Quando um gênio descreve um herói passando para a história

Artigas é o herói do Uruguai: criou as bases para sua independência. Lutou contra espanhóis, portugueses, argentinos, brasileiros, paraguaios… Até que derrotado em Taquarembó, retirou-se.

A vida de Artigas (1764 – 1850) foi construída por uma sucessão impressionante de grandes momentos. Porém, o mais marcante, apesar de menos importante que outros tantos, acabou sendo o de sua chegada ao exílio voluntário em Assunción do Paraguai.

Por quê?

Porque um gênio, Euclides da Cunha (1866 – 1909), “encontrou” esse herói e optou por descrever esse exato momento de sua extensa vida.

Artigas é o herói do Uruguai: criou as bases para sua independência. Lutou contra espanhóis, portugueses, argentinos, brasileiros, paraguaios… Até que derrotado em Taquarembó, retirou-se.

Era o ano de 1820. Cinco anos depois, seus sucessores – não necessariamente seguidores -, decretaram a independência.

Conta-nos Euclides:

“Num dia de setembro de 1820 chegou à tristonha Assunção, um prisioneiro ilustre e sexagenário, a quem, não se concedera o pleito da mais diminuta escolta. Vinha só; passou, a cavalo, pelas longas ruas retilíneas e retangularmente cruzadas, entre janelas de grades, à maioria de extensos corredores de uma prisão vastíssima, e descavalgou no largo onde se erige o palácio do governo”.

“Prisão vastíssima” porque era toda a cidade de Assunção e o exílio lhe era uma prisão.

“Viu-se então que a idade o não abatia. Num desempenho de rapaz atlético aprumava-se-lhe a estatura elegantíssima entre as voltas do poncho desbotado que lhe desciam até às botas de viagem, flexíveis e armadas das rosetas largas das esporas retinindo ao compasso de um andar seguro. Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela face rígida, cindida de linhas incisivas e firmes – como se um buril maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos e nervos – um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescritível”.

Lembremos que “buril” é um instrumento de aço temperado com ponta afiada, utilizado por artistas para ir retirando pedaços de um bloco de pedra até transformá-lo em uma estátua. “Como se um buril maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos…”.

Sim, a chegada ao exílio foi o final de sua trajetória heroica como homem de carne e osso e o início como personagem da história. Estava se tornando uma estátua como esta que todos admiramos ao visitar Montevideo.

Só agora, ao final da descrição do homem solitário que acaba de entrar sozinho em sua vasta prisão e do anúncio de sua futura imortalização com o auxílio de um “buril maravilhoso”, Euclides diz seu nome: “Era José Artigas, o motim feito homem…”.

Um gênio, Euclides da Cunha, descreve o momento da entrada de um herói, José Gervásio Artigas, na história.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Mesmo na idade que eu tenho, preciso de um farol”: www.neipies.com/mesmo-na-idade-que-tenho-preciso-de-um-farol/

Edição: A. R.

Belchior e a escola

Quando olho para mim e para meus colegas professores, percebo que sucumbimos a algo bem maior do que nós. Mas, ao mesmo tempo, percebo o quanto ainda queremos reagir e lutar de verdade pela educação, pela nossa própria existência e pela nossa humanidade.

Por isso, cuidado, meu bem: há perigo na esquina…

O saudoso e fantástico cantor e compositor Belchior alertava, em uma de suas mais belas canções, para termos cuidado, pois o perigo estava sempre à espreita, talvez ali, na esquina.

A música “Como Nossos Pais” fala de uma geração que sonhou com mudanças, acreditou na possibilidade de transformar o mundo, mas que, aos poucos, percebeu-se presa às mesmas estruturas que antes criticava.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=206l2dJTECg

A profissão de professor sempre foi uma atividade difícil e, desde sempre, apresentou seus desafios, suas utopias e seus perigos. Gerenciar dezenas de turmas abarrotadas de alunos em um ambiente caótico, no qual se transformou a escola pública, sempre foi algo desafiador e, sem exageros, perigoso.

Mas nunca foi tão problemático e perigoso como é nos nossos dias.

O que vou falar aqui, creio, seja a realidade da maioria dos professores. Ao menos é a minha realidade.

Todo dia, quando um professor sai de sua casa em direção à escola, ele precisa ligar todas as luzes de alerta. Não existe mais a possibilidade de chegar a uma escola, não importa onde ela esteja localizada, pensando que tudo será perfeito, que todos os alunos vão ouvi-lo, que a hora do recreio será um momento de confraternização e regozijo e que tudo acontecerá como foi descrito em nossas formações iniciais.

O professor lida hoje com uma gama variada de problemas e situações para as quais ele não está preparado — e talvez nunca esteja —, pois algumas coisas simplesmente não deveriam fazer parte de um ambiente escolar que se diz transformador e humanizador.

A qualquer momento, podemos ter um problema grave com um aluno, com um colega, com a direção ou com um pai irritado. Em uma manhã ou tarde que deveria ser tranquila, pode surgir um episódio capaz de mudar completamente a carreira e a história de um professor ou professora.

Soma-se a isso as ameaças externas, como, por exemplo, um vereador que entra na escola para fiscalizar se não estamos “doutrinando”; as ameaças do chamado movimento Escola Sem Partido; ou, ainda mais grave, as agressões físicas e psicológicas contra os profissionais da educação. Há também o risco extremo de um criminoso qualquer entrar na escola para atirar contra professores, funcionários e alunos.

Vejam que eu nem falei da falta de apoio e suporte das secretarias, dos baixos salários ou da falta de estrutura das escolas. De tantos problemas novos, os velhos parecem perder parte de seu grau de gravidade.

O projeto neoliberal para a educação é mesquinho e desumano com todos, inclusive com os alunos e famílias que dependem da educação pública e que se iludem com as peças midiáticas e com os discursos de que temos uma escola de qualidade e de que somos, de fato, uma cidade educadora.

Tudo não passa de um projeto de promoção política e pessoal, no qual milhares de professores, estudantes e famílias pagam a conta para que alguns poucos se refestelem em congressos promovidos por empresas privadas de educação, que desejam apenas o dinheiro público para bancar seus interesses pessoais e corporativos.

