne da memória afetiva, prolongar-se por toda a existência. Na fase infanto-juvenil é mais espontânea a amizade, o relacionamento sincero e a natural convivência.

A constelação familiar é uma colmeia onde todos devem participar dos deveres gerais, todos colaboram para a harmonia do ambiente e assim desfrutam dos benefícios coletivos que disso decorre.        

A educação sexual deve fazer parte do programa de família, no qual todas as questões devem ser abordadas com naturalidade, no dia a dia, sem precipitação nem atraso. A conversação sadia em torno do sexo, na família, da mesma forma que se fala outros assuntos, oferece segurança para o comportamento equilibrado nessa área.

Quando os pais observam o comportamento alienado do filho devem buscar a orientação da ciência médica, mas não esquecer da alternativa da contribuição espiritual que muito poderá ser útil. Buscar o auxílio espiritual do anjo tutelar do filho solicitando inspiração e orientação.

As novas tecnologias oferecem à mente das crianças e dos jovens muita excitação. Os esforços obtidos ao interagir com uma rede social ou chegar a uma mudança de fase de jogo eletrônico provocam gratificação no cérebro, espécie de reflexo condicionado que promove uma dependência aos aparelhos de comunicação virtual, quando usados sem controle.

A criança e o jovem precisam ser estimulados e contemplar uma paisagem natural sem precisar fotografá-la. Os danos provocados no cérebro pelo uso excessivo de celular e internet é similar aos provocados pelas drogas químicas. Apesar de não ser dependência química, mas comportamental, causa o mesmo desgaste nos neurônios que as drogas. É a tecno dependência.

Algumas crianças e jovens ficam extremamente ansiosos se estão sem seu celular. A linha que separa o uso do abuso é muito tênue. Quando a pessoa fica dependente patológico do aparelho, o uso excessivo está ligado a transtorno de ansiedade. É a nomofobia, que apresenta sintomas de angustia, sensação de desconforto, na ausência do celular, além de mudanças comportamentais como isolamento, falta de interesse em outra atividade e relacionamentos pessoais.

A tecnologia não deve ser usada pela mãe como a babá eletrônica. As consequências do estímulo excessivo na criança pequena serão drásticas.

A mãe deve ser uma imagem positiva para o seu filho.

O papel de mãe e de pai é o primeiro e mais importante reflexo de Deus na vida dos filhos.  A educação espiritual é um processo de autoeducação dos pais que passam pelo exemplo, para os filhos. É preciso aprender a lidar com os altos e baixos do dia a dia, ter claro onde encontrar apoio espiritual, em todos os momentos da vida.   

Acostumar os filhos a dar um passeio a pé, num parque ou bosque e/ou deleitarem-se observando as maravilhas na natureza. Ouvir o murmúrio da brisa, os pássaros cantando, abraçar uma árvore, sentindo sua energia e luz. Sentir a existência de Deus na natureza.

Assistir com eles o nascer ou o pôr do sol ou da lua, observar o céu, as estrelas, as nuvens… Cultivar um jardim ou vasos com plantas, observar a germinação de uma semente transformando-se em vegetal. Saborear uma fruta, analisar sua semente.

Frequentar com regularidade uma atividade religiosa, servir, de algum modo a uma causa social, solidária e fraterna, são atividades simples, mas edificantes, que despertam a dimensão espiritual, emocional e moral da inteligência infanto-juvenil.

A mãe não deve se apressar, deve curtir cada momento do crescimento físico, emocional, espiritual de seus filhos. As crianças gostam de relaxar, ficar livres para brincar, imaginar, agir.

A poesia “Resposta de Mãe”, no livro Antologia da Criança, de Francisco Cândido Xavier, ilustra a grande responsabilidade que cabe à mãe:  

– Minha mãe, onde está Deus?

– Ora esta, minha filha,

Deus está na luz que brilha

Sobre a Terra, pelos Céus.

Permanece na alvorada,

No vento que embala os ninhos,

No canto dos passarinhos,

Na meiga rosa orvalhada.

Respira na água cantante

Da fonte que se desata,

No luar de leite e prata,

Está na estrela distante…

Vive no vale e na serra,

Onde mais? Como explicar-te?

Deus existe em toda a parte,

Em todo lugar da Terra…

– Ó mamãe! Como senti-lo,

Bondoso, sublime e forte?

