Navegue e conheça Arquivos Dóro

Com alegria e satisfação, desejo apresentar Arquivos Dóro, uma referência digital de algumas das minhas produções artísticas, jornalísticas e literárias. Desejaria que o seu acesso a estes arquivos digitais revele um pouco da minha trajetória pessoal e profissional, que resolvi tornar pública.

Eis o link: https://arquivodoro.blogspot.com/

Arquivos Dóro apresenta as obras que realizei ao longo da minha vida artística. Assim como Salinger, meu interesse é usar a arte como terapia, ao invés de ser um produto a ser comercializado.

Dentre os ítens que ali estão, destaco Memórias de Quebra-cabeça, que reúne cerca de 400 memórias de acontecimentos ocorridos ao longo da vida, Manchetes de um Sequestro, um fato policial que acompanhei no jornal O Nacional de Passo Fundo e Revolta dos Motoqueiros, meu primeiro livro a fazer relativo sucesso, e as seleções de contos.

Arquivos Dóro também guarda blog Contos em Quadrinhos, cujas narrativas foram realizadas com autorização dos escritores, dentre eles Moacyr Scliar, João Gilberto Noll, Sérgio Faraco e outros.

Autor: Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Do amigo Sol”: www.neipies.com/do-amigo-sol/

Edição: A. R.

E nós, para onde vamos?

Podemos saber qual o sentido NA vida, na nossa vida. Podemos ter criado um. Mas nunca saberemos o sentido DA vida.

Muitos escreveram que a vida de cada um seria uma jornada heroica: todos os dias, estaríamos a ultrapassar o limite entre o que já conhecemos e o que desconhecemos.

Alguns ultrapassaram limites tais que se tornaram heróis para todos nós, humanos. Lançaram-se no imenso e desconhecido oceano. No imenso e desconhecido cosmos.
Mas, para nós que não enfrentamos o mar e o cosmos, o desconhecido e o mistério estiveram e estão nos acompanhando no cotidiano.

“Acorda trabalhador, acorda!”; era a voz do locutor da emissora que, pelo meu rádio-relógio, me despertava para mais um de meus conhecidos/desconhecidos dias.

Enfim, não vou ficar enumerando o dia a dia de todos nós.
Em resumo, ao longo da vida, vamos conhecendo e fazendo o que precisamos fazer para sobreviver e para viver bem. Tentar viver bem, sendo mais preciso.

Vamos conhecendo um pouco mais de nós mesmos, sabendo quais as nossas habilidades, limitações… Nossas possibilidades, melhor dizendo.

Com as experiências boas e ruins que a vida nos proporciona, vamos “penetrando” mais e mais no mundo real. Conservamos, é verdade, a fantasia de que a vida não terminará. Se esta acabar, haverá outra, a eterna, aquela das religiões.

Mas há momentos em que nos percebemos mortais. E então, temos duas saídas: acreditar em vida após a morte ou não pensar – não pensar mesmo! – na morte, e só pensar na vida.

E seguir tentando viver bem. A propósito, viver bem depende de muitos fatores, entre eles o tripé: (1) estar sempre fazendo alguma coisa; (2) conviver com pessoas com as quais a gente se sente bem; (3) desejar algo.

No filme “Ikiru” (Viver), de Akiro Kurosawa, Watanabe, um homem que trabalhou como burocrata por trinta anos na prefeitura de Tóquio e está com uma doença terminal diz, em um bar, para um estranho: “Eu não posso morrer, pois não sei para que vivi durante todos esses anos”.

Watanabe passa a viver quando: (1) faz todos os contatos na prefeitura para conseguir verba para a reforma de uma pracinha com balanços e brinquedos; (2) convive com as crianças e seus pais; (3) cria um desejo: de que o local fique acolhedor.
Gosto de acrescentar um quarto (4) fator relacionado a uma pergunta sem resposta. Sim, não há graça em saber todas as respostas.

Podemos saber qual o sentido NA vida, na nossa vida. Podemos ter criado um. Mas nunca saberemos o sentido DA vida.