Quero encerrar minha reflexão com uma parte da música de Belchior que é muito significativa para mim, como professor e como líder sindical que fui. Ela diz o seguinte:

“Minha dor é perceber que, apesar de tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos…”

Quando olho para mim e para meus colegas professores, percebo que sucumbimos a algo bem maior do que nós. Mas, ao mesmo tempo, percebo o quanto ainda queremos reagir e lutar de verdade pela educação, pela nossa própria existência e pela nossa humanidade.

Leia também: www.neipies.com/professores-sob-ataque-o-silencio-do-poder-e-o-colapso-da-escola/

Autor: Professor Doutor Eduardo Albuquerque.

Lançamento de seu livro “É para copiar”, nov/2016.

Edição: A. R.

Estradas de sangue

O Brasil está ganhando mais uma medalha: a medalha do campeão de acidentes em estradas. Mas, por que tanto acidente? Quais as causas? Porque ninguém toma alguma providência?

Viajar. Palavra interessante, que nos leva a pensar em conhecer novos ambientes, pessoas diferentes, enfim, viajar significa, na maioria dos casos, romper com o cotidiano, dar asas à imaginação, libertar o espírito desbravador. Afinal de contas, para que servem as estradas, além de servir para o transporte de cargas?

A estrada, juntamente com o automóvel e o ônibus, não deveria deixar de ser um instrumento de lazer, teoricamente deveria ser tão segura, ou até mais, que o confuso trânsito de nossas cidades.

Se esta foi a realidade do passado, no presente a realidade nos mostra que ocorreram mudanças radicais, para pior. Está se tornando um sério ato de risco de vida. Basta acompanhar os noticiários para vermos a quantidade incrível, e que cada vez mais cresce, de acidentes de todo tipo. Nada escapa: caminhão, ônibus, automóvel, moto.

Algo muito grave está acontecendo. Todos os dias, a imprensa mostra cenas de destruição e, nós, espectadores e prováveis vítimas futuras, nada fazemos. Ou melhor, fazemos de conta que não temos nada a ver com esta situação.

Isto é problema de quem viaja. Grande engano. Mesmo que o acidente não ocorra conosco ou com algum membro de nossa família, de uma forma indireta todos estamos envolvidos pelos acidentes que tem ocorrido nas estradas. Afinal de contas, quem acaba pagando o preço que significa a perda de vidas, dos ferimentos, de invalidez de pessoas, da destruição dos veículos?

O grande preço é pago pela sociedade, que perde a participação das pessoas, que, a muito custo, foram criadas e educadas pela sociedade.

Morrer de velhice é algo natural. Morrer de acidente em estradas é algo que a sociedade não pode aceitar.

O Brasil está ganhando mais uma medalha: a medalha do campeão de acidentes em estradas. Mas, por que tanto acidente? Quais as causas? Porque ninguém toma alguma providência?

Já houve época em que viajar de avião significava, sem razão, correr sério perigo. Hoje, milhões de pessoas usam o avião, e, apesar dos acidentes, é o meio mais seguro de transporte. Porquê? Simples, muito simples. No transporte aéreo as regras de segurança são rigidamente obedecidas. Este é o segredo: obedecer às regras de segurança.

E nas estradas, será que a segurança é obedecida? Não, é claro que não. Se o leitor não acredita, basta dar uma pequena saída e ficará convencido que na estrada está em vigor a lei da selva: salve-se quem puder e que sobreviva o mais forte e o mais esperto. Ninguém respeita ninguém.

Automóveis de pessoas que não têm prática de dirigir em estrada, caminhões que abusam de seu tamanho, ônibus de linha regular ou de excursão e até motos.

As mínimas regras de segurança estão sendo desrespeitadas: limite de velocidade em 80 km/hora ninguém respeita e só não se é ultrapassado por caminhão numa subida muito forte. Caminhão em descida: saia da frente salve-se, porque ele vem há mais de 100 km/h.

Mesmo à noite, quando menos se espera, um caminhão, destes com mais de 40 toneladas, invade sua faixa e, sem ligar a mínima para você, vem na sua direção, e se você não quiser morrer, saia para o acostamento.

Se depois destas experiências você conseguiu chegar em casa, ainda não esqueceu os sustos e as cenas dos desastres que viu ao longo da estrada, agradeça a Deus e pergunte: será que conseguirei sobreviver na próxima viagem?

Em 2025, lancei meu último livro “Minhas Crônicas 2”. A obra pode ser adquirida comigo ou através da Academia Passo-Fundense de Letras.

Autor: Roque Gilberto Anes Tomasini. Também escreveu e publicou no site “Produzir soja: até quando”?: www.neipies.com/produzir-soja-ate-quando/

Edição: A. R.

A pressão para enquadrar o outro na nossa “teoria”

Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás. Por isso, vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.

De começo já digo: todos nas nossas relações somos, de certa forma, terapeutas uns dos outros.

Dias atrás, palestrando na Liga de Psiquiatria com a presença de alunos das três faculdades de medicina de Passo Fundo: UPF, ATITUS e UFFS, lembrei do livro “Com a besta na barriga e outras histórias”, de Alberto Stein e Ana Lucia Salgado.

Nele, Alberto conta que costuma perguntar a seus alunos: entre as profissões, qual a que se assemelha mais a de um terapeuta? A resposta de Alberto é: a do Alfaiate: “A pessoa que faz as roupas com as medidas de cada um. Assim como somos únicos, a terapia deve ser específica às necessidades de cada um”.

Já havia ouvido de outro colega, Paulo Sérgio Rosa Guedes, que a “técnica é o paciente”.

Enfim, somos muitos os que pensam assim.

Por isso, levei na Liga de Psiquiatria o caso de uma paciente que apresentava uma depressão de leve a moderada. Segundo a American Psychiatric Association, casos assim podem ser tratados com antidepressivos em associação a uma das técnicas psicoterápicas. Qual das técnicas?

Sugeri aos alunos que obtivessem treinamento em psicofarmacologia e em algumas técnicas psicoterápicas. Assim, poderão oferecer ao paciente as opções de tratamento para o seu caso e, como um “alfaiate” ver com ele aquela que corresponde as suas “medidas”.

