A farsa da Copa do Mundo a que todos nós amamos assistir!

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A Copa é um reflexo dos nossos dias. Mostra um espetáculo circense de primeira grandeza. É maravilhosa! Captura nosso olhar. Ponto!

Enfim, a Copa!

Mal começou e estamos embriagados por tantos e tantos jogos. Todos os dias, tardes e noites, pessoas de 48 países, alegres, a caminho dos estádios. Em uma vila do Uzbequistão ou na esquina da Broadway, o assunto tende a ser o mesmo. É uma espécie de confirmação mundial de que a humanidade ainda tem gostos em comum.

Uma festa única!

Quem não gosta do clima?  É envolvente, complexo, emocionante…

Massacrador, um pouco, acho. Depois de muitas partidas e com tantos narradores gritando, não tem como não pedir para baixar o volume.

Mas que não se negue que o circo montado chega a assustar; em plástica e organização. Sem chaminés, sindicatos e sem produzir um palito, apenas com o domínio de marca e mídia, serão arrecadados bilhões: em patrocínio, direitos televisivos, vendas, faturamento.

A Copa é um reflexo dos nossos dias. Mostra um espetáculo circense de primeira grandeza. É maravilhosa! Captura nosso olhar. Ponto!

Mas teve um tempo em que era mais encantadora. O futebol, não somente, pois procurávamos em atlas geográficos onde ficavam tais países. Estávamos na escola e a Copa se transformava em um feriado mundial combinado. Não havia opções: ou se torcia ou se contorcia. Os álbuns eram disputados nas bancas de revistas, agora sequestradas nem sei por quem.  Simplesmente sumiram.

E ali mesmo se compravam álbuns e figurinhas, com meses de antecedência, onde sempre uma maldita delas não aparecia.  Muitas amizades novas nasciam nessas trocas e ainda na torcida, em cada compra, para não as repetir.

Mas a Copa começou esses dias e sequer um álbum eu comprei. Porque não encontrei somente futebol, talvez?   

Agora é uma indústria.  Sem qualquer produto que seja qualificador, dirão alguns:  mas o produto é o futebol. Será?  Não, o esporte, os times, as seleções, os hinos nacionais, tudo é real e comovente. Quem ganha vê a sua torcida delirar.  Quem perde, o choro.  Em seguida, tudo retorna ao seu estágio de repouso das consciências, aonde os lutadores que se digladiavam em campo irão descansar, junto aos seus feitos, que, como em uma catarse coletiva – pois mesmo sem entrar no campo, as pessoas jogam o jogo da transferência do desejo – e ao final da corrida estão todos cansados como seus heróis.

Assim que o juiz assoprar o seu estridente apito, o teatro termina.

A emoção nos estádios traz uma ínfima lembrança de Roma:  casa cheia, gritos, competição, convulsão. Quem ainda tem dúvidas basta olhar para os cabelos lambidos e preparados dos atletas e as fantasias que se veem nas arquibancadas. Estando os imperadores Marco Aurélio ou Adriano presentes, sentiriam saudades do Coliseu.

Foi-se o tempo em que uma camisa, a sua cor e o que a representava fazia sentido na luta de um atleta até a sua exaustão. Foram-se as transmissões de jogos, somente transmissões. Hoje, você e o seu sofá são inundados por vendas de toda a sorte de produtos, com um enlace devastador; além de alguns jogos que se assemelham a disputas de várzea, o Jogo real é de apostas, aos milhares, na tela e fora dela.

Quanto mais se acredita que somos presenteados com a beleza de estádios, integração dos povos, igualdade de oportunidades em campo, sim, enquanto somos empurrados pela ilusão de que todos os times são iguais, somos informados que há lucro demais e esporte de menos.  Quem não quer vender um cachorro-quente a 70 reais e um ingresso, dos mais em conta, a 300.  Imagine ficar um mês para os demais jogos.

Lembre-se: se a transmissão é de graça, o produto é você.

O que não pode ir, ficou para torcer pelo fim da escala 6 X 1. Não que aqui um cachorro-quente esteja muito em conta, mas as Copas sempre foram e serão para alguns, apenas, assim como a maioria de seus atletas; primeiro as margens líquidas, os clubes e suas diretorias nebulosas, que recebem somas felpudas de dinheiro da Fifa, que os condicionam. Depois, muito depois, as bandeiras dos seus países. O suor é pelo calor e não pela briga por vencer.

A Copa é uma aula de exclusão. Exatamente como muitos percebem em nossa realidade:  aparentemente, depois do apito inicial, todos jogam em iguais condições. Mas poucos estão preparados à batalha. Uma réplica dos nossos tempos: colonizadores e colonizados com o mesmo espaço em campo para correr e triunfar. Mas com armas distintas.

Assim que o Juiz colocar um fim neste teatro, jogadores e torcedores voltam as suas catacumbas, em nações que tiveram todo o tempo e recursos para preparar os seus gladiadores. Mas, outros, retornam as suas origens conflituosas, em meio a lama, corrupção e desigualdade.

Pena vivermos dias de sequestros. A realidade nos é sequestrada pelos que nos influenciam a perceber o mundo pela sua ótica. A camisa amarela quase foi sequestrada para outros fins, que não o futebol. Quando resgatada e exposta em janelas, lia-se que estava ali somente para torcer. Em seguida, perdeu-se a magia do esporte e o futebol arte nos foi sequestrado, agora pela interferência política em cartões nos jogos, uma arbitragem polêmica, por jogadores milionários que não precisam mais vencer.

Aliás, eles e nós, produtos que somos de um espetáculo midiático e corporativo, que não vende somente esporte:  vende a reprodução social, camada por camada. Temos aí os que pagam 300 por um ingresso, os que pagam 1.000 e os que não pagam nada… Porque não foram.

A depender dos resultados, alguns jogadores seguirão para os países em que fazem fortuna.  Os demais, retornarão as suas rotinas de sonhos e pesadelos.

Falava-se que ao retorno do voo de nossa seleção ao país, apenas 2 jogadores estavam presentes.  Depois, confirmou-se:  somente um. Certamente, a desconfiança não nos faltava sobre os reais interesses de alguns de nossos astros; seus times e suas cidades, onde, de fato, alimentam a suas fortunas e de suas redes que fomentam jogos de azar.

Não há mais uma seleção, a nossa, na qual íamos para as ruas recebê-los. Mas, se ganhassem a taça, estariam todos no mesmo voo.

O nosso futebol foi sequestrado pelos interesses financeiros, como as demais programações, como quase tudo o que transita em nossos dias:  tem de distrair, conquistar corações e mentes, faturar, enganar…

Teríamos de pedir desculpas aos atletas que dedicaram esse período de treinamento e de jogos ao seu país?  Porque os tiramos de seus negócios por algumas semanas e os colocamos a nu, em uma arena cosmopolita, onde foram avaliados pelo seu desempenho real e não pela máscara que a mídia os promove. E foram postos a prova:  eles e a sua torcida, anestesiada pelos bons momentos de sua seleção… Lá no passado.

Como no mundo real, mentiras sempre tropeçam em verdades e o campo reflete com perfeição a nação de origem de cada time.

Que terminem os jogos! Na próxima copa eu quero assistir somente a partidas. Como é linda a Copa!

Quatro anos passam rápido demais!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

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