A farsa da Copa do Mundo a que todos nós amamos assistir!

A Copa é um reflexo dos nossos dias. Mostra um espetáculo circense de primeira grandeza. É maravilhosa! Captura nosso olhar. Ponto!

Enfim, a Copa!

Mal começou e estamos embriagados por tantos e tantos jogos. Todos os dias, tardes e noites, pessoas de 48 países, alegres, a caminho dos estádios. Em uma vila do Uzbequistão ou na esquina da Broadway, o assunto tende a ser o mesmo. É uma espécie de confirmação mundial de que a humanidade ainda tem gostos em comum.

Uma festa única!

Quem não gosta do clima?  É envolvente, complexo, emocionante…

Massacrador, um pouco, acho. Depois de muitas partidas e com tantos narradores gritando, não tem como não pedir para baixar o volume.

Mas que não se negue que o circo montado chega a assustar; em plástica e organização. Sem chaminés, sindicatos e sem produzir um palito, apenas com o domínio de marca e mídia, serão arrecadados bilhões: em patrocínio, direitos televisivos, vendas, faturamento.

A Copa é um reflexo dos nossos dias. Mostra um espetáculo circense de primeira grandeza. É maravilhosa! Captura nosso olhar. Ponto!

Mas teve um tempo em que era mais encantadora. O futebol, não somente, pois procurávamos em atlas geográficos onde ficavam tais países. Estávamos na escola e a Copa se transformava em um feriado mundial combinado. Não havia opções: ou se torcia ou se contorcia. Os álbuns eram disputados nas bancas de revistas, agora sequestradas nem sei por quem.  Simplesmente sumiram.

E ali mesmo se compravam álbuns e figurinhas, com meses de antecedência, onde sempre uma maldita delas não aparecia.  Muitas amizades novas nasciam nessas trocas e ainda na torcida, em cada compra, para não as repetir.

Mas a Copa começou esses dias e sequer um álbum eu comprei. Porque não encontrei somente futebol, talvez?   

Agora é uma indústria.  Sem qualquer produto que seja qualificador, dirão alguns:  mas o produto é o futebol. Será?  Não, o esporte, os times, as seleções, os hinos nacionais, tudo é real e comovente. Quem ganha vê a sua torcida delirar.  Quem perde, o choro.  Em seguida, tudo retorna ao seu estágio de repouso das consciências, aonde os lutadores que se digladiavam em campo irão descansar, junto aos seus feitos, que, como em uma catarse coletiva – pois mesmo sem entrar no campo, as pessoas jogam o jogo da transferência do desejo – e ao final da corrida estão todos cansados como seus heróis.

Assim que o juiz assoprar o seu estridente apito, o teatro termina.

A emoção nos estádios traz uma ínfima lembrança de Roma:  casa cheia, gritos, competição, convulsão. Quem ainda tem dúvidas basta olhar para os cabelos lambidos e preparados dos atletas e as fantasias que se veem nas arquibancadas. Estando os imperadores Marco Aurélio ou Adriano presentes, sentiriam saudades do Coliseu.

Foi-se o tempo em que uma camisa, a sua cor e o que a representava fazia sentido na luta de um atleta até a sua exaustão. Foram-se as transmissões de jogos, somente transmissões. Hoje, você e o seu sofá são inundados por vendas de toda a sorte de produtos, com um enlace devastador; além de alguns jogos que se assemelham a disputas de várzea, o Jogo real é de apostas, aos milhares, na tela e fora dela.

Quanto mais se acredita que somos presenteados com a beleza de estádios, integração dos povos, igualdade de oportunidades em campo, sim, enquanto somos empurrados pela ilusão de que todos os times são iguais, somos informados que há lucro demais e esporte de menos.  Quem não quer vender um cachorro-quente a 70 reais e um ingresso, dos mais em conta, a 300.  Imagine ficar um mês para os demais jogos.

Lembre-se: se a transmissão é de graça, o produto é você.

O que não pode ir, ficou para torcer pelo fim da escala 6 X 1. Não que aqui um cachorro-quente esteja muito em conta, mas as Copas sempre foram e serão para alguns, apenas, assim como a maioria de seus atletas; primeiro as margens líquidas, os clubes e suas diretorias nebulosas, que recebem somas felpudas de dinheiro da Fifa, que os condicionam. Depois, muito depois, as bandeiras dos seus países. O suor é pelo calor e não pela briga por vencer.

A Copa é uma aula de exclusão. Exatamente como muitos percebem em nossa realidade:  aparentemente, depois do apito inicial, todos jogam em iguais condições. Mas poucos estão preparados à batalha. Uma réplica dos nossos tempos: colonizadores e colonizados com o mesmo espaço em campo para correr e triunfar. Mas com armas distintas.

Assim que o Juiz colocar um fim neste teatro, jogadores e torcedores voltam as suas catacumbas, em nações que tiveram todo o tempo e recursos para preparar os seus gladiadores. Mas, outros, retornam as suas origens conflituosas, em meio a lama, corrupção e desigualdade.

