O rolo compressor da intolerância sobre todos nós e a ditadura do pertencimento

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“Em um mundo de fugitivos, quem anda na direção contrária parece estar fugindo”. (Paul Tillich)

_ Fala meu caro! Obrigado pelo convite do café.

Mas tenho de alertá-lo para o seguinte: nada me sequestra mais!  Nem ninguém me fará mudar.  Eu sou o que sou.  Você suportaria esta conversa?

Como em nosso último encontro, quando você chegou enrolado em uma bandeira, os conselhos que ouço e os cuspo no chão, onde se misturam com a migalhas que cairão desta mesa… Ainda mais agora, com o peso das novas embalagens de verdades variadas que tentam se aproximar de mim. 

Os pardais que pululam em nossa volta e tem a humildade de comer as pequenas sobrinhas que caem da mesa, da mesma forma, eu me alimento com os pequenos argumentos, pequenas ideias, os pequenos assuntos, que em nada mudam nada, nem alteram nada, porque não me convencem e nem tem qualquer lógica em me convencer.

Aliás, fora da lógica, habitam os sonhadores e os loucos. Quem briga com os fatos sempre tem que mentir.

Então, ao levantar da mesa, sinta-se um vencedor.  Você já ganhou o debate; leve a taça. Lustre-a com os panos de sua verdade e das certezas de que você tem tentado me tragar.  Nada vai mudar em mim.

Agradeço o convite em participar de reuniões de seu partido, de passeatas que tentam confirmar crenças inventadas, construídas e pensadas para artificialmente engajar. Nem as Igrejas modernas vou me enfileirar, convencido hoje, que a religião imposta, pode ser o caminho mais seguro para a solidão.

Aliás, tenho prazer em pensar nessa recusa.  Sim, agradecer a sua lembrança e garantir a você que jamais irei entrar em uma delas, sobretudo, nestas que a CIA americana ajudou a fundar por aqui e de onde, em seus púlpitos e altares, vertem ódio e mentiras líquidas. Quanta tolerância terá Deus pela frente com o desprezível e detestável uso do seu nome em vão!

Não quero pertencer a nada, bandeira alguma, qualquer hino ou passeata. Nada me atrai, nem músicas, glórias e guerras passadas; heróis mentirosos ou santos derrotados.  Nada me segura no que me toma mais que cinco minutos. Nem passado, nem futuro.

Não me chame para torcer, porque não quero que ninguém ganhe.  Se quer vencer nossa conversa, considere-se vitorioso. Nada do que eu falo quero que você creia; lembre-se disso.  Ou esqueça; tanto faz.

Não quero seguidores nem sigo a ninguém.  Caso o seu tempo aqui teria o propósito de me influenciar em algo, nada ficará do que falou.  Eu esqueço.  Nem tente perder suas horas pois além de esquecer não as quero comigo.

Não me leve a mal, mas se você não me ligar, não importa.  Ligando, tanto fará, igualmente. Nem tenho interesse pelo que você pensa ou diz. Claro, vejo você além de suas crenças. Mas não se perca ao meu redor, pois não tenho mais a alegria da ignorância. Sinto-me um pouco algoz, pois não consigo mais não ver. Não espero, não argumento, não aceito, não grito e nem voto. Hoje, estou caminhando apenas…

Não me convença de nada, não me diga que ele não quis dizer isso, que o seu candidato é melhor, que o país está assim por este ou aquele, que um roubou menos ou mais.  Não me preocupo com nada, nem quero saber, não me importo.  Como não roubo, não sei distinguir o volume de quem rouba.

Caso estiver pensando em me induzir, enganou-se.  Isso vale para você, meu bom amigo, mas para TVs e estatísticas, igualmente. Considere ficar com o troféu dos convencimentos; pode levá-lo.  Você já ganhou.  Mesmo sem me seduzir, leve a taça do seu argumento.  Não quero ganhar nem perder, nem pertencer a qualquer ordem.

Acreditando nas pessoas em que você diz acreditar, acolha-as.  Nenhuma delas tem muito valor.  Nem os seus candidatos, nem os meus. Fique com as suas escolhas e eu fico com nenhuma. Não que eu não acredite em você, meu velho amigo, eu simplesmente não acredito mais em acreditar.

Não há sentido algum em discutirmos as percepções de cada um, se o que vemos é uma realidade construída, frágil e manipulada. Por isso não uso bandeiras em minhas janelas; elas me escondem e atrapalham a minha visão do mundo.

O medo que pode me prender já não tem forças suficientes para me manter submisso e tenho profunda alergia por controles. E concluo por transformar todos os medos em brisas, as que empurram os finais de tarde. Meus medos, reais ou não, questiono a todos e aprendi a fazer perguntas aos meus delírios. Nada do que vem de fora me fará seguidor, portanto.

Eu não vou caber dentro de um rótulo apenas.  Portanto não tenha pressa em me julgar. Eu me expando todos os dias.

Não me valho de grupos, nem para ficar nem para fugir, detestaria ser mastigado por qualquer manada, assim que começar a pensar diferente, moído como um coelho na boca de um dinossauro.

Prefiro me perder a sós do que em grupo.

Em comum temos o ar que respiramos, o sol que nos inunda, a chuva que não nos distingue a despertos ou seguidores. Já não é o bastante?

Pertenço a todas as manhãs, pertenço a mim e a fagulha de Deus que habita em mim.  Prefiro pertencer a bandeiras que eu mesmo ergo, de mais dias azuis, menos alunos distraídos, mais bibliotecas e menos Igrejas. Mas nem me siga!

Ahh! Sugiro que coloquemos nossas certezas de molho, nossas convicções à prova. De minha parte, aprendi a ser irônico com qualquer conversa que desafia fatos. Tanto a aspirina, quanto o celular, são resultados de busca, de pesquisa… Não de bandeiras.

Por último, lembre-se:  em qualquer necrotério, meu amigo perdido, quando finalmente seremos a figura principal, as verdades que tanto nos orgulhamos raramente entram no velório; ficam ao lado de fora; à espreita de novos seguidores.

Perdoa a minha intolerância neste café.  É que eu estou exausto de certezas!

Quando foi mesmo que permitimos que nossas almas se separassem?

_Cadê você? 

Foi somente baixar a cabeça para ver um pardalzinho e você sumiu!!!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Diário de Maria Cecília: por que quando os filhos partem de casa sentimos vontade de voar com ou sem eles”: www.neipies.com/diario-de-maria-cecilia-por-que-quando-os-filhos-partem-de-casa-sentimos-vontade-de-voar-com-ou-sem-eles/

Edição: A. R.

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