Os migrantes e as leis além fronteiras  

Como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todo ser humano, em qualquer lugar que esteja, é sujeito de seus direitos fundamentais. Diante disso, aos Estados compete garanti-los. À sociedade cabe superar o preconceito diário, o racismo estrutural, a xenofobia e todas as formas de discriminação em virtude de cor, religião, origem geográfica e condição social.

Para migrantes, estar sob a lei pode significar a existência de legislações rígidas de controle de fronteiras ou de permanência no país de destino. Estar na lei configura a ideia de poder usufruir de direitos previstos em lei, bem como cumprir com os deveres por ela estabelecidos. Já estar fora da lei pode não só traduzir atitudes de infração às leis existentes, mas também não ter direitos assegurados por elas. E muitos ainda assim estão, com direitos não afirmados legalmente. E mesmo quando estão previstos em lei nem sempre estão garantidos na prática.

No que diz respeito à efetiva acolhida, integração, valorização da interculturalidade, superação de preconceitos, xenofobia e práticas discriminatórias há um longo caminho a ser percorrido no Brasil. Em alguns contextos culturais, os desafios são ainda maiores.

Para enfrentar processos históricos de racismo, colonialismo cultural e violências simbólicas, foi criada a Lei do Racismo (nº 7.716/1989) e a Lei nº 14.532/2023, que equipara a injúria racial com o crime do racismo, tornando ambos imprescritíveis e inafiançáveis. A fim de tornar obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e indígena, promovendo a educação das relações étnico-raciais, foram criadas as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. São marcos legais importantes, mas ainda insuficientes.

Há necessidade de um trabalho permanente, sério e em todos os espaços para avançarmos na direção de uma sociedade que não seja só amplamente miscigenada, mas também profundamente democrática e respeitadora das diferenças.   

A Lei de Migração (nº 13.445), em vigor no país, foi sancionada dia 24 de maio de 2017, assegurando diversos direitos, com ênfase aos direitos humanos e combate à xenofobia. Contudo, embora com alguns avanços, a referida lei não garantiu a anistia dos estrangeiros em situação irregular, o que foi amplamente criticado pela Associação Nacional dos Estrangeiros e Imigrantes no Brasil (ANEIB). A nova Lei de Migração foi motivada pelo aumento e pela diversificação dos fluxos migratórios a partir da primeira década do presente século. Realidade que se tornou ainda mais expressiva com entrada em massa de venezuelanos no Brasil a partir de 2016.

Anterior à Lei de Migração havia o Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), com marcas de autoritarismo próprio do regime de ditadura militar. O Estatuto estabelecia uma seletividade no que tange à permissão de ingresso de estrangeiros no país e rigorosas restrições à sua permanência. Embora com alguns artigos modificados ao longo da sua vigência, no geral a legislação via os estrangeiros com suspeita e como ameaça à soberania nacional. Mais proibia e restringia direitos do que os assegurava.

Por sua vez, o artigo 3º, inciso XI da Lei 13.445/2017 prevê acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social.

O tema da moradia, em especial, como direito aos migrantes é abordado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na 41ª Semana do Migrante, celebrada de 14 a 21 de junho de 2026. Se é um direito de direito, será também de fato? As inúmeras situações que vemos todos os dias dão conta de que há muitos migrantes sem acesso a esse e outros direitos básicos. Sim, a questão é bem complexa. E é exatamente por isso que precisa ser ainda mais debatida a fim de buscar resoluções justas e adequadas.

Como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todo ser humano, em qualquer lugar que esteja, é sujeito de seus direitos fundamentais. Diante disso, aos Estados compete garanti-los. À sociedade cabe superar o preconceito diário, o racismo estrutural, a xenofobia e todas as formas de discriminação em virtude de cor, religião, origem geográfica e condição social.

É dever de todos também promover e praticar o respeito à diversidade, a integração social e os direitos humanos para todos os humanos.

Autora: Vania Aguiar Pinheiro. Mestra em Ciências Humanas, com pesquisa sobre imigração contemporânea. Também escreveu e publicou no site “Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista”: www.neipies.com/feminicidio-o-preco-de-ser-mulher-em-um-mundo-machista/

Edição: A. R.

Por um Congresso amigo do povo

Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância.

A política é construção de convivências para promover as condições necessárias para que os diversos se encontrem para realizar em comum. Mas, ela também pode abrir a possibilidades que promovam exatamente o contrário disso, particularmente quando for capturada por quem a faz render-se a interesses privatistas, corporativos.

No primeiro caso teremos a produção de direitos; no segundo, a afirmação de privilégios. No primeiro teremos a valorização da vida comunitária como interdependência e interatividade; no segundo o superindividualismo egoísta ou os identitarismos comunitaristas. No primeiro, teremos cuidado e proteção dos bens comuns, no segundo apropriação, expropriação e lucro sem limites. No primeiro teremos políticas de amizade; no segundo, de inimizade… e, na consequência prática, Congresso amigo ou inimigo do povo.

Política é lidar com a possibilidade de convergências e consensos, mas também de divergências e dissensos, até dissidências. Não há política sem diferenças… não pensamos e nem queremos da mesma maneira; nem temos as mesmas perspectivas e projetos.

Diferentes projetos estão em disputa. O problema é transformar divergências ou disputas em motivo para eliminar quem não discorda. Fazer isso é acabar com a política ou usar a política para interesses não-políticos.

Importante observar que a política está inserida num contexto complexo: uma “época algorítmica”. Nela, “territórios emocionais” e “mapas afetivos” substituem territorialidades e mapeamentos físicos e geograficamente endereçados. São produzidos diversos tipos de “distritos”: do medo, da raiva, do ressentimento, da fé, da performance, do moralismo, do militarismo, da conspiração, da adesão, do engajamento, do encantamento… são tantos… alimentados por diferentes dietas com nutrientes e reforços próprios e redesenhados ao sabor da manipulação (des)informativa.

Estes novos territórios vêm de engenharias construídas pela manipulação da atenção, do afeto, da percepção e até do conhecimento. Vão resultar no favorecimento ou desfavorecimento de determinados posicionamentos, gerar persuasão, adesão ou repulsa e produzir prejuízo, ganho ou dano.

