Ser mãe: e se eu não quiser?

Mulher não deve maternidade a ninguém. Deve a si a vida que escolheu.

Mulher sem filho é árvore sem fruto, alguém havia falado. Ela riu. E tornou-se floresta.

Maternidade é escolha, e nunca será destino. Escolha não feita também pode ser caminho. O ventre é sagrado por si mesmo, não precisa de um berço para ser divino. Um colo pode embalar livro, projeto, madrugada de amigo em prantos, gato com medo de chuva, um hamster comendo floquinhos. E tudo está certo.

Mulher sempre nasce inteira.

Não é metade esperando outra metade pra se completar. Os outros podem estar presentes, nem sempre como filhos. Ela é verbo inteiro: cria ideia, cria empresa, cria silêncio bom dentro de casa no domingo. Cria a si mesma, todo dia, sem manual de instruções e sem palpite de parente no almoço. Se quiser, poderá rodear-se de crianças das amigas, das irmãs, numa escola, numa ONG. E se não quiser, tudo está certo.

Maternidade cansa.

Coragem também é não desejar o cansaço. Ou esse cansaço. E se quiser cansar, pode ser de viajar, de estudar. É coragem dizer “não” para o relógio biológico quando ele vira despertador alheio tocando na sua cabeceira. É coragem entender que instinto não é obrigação, é convite. E convite a gente aceita se quiser. Se quiser se cansar, pode passar um dia cuidando do jardim. Ou cansando de descansar. E se pensar diferente, também está certo.

Tem quem encontre sentido na fralda, na mamadeira, no “mãe” gritado do outro quarto. E tem quem encontre sentido no voo solo, no passaporte carimbado, no eco da própria risada dentro do apartamento vazio. Duas gramáticas diferentes pro mesmo milagre: ser dona de si.

Deixem em paz as mulheres sem filho. Nada de atacá-las com culpa no chá de bebê dos outros. Que não lhes cobrem neto como se fosse boleto vencido. Mulher não deve maternidade a ninguém. Deve a si a vida que escolheu.

E se perguntarem, ela responde sem pedir desculpa: meu M é de mata, de mar, de mistério, de música, de metamorfose.

Minha maternidade é de ideias, de sonhos, de poesia, de livros, de viagens, de justiça, de empatia. Até mesmo de nada, se eu assim desejar.

Não há nenhum filho obrigatório, exceto o respeito por sua própria história e por suas próprias escolhas. A essas coisas, ela dá a luz todos os dias.

Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “Afeto não fere”:  www.neipies.com/afeto-nao-fere/

Edição: A. R.

Entre o Progresso e a Esperança

Caminhar entre o progresso e a esperança é encontrar o equilíbrio: usar a inovação tecnológica e os conhecimentos científicos para resolver problemas concretos, sem perder a essência humana e a capacidade de sonhar.

Vivemos em uma época onde o relógio da história parece girar em velocidade dupla. De um lado, o progresso tecnológico e científico galopa, oferecendo soluções instantâneas, inteligência artificial e a promessa de um futuro automatizado. De outro, a esperança humana, essa força que nos impulsiona a acreditar e agir mesmo diante da incerteza, tenta encontrar seu lugar na era dos algoritmos.

O progresso nos dá conforto, mas nem sempre significado para nossa existência. A esperança nos dá sentido, mas exige paciência constante. O nosso desafio não é escolher entre a máquina e o humano, mas sim como a tecnologia pode servir à dignidade da vida. Quando o progresso é visto como uma ilusão linear que resolve todos os problemas sociais, caímos na armadilha de delegar nosso destino à tecnologia, esquecendo que o progresso real pressupõe articular ciência, arte, ética e humanidade.

A verdadeira esperança não é uma espera ingênua, mas um desafio moral. Ela se traduz na necessidade de “esperançar”, como ensinou Paulo Freire, ou seja, criar, resistir, insistir e ajudar a construir um mundo melhor. Enquanto a automação acelera, a esperança se nutre na valorização do processo, no engajamento criativo e no cuidado com o presente.

Caminhar entre o progresso e a esperança é encontrar o equilíbrio: usar a inovação tecnológica e os conhecimentos científicos para resolver problemas concretos, sem perder a essência humana e a capacidade de sonhar. É buscar um equilíbrio entre as condições materiais e os princípios éticos e espirituais. O futuro não é apenas o que construímos com máquinas, mas o que cultivamos no coração da sociedade.

A propósito, as crianças são mestras em absorver os conhecimentos e princípios do meio que as cercam, definindo com clareza o papel e a importância daqueles com quem convivem. A forma como imaginam proteger seus pais, por exemplo, revela o que consideram mais precioso em suas vidas.

Num bairro mais abastado, arborizado, onde as casas têm muros altos e alarmes, as crianças, com seus brinquedos caros e quartos amplos, ao serem questionadas sobre qual o lugar em que gostariam de guardar seus pais, dizem: “Eu queria guardar meu pai e minha mãe numa casa linda, que não falte nada dentro”. Outro: “Numa casa com tudo do bom e do melhor”. Todas seguem na mesma linha de desejo. Para elas, o amor está associado a conforto, segurança física e à materialização da beleza. Guardar, para elas, é isolar em um cenário perfeito.

Do outro lado da cidade, num bairro sem muito progresso, onde as casas são simples, muitas vezes com espaço apertado, sem alarmes, outras crianças brincam livremente com poucos recursos.

