A teoria crítica contemporânea, ao retomar e revisar essas categorias, busca justamente explorar esse espaço de tensão entre determinação e liberdade, entre necessidade e possibilidade, mantendo viva a aposta em uma sociedade capaz de reduzir o sofrimento evitável sem ignorar a complexidade da condição humana.
No último dia 6 de maio de 2025, tive a alegria e a honra de ser convidado pelos discentes do Projeto Psicanálise e Humanidades para compor uma mesa de diálogo sobre Freud Super Atual. A mesa foi coordenada pelo diretor do Projeto, meu grande e estimado amigo Dr. Francisco C. Santos Filho (Diretor do Projeto), e estiveram comigo no debate o professor Dr. Francisco Fianco (PPPGL/UPF) a professora Dra. Vania Fischer Cossetin (PPGEC/Unijuí) e a professora Dra. Andrea Oltramari (PPGA/Ufrgs).
As exposições dos integrantes da mesa, os comentários do coordenador da mesa e as perguntas da plateia deram os traços da atualidade e da importância dos estudos e pesquisas sobre os escritos e o pensamento do pai da psicanálise que continua atualíssimo e fundamental para entender o tempo presente. O diálogo interdisciplinar com as áreas da filosofia, literatura e educação deram o tão da conversa para os mais de 200 inscritos no evento.

Minha participação teve como foco a influência de Freud na Filosofia Contemporânea, pensando possíveis interlocuções. A interlocução entre a psicanálise e a filosofia contemporânea constitui um dos movimentos intelectuais mais fecundos do século XX e permanece decisiva para a compreensão crítica do presente.
Ao introduzir uma teoria do sujeito fundada na divisão psíquica e na centralidade do inconsciente, Sigmund Freud desloca profundamente os pressupostos da tradição filosófica moderna, abrindo caminho para uma crítica da racionalidade, da cultura e das formas de dominação que será retomada, reelaborada e tensionada por diferentes correntes, com destaque para a Teoria Crítica.
Nesse horizonte, o pensamento freudiano não apenas fornece categorias analíticas para a filosofia, mas também instaura um problema decisivo: o de pensar a articulação entre subjetividade e sociedade sem reduzir o sujeito à consciência nem dissolvê-lo inteiramente nas determinações sociais. A partir dessa inflexão, é possível desenvolver três eixos argumentativos fundamentais: as contribuições de Freud para a filosofia contemporânea: 1) a desconstrução do sujeito solipsista; 2) a proposição de alguns conceitos que estruturam essa interlocução; 3) a atualidade dessas contribuições diante das formas contemporâneas de vida e dos desafios da existência tematizados pela filosofia e áreas afins.
A desconstrução do Sujeito Solipsista
A contribuição freudiana para a filosofia contemporânea reside, de modo incontornável, na desconstrução da imagem clássica do sujeito como instância soberana, transparente a si mesma e guiada pela razão.
O sujeito solpisista é uma perspectiva filosófica cartesiana que defende que apenas a própria consciência (o “eu”) existe de fato, tornando o mundo exterior e outras mentes meras projeções de incertezas. “Penso, logo existo” é a famosa e conhecida afirmação do filósofo francês René Descartes, que instaura o sujeito solipsista moderno. Derivado do latim solus (sozinho) e ipse (mesmo), o solipsismo reduziu toda a realidade à experiência interna do indivíduo, das ideias claras e distintas estabelecido pelo cogito Cartesiano.
Ao demonstrar que a vida psíquica é atravessada por processos inconscientes que escapam ao controle do eu, Freud inaugura uma verdadeira “ferida narcísica” na tradição moderna, comparável às revoluções copernicana e darwiniana. Essa descentração do sujeito tem efeitos diretos sobre a filosofia, particularmente sobre aquelas correntes preocupadas em compreender os limites da razão e as formas de dominação que se ocultam sob a aparência de racionalidade.
Nesse sentido, a teoria crítica encontra na psicanálise um aliado decisivo para sua crítica da racionalidade instrumental, isto é, daquela forma de razão que se reduz ao cálculo de meios para fins e que, no contexto das sociedades capitalistas avançadas, tende a se converter em instrumento de dominação.
Autores como Theodor Adorno e Max Horkheimer (1985) reconhecem na psicanálise freudiana uma chave interpretativa para compreender por que os indivíduos, mesmo submetidos a condições de exploração e dominação, frequentemente aderem às estruturas que os oprimem. A hipótese de que a dominação não se sustenta apenas por coerção externa, mas também por mecanismos internos de identificação, repressão e desejo, amplia significativamente o alcance da crítica social.