Longe de disputar argumentos, slogans ou narrativas, o que neles se disputa são estados, vieses, padrões, que deslocam ou alocam, antes mesmo das mensagens… não convencem, mas mobilizam, ativando reações automáticas, comportamentos e práticas em escala industrial, massiva e massificada.

Usa para isso recursos já conhecidos e bastante estudados, mas ainda pouco trabalhados neste novo contexto nos quais se colocam para além dos aspectos cognitivos e epistemológicos, para além de serem justos ou injustos, ainda que sempre mortíferos, pois até mesmo quando sugerem promover vidas, o fazem para algumas, a dos melhores, dos de bem, as que merecem e são “enlutáveis”. As assimetrias já gritantes, tornam-se ainda maiores e mais abissais…

Como esperar confrontos justos entre quem quer disputar projeto, propostas, ideias e quem só quer modular e capturar percepções traduzíveis num voto efêmero (não pode durar mais do que o plim da máquina de votação pois, se lembrar em quem votou no segundo seguinte, já não pode ser)?  A “velha” busca pela “formação da vontade popular”, a elaboração de uma “opinião/posição pública”, a “deliberação consciente” e as “escolha consequente”, se vão! Tornam-se obsolescências arcaicas e insustentáveis.

A fraude já não será nos votos comprados, mas pelos votos capturados… será uma “fraude cognitiva”, não só por dissonância, mas também por inviabilização, visto não haver qualquer possibilidade de reconexão entre o que se fez (voto) e as razões que levaram a ele. O que haverá de ser e de suceder será uma “batalha” de likes e (des)likes, nada mais… que não poderá ter fim, nem mesmo finalidade, pois terá que se manter aberta, desterritorializando e reterritorializando, mapeando e remapeando, freneticamente.

Não haverá tempo para reflexão: nem para flexão, menos ainda para repetir flexão.

A linearidade será impiedosa e “nada do que foi será”, nem agora, nem num tempo “que já foi um dia” e menos ainda num tempo que virá. Simplesmente foi. Mecanismos e dispositivos como “viés de confirmação”, “heurística da afetividade”, “heurística da disponibilidade” e “máquina de priming”, são o “da hora”, seja um por vez, todos juntos ou alguns combinados.

O objetivo nunca será convencer e nem mesmo formar maiorias, será desestabilização permanente, interromper toda e qualquer normalidade, romper qualquer possibilidade de coletividade, destituir toda e qualquer institucionalidade, corroer a confiança em pessoas, autoridades e instituições, polarizar tudo, como se as coisas se decidissem sempre e somente no tudo ou nada, no a favor ou contra, no bem ou mal, num binarismo acachapante e estridente que afasta qualquer tom intermediário. E, tudo o que não couber neste modelo será automaticamente “fraude inaceitável”.

Mas, diante de tudo isso vem a proposta da Campanha Eleger um Congresso amigo do povo. Essa é a tarefa proposta pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) e pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH).

A campanha está ancorada na máxima constitucional de que o poder não só emana, mas é do povo. É o povo aquele que pode, desde sua potência instituinte, desde sua força insurgente, produzir o novo, sempre, de novo.

Propor-se assim exige realizar processos nos quais se possa viver a participação política não apenas como o direito de falar e nem mesmo o direito de ser escutado e de escutar. Trata-se de afirmar o direito a se recusar a deixar que a própria percepção, a própria sensibilidade, a própria vida sejam sequestradas por quem quer que seja, seja quem seja, pessoa, máquina ou algoritmo. Afirmar a política de modo outro. Colocar-se nesta complexidade com dignidade.

Lidar com todas as engenharias manipuladoras exige construir condições para não sucumbir a elas. Mais do que isso, requer fazer frente a “afetividades desviantes”, desinformação alucinante, mentiras deslavadas e enredamentos asfixiantes. E mais ainda do que isso coloca o desafio de gerar lugares outros e processos outros que desloquem as atenções, abram janelas, rompam frestas para fazer a luz entrar, bruxuleante ou ofuscante, em vista de mobilizar afetos regenerativos, raiva justa, atmosferas amorosas, recusas insistentes às frequências alucinantes, algum realismo a tanta fantasmagoria, verdades resistentes. 

Não se trata de lamentar o que fizeram conosco ou o que tentam seguir fazendo de nós… o desafio é tomar estas questões, sem hesitar, como aquelas que precisam de respostas que não sejam paralisantes, mas que sejam capazes de mobilizar para novas perspectivas, para novas possibilidades, para novos outros. Se o horizonte que queremos movimentar é excessivamente curto e opaco, não vamos muito longe, por isso vamos agir para “esticá-lo”.

Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância.

Insurgir-se contra as mais diversas formas de nos manter presos à carestia e à mimética é defender que a imaginação é a mais forte de todas as possibilidades da política e, ainda que a realidade tente sabotá-la, é porque insistimos nela que a própria realidade, por mais dura que seja, pode ser atravessada. Afinal, viver é travessia!

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), coordenador geral do Projeto Sementes de Proteção Popular de Defensores/as de Direitos Humanos (SMDH/MNDH/Avuar, com apoio da UE). Já escreveu e publicou no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/

Edição: A. R.

Priorizar o tempo em viagens para evitar o ócio improdutivo

Tivemos a oportunidade de conhecer Joel Santos Abreu, um cidadão brasileiro que nasceu em Pernambuco, morou por um período em São Paulo e depois fez boa parte da sua vida no Estado do Rio de Janeiro. Por 30 anos, foi professor da rede estadual do Rio, atuando na rede privada de educação. Mais recentemente, decidiu viajar como um hobby e uma forma de conhecimento.

Por onde passa, Joel grava vídeos e os posta em redes sociais, numa espécie de registros/diários de suas viagens.

Conheça um pouco mais de Joel Santos de Abreu por ele mesmo.

Conte-nos como surgiu a ideia de viajar para conhecer diferentes cidades do Brasil?

Posso dizer que me preocupo, primeiramente, com a possibilidade de minha condição financeira, já que sou aposentado, pois não se viaja sem o recurso financeiro para gastos. Dependo de ter a sorte de encontrar passagens aéreas em preços promocionais, juntamente com milhas. Depois pesquiso a melhor hospedagem em termos de diária e localização. Quanto à alimentação, sempre há restaurantes populares e mercados que não oneram muito o bolso. 