Pena vivermos dias de sequestros. A realidade nos é sequestrada pelos que nos influenciam a perceber o mundo pela sua ótica. A camisa amarela quase foi sequestrada para outros fins, que não o futebol. Quando resgatada e exposta em janelas, lia-se que estava ali somente para torcer. Em seguida, perdeu-se a magia do esporte e o futebol arte nos foi sequestrado, agora pela interferência política em cartões nos jogos, uma arbitragem polêmica, por jogadores milionários que não precisam mais vencer.

Aliás, eles e nós, produtos que somos de um espetáculo midiático e corporativo, que não vende somente esporte:  vende a reprodução social, camada por camada. Temos aí os que pagam 300 por um ingresso, os que pagam 1.000 e os que não pagam nada… Porque não foram.

A depender dos resultados, alguns jogadores seguirão para os países em que fazem fortuna.  Os demais, retornarão as suas rotinas de sonhos e pesadelos.

Falava-se que ao retorno do voo de nossa seleção ao país, apenas 2 jogadores estavam presentes.  Depois, confirmou-se:  somente um. Certamente, a desconfiança não nos faltava sobre os reais interesses de alguns de nossos astros; seus times e suas cidades, onde, de fato, alimentam a suas fortunas e de suas redes que fomentam jogos de azar.

Não há mais uma seleção, a nossa, na qual íamos para as ruas recebê-los. Mas, se ganhassem a taça, estariam todos no mesmo voo.

O nosso futebol foi sequestrado pelos interesses financeiros, como as demais programações, como quase tudo o que transita em nossos dias:  tem de distrair, conquistar corações e mentes, faturar, enganar…

Teríamos de pedir desculpas aos atletas que dedicaram esse período de treinamento e de jogos ao seu país?  Porque os tiramos de seus negócios por algumas semanas e os colocamos a nu, em uma arena cosmopolita, onde foram avaliados pelo seu desempenho real e não pela máscara que a mídia os promove. E foram postos a prova:  eles e a sua torcida, anestesiada pelos bons momentos de sua seleção… Lá no passado.

Como no mundo real, mentiras sempre tropeçam em verdades e o campo reflete com perfeição a nação de origem de cada time.

Que terminem os jogos! Na próxima copa eu quero assistir somente a partidas. Como é linda a Copa!

Quatro anos passam rápido demais!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

Tributo a um bom professor

Conhecemos e reconhecemos a história e a trajetória de um professor que, no interior do Rio Grande do Sul, no pequeno município de Pontão, RS, fez a diferença na vida de centenas de crianças e adolescentes. Seu nome era Edson Vanderlei Rodrigues, professor dos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental.

Rodrigues dedicou sua vida de magistério por muitos anos na Escola Municipal Olavo Bilac. Sempre foi um professor leitor, instigador e provocador de conhecimentos. Gostava muito de ver seus alunos lendo (livros e o mundo) e sendo críticos em relação a todas as coisas do mundo. Parecia até, muitas vezes, que Edson Vanderlei Rodrigues não cabia neste lugar, mas foi justamente este lugar (do interior, da simplicidade, de luta pela terra) que ele escolheu para ser o melhor professor.

Deixou-nos, neste plano terreno, com apenas 54 anos. Mas a sua história, o seu testemunho e os seus esforços na profissão docente ecoam para além das fronteiras do município de Pontão, RS. ´

À Edson Vanderlei Rodrigues, nossa reverência!

Destacamos o depoimento de uma ex-aluna do Professor Edson, Danyela Oliveira, e da professora e ex-diretora da Escola Municipal Olavo Bilac, Nelci Galera Hahn.

***

Perder um professor é perder um pouco do mapa que ele desenhou para a gente.

Ele não ensinava só matéria. Ensinava postura, caráter, confiança, jeito de olhar o mundo.

Um mestre planta em silêncio. Às vezes a gente só entende a semente anos depois, quando usa uma frase dele numa decisão, quando lembra do conselho no meio de um erro, quando ensina alguém do mesmo jeito que ele nos ensinou.

A sala pode ficar vazia da presença, mas a lição permanece viva.

O quadro é apagado, mas o que ele escreveu em nós não sai. E talvez o maior tributo que podemos dar agora seja esse: levar adiante o que ele acreditava, ser gente melhor, questionar, argumentar, ser mais justo.

Porque professor de verdade não morre. Ele se multiplica nos alunos.

“Um bom professor fala. Um mestre inspira. “E ele fez os dois.

Obrigada pelos ensinamentos, pelas brigas, pelos exemplos, pelos livros…

Obrigado por tudo, Professor Edson.

 (Danyela Oliveira, ex-aluna do Professor Edson e vereadora do município de Pontão, RS)

Em Sessão de Vereadores Mirins, uma iniciativa da Câmara de Vereadores de Pontão, Danyela também fez outra reverência ao trabalho do professor Edson.

Veja:

***

Um colega e um amigo de uma vida toda. Mas a vida nos prega peças, às vezes, e a partida do meu colega de profissão é daquelas surpresas que atinge o coração de forma profunda e dolorida.