Nascer e viver naquele local lhes dá um sentimento de pertença e segurança, embora haja várias vulnerabilidades. Essas crianças, ao serem perguntadas sobre onde guardariam seus pais, respondem de outro modo: “Eu guardo os meus no meu coração”. Para elas, o coração não é uma metáfora poética, mas o único lugar onde os pais podem estar presentes o tempo todo, sem medo de despejo, sem falta de dinheiro, protegidos contra o mundo e de certa forma imortalizados.

Portanto, umas sonham com paredes resistentes para seus pais; outras, onde há mais carência econômica, o que sobressai são ricos sentimentos e relações de afeto. Enquanto os primeiros pensam que poderiam melhorar o mundo caprichando mais na escola (especialmente na matemática), as outras entendem que podem contribuir com a mudança do mundo ajudando os pais, cuidando dos avós e dos irmãos mais novos, participando da igreja, etc.

No final das contas, ambos os grupos demonstram amor incondicional pelas suas famílias e desejam apenas uma coisa: que aqueles que amam fiquem bem e para sempre. A diferença está na “matéria-prima”: uns destacam os tijolos, outros o afeto. Não significa, porém, que se possa viver sem as condições materiais e tampouco sem cultivar a esperança, construir a paz e exercitar a solidariedade.

Os pais de ambos os lugares têm um único objetivo: garantir o melhor para seus filhos. Cada qual à sua maneira, entre o progresso e a esperança!

*** Vania Aguiar Pinheiro estréia com este texto sua coluna no site. Bem-vinda a este grupo de escritores e escritoras que produzem e publicam reflexões que humanizam: nos tornam melhores seres humanos através do conhecimento crítico e reflexivo.

Autora: Vania Aguiar Pinheiro. Mestra em Ciências Humanas e Neuropsicopedagoga.

Para quê professor?

Nesta matéria, levantamos questões sobre a profissão docente, atualmente tão desvalorizada e questionada pela sociedade. É preciso reconhecer o trabalho docente, dar-lhe o devido reconhecimento social e valorizar economicamente os professores e professoras para que possamos ter, nas nossas escolas, profissionais preparados para os desafios do nosso tempo histórico.

Para quê professor? talvez esta seja a pergunta mais importante que professores e professoras deveriam se fazer e também fazer para a sociedade. Nossa profissão tem uma relevância social e as compreensões sobre nosso papel na sociedade deveriam estar claras para nós, professores e professoras, bem como para o conjunto da sociedade. Não há pleno desenvolvimento de uma nação sem uma educação valorizada e bem estruturada. Não há educação que se sustente com professores acuados e desvalorizados.

***

Ainda no ano de 2007, produzimos, em parceria com a Revista Mundo e Missão, um encarte “Em debate” com esta temática “Para quê professor”, Outubro de 2007, Edição n. 13.

Ousamos, na oportunidade, fazer algumas análises da situação e da realidade dos professores, bem como perguntar a estudantes dos estados do RS, do RJ, de SP e de MG sobre o papel dos professores e professoras. Procuramos, ainda, problematizar o magistério e o seu lugar na sociedade.

Passados 19 anos, ousamos agora afirmar que, apesar de muitas mudanças terem ocorrido na educação, considerando inclusive o contexto pós-pandemia, com a introdução de novas tecnologias no ambiente escolar, os desafios dos professores e professoras continuam muito similares. Consideramos relevante repercutir matéria produzida há quase 20 anos atrás.

***

Afirmávamos, em 2007, que já vivíamos tempos de pouco cuidado com os professores e professoras: “os que cuidam não são cuidados; os que educam não são valorizados”. Reclamávamos o respeito à dignidade docente.

Uma pesquisa da UNESCO, à época, apontava o impacto da violência nos ambientes escolares. 30% dos professores já haviam visto uma arma de fogo na mão de estudantes; 86% admitiam haver violência no seu ambiente de trabalho; mais de 50% afirmaram haver furtos nas escolas onde trabalhavam. Preocupava os professores e professoras da época que a violência conseguiu impor sua lei do silêncio.

Especialistas como Jussara Dutra, da CNTE, e Miriam Abramovay problematizavam como a democratização do acesso refletiu também a violência da sociedade na escola, com despreparo e desamparo dos professores e professoras para lidar com esta situação.

Alguma mudança para os tempos de agora?

O que professoras e professores já reconheciam que eram grandes os desafios de compreender o mundo na sua complexidade e acompanhar/incorporar inovações tecnológicas e de informação nas suas práticas, com a preocupação de que as questões educativas não virassem números, estatísticas ou métricas como desejam muitos gestores educacionais.

Conversas com estudantes

Chamou-nos atenção, no trabalho de escuta e sistematização de conhecimentos com 15 estudantes do Ensino Médio do Instituto Educacional Cecy Leite Costa, a ideia de que a escola é um ponto de encontros, lugar de autorrevelação dos estudantes. Tempo de emancipação dos jovens e preparo para seu futuro, com o lamento dos participantes de que nem todos os estudantes aproveitam esta fase de suas vidas.

Dos 13 depoimentos de estudantes publicados no encarte, sobre “Para quê professor?”, sistematizamos os principais. Estes depoimentos revelaram uma compreensão ampla e relevante da nossa profissão docente e de nosso papel social como professores e professoras, sob o ponto de vista dos estudantes.