Será preciso que a morte

Nos conduza ao céu tranquilo?

– Não, filhinha! Ouve a lição,

Guarda a fé com que te falo,

Só podemos encontrá-lo

No templo do coração.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira – Especialista em Educação. gladispedersen@gmail.com. Também escreveu e publicou no site “Reflexão espírita sobre a responsabilidade de ser pai: www.neipies.com/reflexao-espirita-sobre-a-responsabilidade-de-ser-pai/. Esta publicação já alcançou 37 mil acessos.

Edição: A. R.

A mudança nunca virá pelo espelho: virá dentro de você

“Quando não há um inimigo dentro de você, o inimigo de fora não pode destruir.” (provérbio africano)

Como em tudo nesta vida, na outra margem do rio não há muito a ser visto. Possivelmente, a mesma visão que vemos daqui. Imaginamos um lugar melhor, uma paisagem, um outro ponto de vista, uma figura que nos encante, que nos deslumbre…

Mas é do mesmo lugar em que vemos o rio.  Seja daqui ou depois de o cruzarmos. E quando chegamos no outro lado… É tudo muito parecido.

Ele passa correndo e nós continuamos os mesmos.  Atravessa-se a margem, sabe-se lá por que sacrifícios temos de passar; no outro lado, ‘lostesso’.

 Mesma paisagem, diferentes olhares.  É o que carregamos por dentro que define o que vemos ou sentimos. Não é a outra margem.

Vale para tudo. Para o nosso ego, para o grupo em que juramos pertencer.

Éramos 40 ex-alunos.  Após 30 anos, todos reunidos em uma sala.  Alguns com filhos adultos, ora insistindo em sonhos incompletos, ora abandonando-os. Éramos pura lembrança, deslocando tijolos dos dias e quebrando a indiferença dos anos que nos separaram. Somente um Encontro, um jantar de velhos amigos, desconhecidos, tentando restaurar uma nova amizade improvável.

Foram três jantares, na verdade. Todos os anos diluídos em uma mesa de massas. Entregues a memórias, listando professores que nos marcaram, pais que partiram, filhos dos amigos da infância que sequer nos reconheciam. Mas amávamos uns aos outros. Lembrávamos de nossas notas vermelhas, dos que passavam e dos que foram reprovados. A vida os aprovara a todos, no entanto.

Entre risadas e deboches inocentes, alguém lembrou que o país ia mal. E os risos foram contidos…

O ambiente fermentou.

Tomei a palavra para alertá-los.

_Somos um grupo conectados pelo fio do 2º grau, gente? Estamos aqui para celebrar… O passado.  É ele que nos une, falei. Nossa felicidade pode não depender do que éramos na escola, mas ninguém é tão feliz assim sem um amigo colegial por perto. Não adiantou.

Formalidades foram trocadas, abraços apressados e o grupo seguiu cada um com a sua escada em mãos. Mais algum tempo e alguém postou:  _ Presidente ladrão!

O outro logo respondeu:  _Parasita, homicida o teu presidente!

Nunca mais!

E tudo se dissolveu. Nenhum encontro mais. As gargalhadas viraram batalhas, as lembranças comuns, espadas. O que passou em todos nós, sob o mesmo teto, entre provas e matinês, entre missas intermináveis e namoricos nas sombras dos muros do colégio, tudo, tudo, foi-se jogando para dentro do baú dos esquecimentos forçados. O ‘desideratio’ esfarinhou-se.

Já se foram 10 anos e nada dos ex.: nada de reconciliação, nenhuma história que os una novamente. Nenhum erro grosseiro de geografia para lembrar e os lançar no riso amargo das idades que avançam.

Não foi uma crítica de fora que triturou nossos pratos e jantares.  Uma ameaça ou perseguição. A própria dissolução nasceu no seu âmago, no centro de todas as dores e onde céu e inferno podem coexistir eternamente: o flanco interno e obscuro de cada um. Afinal, carregamos inimigos dentro de nós mesmos?

Éramos 40 ex-alunos.  Hoje não somos nenhum.

A maior de todas as fragmentações, em grupos que pensamos fazer parte, nunca vem de fora.  Racha por dentro. 

A enfermidade do isolamento ou deste biombo social, que cresce e nos distancia, sequestrados que somos de nossos queridos, como sociedade, nação, o que seja, sempre será mais efetiva se destruída por dentro. Na imposição, a formação do ódio e a segregação podem ser sabotados.  Pode-se resistir. Mas quando ele se instala por dentro, não precisa mais de controle externo.