A psicanálise permite, assim, compreender que a ideologia não opera apenas no nível da consciência, como falsa representação da realidade, mas também no plano inconsciente, estruturando afetos, fantasias e modos de gozo que vinculam os sujeitos às formas sociais existentes. Essa dimensão é particularmente explorada por Herbert Marcuse (1986), de modo especial em Eros e Civilização, que ao articular Freud com Karl Marx, propõe uma leitura segundo a qual a repressão pulsional não é apenas uma exigência inevitável da vida em sociedade, mas assume formas historicamente específicas que podem ser intensificadas ou atenuadas conforme a organização social. “A civilização ocidental”, diz Marcuse (1986, p.19), “sempre glorificou o herói, o sacrifício da vida pela cidade, o Estado, a nação; raramente indagou se a cidade estabelecida, o Estado ou a nação eram dignos do sacrifício”.
O preço do progresso foi e continua sendo terrivelmente alto, pago com cadáveres em honra aos vencedores e ao suposto avanço civilizacional. As atuais matanças que acontece tanto na macro política mundial quando nas periferias das nossas cidades são evidências desse trágico preço pago pelo suposto e ovacionado progresso.
A leitura freudiana da cultura como espaço de repressão e conflito (Freud, 2010a; 2010b) oferece à filosofia um modelo interpretativo que recusa tanto o otimismo progressista quanto o pessimismo absoluto.
Em textos como O mal-estar na Cultura, Freud (2010a) argumenta que a vida em sociedade implica necessariamente a renúncia a certas satisfações pulsionais, gerando um mal-estar estrutural que não pode ser completamente eliminado. “A vida, tal como nos é imposta”, diz Freud (2010, p.60), “é muito árdua para nós, nos traz muitas dores, desilusões e tarefas insolúveis. Para suportá-la, não podemos prescindir de lenitivos”, ou seja, “distrações que nos façam desdenhar nossa miséria, satisfações substitutivas que a amenizem e entorpecentes que nos tornem insensíveis a ela”.

Essa tese é fundamental para a teoria crítica, pois impede tanto a idealização de uma sociedade plenamente reconciliada quanto a naturalização das formas históricas de repressão. Ao distinguir entre uma repressão “necessária” e uma repressão “excedente”, Marcuse (1986), por exemplo, abre espaço para pensar a possibilidade de formas de organização social menos repressivas, nas quais o potencial emancipatório das pulsões, especialmente de Eros, possa encontrar expressão.
Alguns conceitos freudianos importantes para a filosofia contemporânea
A relação entre psicanálise e filosofia contemporânea é mediada por um conjunto de conceitos que se tornaram decisivos para a reflexão crítica e a atividade filosófica contemporânea.
Entre eles, destaca-se, em primeiro plano, o inconsciente, entendido não como um mero depósito de conteúdos esquecidos, mas como uma instância dinâmica que estrutura a vida psíquica e interfere constantemente na consciência. A introdução do inconsciente obriga a filosofia a abandonar a pretensão de transparência do sujeito e a reconhecer a opacidade constitutiva da experiência humana.
Essa opacidade, longe de ser um obstáculo contingente, torna-se condição para a compreensão das contradições que atravessam tanto o indivíduo quanto a sociedade. “A questão da finalidade da vida humana foi colocada inúmeras vezes”, diz Freud (2010a, p.61); “jamais obteve uma resposta satisfatória e talvez nem sequer a admita. Muitos dos que a levantaram acrescentaram que, caso se descobrisse que a vida humana não possui finalidade, ela perderia todo o seu valor para eles”. Para o pai da psicanálise, talvez seja mais importante deixar a pergunta sem resposta do que dogmaticamente impor uma finalidade que expressa a arrogância humana manifesto por certos sistemas religiosos. Isso mostra a dimensão aberta e em processo de construção permanente da psicanálise com um grande e promissor campo de investigação.
Outro conceito central da psicanálise para a filosofia contemporânea é o de repressão, que designa o processo pelo qual certos conteúdos são excluídos da consciência por serem incompatíveis com as exigências normativas do eu e da sociedade. A repressão não é apenas um mecanismo intrapsíquico, mas também um dispositivo social, na medida em que as normas que orientam o que deve ou não ser reprimido são historicamente determinadas.
