Conhece algum analfabeto existencial?

Dizem que falta amor no mundo. Talvez falte também interpretação de texto. Se Cristo é a chave hermenêutica das Escrituras, o amor é a chave hermenêutica da vida. Somente através das lentes do amor seremos capazes de compreender, de fato, a sua mensagem.

Saber de cor as letras do alfabeto não é o mesmo que saber ler. Ler exige reconhecer as combinações entre letras, sílabas e fonemas, percebendo os sentidos que emergem desse encontro. Saber soletrar palavras também não significa compreender o que está escrito. É preciso discernir o significado produzido pela relação entre elas.

Entender uma frase isolada é muito diferente de captar a mensagem que o texto inteiro deseja transmitir. Para isso, não basta observar apenas as palavras. É necessário atentar para os sinais, as vírgulas, os silêncios, os espaços e, sobretudo, para os sentimentos que o texto pretende despertar.

Assim também acontece com a vida.

Julgamos dominar assuntos, conhecer fatos, compreender pessoas e relacionamentos, quando, na verdade, muitas vezes não passamos de analfabetos funcionais da existência. Ou, simplesmente, analfabetos existenciais.

Gabamo-nos de títulos, diplomas e especializações, mas ainda não saímos do beabá da alma.

Estar informado sobre um fato não significa possuir a verdade.

Se alguém usa uma suposta verdade para chantagear, manipular, ameaçar, difamar ou obter vantagens, então o que possui não é a verdade, mas apenas fragmentos de informação possivelmente distorcidos, desencontrados, exagerados, adulterados ou mal interpretados. A verdade jamais serve à opressão. Sua vocação é libertar.

Muitas “verdades” carregam intenções inconfessáveis que, cedo ou tarde, acabam reveladas.

Não leia um livro pela metade e imagine conhecer sua conclusão. Não tente adivinhar o desfecho antes do tempo. Tampouco aceite spoilers de quem afirma saber tudo sobre a história. O que hoje parece sem sentido talvez encontre significado apenas no último capítulo.

A verdade que se revela no final, na realidade, esteve insinuando-se o tempo inteiro ao longo da trama. Pena que tantas vezes nos distraímos com informações inúteis e perdemos o essencial.

Dizem que falta amor no mundo. Talvez falte também interpretação de texto. Se Cristo é a chave hermenêutica das Escrituras, o amor é a chave hermenêutica da vida. Somente através das lentes do amor seremos capazes de compreender, de fato, a sua mensagem.

 Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Tire as sandálias dos teus pés”: www.neipies.com/tire-as-sandalias-dos-teus-pes/

Edição: A. R.

Especificidades de dois tipos de amor: o amor profissional e o amor familiar

O amor é a força da vida. E também a energia dos processos de aprendizagem. Mas, é importante perceber que se tratam de dois tipos de sentimentos.

O amor familiar se caracteriza por ser um suporte para que se tenha o prazer de bem viver. O amor profissional se caracteriza pela responsabilidade de ajudar a encontrar o prazer de aprender.

O primeiro representa o convite para a participação no banquete da vida. O segundo assegura que o aluno não é um intruso no banquete dos conhecimentos. O amor profissional se caracteriza pela relação com a beleza e a importância de cada Campo Conceitual, no domínio científico.

Sara Pain, em sua sabedoria, propõe a seguinte cena para simbolizar dois momentos básicos da relação professor e aluno.

Imagine-se viajando num trem, duas pessoas, uma olhando para a outra, sentadas frente a frente, se uma dessas pessoas dirigir seu olhar para a paisagem mutante que a janela do trem oferece, ocorre sempre, que a outra pessoa vai buscar o que a primeira passa a olhar. Isto é, para manter a tarefa ensinante, a professora precisa estabelecer afetivamente uma relação desejante de ensinar a cada aluno, sem excluir nenhum.

E, a cada dia, dirigir seu olhar para a riqueza das ideias do campo conceitual a ensinar. Se a professora não é, ela mesma, encantada pelo que ensina, dificilmente despertará verdadeiro interesse dos seus alunos pelo que tem como objetivo. Por outro lado, se a professora não estabelece uma certa cumplicidade com todos os seus alunos, tendo como núcleo as conceitualizações que ela se propõe a oferecer-lhes, certamente, os que ficarem fora desse vínculo, não aprenderão.

Essa competência não vem por si só, quando alguém se torna professor. O amor profissional do mestre, entre ele e alunos, é parte essencial das condições de sucesso dos atos de ensinar e de aprender. Mas, trata-se de um amor profissional diferente do familiar ou social. Ele se concretiza nas malhas do desejo do professor de proporcionar conhecimentos. O amor familiar e as amizades sociais se caracterizam provocando o gosto de sermos pessoas humanas bem relacionadas com outras.

Certamente, para além do amor profissional, como indispensável para bem ensinar, são necessários outros dois conhecimentos: o do conteúdo científico a propiciar aos alunos e o conhecimento de como ensinar esse conteúdo, que é um outro precioso campo científico – o da DIDÁTICA de cada campo conceitual.

E, para nossa felicidade há muito de novo nesse, também novo, campo científico de como se ensina, pois não se nasce professor. Precisamos nos tornar professores.

Autora: Esther Pilar Grossi, escrito em 15/09/2025, em uma de suas redes sociais. Já publicamos no site outras reflexões de sua autoria como Para que Escola de tempo integral: www.neipies.com/para-que-escola-de-turno-integral/ e A não-aprendizagem: violência instituída: www.neipies.com/a-nao-aprendizagem-violencia-instituida

Edição: A. R.

UPF concede título de Benemérito da Instituição a Ivaldino Tasca

Concedido pela primeira vez na história da Instituição, o título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento.

O jornalista, radialista, escritor, pesquisador e editor Ivaldino Tasca recebeu, na manhã desta terça-feira, 14 de julho, o título honorífico de Benemérito da Universidade de Passo Fundo (UPF), dedicado a personalidades que tenham prestado serviços relevantes à Universidade. Concedido pela primeira vez na história da Instituição, o título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento. A concessão foi realizada durante sessão do Conselho Universitário (Consun), com a presença de professores, familiares e amigos do homenageado.  

Repercutimos fala da Reitora da instituição, Professora e Doutora Bernadete Dalmolin.

Membros do Conselho Universitário / Professores, funcionários e acadêmicos da UPF/ Comunidade de Passo Fundo e região.

Querido homenageado, familiares e amigos

Senhoras e senhores, que acompanham esta homenagem.

Há pouco mais de um mês, a UPF comemorou 58 anos. Celebramos não apenas a passagem do tempo, mas o reconhecimento de uma história de inúmeras alegrias, desafios e aprendizados. Este momento privilegiado – o de aniversariar -, seja na vida das pessoas ou na vida das instituições, provoca o pensar sobre o caminho já percorrido e, por consequência, o reencontro com a própria essência.

É neste ponto que a história de Ivaldino Tasca e a história da Universidade de Passo Fundo se entrelaçam. Nascido em Barra Funda, mas passo-fundense de coração desde os seus 12 anos, Tasca compreendeu que o futuro de um povo depende da solidez com que ele preserva o seu passado.