Durante mais de 3 décadas trabalhamos juntos, construímos uma grande amizade e parceria. Edson era um professor que amava a profissão imensamente e não o imagino fazendo outra coisa, ou tendo outra profissão. Era um intelectual que dominava diversas áreas de conhecimento e saberes que aprendi com ele.

Juntos, e com a partilha do seu amor pela educação, desenvolvemos muitos projetos na Escola Municipal Olavo Bilac envolvendo a reciclagem de papel, por exemplo. Edson tinha muito carinho adorava participar de projetos, influenciando positivamente as ações dos estudantes.

Tinha também uma grande paixão pelos esportes e repassa toda garra, dedicação e amor para os estudantes, tanto na sala de aula como fora dela.

Professor Edson Vanderlei Rodrigues enfrentava as suas lutas, mas quem conviveu com ele guardará, com certeza, alguma lembrança positiva deste mestre do conhecimento. Por mais tristes que estejamos com sua partida, ficam os grandes ensinamentos que se perpetuarão de forma leve e gratificante.

Descanse em paz, amigo e colega de profissão!

(Nelci Galera Hahnn, ex-diretora da Escola Municipal Olavo Bilac, Sagrisa, Pontão, RS)

Professor Edson Vanderlei Rodrigues em atividades da Escola e atividades sociais.

***

O que dizer de um professor muito respeitoso e inteligente?  Quando vinha para a escola, dava tudo de si pra ensinar seus alunos em História e Educação Física.

Minha filha Danieli gostava muito de suas aulas e aprendeu muito com ele. E nós, professores e professoras, junto com ele, fizemos a Primeira Olimpíada do Município de Pontão em nossa escola Olavo Bilac. Todos unidos fizemos a diferença: Marli, Maira, Daniela, Deise, Nelci, merendeira Beatriz e o CPM da Escola. Também lançamos o mascote da Olimpíada: o Olimpim, como também camisetas. Na reciclagem de papel, o professor Edson organizava estudantes e professores e todos ajudavam na reciclagem de latinhas, na horta na alimentação saudável dos estudantes.

Edson era um colega muito querido pelos professores e estudantes. Deixará saudades a todos que tiveram o privilégio de estar com ele. Que Deus ilumine seu caminho!

(Professora Marli Silva da Costa, colega de profissão)

Fotos: Divulgação/ Arquivo pessoal Nelci Galera Hahnn

Edição: A. R.

A Copa e o Poço

Bets não deveriam existir. Mas, se não há como evitá-las (por causa das apostas feitas pela internet com empresas sediadas no exterior), jogadores de futebol, por serem ídolos e formadores de opinião (especialmente para os jovens), deveriam proteger seu público de produtos de alto risco, assim como alguns astros internacionais recusam publicidade de fast-food ou bebidas alcoólicas. É o que eu penso.

O menino que jogava descalço na várzea, que dividia uma coxa de frango com 5 irmãos, que aprendeu a dar chapéu porque o campinho era de terra e pedra, hoje aparece na TV de terno italiano dizendo “tigrinho, clica no link da bio”. 

Dancinha do gol não resolve problema. Gratidão a Deus no avião não tem a ver com Deus.

Deus é o patrocínio, o contrato de milhões, a  agência de marketing.

Porque o mesmo moleque que saiu do Alemão, da Vila Cruzeiro, do Zacchia, voltará pra favela em forma de anúncio. “Fique rico como eu. Só apostar 5 reais”. E o primo dele, o vizinho dele, o porteiro que lavava o carro dele, vê aquilo e acredita. Porque se o ídolo falou, deve ser verdade.

Aí o salário que não dava pra conta do mês vira 20 reais na bet. Depois 50. Depois o vale. Depois o nome sujo.  O jogador ficou rico. A quebrada empobrece.

E na Copa isso fica escancarado. Porque na Copa a gente lembra. A gente lembra do nome da rua, da escola, do gol no campinho de terra. A gente projeta neles a nossa revanche. “Esse aí é um de nós”. 

Mas, vocês conhecem o filme espanhol “O Poço”? Assistam.

Trailer: https://youtu.be/7CxKksqGrbI?t=4

O filme mostra o que a gente finge que não vê na Copa: o sistema só funciona porque quem tá em cima come primeiro e come demais. E porque quem tá embaixo aceita migalha achando que um dia vai subir.

A grande sacada de “O Poço” é essa. Não tem comida nova a cada andar. Tem só uma plataforma que desce. Igual à carreira de jogador. Se os de cima não deixarem nada, os de baixo morrem. E se os de baixo resolverem comer tudo antes, os de cima passam fome na volta. 

Só que na vida real ninguém escolhe dividir. O jogador que saiu da favela chega no nível 1 e esquece o endereço. Troca a memória por relógio. E vira garoto-propaganda da roleta que afunda quem ficou lá atrás.

Na hora do hino, ele olha o relógio no pulso. Na hora da entrevista, ele decora três frases que o assessor passou. Na hora do comercial, ele sorri e aponta pra bet. Defende a família e faz festa com garotas de programa.