Cada um faz a sua parte, mesmo sem saber-se construtor de muros. Tudo é regulado, controlado, pela própria fração interna, onde cada um confirma a sua verdade particular.

Quem pensou em destruir por dentro, acertou. 

Sem ameaças, sem barulho, no silencio de uma conversa reservada, de um programa de TV ingênuo, em mensagens ligeiramente falsas, espetaculosas e conspiratórias, tudo é mais eficiente no andar dos dias repetidos; ante gritos e bravatas.

Dividir por dentro, sem invadir qualquer família ou nação, separar o ‘nós do deles’, refletir a mentira fantasiada de verdade, subornar consciências, nada disso precisa ser anunciado. 

Vai se implantando aos poucos, tanto a desinformação quanto a informação enviesada.  Vai-se mantendo um grupo fiel e constante, até que aquela vizinha resistente volte atrás e enfim concorde com a terra plana.

Por dentro, pode até doer mais, mas é onde realmente começam as mudanças. Para o bem ou para o mal.

Sempre quando questionarem você sobre como aquela pessoa mudou tanto, pense que não foi uma virada de mesa. Virou-se o copo, apenas.  Ela estava transmutando-se no silêncio de sua cozinha, sorvendo o mate do desamparo e da decepção há muito tempo; apenas faltava alguém que a ouvisse.

Mas o despertar não seria isso mesmo? 

Falar com clareza ao grupo dos 40, que a sua história tem de estar sobreposta a qualquer narrativa transitória, e que talvez ninguém no grupo tenha mais 30 anos pela frente… Para o seu 4º Encontro.

Bem, eu não falei. Uma pena! Até porque o rio nunca deixou de passar em ambos os lados, e, em sua passagem, somos todos espectadores, brigando por verdades ou mentiras, mas sempre olhando a partir da mesma margem.

Que pena não ter falado. Poderia ter iniciado o meu despertar.

Autor: Nelceu A. Zanatta.Também escreveu e publicou no site “Quem tem medo de um amor adolescente?: www.neipies.com/quem-tem-medo-de-um-amor-adolescente-estudar-agora-amar-somente-depois/

Edição: A. R.

O rádio também educa

Gerson Pont é um grande profissional do rádio. Quem o ouve, de cara, percebe que ele gosta da profissão, tem experiência, conteúdo, domina bem a comunicação e tem humildade para reconhecer o quanto ainda pode aprender nesta área.

Uma das vozes marcantes do nosso rádio, na atualidade, na cidade de Passo Fundo, Pont tem formação em publicidade e propaganda. Seus primeiros estudos na área começaram na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) na área de publicidade, em 1983, mas desde então já atuava em rádio.

Nasceu em Uruguaiana, RS. Morou em Santa Maria, Porto Alegre e Passo Fundo.

Montou rádios e atuou como gestor de conteúdo em várias emissoras do Rio Grande do Sul.

Convidamos Gerson Pont para que ele fale por ele mesmo.

Por sua postura, conhecimento e experiência nesta área de comunicação, queremos afirmar o rádio uma ferramenta da educação, da evolução cultural de uma cidade e do entretenimento conectado com a diversidade cultural.

Conte-nos como surgiu a vontade de atuar profissionalmente na comunicação, em especial, o Rádio?

Meu pai tinha um programa de rádio em Uruguaiana, era um programa religioso, aos domingos pela manhã. Como ele me via brincar de rádio em casa, me provocou a apresentar o programa, num domingo que ele estaria em viagem.

Devia ter uns 14 anos. Foi ali que descobri que minha vocação era essa, quando a luz vermelho de “NO AR” ligou!  Profissionalmente, comecei em rádio na Atlântida de Santa Maria, no ano de 1983.

Com meu pai, relação com a música

Que aprendizagens e conhecimentos comuns transitam no universo da publicidade, rádio e jornalismo?

Da publicidade, veio a preocupação de sempre “embalar” bem o produto, de que as ideias sejam claras e comunicadas de forma correta. Isso valendo também para a música, que deve ser pensada a partir do perfil do ouvinte da rádio.

O jornalismo também deve ter essa preocupação de forma e conteúdo. A notícia deve ser dada da mesma forma que a gente conta uma história para alguém. Não pode ser chata!