A sensibilidade e a curiosidade de Tasca não o deixaram ser apenas um observador do nascimento e do crescimento da UPF, mas lhe permitiram registrar seu desenvolvimento e ter sua vida inteira muito ligada à Universidade.

Por suas palavras, estão salvaguardadas as memórias dos professores e dos funcionários fundadores, o testemunho dos precursores, a experiência dos que nos antecederam.

Foi ele quem reuniu essas vozes na obra “Eu & a UPF: memórias”. Com Tasca, também é possível resgatar a compreensão primeira da natureza comunitária de nossa universidade, seus valores e sua missão, no livro “O Comunitário na Identidade da Universidade de Passo Fundo”. Da criação do curso de Medicina às entrevistas históricas com o ex-reitor Elydo Guareschi, Tasca registrou os passos daqueles que lançaram as sementes da educação superior nesta região. Neste presente tão complexo, revisitar os princípios é vital para continuar a construir o futuro.

Com seus escritos, a história da Universidade ganhou materialidade e se transformou em um patrimônio acessível para as pessoas.

E este é o bem que Ivaldino Tasca fez à UPF: ao valorizar a nossa origem e nossa identidade, legitimou o esforço de milhares de professores, funcionários e acadêmicos que construíram esta casa de ensino, de pesquisa, de extensão, de inovação.

Sua produção bibliográfica deixa, assim, um acervo fundamental para as futuras gerações compreenderem as raízes culturais desta cidade e o desenvolvimento do ensino superior no norte gaúcho.

Entretanto, sua obra vai muito além da preservação da memória institucional. Ivaldino adentra temas diversos e complexos, revelando uma sensibilidade singular para perscrutar as entranhas da vida e dar voz ao que precisa ser denunciado, refletido e transformado.

Destaco, por exemplo, uma obra cujo título foi inspirado na poetisa portuguesa Florbela Espanca: É Pensando nos Homens que Eu Perdoo aos Tigres as Garras que Dilaceram. Nela, aborda a violência contra as mulheres com uma profundidade que ultrapassa fronteiras geográficas e gerações, revelando a permanência e a atualidade desse desafio humano e social.

Outro aspecto marcante de sua produção é a permanente inquietação intelectual que o leva a dialogar com múltiplas fontes narrativas e referenciais teóricos. Em suas obras, concede voz a diferentes pensadores e pensadoras que, sob distintas perspectivas, dedicam suas trajetórias à defesa, à promoção e à preservação dos direitos humanos, enriquecendo o debate e ampliando a compreensão sobre a condição humana.

Sua presença em nossa história, contudo, vai além do registo documental. Ao longo de mais de meio século, transitando pelo rádio e pelo jornalismo impresso, documentou a modernização do campo, a efervescência política e as transformações sociais da nossa região. Tornou-se, igualmente, um parceiro histórico do ecossistema cultural que a universidade promove, participando de projetos de mediação da leitura e da literatura, de eventos acadêmicos, de iniciativas de preservação da memória coletiva.

Neste momento solene, no qual a Universidade de Passo Fundo concede o título de Benemérito a Ivaldino Tasca, reconhecemos o bem que sua pessoa e o seu trabalho – como jornalista, escritor e pesquisador – fez à instituição. Sua trajetória é parte viva da nossa história acadêmica e motivo de grande orgulho para todos nós.

Igualmente, agradecemos aos seus familiares — sua esposa, Mara, sua filha, Janaína, e seu neto — que, sem dúvida, acolheram e sustentaram o tempo necessário para que a imaginação fecunda de Ivaldino Tasca transformasse acontecimentos, inquietações e memórias em obras que hoje pertencem a todos nós.

Receba este título de Benemérito com um abraço fraterno da sua Universidade.  Muito obrigada a todos!

Créditos fotos: Fotos: Camila Guedes/ Assessoria de Imprensa/UPF

(Professora e Doutora Bernadete Dalmolin, Reitora da UPF)

Edição: A. R.

O que me fascina em Passo Fundo!

Repercutimos a linda, emocionante e magnífica manifestação feita por Ivaldino Tasca em evento em sua homenagem na UPF (Universidade de Passo Fundo). O título Benemérito da Instituição foi concedido pela primeira vez na história da Instituição. O título designa alguém que, por seus serviços prestados e por sua dedicação, é digno de honras, recompensas ou reconhecimento.

Segue, na íntegra, a manifestação do homenageado que, gentilmente, nos cedeu o material. Ivaldo Tasca integra também a APLetras (Academia Passo-Fundense de Letras).

Começo com o que me fascina sobre Passo Fundo!

Quando nos desligamos de Cruz Alta, nos tornamos o 23º município do Estado: hoje somos 497 territórios. Desses 497 municípios, cerca de 120 – no todo ou em parte – estão no território original criado em 28 de janeiro de 1857.

Como município tínhamos área superior a 80 mil quilômetros quadrados e aqui viviam 7.586 pessoas. Esses 80 mil quilômetros são agora irrisórios 784,4 km², menor que a área do antigo distrito de Soledade que hoje possui 1.125 km² de extensão e aqui vivem perto de 217 mil pessoas!

Gosto de citar esses números para destacar que se o tamanho do território despenca, jamais perdemos o posto de terceiro polo de saúde dos três estados do Sul, de maior polo educacional e cultural da região, de pujante centro universitário, com setores comercial e construção civil de expressão no Norte gaúcho.

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Sigo com o que foi outro fator do alicerce que deu sustentação para nossa força, nosso vigor: em termos étnicos, ao contrário de todo o Norte gaúcho, onde cada recanto está no singular, Passo Fundo sempre esteve no plural.

Algo fundamental para nossa pujança. Primeiros foram os portugueses e afrodescendentes que, vindos de Sorocaba, São Paulo, acampavam aqui quando se dirigiam ao extremo sul em busca de mulas para as minas de prata de Potosí na Bolívia e de Minas Gerais.

Depois um abençoado processo migratório veio para fazer a diferença: os alemães são os primeiros a se fixarem e logo foram seguidos por italianos, sírios, libaneses, judeus, poloneses, austríacos, franceses e espanhóis…

Passo Fundo tem no TREM outro grande e determinante fator para se tornar Pólo Regional. Ele deslancha um processo desenvolvimentista que, no início do Século XX, nos fez “explodir.

Nas primeiras décadas desse século as mudanças econômicas, tecnológicas, culturais, sociais, artísticas são tão expressivas, tão marcantes que o período foi definido como a Belle Époque (Bela Época) passo-fundense e tem no trem um dos fatores primordiais para tal situação efervescente que traz a modernidade.