E mais, vamos nos permitir ser criativos ao aplicá-las.

Em seu livro, Alberto lembra do mito do Divã de Procusto.

O gigante recebia bem seus convidados, mas levava-os a se deitar em uma cama de ferro. Se menores que ela, ele os espichava.

Se maiores, ele os recortava: “Trata-se de uma Síndrome de Intolerância e as ditaduras são um exemplo perfeito disto. Sejam elas políticas ou de escolas terapêuticas. Em terapia, a síndrome aparece em esquemas rígidos de pensamentos, onde pacientes são colocados em camas emocionais que não refletem as suas individualidades e unicidades”.

E o paciente que já enfrenta seus problemas, por isso foi consultar, passa a enfrentar outro: a pressão do terapeuta para enquadrá-lo na teoria dele.

Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás.

Por isso vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.

Respeitar o outro inicia pelo respeito a sua história de vida. Em vez de desfazê-la, salientar as belezas encontradas nela.

A propósito, o livro “Com a besta na barriga e outras histórias” é da editora Bestiário de Porto Alegre.

Autor: Jorge A. Salton. Completa 50 crônicas suas publicadas no site. Também escreveu e publicou no site “Psicólogos e psiquiatras gostam de olhar pela janela”: www.neipies.com/psicologos-e-psiquiatras-gostam-de-olhar-pela-janela/

Edição: A. R.

Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

“Ela não denunciou porque gosta de apanhar”; “ela provocou a violência”; “ela exagerou, não obedeceu”; “foi por causa da roupa curta e insinuante que é um convite, ninguém resiste”; “ela falou demais e tirou ele do sério”; “eles não resistem as novinhas”; “ela provocou, sensualizando”, “o que estava fazendo naquele lugar há uma hora dessas?”.

Frases com estas acima são frequentemente expressas pelo senso comum, tentando explicar e justificar as práticas dos agressores. Todas elas foram retiradas das redes sociais em publicações sobre violência contra a mulher.

Desse modo, mulheres são agredidas, abusadas sexualmente e assassinadas nas mais diversas idades e contextos. São inúmeras as ocorrências, mas, uma em especial, foge de todos os padrões de perversidade.

A notícia de uma religiosa de 82 anos, morta em fevereiro deste ano em um convento no Paraná, após ser vítima de estupro, numa tarde de sábado, não encontra respaldo em qualquer das afirmações apresentadas acima: nem na roupa que usava, nem na sensualidade que exibia, nem na sua idade que possuía, muito menos na hora e no lugar em que se encontrava. Portanto, o horror não tem limites.

Veja e relembre: https://www.instagram.com/p/DVGouABEWzP/

De acordo com pesquisa divulgada no início de março de 2026, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de feminicídios vem aumentando a cada ano em nosso país. Em 2015, foram 449 casos e em 2025 bateu recorde histórico com 1.568 casos, representando alta de 349% em uma década.

A mesma pesquisa mostra que 8 em cada 10 casos de feminicídio no Brasil são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Dos 5.729 casos ocorridos entre 2021 e 2024 aponta que 62,6% eram mulheres negras e 36,8% eram brancas. Portanto, também nesse tema o recorte racial denuncia as históricas desigualdades estruturais.

No Rio Grande do Sul, a escalada da violência contra as mulheres também vem crescendo. Segundo informações publicadas no Jornal Brasil de Fato, nos primeiros três meses de 2026, o estado registrou 27 feminicídios, um aumento de 68,75% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 16 mortes.

No Brasil, o assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres, recebeu a classificação de feminicídio em 9 de março de 2015, com a sanção da Lei 13.104.

Este dispositivo legal, conhecido como Lei do Feminicídio, inclui o referido ato no rol dos crimes hediondos. No sentido jurídico e moral, matar é um horror. E matar mulheres pela condição feminina, por supremacia machista, por ódio ou por qualquer outro motivo, é a face mais extrema deste horror que precisa ser combatido por todos o tempo todo e em todos os lugares.

O machismo é um elemento constituinte do nosso caldo histórico, ligado ao escravismo, ao patriarcado, à misoginia, à submissão feminina e ao patrimonialismo. Tudo isso, somado, resulta na produção da violência em diferentes níveis, modalidades e gravidades. O que causa ainda mais temor é a banalização da violência e da barbárie, dando a impressão de que não é possível interromper esse ciclo.

A Lei do Feminicídio, a Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) e outras são muito importantes no enfrentamento à cultura machista e violenta, mas não são suficientes. O combate ao feminicídio exige ação coordenada do Estado, responsabilidade dos homens e compromisso permanente da sociedade com a vida das mulheres e de todas as pessoas.

Nenhuma vida vale menos. Todas valem ser cuidadas, preservadas e promovidas. Em se tratando das mulheres, que são portais de vida, deveriam ser ainda mais protegidas.

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

Informar, orientar, denunciar e punir são medidas necessárias, mas também ainda insuficientes. Para além disso, é fundamental formação para prevenção, cultivo de afetividades sadias, espaços para diálogos saudáveis sobre relacionamentos. A construção de uma cultura do respeito, do cuidado e da paz são princípios que precisam ser fortalecidos para enfrentar o feminicídio e todas as formas de violência e barbárie. Essa causa é urgente! E é de todos nós!

Autora: Vania Aguiar Pinheiro. Mestra em Ciências Humanas e Neuropsicopedagoga. Também escreveu e publicou no site “Entre o progresso e a esperança”: www.neipies.com/entre-o-progresso-e-a-esperanca/

Edição: A. R.

Romaria de Nossa Senhora Aparecida é Patrimônio Cultural Imaterial em Passo Fundo

Quando reconhecemos como Patrimônio não somente aquilo que é físico, mas também aquilo que é intrínseco da população, valoriza-se a cultura e a história da cidade. Diante do exposto e da importância dessa história viva, que faz parte da criação de nosso município, a Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo reconhece a Romaria de Nossa Senhora Aparecida como um Patrimônio Cultural Imaterial do Município.

 “Em aprovação unânime na Câmara dos Vereadores de Passo Fundo, a Romaria de Nossa Senhora Aparecida, uma das mais tradicionais manifestações religiosas e populares do Norte do Rio Grande do Sul, agora faz parte oficialmente do Patrimônio Cultural Imaterial de Passo Fundo.