Na sua visão, como o Rádio é também um agente educativo, de formação cultural?

Com certeza! As pessoas tem hábito de ouvir rádio e tem suas emissoras preferidas. Fazemos parte da vida diária de quem nos ouve. Um parceiro num momento (ou mais de um) do dia. Devemos ser esse agente educativo, partindo do princípio que somos uma concessão pública. Temos que ter responsabilidade, provocar, fazer pensar!

O rádio se adaptou às mais recentes inovações da comunicação como as redes sociais. Por que o Rádio não para de crescer e continua com papel tão relevante na comunicação de massa?

O rádio foi a primeira rede social do mundo, muito antes das redes atuais. Então, ele já tem essa característica multifacetada do digital. Seus principais diferenciais são o localismo e a portabilidade. Não tem nada mais fácil de consumir em qualquer lugar que o rádio. Mas ele deve falar da aldeia, das coisas que impactam de verdade a vida de seus ouvintes.

Os comunicadores sempre foram influenciadores, antes mesmo da criação desse termo e, reforçando esse perfil diverso, o rádio é oferecido com imagem, em transmissão nas redes sociais.

Tiveste muitas experiências profissionais em rádio (Rádio Rock 105 FM, Rede Transamérica, Rede Atlântida, Guaíba, Fundação Piratini). Como estas, e cada uma delas, te consolidaram como profissional da comunicação?

Cada experiência de nossa vida profissional é válida. Mas o exemplo mais claro que posso dar é a oportunidade de gestão na rádio Guaíba, uma rádio news, focada em jornalismo e esporte (antes, sempre coordenei rádios de entretenimento). Essa diversidade em formatos me deu a certeza que é possível fazer uma rádio musical com notícia junto, que é o modelo da Rádio UPF. Esse ainda é um conceito novo e pouco explorado no rádio, mas acredito muito nele.

Depois de várias experiências em rádio, tanto na gestão como na atuação de radialista e jornalista, vieste a Passo Fundo em 2007 para montar uma Rádio Universitária. Esta Rádio mescla boa música e notícias. Qual é o diferencial da Rádio UPF?

Temos bons diferenciais. Primeiro, ser uma rádio educativa, mas que não é chata, que é possível de ouvir, se informar e ouvir boa música. O outro é essa mistura bacana da música com a notícia.

Comandas um programa chamado Café Expresso. Qual é a essência deste programa?

O Café Expresso foi a possibilidade que vi de por em prática essa fusão de música com notícia. Ele está há 10 anos no ar, em duas edições (das 7 às 9 e das 12 às 14h, segunda a sexta). Pensamos nesses horários também em função do trânsito ser mais intenso nesses momentos do dia. Uma das grandes armas do rádio é ter grande audiência nos carros.

Turma do Café Expresso: Gerson, Zulmara, Cris e Taís

De onde vem inspiração e vontade de fazer comunicação com responsabilidade social?

Primeiro, da consciência profissional: o rádio é uma concessão pública. No caso da Rádio UPF, ainda tem a questão de ser uma rádio educativa. Não existiria outro caminho senão o da responsabilidade em todo o conteúdo veiculado.

Neste momento histórico do Brasil, como avalias a comunicação de massa? A liberdade de expressão/imprensa corre riscos?

Como sempre, de extrema importância. Apesar do avanço das redes sociais, os meios de comunicação tradicionais, principalmente tv aberta e rádio, continuam com grandes audiências e responsabilidade dobrada, em função das fake news que circulam no digital. A liberdade de expressão já correu riscos maiores do que agora aqui no Brasil, mas é fator permanente de preocupação. Ainda que a própria expressão seja frequentemente confundida com falta de responsabilidade. Infelizmente, alguns veículos, assim como indivíduos, cometem esse engano com muita frequencia.

Qual é a tua relação pessoal com a literatura? Gostas de ler, escrever e publicar?

Já andei lendo mais que agora. Mesmo assim, mantenho o hábito no nível mínimo que acho necessário pra não esquecer dos livros.

Tenho muitos escritos meus guardados e apesar de não tendo produzido nos últimos tempos, estou fazendo uma revisão do material. É muito interessante rever coisas escritas há muito tempo…

Publiquei pouca coisa e sempre em coletânea. Talvez seja meta publicar, desde que fique satisfeito quando finalizar essa revisão.