Quando inicia o Século 20, Passo Fundo começa a enriquecer com atuação dos empreendedores que foram fenomenais na produção primária, na implantação da indústria, na produção de cerveja, na exportação de madeira, consolidação de um comércio com repercussão regional, no cultivo e exportação erva-mate, na criação de gado, na produção de charque (uma de nossas charqueadas teve a dimensão daquelas que foram pujantes no Sul do Estado), na produção e exportação de embutidos para o centro do pais, nas olarias, no cultivo de grãos, na industrialização do leite…

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Em 1914, surge o Hospital de Caridade que vira Hospital da Cidade. Quatro anos depois, chega o Hospital São Vicente, numa pequena casa onde está o EENAV. Os dois são as raízes do que somos hoje: o terceiro polo medico dos três estados do sul. Hoje são 10 hospitais.

Foi num ritmo estonteante que chegamos na década de 1950, tendo, entre dezenas de outros fatores econômicos, políticos, sociais e culturais em um forte e competente ensino secundário – com Instituo Educacional, EENAV, Notre Dame, Conceição – que desperta a necessidade de uma Universidade.

Nesse contexto, surge a Sociedade Pró-Universidade de Passo Fundo (SPU), presidida pelo médico Cesar Santos e, em 1956, surge o Consórcio Universitário Católico, idealizado pelo Bispo Dom Cláudio Colling.

Da fusão de ambos, brota a Universidade de Passo Fundo, oficializada em cerimônia especial em 6 de junho de 1968, na qual discursei em nome dos universitários, embora contrariando alguns…

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Quando organizamos um livro em que 21 professores da UPF fazem rápida abordagem sobre sua passagem pela instituição, eu escrevi:

Que a obra pronta, por si só, nem sempre relata o sacrifício despendido para erguê-la, a quantidade de suor que escorreu dos rostos obreiros, os conflitos estressantes vivenciados por quantos nela estiveram envolvidos como parte de um sonho, nem de onde saiu o dinheiro para consolidá-la. Também não revela quantos cérebros e mãos foram preciso para consolidá-la. A obra já em uso no cotidiano raramente dá a ideia da envergadura do desafio enfrentado desde os primórdios. A contemplar a obra pronta poucos saberão do seu significado, das mudanças que provocou, do impacto causado em seu entorno.”

Depois de consolidada eu escrevi, em outro livro, que “A Universidade de Passo Fundo, que orgulha a todos, resultou de longa, e às vezes penosa, caminhada coletiva.”

“A UPF, como nosso grande patrimônio, resultante dessa capacidade criadora dos passo-fundenses, não é obra de uma pessoa, ou de um partido, ou de uma ideologia. Isso é um fato”.

Metade da década de 60, a década de 70, parte da década de 80, registram incríveis iniciativas positivas e estonteantes momentos perturbadores.

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Preciso dizer, também, desde logo, que se hoje estou aqui é graças a centenas de pessoas que dedicaram o melhor de suas vidas para tornar realidade o Ensino Superior em Passo Fundo. Elas é que deveriam estar aqui…

Muitas pessoas foram perseguidas, algumas foram obrigadas a deixar a cidade, outras foram presas e algumas, inclusive, torturadas.

Quando veio a ditadura, eu integrava o grupo que no Colégio Conceição organizou o primeiro curso de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, considerado subversivo após o golpe de 64.

Depois disso tudo foi complexo, assustador, pois tive intensa atuação como estudante universitário e, na sociedade, como jornalista.

Muitos fatos foram doentios, patológicos, insalubres e oprimiram também minha família. Foi também um tempo de queimar livros e diferente documentos de diferentes movimentos de luta contra a ditadura, com ajuda da mãe.

Quando presidi o Diretório Acadêmico João Carlos Machado, a direção da Faculdade de Direito entendeu como “terrível subversão” reagir contra o aumento das anuidades. Por causa disso fui defenestrado desse curso e do curso de Filosofia.

Como incurso na lei de Segurança Nacional por participar do Congresso da UNE em Ibiúna, nunca mais entrei numa sala de aula.

Foi um período de pressão e opressão. Em Passo Fundo, praticamente todos que tinham alguma postura política foram chamados pelo comando local da unidade do Exército para “explicações”. Eu estive lá, o padre Alcides lá esteve lá e vários estudantes e professores estiveram lá.

Na ânsia de controlar possíveis atividades subversivas, o Comandante cometeu exageros.

Nesse contexto, o fiscal do Imposto de Vendas e Consignações (IVC que virou ICMS) multou o negócio do meu pai que acabou falindo. Ao pedir, por exemplo, a nota de carne de ovelha, ele falou: sabe seu Tasca, tem que cuidar de seu filho, ele é tido como um comunista radical e isso não é bom…”

Quando contratado pela então pujante Cia. Jornalística Caldas Junior Caldas Junior, um destacado colega jornalista local liga para o diretor dizendo que era absurdo ter um subversivo como correspondente…

Entre várias circunstâncias de grupos que tisnaram a UPF, cito a tentativa de inviabilizar a candidatura do padre Alcides Guareschi a Reitor. Num dia de dezembro – creio de 1981 – o padre Eli Benincá chega na redação de O Nacional e informa que um grupelho estava articulado para impedir que o padre Alcides Guareschi fosse eleitor reitor da UPF.

O grupo, foi o que disseram, já tinha feito contato com Brasília, articulando ações para esse objetivo. O que fazer? O máximo que eu poderia fazer era produzir um texto denunciando tal postura.

Foi o que fiz. Pela complexidade do momento, solicitei que o padre Ely lesse o texto antes de publicar. Ele e leu e acho muito agressivo! Rescrevi, aumentei a agressividade e publiquei esse texto com o seguinte título: “Caça às bruxas continua: a abertura não chegou na Universidade de Passo Fundo.”

Em 1982, Guareschi foi escolhido reitor e um dia o padre Benincá me disse que, sem aquele meu escrito, isso não teria acontecido.

***

A Universidade de Passo Fundo (UPF) é uma instituição comunitária sem fins lucrativos, considerada um dos maiores polos educacionais do Sul do Brasil. Referência em ensino superior, pesquisa e inovação, a UPF se destaca por sua forte ligação com o desenvolvimento econômico e social do norte do estado gaúcho.

Possui conceito máximo (nota 5) em avaliações do Ministério da Educação (MEC) e é classificada como a 6ª melhor universidade privada do Brasil.

Neste momento, preciso agradecer por esta homenagem e não sei como. Estar aqui, hoje, é algo extraordinário para mim. Assim, apelo para o óbvio e do fundo do meu coração digo: muito obrigado à Universidade de Passo Fundo por este momento de felicidade.

Digo Obrigado para quem lutou pela UPF!

Da mesma forma digo muito obrigado por esses amigos que estão aqui neste momento me inundando de contentamento, de intensa satisfação e muita alegria.

Obrigado Mara, Janaína e Júlio!

Veja também: https://www.youtube.com/shorts/ZCF9B_P6YhI?t=2&feature=share

Créditos fotos: Arquivo pessoal/ Assessoria de Imprensa/UPF

Edição: A. R.

El Niño 1877 X El Niño 2026

Bastou o anúncio de que o El Niño, ora estabelecido, viesse a público e que poderia ser um evento de intensidade forte ou até muito forte, para surgir, nas redes sociais, não se sabe de onde, a comparação incomparável do El Niño de 2026 com o El Niño de 1877. Alto lá, hoje são outros tempos, outro mundo.