Acima de tudo, está a minha pretensão de priorizar o meu tempo em viagens evitando o ócio improdutivo. Não quero ficar num “apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.” Como dizia o saudoso Raul Seixas.

Há quanto tempo viajas?

Sempre fiz viagens, mas não tão intensamente como estou fazendo desde 2021 para cá. Conheci todas as capitais federais do país, sem exceção, assim como cidades que têm aeroporto, aproveito, de acordo com o meu tempo, para conhecer as cidades circunvizinhas, adjacentes.  Por exemplo: semana passada eu fui conhecer Ribeirão Preto, daí pude então ir a Franca (produtora de sapatos); Brodowski (onde nasceu o pintor Cândido Portinari); Batatais e Barretos (onde acontece os famosos rodeios. Como diz o ditado: mato vários coelhos com uma cajadada só.

 Quais critérios para definir novas cidades a serem visitadas?

Alguns dos critérios que utilizo são preços promocionais de passagens e hospedagem.

Ao chegar em Passo Fundo, quais foram as primeiras impressões?

Toda cidade tem peculiaridades interessantes, que interessam ao olhar do turista como o meu caso. Por exemplo, a Academia Passo-Fundense de Letras e o nosso encontro aí foi um marco muito importante em minha passagem por esta cidade, assim como foi na Biblioteca outras instituições que pude visitar.

Qual foi seu interesse em visitar e conhecer templos religiosos?

Tenho, por costume, produzir vídeos, isto é, registrar minhas passagens em regiões muito frequentadas ou bem conhecidas pelos habitantes da cidade: igrejas, parques, terminais rodoviários, aeroportos, universidades, monumentos…

Joel Santos Abreu também é escritor.

“Joel tem cara de artista e alma de poeta. Quase sempre, parece encantado com a vida. Para além do que escreve, seu jeito poético expressa até mesmo no modo de falar cotidiano, como se um singelo cumprimento, traduzido por um corriqueiro “bom dia”, merecesse uma declamação especial. É o que se pode notar neste multifacetado universo de objetos de suas prosas e poemas contidos neste valioso livro”. (declaração de Jason Ferreira Mafra, Doutor em Educação pela USP. Diretor do Mestrado Profissional em Educação na UNINOVE, na primeira orelha do livro Poemas e Aforismos)

Em sua passagem por nossa cidade Passo Fundo, fez questão de visitar a Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski, Biblioteca da Academia Passo-fundense de Letras (APLetras) e Biblioteca Central da UPF (Universidade de Passo Fundo).

Fotos: Arquivo pessoal do entrevistado/ Divulgação

Seguem links de vídeos seus demonstrando reconhecimento e valorização pelas bibliotecas, onde também deixou exemplares de seu livro.

https://www.instagram.com/reel/DZoAffYsalGkelYm_KfqFcrC1gkS-ObkGWAQXw0/?igsh=eGY4c3FldWMwbWcz

https://www.instagram.com/reel/DZvhsZXJrr8qbXQMqyDQ5DP1z1pp0UWbqAypVIInstagram

Que não se perca nenhum destes pequeninos!

Há alguns dias um cidadão que postula a Presidência da República se declarou favorável à volta do trabalho infantil, ou a “ampliar as oportunidades para quem quiser começar cedo”. Segundo ele, a ideia de que trabalho prejudica a criança é uma invenção da esquerda. Parece que a escola faz mal às crianças, e que brincar não é coisa saudável.

No início do capítulo 8 do livro do profeta Zacarias, encontramos uma pérola de imaginação utópica em tempos de crises profundas: “Velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém, todos de bengala na mão por causa da idade. E as praças da cidade ficarão cheias de meninos e meninas a brincar pelas ruas” (Zacarias 8,3-4).

Todos sabemos que crianças e idosos representam os agrupamentos mais vulneráveis de uma sociedade. E essa vulnerabilidade se torna ainda maior em tempos de crise. Idosos com bengala na mão na praça da cidade são sinais de longevidade. Crianças brincando na rua são sinais de segurança, de liberdade, de renovação, certeza de um futuro bom.

Há alguns dias um cidadão que postula a Presidência da República se declarou favorável à volta do trabalho infantil, ou a “ampliar as oportunidades para quem quiser começar cedo”. Segundo ele, a ideia de que trabalho prejudica a criança é uma invenção da esquerda. Parece que a escola faz mal às crianças, e que brincar não é coisa saudável.

Veja aqui: https://youtu.be/d3LJ1_z8Aw8?t=30

Este senhor, herdeiro de uma fortuna que o dispensou do trabalho até a vida adulta, ignora que o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei 8069, de 13 de julho de 1990) pretende assegurar a crianças e adolescentes o direito à educação, ao desenvolvimento e à cidadania. E é por isso que regula e impõe limites ao trabalho infantil.

O Estatuto diz: “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz. A formação técnico-profissional obedecerá aos seguintes princípios: garantia de acesso e frequência obrigatória ao ensino regular; atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente; horário especial” (Art. 60 e 63).

Está claro que o Estatuto regulamenta o trabalho a adolescentes maiores de 14 anos: eles podem trabalhar como aprendizes, e, antes dos 18 anos, não podem fazer trabalhos noturnos, perigosos ou insalubres. Isso porque eles têm direito à educação, à preparação para o trabalho, ao pleno desenvolvimento e ao preparo para a cidadania (cf. Art. 53).

Pergunto-me se o pretendente à cadeira presidencial desconhece o Estatuto e sua finalidade, ou pretende fazer a nação recuar às condições de trabalho vigentes em 1850?

Talvez ele pense que lazer, desenvolvimento humano e estudo são privilégios da sua classe social. Mas, como cristãos, não podemos nos dispensar da proteção às pessoas vulneráveis. “Que não se perca nenhum destes pequeninos”, diz Jesus (Mateus 18,14).

Autor: Dom Itacir Brassiani msf. Também escreveu e publicou no site “Os pobres devem estar no coração da vida cristã”: www.neipies.com/os-pobres-devem-estar-no-coracao-da-vida-crista/

Edição: A. R.