A teoria crítica se apropria desse conceito para mostrar como as formas de dominação se internalizam, operando não apenas por meio de instituições externas, mas também através da formação da subjetividade. Nesse sentido, a noção de superego (Freud, 2006), instância psíquica que incorpora as proibições e exigências sociais, revela-se particularmente fecunda para compreender a obediência, o conformismo e até mesmo o prazer paradoxal que os sujeitos podem encontrar na submissão.
As teorias das pulsões (Freud, 2010c), especialmente a distinção entre Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte), também desempenham um papel relevante na interlocução com a filosofia. Elas permitem pensar a ambivalência constitutiva da natureza humana, marcada simultaneamente por tendências à ligação, à criação e à cooperação, e por impulsos de agressividade, destruição e repetição.
A distinção entre Eros e Thanatos ocupa um lugar decisivo na metapsicologia de Sigmund Freud e marca uma inflexão importante em sua obra: a passagem de uma teoria centrada sobretudo no conflito entre pulsões sexuais e de autoconservação para uma concepção mais complexa da vida psíquica, estruturada por uma tensão fundamental entre forças de ligação e de destruição. Essa elaboração, longe de se restringir ao campo clínico, exerceu profunda influência sobre a filosofia contemporânea e continua a oferecer elementos fecundos para pensar questões educacionais no presente.
Freud desenvolve de modo mais sistemático a distinção entre pulsões de vida (Eros) e pulsões de morte (Thanatos) a partir de 1920, sobretudo em Além do princípio do prazer (Freud, 2010c). Nesse texto, ele introduz a hipótese de que nem todos os processos psíquicos podem ser explicados pela busca de prazer e pela evitação do desprazer.

A observação de fenômenos como a compulsão à repetição — em que o sujeito revive experiências dolorosas ou traumáticas — leva Freud a postular a existência de uma tendência mais originária, voltada não para a conservação e o aumento da vida, mas para o retorno a um estado inorgânico. Essa tendência, posteriormente denominada pulsão de morte, não se manifesta de modo puro, mas sempre entrelaçada com Eros, a força que visa à ligação, à construção e à manutenção da vida.
Além de Além do princípio do prazer (2010c), Freud retoma e aprofunda essa dualidade em textos como O Eu e o Id (2006) e O mal-estar na cultura (2010a). Neste último, a tensão entre Eros e Thanatos ganha uma dimensão explicitamente social e cultural. A vida em sociedade depende, segundo Freud, da capacidade de conter e redirecionar as pulsões agressivas e destrutivas, que são expressão da pulsão de morte.
Ao mesmo tempo, é Eros que torna possível a coesão social, por meio dos vínculos afetivos, das identificações e das formas de solidariedade. A civilização, portanto, se constrói a partir de um equilíbrio sempre instável entre essas duas forças: de um lado, a necessidade de reprimir a agressividade; de outro, o risco de que essa repressão produza sofrimento, culpa e formas de violência internalizada.
Essa concepção dual das pulsões foi amplamente apropriada e reinterpretada por filósofos contemporâneos, especialmente no âmbito da Teoria Crítica. Herbert Marcuse, em Eros e civilização (1986), realiza uma leitura inovadora de Freud ao articular a teoria das pulsões com a crítica social inspirada em Karl Marx.
Para Marcuse (1986), a repressão das pulsões não é apenas uma exigência universal da vida em sociedade, mas assume formas historicamente específicas no capitalismo avançado. Ele distingue entre uma repressão “básica”, necessária à convivência social, e uma “mais-repressão”, que serve à manutenção de estruturas de dominação. Nesse contexto, Eros aparece como uma força potencialmente emancipatória, capaz de inspirar formas de vida menos repressivas e mais orientadas para o prazer, a criatividade e a liberdade.
Por sua vez, Theodor Adorno e Max Horkheimer (1985) incorporam a dimensão da pulsão de morte em suas análises da modernidade, especialmente ao refletirem sobre a barbárie do século XX, o autoritarismo e a persistência de tendências destrutivas nas sociedades altamente racionalizadas. A presença de Thanatos ajuda a compreender por que o progresso técnico e científico não conduz automaticamente a formas mais humanas de convivência, podendo, ao contrário, ser instrumentalizado para a destruição em larga escala. A dialética entre esclarecimento e barbárie, central na obra desses autores, encontra na psicanálise freudiana um suporte decisivo para pensar a ambivalência da razão e da cultura.
