Professores sob ataque: o silêncio do poder e o colapso da escola

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A verdade é dura, mas precisa ser dita: o poder público municipal tem falhado em proteger seus servidores, especialmente os professores. E não se trata apenas de segurança física. Trata-se de respeito, de valorização, de reconhecimento.

(Por: Professor Jonas A. Fusiger, Presidente do Sindicato dos Servidores do Município de Santa Rosa, RS)

A violência contra professores não começa no momento em que um grito ecoa dentro da escola ou quando uma agressão física acontece. Ela começa muito antes — no discurso, na deslegitimação cotidiana, na construção lenta de uma narrativa que transforma o educador em inimigo.

Nos últimos anos, assistimos à banalização do ataque à educação. Autoridades públicas, que deveriam zelar pela dignidade das instituições, passaram a tratá-las como espaços de doutrinação, suspeita e desprezo.

Discursos inflamados de deputados, a retórica simplista e agressiva da chamada “escola sem partido”, ataques reiterados de lideranças políticas às universidades e aos professores, e até falas de líderes religiosos que demonizam o papel docente: tudo isso não é isolado. É um projeto. Um projeto que desautoriza o professor diante da sociedade.

Quando se diz que o professor “não trabalha”, que “doutrina”, que “não merece reconhecimento”, está se abrindo caminho para algo mais grave. Está se autorizando, simbolicamente, a agressão.

E essa violência, que parecia distante, agora explode em nosso próprio território, em Santa Rosa, RS. Não é surpresa. É consequência. Nós, professores, já somos agredidos há muito tempo — de forma institucional.

Somos agredidos quando governos retiram nossa autonomia pedagógica, impondo aprovações automáticas de alunos que não tiveram condições mínimas de aprendizagem.

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Somos agredidos quando aquilo que deveria ser uma política séria de inclusão se transforma, na prática, em abandono. Alunos com necessidades específicas, que têm direito a um atendimento digno, com equipe multidisciplinar, acompanhamento especializado e condições adequadas, são simplesmente colocados em salas superlotadas, sem o suporte necessário. Isso não é inclusão — é negar a esses estudantes o cuidado que merecem e, ao mesmo tempo, impor ao professor uma responsabilidade impossível de ser cumprida sozinho. É injusto com o aluno, é desumano com o professor e é desonesto com a própria ideia de educação inclusiva.

Somos agredidos quando a Secretaria de Educação desrespeita o mínimo necessário de tempo para o planejamento das atividades, obrigando-nos, muitas vezes, a lutar pelo óbvio — um direito essencial para a qualidade do fazer pedagógico.

Planejar não é privilégio, é condição básica de trabalho. Ainda assim, somos colocados na posição de ter que reivindicar aquilo que deveria ser garantido.

Somos agredidos quando o prefeito promove manobras no plano de carreira com o objetivo de apenas se enquadrar formalmente no piso nacional do magistério, enquanto, na prática, usurpa salários, achata vencimentos e desvaloriza toda uma trajetória profissional construída com formação e dedicação.

Somos agredidos quando um prefeito, no Dia do Professor, se recusa a reconhecer a data como feriado. Pode parecer um gesto pequeno, mas é profundamente simbólico: é a negação do valor social da nossa profissão.

Somos agredidos quando, em campanha, a autoridade máxima do município afirma que fará os servidores “trabalharem”, como se não estivéssemos diariamente dando muito mais do que temos — muitas vezes com recursos escassos, estruturas precárias e salários que não condizem com a responsabilidade que carregamos.

E então chegamos ao ponto mais grave.

Circulam relatos — ainda não oficialmente reconhecidos — de que uma escola municipal de educação infantil teria sido invadida por pessoas com a intenção de agredir um profissional da educação. Se isso se confirma, não estamos diante de um caso isolado. Estamos diante do colapso de um sistema que falhou em proteger aqueles que educam.

É gravíssimo.

Gravíssimo porque rompe o último limite. A escola, que deveria ser espaço de proteção, de formação, de humanidade, torna-se palco de violência direta. E isso não acontece por acaso. Isso acontece quando o poder público falha reiteradamente em defender seus profissionais. Quando prefere o silêncio à transparência. Quando prioriza a imagem da gestão em vez da segurança das pessoas.

Onde está o poder municipal neste momento?

Onde está a nota oficial? Onde estão as medidas concretas de proteção? Onde está o compromisso com quem está dentro das escolas todos os dias?

O silêncio, neste caso, não é neutralidade. É conivência.

A verdade é dura, mas precisa ser dita: o poder público municipal tem falhado em proteger seus servidores, especialmente os professores. E não se trata apenas de segurança física. Trata-se de respeito, de valorização, de reconhecimento.

Quando autoridades desautorizam professores, quando minimizam sua importância, quando atacam suas condições de trabalho, estão contribuindo diretamente para um ambiente onde a violência se torna possível — e, pior, justificável aos olhos de alguns.

E isso precisa parar.

Não se constrói uma sociedade justa atacando seus educadores. Não se melhora a educação desmoralizando quem está na linha de frente. Não se resolve problemas estruturais com discursos simplistas e culpabilização dos professores.

O que vemos hoje não é apenas uma crise na educação. É uma crise de valores.

Defender o professor não é um ato corporativista. É um ato civilizatório. Porque quando um professor é agredido, não é apenas um trabalhador que sofre. É a própria ideia de futuro que está sendo atacada.

E disso, nós não podemos nos calar.

(Artigo publicado no Jornal Noroeste, em 27/03/2026)

Autor: Professor Jonas A. Fusiger. Presidente do Sindicato dos Servidores do Município de Santa Rosa.

2 COMENTÁRIOS

  1. Caos é apelido dizer q a EDUCAÇÃO BRASILEIRA chegou! Salas hiper lotadas, alunos q não escutam os professores, q não querem aprender! Bom p governar, povo sem conhecimento fica alienado, fácil de manobrar! Professores desvalorizados, sem amparo, sobrecarregados com tarefas do sistema, além do normal de planejar , preparar aulas , corrigir! Além disso preparando e aplicando tarefas aos incluídos, QUE A MAIORIA, NÃO INCLUI! Não adianta teimar! Eles precisam de atendimento especializado! E assim descamba ano a ano, mês a mês, dia a dia a EDUCAÇÃO De nosso PAÍS! Que triste!🥲🥲

  2. A verdade é dura, mas precisa ser dita: o poder público municipal tem falhado em proteger seus servidores, especialmente os professores. E não se trata apenas de segurança física. Trata-se de respeito, de valorização, de reconhecimento.

    (Por: Professor Jonas A. Fusiger, Presidente do Sindicato dos Servidores do Município de Santa Rosa, RS)

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