Virou criança com cartão de crédito. Quer brinquedo novo toda semana: carro, tênis, relógio, casa, e ostenta para que todos pensem que Deus abençoa.

Não penso que jogador deva ser político. Nem pastor. Nem herói. Talvez, pudesse apenas não vender a ilusão para a quebrada de onde saiu.

Porque bet não tira ninguém da miséria. Bet só muda o endereço da miséria. Do bairro pobre pro bolso do dono da bet. 

Bets não deveriam existir. Mas, se não há como evitá-las (por causa das apostas feitas pela internet com empresas sediadas no exterior), jogadores de futebol, por serem ídolos e formadores de opinião (especialmente para os jovens), deveriam proteger seu público de produtos de alto risco, assim como alguns astros internacionais recusam publicidade de fast-food ou bebidas alcoólicas. É o que eu penso.

Quem brinca de roleta, na realidade, é a esperança. No futebol, ela seria um moleque que, mesmo chegando no topo, lembrasse do campinho de terra e não vendesse ilusão pra quebrada.

A maior parte da quebrada passará a vida com seu álbum incompleto. E os campinhos da várzea seguem lá esperando. Claro, com wi-fi para ficar on line, e propaganda de aposta no alambrado. A Copa termina, o poço continua.

Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “Guerrear pela Paz”: www.neipies.com/guerrear-pela-paz/

Edição: A. R.

O curioso caso da cor Rosa

“Este texto é dividido em camadas; espero que você consiga senti-las”. Compreender mais sobre a sua mente pode destravar caminhos que hoje parecem impossíveis para você!

Camada 1 Dizem os colorimetristas que o rosa cria mais contraste com o verde do gramado.

(IA com a Curadoria da Autora)

Aparentemente, eu devo, em uma primeira camada, concordar com eles.

que marca não quer chamar atenção?

A questão é que talvez não seja apenas uma questão de contraste, ou melhor, desse contraste específico.

Neste livro a autora traça uma relação histórica psicológica das cores. E, acredite ou não, o rosa nem sempre foi associado ao feminino. Essa relação é recente e começou a se consolidar nos Estados Unidos na década de 40, quando a publicidade e a indústria perceberam que segmentar produtos por gênero aumentava as vendas. Antes disso, não havia uma cor específica; e em alguns contextos, inclusive, o rosa era mais associado ao masculino justamente por derivar do vermelho, uma cor vista como mais intensa e vigorosa.

Já o azul

Camada 0

O melhor mesmo é perceber determinados “machos” incomodados com o uso do rosa na Copa do Mundo, como se a cor pudesse destituir a masculinidade do atleta; ou talvez, mais do que isso, como se tudo aquilo associado ao feminino carregasse algo de – (negativo).

É justamente aqui que também se cria contraste, mas, entre o que foi imaginado (ideia) e o que foi percebido (manifestação).

Chamando ainda mais atenção, atraindo ainda mais comentários! (que jogava de mestre).

Camada -1

Esse movimento, na maioria das vezes, é desconfortável porque rompe com a ilusão de

previsibilidade = segurança = conforto.

Só existe possibilidade nessas interações porque o nosso pensamento é essencialmente simbólico. A palavra símbolo vem do grego sýmbolon, que significa “aquilo que é lançado junto”.

Por exemplo: se você vê com frequência o rosa sendo lançado junto com mulheres, essa cor passa a estabelecer uma conexão neural mais forte com a rede que representa a ideia de “mulher”. E a ideia, por sua vez, nada mais é do que um conjunto de informações percebidas no meio e organizadas em circuitos neurais. Traduzindo: quando você vê isto,

lembra disto:

Algo semelhante acontece quando dizemos que o amarelo é uma cor vibrante e cheia de energia. Quem mais é assim?

Bingo!

No livro amarelo investigamos não apenas o que é uma cor, mas também como esse simbolismo dá sentido à existência e influencia a forma como enxergamos a realidade.

Leia mais: www.neipies.com/livro-arquitetura-da-linguagem/

Compreender mais sobre a sua mente pode destravar caminhos que hoje parecem impossíveis para você!

FONTE: https://anapscheffer.substack.com/p/o-curioso-caso-da-cor-rosa

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “O que Michelangelo pode ensinar ao futebol brasileiro”: www.neipies.com/o-que-michelangelo-pode-ensinar-ao-futebol-brasileiro/

Edição: A. R.

Marilise Brockstedt Lech: Encontros com Educadores

Repercutimos matéria/entrevista da psicóloga e educadora Marilise Brockstedt Lech, também acadêmica da Academia Passo-Fundense de Letras publicada no ano de 2010 pela Revista Direcional Educador.

Consideramos este material ainda muito atual, sobretudo porque fala de realidades ainda não plenamente superadas em diferentes salas de aula do nosso Brasil. Com seu olhar de psicóloga, Marilise Brockstedt ainda nos ensina muito a partir de sua entrevista, publicada juntamente com outras 49 pessoas, dentre elas, para citar alguns e algumas: Nádia Freire, Mario Sérgio Cortella, Ana Maria Araújo Freire, Celso Antunes, Maria Helena Matarazzo, Ziraldo, Pedro Bandeira, Ilan Brenman.

