“Quando não há um inimigo dentro de você, o inimigo de fora não pode destruir.” (provérbio africano)
Como em tudo nesta vida, na outra margem do rio não há muito a ser visto. Possivelmente, a mesma visão que vemos daqui. Imaginamos um lugar melhor, uma paisagem, um outro ponto de vista, uma figura que nos encante, que nos deslumbre…
Mas é do mesmo lugar em que vemos o rio. Seja daqui ou depois de o cruzarmos. E quando chegamos no outro lado… É tudo muito parecido.
Ele passa correndo e nós continuamos os mesmos. Atravessa-se a margem, sabe-se lá por que sacrifícios temos de passar; no outro lado, ‘lostesso’.
Mesma paisagem, diferentes olhares. É o que carregamos por dentro que define o que vemos ou sentimos. Não é a outra margem.
Vale para tudo. Para o nosso ego, para o grupo em que juramos pertencer.
Éramos 40 ex-alunos. Após 30 anos, todos reunidos em uma sala. Alguns com filhos adultos, ora insistindo em sonhos incompletos, ora abandonando-os. Éramos pura lembrança, deslocando tijolos dos dias e quebrando a indiferença dos anos que nos separaram. Somente um Encontro, um jantar de velhos amigos, desconhecidos, tentando restaurar uma nova amizade improvável.
Foram três jantares, na verdade. Todos os anos diluídos em uma mesa de massas. Entregues a memórias, listando professores que nos marcaram, pais que partiram, filhos dos amigos da infância que sequer nos reconheciam. Mas amávamos uns aos outros. Lembrávamos de nossas notas vermelhas, dos que passavam e dos que foram reprovados. A vida os aprovara a todos, no entanto.
Entre risadas e deboches inocentes, alguém lembrou que o país ia mal. E os risos foram contidos…
O ambiente fermentou.
Tomei a palavra para alertá-los.
_Somos um grupo conectados pelo fio do 2º grau, gente? Estamos aqui para celebrar… O passado. É ele que nos une, falei. Nossa felicidade pode não depender do que éramos na escola, mas ninguém é tão feliz assim sem um amigo colegial por perto. Não adiantou.
Formalidades foram trocadas, abraços apressados e o grupo seguiu cada um com a sua escada em mãos. Mais algum tempo e alguém postou: _ Presidente ladrão!
O outro logo respondeu: _Parasita, homicida o teu presidente!
Nunca mais!
E tudo se dissolveu. Nenhum encontro mais. As gargalhadas viraram batalhas, as lembranças comuns, espadas. O que passou em todos nós, sob o mesmo teto, entre provas e matinês, entre missas intermináveis e namoricos nas sombras dos muros do colégio, tudo, tudo, foi-se jogando para dentro do baú dos esquecimentos forçados. O ‘desideratio’ esfarinhou-se.
Já se foram 10 anos e nada dos ex.: nada de reconciliação, nenhuma história que os una novamente. Nenhum erro grosseiro de geografia para lembrar e os lançar no riso amargo das idades que avançam.
Não foi uma crítica de fora que triturou nossos pratos e jantares. Uma ameaça ou perseguição. A própria dissolução nasceu no seu âmago, no centro de todas as dores e onde céu e inferno podem coexistir eternamente: o flanco interno e obscuro de cada um. Afinal, carregamos inimigos dentro de nós mesmos?
Éramos 40 ex-alunos. Hoje não somos nenhum.
A maior de todas as fragmentações, em grupos que pensamos fazer parte, nunca vem de fora. Racha por dentro.

A enfermidade do isolamento ou deste biombo social, que cresce e nos distancia, sequestrados que somos de nossos queridos, como sociedade, nação, o que seja, sempre será mais efetiva se destruída por dentro. Na imposição, a formação do ódio e a segregação podem ser sabotados. Pode-se resistir. Mas quando ele se instala por dentro, não precisa mais de controle externo.
Cada um faz a sua parte, mesmo sem saber-se construtor de muros. Tudo é regulado, controlado, pela própria fração interna, onde cada um confirma a sua verdade particular.
Quem pensou em destruir por dentro, acertou.
Sem ameaças, sem barulho, no silencio de uma conversa reservada, de um programa de TV ingênuo, em mensagens ligeiramente falsas, espetaculosas e conspiratórias, tudo é mais eficiente no andar dos dias repetidos; ante gritos e bravatas.
Dividir por dentro, sem invadir qualquer família ou nação, separar o ‘nós do deles’, refletir a mentira fantasiada de verdade, subornar consciências, nada disso precisa ser anunciado.
Vai se implantando aos poucos, tanto a desinformação quanto a informação enviesada. Vai-se mantendo um grupo fiel e constante, até que aquela vizinha resistente volte atrás e enfim concorde com a terra plana.
Por dentro, pode até doer mais, mas é onde realmente começam as mudanças. Para o bem ou para o mal.
Sempre quando questionarem você sobre como aquela pessoa mudou tanto, pense que não foi uma virada de mesa. Virou-se o copo, apenas. Ela estava transmutando-se no silêncio de sua cozinha, sorvendo o mate do desamparo e da decepção há muito tempo; apenas faltava alguém que a ouvisse.
Mas o despertar não seria isso mesmo?
Falar com clareza ao grupo dos 40, que a sua história tem de estar sobreposta a qualquer narrativa transitória, e que talvez ninguém no grupo tenha mais 30 anos pela frente… Para o seu 4º Encontro.
Bem, eu não falei. Uma pena! Até porque o rio nunca deixou de passar em ambos os lados, e, em sua passagem, somos todos espectadores, brigando por verdades ou mentiras, mas sempre olhando a partir da mesma margem.
Que pena não ter falado. Poderia ter iniciado o meu despertar.
Autor: Nelceu A. Zanatta.Também escreveu e publicou no site “Quem tem medo de um amor adolescente?: www.neipies.com/quem-tem-medo-de-um-amor-adolescente-estudar-agora-amar-somente-depois/
Edição: A. R.












Realmente a mudança vêm de dentro e se você não quiser mudar, a mufança não acontece.
Do autor Nelceu Zanatta:
“A enfermidade do isolamento ou deste biombo social, que cresce e nos distancia, sequestrados que somos de nossos queridos, como sociedade, nação, o que seja, sempre será mais efetiva se destruída por dentro. Na imposição, a formação do ódio e a segregação podem ser sabotados. Pode-se resistir. Mas quando ele se instala por dentro, não precisa mais de controle externo”.