Sendo assim, felizmente, nunca saberemos para onde vamos. Aliás, o título de mais de uma canção é o que coloquei na crônica: “E nós, para onde vamos?”. Que bom que não sabemos. E que bom, de vez em quando que seja, se perguntar sem se obrigar a encontrar a resposta, ou melhor, sem querer resposta alguma: “E nós, para onde vamos?”

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Como é bom ouvir de  vez em quando que seja que nós também somos bons”: www.neipies.com/como-faz-bem-ouvir-de-vez-em-quando-que-seja-que-nos-tambem-somos-bons/

Edição: A. R.

Adeli Sell lança seu primeiro romance

O professor de Literatura e escritor Adeli Sell acaba de lançar seu primeiro romance Os Velhos. Uma publicação do selo Dominus Livros

O livro tem 179 páginas e está à venda na Livraria Isasul, na Rua Riachuelo, 1236. A capa e edição são de Diogo Baigorra. Tem Prefácio da escritora Vera Ione Molina.

Trata-se da história dos irmãos Pedro e Maria em processo de envelhecimento com suas múltiplas idiossincrasias. Uma leitura fluida e profunda ao mesmo tempo, explorando temas como solidão, depressão e esquecimento.

O enredo inclui as relações com filhos que vivem distantes e com os netos que acabam criando laços que os filhos perderam.

As ambientações se dão em Porto Alegre e Nonoai com as personagens centrais, como em Oslo, São Petersburgo e Toronto, com algumas andanças a mais.

Segundo Vera Ione Molina:

O ‘tecido’ usado na confecção deste romance é decorrência das idiossincrasias das personagens Maria e Pedro, portanto, uma obra de leitura fluente e inesquecível, onde tudo é muito bem narrado, mostrado e adequado. Um primeiro romance de sucesso.”

O autor presente realizar alguns lançamentos e rodas de conversas acerca do livro, que serão divulgados em suas redes sociais.

O livro também pode ser adquirido com o autor pelo WhatsApp 51.999335309 e enviado pelos correios.

Adeli Sell é Convidado do site e publica, regularmente, crônicas. Confira: www.neipies.com/author/adeli/

Edição: A. R.

Entre pampas, colmeias e palavras: autor campinense lança dois livros na Academia de Letras

Havia ainda orvalho sobre a grama da Chácara Ludwig quando as primeiras vozes começaram a chegar. Era 25 de julho — Dia do Colono, do Motorista e do Escritor —, essa tríplice data em que o Rio Grande do Sul celebra, no mesmo fôlego, a mão que semeia, a mão que conduz e a mão que escreve. Não poderia haver manhã mais apropriada para uma Festa das Letras.

Ali, todos, sendo recebidos, com pão e sal (símbolos da abundância e hospitalidade e ao som do violino e danças do Grupo Troyka), sob o sol tímido do inverno missioneiro, a Academia de Letras do Noroeste do Rio Grande do Sul — Alenrio — reuniu três grandes regiões em torno da mesma mesa: o Grande Santa Rosa, a Missioneira e a região Celeiro.

Vieram autoridades locais, regionais e estaduais; vieram escritores e poetas de muitos caminhos, alguns de estrada longa, todos movidos pela mesma teimosia de acreditar que a palavra ainda importa. Quatro novos acadêmicos foram empossados, e cada posse teve o peso silencioso de quem sabe que uma cadeira, numa academia, é menos um assento do que um compromisso.

Foi nesse cenário que o escritor campinense Jacinto Anatólio Zabolotsky, ocupante da cadeira nº 15, apresentou ao público duas obras que vinha guardando como quem guarda safra.

História dos Povos Formadores do Rio Grande do Sul

Entre Pampas, Imigrantes e Diásporas, vol. 8 — obra construída em parceria com a UFRGS, a UPF e a Universidade Federal da Fronteira Sul, de Chapecó, para a qual o autor foi convidado a escrever um capítulo. É livro que caminha pelos rastros de quem chegou: os que vieram de barco, os que vieram de carroça, os que trouxeram na bagagem um idioma, um santo e uma saudade. História de pampas e de diásporas, de gente que atravessou oceanos para plantar raiz em terra nova.