A educadora e psicóloga Marilise Brockstedt Lech estuda os conflitos na sala de aula e defende que afeto e autoridade podem conter atitudes inadequadas.

Professores desrespeitados em plena sala de aula, alunos vítimas de humilhações por parte dos colegas, brigas que chegam à agressão física. Que atire a primeira pedra a escola que nunca viveu alguma dessas situações.

Desde o início de sua carreira na Educação, como professora de Educação Infantil, Marilise Brockstedt Lech percebeu que o afeto era fundamental para o estabelecimento do processo de ensino-aprendizagem.

“Percebia o quanto as crianças dependem de um conjunto de competências do professor para resolver as diversas situações imprevistas em sala de aula, dentre elas a questão dos comportamentos agressivos, que ocorrem cada vez com maior frequência nas escolas.”

Graduada em Educação Física e Psicologia pela Universidade de Passo Fundo, especialista em Educação Infantil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Marilise aprofundou seus estudos sobre os conflitos escolares e as competências necessárias aos educadores para lidar com essas situações.

Esse trabalho deu origem ao livro Agressividade na Escola: uma questão docente, publicado pela Editora Mediação.

Embora o título destaque a agressividade, a autora explica que escreveu, principalmente, sobre as competências que o educador deve desenvolver para lidar com as situações de conflito vividas no cotidiano escolar.

Na época da entrevista, Marilise também atuava como docente em cursos de pós-graduação e como extensionista do Programa A União Faz a Vida, cuja proposta era desenvolver valores como solidariedade, cooperação e cidadania.

A seguir, a entrevista concedida à revista Direcional Educador.

***

Em seu livro, a senhora afirma que nem todo conflito gera um comportamento agressivo. Pode dar um exemplo de uma situação em sala de aula em que um conflito tenha um “final feliz”?

Marilise Brockstedt Lech – Um conflito pode significar apenas um choque de ideias, capaz de ampliar a capacidade de reflexão, o pensamento crítico e o crescimento pessoal. Quando duas pessoas apresentam opiniões diferentes, não significa que uma esteja certa e a outra errada. Muitas vezes, ambas possuem razões legítimas.

As pessoas precisam compreender que o contrário de uma verdade pode ser outra verdade. Quando o conflito passa a ser entendido dessa forma, ele deixa de representar ameaça e transforma-se em oportunidade de aprendizagem.

Em seu livro, a senhora trata da agressividade desde a Educação Infantil. Como definir o limite entre aquilo que é esperado para a idade e aquilo que excede o padrão?

Marilise Brockstedt Lech – Todas as crianças, em maior ou menor grau, passam por situações em que utilizam a força física para defender suas ideias ou aquilo que acreditam ser seus direitos. Até o final da Educação Infantil, a criança ainda não possui plena noção do certo e do errado, ainda está desenvolvendo a capacidade de colocar-se no lugar do outro — ou seja, a empatia — e também não dispõe de recursos linguísticos suficientes para expressar verbalmente seus sentimentos. Assim, a agressão acaba sendo, muitas vezes, o caminho mais curto para sua comunicação.

A partir dos seis ou sete anos, espera-se que a criança já consiga organizar melhor o pensamento e utilizar a linguagem para resolver conflitos. Quando isso acontece, diminui a necessidade de responder fisicamente, pois também diminui a angústia provocada pelos sentimentos negativos que impulsionam a agressividade.

Da mesma forma, observamos o fenômeno do bullying especialmente entre pré-adolescentes e adolescentes. Cabe ao professor discernir aquilo que faz parte das interações próprias da idade daquilo que caracteriza violência sistemática.

Como o professor deve agir diante dos alunos que praticam bullying?

Marilise Brockstedt Lech – Os limites entre uma brincadeira e o bullying são bastante tênues. Muitas vezes observamos alunos discutindo, brigando ou provocando-se mutuamente.

Um dos critérios mais importantes é observar o grau de sofrimento existente entre as partes. Quando ambos se divertem, estamos diante de uma brincadeira. Quando apenas um dos envolvidos demonstra irritação, tristeza, constrangimento ou humilhação, a situação deixa de ser brincadeira e passa a caracterizar uma forma de agressão.

Os alunos que praticam bullying frequentemente não conseguem perceber o sofrimento que provocam nas vítimas. Por isso, é papel dos professores ajudá-los a desenvolver empatia e consciência sobre as consequências de seus atos. As atitudes educativas são muito mais eficazes do que as meramente punitivas.

A autoridade do professor parece estar enfraquecida nas salas de aula. Como resgatá-la?

Marilise Brockstedt Lech – A relação dos alunos com a autoridade começa muito antes da entrada na escola. O professor acaba sendo, em muitos casos, um reflexo das primeiras figuras de autoridade presentes na vida da criança.