Nenhuma mulher deve escolher entre ser mãe ou manter seu emprego

Defender as mulheres sempre foi um compromisso da minha trajetória política. E isso significa construir políticas públicas concretas, capazes de mudar a vida das pessoas. Não basta celebrar a maternidade em discursos enquanto milhares de mães seguem sendo empurradas para fora do mercado de trabalho. O Brasil precisa garantir que ser mãe não signifique abrir mão da própria independência, da carreira e dos sonhos.

A maternidade nunca deveria ser motivo de insegurança, medo ou punição no ambiente de trabalho. Mas a realidade de milhares de mulheres brasileiras mostra justamente o contrário. Todos os dias, mães voltam da licença-maternidade com a angústia de não saber se terão seu espaço preservado, se serão acolhidas ou se estarão na próxima lista de demissões.

Olhando para essa realidade apresentei na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2307/2026, criando medidas de proteção e acolhimento às mulheres no retorno ao trabalho após a licença-maternidade. Os números são alarmantes. Entre 2020 e 2025, mais de 380 mil mulheres foram demitidas sem justa causa depois de retornarem da licença-maternidade. Isso significa centenas de milhares de famílias afetadas por uma lógica cruel que transforma a maternidade em obstáculo profissional.

Não estamos falando apenas de emprego. Estamos falando de dignidade, autonomia financeira e do direito das mulheres de construir suas carreiras sem serem penalizadas por exercerem a maternidade.

Nosso projeto propõe algo simples, mas profundamente necessário: garantir condições reais de permanência dessas mulheres no mercado de trabalho. A proposta estabelece que empresas com 20 ou mais empregados implementem programas estruturados de acolhimento no retorno da licença, com entrevistas de recepção, alinhamento de funções, atualização sobre mudanças internas e medidas de retenção das trabalhadoras. Também buscamos preservar, sempre que possível, o cargo, a função e a carga horária exercidos antes do afastamento.

Além disso, o projeto altera a Lei nº 9.029/1995 para incluir expressamente a maternidade entre os fatores protegidos contra práticas discriminatórias nas relações de trabalho. Afinal é preciso dizer com todas as letras: discriminar mulheres por serem mães é violência e desigualdade.

Essa realidade se torna ainda mais dura quando olhamos para a questão racial. As mulheres negras são as mais atingidas pela precarização do trabalho, pela informalidade e pela instabilidade no emprego.

Muitas vezes, são elas que sustentam sozinhas suas famílias e enfrentam maiores dificuldades para retornar ao mercado de trabalho após a maternidade. Defender políticas de acolhimento e permanência também é enfrentar o racismo estrutural que aprofunda desigualdades históricas no Brasil.

Defender as mulheres sempre foi um compromisso da minha trajetória política. E isso significa construir políticas públicas concretas, capazes de mudar a vida das pessoas. Não basta celebrar a maternidade em discursos enquanto milhares de mães seguem sendo empurradas para fora do mercado de trabalho. O Brasil precisa garantir que ser mãe não signifique abrir mão da própria independência, da carreira e dos sonhos.

Cuidar das mulheres é cuidar do futuro do país. E proteger as mães trabalhadoras é uma responsabilidade que precisa ser assumida por toda a sociedade.

Autora: Denise Pessôa, Deputada Federal PT-RS.

Denise Pessôa é deputada federal do PT do RS. Arquiteta e urbanista, é natural de Caxias do Sul. Vereadora no município entre 2009 e 2022 e presidiu a Câmara de Vereadores no ano em que foi eleita para a Câmara Federal. Primeira mulher eleita deputada federal pela Serra Gaúcha e também uma das primeiras deputadas federais negras eleitas pelo Rio Grande do Sul. Trajetória política marcada pela defesa das mulheres, do serviço público, da igualdade racial, da cultura e do desenvolvimento das cidades, com foco em políticas públicas que promovam inclusão, participação social e qualidade de vida.

O rolo compressor da intolerância sobre todos nós e a ditadura do pertencimento

 
“Em um mundo de fugitivos, quem anda na direção contrária parece estar fugindo”. (Paul Tillich)

_ Fala meu caro! Obrigado pelo convite do café.

Mas tenho de alertá-lo para o seguinte: nada me sequestra mais!  Nem ninguém me fará mudar.  Eu sou o que sou.  Você suportaria esta conversa?

Como em nosso último encontro, quando você chegou enrolado em uma bandeira, os conselhos que ouço e os cuspo no chão, onde se misturam com a migalhas que cairão desta mesa… Ainda mais agora, com o peso das novas embalagens de verdades variadas que tentam se aproximar de mim. 

Os pardais que pululam em nossa volta e tem a humildade de comer as pequenas sobrinhas que caem da mesa, da mesma forma, eu me alimento com os pequenos argumentos, pequenas ideias, os pequenos assuntos, que em nada mudam nada, nem alteram nada, porque não me convencem e nem tem qualquer lógica em me convencer.

Aliás, fora da lógica, habitam os sonhadores e os loucos. Quem briga com os fatos sempre tem que mentir.

Então, ao levantar da mesa, sinta-se um vencedor.  Você já ganhou o debate; leve a taça. Lustre-a com os panos de sua verdade e das certezas de que você tem tentado me tragar.  Nada vai mudar em mim.

Agradeço o convite em participar de reuniões de seu partido, de passeatas que tentam confirmar crenças inventadas, construídas e pensadas para artificialmente engajar. Nem as Igrejas modernas vou me enfileirar, convencido hoje, que a religião imposta, pode ser o caminho mais seguro para a solidão.

Aliás, tenho prazer em pensar nessa recusa.  Sim, agradecer a sua lembrança e garantir a você que jamais irei entrar em uma delas, sobretudo, nestas que a CIA americana ajudou a fundar por aqui e de onde, em seus púlpitos e altares, vertem ódio e mentiras líquidas. Quanta tolerância terá Deus pela frente com o desprezível e detestável uso do seu nome em vão!

Não quero pertencer a nada, bandeira alguma, qualquer hino ou passeata. Nada me atrai, nem músicas, glórias e guerras passadas; heróis mentirosos ou santos derrotados.  Nada me segura no que me toma mais que cinco minutos. Nem passado, nem futuro.

Não me chame para torcer, porque não quero que ninguém ganhe.  Se quer vencer nossa conversa, considere-se vitorioso. Nada do que eu falo quero que você creia; lembre-se disso.  Ou esqueça; tanto faz.