“papel limitado da escola/vida ensina mais; além de ensinar, dispostos a nos ajudar; mestre, diferente dos pais, tem os pés no presente; troca de conhecimentos: professor também aprende; prepara para o futuro, acompanha para que abramos asas para voar;

professor ensina a estudar e orienta para aprender; mesmo com tecnologias, escolhem maneiras simples de explicar e responder questões e dúvidas específicas; orienta para pesquisas na internet; professor, na era da tecnologia, ensina a buscar aprendizado e se relacionar em sociedade; professores ensinam mais que matérias, também lições de vida;

 professores podem influenciar positivamente vida pessoal e profissional dos estudantes; diante das mídias globais, papel dos professores é formar caráter e transmitir valores; partindo de informações amplas e genéricas, professores instigam seus estudantes a se tornarem cidadãos analíticos e conscientes”.


Discutimos a questão do “Magistério: profissão ou vocação?”

Soloá Citolin, pedagoga e psicopedagoga, alertava da necessidade de resgatar parte da história do Brasil para discernirmos sobre esta questão.

Lembrou que, com a ampliação do ensino primário, a mão-de-obra escolhida veio das mulheres. “Os governantes deliberaram que a inserção feminina nesse universo seria o ideal como papel social reparador”. Para as mulheres, foi dado um papel de continuidade como senhora do lar, dócil e amorosa, o que, na sua visão, agregou o princípio de vocação, sem o devido reconhecimento profissional.

O livro didático foi pensado para que professores e professoras trabalhassem menos e ensinassem mais. Os professores, assim, eram eximidos de saber o todo que iriam ensinar. Então, por não precisar trabalhar muito, não precisavam ganhar muito.

Recorda, ainda, que foi preciso fazer grandes lutas para o reconhecimento da profissão no Brasil, agregando qualificação, respeito e salário justo. Na sua visão, nem somente vocacionado ou profissionalizado, mas é necessário ter esperança e paixão de ensinar, como caminho da humanização.

Paulo César Carbonari, alerta que talvez as tarefas de ensinar e aprender tenham se tornado “lugar comum”, explicando a indiferença com que a sociedade as trata. Somos feitos de relações: “relação existe quando um interage com outro, não com o mesmo, como qualquer um, como um lugar comum”. Justamente, aprender e ensinar se materializam nas relações. Educação ocorre o tempo todo, em todo lugar e ao longo de toda vida.

Pode ocorrer que os conhecimentos, as linguagens, as técnicas, os conteúdos, muitas vezes, assumem papel central. Sem as mediações, próprias das relações, a própria educação se inviabiliza.

Para Carbonari, a educação é, acima de tudo, mediação para humanização, através de relações autenticamente educativas. “Educação é construção da diferença, é fazer a diferença”. Nela, não há lugar para mesmice, repetição, “lugar comum”.

Para Nei Alberto Pies, a velocidade das informações, na atualidade, dá-nos a sensação de que nada é duradouro, que não são mais as ideias que podem resolver os grandes problemas da humanidade. Mas ainda são os bons pensamentos que movem o mundo.

Parece-nos, então, fundamental o papel do professor como um ser em relação, mediando a construção do conhecimento. O professor e a escola constroem condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponível a todos. A orientação do estudo, o diálogo e a convivência transformam informações em conhecimento. E o conhecimento gera instrumentos que permitem a todos uma maior compreensão de mundo e, consequentemente, uma melhor intervenção nele. Sozinhos e isolados, nossos conhecimentos se perdem”.

***

Você que chegou até aqui, também acha, como a gente, que a pergunta “Para quê Professor?” ainda é muito atual?

Que os maiores desafios, ao longo destes 19 anos, se complexificaram ainda mais sob a ótica dos professores? Que muita coisa mudou sob a ótica dos estudantes, sobretudo a perda de seus desejos de aprender a partir da escola? Que precisamos continuar compreendendo o mundo, para nele melhor intervir? Que as novas tecnologias na educação ampliaram muito o massacre burocrático a que historicamente se submetem professores e professoras? Que nossa profissão continua relevante, mas que a sociedade pouco se importa com isso, por isso nos desqualifica, ofende e até oprime?

Tantas perguntas e questões, esperando respostas, que devem nutridas de muita esperança e muita luta!

No dia 23/10/2014, O CMP Sindicato realizou seu primeiro Congresso de Professores Municipais, temática: Para que Professor? Foi produzida uma Cartilha de sistematização do trabalho deste Congresso, que abordou temas como “A organização como tarefa da educação”, “Plano Nacional de Educação”, “Magistério: um rosto feminino” e “Ética e relações de poder na escola”.

Educador Rubem Alves (1933–2014) já nos ensinava a esperançar!

Assista: https://www.youtube.com/shorts/IMvUp0TgHZA?t=2&feature=share

Autor: Nei Alberto Pies. Também escreveu e publicou no site “Escolas são espaços para a gente ser feliz”: www.neipies.com/escolas-sao-espacos-para-a-gente-ser-feliz/

Edição: A. R.