Sob essa perspectiva, resgatar a autoridade exige que crianças e adolescentes estabeleçam novos modelos positivos de identificação. Trata-se de um processo lento, mas extremamente necessário.

Respeitar um aluno que não respeita os demais costuma surpreendê-lo. Aos poucos, esse novo modelo de relacionamento pode modificar seu comportamento.

O princípio da autoridade está fundamentado no respeito. Já a ameaça representa autoritarismo. Quando o professor ameaça constantemente seus alunos, perde sua autoridade.

A escola inclusiva contribui para o aumento dos conflitos?

Marilise Brockstedt Lech – De certa forma, sim. Até poucas décadas atrás, frequentavam a escola principalmente aqueles que possuíam condições sociais, cognitivas e familiares favoráveis.

Com a universalização do ensino, a escola passou a acolher uma diversidade muito maior de estudantes. Há alunos que não gostam de estudar, outros apresentam dificuldades físicas ou intelectuais, enquanto muitos possuem diferentes formas de aprender.

Atender toda essa diversidade representa um enorme desafio para a escola e pode gerar conflitos entre alunos, professores, famílias e gestores públicos.

Esse processo de inclusão é lento e faz parte de uma transformação social muito maior, que acredito ser uma verdadeira revolução da consciência. Enquanto ela não estiver consolidada, os conflitos continuarão existindo, pois fazem parte da condição humana.

Como a formação de professores pode desenvolver competências para resolver conflitos?

Marilise Brockstedt Lech – A formação do professor começa muito antes da universidade. Ela se inicia na própria história de vida de cada educador. Costumo dizer que um bom professor é, antes de tudo, um educador nato. Suas habilidades de relacionamento dependem tanto de sua formação acadêmica quanto de suas experiências pessoais.

A universidade deveria dedicar mais espaço ao desenvolvimento das competências humanas dos futuros professores.

Em meu livro destaco algumas competências fundamentais: bom senso, experiência, capacidade de reflexão, pesquisa e, acima de tudo, afeto. É o afeto que permite ao professor desenvolver empatia, acolher o aluno como ele é, compreender seus sentimentos e, ao mesmo tempo, exercer autoridade para ajudá-lo, gradativamente, a modificar atitudes inadequadas.

A senhora fala sobre a corporeidade como forma de comunicação. A escola ainda é muito tradicional nesse aspecto?

Marilise Brockstedt Lech – Sim. O corpo é nosso principal meio de comunicação. Quanto menos ele é considerado na escola, maiores tornam-se as dificuldades para estabelecer vínculos e expressar emoções.

A agressão é, muitas vezes, a expressão corporal da raiva e da frustração. Quando essa energia emocional não encontra formas saudáveis de elaboração, ela acaba sendo descarregada através do comportamento agressivo.

Por isso defendo a importância do corpo e do movimento no processo educativo. Eles ajudam tanto a canalizar as tensões do cotidiano quanto a ampliar as oportunidades de vivenciar emoções positivas.

Esse ainda é um desafio para muitos professores, que acreditam que a aula ideal é aquela em que todos permanecem sentados e em silêncio durante todo o tempo.

Que orientações a senhora daria aos professores para minimizar os conflitos escolares?

Marilise Brockstedt Lech – Em primeiro lugar, é preciso investir mais emoção no processo educativo. Quando aprender torna-se algo significativo e prazeroso, sobra menos espaço para os conflitos.

Também considero essencial o afeto, entendido como respeito, bom humor e amor, no sentido proposto pelo biólogo chileno Humberto Maturana: a capacidade de aceitar o outro como um legítimo na relação.

Quando o aluno se sente aceito e respeitado, aumenta sua disposição para rever suas atitudes e encontrar formas mais saudáveis de expressar seus sentimentos.

A escola começa a perceber que seu papel mudou. Vivemos em uma sociedade inundada de informações. Mais do que transmitir conteúdos, cabe à escola ajudar os alunos a atribuírem sentido ao conhecimento, para que possam utilizá-lo em benefício próprio e da sociedade.

FOTOS: Arquivo pessoal entrevista/divulgação

Marilise Brockstedt Lech também escreveu no site: www.neipies.com/carta-pela-natureza-as-futuras-geracoes/

Edição: A. R.

Aposta que dá…

Vai que dá… você chega ao seu triste fim antes de todos nós. Imitando Nelson Rodrigues: bonitinha aposta, mas ordinária.

Vai que dá, não tem erro.

É só apostar. Mete a ficha. Opa, não é cassino. Mete o dedo na tela.

Nem pensar e nem sonhar em fazer café na cozinha. É autoincriminação na certa. Bah, o aplicativo do Tigrinho é inteligente. Primeiro jogo é seu, primeiro ganho e aquele friozinho na barriga.

E as Bets, hein? Tem mais de cem para escolher. Tem até site que você segue para jogar melhor.

Parou…parou…Exagero? Só o começo da novela. Já deu para sentir que será uma tragédia do Nelson Rodrigues. Ou seja, a vida como ela é.