Não quero seguidores nem sigo a ninguém.  Caso o seu tempo aqui teria o propósito de me influenciar em algo, nada ficará do que falou.  Eu esqueço.  Nem tente perder suas horas pois além de esquecer não as quero comigo.

Não me leve a mal, mas se você não me ligar, não importa.  Ligando, tanto fará, igualmente. Nem tenho interesse pelo que você pensa ou diz. Claro, vejo você além de suas crenças. Mas não se perca ao meu redor, pois não tenho mais a alegria da ignorância. Sinto-me um pouco algoz, pois não consigo mais não ver. Não espero, não argumento, não aceito, não grito e nem voto. Hoje, estou caminhando apenas…

Não me convença de nada, não me diga que ele não quis dizer isso, que o seu candidato é melhor, que o país está assim por este ou aquele, que um roubou menos ou mais.  Não me preocupo com nada, nem quero saber, não me importo.  Como não roubo, não sei distinguir o volume de quem rouba.

Caso estiver pensando em me induzir, enganou-se.  Isso vale para você, meu bom amigo, mas para TVs e estatísticas, igualmente. Considere ficar com o troféu dos convencimentos; pode levá-lo.  Você já ganhou.  Mesmo sem me seduzir, leve a taça do seu argumento.  Não quero ganhar nem perder, nem pertencer a qualquer ordem.

Acreditando nas pessoas em que você diz acreditar, acolha-as.  Nenhuma delas tem muito valor.  Nem os seus candidatos, nem os meus. Fique com as suas escolhas e eu fico com nenhuma. Não que eu não acredite em você, meu velho amigo, eu simplesmente não acredito mais em acreditar.

Não há sentido algum em discutirmos as percepções de cada um, se o que vemos é uma realidade construída, frágil e manipulada. Por isso não uso bandeiras em minhas janelas; elas me escondem e atrapalham a minha visão do mundo.

O medo que pode me prender já não tem forças suficientes para me manter submisso e tenho profunda alergia por controles. E concluo por transformar todos os medos em brisas, as que empurram os finais de tarde. Meus medos, reais ou não, questiono a todos e aprendi a fazer perguntas aos meus delírios. Nada do que vem de fora me fará seguidor, portanto.

Eu não vou caber dentro de um rótulo apenas.  Portanto não tenha pressa em me julgar. Eu me expando todos os dias.

Não me valho de grupos, nem para ficar nem para fugir, detestaria ser mastigado por qualquer manada, assim que começar a pensar diferente, moído como um coelho na boca de um dinossauro.

Prefiro me perder a sós do que em grupo.

Em comum temos o ar que respiramos, o sol que nos inunda, a chuva que não nos distingue a despertos ou seguidores. Já não é o bastante?

Pertenço a todas as manhãs, pertenço a mim e a fagulha de Deus que habita em mim.  Prefiro pertencer a bandeiras que eu mesmo ergo, de mais dias azuis, menos alunos distraídos, mais bibliotecas e menos Igrejas. Mas nem me siga!

Ahh! Sugiro que coloquemos nossas certezas de molho, nossas convicções à prova. De minha parte, aprendi a ser irônico com qualquer conversa que desafia fatos. Tanto a aspirina, quanto o celular, são resultados de busca, de pesquisa… Não de bandeiras.

Por último, lembre-se:  em qualquer necrotério, meu amigo perdido, quando finalmente seremos a figura principal, as verdades que tanto nos orgulhamos raramente entram no velório; ficam ao lado de fora; à espreita de novos seguidores.

Perdoa a minha intolerância neste café.  É que eu estou exausto de certezas!

Quando foi mesmo que permitimos que nossas almas se separassem?

_Cadê você? 

Foi somente baixar a cabeça para ver um pardalzinho e você sumiu!!!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Diário de Maria Cecília: por que quando os filhos partem de casa sentimos vontade de voar com ou sem eles”: www.neipies.com/diario-de-maria-cecilia-por-que-quando-os-filhos-partem-de-casa-sentimos-vontade-de-voar-com-ou-sem-eles/

Edição: A. R.

Plataformização da Educação e a Indução de um Currículo Escolar Administrado

Por meio de convênios, consultorias, programas de formação e produção de materiais didáticos, fundações e institutos empresariais passam a ocupar espaços tradicionalmente vinculados ao poder público. Essa dinâmica produz uma reconfiguração das fronteiras entre o público e o privado, favorecendo a incorporação de valores empresariais à gestão da educação.

No cenário pós-pandemia, embalados pelo discurso da inovação, provocado pelos novos tempos tecnológicos, a presença de plataformas digitais estão cada vez mais presentes nas escolas.

Para muitos entusiastas, estamos na efervescência de uma revolução educacional que resultará em qualidade educativa, inclusão de todos na cultura digital, aprimoramento dos processos pedagógicos que tornarão a escola atrativa, dinamismo e modernização da educação. Para um número mais reduzido de críticos, a presença cada vez mais incisiva das tecnologias nos processos educativos de crianças, jovens e adultos produz certos efeitos colaterais que precisam ser cuidadosamente observados, analisados e questionados.

O pesquisador francês Michael Desmurget (2023), por exemplo, em seu polêmico livro a “Fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças”, ao compilar um conjunto de dados científicos que tratam do uso excessivo de telas e suas consequências na vida dos usuários, indica um conjunto de mitos e perigos provenientes do uso exagerado das telas no cotidiano das crianças e jovens, inclusive nos ambientes escolares.

Para ele, as tecnologias não estão produzindo melhor desempenho intelectual e habilidade mais aprimoradas nos nossos alunos. Ao contrário, estão provocando alterações cerebrais que comprometem processos educacionais de socialização mais solidária e uma vida em sociedade igualmente integrada. Para os que se interessarem no livro de Desmurget (2023) tem uma resenha elaborada por Fochesatto; Fávero e Tussi (2024) e que pode ser acessada em no seguinte link:

https://www.researchgate.net/publication/383940286_fabrica_de_cretinos_digitais_os_perigos_das_telas_para_nossas_criancas

O bem da verdade, o assunto é polêmico e exige estudo, pesquisa, discussão, análise e atenção cuidadosa para não tratar o problema de forma maniqueísta. Para além de um maniqueísmo dualista, é preciso pensar, olhar com cuidado, perceber além do entusiasmo e/ou da negação. Por esta razão, o Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Educação Superior (Gepes/UPF) que coordeno em parceria com Carina Tonieto, definiu neste ano de 2026 foco no tema Cultura Digital, Políticas e Pensamento Crítico, que resultará na 17ª coletânea que será publicada em maio de 2027.