As Abelhas — O Eterno Zumbido da Vida

Se o primeiro livro olha para os povos, o segundo olha para as asas. As Abelhas — O Eterno Zumbido da Vida é ciência e encantamento na mesma colmeia: natureza, sustentabilidade, ensinamentos e curiosidades, tudo em harmonia com a vida. Nele, o zumbido deixa de ser ruído de fundo e se revela o que sempre foi — a trilha sonora discreta de tudo o que floresce. Quem o abrir descobrirá que a abelha não é apenas um inseto laborioso: é mestra de organização, de coletividade e de paciência, lições que o mundo dos homens teima em reaprender.

Próximos capítulos

Encerrada a manhã, ficou o gosto de continuidade. As duas obras serão em breve lançadas também em Campina das Missões aos apicultores e comunidade em geral e na Feira do Livro de Santa Rosa — porque livro, como semente e como mel, só cumpre seu destino quando é partilhado.

Fonte: Jornal A Gazeta do povo, 31/07/2026, Campina das Missões/Candido Godoi.

Edição: A. R.

A Igreja e a Inteligência Artificial: reflexões sobre a Encíclica Magnificat Humanitas

“A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto”.

O Papa Leão XIV lançou sua primeira Encíclica: Magnificat Humanitas (Magnífica Humanidade), um documento que joga luz sobre o olhar da Igreja Católica a respeito dos avanços tecnológicos. Ao longo de seus dois mil anos de história, a Igreja sempre acompanhou de perto essa evolução. Exemplo disso foi o pontificado de Nicolau V, Papa na época do lançamento da prensa de Gutenberg, cujo primeiro livro impresso, foi a Bíblia (1455). 

Assista: https://youtu.be/wiHsg0035w0?t=17

Mais tarde, no pontificado de Pio XI, a Igreja uniu forças a Guglielmo Marconi para inaugurar a Rádio Vaticana (1931). Já sob o olhar de São João Paulo II, nasceu o Centro Televisivo Vaticano (CTV) (1983), permitindo a transmissão global das celebrações e eventos da Santa Sé. Fica evidente que a Igreja nunca se posicionou contra o progresso tecnológico, pelo contrário, sempre buscou enxergar nele uma oportunidade de evangelização, sem jamais deixar de alertar sobre seus benefícios e malefícios.

Essa postura histórica se repete agora. Durante o lançamento da encíclica, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, afirmou que, se a Inteligência Artificial emerge em nossos dias, é porque o Espírito Santo reserva algo de benéfico para a sociedade a partir dela. 

Nesse novo documento, Papa Leão XIV nos convida a refletir sobre o uso ético e responsável da Inteligência Artificial. O Pontífice alerta para o risco do isolamento decorrente da busca por um conhecimento puramente individual, que ocorre quando o ser humano adota a IA como sua única e absoluta fonte de saber. A encíclica recorda que fomos feitos para a convivência. O conhecimento autêntico sempre floresceu na partilha social, como na relação clássica entre professor e aluno, um ambiente onde opiniões podem ser debatidas, refutadas e amadurecidas.

O Papa insiste que a IA não deve ser um vetor de solidão, mas sim um instrumento que potencialize os laços comunitários. Afinal, os impactos dessa tecnologia já são visíveis: se por um lado ela automatiza funções no mercado de trabalho, por outro, seu uso indevido já provoca desastres profundos, inclusive em conflitos bélicos.

Diante disso, o grande propósito da Magnificat Humanitas é despertar o senso crítico da sociedade em relação ao uso desmedido da tecnologia. É preciso evitar que a humanidade seja passivamente consumida por uma avalanche de dados. O texto pontua o perigo da desinformação na era da pós-verdade, um cenário onde a emoção se sobrepõe ao fato, fazendo com que o indivíduo absorva conteúdos sem qualquer reflexão.