O problema é que vamos ficando mais exigentes com a idade…

Qual é a tua relação com o universo do Rock?

Na adolescência, a relação maior foi com a MPB, até pelos discos que o pai tinha em casa. O rock veio mais tarde, já trabalhando em rádio. Em casa, escuto muito música folclórica latino americana. Muito em razão de ter nascido na fronteira.

Como te defines numa frase.

Minha melhor definição é meu signo, sagitário. Metade gente, metade bicho. Com pequenas variações pra lá ou pra cá, conforme o contexto.

A vida, num verso.

“Mejor, o peor, cada cual
Seguirá su camino
Cuánto te quise, quizás
Seguirás sin saberlo
Lo que dolería por siempre
Ya se desvanece, eh
La vida es más compleja de
De lo que parece”. (JORGE DREXLER)

Uma breve mensagem aos que agora, ao invés de te ouvir, te leem.

Agradeço sempre pela audiência. Que é tão diversa nesses mais de 40 anos no rádio. Sempre fiz o melhor que minha capacidade permitiu. E com muito amor. A noção da responsabilidade só aumentou com o tempo. Hoje, penso muito mais em cada palavra que digo. Entendo que deva ser assim.

Fotos: Arquivo pessoal entrevistado.

Acesse também última entrevista desta Sessão: www.neipies.com/del-loco-de-asis-a-la-culturaruf/

Edição: A. R.

A falsa prova

Talvez exista um aspecto revelador na aprovação automática: o de constranger o sistema a reconhecer que a prova não é uma ferramenta eficaz de ensino. Em um contexto de profunda desigualdade social, a prova serve apenas para atestar, justamente, a própria desigualdade.

​É de conhecimento geral que a educação ruma para a aprovação automática. Mesmo quem não integra o universo escolar, já percebe essa tendência. Em um cenário no qual a escola tenta — ainda sem êxito — mitigar os abismos da desigualdade social que geram disparidades intelectuais quase incontornáveis, questiona-se cada vez mais a utilidade das avaliações tradicionais. Em suma: como medir o aprendizado de forma justa?

​Em uma sociedade equânime, a aplicação de provas não seria um problema, pois, garantidas condições básicas semelhantes e respeitadas as subjetividades, todos teriam, teoricamente, as mesmas oportunidades de sucesso. No entanto, é evidente para qualquer um que confronte a realidade que o Brasil está longe desse ideal.

​Como nivelar o estudante que usufruiu de acompanhamento pré-natal, aleitamento, nutrição de qualidade e um ambiente familiar afetuoso com aquele que carece de quase tudo? Como utilizar a mesma régua para medir realidades tão díspares? Se a avaliação já se mostra injusta no âmbito comportamental, o impacto no campo cognitivo é ainda mais profundo. É preciso encarar a verdade: esses alunos não habitam o mesmo mundo.

A disparidade socioeconômica é apenas um dos desafios diários enfrentados na escola pública. Nesse contexto, a não reprovação surge como um paliativo de políticas governamentais que ignoram o essencial: o suporte estrutural, a valorização da escola e da carreira docente.

​Na verdade, a negligência não é apenas com o professor, mas com a própria criança. Se as valorizássemos, a valorização do magistério e de todo o entorno educacional seria uma consequência natural. Vivemos em um país que hostiliza a infância, especialmente quando ela é fruto da miséria. O agravante é que exigimos dessas crianças o mesmo desempenho daquelas nascidas em famílias bem estruturadas.

​Contudo, talvez exista um aspecto revelador na aprovação automática: o de constranger o sistema a reconhecer que a prova não é uma ferramenta eficaz de ensino. Em um contexto de profunda desigualdade social, a prova serve apenas para atestar, justamente, a própria desigualdade.

A solução residiria na melhoria das escolas e das condições de trabalho dos professores, mas esse horizonte permanece distante. Na verdade, retrocedemos. Assim, apesar de termos desmascarado a ineficácia da prova, continuaremos a patinar em um ensino público de baixa qualidade.

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professores não sabem nada”: www.neipies.com/professores-nao-sabem-nada/

Edição: A. R.

Maria Madalena

Este retrato não se explica, apenas se revela, sobretudo agora, quando o feminino desce e se enraíza, não como ideia, mas como força viva, ancorando na terra o lento e inevitável movimento de regeneração do mundo.

