Nesta matéria, levantamos questões sobre a profissão docente, atualmente tão desvalorizada e questionada pela sociedade. É preciso reconhecer o trabalho docente, dar-lhe o devido reconhecimento social e valorizar economicamente os professores e professoras para que possamos ter, nas nossas escolas, profissionais preparados para os desafios do nosso tempo histórico.
Para quê professor? talvez esta seja a pergunta mais importante que professores e professoras deveriam se fazer e também fazer para a sociedade. Nossa profissão tem uma relevância social e as compreensões sobre nosso papel na sociedade deveriam estar claras para nós, professores e professoras, bem como para o conjunto da sociedade. Não há pleno desenvolvimento de uma nação sem uma educação valorizada e bem estruturada. Não há educação que se sustente com professores acuados e desvalorizados.
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Ainda no ano de 2007, produzimos, em parceria com a Revista Mundo e Missão, um encarte “Em debate” com esta temática “Para quê professor”, Outubro de 2007, Edição n. 13.
Ousamos, na oportunidade, fazer algumas análises da situação e da realidade dos professores, bem como perguntar a estudantes dos estados do RS, do RJ, de SP e de MG sobre o papel dos professores e professoras. Procuramos, ainda, problematizar o magistério e o seu lugar na sociedade.

Passados 19 anos, ousamos agora afirmar que, apesar de muitas mudanças terem ocorrido na educação, considerando inclusive o contexto pós-pandemia, com a introdução de novas tecnologias no ambiente escolar, os desafios dos professores e professoras continuam muito similares. Consideramos relevante repercutir matéria produzida há quase 20 anos atrás.
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Afirmávamos, em 2007, que já vivíamos tempos de pouco cuidado com os professores e professoras: “os que cuidam não são cuidados; os que educam não são valorizados”. Reclamávamos o respeito à dignidade docente.
Uma pesquisa da UNESCO, à época, apontava o impacto da violência nos ambientes escolares. 30% dos professores já haviam visto uma arma de fogo na mão de estudantes; 86% admitiam haver violência no seu ambiente de trabalho; mais de 50% afirmaram haver furtos nas escolas onde trabalhavam. Preocupava os professores e professoras da época que a violência conseguiu impor sua lei do silêncio.
Especialistas como Jussara Dutra, da CNTE, e Miriam Abramovay problematizavam como a democratização do acesso refletiu também a violência da sociedade na escola, com despreparo e desamparo dos professores e professoras para lidar com esta situação.
Alguma mudança para os tempos de agora?
O que professoras e professores já reconheciam que eram grandes os desafios de compreender o mundo na sua complexidade e acompanhar/incorporar inovações tecnológicas e de informação nas suas práticas, com a preocupação de que as questões educativas não virassem números, estatísticas ou métricas como desejam muitos gestores educacionais.
Conversas com estudantes
Chamou-nos atenção, no trabalho de escuta e sistematização de conhecimentos com 15 estudantes do Ensino Médio do Instituto Educacional Cecy Leite Costa, a ideia de que a escola é um ponto de encontros, lugar de autorrevelação dos estudantes. Tempo de emancipação dos jovens e preparo para seu futuro, com o lamento dos participantes de que nem todos os estudantes aproveitam esta fase de suas vidas.

Dos 13 depoimentos de estudantes publicados no encarte, sobre “Para quê professor?”, sistematizamos os principais. Estes depoimentos revelaram uma compreensão ampla e relevante da nossa profissão docente e de nosso papel social como professores e professoras, sob o ponto de vista dos estudantes.
“papel limitado da escola/vida ensina mais; além de ensinar, dispostos a nos ajudar; mestre, diferente dos pais, tem os pés no presente; troca de conhecimentos: professor também aprende; prepara para o futuro, acompanha para que abramos asas para voar;
professor ensina a estudar e orienta para aprender; mesmo com tecnologias, escolhem maneiras simples de explicar e responder questões e dúvidas específicas; orienta para pesquisas na internet; professor, na era da tecnologia, ensina a buscar aprendizado e se relacionar em sociedade; professores ensinam mais que matérias, também lições de vida;
professores podem influenciar positivamente vida pessoal e profissional dos estudantes; diante das mídias globais, papel dos professores é formar caráter e transmitir valores; partindo de informações amplas e genéricas, professores instigam seus estudantes a se tornarem cidadãos analíticos e conscientes”.