Assista: https://youtu.be/guzUEy4623w?t=735

Essa preocupação dialoga diretamente com o pensamento de grandes intelectuais contemporâneos. O filósofo Byung-Chul Han, por exemplo, ao diagnosticar a “infocracia”, alerta para o momento em que o fluxo desenfreado de informação assume o lugar da própria democracia, questionando onde fica o papel do ser humano.

Na mesma linha, Zygmunt Bauman, em sua clássica obra Modernidade Líquida, apontou como o ritmo acelerado das tecnologias pode romper valores tradicionais e instituir uma espécie de “ditadura tecnológica”, empurrando o indivíduo para longe da convivência fraterna para a qual foi criado.

Deixo aqui o convite para nos debruçarmos sobre as páginas da Encíclica Magnífica Humanidade. Que possamos criar grupos de estudo, promover trocas de experiências e difundir esse conteúdo, contribuindo ativamente para o amadurecimento do senso crítico e a participação social.

Fonte: https://www.consolata.org.br/a-igreja-e-a-inteligencia-artificial-reflexoes-sobre-a-enciclica-magnificat-humanitas

Autor: Raphael Leal, missionário da Canção Nova, Doutor e Mestre em Comunicação Social e Coordenador de Jornalismo da Faculdade Canção Nova.

Edição: A. R.

Onde a escola encontra o mundo

Com mais de 35 anos de história, o Integrado UPF segue se reinventando junto a uma geração que é protagonista do próprio aprendizado

Ao pedir para uma criança desenhar uma escola, alguns elementos parecem ser fundamentais: salas quadradas com mesas enfileiradas, cartazes nas paredes, o quadro cheio de exercícios. Horários, regras, provas, levantar a mão para fazer perguntas: “Vale nota?”. “É pra copiar?”.

Esses traços ainda fazem parte do imaginário coletivo. Mas esse modelo já não conversa com o perfil dos alunos que chegam às salas de aula no período pós-pandemia. Curiosos, questionadores e mais autônomos, eles desafiam as instituições a redesenhar suas próprias concepções.

Nascidos a partir de 2010, os jovens da chamada geração alpha não conheceram um mundo sem internet, smartphones ou redes sociais. Para eles, não existe fronteira clara entre o online e o offline, nem mesmo dentro da sala de aula. O desafio, que envolve educadores e famílias, é transformar esse contexto hiperconectado em oportunidades de aprendizagem significativas e capazes de cativá-los.

A geração alpha compreende crianças nascidas entre 2010 e 2020. Batizadas com a primeira letra do alfabeto grego, são marcadas, tanto pela cultura digital, quanto pelos impactos da pandemia de Covid-19 ainda nos primeiros anos da vida escolar. Para o professor do curso de Pedagogia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Cláudio Dalbosco, pensar a educação para esse público exige cuidado para não cair em rótulos ou estereótipos.

Então: quem é esse estudante e como ele aprende? Essa é a pergunta que orienta o trabalho pedagógico do Centro de Ensino Médio Integrado UPF. “São crianças que já nasceram imersas no universo digital, aprendem de maneira multimodal, valorizam a interação e demonstram grande sensibilidade emocional”, explica a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental, Juliana Laimer. 

Segundo ela, o modelo tradicional, centrado apenas na exposição de conteúdos, já não responde a esse perfil. “O estudante da geração alpha aprende experimentando e vivenciando experiências que possibilitam atribuir sentido ao que se aprende; portanto, o Integrado busca constantemente analisar as formas e as ações que potencializam as aprendizagens dos estudantes”, diz. 

Um mundo inteiro como sala de aula

No Integrado UPF, essas reflexões não ficam apenas no campo teórico, orientam decisões pedagógicas cotidianas, desde a organização dos espaços até a forma como os conteúdos são apresentados e explorados em sala de aula. 

Um dos principais diferenciais, como relata Juliana, é a organização dos espaços físicos. No Integrado, a aprendizagem não se limita às quatro paredes: pátio, laboratórios, biblioteca e até espaços da cidade passam a fazer parte das atividades. A proposta é transformar diferentes ambientes em oportunidades de investigação e descoberta. “Esses ambientes ampliam as possibilidades de experimentação, promovem conexões entre teoria e prática e tornam o processo educativo mais envolvente e contextualizado”, explica.