A proposição, apresentada pela vereadora Eva Valéria Lorenzato, na sessão de segunda-feira (25) valoriza uma trajetória iniciada ainda no começo da década de 1980, quando padres da então Diocese de Passo Fundo idealizaram um movimento de fé em homenagem à padroeira do Brasil. Em 1981, ocorreu a primeira edição da Romaria Diocesana de Nossa Senhora Aparecida, reunindo fiéis em um percurso de cerca de um quilômetro. O que começou de forma simples transformou-se, ao longo das décadas, em uma das maiores romarias do país.

Hoje, a celebração reúne milhares de pessoas vindas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul e até de outros estados, consolidando-se como um dos símbolos mais fortes da religiosidade popular e da cultura passo-fundense.

Reconhecimento ultrapassa a dimensão religiosa

Para o padre Daniel Rodrigo Feltes, o reconhecimento representa um marco histórico para a cidade e para a própria trajetória do santuário. Segundo ele, a Romaria está profundamente ligada à história do Seminário Nossa Senhora Aparecida, que em 2027 completará 50 anos de inauguração.

O sacerdote relembra que a devoção à Nossa Senhora Aparecida foi incentivada desde a criação do seminário e que, aos poucos, as celebrações religiosas deram origem à procissão e ao grande movimento popular que hoje caracteriza a Romaria. “O reconhecimento demonstra que um povo não é constituído apenas de elementos materiais, mas também daquilo que possui significado simbólico para sua população”, destaca.

Padre Daniel enfatiza ainda que, embora tenha origem na Igreja Católica, a Romaria transcendeu os limites da religião e tornou-se um patrimônio afetivo da cidade. Durante a votação do projeto, vereadores de diferentes crenças manifestaram apoio à proposta, reforçando o entendimento de que o evento faz parte da identidade cultural do município.

Ele compara a Romaria a outros grandes movimentos culturais de Passo Fundo, como o Festival do Folclore e a Jornada de Literatura, eventos que marcaram a história da cidade, ressaltando que a celebração também se tornou um elemento de pertencimento coletivo.

Uma manifestação que mobiliza multidões

Popularmente reconhecida como a segunda maior Romaria em honra à Nossa Senhora Aparecida do Brasil, a celebração já reuniu, em alguns anos, mais de 200 mil pessoas no entorno do santuário. Mesmo após a pandemia, quando houve redução do público concentrado em um único dia, o movimento segue mobilizando milhares de fiéis ao longo de todo o mês de outubro.

Em 2026, a Romaria chegará à sua 45ª edição. A organização dos preparativos já está em andamento e envolve um amplo trabalho coletivo. De acordo com o padre Daniel, mais de 300 voluntários atuam diretamente durante os dias de celebração, além de dezenas de colaboradores que auxiliam antes e depois do evento.

Patrimônio da cultura popular

Autora da proposta aprovada no Legislativo, a vereadora Eva Valéria Lorenzato afirma que o reconhecimento oficial fortalece a preservação de uma tradição construída coletivamente pela população ao longo de mais de quatro décadas.

Para ela, a Romaria representa um dos maiores encontros de fé e cultura popular do município. “A aprovação demonstra a importância que esse evento possui para Passo Fundo. É um momento de encontro das famílias, de devoção, de agradecimento e também de esperança”, afirma.

A parlamentar também destaca que a Romaria nasceu de forma simples, a partir da iniciativa de padres e moradores da comunidade, e se transformou em um dos maiores eventos religiosos do Sul do Brasil.

A vereadora também defende que o reconhecimento como patrimônio imaterial amplia a responsabilidade do poder público na preservação e qualificação do evento. Entre os pontos destacados estão a necessidade de segurança, infraestrutura e suporte ao longo do trajeto percorrido pelos romeiros”.

FONTE: https://www.onacional.com.br/cidade,2/2026/05/26/projeto-de-lei-transforma-romari,132577  (Por Luciano Breitkreitz)

Justificativa apresentada na tramitação da proposição da vereadora Eva Valéria Lorenzato

Ainda em 1980, no dia 12 de outubro, fora autorizada pelo então presidente do Brasil a realização de uma festa em devoção à Aparecida. No ano seguinte, em 1981, é realizada, então, a 1ª Romaria Diocesana de Nossa Senhora Aparecida, com um trajeto de cerca de 1km. O evento, que nasceu como uma movimentação simbólica e enxuta da fé dos passo-fundenses pela imagem de Nossa Senhora, hoje, quatro décadas depois de sua primeira edição, consolida-se como a segunda maior romaria para a imagem sacra do país.

Com um trajeto de 6,5km até o Santuário, a Romaria de Nossa Senhora Aparecida deixa de ser um evento de 200 devotos a passa a reunir milhares de romeiros da cidade, região e estados próximos. Além de uma manifestação da fé e espaço de expressão dos fiéis, a Romaria consagra-se como um marco da cidade de Passo Fundo, uma projeção do município para os demais centros culturais e religiosos do país.

Assim sendo, destaca-se a importância em considerar o evento como nosso Patrimônio, uma vez que fortalece a identidade daqueles que o compõem e reforça a importância daqueles que o fazem acontecer.

Quando reconhecemos como Patrimônio não somente aquilo que é físico, mas também aquilo que é intrínseco da população, valoriza-se a cultura e a história da cidade. Diante do exposto e da importância dessa história viva, que faz parte da criação de nosso município, propõe-se a referida lei, possibilitando, assim, a Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo reconhecer a Romaria de Nossa Senhora Aparecida como um Patrimônio Cultural Imaterial do Município. 

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal Vereadora Eva Valéria Lorenzato

Vereadora Eva Valéria Lorenzato na tribuna:  Registro Amanda Peres/Divulgação Câmara de Vereadores de Passo Fundo.

Edição: A. R.

Diário de Maria Cecília: por que quando os filhos partem de casa sentimos vontade de voar…  com ou sem eles?

Ela esperou sair do shopping assim que viu o tempo se armar pelos céus, assustador, mais vento que tormenta, para caminhar e chorar um pouco. Na chuva, todas as lágrimas têm menos valor.