A história registra que, no último quartil do século XIX, marcando o final da Era Vitoriana (1837-1901), quando a economia mundial era comandada pelo padrão ouro (não pelo dólar) e o centro do mundo ficava em Londres (não em Washington, D.C.), houve três ondas de secas severas que deixaram um rastro de destruição e mortes na faixa tropical do Planeta.

Imagens de pessoas esquálidas, morrendo aos milhares, vitimadas pela fome, especialmente nas possessões inglesas na Índia, na África e na China, pela similaridade em atrocidade e guardadas as devidas diferenças de motivação, chegaram a merecer a denominação de “holocaustos” vitorianos.

Houve quem, muitos anos depois, identificasse as digitais de El Niño nessas catástrofes climáticas. Mas, afinal, foi El Niño ou o modelo econômico impetrado pelos britânicos o responsável pela tragédia humana associada com as secas vitorianas nos trópicos que, segundo alguns historiadores, teria sido a gênese do que se convencionou, mais tarde, chamar de “Terceiro Mundo”?

Bastou o anúncio de que o El Niño, ora estabelecido, viesse a público e que poderia ser um evento de intensidade forte ou até muito forte, para surgir, nas redes sociais, não se sabe de onde, a comparação incomparável do El Niño de 2026 com o El Niño de 1877. Outros tempos, outro mundo.

A previsão do El Niño atual está assentada em uma base robusta de conhecimento científico, enquanto o diagnóstico (não previsão) do El Niño de 1877 foi feito, retroativamente, por reconstrução indireta, carregando incertezas e margem de erro elevadas, uma vez que não havia, na ocasião, o monitoramento de temperaturas das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico, na faixa equatorial. Esse monitoramento seria implementado a partir do El Niño de 1982/83, com o advento do Programa TOGA (1º de janeiro 1985 a 31 dezembro 1994).

As secas que se instauraram no mundo entre 1876 e 1879 e 1896 e 1902, admite-se, sob os auspícios de El Niño, deixaram, por baixo, 30 milhões de mortos pela fome que se instaurou na população pobre em decorrência de perdas na agricultura. Isso contabilizando-se as vítimas apenas na Índia, na China e no Brasil.

As estatísticas, evidentemente carregadas de incerteza, para esses três países, variam entre 31,7 e 61,3 milhões de mortes, havendo quem não considera desarrazoado admitir que 50 milhões de vítimas foram deixadas por três ondas de fome e doenças que assolaram o mundo nos estertores da Era Vitoriana. As digitais nessas mortes seriam de El Niño ou melhor ser creditadas aos súditos da Rainha Vitória e sua insensibilidade para com os atingidos pelas catástrofes climáticas ao levarem ao extremo do sagrado o liberalismo econômico de Adam Smith, o utilitarismo das leis de Jeremy Bentham e os princípios de liberdade e moral professados por John Stuart Mill?

Outro ponto de dificuldade extrema e repleto de controvérsias, para sustentar qualquer comparação minimamente razoável entre o El Niño de 1877 e o El Niño de 2026, é a chamada atribuição de impactos a eventos climáticos extremos. Quase sempre, contabilizados em impactos humanos, via mortalidade e morbidade; econômicos, pelos custos diretos e indiretos dos danos causados e coberturas de indenização pagas por seguradoras; e ambientais, que; não raro, são mascarados pelo grau de exposição e vulnerabilidade. A vulnerabilidade e exposição dos indianos, chineses e da população nordestina, no caso do Brasil, diante de uma seca severa associada com o El Niño de 2026, seria a mesma de 1877?

O sistema mundial de alimentação, pelo lado da oferta de alimentos no mundo hoje, não guarda a mínima relação com o que vigia em 1877, para que alguém considere plausível a morte de 50 milhões de pessoas por inanição.

Em comum com a Índia, no final do século XIX, especialmente na Região Nordeste do Brasil, os investimentos ingleses imperavam.

A região seria uma espécie de “colônia inglesa informal”. Nesse ambiente, região sensível a El Nino, assim como, pela falha das monções, na Índia, a seca também grassou no Nordeste, espalhando pobreza e mortes. A pregação de Antônio Conselheiro atraiu para as suas hostes muitos retirantes marcados pela fome e pobreza extrema causadas pelas secas que, atualmente, podem, sim, ser associadas com El Niño. No entanto, as digitais de El Niño, no caso brasileiro, não são encontráveis no cadáver de Antônio Conselheiro, que, dizem, não sem controvérsias, morreu de causas naturais; mas na pena de Euclides da Cunha nas páginas de Os Sertões, ao retratar a Guerra de Canudos, 1896-1897.

Em vez de dar ouvidos a comparações incomparáveis, tipo essa El Niño 1877 X El Niño 2026, ou dar voz a negacionistas de plantão, sugerimos o acompanhamento das previsões oficiais do fenômeno ENOS (El Niño – Oscilação Sul) e a montagem de estratégias para que não sejamos surpreendidos quando El Niño (e suas anomalias climáticas associadas) dar o ar da sua graça.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Olha o Super El Nino aí, gente!”: www.neipies.com/olha-o-super-el-nino-ai-gente/

Edição: A. R.

Uma cidade contadora de histórias

Contar histórias sempre ocupou papel central no desenvolvimento do ser humano enquanto espécie. Hoje, porém, a narração oral ganhou dimensão ainda maior: é vista como arte, engaja muitas pessoas como profissionais na atuação e é um motor da economia criativa. Basta ver o número de projetos, festivais, encontros e outras manifestações promovidas no Brasil e no mundo. Passo Fundo, claro, não fica fora dessa.

Considerada a Capital Nacional da Literatura, a cidade de Passo Fundo sempre apresentou vocação narradora. Desde as Jornadas Literárias, com a promoção de debates e apresentações, passando por iniciativas como o Bando de Letras, as intervenções do Mundo da Leitura, da UPF, dentre outras, muitas foram as mãos e mentes impulsionando o gosto pelas narrativas. Todavia, foi nos últimos anos, sobretudo na última década, que a narração oral de histórias ganhou ainda mais vigor em nosso território.

A inserção de novos profissionais dinamizou a cena cultural da cidade. Iniciativas de grupos e produtores independentes, da Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski, do SESC, da Academia Passo-Fundense de Letras e de diversos agentes ajudaram a dar um sentido novo à oralidade.

A gama de projetos se expandiu, os espaços foram preenchidos com intervenções variadas e até intercâmbio com outros artistas e outras cidades foram promovidos. Em determinado momento, percebeu-se a necessidade de avançar um pouco mais. E, em 2025, foi aprovada e promulgada a Lei Ordinária 5.988, de proposição do vereador Douglas Pereto, instituindo a Semana Municipal do Contador de Histórias. Estava concretizado o reconhecimento via Poder Público de um trabalho de muitos anos.

A instituição legal desse momento dedicado aos narradores orais foi apenas um primeiro passo para poder estimular ações, busca de recursos e mais participação pública na arte e na cultura.