Gepes foi criado em 2010 por mim e Carina Tonieto, ligado ao Programa de Pós-Graduação da UPF e tem realizado um intenso trabalho de estudos, pesquisas e produções ligadas as problemáticas das políticas educacionais. Participam atualmente dos encontros quinzenais nas sextas à tarde, em média, mais de 35 pesquisadores (doutores, mestres, doutorandos, mestrandos, professores da educação básica e da educação superior, bolsistas de iniciação científica e demais interessados), provenientes de 17 instituições de Ensino Superior (UNOESC, UNOCHAPECÓ, UAEMéx, CEFET/RJ, UFAC, UFFS, UFMG, UFES, FURB/SC, IFRS/Campus Ibirubá, IFSC/Campus Xanxerê, UFRGS, IFSC/Campus Concórdia, USP, UPTC/Colômbia, UNIPLAC/SC e UFPel), bem como pesquisadores da Colômbia (Universidad Pedagógica y Tecnológica – UPTC) e do México (Universidad Autónoma del Estado de México – UAEMéx).

Leia matéria: www.neipies.com/a-trajetoria-de-15-anos-do-gepes/

Na última coletânea (16ª produção do Gepes), organizada por Fávero; Tonieto; Bellenzier e Centenário (2026), publicada em maio deste ano pela editora da UPF, intitulada Formação, Currículo e Políticas educacionais, são discutidos diversos temas que gravitam em torno de seis eixos que estruturam a referida coletânea: I – Formação e Currículo; II – Educação Infantil; III – Ensino Fundamental e Gestão; IV – Ensino Médio; V – Educação Superior; e VI – Formação de professores. Na sequência deste escrito, apresento a síntese de um dos capítulos que teve minha participação na escrita. A intenção é problematizar a presença cada vez mais constante da plataformização da educação que produz um currículo escolar administrado, fortemente influenciado pelo empresariamento da educação.

O capítulo em tela tem por título A atuação das fundações empresariais na indução de um currículo escolar administrado (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026), apresenta uma análise crítica sobre a crescente influência de fundações empresariais e institutos privados na formulação e implementação das políticas educacionais brasileiras. Situado no contexto da expansão do neoliberalismo e do empresariamento da educação, o texto procura demonstrar como diferentes mecanismos de indução política contribuem para a constituição de um currículo escolar administrado, orientado por princípios de eficiência, performatividade e controle. Ao mesmo tempo, os autores procuram evidenciar que o espaço escolar permanece como um território de disputas, no qual práticas de resistência e recontextualização desafiam a hegemonia das prescrições curriculares impostas por agentes externos.

Um dos principais méritos da reflexão proporcionada pelo capítulo consiste em demonstrar que a atuação das fundações empresariais não ocorre de forma isolada ou ocasional, mas integra uma complexa rede de governança educacional que articula organismos multilaterais, empresas, fundações privadas, plataformas digitais e órgãos governamentais.

Os autores argumentam que essa rede opera por meio de políticas de indução capazes de orientar decisões curriculares, reorganizar práticas pedagógicas e redefinir os sentidos da escola pública. Nesse contexto, instituições como Fundação Lemann, Instituto Ayrton Senna, Instituto Unibanco, Fundação Roberto Marinho, Instituto Natura e Movimento Todos pela Educação assumem papel estratégico na elaboração de políticas, na produção de materiais didáticos, na formação docente e na definição de parâmetros curriculares (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026).

A noção de currículo administrado constitui a categoria central da análise.

Segundo os autores, a administração curricular contemporânea não se realiza apenas por meio de imposições legais diretas, mas por mecanismos mais sofisticados de regulação, capazes de produzir consensos e orientar comportamentos. O currículo passa a ser concebido como instrumento de gestão, monitoramento e avaliação, subordinando os processos educativos às exigências da racionalidade neoliberal. Nessa perspectiva, o conhecimento escolar deixa de ser compreendido prioritariamente como patrimônio cultural e instrumento de emancipação humana para ser organizado segundo critérios de produtividade, desempenho e adaptação às demandas do mercado.

O conceito de filantrocapitalismo (Bishop, 2008) ocupa posição central na interpretação desenvolvida pelos autores. Diferentemente da filantropia tradicional (Silva; Oliven, 2020), associada à caridade e ao auxílio social, o filantrocapitalismo incorpora métodos, linguagens e estratégias empresariais à intervenção social. Conforme demonstrado no texto, as fundações empresariais atuam sob a premissa de que os mecanismos de mercado seriam mais eficientes que o Estado para solucionar problemas sociais. A educação transforma-se, assim, em espaço privilegiado para investimentos estratégicos capazes de gerar simultaneamente reconhecimento público, influência política e legitimidade social.

Os autores evidenciam que o filantrocapitalismo não se limita ao financiamento de projetos educacionais. Sua atuação envolve a produção de diagnósticos, pesquisas, indicadores e evidências que legitimam determinadas concepções de qualidade educacional. Por meio desse processo, constrói-se uma narrativa segundo a qual os problemas da escola pública decorreriam de sua suposta ineficiência administrativa, justificando a crescente participação do setor privado na gestão das políticas educacionais.

Trata-se de uma estratégia que desloca o debate sobre desigualdades estruturais para uma lógica de gestão de resultados, ocultando as dimensões históricas, sociais e políticas que condicionam os processos educativos.

Outro aspecto relevante da análise refere-se à plataformização da educação (Barbosa; Alves, 2023). Os autores argumentam que as plataformas digitais constituem atualmente um dos instrumentos mais eficazes de disseminação do currículo administrado. Sob o discurso da inovação tecnológica, da modernização pedagógica e da democratização do acesso ao conhecimento, as plataformas digitais introduzem mecanismos sofisticados de monitoramento, padronização e controle das práticas escolares. Elas organizam conteúdos, definem percursos de aprendizagem, orientam avaliações e produzem dados sobre o desempenho de estudantes e professores.