Discutimos a questão do “Magistério: profissão ou vocação?”
Soloá Citolin, pedagoga e psicopedagoga, alertava da necessidade de resgatar parte da história do Brasil para discernirmos sobre esta questão.
Lembrou que, com a ampliação do ensino primário, a mão-de-obra escolhida veio das mulheres. “Os governantes deliberaram que a inserção feminina nesse universo seria o ideal como papel social reparador”. Para as mulheres, foi dado um papel de continuidade como senhora do lar, dócil e amorosa, o que, na sua visão, agregou o princípio de vocação, sem o devido reconhecimento profissional.
O livro didático foi pensado para que professores e professoras trabalhassem menos e ensinassem mais. Os professores, assim, eram eximidos de saber o todo que iriam ensinar. Então, por não precisar trabalhar muito, não precisavam ganhar muito.
Recorda, ainda, que foi preciso fazer grandes lutas para o reconhecimento da profissão no Brasil, agregando qualificação, respeito e salário justo. Na sua visão, nem somente vocacionado ou profissionalizado, mas é necessário ter esperança e paixão de ensinar, como caminho da humanização.

Paulo César Carbonari, alerta que talvez as tarefas de ensinar e aprender tenham se tornado “lugar comum”, explicando a indiferença com que a sociedade as trata. Somos feitos de relações: “relação existe quando um interage com outro, não com o mesmo, como qualquer um, como um lugar comum”. Justamente, aprender e ensinar se materializam nas relações. Educação ocorre o tempo todo, em todo lugar e ao longo de toda vida.
Pode ocorrer que os conhecimentos, as linguagens, as técnicas, os conteúdos, muitas vezes, assumem papel central. Sem as mediações, próprias das relações, a própria educação se inviabiliza.
Para Carbonari, a educação é, acima de tudo, mediação para humanização, através de relações autenticamente educativas. “Educação é construção da diferença, é fazer a diferença”. Nela, não há lugar para mesmice, repetição, “lugar comum”.
Para Nei Alberto Pies, a velocidade das informações, na atualidade, dá-nos a sensação de que nada é duradouro, que não são mais as ideias que podem resolver os grandes problemas da humanidade. Mas ainda são os bons pensamentos que movem o mundo.
Parece-nos, então, fundamental o papel do professor como um ser em relação, mediando a construção do conhecimento. O professor e a escola constroem condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponível a todos. A orientação do estudo, o diálogo e a convivência transformam informações em conhecimento. E o conhecimento gera instrumentos que permitem a todos uma maior compreensão de mundo e, consequentemente, uma melhor intervenção nele. Sozinhos e isolados, nossos conhecimentos se perdem”.
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Você que chegou até aqui, também acha, como a gente, que a pergunta “Para quê Professor?” ainda é muito atual?
Que os maiores desafios, ao longo destes 19 anos, se complexificaram ainda mais sob a ótica dos professores? Que muita coisa mudou sob a ótica dos estudantes, sobretudo a perda de seus desejos de aprender a partir da escola? Que precisamos continuar compreendendo o mundo, para nele melhor intervir? Que as novas tecnologias na educação ampliaram muito o massacre burocrático a que historicamente se submetem professores e professoras? Que nossa profissão continua relevante, mas que a sociedade pouco se importa com isso, por isso nos desqualifica, ofende e até oprime?
Tantas perguntas e questões, esperando respostas, que devem nutridas de muita esperança e muita luta!
No dia 23/10/2014, O CMP Sindicato realizou seu primeiro Congresso de Professores Municipais, temática: Para que Professor? Foi produzida uma Cartilha de sistematização do trabalho deste Congresso, que abordou temas como “A organização como tarefa da educação”, “Plano Nacional de Educação”, “Magistério: um rosto feminino” e “Ética e relações de poder na escola”.

Educador Rubem Alves (1933–2014) já nos ensinava a esperançar!
Assista: https://www.youtube.com/shorts/IMvUp0TgHZA?t=2&feature=share
Autor: Nei Alberto Pies. Também escreveu e publicou no site “Escolas são espaços para a gente ser feliz”: www.neipies.com/escolas-sao-espacos-para-a-gente-ser-feliz/
Edição: A. R.












Para Nei Alberto Pies, a velocidade das informações, na atualidade, dá-nos a sensação de que nada é duradouro, que não são mais as ideias que podem resolver os grandes problemas da humanidade. Mas ainda são os bons pensamentos que movem o mundo.
Parece-nos, então, fundamental o papel do professor coo um ser em relação, mediando a construção do conhecimento. O professor e a escola constroem condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponível a todos. A orientação do estudo, o diálogo e a convivência transformam informações em conhecimento. E o conhecimento gera instrumentos que permitem a todos uma maior compreensão de mundo e, consequentemente, uma melhor intervenção nele. Sozinhos e isolados, nossos conhecimentos se perdem”.