A tecnologia, presença constante na rotina desses estudantes, também faz parte das estratégias de ensino. Segundo Juliana, o desafio não é proibir o uso dos dispositivos, mas ensinar a utilizá-los com intencionalidade pedagógica. Para a professora, a tecnologia é um recurso, um meio para aprender, não um fim em si mesma — ela precisa estar a serviço do pensamento e não substituir o processo de construção do conhecimento. Na prática, celulares, computadores e plataformas digitais são incorporados a pesquisas, produções autorais e projetos, sempre com mediação dos professores.

No fim das contas, a escola que esses alunos desenham hoje já não cabe apenas em quatro paredes, fileiras de carteiras e um quadro cheio de exercícios. Ela se espalha pelos pátios, pelos laboratórios, pela cidade e pela própria Universidade — um espaço mais aberto, em que aprender deixa de ser copiar e passa a ser experimentar, perguntar e construir sentido.

Créditos: Ederson de Ávila/ edersonavila@upf.br

Legendas:

Localizada no prédio B6, a Escola realiza atividades em todo o Campus I da UPF

Edição: A. R.

Exposição “Cidade, Cor e Ambiente” revela detalhes invisíveis de Passo Fundo

 Mostra de estreia do fotógrafo Anthony Buqui abre dia 30 de julho na Galeria Estação da Arte, com entrada gratuita, e percorrerá três espaços da cidade até outubro

Em meio à velocidade da vida urbana, a exposição fotográfica Cidade, Cor e Ambiente propõe uma pausa. A primeira mostra individual do fotógrafo e jornalista Anthony Buqui abre no dia 30 de julho às 19h30, na Galeria Estação da Arte, em Passo Fundo, reunindo 28 fotografias que revelam detalhes, cores, formas e atmosferas que frequentemente passam despercebidos na rotina da cidade.

A mostra que estreia próximo a semana em que o município completa seus 169 anos apresenta diferentes camadas do território: os céus, os bairros, os pontos turísticos, os edifícios e as avenidas, mas também os beija-flores, insetos, árvores, sombras e cursos d’água que coexistem com o espaço urbano.

Mais do que registrar paisagens, as fotografias convidam o público a permanecer diante das imagens e observar com atenção aquilo que normalmente é atravessado pela pressa.

“A fotografia consegue transformar cenas aparentemente comuns do cotidiano em experiências de contemplação. Quando permanecemos diante de uma imagem, começamos a descobrir detalhes que normalmente passam despercebidos, especialmente nas relações entre a cor, o espaço e a presença da natureza dentro da cidade”, explica a curadora da exposição, Patrícia Vivian.

A proposta curatorial parte da percepção de que a aceleração do cotidiano reduziu o tempo dedicado à observação. Entre deslocamentos, compromissos e o fluxo constante de imagens, a cidade acaba sendo percebida de maneira fragmentada e superficial.

Nesse contexto, a fotografia assume o papel de interromper o movimento e transformar a paisagem em experiência estética. Cada imagem cria um espaço de permanência, no qual o espectador pode desacelerar, observar a composição e reconhecer elementos que já faziam parte de seu cotidiano, mas permaneciam invisíveis.

Inspirada no pensamento do filósofo francês Paul Virilio, a exposição dialoga com o conceito de poluição dromosférica, relacionado aos efeitos da velocidade sobre a percepção e sobre a experiência humana. Diante de uma cultura que transforma imagens em um fluxo contínuo, a fotografia contemplativa propõe demora, presença e intervalo.

“A fotografia contemplativa é uma forma de arte, mas também um exercício de conexão comigo mesmo e com o ambiente ao meu redor. Somos bombardeados diariamente por notícias, vídeos e milhares de conteúdos digitais, por isso precisamos criar momentos para respirar, desacelerar e nos reconectar com o território. Para mim, fotografar ajuda a acalmar a mente e a perceber detalhes que antes passavam despercebidos”, afirma Anthony, jornalista formado pela UPF, documentarista e produtor cultural.