A plataformização (Barbosa; Alves, 2023) favorece a consolidação de uma pedagogia orientada por algoritmos, métricas e indicadores, reduzindo progressivamente a autonomia docente. O professor deixa de ser reconhecido como intelectual responsável pela mediação crítica do conhecimento para assumir funções cada vez mais próximas à execução de roteiros previamente definidos. A atividade pedagógica passa a ser estruturada por plataformas que estabelecem conteúdos, metodologias e formas de avaliação, transformando o trabalho docente em atividade regulada por parâmetros externos.

Como consequência, enfraquece-se a capacidade da escola de produzir respostas contextualizadas às necessidades específicas de seus estudantes e comunidades (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026).

Essa transformação afeta igualmente os sentidos e finalidades da escola pública. Os autores demonstram que o currículo administrado promove uma mudança significativa na concepção de formação humana. Em vez de privilegiar a formação crítica, cidadã e emancipatória, a escola passa a ser orientada pela produção de competências consideradas úteis ao mercado de trabalho. A educação é progressivamente reduzida à preparação de indivíduos adaptáveis, resilientes e competitivos, alinhados ao ideal neoliberal do sujeito empreendedor de si mesmo (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026). Nesse cenário, valores como solidariedade, participação democrática, pensamento crítico e justiça social tendem a perder centralidade.

As avaliações externas ocupam papel fundamental nesse processo. Conforme argumentam os autores, instrumentos como o SAEB, o ENEM e outros sistemas de avaliação em larga escala funcionam como dispositivos de indução curricular. Embora apresentados como mecanismos de garantia da qualidade educacional, esses sistemas acabam orientando os conteúdos ensinados, as metodologias adotadas e as prioridades das escolas. A busca por melhores indicadores estimula processos de padronização curricular e reforça a cultura da performatividade (Ball, 2001).

As avaliações externas contribuem para consolidar a lógica segundo a qual a qualidade da educação pode ser reduzida a indicadores quantitativos (Silva; Oliveira, 2023). Tal perspectiva ignora aspectos fundamentais do processo educativo, como as condições sociais dos estudantes, as especificidades culturais dos territórios e a complexidade das relações pedagógicas. Além disso, fortalece mecanismos de responsabilização que transferem para escolas e professores a responsabilidade pelos resultados obtidos, desconsiderando os condicionantes estruturais das desigualdades educacionais.

De modo semelhante, as parcerias público-privadas desempenham função decisiva na consolidação do currículo administrado. Os autores mostram que essas parcerias permitem a ampliação da influência empresarial sobre a definição de conteúdos curriculares, processos formativos e estratégias de gestão escolar.

Por meio de convênios, consultorias, programas de formação e produção de materiais didáticos, fundações e institutos empresariais passam a ocupar espaços tradicionalmente vinculados ao poder público. Essa dinâmica produz uma reconfiguração das fronteiras entre o público e o privado, favorecendo a incorporação de valores empresariais à gestão da educação (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026).

Entretanto, o capítulo em tela não se limita a denunciar os mecanismos de controle associados ao empresariamento da educação. Um de seus aspectos mais importantes consiste justamente na identificação de práticas contra-hegemônicas que emergem no interior das escolas. Inspirados especialmente nas contribuições de Basil Bernstein (1996), os autores destacam que a implementação das políticas curriculares nunca ocorre de maneira linear ou mecânica. Os sujeitos escolares reinterpretam, adaptam e ressignificam as prescrições oficiais, produzindo processos de recontextualização que podem alterar significativamente os sentidos originais das políticas.

Entre as formas de resistência identificadas destacam-se a defesa da autonomia docente, a valorização dos saberes produzidos pelas comunidades escolares, a construção de currículos contextualizados e a promoção de práticas pedagógicas comprometidas com a formação crítica dos estudantes. Essas iniciativas revelam que professores, gestores e estudantes não atuam como meros receptores passivos das políticas educacionais, mas como sujeitos capazes de produzir alternativas e tensionar os limites impostos pelo currículo administrado (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026).

É justamente por essa razão que os autores do capítulo afirmam que a escola permanece sendo um território de disputas. Apesar do avanço das políticas neoliberais e da crescente influência empresarial sobre a educação, o espaço escolar continua abrigando conflitos entre diferentes projetos de sociedade, de conhecimento e de formação humana. A escola pública não se reduz aos mecanismos de controle que sobre ela incidem (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026). Ela permanece como espaço de produção cultural, construção democrática e elaboração coletiva de experiências educativas.

A dimensão emancipatória da escola manifesta-se na capacidade de seus sujeitos de resistirem às formas de colonização tecnicista do trabalho pedagógico e de defenderem uma educação comprometida com a democracia, a justiça social e os direitos humanos (Oliveira; Fávero; Silva; Costa, 2026). Nesse sentido, a resistência ao currículo administrado não significa rejeitar toda forma de organização curricular, mas disputar os sentidos dessa organização, recolocando no centro do debate a formação humana integral e o compromisso com a transformação social.

Em síntese, o capítulo oferece uma importante contribuição para a compreensão das transformações recentes das políticas educacionais brasileiras.

Ao analisar criticamente o papel das fundações empresariais, do filantrocapitalismo, da plataformização da educação, das avaliações externas e das parcerias público-privadas, os autores demonstram como se consolida um modelo de currículo administrado alinhado à racionalidade neoliberal. Contudo, também evidenciam que a escola pública permanece como espaço de resistência, recontextualização e construção de alternativas democráticas. A principal contribuição do texto reside justamente nessa compreensão dialética: embora as forças de mercado tenham ampliado significativamente sua influência sobre a educação, os processos educativos continuam sendo atravessados por disputas que mantêm abertas as possibilidades de uma formação crítica, democrática e emancipatória.

Para os que desejarem ler na íntegra o capítulo brevemente sintetizado neste escrito, segue o link de acesso:

https://www.researchgate.net/publication/404919560_A_atuacao_das_fundacoes_empresariais_na_inducao_de_um_curriculo_escolar_administrado

Referências:

BALL, S. J. Diretrizes Políticas Globais e Relações Políticas Locais em Educação. Currículo sem Fronteiras, [S. l.], v. 1, n. 2, pp. 99–116, jul./dez. 2001. Disponível em: <https://gestaoeducacaoespecial.ufes.br/sites/gestaoeducacaoespecial.ufes.br/files/field/anexo/ ball.pdf>. Acesso em: 5 jun.. 2026.