O prédio de cem andares

Chegamos à outra ponta do problema: o excesso de informação e de acesso. Impactada pelos cem andares desse edifício e por suas incontáveis divisões e departamentos, a geração mais nova sente-se acuada e amedrontada. Restringe, muitas vezes, seu perambular não apenas ao primeiro andar, mas a um canto diminuto que permanece na entrada, ali onde o algoritmo ilumina, tal como um porteiro que (des)orienta os visitantes.

Imagine um prédio de cem andares. Em cada andar, todos os dias, é servido um banquete. Você é um dos convidados e tem passe livre para qualquer andar, podendo se servir o que desejar, sempre que quiser.

Os pratos são os mais variados: comida brasileira, árabe, portuguesa, japonesa, húngara, francesa, argentina, enfim — infinitas porções da culinária do mundo inteiro!

Você passaria a vida toda apenas no primeiro piso, ou exploraria os outros noventa e nove andares, feliz por poder experimentar tantas e diferentes refeições?

Troque, agora, as refeições pelo acesso à cultura que a internet oferece.

​Se as redes sociais têm alguma utilidade em termos educacionais, é a de proporcionar, de forma mais barata, o acesso a esse enorme patrimônio cultural. Como exemplo, cito a produção da indústria fonográfica.

​Há milhões de discos disponíveis no YouTube. Alguém que deseje diversificar sua audição musical não encontrará dificuldade em explorar quase qualquer música gravada nos últimos cem anos. Se tentássemos fazer isso na década de 1980, além das barreiras logísticas e físicas, teríamos um tremendo custo financeiro.

​E aí chegamos à outra ponta do problema: o excesso de informação e de acesso. Impactada pelos cem andares desse edifício e por suas incontáveis divisões e departamentos, a geração mais nova sente-se acuada e amedrontada. Restringe, muitas vezes, seu perambular não apenas ao primeiro andar, mas a um canto diminuto ou — o que é ainda mais comum — permanece na entrada, ali onde o algoritmo ilumina, tal como um porteiro que (des)orienta os visitantes.

Restringir-se a esse diminuto pedaço da cultura, seja na música, no cinema, na literatura, em cursos ou tantas outras possibilidades, é colapsar tudo o que a internet prometeu em termos de liberdade de pensamento e desenvolvimento coletivo.

Há, ainda, uma possibilidade mais bizarra: não apenas restringir-se a um espaço diminuto logo na entrada da construção, mas também negar a altura e a extensão do prédio. Os negacionistas reúnem-se em turmas e nichos, escondidos nas sombras do hall de entrada da cultura. Negam-se a perceber o restante do edifício.

​Castrar a própria experiência é não apenas um ato de covardia, mas também algo que tende a prejudicar a sociedade inteira.

​Não fique apenas no primeiro andar. Caminhe. Visite lugares que nem suspeitava que existiam. Escute. Veja. Suba. Uma vida não vivida é sempre algo muito triste e com pouca redenção. Isso vale para a vida de fora tanto quanto para a digital. Os pratos estão à mesa. Sirva-se!

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

Bernadete Dalmolin – Cidadã Honorária de Passo Fundo, RS

Repercutimos a cerimônia de Concessão de Cidadã Honorária que a Câmara Municipal de Passo Fundo concedeu à professora Bernadete Dalmolin, reitora da UPF (Universidade de Passo Fundo). Foi uma noite maravilhosa, de casa cheia, de muita emoção e de justo reconhecimento a esta professora que adotou Passo Fundo como sua cidade.

“Senhor Presidente Luizinho Valendorf, Sr. Giovani Corralo – Representando aqui nosso prefeito Pedro Almeida, Senhoras e Senhores Vereadores, Autoridades aqui presentes já nominadas pelo protocolo, Comunidade de Passo Fundo, Magnífica reitora Bernadete, seu esposo Dr. Jorge Wincler, seus familiares, amigos e todos os convidados que aqui estão presentes.

Hoje é um daqueles momentos em que a tribuna ganha um significado diferente. Aqui acontecem votações importantes. Acontecem debates necessários. Mas também existem dias como hoje… em que a gente para tudo para reconhecer uma trajetória que honra a nossa cidade.

A Professora Doutora Bernadete Maria Dalmolin não nasceu em Passo Fundo. Ela nasceu em Caiçara, uma pequena cidade lá no Noroeste do estado. Mas fez uma escolha que, com o tempo, virou pertencimento.

No início da década de 90, depois de se formar em Enfermagem e Obstetrícia na Universidade Federal de Pelotas, escolheu viver aqui. Escolheu trabalhar aqui, em 1992, como professora da nossa UPF. E mesmo, ainda sem saber, escolheu construir sua história junto com a história da nossa cidade. E quando alguém faz isso de verdade, professora Bernadete, a cidade também responde. E é por isso que hoje nós estamos te concedendo esse título, de Cidadã Honorária de Passo Fundo.

Esse título é um gesto formal que não é só meu… e que apesar de aprovado por unanimidade pelos vereadores e vereadoras dessa casa, ele também não é só da Câmara de Vereadores. É um gesto que carrega algo muito maior, é uma homenagem de toda nossa cidade.

Esse título reconhece pessoas que ajudaram a construir Passo Fundo, mesmo tendo vindo de fora. Gente que fez diferença de verdade na vida da cidade. No fim das contas, é a forma mais direta que o município tem de dizer “Você é uma de nós.” E a trajetória da reitora Bernadete sustenta isso com muita clareza.

