Ela esperou sair do shopping assim que viu o tempo se armar pelos céus, assustador, mais vento que tormenta, para caminhar e chorar um pouco. Na chuva, todas as lágrimas têm menos valor.
Não era pelo sapato. Mas porque teria de pedir, pedir novamente, pedir todos os meses. O vestido, ela estava liberada para comprá-lo. Mas aí surgiu um sapato.
Depois dos 40, com filhos encaminhados, ter sempre de pedir, era o comprovante de que o seu destino não lhe entregara os seus anseios por completo. Atrás de um fogão ou de uma máquina de lavar, os sonhos podem ser adiados pelo dia. Mas os anos vão açodando as vontades e basta sair à rua, dar uma volta, para ver que o mundo dilata nossas expectativas e o nosso olhar não se conforma mais com nossas melhores aspirações. Se houver algumas delas ainda em curso, claro.
Aos 60 anos, ficamos conformadas com livros e silêncio. Aos 40, ainda não.
Muitas mulheres, mesmo após o êxito em seus lares, com filhos já de asas abertas, maridos felizes, sim, muitas delas tem agora a vida pela frente. Mas é outra vida; basta ter saúde e não ter se apequenado em seu antigo papel de rainha do lar, que há uma explosão de vida e vontades em gestação.
Como enfrentar desejos e propósitos se a sua renda está no bolso do seu marido? Como ir à academia sem ter que pedir? Como viajar com algumas amigas, sem ter que pedir, e pedir, e pedir…
Daí seu choro quando lembrava do que as suas amigas falaram: _você poderia estar aqui com a gente.
Claro. Cruzaram a vida de um outro jeito, nem melhor ou pior, mas hoje são livres. Mesmo que somente para uma viagem. Uma psicóloga, outra arquiteta, uma outra…
Maria Cecília não quis levar adiante e trancou sua faculdade para casar-se; tornou-se invisível, sem tempo para o espelho.
_Depois eu concluo, dizia.
Nunca mais…
Preferiu um lar, no entanto. Um marido que nada lhe negava; bastava pedir.
Os filhos, os amigos dos seus filhos, a família que sempre parecia mais numerosa em dias de chuva, o marido, tudo foi virando prioridade.
Ela ficou para depois.
Tardes inteiras a sós pela casa. Enquanto seus filhos estudavam e cresciam, seu marido trabalhava e crescia, dias inteiros sozinha pela casa arrumada, gastando horas passando roupas, corroendo seus dias em uma perfeição que duraria até o anoitecer. Ao retorno de todos.
O encantamento de um lar perfeito, com todos almoçados e jantados, roupas arrumadas à perfeição, como num círculo infinito… Olhando pela cozinha arrumada assistia a sua própria formatura; a formatura dos despercebidos.
Enquanto chegavam flores vermelhas no seu aniversário, tudo fluía ao sabor das mesmas manhãs, mesmas tardes, na interminável tarefa de construir o que nunca será reconhecido. Um dia, as flores não vieram. Seu marido esqueceu.
_Volte a estudar? É o conselho que as suas amigas lhe deram, quando de seu retorno, em meio a fotos e almoços espetaculares neste último cruzeiro.
_ Estudar agora? -Ahh, nem pensar.
_Poderia ter viajado com elas, pensava. Em Montevidéu, caminhando e sorvendo um mate diferente, suas amigas, agora três, porque eram quatro, viviam um pedaço de vida inesquecível.
_E fazer docinhos para fora, o que acha Cecília? _Tem muitas.
_Crochê? _Ninguém mais quer.
Quando moça, seu sonho era ser professora. Ela pensava em seus alunos às pencas pelo pátio gritando, suas colegas de alegria e infortúnio, em um mundo a descobrir todos os dias, a conquistar e a contestar.

_ Ainda daria tempo, uma de suas amigas a lembrou, avisando, contudo, que pode demorar um pouco para se perceber mais infeliz.
Imaginava vender lingeries vermelhas de porta em porta. Fazer marmitinhas pela semana, ser vendedora de loja de shopping, aprender uma nova língua pela internet, saber avaliar produtos nas redes; ficou até encantada ao ouvir uma tal de IA. _ Será que ela não pode me salvar?
Mas assim que o João Alfredo soube de suas pretensões ficou furioso.
_ Nada falta a você, mulher! Foram tantas vezes que Cecília ouvira isso.
_ Pense na alegria em vivermos juntos, somente nós, com os filhos formados. Justo agora, na sua idade, você querer trabalhar? Tudo o que você me pede eu sempre dou…
_E o que eu não peço, por quais razões não tenho recebido, respondeu.
_Virou respondona, devolveu o seu Alfredo.
_Não, ainda não virei. Mas agora que a lavanderia está fechando e os botões do fogão estão ficando gastos como a ponta dos meus dedos, preciso ter a minha renda.
Chegou uma exigência nova à mesa de jantar. É que depois de uma certa idade, com muitos desejos aparentes, os outros veem com desconfiança.
Cecília sabia no que se tratava – em viver a sós. Como em quase todas as situações, viver a sós se traduz em uma pessoa sentada no sofá e a outra, servindo.
_Que estranho sentimento eu tenho, sussurrava a si mesma, olhando a fruteira avermelhada sobre a mesa: laranjas e maçãs já muito maduras.
Não poderia nesta estrada haver tantos buracos!
Mas será que eu não tenho o direito de cansar? De largar tudo e ser apenas meia de mim. Isso porque a outra metade já deixei na área de serviço e na mesa de jantar, limpando e cuidando a todos por 20 anos.
Só queria poder comprar um par de sapatos vermelhos, sem pedir a ninguém, com todo o direito de errar na compra. Levantar-me às 11h sem ser julgada. Assistir séries seguidas na Netflix, sem fazer xixi. Queria ir à padaria da esquina, a sós, sentar-me em sua calçada e fumar um cigarro, para espanto de mim mesma, sem que isso pareça uma sentença de fim de mundo.
O João é ótimo, meus filhos são maravilhosos, adoraria meus netos…
Mas será que este desejo, em querer a minha outra metade de volta, não vai passar?
Continua…
Autor: Nelceu Zanatta. Já escreveu e publicou no site “A mudança nunca virá pelo espelho: virá dentro de você”: www.neipies.com/a-mudanca-nunca-vira-pelo-espelho-vira-dentro-de-voce/
Edição: A. R.












Quando moça, seu sonho era ser professora. Ela pensava em seus alunos às pencas pelo pátio gritando, suas colegas de alegria e infortúnio, em um mundo a descobrir todos os dias, a conquistar e a contestar.
(Nelceu Zanatta)