Numa manhã quieta, quase suspensa no tempo, deixei escapar em voz alta o desejo de um tema que ainda não tinha forma.

Ao meu lado, Carmen Garrez rompeu o silêncio e, como quem não quer perturbar o invisível, soprou: Maria Madalena.

Fiquei imóvel, escutando o eco desse nome dentro de mim, até que, sem perceber a passagem entre pensamento e gesto, já estava diante do cavalete, como se a imagem me conduzisse.

Assim nasceu este rosto — Maria Madalena e, de algum modo insondável, também mestra Nada.

No contexto atual, Mestra Nada é descrita como um ser espiritual elevado, associado ao amor incondicional, à cura, à compaixão e ao chamado “raio rosa” (uma linguagem simbólica dessas correntes). Muitas vezes é apresentada como uma consciência feminina que orienta processos de equilíbrio emocional e expansão do coração.

Este retrato não se explica, apenas se revela, sobretudo agora, quando o feminino desce e se enraíza, não como ideia, mas como força viva, ancorando na terra o lento e inevitável movimento de regeneração do mundo.

Caminhou junto de Jesus Cristo não como quem segue, mas como quem compreende o caminho antes mesmo que ele se abra.

E quando o mundo tremeu em madeira e silêncio, quando os céus pareceram se fechar sobre a terra, foi ela — não os que prometeram força, não os que vestiam certezas — foi ela quem permaneceu. E está entre nós até hoje.

MARIA MADALENA

Acrílica s/tela

52×63

Sem chassi

Autor: Manoel Soares Magalhães. Também escreveu e publicou no site “O barato de ser escritor”: www.neipies.com/o-barato-de-ser-escritor/

Edição: A. R.

Saudade é uma casa que continua acesa

Para minha mãe Maria.

A casa ainda existe —

mas não do jeito que a gente lembra.

As paredes perderam o barulho,

e o riso virou eco.

Saudade é isso:

uma festa que terminou

mas ninguém teve coragem de apagar a luz.

Josué (O velho Guimarães) entenderia

esse jeito meio quieto de sofrer

sem fazer escândalo.

Porque não é dor que grita —

é ausência que se acomoda.

Lembro das mesas cheias,

das conversas atravessadas,

do caos organizado de estar junto.

Hoje, o silêncio tem mais espaço que os móveis.

E é curioso —

(ou cruel, depende do dia) —

como os momentos felizes

crescem depois que acabam.

Ficam maiores, mais bonitos, mais vivos —

como se a memória fosse uma artista exagerada.

E eu deixo.

Deixo porque preciso.

Deixo porque é o que resta.

Carrego essas cenas

como quem carrega um pouco de casa no bolso.

E às vezes — só às vezes —

a saudade não dói.

Ela só senta ao lado

e fica.

Como quem ainda pertence.

Para minha mãe Maria.

Autor: Claiton Manfro. Terapeuta e com vasta experiência em teatro. Estreia com esta poesia sua primeira publicação no site. Bem-vindo!

Edição: A. R.

O barato de ser escritor

Alguém que venceu o medo da página em branco e deixou sua existência impressa em livros. Isso, no fundo, é eternidade em pequenas doses.

O barato de ser escritor é ter uma ideia nas mãos — pequena centelha — e, sozinho, transformá-la em mundo.

É ralar, suar, atravessar madrugadas insones. É duvidar de si mesmo enquanto as palavras resistem no papel.

Mas também é amor.

Amor profundo pelo ofício invisível de criar.

Pela frase que nasce torta e, depois de muita luta, encontra sua própria respiração.

Ser escritor é aceitar que caminhos errados serão escolhidos.

É possuir humildade para voltar atrás, apagar páginas inteiras, abandonar atalhos e procurar outras veredas, menos fáceis, porém mais verdadeiras.

É compreender, sobretudo, que tudo pode dar errado.

Que o livro talvez não encontre vitrines.

Que os convites não venham.

Que o mercado editorial feche portas para aqueles sem sobrenomes influentes, sem relações convenientes, sem padrinhos literários.

E ainda assim continuar escrevendo.

Porque publicar uma obra nascida do próprio esforço já é, por si só, uma vitória imensa. Trazer um livro à luz é desafiar o silêncio do mundo. Por isso, sou um escritor de sucesso.

Pouco conhecido, talvez.

Mas alguém que venceu o medo da página em branco e deixou sua existência impressa em livros. E isso, no fundo, é eternidade em pequenas doses.