Não era pelo sapato.  Mas porque teria de pedir, pedir novamente, pedir todos os meses. O vestido, ela estava liberada para comprá-lo. Mas aí surgiu um sapato.

Depois dos 40, com filhos encaminhados, ter sempre de pedir, era o comprovante de que o seu destino não lhe entregara os seus anseios por completo. Atrás de um fogão ou de uma máquina de lavar, os sonhos podem ser adiados pelo dia.  Mas os anos vão açodando as vontades e basta sair à rua, dar uma volta, para ver que o mundo dilata nossas expectativas e o nosso olhar não se conforma mais com nossas melhores aspirações. Se houver algumas delas ainda em curso, claro.

Aos 60 anos, ficamos conformadas com livros e silêncio.  Aos 40, ainda não.

Muitas mulheres, mesmo após o êxito em seus lares, com filhos já de asas abertas, maridos felizes, sim, muitas delas tem agora a vida pela frente. Mas é outra vida; basta ter saúde e não ter se apequenado em seu antigo papel de rainha do lar, que há uma explosão de vida e vontades em gestação.

Como enfrentar desejos e propósitos se a sua renda está no bolso do seu marido? Como ir à academia sem ter que pedir? Como viajar com algumas amigas, sem ter que pedir, e pedir, e pedir…

Daí seu choro quando lembrava do que as suas amigas falaram:  _você poderia estar aqui com a gente.

Claro. Cruzaram a vida de um outro jeito, nem melhor ou pior, mas hoje são livres. Mesmo que somente para uma viagem.  Uma psicóloga, outra arquiteta, uma outra…

Maria Cecília não quis levar adiante e trancou sua faculdade para casar-se; tornou-se invisível, sem tempo para o espelho.

_Depois eu concluo, dizia.

Nunca mais…

Preferiu um lar, no entanto. Um marido que nada lhe negava; bastava pedir.

Os filhos, os amigos dos seus filhos, a família que sempre parecia mais numerosa em dias de chuva, o marido, tudo foi virando prioridade.

Ela ficou para depois.

Tardes inteiras a sós pela casa. Enquanto seus filhos estudavam e cresciam, seu marido trabalhava e crescia, dias inteiros sozinha pela casa arrumada, gastando horas passando roupas, corroendo seus dias em uma perfeição que duraria até o anoitecer. Ao retorno de todos.

O encantamento de um lar perfeito, com todos almoçados e jantados, roupas arrumadas à perfeição, como num círculo infinito… Olhando pela cozinha arrumada assistia a sua própria formatura; a formatura dos despercebidos.

Enquanto chegavam flores vermelhas no seu aniversário, tudo fluía ao sabor das mesmas manhãs, mesmas tardes, na interminável tarefa de construir o que nunca será reconhecido. Um dia, as flores não vieram. Seu marido esqueceu.

_Volte a estudar?  É o conselho que as suas amigas lhe deram, quando de seu retorno, em meio a fotos e almoços espetaculares neste último cruzeiro.

_ Estudar agora?  -Ahh, nem pensar.

_Poderia ter viajado com elas, pensava.  Em Montevidéu, caminhando e sorvendo um mate diferente, suas amigas, agora três, porque eram quatro, viviam um pedaço de vida inesquecível.

 _E fazer docinhos para fora, o que acha Cecília?  _Tem muitas.

 _Crochê?  _Ninguém mais quer.

Quando moça, seu sonho era ser professora.  Ela pensava em seus alunos às pencas pelo pátio gritando, suas colegas de alegria e infortúnio, em um mundo a descobrir todos os dias, a conquistar e a contestar.

_ Ainda daria tempo, uma de suas amigas a lembrou, avisando, contudo, que pode demorar um pouco para se perceber mais infeliz.

Imaginava vender lingeries vermelhas de porta em porta. Fazer marmitinhas pela semana, ser vendedora de loja de shopping, aprender uma nova língua pela internet, saber avaliar produtos nas redes; ficou até encantada ao ouvir uma tal de IA. _ Será que ela não pode me salvar?

Mas assim que o João Alfredo soube de suas pretensões ficou furioso.

_ Nada falta a você, mulher!  Foram tantas vezes que Cecília ouvira isso.

_ Pense na alegria em vivermos juntos, somente nós, com os filhos formados. Justo agora, na sua idade, você querer trabalhar?  Tudo o que você me pede eu sempre dou…

_E o que eu não peço, por quais razões não tenho recebido, respondeu.

_Virou respondona, devolveu o seu Alfredo.

_Não, ainda não virei. Mas agora que a lavanderia está fechando e os botões do fogão estão ficando gastos como a ponta dos meus dedos, preciso ter a minha renda.

Chegou uma exigência nova à mesa de jantar.  É que depois de uma certa idade, com muitos desejos aparentes, os outros veem com desconfiança.

Cecília sabia no que se tratava – em viver a sós.  Como em quase todas as situações, viver a sós se traduz em uma pessoa sentada no sofá e a outra, servindo.

_Que estranho sentimento eu tenho, sussurrava a si mesma, olhando a fruteira avermelhada sobre a mesa: laranjas e maçãs já muito maduras.

Não poderia nesta estrada haver tantos buracos!

Mas será que eu não tenho o direito de cansar? De largar tudo e ser apenas meia de mim. Isso porque a outra metade já deixei na área de serviço e na mesa de jantar, limpando e cuidando a todos por 20 anos.

Só queria poder comprar um par de sapatos vermelhos, sem pedir a ninguém, com todo o direito de errar na compra. Levantar-me às 11h sem ser julgada. Assistir séries seguidas na Netflix, sem fazer xixi. Queria ir à padaria da esquina, a sós, sentar-me em sua calçada e fumar um cigarro, para espanto de mim mesma, sem que isso pareça uma sentença de fim de mundo.

O João é ótimo, meus filhos são maravilhosos, adoraria meus netos…

Mas será que este desejo, em querer a minha outra metade de volta, não vai passar?

Continua…

Autor: Nelceu Zanatta. Já escreveu e publicou no site “A mudança nunca virá pelo espelho: virá dentro de você”: www.neipies.com/a-mudanca-nunca-vira-pelo-espelho-vira-dentro-de-voce/

Edição: A. R.