Enfermeira de formação, com especialidade em saúde mental, mestre e doutora em Saúde Pública, com MBA em Gestão do Ensino Superior… são décadas dedicadas à saúde pública, à educação, à formação de profissionais, à gestão e à produção de conhecimento. E quando a gente fala em educação em Passo Fundo, é impossível não falar da nossa Universidade de Passo Fundo.

A universidade é um dos grandes símbolos da nossa cidade. Assim como a Praça da Cuia, Assim como o Parque da Gare, onde a vida acontece, assim como a Catedral, como tantos outros pontos de referência que nossa cidade possui. A UPF também é isso, com profissionais formados pela UPF em todos os cantos do Brasil. A UPF é movimento, formação e oportunidade.

E aqui eu quero fazer um registro pessoal: eu também tenho orgulho de ser filho da UPF. Lá me formei em Administração, na antiga FEAC, segui estudando, fiz pós-graduação… e vivi intensamente aquele ambiente, fiz estágio por muitos anos na empresa júnior, em um projeto de extensão, na época que a Professora Bernadete era vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários.

Lá também tive a oportunidade de começar a desenvolver algo que hoje faz parte da minha vida pública: a comunicação. E assim como eu, magnífica reitora, muita gente que passou pela UPF leva um pedaço da universidade consigo. Leva as aulas, leva os professores, leva as experiências. E leva também, mesmo as vezes sem perceber, o resultado do trabalho de quem está na liderança.

Uma universidade não se sustenta sozinha. Ela precisa de direção, de decisões, de responsabilidade. E é nesse ponto que a professora Bernadete faz diferença. Assumiu a reitoria em um período desafiador para o ensino superior. Um momento de mudanças, de decisões que não eram simples. De pandemia, de grande concorrência… de incertezas, E conduziu a universidade com equilíbrio, seriedade e, principalmente, compromisso com a comunidade. Porque isso está na sua essência, ser uma universidade comunitária, da nossa comunidade.

E aqui tem algo que precisa ser dito com todas as letras: em 2018, a professora Bernadete foi a primeira mulher a assumir a reitoria da Universidade de Passo Fundo, em quase 60 anos de história, completando agora em 2026 oito anos à frente da Reitoria da Universidade. Isso não é um detalhe, porque isso abre caminho, inspira e muda a forma como muita gente passa a enxergar os espaços de liderança.

Leia também: www.neipies.com/bernadete-dalmolin-mulher-com-ideias-inovadoras-para-a-upf/

Quem vive a universidade sabe que tem muito mais ali no dia a dia. A Bernadete construiu uma caminhada com consistência. Na sala de aula, na pesquisa, na gestão. Sempre muito próxima das pessoas. Muito inteligente, decidida, e sempre muito simpática. E isso deixa marca na universidade, na cidade e na vida de quem passou por ali.

Toda trajetória profissional tem uma base, tem valores e tem escolhas que começam muito antes de qualquer cargo. E hoje, essa homenagem não é só para a Bernadete reitora. É também para a Bernadete Maria, a Bernadete mulher, a Bernadete Mãe. Casada com o médico Dr. Jorge Winkler, é mãe de dois filhos, o Matheus e o Felipe, também médicos.

Essa Bernadete é a pessoa que sustenta tudo isso. Porque é ali, dentro de casa, que nascem os valores que depois aparecem na forma de liderar, de ensinar, de cuidar. E isso aparece na trajetória dela.

Magnífica Reitora Bernadete, Passo Fundo é feita de lugares que contam a nossa história. Mas, no fundo, ela é feita de pessoas. De gente que escolhe a nossa cidade. Que escolhe ficar aqui, que aqui constrói, que contribui para o nosso desenvolvimento como cidade. E a senhora fez isso ao longo de toda a sua vida.

A senhora é inspiração. A senhora é mulher. A senhora é liderança. A senhora é exemplo pra todos nós. Exemplo de uma mulher que traz no corpo a marca Maria, Maria do sonho, da força, da raça, da gana, da estranha mania de ter fé na vida. E a partir de hoje… Passo Fundo te acolhe de braços abertos. A senhora é, oficialmente e para sempre, uma verdadeira cidadã de Passo Fundo.

Parabéns!! Muito obrigado!”

Fotos: Capa da matéria: Rádio Uirapuru/ Foto dos vereadores em homenagem: Comunicação Social CMPF (Câmara dos Vereadores de Passo Fundo)

Autor: Felipe Manfroi, vereador de Passo Fundo proponente deste título “Cidadã Honorária” a Bernadete Dalmolin

Edição: A. R.

A terra aceita tudo! E a arrogância humana se desfaz rapidamente: em poeira e esquecimento.

“Porque tu és pó e ao pó tornarás”. ¹

Temos de nos lembrar o tempo todo de nosso destino!

Mas para quem não apertou o seu piloto automático, ainda, todas as manhãs, ao pôr o pé no chão, que seja o direito, vai, ali mesmo vale lembrar que ao final de tudo, será somente a terra; ou o que sobrar de seu apetite.

Caso não sirva de conforto pessoal, este recado seria bom chegar a todo e qualquer prepotente, que, revestido de alguma riqueza ou poder temporários, esqueça que em um tempo curtíssimo, estará ‘descansando’ entre o que restar do seu caixão e seus ossos.

É o destino?  Para muitos de nós, apenas o recomeço.  Tomara! Pois quem crê é mais feliz.