Outros pensadores também dialogaram com essa dualidade pulsional. Jacques Lacan (1988), por exemplo, reelabora a pulsão de morte ao vinculá-la à ordem simbólica e à repetição estruturante do desejo, enquanto Paul Ricoeur (1977) interpreta a psicanálise como uma “hermenêutica da suspeita”, na qual a tensão entre Eros e Thanatos revela a profundidade conflitiva da existência humana. Em todos esses casos, a distinção freudiana deixa de ser apenas uma hipótese metapsicológica para se tornar um instrumento filosófico de análise da cultura, da política e da subjetividade.
Essa ambivalência é também abordada pela teoria crítica para analisar fenômenos como a violência social, o autoritarismo e as regressões políticas, mostrando que tais fenômenos não podem ser explicados apenas por fatores econômicos ou institucionais, mas exigem uma consideração das dimensões psíquicas que os sustentam.
No campo da educação, as reflexões derivadas dessa distinção podem oferecer contribuições significativas, ainda que frequentemente negligenciadas. Em primeiro lugar, reconhecer a presença simultânea de Eros e Thanatos na constituição dos sujeitos implica abandonar visões idealizadas do processo educativo. A educação não lida apenas com sujeitos racionais e cooperativos, mas com indivíduos atravessados por desejos, ambivalências, resistências e também por tendências agressivas. Ignorar essa dimensão pode levar a práticas pedagógicas ingênuas, incapazes de lidar com conflitos, violências e formas de recusa que emergem no cotidiano escolar.
Nesse sentido, a noção de Eros pode ser mobilizada para pensar a educação como espaço de construção de vínculos, de investimento afetivo e de abertura ao conhecimento. Aprender não é apenas adquirir informações, mas também estabelecer relações significativas com o saber, com o outro e consigo mesmo. Professores que conseguem mobilizar Eros no processo educativo tendem a favorecer o engajamento, a curiosidade e a criatividade dos estudantes, criando condições para uma aprendizagem mais profunda e duradoura.
Por outro lado, a consideração de Thanatos permite compreender e enfrentar as dimensões destrutivas que também atravessam o espaço escolar: desde comportamentos agressivos e práticas de bullying até formas mais sutis de autossabotagem, desinteresse e recusa do aprendizado. Em vez de tratar tais fenômenos apenas como desvios individuais ou falhas disciplinares, uma abordagem inspirada na psicanálise pode interpretá-los como expressões de conflitos psíquicos e sociais mais amplos, exigindo intervenções que vão além da mera punição.
Além disso, a tensão entre Eros e Thanatos pode contribuir para uma reflexão crítica sobre o próprio modelo educacional contemporâneo. Em contextos marcados pela ênfase no desempenho, na competição e na padronização, corre-se o risco de reforçar dimensões ligadas à pulsão de morte, como a repetição mecânica, a perda de sentido e o esvaziamento do desejo de aprender. Por outro lado, práticas pedagógicas que valorizam a cooperação, a expressão criativa e a construção coletiva do conhecimento podem ser vistas como formas de fortalecimento de Eros no campo educacional.
Por fim, a incorporação dessas categorias na reflexão educacional abre espaço para uma compreensão mais complexa da formação humana.
Educar não é apenas transmitir conteúdos ou desenvolver competências, mas também lidar com as forças que atravessam a vida psíquica, buscando criar condições para que Eros, entendido como força de ligação, criação e abertura ao outro, possa prevalecer sobre as tendências destrutivas. Essa não é uma tarefa simples nem plenamente realizável, mas constitui um horizonte ético e político fundamental para pensar a educação em sociedades marcadas por conflitos, desigualdades e múltiplas formas de violência.
Em síntese, a distinção entre Eros e Thanatos, tal como formulada por Freud e reelaborada por diferentes filósofos contemporâneos, oferece um quadro teórico potente para compreender a ambivalência da condição humana. Ao evidenciar que a vida psíquica e social é atravessada por forças de criação e destruição, essa perspectiva convida a filosofia e a educação a abandonarem visões simplificadoras e a enfrentarem, de modo crítico, os desafios de formar sujeitos em um mundo profundamente tensionado por essas dinâmicas.
Igualmente importante é a tensão entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Enquanto o primeiro orienta o psiquismo em direção à satisfação imediata, o segundo impõe limites e adiamentos em função das exigências da vida social.
A filosofia, ao incorporar essa tensão, passa a compreender a racionalidade não como uma instância puramente normativa, mas como resultado de um processo de negociação entre desejos e restrições. A teoria crítica, ao reinterpretar o princípio da realidade como historicamente configurado, mostra que aquilo que se apresenta como “necessário” muitas vezes reflete relações de poder e formas específicas de organização social, abrindo espaço para a crítica e a transformação.