Precisa de arte para ser professor

O cenário do trabalho docente permite concluir que ao professor, embora não esteja tipificado, não é conferido espaço para escrever/publicar textos de sua autoria. É um impedimento tácito, pois decorrente das circunstâncias estabelecidas.

Logo, nos primeiros anos, como professora, além de adquirir experiência na arte de ensinar arte, entendi que a prática pedagógica não nasceu para ser réptil, mas pássaro. Era a sinalização para fazer um pouco mais, qual seja, espalhar os conteúdos e minha pratica docente, para além da sala de aula.

Passei então a fazer um rol de assuntos, em uma caderneta que carregava na bolsa. Assim, toda vez que tinha um lampejo, anotava. Com esse acervo, eu daria efetividade aos meus planos de redigir textos e distribuí-los entre meus colegas e nas demais escolas. Após, os publicaria em um jornal e, a longo prazo, publicaria um livro de crônicas com os mesmos assuntos.

Eu estava motivada, pois os assuntos eram de relevante importância para a comunidade em geral.

Eu mostraria a todos o quanto é impactante, para o futuro dos jovens, estudar arte, pois conhecer seus períodos, suas características e respectivos autores implica entendimento detalhado dos fatos mundiais e suas consequências. História factual e arte são manas gêmeas que seguem caminhando lado a lado.

Eu mostraria a todos que a arte, em quaisquer de suas expressões, interage com o espectador, porque esse não é passivo, mas estimulado a refletir e a se emocionar. Em especial, eu dividiria com meus pares as experiências/atividades que tocaram os alunos de forma positiva.

Enfim, o rol se alongou por diversas páginas da caderneta. Eu tinha muitas ideias e as espalharia por aí como pó de giz ao vento.

Contudo, ao tentar redigir os primeiros textos me deparei com a dura realidade: a demanda escolar. Essa tem pouco a ver com o que se aprende na faculdade.

O estudo formal da didática, da pedagogia, e dominar os conteúdos da sua área de conhecimento é apenas 50% daquilo que um professor tem que dar conta dentro de uma escola. Ingressar no magistério implica abraçar um pacote apinhado de desafios que, ironicamente, nada tem a ver com o processo ensino-aprendizagem. Atividades essas que variam entre servir à burocracia que emburrece o ensino, até fazer cartazes para enfeitar a escola. Destacando que esses encargos não constam no edital de concurso.

Essa realidade acarreta ao professor, necessariamente, uma disponibilidade de 24h ao dia, incluindo os finais de semana.

Desse cenário se extrai a conclusão de que, ao professor, embora não esteja tipificado, não é conferido espaço para escrever/publicar textos de sua autoria. É um impedimento tácito, pois decorrente das circunstâncias estabelecidas.

Essa conjuntura é o apagador que deixa riscos indeléveis nos sonhos do professor. A gente perde, sim, mas concomitante a isso, a conjuntura escolar/social deixa de ganhar.

Inconformada com aquele espaço pequeno, no qual me ajustava para atender a demanda escolar, assim que me vi aposentada, assumi a advocacia e, concomitante a isso, uma página no jornal como cronista.  Nesse novo contexto passei a escrever e publicar muito. Comentava as leis novas, relatava ações díspares ou audiências hilariantes.

Atualmente sigo escrevendo para qualificar minha própria voz literária, mesmo porque, na aposentadoria, escrever, divulgar experiências e publicar textos tem sabor de recreio.

Leia também: www.neipies.com/por-que-boas-praticas-educativas-nao-sao-reconhecidas-como-elementos-potentes-para-melhoria-da-educacao-basica/

Autora: Maristela Lopes de Lima, membro da SPV (Sociedade dos Poetas Vivos)

Maristela sempre se encantou com qualquer forma de arte e, naturalmente, escolheu ser professora de educação artística para distribuir a magia da expressão, fosse através das cores, dos movimentos ou da música. Atualmente aposentada, sua principal atividade é escrever literatura.

Edição: A. R.

Quem não se comunica se trumbica!

Lei nº 15.263, de 14 de novembro de 2025 – Institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todos as pessoas.

O velho bordão do Velho Guerreiro Chacrinha – os mais jovens não devem saber quem foi José Abelardo Barbosa – com seu inigualável “Cassino do Chacrinha” continua atual segundo leituras minhas.

Era na Globo. Se você comparar ele com o atual Mion, nas tardes de sábado, vai se fazer muitas perguntas. Quem sabe buscar algo no youtube e pensar.

Foi o que fiz para falar de COMUNICAÇÃO recentemente. Ele não se “trumbicava”, porque falava de forma simples, acessível, e o povo gostava. Não tinha mau humor.

Recentemente, o CNJ – Conselho Nacional de Justiça – instituiu o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples para eliminar o uso de “juridiquês”. O objetivo é tornar decisões judiciais, documentos e o atendimento ao público mais claros, diretos e acessíveis a todo cidadão, garantindo o direito à informação e facilitando o entendimento da Justiça.

Vejam:https://www.cnj.jus.br/gestao-da-justica/acessibilidade-e-inclusao/pacto-nacional-do-judiciario-pela-linguagem-simples/referencias-normativas/

Já a Lei nº 15.263, de 14 de novembro de 2025 – Institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todos as pessoas.

Dias atrás em uma audiência pública sobre o Plano Diretor um sujeito abre o evento, dizendo: “Vamos tratar aqui de “recuo de jardim”, “volumetria”, “área permeável”, etc etc.

Entendeu?

Pois então, como disse há dias atrás numa entrevista: “a Lei passou meio distante da população e da imprensa corporativa”. A Lei da Linguagem Simples, publicada no Diário Oficial da União no dia 17 de novembro, tenta nos ajudar.

Creio que ainda teremos um grande caminho pela frente.

CONGRESSO

Por isso, estou na articulação do 1° Congresso Gaúcho de Comunicação Pública https://www.1congressogauchodecomunicacaopublica.com/

Um dos painéis do mesmo será exatamente sobre o tema da chamada comunicação simples.