Mas que seja um recomeço sem hierarquias, sem exclusão, sem preferências. Sem supervisores ou chefes, melhor ainda.

Nesta dimensão, onde os cartórios não podem privilegiar poderosos ou seus familiares, onde governos não podem direcionar ganhos aos previamente escolhidos, nesta nova seara, espera-se que tudo seja justiçado, como que em uma grande possibilidade de redenção espiritual…

Seria maravilhoso!

Mas até chegarmos nesta grandeza, a terra há de nos devorar por inteiro.

Portanto, em todas as situações de humilhação, indiferença ou mesmo diante das pequenas afrontas sofridas no seu dia a dia, tente lembrar ao seu inquisidor, seu chefe soberbo, até o seu diretor bajulador e incompetente, sim, lembre a todos de como a terra e seus vermes devoram, rapidamente, todas as pretensões humanas.

Bons e maus, líderes e oprimidos, os donos do mundo, os que mal sobrevivem, ricaços e humildes, os bem-intencionados ou criminosos, ateus e carolas, todos… A terra os dissipará.

Daí que pela manhã, deveríamos ler nas paredes de nossos quartos, o que hoje poderá ser o seu último protesto, sua última reclamação e, parecendo de caso pensado, a hora de seu reencontro com a terra.

Ela mesma, que suporta nossas cuspidas e dejetos, que sofre todos os dias com as enxadadas e sulcos abertos por nossas máquinas, sim, ela que sempre não se importa com nossas blasfêmias ecológicas, será quem nos receberá.

Quanta ilusão até o encontro!

Temos tratado o chão em que pisamos com desrespeito e indiferença. Alguém nos disse que tudo se regenera, tudo volta a nascer e o ciclo se faz eterno.  Talvez, por isso mesmo, desprezamos cada vez mais nossa casa, este pátio universal no qual nascemos e vivemos aos tropeços.

Como ela nos devolve em flores e plantas, as imundícies que nela jogamos, somos instados a pensar que sempre será assim.

Será mesmo?

Em 2025, a sobrecarga da Terra se esgotou em julho.  A sua capacidade de renovação foi posta à prova, “e recursos de um ano inteiro foram esgotados em sete meses”.²

Leia também: www.neipies.com/dia-da-sobrecarga-do-planeta/

Está claro, para quem tem olhos para ver, que há um esgotamento generalizado nas possibilidades geradores de vida no planeta.  Em todas as áreas: há mudanças repentinas, ondas de calor e enchentes sem precedentes. Estamos em maio e nos parece janeiro. Algo está errado!

O próprio solo está se degradando cada vez mais, com o seu uso intensivo, sem pausas, para a sua própria recuperação.

Por esses dias, no lugar onde foram esquecidos ossinhos de sabiás, asinhas de borboletas que encerraram seu ciclo, e, claro, aonde as porcarias humanas perdem seu valor, ali mesmo, sob esta terra esplendorosa ainda nascem margaridas e hibiscos.

Nem precisa plantar. O vento e os poucos pássaros que ainda vemos espalham sementes pelos cantos.  O resto a terra faz. Mas a pergunta atordoante que temos de nos fazer é: até quando?

Em qual mês, nos próximos anos, a Terra se esgotará com a insistência que temos em destruí-la?  Até que o solo empobreça de tal forma que somente esqueletos humanos sejam admirados?

Mas parece haver uma vingança a caminho!

Não que a desejássemos.  Mas esta mesma terra desprezada e no rumo do cansaço eterno conta com um grande e eterno aliado: o tempo. Ele é quem se encarrega de nos extinguir; a terra só nos devora.

Por mais que a desprezemos é por ela mesma que seremos todos consumidos; sem pressa.

Por isso ela se ri, decerto; de si mesma e de todos nós, seus agressores. Hoje, até aceita nossos lixos e cusparadas.  Amanhã, estaremos em seu ventre, ingeridos e aniquilados por seus parceiros da eternidade:  os vermes.

Não deixa de ser uma pequena represália, pensando melhor; a terra desprezada engole seu ofensor.

Quando saímos de um crematório, poderemos rir, igualmente. O próprio ser humano inventou um sistema que abrevia a fome da terra pela inutilidade humana.  Descobriu um fogo, potente, que pode triturar seus corpos e apressar o processo.  Vamos pensar todos, pois é o cumprimento do verso de Gênesis; ao pó voltarás, mas agora espalhado pela própria mão humana.  A terra até agradece, penso, pela solução inesperada.

Envie esta reflexão, anonimamente, que seja, para todo estúpido em seu caminho, que teima em imaginar ser mais importante que um parasita subterrâneo, que o fará virar almoço e jantar de bactérias e fungos.

Creia-me! A arrogância humana sempre esteve por trás da destruição que vemos com nossas árvores, rios e pássaros. A certeza de que é superior em tudo, reforça a sua vaidade, altivez e o extermínio de sua própria casa.

Até quando?

Referências:

  1. Gênesis 3:19
  2. Earth Overshoot Day

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

Síndrome de Burnout

Qualquer profissional que labuta com exaustão e estresse, excesso de cobrança, por parte de si mesmo ou por parte de outros, principalmente lidando com público, está sujeito a apresentar essa Síndrome.