De imediato, já em março de 2026 (mês dedicado ao artista da palavra oral), foi realizada a 1ª Semana do Contador de Histórias, com atividades em diversos pontos da cidade. Uma delas foi o encontro de profissionais da área e interessados nas dependências da APL. Tendo como objetivo o compartilhamento de experiências e ideias, o momento serviu para um alinhamento mais preciso sobre a capacidade de atuação em Passo Fundo, os desafios do ofício e, sobretudo, qual o papel que deveria ser assumido diante dessa nova perspectiva. As conversas renderam bons frutos e estimularam ainda mais a continuidade desse trabalho.

De agora em diante é necessário ainda mais esforço, tanto dos agentes culturais, quanto do Poder Público e da sociedade civil. Todos aqueles que tiverem a oportunidade da partilha de narrativas, seja no âmbito do lar, ou a nível profissional; que puderem acompanhar espetáculos, consumir produtos artísticos, divulgar artistas, devem fazê-lo.

Como dizia o poeta Antonio Machado, “caminhante, não há caminho/o caminho se faz ao andar”, temos a plena consciência de que é com o engajamento conjunto que conseguiremos chegar a um patamar de excelência no respeito à oralidade e tudo o que ela simboliza: memória, pertencimento, conexão.

***

A literatura em Passo Fundo tem se aprimorado muito nos últimos anos. Novas — e competentes! — editoras surgiram, autores se profissionalizaram, o número de contadores de histórias cresceu e as produções locais têm alcançado todo o Estado, quiçá o país.

O escritor e contador de histórias Gabriel Cavalheiro Tonin, o Gabito, é prova viva disso. Com uma vasta criação de livros e projetos, ele se aprimora a cada passo, apresentando obras dignas dos maiores catálogos. Neste episódio do Literatura Local, ele nos apresenta seu mais novo livro infantil, A Abelha e a Flor, lançado pela editora Giostri, de São Paulo!

Publicada pelo selo Giostrinho, a obra é o segundo volume de uma jornada que começou quando Gabito venceu um concurso da editora. Como tudo que é bom merece bis, ele lança agora, pela mesma casa editorial, a continuação desse enredo.

Em nosso bate-papo, também falamos sobre a formalização da Associação de Contadores de Histórias, entre outros assuntos essenciais para a nossa literatura. (Aleixo da Rosa)

Confira!

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin (Gabito). Também escreveu e publicou no site “Salvem a leitura”: https://www.neipies.com/salvem-a-leitura/

Edição: A. R.

A poesia segundo Mário Quintana

O poeta brasileiro Mário Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Ele faleceu em Porto Alegre no dia 5 de maio de 1994, aos 87 anos. Em sua homenagem, no mês de julho, editamos uma Carta escrita por ele aos poetas.

Meu caro poeta,

“Por um lado, foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa.

A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio.

Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos.

Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano.

O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.)

Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos.

Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico.

Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos.

E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

(Mario Quintana, em “80 anos de poesia”, ed. Globo, 2008)

Ouça e assista também bela homenagem à Mario Quintana: https://youtu.be/nFtO44LY-m4?si=hkYYkWcXzuD4VeFV

FONTE: https://www.algumapoesia.com.br/prosa/prosa005.htm

Edição: A. R.

É hora de virar a página

O enfraquecimento da leitura no Brasil não pode ser tratado como falha individual; para ela, a questão é estrutural. “Não se muda a realidade só com campanhas de incentivo à leitura. São necessárias estratégias governamentais que garantam condições de acesso ao livro e à leitura”.

Márcio acorda todos os dias por volta das 7 horas. Após despertar no banho, toma café e vai até o ponto de ônibus. Depois de um trajeto de cerca de 20 minutos, chega no trabalho. Às 18h, bate o último ponto do dia. 20 minutos de condução, chega em casa, exausto. Encerradas as tarefas domésticas, deita em seu sofá e passa horas rolando a tela do TikTok e do Instagram. Dorme e acorda para um novo dia.

Essa não é somente a história de Márcio, personagem fictício criado para esta matéria, mas de milhões de outros brasileiros das mais variadas idades. Após um dia de trabalho, o único alívio encontrado é sentar-se ou deitar-se confortavelmente enquanto rola o feed.

E essa realidade se torna preocupante: uma pesquisa feita pela consultoria Consumer Pulse revelou que os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia navegando na internet. Desse tempo, mais de 3 horas são dedicadas às redes sociais. Esse dado coloca o Brasil acima da média mundial, que é de 6 horas e 38 minutos.

Enquanto o celular ocupa horas do dia, a leitura de um livro acaba ficando para depois. Ao mesmo tempo que as redes sociais servem de escape nas brechas da rotina — dentro do transporte, intervalo do almoço, cansaço antes de dormir — ler requer um investimento contínuo de atenção, incompatível com a agenda de tarefas.

Ler é mais do que decodificar palavras

A discussão sobre leitura vai além da simples ideia de “incentivar o hábito”. Para a professora e pesquisadora da área de Letras da Universidade de Passo Fundo, Dra. Fabiane Verardi, a literatura precisa ser entendida como um direito formativo. “A literatura é um direito básico, tão essencial para a formação humana quanto a saúde ou a alimentação”, afirma. “O uso intenso do celular como forma de entretenimento está relacionado às condições de vida de grande parte da população brasileira. Quando o orçamento é apertado e o cansaço é constante, o celular aparece como opção barata e imediata. Tendo em vista o valor elevado dos livros no Brasil, estes itens passam a ser vistos como algo supérfluo, até inacessível”, critica Fabiane.

“A literatura é um direito básico, tão essencial para a formação humana quanto a saúde ou a alimentação”.

Não é “reaprender” a ler, mas desacelerar

Em meio a rotina hiperestimulada pelas redes sociais, fala-se com frequência que as pessoas “desaprenderam” a ler, mas a professora prefere outro caminho. “Não se trata de impor o livro como oposição às telas, mas de mostrar que existem diferentes modos de atenção”, diz a professora.

Para ela, o desafio é recriar condições para que a leitura profunda volte a acontecer, o que envolve desacelerar práticas escolares, diminuir a fragmentação excessiva das atividades e valorizar o tempo de encontro com o texto. “Crianças e jovens que crescem imersos nas telas desenvolvem uma relação com a informação marcada pela rapidez, fragmentação e alternância de estímulos, e isso impacta a formação do hábito da leitura”, comenta.

A falha na literatura é um problema estrutural


Apesar disso, a especialista alerta que o enfraquecimento da leitura no Brasil não pode ser tratado como falha individual; para ela, a questão é estrutural. “Não se muda a realidade só com campanhas de incentivo à leitura. São necessárias estratégias governamentais que garantam condições de acesso ao livro e à leitura. Muitas escolas convivem com bibliotecas precarizadas. Elas precisam ser fortalecidas, além de atualizar os acervos e formar mediadores e bibliotecários. Outra estratégia também é criar políticas de isenção ou redução de impostos sobre livros, tornando-os mais acessíveis”, aponta.