BERNSTEIN, B. A estruturação do discurso pedagógico: classe, códigos e controle. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Luís Fernando Gonçalves Pereira. Petrópolis: Vozes, 1996.

BARBOSA, R. P.; ALVES, N. A Reforma do Ensino Médio e a Plataformização da Educação: expansão da privatização e padronização dos processos pedagógicos. Revista e-curriculum, [S. l.], v. 21, 2023. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/view/61619>. Acesso em: 9 jun.. 2026.

BISHOP, M. G., M. Philantrocapitalism. How the Rich Can Save the World. New York: Bloomsbury Press, 2008.

DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digital: os perigos das telas para nossas crianças. 1.Ed. São Paulo: Vestígio, 2023.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; CENTENARO, Junior Bufon (Orgs.). Formação, Currículo e Políticas Educacionais. 1. ed. Passo Fundo/RS: Editora UPF, 2026.

FOCHESATTO, Ana Luiza; FÁVERO, Altair Alberto; TUSSI, Graziela Bergonsi. A fábrica de cretinos digitais. Revista Espaço Pedagógico, Passo Fundo, v. 31, p. e15723-8, 2024. Disponível em: https://seer.upf.br/index.php/rep/article/view/15723

OLIVEIRA, Adriana Martins de; FÁVERO, Altair Alberto; SILVA, Cauê Lucas Azevedo da; COSTA, Adriana. A atuação das fundações empresariais na indução de um currículo administrado. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; CENTENARO, Junior Bufon (Orgs.). Formação, Currículo e Políticas Educacionais. 1. ed. Passo Fundo/RS: Editora UPF, 2026, p.455-481.

SILVA, P. K.; OLIVEN, R. G. Filantrocapitalismo versus filantropia para a justiça social: um debate norte-americano sobre como lidar com a pobreza. Mana, n.26, v.1, e261204,  p.1-34, 2020. Disponível em: DOI http://doi.org/10.1590/1678-49442020v26n1a204

SILVA, M. R.; OLIVEIRA, A. M. Reforma do ensino médio: dispositivos de regulamentação e políticas de indução. Revista Educere et Educare, Cascavel, v. 18, n. 47, dossiê AnpedSul 2023, p. 113–129, 2023. Ahead of Print. DOI: 10.48075/educare.v18i47.30708. Acesso em: 6 de jun. 2026.

Autor: Dr. Altair Alberto Faveroaltairfavero@gmail.com. Professor do PPGEdu da UPF. Também escreveu e publicou no site “A formação da autonomia discente e o papel da autoridade docente”: www.neipies.com/a-formacao-da-autonomia-discente-e-o-papel-da-autoridade-docente/

Edição: A. R.

Livro: Arquitetura da Linguagem

Não por acaso, em uma noite de lua cheia, lancei oficialmente o livro Arquitetura da Linguagem: sobre a trama invisível que rege os nossos pensamentos.

Comecei fazendo uma brincadeira:

“Se houver algum lobisomem presente, por favor, acuse-se. Para eu não me sentir sozinha.”

Mas a verdade é que talvez todos nós carreguemos algo de lobisomem.

Em algum momento, a vida nos atravessa com transformações que não escolhemos nem controlamos. Partes nossas mudam de forma, ganham novos sentidos, passam a habitar outros significados. Algumas dessas transformações nos encantam; outras nos assustam. O escuro também nos assusta.

E, ainda assim, às vezes esquecemos que é a escuridão que guarda o mistério, e é o mistério que guarda a vida.

Talvez seja por isso que a minha relação com a escrita tenha começado justamente ali, na escuridão. Houve períodos em que eu não conseguia dizer o que precisava ser dito. E houve outros em que, mesmo dizendo, eu não conseguia ser compreendida.

A escrita nasceu nesse espaço entre a fala e a compreensão. Tornou-se um lugar onde aprendi a me escutar, a organizar as inúmeras vozes que habitavam meu mundo interior e a encontrar sentido no que antes parecia confuso.

Curiosamente, pouco antes de iniciar a escrita desta fala, me deparei mais uma vez com um velho conhecido: o bloqueio diante da página em branco. Parecia contraditório. Afinal, eu estava prestes a celebrar justamente um livro. Mas a escrita, como sempre, estava tentando me mostrar alguma coisa.

Percebi então que a dificuldade não vinha da falta de palavras, mas da dimensão daquele instante. Estar ali significava assumir um caminho que reconheço como verdadeiramente meu. Significava tornar pública uma ideia que habitou meus pensamentos durante muito tempo. Significava, também, abrir mão de outras possibilidades para seguir esta.

E mais uma vez a escrita fez aquilo que sempre fez por mim: transformou escuridão em luz.

Ao olhar para as pessoas presentes, todas vestidas de amarelo, lembrei da razão pela qual escolhi aquela cor. Não era apenas uma questão estética. Era uma forma de simbolizar aquilo que cada uma delas representa para mim: pontos de luz. Pessoas que iluminam a minha trajetória e que, certamente, também iluminam a vida de outras pessoas.

Talvez seja justamente nesse movimento que habite a unidade.

Porque, no fundo, aquela noite não celebrava apenas o lançamento de um livro. Celebrava a capacidade humana de transformar experiências em significado, silêncio em linguagem, escuridão em luz.

Saí dali com a sensação de que Arquitetura da Linguagem já não me pertencia apenas. Como um lobisomem que finalmente compreende a própria metamorfose, percebi que algumas transformações não existem para ser controladas.

Existem para ser vividas.

E o livro, enfim, encontrou o seu caminho no mundo.

———

Se esta reflexão despertou a sua curiosidade, você pode conhecer mais em Arquitetura da Linguagem, disponível nas versões física e digital pelo link: https://a.co/d/0eqnY7e3

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Quando as mulheres dão nome às coisas”: www.neipies.com/quando-as-mulheres-dao-nome-as-coisas/

Edição: A. R.

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