Autor: Manoel Soares Magalhães. Também escreveu e publicou no site “Quase feliz”: www.neipies.com/quase-feliz/

Edição: A. R.

Um ano a mais ou um ano a menos?

A cada aniversário que completamos, vamos acumulando novas fases, e não substituindo uma por outra. Assim, é possível que continuemos mantendo as fases anteriores vivas dentro de nós, de forma que a criança, o adolescente e o adulto jovem que fomos um dia poderão ter suas qualidades reeditadas em determinados momentos e, por vezes, poderão até mesmo dialogar.

Adoro conhecer a etimologia das palavras. A gente sempre descobre que, lá atrás, muitas delas tinham um significado mais interessante que o usual. Nesta semana, descobri que a palavra aniversário significa “o que volta todos os anos” e parei para refletir. Mas, afinal, o que será que volta? Estou ciente de que não é o tempo…

O antropólogo Luiz Marins, ao sugerir que observemos o pêndulo do relógio, pergunta: ele vai e volta ou ele vai para um lado e vai para o outro? Até eu terminar de escrever esta crônica, espero que surja alguma possível resposta, mesmo que provisória.

Impossível não lembrar aqui do que escreveu Roberto Pompeu de Toledo: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. […] entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez.”

Esta frase, erroneamente atribuída a Carlos Drummond de Andrade, pode justificar a vantagem de fazermos aniversário.

No sentido que o autor coloca, ao desejarmos feliz aniversário para alguém, na verdade, estaríamos desejando um “feliz você novo”.

Martha Medeiros propõe essa ideia, destacando que, por mais que na nova idade tudo pareça igualzinho, podemos renovar nossos pensamentos e acreditar que a nova idade será palco do melhor ano da nossa vida, até porque será o ano que estaremos vivendo. Assim, todas as idades e fases da vida que estivermos vivendo podem ser as melhores (ou não).

A cada aniversário que completamos, vamos acumulando novas fases, e não substituindo uma por outra. Assim, é possível que continuemos mantendo as fases anteriores vivas dentro de nós, de forma que a criança, o adolescente e o adulto jovem que fomos um dia poderão ter suas qualidades reeditadas em determinados momentos e, por vezes, poderão até mesmo dialogar.

O que será que a Marilise de oito anos diria para a Marilise de hoje? E, se pudéssemos prever, o que será que a Marilise de cem anos diria para a Marilise de quase cinquenta? Ah, eu aprenderia muito se pudesse ouvir essas conversas.

Voltando ao pêndulo do relógio, decidi pensar que ele só vai. Vai para um lado e vai para o outro, da mesma forma que sempre ando em sentido único: para frente. O que volta todo ano, conforme diz a etimologia da palavra aniversário, é somente o nome e o número do mês e do dia, mas não o do ano.

E o que são os anos?

Será que deveríamos mensurar nossa idade em anos? Faço aniversário no mês de maio, mas, quando alguém, no início do ano, me pergunta quantos anos eu tenho, já respondo com a idade nova. Se for para arredondar, prefiro os números maiores, pois assim pensam que estou mais “conservada”. E só isso já seria motivo suficiente para comemoração.

Mas podemos, também, escapar da comemoração, escondendo essa data ou viajando, por exemplo. Mas não podemos nos esconder do nosso aniversário…

Então, é melhor comemorar, nem que seja como uma desculpa para reunirmos a família e os amigos, comer bolo, apagar as velas enquanto fazemos pedidos e receber presentes.

Segundo algumas tradições, isso tudo não é só para diversão e entrosamento. Para os gregos, o bolo simbolizava a lua, que era a forma de Ártemis, deusa da caça, se manifestar, iluminando as noites. Já as velas, na crença popular, são dotadas de magia especial para atender pedidos. Para completar, os presentes e uma refeição melhorada funcionavam como proteção ao aniversariante, pois ajudavam a invocar os espíritos bons.

Se isso tudo for verdade, quero fazer como na Rússia, onde muitos comemoram a data do aniversário duas vezes por ano. A justificativa para isso é que, se a pessoa tem nome de santo, deve comemorar o dia do seu nascimento e também o dia do seu santo padroeiro.