Neste painel pretendemos que os cidadãos consigam encontrar, entender e usar as informações publicadas pelos órgãos e entidades da administração. Torna obrigatório que órgãos públicos se comuniquem de forma clara, objetiva e acessível com os cidadãos, usando técnicas como frases curtas, palavras comuns e recursos visuais para facilitar o entendimento e o acesso à informação.

A palestra será de Maria José Finatto que vai nos conduzir para transformar linguagem burocrática em texto que o cidadão compreende, metodologia premiada pelo Google. Finatto é doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

Já Daniela Machado vai nos conduzir para identificar, barrar e corrigir desinformação antes que ela comprometa a credibilidade da sua instituição. Pois, em tempos de “fake News”, manipulações, mentiras e falsificação histórica é essencial informar com verdade, precisão e simplicidade.

Daniela é jornalista e especialista em Letramento Digital (EUA). Coordenadora do EducaMídia. Foco em Integridade da Informação e curadoria responsável de conteúdo.

E por que razão falar de “comunicação pública”?

O Congresso pretende ser inédito e ousado, porque em geral se fala genericamente de comunicação, esquecendo-se de que a comunicação pública é  estatal e não estatal.

Sandra Bitencourt vai começar a conversa do dia para mostrar como a imagem pública de uma instituição se constrói e desmorona, nos momentos de instabilidade política.

Sandra é doutora em Comunicação (UFRGS). Jornalista e Pesquisadora. Assessora do Tesouro do Estado (RS).

E aí vem a crise e no geral junto o caos. Por isso, vamos ouvir Soraia Hanna para não perder tempo e nos dizer o que fazer nas primeiras horas de uma crise: protocolos testados em quatro governos estaduais.

Soraia Hanna é autora do livro “Gerindo crises, construindo reputação”. É também sócia da empresa Critério.

Como neste mundo liquido estamos todos navegando nas águas muitas vezes turvas da Internet, estamos trazendo Rodrigo Abella para nos dizer como medir o que realmente importa: diagnóstico de maturidade digital e os indicadores que revelam se a comunicação está blindada ou exposta.

Abelha é diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

Em não sendo possível ouvir especialistas nas três esferas de poder estatal, optamos pela vinda do representante da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação, Leandro Rolim. Vai nos falar de como a TV 3.0 e a mídia pública nacional podem ampliar a voz da sua instituição além das redes sociais.

Falar de mídia pública, é obrigação falar de dados, de segurança, de transparência. Por isso, Gustavo Ferenci nos falará de como usar transparência e LGPD como instrumentos ativos de legitimidade, não como obrigações a cumprir.

Ferenci é presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios.

CONGRESSO – PRESENCIAL E ON LINE

O 1° Congresso gaúcho de comunicação pública será realizado de forma presencial em Porto Alegre e on line no dia 1° de junho de 2026.         

Será no Auditório da AIAMU, no 8° andar do Edifício Santa Cruz, o mais alto do Centro Histórico, na “Rua da Praia”, ou seja, Rua dos Andradas, 1234.

A referência além da altura é que tem no térreo uma Panvel.

ESG

Em tempos de preocupações com o meio ambiente, os temas sociais e a governança, o Congresso buscou um local com fácil acessibilidade, com uma “pegada ESG” real.

Os resíduos terão o devido destino para uma entidade de reciclagem, a alimentação além de saudável – sem lactose, sem glúten, virá da economia solidária, de agroindústria familiar, de entidades sociais.

O evento terá acompanhamento de uma arquiteta especializada em acessibilidades para pessoas idosas e PCDs.

Haverá uma COLETA DE LIVROS para doação a uma biblioteca.

APOIOS E PATRICÍNIOS

Além do apoio de entidades de classe da área da comunicação – ARI, SINDIJOR – o evento conta com o apoio da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL– CEF -, CORSAN, CRITÉRIO, Associação dos fiscais de tributos/AIAMU, APMPA-Associação dos Procuradores, Governo do Estado, Assembleia Legislativa.

Leia também: www.neipies.com/quem-nao-se-trumbica-se-comunica/

Autor: Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Sobre o envelhecer”: www.neipies.com/sobre-o-envelhecer/

Edição: A. R.

Autoridade Docente Perspectiva Dialética-Libertadora

Autoridade é a capacidade de fazer-se autorizado pelo outro, para que, mediante seu reconhecimento, possa com ele interagir. É, portanto, um gesto de humildade, de bater à porta do outro e perguntar “posso entrar, podemos conversar?”. A Autoridade Docente não é uma função formal ou abstrata, e sim situacional, intencional e relacional.

1. Autoridade Docente é a capacidade, socialmente reconhecida e eticamente fundada, de assumir a responsabilidade pelo processo educativo, a fim de que a escola cumpra sua função social de propiciar as condições para a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno –na perspectiva do bem comum–, e a alegria crítica/docta gaudium, de cada um e de todos os educandos, com a intencionalidade de compreender o mundo, usufruir da herança cultural da humanidade e transformar a realidade.

2. Essa legitimidade ancora-se em referenciais pedagógicos, jurídicos e institucionais, como a Ciência Pedagógica, a Constituição Federal, a LDB, as Diretrizes Curriculares, o Projeto Político-Pedagógico, o Projeto de Ensino-Aprendizagem, o Plano de Aula/Unidade, o Regimento Escolar e o Combinado/Contrato Didático em Sala de Aula.

3. Manifesta-se no empenho consciente e crítico de criar condições para fortalecer, acordar/despertar, favorecer a emergência, estimular, inspirar, ajudar a mobilizar o Desejo e/ou a Necessidade no outro, reconhecido como legítimo outro, de se apropriar de conhecimentos, habilidades e atitudes, em consonância com uma intencionalidade emancipatória.

Neste sentido, autoridade é a capacidade de fazer-se autorizado pelo outro, para que, mediante seu reconhecimento, possa com ele interagir. É, portanto, um gesto de humildade, de bater à porta do outro e perguntar “posso entrar, podemos conversar?”. A Autoridade Docente não é uma função formal ou abstrata, e sim situacional, intencional e relacional.