Recentemente os jornais noticiaram que determinado profissional estava com a Síndrome de Burnout. Afinal, o que é a Síndrome de Burnout?

Primeiro, é importante definir que Síndrome é um conjunto de sinais e sintomas.   Quando esses sinais e sintomas se repetem, constantemente, ou perduram, temos uma síndrome. Exemplos mais conhecidos é a Síndrome de Down, a Síndrome do Túnel do Carpo, a Síndrome Guillain-Barré, a Síndrome de Asperger, a Síndrome de Burnout, etc.   

A síndrome pode ter origem congênita, como a de Down, isto é, vem na cadeia genética, ou ser adquirida, por esforço físico excessivo, como a do Túnel do Carpo, ou por excesso de esforço mental, como a de Burnout.  Pode se apresentar com sintomas de ordem mental ou sintomas de ordem orgânica, ou uma mescla de ambos. Cada síndrome tem seus sinais e seus sintomas, de acordo com o órgão ou os órgãos afetados.

Aqui vamos falar da Síndrome de Burnout. Em inglês, to burn out, esgotar-se, queimar de dentro para fora. Essa síndrome, como todas as demais, se apresenta com vários sinais e sintomas.

Nem todos os pacientes diagnosticados com a síndrome, apresentam todos e os mesmos os sintomas, repito. Esta foi descrita em 1974, por um psicanalista alemão Herbert Freudenberger, e acomete profissionais de qualquer área. Contudo, predomina em profissionais que desenvolvem trabalhos estressantes, repetidos, e com poucos momentos de descanso e lazer. Via de regra, esta síndrome está ligada à vida profissional, é um esgotamento físico ou mental, pelo trabalho.

A gênese da síndrome traz algo paradoxal.

O próprio paciente se esgota, buscando alto grau de desempenho, desejando ser perfeito e ser o melhor naquilo que faz. Ou, esse esgotamento pode acontecer por exigência excessiva ou por cobrança de metas no trabalho, por assédio moral, em ambiente de medo e de punição constante, onde o profissional desempenha o seu labor.

Lembro, no ano de 2009 ou 2010, fazendo parte do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), participei do julgamento de um colega. Ele havia cometido um erro médico, por imprudência, numa cirurgia, embora, por vários anos de profissão, sua vida profissional tenha sido sempre de extremo cuidado e correção. O diagnóstico foi excesso de trabalho, exaustão e falta de momentos de repouso, de descanso.  

Mas, foi condenado, e penalizado com uma pena administrativa. E era a Síndrome de Burnout. Não foi punido por ter a síndrome, mas porque cometeu um erro em consequência dela. O Conselho Federal de Medicina, a par disso, constituiu uma comissão, com a finalidade de avaliar e bem conduzir sempre que surge suspeita da síndrome na classe médica.

Mas não apenas médicos podem apresentar a Síndrome de Burnout. A literatura fala que em professores, enfermeiros, bombeiros, policiais, advogados, operários de grandes indústrias e comércio, e outros, isso tem acontecido. E também profissionais de trabalhos braçais, aí envolvendo mais a parte orgânica, física.

Qualquer profissional que labuta com exaustão e estresse, excesso de cobrança, por parte de si mesmo ou por parte de outros, principalmente lidando com público, está sujeito a apresentar essa Síndrome.

E, quais são os sinais e sintomas?

Reforço que nem sempre são iguais para todos, e nem sempre aprecem todos eles. Desânimo, erros na execução do trabalho, que antes fazia muito bem, irritabilidade e desavenças com colegas, ansiedade, cansaço extremo, perturbações do sono, dificuldade de concentração, dores de cabeça e musculares, tremores, tontura, falta de ar, oscilações de humor, são sintomas bastante encontrados.

Mas, antes de qualquer coisa, muita cautela ao se diagnosticar ou diagnosticar alguém como portador da Síndrome de Burnout. Temos ótimos médicos e psicólogos que podem fazer isso. E, se firmado o diagnóstico, o tratamento não é difícil.

Autor: Dr. Alberi Grando. Médico. Cremers 6430. Saúde Pública. Abril 2026. Leia também: www.neipies.com/o-sus-sob-olhar-de-um-medico/

Edição: A. R.

Olha o Super El Niño aí, gente!

A força da intensidade do El Niño não significa, necessariamente, quando forte ou muito forte, que os impactos no clima serão severos; mas, sim, que é mais provável que esse tipo de impacto extremo possa ocorrer. Além de, não se ignorar, que previsão de El Niño é uma coisa e previsão de impacto de El Niño é outra.

Um olhar, por mais superficial que seja, nos títulos das manchetes dos veículos de comunicação, no Brasil e no exterior, que alardeiam a volta de El Niño em 2026 não escapa, até pelo enredo que é posto, invariavelmente trágico, da conclusão inevitável de similaridade com o famoso grito de guerra imortalizado pelo Neguinho da Beija-Flor (Olha a Beija-Flor aí, gente! Chora, cavaco!) quando a famosa Escola de Samba de Nilópolis entrava para desfilar na passarela do samba, no Rio de Janeiro.

Essa é a melhor forma de lidar com El Niño? Será que convivendo, conscientes pelo menos, com a presença de El Niño e seus impactos no mundo, desde 1983, ainda não estamos preparados para o entendimento desse fenômeno e fazer bom uso das previsões climáticas? Afinal, o papel dos veículos comunicação, nas suas mais diversas mídias, é esse mesmo? O quê, de fato, está sendo previsto? Diante do cenário ora posto, o quê fazer? E o quê não fazer?