A exposição é itinerante e percorrerá três espaços: Galeria Estação da Arte (30/07 a 16/08), Museu de Artes Visuais Ruth Schneider – MAVRS/UPF (07/09 a 02/10) e Sesc Passo Fundo (outubro). A visitação é gratuita.

A exposição é realizada com recursos do Funcultura — Fundo Municipal de Cultura de Passo Fundo, e conta com apoio cultural do Grupo Fotosul, responsável pelas molduras e pela impressão fotográfica.

Horários para visitar: Galeria Estação da Arte -Quartas e sextas das 13:30 às 17h

Sábados e domingos das 16h às 19h

Quem é Anthony Buqui:

Anthony Buqui é jornalista formado pela Universidade de Passo Fundo, fotógrafo, documentarista e produtor cultural. Cofundador da Skopo Media, atua no desenvolvimento, na produção e na comunicação de projetos culturais e audiovisuais, com trabalhos voltados à memória e à diversidade.

Em sua trajetória, participou do Projeto Geração Futura Juventudes, do Canal Futura e da Fundação Roberto Marinho, e desenvolveu experiências nas áreas de produção audiovisual e fotografia documental.

Autor Anthony Buqui. Também escreveu e publicou no site “Projeto valoriza terreiros de matriz africana no RS – exposição fotográfica itinerante”: www.neipies.com/projeto-valoriza-terreiros-de-religioes-de-matriz-africana-no-rs-com-exposicao-fotografica-itinerante/

Edição: A. R.

A onda é digital, mas o repuxo é analógico

 Repercutimos uma interessante reflexão sobre a relação do mundo digital no formato e na organização de uma rádio universitária. O autor é Gerson Pont, Gestor de conteúdo da Radio UPF.

Quem é do mar sabe da existência do repuxo, e é bem assim que enxergo o mundo hoje: o digital sendo o visível dominante e, geralmente na invisibilidade, o repuxo nadando contra.

Na vida real, o repuxo está na volta do vinil, da fita k7, das câmeras fotográficas com filme, dos álbuns físicos de fotos e também na formatação de algumas rádios.

E foi inspirado nessa força silenciosa que criamos o conceito da Rádio UPF e também seu slogan, o “feito à mão”.

Porque tudo que fazemos aqui na rádio é mesmo artesanal, da música à notícia, tudo muito pensado e não produzido em série.

No caso das músicas, é bom lembrar que a maioria das emissoras confia em um sofware, deixando de lado a figura do programador, o que não acontece com a gente.

Vale também contar aqui que a inspiração para fazer uma rádio assim veio de um alfaiate que conheci em São Paulo, no turbilhão da rua Augusta, convivendo com os modernos de plantão e ganhando dinheiro com eles. Perguntei como isso acontecia e ele me disse que nada iria substituir a tesoura do alfaiate, pois é ela que arruma a roupa que vem da fábrica sem respeitar a diferença dos corpos.

Na verdade, todo o consumidor é único e é por isso que as novas tendências do varejo apontam para a necessidade do atendimento personalizado. Quem não gosta de ser conhecido pelo nome quando entra num estabelecimento? Nada que nossos avós já não fizessem, com seus caderninhos de anotação.

Pode ser parodoxal, mas a IA pode ajudar e esse caderninho começar a cruzar dados, oferecendo pistas de como atender melhor esse consumidor.

Por fim, e ainda falando de nossa rádio: escolhemos um formato de programação chamado “adulto contemporâneo”. Tudo então é adequado a ele. Além da música e da notícia – as trilhas, vinhetas, formato da locução e as promoções.

Lembrando que segmentar também é caminho para atender melhor, pois é praticamente impossível agradar a todo mundo.

Ficam dois convites: escutar nossa rádio e observar o que, no seu dia a dia, pode ser exemplo de repuxo dentro de um mundo digital.