Ela também chama atenção para o avanço de discursos de censura. “Existe hoje um fenômeno de discursos de desconfiança com a literatura, como se determinados livros pudessem ‘modelar’ ou ameaçar crianças e jovens. A literatura não impõe modos de ser, mas amplia horizontes de compreensão do mundo e do outro. Censurar livros é negar o direito à leitura como direito cultural”, salienta Fabiane.

Para Fabiane Verardi, a escola ainda é o principal espaço de formação de leitores, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais. Para muitas crianças e jovens, é o único local onde o livro circula. No entanto, a questão central é o lugar que a literatura ocupa no projeto educacional do país.

“A leitura literária é tratada como atividade acessória, subordinada a demandas avaliativas, revelando uma concepção empobrecida de formação, voltada ao desempenho e não à constituição do sujeito”, comenta. 

As redes sociais também podem ter um papel positivo, funcionando como porta de entrada. Perfis, clubes de leitura e projetos literários ajudam a aproximar o livro do cotidiano, mas não substituem a experiência de leitura prolongada.

“Há perfis, projetos e comunidades que usam as redes para falar de leitura com profundidade, indicar obras, promover clubes de leitura. As redes sociais podem atuar como aliadas secundárias, desde que estejam a serviço de uma concepção de leitura que valorize a experiência literária em sua integralidade”, ressalta ela.

Segundo ela, a escola deve aproximar as famílias para ampliar a literatura dentro de casa, junto às crianças e jovens. “Família, bibliotecas públicas, centros culturais, projetos comunitários e coletivos de leitura podem e devem ampliar as experiências leitoras, oferecendo outros modos de encontro com o livro e com a literatura. A perda do hábito de leitura não pode ser dissociada de escolhas políticas, pois ela é resultado de um projeto que ora negligencia, ora controla a literatura, em vez de reconhecê-la como bem público. A leitura se constrói quando há continuidade, presença e sentido”, resume.

“Investir em bibliotecas vivas, garantir a presença estruturante da literatura no currículo, formar mediadores e afirmar, de forma inequívoca, que ler não é privilégio nem ameaça, mas condição para uma educação democrática e humanizadora”.

Literatura que iniciou na infância e continua na graduação

Entre os exemplos de quem mantém o vínculo com os livros está a estudante de Jornalismo da UPF Ana Paula Comin. No 5° nível do curso, Ana começou a ler ainda na infância. “Meu interesse começou com os gibis da Turma da Mônica e chegou à série Goosebumps”, comenta Ana. Hoje, ela prefere suspenses e thriller psicológico.

Para Ana, a leitura é uma forma de se distanciar das telas. “Ela amplia o vocabulário, melhora a escrita e estimula o nosso pensamento crítico”, enfatiza.

Fã de Raphael Montes, ela diz que a Universidade também amplia horizontes: “Com textos mais críticos e novas formas de interpretação, as leituras da graduação me tiram da zona de conforto e expandem meu repertório”, finaliza Ana.

Créditos: Luís Henrique de Melo/ Assessoria de Imprensa UPF

Legenda: Bibliotecas de acesso público como a da UPF oferecem mais de 290 mil exemplares de livros à comunidade

Edição: A. R.

Um livro sobre mulheres nos palcos

Repercutimos e reconhecemos a relevância de uma interessante obra sobre a história de 58 mulheres em palcos de teatro na cidade de Passo Fundo pela Caseira Editora. Esta obra é organizada por Cilene Maria Potrich, uma das precursoras do teatro local e professora universitária.

“Palavras de Teatro: Mulheres em Cena” ou, alternativamente, “Mulheres em Cena: Palavras de Teatro” é um livro que tem como objetivo principal registrar e celebrar a valiosa contribuição feminina nos palcos dos grupos de teatro que criei, coordenei e acompanhei na cidade de Passo Fundo/RS desde os anos 90. Com grande alegria, apresento os depoimentos de 58 mulheres que se tornaram peças fundamentais nessa trajetória.

As narrativas aqui tecidas são repletas de histórias que revelam experiências pessoais e coletivas, permeadas de subjetividade, emoção e verdade. Cada relato é um fragmento das vivências que moldaram não apenas suas vidas, mas também a história do teatro em nossa cidade.

É fundamental ressaltar que este livro é um tributo, uma homenagem, um reconhecimento às valorosas mulheres que, no final do século passado e início deste, desafiaram normas, superaram preconceitos, doaram seu tempo e uniram-se a mim em uma tarefa desafiadora: erguer, do absolutamente nada, grupos de teatro que, ao longo de trinta anos de trabalho e resistência, conquistaram dezenas de prêmios e reconhecimento nacional.

Sim, este livro se propõe a homenagear as mulheres. No entanto, é importante destacar que a participação masculina nos projetos e espetáculos foi igualmente imprescindível e formidável.

Este não é um livro didático, pedagógico ou sobre a história do teatro; é, antes, uma obra poética que acolhe, com respeito e gratidão, as vozes honestas e sensíveis das 58 entrevistadas. A proposta é que as palavras de teatro dessas mulheres, que criaram tantas cenas aqui tão bem lembradas e narradas, revelem o êxito, o reconhecimento e a continuidade do trabalho iniciado há trinta anos com esses grupos.

A leitura das entrevistas a seguir é uma experiência estética que, em sua essência, traz memórias, arte, entrega e verdade! As belíssimas cenas narradas são um espetáculo! Aproveitem!

Cilene Maria Potrich

Destacamos, também, o depoimento de uma das entrevistadas no livro “Palavras de Teatro: Mulheres em Cena”, a professora Vanessa Hickmann e da Professora Bernadete Dalmolin.

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“Há pessoas que transformam a vida dos outros com a mesma delicadeza com que criam arte. Assim é ela: artista por essência e psicóloga por vocação, alguém que acolhe, inspira e desperta possibilidades.

Como no verso de Carlos Drummond de Andrade, “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, ela carrega consigo a beleza de acreditar no potencial humano. E, mais do que sonhar, dedica sua caminhada a ajudar inúmeras pessoas a reconhecerem seus próprios sonhos, fortalecendo-as para que tenham coragem de realizá-los.

Se andarmos pelas ruas, facilmente encontraremos pessoas que foram despertadas por seu incentivo ou receberam apoio em seus projetos. Mas, Cilene Potrich é ainda mais, é avó, é mãe, é amiga. Sua arte colore a alma, sua escuta restaura esperanças e sua presença faz florescer caminhos.

(Vanessa Hickmann, Coordenadora da Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski e com depoimento publicado no livro “Palavras de Teatro: Mulheres em Cena”).

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“A experiência teatral vivida na UPF ensinou o valor da escuta, a força do coletivo, o exercício da empatia. Muitas seguiram na arte; outras, em diferentes áreas do conhecimento e da vida. Mas todas referem levar consigo aprendizados significativos de coragem e transformação. Ao ler os depoimentos, me veio a imagem das ferramentas mágicas das avós arquetípicas de Estés: a vela acesa, a palavra certa, o coração atento. Palavras de Teatro: Mulheres em Cena resgata essa alteridade feminina: uma vela que acende outras. Um gesto de quem cuida, acolhe, nomeia e fortalece.