Mas o melhor de tudo não seria repetir o bolo, as velas e os presentes, mas, sim, ser acordada novamente, ao amanhecer, ao som da voz dos meus pais e irmãos cantando: “Marizinha, queridinha, Marizinha, queridinha…” Claro que não poderiam faltar os beijos, as afofadas, o presente, o cartão e o café na cama. Obrigada, vida, por eu poder repetir isso, hoje, com o meu marido e os meus filhos.

Por fim, para que possamos sempre ter motivos para comemorar, precisamos realizar projetos de curto, médio e longo prazo, praticar atividades físicas e comer pouco. Simples assim. Estudiosos chegam a afirmar que, ao incorporarmos essas “normas” à nossa vida, poderemos até ficar mais jovens à medida que envelhecemos.

Vamos, então, renovar os contratos com nós mesmos, fazendo com que tenhamos sempre mais coisas para agradecer do que para pedir. Sempre mais para comemorar do que para lamentar.

Mas, afinal? Ao completarmos mais um ano de vida, devemos contabilizar um ano a mais ou, na realidade, estamos diminuindo um ano da nossa expectativa de vida? A resposta a essa pergunta dependerá do nosso ponto de vista: se está focado no passado ou no futuro.

Para Wilber, um dos meus pensadores preferidos, “todo o tempo é agora”. Disso se segue que o passado e o futuro são ilusões, e que a única realidade é a realidade presente. E que “presente” pode ser esse Presente…

Fotos: arquivo pessoal

Autora: Marilise Brockstedt Lech. Psicóloga Educacional. Cadeira 39 da Academia Passo-Fundense de Letras. Autora da Crônica “Onde mora a felicidade”: www.neipies.com/onde-mora-a-felicidade/

Edição: A. R.

Teologia do descanso e a escala 6×1

O problema nunca foi o trabalho. O problema é quando ele deixa de ser expressão de vida e passa a ser instrumento de opressão.

Chamaram o trabalho de maldição, mas isso é um equívoco teológico. Antes de qualquer queda, o ser humano já havia sido colocado no jardim para cultivar e guardar.

O trabalho, portanto, não nasce do pecado, mas do propósito. Ele é extensão da criatividade divina em nós. Trabalhar é participar da obra de Deus no mundo, dar forma ao caos, gerar sustento, dignidade e sentido.

O problema nunca foi o trabalho. O problema é quando ele deixa de ser expressão de vida e passa a ser instrumento de opressão.

A teologia do descanso começa exatamente aí. Se Deus, que não se cansa, escolhe descansar, não o faz por necessidade fisiológica, mas por princípio espiritual.

O descanso é um ato de resistência contra a lógica da produtividade sem alma. É uma declaração de que o valor do ser humano não está naquilo que ele produz, mas naquilo que ele é.

O sábado bíblico não é apenas um mandamento religioso. É uma subversão econômica.

Num mundo onde tudo girava em torno de produzir sem parar, Deus institui um freio. Um dia em que ninguém trabalha, nem o patrão, nem o empregado, nem o estrangeiro, nem os animais. Um dia em que a vida vale mais do que o lucro.

Por isso, qualquer sistema que normalize a exaustão como estilo de vida está, na prática, negando esse princípio divino.

Leia também: www.neipies.com/trabalho-consumismo-e-novos-pobres/

A escala 6×1 é um exemplo gritante disso.

Trabalhar seis dias seguidos para descansar apenas um não é equilíbrio, é sobrevivência institucionalizada. É a espiritualização moderna do cansaço crônico.

É um modelo que rouba do trabalhador o tempo com a família, o cuidado com o próprio corpo, a possibilidade de lazer, o cultivo da espiritualidade e até o simples direito de não fazer nada sem culpa.

E o mais curioso é ver políticos que se dizem defensores da família se posicionando contra mudanças nesse modelo. Defendem a “família” em discursos, mas sustentam estruturas que impedem o convívio familiar na prática. Que tipo de defesa é essa que não garante tempo para um pai brincar com seu filho, para uma mãe descansar sem culpa, para uma família sentar à mesa sem pressa?

A teologia do descanso nos lembra que trabalhar é importante, mas descansar é sagrado. Que produzir é necessário, mas viver é essencial. E que nenhuma economia deveria ser construída à custa da saúde física, emocional e espiritual de quem a sustenta.

Descansar não é perder tempo. É recuperar a alma.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Somos todos professores”: www.neipies.com/somos-todos-professores/

Edição: A. R.

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