A atualidade das contribuições freudianas para a filosofia contemporânea
Por fim, em terceiro lugar, a atualidade das contribuições freudianas para a filosofia contemporânea se evidencia na capacidade dessas categorias de iluminar os modos de subjetivação e as formas de sofrimento características das sociedades atuais. Em um contexto marcado pela intensificação da lógica neoliberal, pela centralidade do desempenho e pela internalização de imperativos de produtividade, a psicanálise oferece instrumentos preciosos para compreender fenômenos como ansiedade, depressão e burnout. Tais formas de sofrimento não podem ser reduzidas a disfunções individuais, mas devem ser interpretadas como expressões de uma organização social que mobiliza e explora as dimensões psíquicas dos sujeitos.
Além disso, a persistência de fenômenos como o negacionismo, a disseminação de discursos de ódio e a adesão a lideranças autoritárias revela os limites de uma concepção de sociedade baseada exclusivamente na racionalidade comunicativa ou na circulação de informações. A psicanálise, ao enfatizar o papel do inconsciente, do desejo e da identificação, permite compreender por que argumentos racionais muitas vezes falham em produzir convencimento, e por que certos discursos, mesmo manifestamente falsos ou prejudiciais, conseguem mobilizar afetos e fidelidades intensas. Nesse sentido, a interlocução entre psicanálise e teoria crítica permanece essencial para uma análise rigorosa das dinâmicas políticas contemporâneas.
No campo da cultura, as contribuições freudianas continuam igualmente relevantes. A indústria cultural, já analisada por Adorno e Horkheimer (1985), pode ser reinterpretada à luz da psicanálise como um dispositivo que organiza e canaliza desejos, produzindo formas de satisfação administradas que contribuem para a reprodução da ordem social. As redes sociais e as plataformas digitais, por sua vez, intensificam esses processos ao operar diretamente sobre mecanismos de reconhecimento, identificação e gozo, evidenciando a atualidade das categorias freudianas para a compreensão das novas tecnologias e de seus efeitos subjetivos.
Por fim, a questão do potencial emancipatório da psicanálise permanece em aberto e continua a alimentar debates contemporâneos. Se, por um lado, a ênfase freudiana na inevitabilidade de certa dose de repressão (Freud, 2010b) pode ser interpretada como um limite à utopia, por outro, a distinção entre formas necessárias e excessivas de repressão permite pensar em transformações sociais que ampliem as possibilidades de realização humana.
A teoria crítica contemporânea, ao retomar e revisar essas categorias, busca justamente explorar esse espaço de tensão entre determinação e liberdade, entre necessidade e possibilidade, mantendo viva a aposta em uma sociedade capaz de reduzir o sofrimento evitável sem ignorar a complexidade da condição humana.
Dessa forma, a contribuição da psicanálise freudiana para a filosofia contemporânea, e em particular para a teoria crítica, não se limita a um momento histórico já superado, mas continua a oferecer ferramentas conceituais indispensáveis para a análise crítica do presente. Ao articular subjetividade e sociedade, razão e inconsciente, desejo e poder, essa tradição de pensamento mantém sua relevância ao desafiar simplificações e ao insistir na necessidade de compreender o humano em sua irredutível complexidade.
Agradeço mais uma vez a todos os amigos do Projeto Psicanálise e Humanidades (Francisco, Luciane, Doris e todos os demais integrantes) pela oportunidade de retomar algumas leituras de Freud e pelo excelente e qualificado diálogo ocorrido na noite do dia 6 de maio de 2026.
Um agradecimento à Claudia Dellamea pelo convite e pelas mediações. Em seu nome agradeço a toda comissão organizadora.


Referências:
ADORNO, Theodoro; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
FREUD, Sigmund. O ego e o id e outros trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
FREUD, Sigmund. O mal-estar da cultura. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010a.
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010b.
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2010c.
LACAN, J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. (1959-1960) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Trad. Álvaro Cabral. 8 ed. Rio de Janeiro: Guanabara/Koogan, 1986.
RICOEUR, Paul. Da interpretação: ensaio sobre Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
Fotos: Divulgação/arquivo pessoal
Autor: Dr. Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.com Professor da UPF e Pesquisador Produtividade do CNPq. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/
Edição: A. R.






