Você não leu a história do sujeito que se matou com uma dívida de 1 milhão e meio? Do vovozinho de uma geriatria que devia meses, e sua dívida era impagável. E a história de um pai famoso cujo filho famoso acumula dívida de 3 milhões.

Isso tudo não é nada. Afinal, quem se importa com Dona Mariana, a mulher da limpeza, que deve um salário e faltou ao trabalho, porque perdeu o dinheiro da passagem do ônibus no Tigrinho.

É legal? Até é, mas imoral, o jogo opressor e torna um ser humano num joguete da nova cocaína. É viciante.

As Bets pagam 10 bilhões em impostos, enquanto o país gasta 30 na saúde mental de viciados nesta nova cachaça.

Dívidas impagáveis. Famílias destroçadas. Vidas acabadas.

Torceu o nariz para os artistas que começaram a campanha “Block Tigrinho”? Eu aplaudi e aderi. Sou Danilo até debaixo d’ água. Já não sou muito ligado em ver futebol, Cazé não me convence. Mais esperto que a Globo. Esta é sócia da BetMGM. A maior parte delas se compõe de capitais internacionais, em paraísos fiscais.

Vai que dá… dor de cabeça, depressão.

Vai que dá… você chega ao seu triste fim antes de todos nós. Imitando Nelson Rodrigues: bonitinha aposta, mas ordinária.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publico no site “Histórias escritas com giz”: www.neipies.com/historias-escritas-com-giz/

Edição: A. R.

Entre o “eu” que escreve e o “você” que lê segundo Mauro Gaglietti

Memórias, nem sempre agradáveis ou que afloram, no tempo presente, não necessariamente, por nossa responsabilidade, são partes de nós e com elas temos de lidar. Afinal, há medos que não fazem mais sentido e continuamos tendo. Seriam heranças epigenéticas? As memórias divididas, quando compartilhadas em escutas, não mudam o que passou, mas podem mudar o peso do passado; eis a questão.

Mauro Gaglietti, “o professor de gentes”, no seu mais recente livro, “O espelho que respira”, publicado pelo Grupo Editorial Caravana, deixou de lado os barroquismos e a profusão de notas de rodapé, que caracterizam o estilo das suas obras acadêmicas, para, em 11 crônicas, sem excessos, estimular que as pessoas, quando diante do contraditório, jurídico ou não, pelo menos conversem com um pouco mais de humanidade. Atingido esse feito, a obra terá cumprido o seu papel e, finalmente, “o espelho terá respirado”, justificando o livro ter vindo à luz.

Ao dedicar o livro à esposa Biva e à filha de coração, Alexandra, Mauro expõe segredos. Revela que “o espelho não o reflete; ele o desorganiza”. E que é no rosto da Biva que encontra a resposta que não precisa de palavras. Ao capturar o invisível que os une, o espelho respira. E realça a confiança depositada em Alexandra, que, ao seguir os caminhos da psiquiatria, com a delicadeza que lhe é peculiar, poderá iluminar o que no outro ainda é sombra.

Os encontros humanos não seguem linhas retas, destaca Mauro Gaglietti. E que há verdades que só se revelam quando o espelho deixa de refletir com tanta exatidão. O invisível precisa ser sentido. Que a empatia tem de se sobrepor à simpatia. Não é suficiente ser simpático, e não dispensar qualquer esforço para escutar o silêncio do outro. Quem sabe “descalçar os sapatos da vaidade”, abster-se de julgamentos apressados e pisar no chão que o outro pisa? Que muitos, estejamos cientes, nesses tempos apressados, não pedem mais do que apenas serem escutados. Alteridade, acima de tudo!

Transformar confrontos em encontros não é algo alcançável com receitas prontas. E Mauro Gaglietti é sabedor disso. Nos conflitos, em geral, cada parte quer falar mais alto. Quando uma parte não escuta a outra, não há avanços. Por isso, a arte da mediação somente chega a bom termo quando duas histórias que divergem são postas para conversar e atingem a convergência. É quando, frisa Gaglietti, os “espelhos imperfeitos” respiram e se transformam ao tocar um ao outro.

O silêncio que acometia o paciente do quarto 312, destacado no texto “Quando a boca reaprende a morar no mundo”, é sintomático das doenças marcadas pelo excesso de silêncio. Quando se guarda tanto, o corpo precisa falar; nem que seja na forma de dor. Não foi seguindo o prontuário no que diz respeito a questionamentos sobre dor, febre ou comentando o resultado de exames que o silêncio daquele homem foi quebrado. Mas, sim, diante da inusitada pergunta do que ele gostava de comer quando estava em casa.

Nem sempre é apenas a droga de última geração, apesar de quase sempre indispensável, que pode trazer a cura. Alguém disposto a escutar sem relógio no pulso, na alegoria usada por Mauro Gaglietti para expressar pressa, pode fazer a diferença.