(Professora Doutora Bernadete Dalmolin)

Esta obra está disponível para empréstimo na Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski.

Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

Edição: A. R.

Tato Pedagógico: uma reflexão a partir do currículo e do professor

Na minha avaliação, o projeto que está sendo desenvolvido por Johana Lorena demonstra maturidade teórica ao assumir que o currículo não constitui simplesmente um instrumento de organização do ensino, mas um espaço de produção de sentidos, de disputas políticas e de constituição das formas de ser professor.

Na tarde de 2 de julho, tive a alegria de fazer parte da banca Johana Lorena Gómez Viasus, a qual qualificou seu projeto de tese intitulado El tacto pedagógico y el currículo inclusivo, prácticas, discursos y experiências, orientada pelo Dr. Óscar Pulido Cortes. Johana Lorena é doutoranda da Universidad Pedagógica y Tecnológica da Colômbia. Estiveram na banca, além do Dr. Altair Alberto Fávero (Gepes/PPGEdu/UPF/Brasil), a Dra Myriam Cecilia Leguizamon González (UPTC – Colômbia) e o Dr. Jaime Ricardo Cristancho Chinome (UPTC – Colômbia).

Decidi divulgar a pesquisa nesta coluna, pois acredito que a investigação conduzida por Johana Lorena apresenta contribuições importantes, não só para o âmbito acadêmico, mas também, de modo especial, para a educação básica.

O projeto de tese “El tacto pedagógico y el currículo inclusivo: prácticas, discursos y experiencias”, apresenta uma proposta investigativa consistente, intelectualmente sofisticada e alinhada às discussões contemporâneas desenvolvidas no campo da Pedagogia e da Didática, particularmente às perspectivas pós-estruturalistas e pós-humanistas que vêm sendo consolidadas na pesquisa educacional latino-americana. O estudo propõe analisar a configuração do tato pedagógico nas práticas docentes relacionadas ao currículo inclusivo em instituições educativas do departamento de Boyacá, tomando como eixo interpretativo as relações entre práticas pedagógicas, currículo, diferença, inclusão e processos de subjetivação.

Na minha avaliação, o projeto que está sendo desenvolvido por Johana Lorena demonstra maturidade teórica ao assumir que o currículo não constitui simplesmente um instrumento de organização do ensino, mas um espaço de produção de sentidos, de disputas políticas e de constituição das formas de ser professor.

Da mesma maneira, o tato pedagógico deixa de ser concebido como uma qualidade psicológica ou uma competência individual para ser compreendido como uma prática relacional, corporal e historicamente situada. Essa inflexão epistemológica constitui um importante avanço em relação às interpretações clássicas do conceito, aproximando-o das discussões contemporâneas sobre subjetivação, corporalidade e acontecimento pedagógico.

Aproveito para destacar que a pesquisa de Johana Lorena demonstra elevado potencial para produzir contribuições originais ao debate contemporâneo acerca da formação docente e das práticas pedagógicas, especialmente porque procura construir o tato pedagógico como uma importante categoria analítica, tornando-se uma espécie de operador teórico-metodológico capaz de compreender modos de relação que escapam às abordagens normativas tradicionalmente utilizadas na investigação da inclusão escolar.

Johana Lorena é integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior (Gepes/UPF). Iniciou sua participação no Gepes no segundo semestre de 2025 e teve a publicação do Capitulo “Tacto Pedagógico: una lectura desde el currículo e el maestro” e co-autoria com seu orientador (Dr. Oscar Pulido Cortez) 16ª Coletânea do Gepes publicado em maio, o qual foi mencionado na sua qualificação. Na sequência, apresento uma breve síntese do capítulo com a finalidade de divulgar alguns aspectos do projeto de tese que está em curso.

O capítulo “Tato Pedagógico: uma leitura a partir do currículo e do professor”, de Johana Lorena Gómez Viasús e Oscar Pulido Cortés, apresenta os resultados iniciais de uma pesquisa desenvolvida no campo da pedagogia e dos estudos curriculares.

O propósito central consiste em desenvolver uma reflexão crítica sobre o tato pedagógicocomo umacategoria teórico-metodológica capaz de problematizar a relação entre currículo, professor e prática pedagógica. Para isso, os autores mobilizam ferramentas analíticas inspiradas no pensamento de Michel Foucault, articuladas com contribuições do Grupo História da Prática Pedagógica na Colômbia (GHPP) e com perspectivas críticas do currículo, especialmente as formulações de Tomaz Tadeu da Silva (1999).

Desde a introdução, Gómez Viasús e Pulido Cortés (2026) deixam claro que não pretendem definir o tato pedagógico como um conjunto de competências pessoais, habilidades técnicas ou comportamentos desejáveis do professor. Ao contrário, procuram compreendê-lo como uma dimensão ética, relacional e situada da prática pedagógica, capaz de revelar as múltiplas formas pelas quais o currículo ganha vida na experiência educativa. Nessa perspectiva, o tato pedagógico constitui uma categoria que permite analisar como os professores pensam, agem e atribuem sentido às suas práticas, reconhecendo que a formação humana ocorre em contextos históricos, políticos e culturais marcados por relações de saber e poder.

A fundamentação teórica da pesquisa está fortemente apoiada na concepção foucaultiana de prática. Para os autores, as práticas pedagógicas não podem ser reduzidas à aplicação de teorias ou metodologias previamente estabelecidas. Elas constituem espaços de produção de saberes, subjetividades e relações de poder, nos quais professores e estudantes são continuamente constituídos como sujeitos. Essa perspectiva aproxima-se das contribuições de Noguera e Marín, Zuluaga (2017) e outros pesquisadores do GHPP, que compreendem a prática pedagógica como um campo de experiência capaz de produzir modos específicos de ser professor e de formar sujeitos.

A partir desse referencial, Gómez Viasús e Pulido Cortés (2026) defendem que pensar a educação contemporânea exige questionar permanentemente os modos pelos quais os sujeitos são formados, bem como os projetos de sociedade que se expressam nas práticas escolares. Nesse contexto, o professor assume um papel decisivo, pois não atua apenas como executor de prescrições curriculares, mas como sujeito que problematiza a formação, interpreta os contextos e toma decisões que transformam o currículo em experiência educativa.

O primeiro grande argumento desenvolvido no texto consiste na compreensão do currículo como um campo de tensões, disputas e possibilidades, afastando-se das concepções tradicionais que o identificam exclusivamente com planos de ensino, conteúdos ou documentos oficiais.

Dialogando principalmente com Tomaz Tadeu da Silva (1999), Gómez Viasús e Pulido Cortés (2026) sustentam que o currículo deve ser entendido como um espaço de produção de significados sociais, identidades e formas de subjetivação. Trata-se de um território atravessado por disputas políticas, culturais e epistemológicas, onde determinados conhecimentos são legitimados enquanto outros permanecem invisibilizados.

Essa compreensão amplia significativamente o conceito de currículo. Mais do que organizar conteúdos, ele participa da produção de modos de existir, de compreender o mundo e de relacionar-se com os outros.