Leia também: www.neipies.com/o-radio-tambem-educa/

Acesse: www.upf.br/radio/

Gerson Pont, Taís Rizzotto, Cris Jaqueline e Zulmara Colussi – apresentadores do Café Expresso

Com uma seleção musical feita à mão e notícias que impactam a vida da comunidade, o Café Expresso é o principal programa de notícias da Rádio UPF. No ar de segunda a sexta-feira (7h às 9h e das 12h às 14h), apresenta notícias gerais e culturais, previsão do tempo, informações acadêmicas, prestação de serviço e entrevistas com especialistas sobre vários assuntos. São quatro horas diárias de programação local.

Leia também: Localizada na Universidade de Passo Fundo, emissora reinventou a programação e consolidou um formato que une música, jornalismo e prestação de serviço. https://coletiva.net/por-dentro/radio-upf-sintonia-entre-musica-e-noticia/

Autor: Gerson Pont, Gestor de conteúdo da Radio UPF. Este texto foi originalmente publicado na Revista Universo UPF, número 24, maio de 2026.

Edição: A. R.

Do amigo Sol

Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.

A gente morava ali onde o mundo se dividia em duas esquinas de Passo Fundo. De um lado, a uma quadra, o Protásio Alves; do outro, bem na frente, o Conceição. Eu era o filho adotivo, o menino que trazia no sangue um mapa que ninguém sabia ler, mas que minha mãe e minha avó desenhavam com o suor da cozinha do colégio, nos tempos em que o Conceição ainda era internato. Foi ali que elas costuraram minha bolsa de estudos, entre o cheiro de feijão e o vapor das panelas grandes.

Mas aí veio o Sarney. E com o Sarney veio aquela dança louca de moedas que sumiam antes que a gente pudesse aprender o nome delas. Para piorar, resolvi brigar com o filho do médico. Ele me batia sempre. Um dia cansei, reagi, e os irmãos maristas — que de caridade tinham apenas o verniz — decidiram que a heresia de enfrentar a elite da cidade custaria a minha bolsa.

Fui jogado no Protásio Alves. No primeiro dia, a civilidade do Conceição desmoronou: um guri, no pátio, batia nos outros com uma mangueira de borracha preta. Era o caos cinza de uma escola pública no fim dos anos oitenta. Uma loucura mental. Mas o ser humano se adapta ao cimento quente. Fiz amigos.

Aí veio o verão. São Francisco de Assis, a praia de água doce, o sol estalando na pele e meus primos correndo. Minha mãe, com aquele olhar que só as mães que adotam de corpo e alma possuem, parou e olhou para a minha perna esquerda.

— Tá entortando — ela disse, baixinho, como quem descobre uma rachadura no vidro da janela.

De volta a Passo Fundo, começou a via-crúcis. Mais de vinte médicos. Um terrorismo silencioso nos consultórios. Falavam em cortar os nervos, em encurtar a outra perna. Um guri na cidade já tinha perdido a perna por causa daquilo. Mas minha mãe tinha uma teimosia sagrada, dessas que dobram o destino. Disse não para todas as lâminas e serras, até que um médico propôs uma cirurgia experimental: enfiar um pedaço de osso entre a minha tíbia e o perônio.

Deu certo. Mas o preço eram dois meses de gesso e imobilidade no inverno. Como eu era gordo, as muletas eram minhas inimigas. Perdi as aulas, a matemática virou um deserto de números incompreensíveis, e eu rodei de ano. Três invernos seguidos, três cirurgias, o cheiro de flores da janela do quarto, a TV de tubo ligada e as pilhas de gibis.

Num desses invernos, alguns colegas do Protásio foram me visitar. Lembro deles sentados na beira da cama, rindo de piadas que eu não entendia, com os olhos parados, brilhantes e vagos no escuro do quarto. Eu era ingênuo demais para sacar o que era aquela lentidão. Para passar o tempo, comecei a desenhar minhas próprias histórias em quadrinhos. Criava mundos onde as pernas não dobravam e as pessoas não tinham os olhos estáticos.

Anos depois, o desenho virou realidade quando um amigo resolveu se candidatar a vereador. Saí do quarto para a campanha. Era preciso encarar o vento da rua. E foi aí que reencontrei a turma que tinha se perdido no final dos anos oitenta.