4. A Autoridade Docente concretiza-se pelo estabelecimento de Limites e Possibilidades tendo em vista atingir conscientemente objetivos (razão de ser ou justificativa, que dá sentido aos limites e possibilidades), tendo por base os Vínculos, especialmente afetivos, criados entre Educador-Educando e Educando-Educando.

5. A Autoridade Docente tem como horizonte o desenvolvimento da Autonomia Crítica do educando. Isso significa, entre outras coisas, que traz em si sua própria negação, o intento de se tornar dispensável, pelo menos a partir de determinado momento e em um determinado contexto.

Afinal, a Autoridade Docente não é eterna –tem de ser atualizada, exercida enquanto necessária–, nem universal –não vale para todas as situações.

Nesta medida, autoridade (do latim auctoritas, que vem de auctor, “aquele que faz brotar”, e este do particípio passado auctus, do verbo augere: aumentar, fazer crescer) é também a capacidade de criar condições para que o outro se faça autor, desenvolva a potência de seu próprio ser.

6. Implica o respeito, o reconhecimento, o acolhimento profundo, o engendramento, a abertura a novos possíveis, mas também o limite, a interdição, a capacidade de dizer não, a norma, o não ter medo de ser adulto (por confundir com autoritarismo), o responder pelos elementos significativos da cultura, tudo isso de acordo com a situação e o objetivo (o plano de ação, que vai guiar a mediação, é fruto da tensão entre a realidade e a finalidade).

7. A Autoridade Docente exige postura crítica e autocrítica, competência técnica conectada com sensibilidade, acolhimento genuíno da diversidade, e inteligência epistêmica: profundidade para identificar o que é essencial, potencialmente significativo, conceitos estruturantes/ alfabetizadores nas diferentes áreas do conhecimento, pautado na busca de totalidade, historicidade, criticidade.

Do ponto de vista didático, demanda conhecimento da realidade/contexto do ensino, clareza dos objetivos específicos, seleção e organização dos saberes, metodologia (incluindo o cuidado com a mobilização (desejo e/ou necessidade) do aluno para a aprendizagem, com sua atividade durante o processo, com sua elaboração e expressão da síntese do conhecimento), avaliação, recursos, adequação do tempo, espaço, mobiliário, climatização, iluminação, contrato didático, relação com outros componentes curriculares.

Tal postura implica não se apegar a meros detalhes, nomes, datas, classificações desconectadas do sentido maior do ensino e do estudo, qual seja, não banalizar a palavra docente, não se tornar mero “piloto de livro didático, apostila ou plataforma digital”!

Por esse caminho o professor pode conquistar a admiração e o respeito por parte do aluno.

8. Dessa forma, como se vê, busca-se superar dialeticamente tanto o autoritarismo quanto o espontaneísmo. Observações Teórico-Metodológicas:

 a) É importante explicitar que esta é uma concepção, e não “a” concepção, até porque esta não existe. As formulações teóricas são sempre construções histórico-culturais, elaboradas a partir de determinados contextos e referenciais. Via de regra, são campos muito complexos, nos quais qualquer definição é necessariamente provisória, fruto de processos que avançam –ou estagnam ou retrocedem– por aproximações sucessivas.

Em outros termos, temos coragem de afirmar algumas clarezas e convicções que fomos adquirindo no empenho de concretizar uma práxis transformadora –pois a urgência do chão da sala de aula e da escola não nos permite esperar, não se sabe até quando, pelo advento de uma teoria perfeita–, todavia, ao mesmo tempo, estamos abertos a revisões diante de fatos novos neste campo, decorrentes da crítica e da autocrítica.

 b) O Sonho, a Utopia (do grego, ou topos, o não lugar, aquilo que não tem lugar ainda, mas que deve ter), o Projeto, o Pôr Teleológico, é um fator Antropoplástico, Antropogênico, formador do Humano!

Em um longuíssimo processo Filogenético, de origem e desenvolvimento da espécie (cerca de 3 a 7 milhões de anos), tornamo-nos Humanos (Homo sapiens sapiens) porque projetamos, porque nossos mais remotos antepassados não se conformaram com o que estava dado, e foram elaborando “proto-projetos” de mudança! Ao tentarem mudar o mundo, para adequá-lo a seus projetos, modificavam-se a si mesmos.

Sonhar, portanto, não é se alienar. Sonhar, associado ao conhecimento da realidade e à elaboração do plano de ação –além da ação e da avaliação– é condição para a transformação da realidade!

A concepção aqui apresentada constitui um horizonte desejado: o vetor de direção que queremos imprimir ao nosso trabalho, o elemento guia e de tensionamento, que impulsiona o crescimento e o aperfeiçoamento. O quanto conseguiremos avançar nesta direção, ou os recuos que teremos de enfrentar, dependerá de inúmeros fatores, muitos dos quais exigirão, inclusive, intensa luta pessoal e coletiva para serem garantidos.

O ponto fundamental é que, diante de tantas dificuldades no cotidiano escolar, não se trata de desistir, de abrir mão do sonho, da intencionalidade, do horizonte maior desejado. Um princípio ético não perde a validade apenas porque é muito difícil ser concretizado em determinado contexto.

Analogamente, não devemos abrir mão do sonho de uma realidade melhor em função dos grandes desafios presentes. O que está em questão é adequar tanto as expectativas (os objetivos estratégicos) quanto as mediações pertinentes (para que seja transformadora, a mediação deve ser fruto da tensão dialética e criativa entre o contexto e o objetivo estratégico), mantendo firme o horizonte maior.

Trata-se da perspectiva de processo: identificar e valorizar os passos concretos, possíveis, ainda que pequenos num primeiro momento, dentro da respectiva Zona de Autonomia Relativa (ZAR) –aquilo que pode ser feito já, mas ainda – não estava sendo feito –, tanto pessoais quanto coletivos, na direção desejada!

Referência Bibliográfica:

  1. VASCONCELLOS, Celso dos S. Gestão da Sala de Aula: Perspectiva Dialética-Libertadora. São Paulo: Libertad, 2026 (no prelo).

Autor: Celso dos S. Vasconcellos. Também escreveu e publicou no site “Paulo Freire: 102 anos, um breve depoimento”: www.neipies.com/paulo-freire-102-anos-um-breve-depoimento/

Edição: A. R.

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