Indiscutivelmente, o adjetivo “Super” El Niño e o rótulo de El Niño Godzilla, que têm aparecido nas manchetes, para muita gente, que vive em regiões afetadas, seja por enchentes ou por secas severas, ou que teve a sua atividade econômica, caso da agricultura, impactada, em anos de El Niño, podem ser fontes de ansiedade e dar azo a tomada de decisões equivocadas.

O adjetivo “Super”, embora seja uma categorização usada na comunidade científica desde que foi criada por Li-Ciao Hong, no trabalho de pesquisa que deu origem à sua tese de doutorado pela Universidade Nacional de Taiwan, em Taipei, posteriormente publicado na revista Geophysical Research Letters (Geophys. Res. Lett., 41, 2142-2149, 2014, doi:10.1002/2014GL059370), sob o título “A Southern Hemisphere booster of super El Niño”, e, em 2016, no formato de livro, apenas como “Super El Niño”, na série de teses destaques da Springer (Recognizing Outstanding Ph.D. Research), pode causar confusão de entendimento na maioria das pessoas.

O que Li-Ciao Hong identificou foi uma classe distinta de eventos El Niños, que, além da magnitude da anomalia de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial e dos impactos no clima global, é marcada por um padrão de circulação atmosférica no Hemisfério Sul, nos baixos níveis, que intensifica os ventos de Oeste sobre o Oceano Pacífico. Nessa categoria, de Super El Niños, o autor citado, incluiu os eventos de 1972/73, 1982/83 e 1997/98, não casualmente os mais fortes do século XX. Eis uma das fontes de preocupação quando se fala em “Super” El Niño! E, ainda, sem ignorar a tragédia climática, de memória recente e de triste lembrança, a enchente de abril/maio de 2024, no Sul do Brasil, que não pode ser dissociada do El Niño 2023/2024.

A categorização de El Niños, mais adotada atualmente (NOAA-Climate Prediction Center), inclui, em função das anomalias de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial (Região Niño 3.4/ Relative Oceanic Niño Index – RONI), eventos de intensidade fraca (0,5 ºC ≤ Index RONI <1,0 ºC); moderada (1,0 ºC ≤ Index RONI <1,5 ºC); forte (1,5 ºC ≤ Index RONI <2,0 ºC); e muito forte (Index RONI ≥ 2,0 ºC).

A força da intensidade do El Niño não significa, necessariamente, quando forte ou muito forte, que os impactos no clima serão severos; mas, sim, que é mais provável que esse tipo de impacto extremo possa ocorrer. Além de, não se ignorar, que previsão de El Niño é uma coisa e previsão de impacto de El Niño é outra.

Outra particularidade, não irrelevante, é que a previsão de El Niño feita no início do outono do Hemisférios Sul carrega maior incerteza, no quesito intensidade, quando comparada com as de início de inverno. Todavia, as previsões do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) sinalizam, claramente, a tendência que teremos um El Niño e esse, mesmo que não venha a ser um “Super” El Niño, poderá ser um evento forte.

Esse El Niño deverá se estabelecer no segundo semestre de 2026 e atingir seu pico no começo de 2027. O Centro de Previsão Climática dos EUA (NOAA-Climate Prediction Center) também é taxativo na volta de E Niño no segundo semestre de 2026.

Merece ser destacado ainda, que, pela magnitude da temperatura das águas subsuperficiais que ora migram, via as chamadas Ondas de Kelvin, rumo a costa Oeste da América do Sul, na faixa de 300 m de profundidade no Oceano Pacífico, atingiram, no começo de abril, uma anomalia de 1,6 ºC. Esse fato, somado às anomalias de vento de Oeste na zona equatorial do Oceano Pacífico, reforçando o processo, indica que; SIM, é possível a configuração de um evento El Niño forte até o final do ano.

Apesar de alguns negarem com veemência, inclusive que o processo esteja em curso, em tempos de aquecimento global, a frequência, a intensidade e a dimensão dos impactos causados por El Niño não podem ser dissociadas.

O El Niño 2026/2027 será um “Super” El Niño? Logo, logo saberemos! Então, o quê fazer? Buscar informações confiáveis, descartar sensacionalismos de ocasião e montar, de acordo com a sua atividade econômica, uma estratégia de gestão integrada de riscos. Não é a primeira e nem será a última vez que enfrentaremos um El Niño.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site De Ray Bradbury Edward Lorenz, o efeito borboleta”: www.neipies.com/de-ray-bradbury-a-edward-lorenz-o-efeito-borboleta/

Edição: A. R.

Amores difíceis, mas não muito

Drama, 90′. Adolescente, que já vive seus dramas, começa a tomar consciência dos amores difíceis dos adultos ao participar de um grupo experimental sobre o tema. Amores difíceis, mas não muito.

Após sessões com grande público no cinema, agora dá para você assistir em sua casa pelo YouTube Canal Jorge Salton.

Acesse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=obPePyc3W_0

Foto: arquivo pessoal/Divulgação

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Mesmo na idade que tenho preciso de um farol”: www.neipies.com/mesmo-na-idade-que-tenho-preciso-de-um-farol/

Edição: A. R.

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