A notícia veio como um sussurro de vento sul: estavam quase todos com o “bichinho”. O HIV. Na virada da década, a moda entre os drogados mais velhos era a cocaína injetável. Em algum apartamento em frente a Padaria Cruzeiro, eles compartilharam a mesma seringa. Uma comunhão maldita. Todos se contaminaram. Até o guri que batia nos outros com a mangueira de borracha no Protásio tinha pego, mas ele já estava perdido demais na droga para conseguir socializar.

E no meio de toda aquela poeira, brilhava o Sol.

O Sol tinha cabelos cacheados, longos, uma aura de anjo decaído. Ele pintava à mão as faixas de lona da campanha do nosso candidato. Foi ele quem me levou para o Barril 2000, no Boqueirão. Era um redemoinho. A gente ficava na calçada, bebendo cerveja, tocando violão e gaitas de boca, berrando as letras dos Cascaveletes, do TNT, do The Doors. Uma urgência de viver que parecia pressentir o fim do estoque de oxigênio.

— Onde é que tu anda indo, guri? — minha mãe perguntou um dia.

Antes que eu respondesse, o rádio na cozinha anunciou: um grupo de jovens tinha desenhado uma cruz com gasolina no asfalto perto do Barril 2000 e ateado fogo de madrugada, causando um acidente.

— Não são teus amigos, né? — ela me olhou, desconfiada.

— Claro que não, mãe.e

Era mentira. Eram eles. E o Sol estava lá, rindo, com aqueles cachos imensos onde, às vezes, ele escondia um baseado para mais tarde.

A campanha acabou, quase vencemos. Passamos a nos refugiar no New Kids, rock ao vivo na veia, bebendo até o dia clarear e o céu de Passo Fundo ficar daquela cor de chumbo úmido. Foi numa dessas noites que alguém encostou no meu ombro e soltou:

— O Sol tá com o vírus.

Ele e a Babu. Mas a doença, naqueles tempos de AZT que parecia veneno, não tirava o magnetismo do Sol. No meio da pista, as gurias — grunges de camisas xadrez, hippies de saias longas — cercavam o Sol e a Babu. Abraçavam, beijavam no rosto, num carinho desesperado, mas ninguém transava por medo de se contaminar.

O Sol era da umbanda. Tinha uma regra sagrada: ninguém podia tocar no topo da cabeça dele.

— Se encostar no meu cabelo, o espírito passa — ele avisava, sério, com aqueles olhos imensos.

Quando ele caía de cama e ia para o hospital, a salinha de espera virava uma filial do New Kids. Trinta, quarenta pessoas sentadas no quarto, esperando o Sol voltar a brilhar. E ele voltava. Parecia indestrutível.

Aí a vida deu o seu tranco. Virei jornalista, mudei de rotina, as madrugadas de cerveja barata foram substituídas pelas últimas máquinas de escrever e pelos primeiros computadores na redação. Nos afastamos.

A última vez que vi o Sol, ele passou por mim. Dirigia um carro. Estava bonito, ao lado de uma namorada. Tinham ido morar em Santa Catarina; ela também era soropositiva. Parecia que tinham encontrado um pacto de silêncio e sal com o mar.

Na virada do milênio, dezembro de 1999, eu estava em casa, tenso com o tal do Bug do Milênio, com medo de que os computadores ficassem loucos e o mundo parasse de funcionar à meia-noite.

O mundo não parou. Mas, logo depois, no calor abafado do verão de Passo Fundo, cruzei com um amigo de adolescência na calçada.

— Tu soube? O Sol morreu.

Foi seco. Sem aviso, como o clique de um disjuntor que desliga a luz de um quarto inteiro. A gente sabia que ia acontecer, mas quando acontece, o silêncio que fica é maior do que a nossa capacidade de entender.

Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.

Desconheço se o espírito dele passou para mim. Mas sinto que, desde aquele dia, uma parte daquela luz frenética e perigosa dos anos noventa continua acesa, bem aqui dentro, insistindo em não apagar.

Autor: Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Amazônia Tupã”: www.neipies.com/amazonia-tupa/

Edição: A. R.

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