O currículo, portanto, não é neutro nem universal; é historicamente construído e permanentemente atravessado por relações de poder. Por essa razão, ele não pode ser compreendido como uma estrutura fechada que determina integralmente a prática docente. Ao contrário, constitui um campo aberto, no qual diferentes interpretações, resistências e possibilidades de criação permanecem em constante disputa (Gómez Viasús e Pulido Cortés, 2026).

Os autores argumentam que assumir o currículo como possibilidade implica reconhecer seu caráter relacional e situado. O currículo somente adquire existência concreta quando é vivido nas práticas pedagógicas cotidianas. São os professores, em interação com os estudantes, os saberes e os contextos específicos, que atualizam continuamente os sentidos curriculares. Dessa forma, o currículo deixa de ser concebido como algo que simplesmente se implementa e passa a ser entendido como uma realidade permanentemente reconstruída na experiência escolar (Gómez Viasús e Pulido Cortés, 2026).

Essa perspectiva conduz ao segundo eixo central do capítulo: o professor como acontecimento pedagógico. Inspirando-se na leitura foucaultiana do conceito de acontecimento, mediada por Edgardo Castro (2018), os autores afirmam que o professor não ocupa uma posição neutra diante do currículo. Sua atuação ocorre sempre no interior de relações de força, de conflitos, negociações e possibilidades de transformação.

Caracterizar o professor como acontecimento pedagógico significa reconhecer que sua prática produz deslocamentos capazes de modificar as condições da formação. Esses deslocamentos nem sempre decorrem de grandes inovações metodológicas; frequentemente manifestam-se em gestos discretos, decisões cotidianas, perguntas inesperadas, formas de escuta, silêncios oportunos e intervenções sensíveis que alteram profundamente a experiência educativa.

O currículo ganha vida precisamente nesses acontecimentos que escapam às prescrições normativas e permitem a emergência do novo (Gómez Viasús e Pulido Cortés, 2026).

Gómez Viasús e Pulido Cortés (2026) recusam qualquer idealização da figura docente, pois para eles professor não é concebido como herói nem como sujeito soberano que controla integralmente o processo educativo. Sua potência reside justamente na capacidade de interpretar situações concretas, estabelecer relações significativas entre conhecimentos e estudantes e abrir espaços para experiências formativas imprevisíveis. Nessa direção, o currículo deixa de funcionar como roteiro rígido e passa a constituir um campo de possibilidades continuamente recriado pelo trabalho docente.

As reflexões de Walter Kohan (2013) contribuem decisivamente para aprofundar essa compreensão. Segundo os autores, ensinar não significa apenas transmitir conteúdos, mas construir uma relação ética com o conhecimento e com o outro.

O verdadeiro trabalho do professor consiste em despertar nos estudantes uma determinada relação com o aprender, tornando o conhecimento uma experiência que transforma a vida. A docência é compreendida como uma sensibilidade intelectual, na qual pensamento, responsabilidade ética, afeto e compromisso político tornam-se inseparáveis (Gómez Viasús e Pulido Cortés, 2026).

Essa concepção desloca o foco da competência técnica para a dimensão relacional da docência. O professor inspira, provoca, acolhe e cria condições para que os estudantes possam pensar, compreender e produzir novos sentidos sobre si mesmos e sobre o mundo. O currículo, nessa perspectiva, transforma-se em experiência compartilhada, construída por relações de hospitalidade, respeito e abertura à alteridade.

Ao relacionar essas discussões com a tradição pedagógica colombiana, especialmente com os trabalhos de Olga Lucía Zuluaga Garcés (1999) e do Grupo História da Prática Pedagógica, os autores reafirmam que a prática pedagógica constitui o espaço privilegiado onde o currículo é produzido, legitimado e permanentemente transformado. Não se trata de um simples local de aplicação de políticas educacionais, mas de um campo complexo de produção de saberes, subjetividades e experiências formativas.

É precisamente nesse cenário que emerge o conceito de tato pedagógico. Em diálogo com Josep Maria Asensio (2010) e Max van Manen (1998), os autores afirmam que o tato não corresponde a uma técnica, tampouco pode ser convertido em um conjunto de procedimentos normativos. Trata-se de uma disposição ética e sensível que orienta o professor diante da singularidade de cada situação educativa. O tato manifesta-se na delicadeza dos gestos, na prudência das decisões, na escuta atenta, na capacidade de interpretar o inesperado e na responsabilidade de agir considerando a singularidade de cada estudante.

Assim, o argumento central da primeira parte do artigo consiste em demonstrar que a relação entre currículo, professor e prática pedagógica somente pode ser compreendida quando o currículo é reconhecido como um campo aberto de disputas, o professor como sujeito que encarna e transforma esse currículo em experiência formativa e a prática pedagógica como espaço onde essas relações se materializam.

O tato pedagógico começa, então, a configurar-se como o operador conceitual que permite compreender como essas três dimensões se articulam de maneira dinâmica, ética e situada, abrindo possibilidades para pensar uma formação menos prescritiva e mais sensível às singularidades da experiência educativa (Gómez Viasús e Pulido Cortés, 2026).

Para os que desejarem ler o capítulo na íntegra, segue o link da coletânea que pode ser acessado gratuitamente. O capítulo está localizado entre as páginas 637-660: https://www.researchgate.net/publication/404921723_Formacao_Curriculo_e_Politicas_Educacionais

Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

Referências:

ASENSIO AGUILERA, Josep Maria. El desarrollo del tacto pedagógico. Barcelona: Graó, 2010.

CASTRO, Edgardo. Diccionario Foucault. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2018.

FOUCAULT, Michel. Microfísica del poder. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2021.

GÓMEZ VIASÚS, Johana Lorena; PULIDO CORTÉS, Óscar. Tacto pedagógico: uma lectura desde el currículo y el maestro. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; BELLENZIER, Caroline Simon; CENTENARO, Junior Bufon (Orgs.). Formação, Currículo e Políticas Educacionais. 1. ed. Passo Fundo/RS: Editora UPF, 2026, p.637-660.

KOHAN, Walter Omar. El maestro inventor: Simón Rodríguez. 1. ed. Buenos Aires: Miño y Dávila Editores, 2013.

NOGUERA RAMÍREZ, Carlos Ernesto; MARÍN DÍAZ, Dora Lilia. Saberes, normas y sujetos: cuestiones sobre la práctica pedagógica. Educar em Revista, v. 33, n.º 66, p. 37–56, 2017.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução as teorías do Currículo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

Van Manen, M. (1998). El tacto en la enseñanza. Paidós. ZULUAGA GARCÉS, Olga Lucía. Pedagogía e historia: la historicidad de la pedagogía. La enseñanza, un objeto de saber. Barcelona: Anthropos; Medellín: Universidad de Antioquia; Bogotá: Siglo del Hombre Editores, 1999.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da UPF. Também escreveu e publicou no site “Plataformização da educação e a indução de um currículo escolar administrado”: www.neipies.com/plataformizacao-da-educacao-e-a-inducao-de-um-curriculo-escolar-administrado/

Edição: A. R.

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