As histórias humanas, especialmente aquelas forjadas ao redor dos fogões, distantes dos agitados tempos Wi-Fi comandados pelas redes sociais e aparelhos moveis dos quais não se consegue desgrudar os olhos, nem mesmo na companhia de pessoas agradáveis e que nos são caras, mereceram a atenção de Mauro Gaglietti. Histórias humanas que não terminam quando acabam, mas encontram um lugar seguro para continuar, seja com os mesmos ou com outros protagonistas que se juntam a elas ao longo da jornada da vida, inclusive, pavimentando futuros.

Memórias, nem sempre agradáveis ou que afloram, no tempo presente, não necessariamente, por nossa responsabilidade, são partes de nós e com elas temos de lidar. Afinal, há medos que não fazem mais sentido e continuamos tendo. Seriam heranças epigenéticas? As memórias divididas, quando compartilhadas em escutas, não mudam o que passou, mas podem mudar o peso do passado; eis a questão.

A justiça mais além de meras sentenças punitivas mereceu especial atenção nas crônicas do livro “O espelho que respira”. O “cumpra-se!” protocolar, que costuma selar a decisão de magistrados, não necessariamente repara o dano na sua totalidade. Ninguém muda ninguém. Quem sabe as pessoas mudem quando não precisarem carregar escudo e lança para se defenderem o tempo todo e de todo mundo. Talvez, num conflito, a melhor solução não seja quem tem razão, mas qual justiça cabe aplicar. Uma utopia Gagliettiana?

Leia o livro e tire as suas próprias conclusões. Aliás, o autor encerra destacando que “O espelho que respira” não é uma mera frase bonita para enfeitar capa de livro exposto em vitrines de livrarias. (disponível em: https://caravanagrupoeditorial.com/livros/o-espelho-que-respira/

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “O primeiro Morin a gente não esquece”: www.neipies.com/o-primeiro-morin-a-gente-nao-esquece/

Edição: A. R.

Seres celulares

Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

“Uma pequena batida no canto da mesa do meu escritório e a ínfima rachadura começou a surgir. Uma rachadura diagonal no celular que se auto proclamava “inquebrável” produzido com “tecnologia militar”. Uma mancha escura não tardou a acompanhar a rachadura, tal qual um ferimento que se abre e sangra levemente, e o pequeno aparelho parecia “enlouquecer”. Não aceitava mais os comandos, abria e fechava telas a esmo, vibrava alarmes, desligava ligações, desfazia textos. Tudo isso para meu desespero.

Sim, pode parecer dramático, pode parecer novelesco, mas meu estado de espírito era sim: desesperador.

Pare para pensar, antes de formar seu julgamento sobre meu equilíbrio mental… Quantas coisas o celular substituiu nos últimos tempos: câmera, rádio, telefone, cartas, telegramas, e-mails, mensagens de texto, notebooks, e, cartão do banco! Isso assim, por cima. Que eu me lembre. Talvez você lembre de outros tantos usos.

Eu que trabalho com produção cultural e projetos, tenho diversos arquivos e rotinas organizados nesse, e através desse, pequeno aparelho eletrônico. Me vi, suspensa! Era como ser demitida pela tecnologia e estar isolada da humanidade, incomunicável.

Calma! Disse a mim mesma e abri o notebook. Por um “milagre” tecnológico o whatsapp web estava ativo na tela do computador! Alívio! Temporário. Logo perceberia que “nem tudo” poderia ser feito ali. Mas, era sim, um pouco tranquilizador não estar totalmente apartada do mundo! Ufa!

Esta foi a descrição dos sentimentos que me embalaram no primeiro dia, o “dia D”, o marco zero, nos dias que se seguiram e onde descobri a impossibilidade de conserto do celular em questão, entre a espera de um novo aparelho e os entraves profissionais, outro sentimento surgiu: uma certa serenidade.

Sem notificações em vermelho em uma tela constantemente brilhante, silêncio na ausência de constantes ligações, poucas interrupções ao longo do dia, notei em mim, mais foco, consegui terminar uma leitura parada há tempos, enquanto esperava na fila do banco para sacar um dinheiro, de papel! Veja bem! Conversei com as pessoas ao meu redor com mais calma e me senti menos pressionada pelo tempo.

Em nove dias, um novo aparelho chegou. Chips trocados e a ilusão terminou! Várias mensagens em atraso para responder. Boletos que não foram validados no “DDA”, históricos de mensagens importantes apagadas no whatsapp, fotos de trabalhos a recuperar, postagens a serem feitas fora do prazo, Pix a enviar, aplicativos bancários e de comunicação com o governo a serem revalidados, etc, etc, etc…

Lembrei-me, então, em um momento caótico, das aulas de biologia no Ensino Fundamental, onde a professora jamais poderia adivinhar naquela época, o quanto estava certa e o quanto estava sendo visionária enquanto afirmava sem exitar: somos seres celulares!”.

(Texto de Luciana Marinho Albrecht, escrito e publicado em 01 de julho de 2026 nas suas redes sociais)

Leia mais sobre esta escritora, contadora de história e agente cultural, Luciana Marinho Albrecht: www.neipies.com/processos-criativos-e-inspiracoes-literarias-femininas/

Violência contra a mulher: grupos reflexivos para agressores provocam diminuição da reincidência

Repercutimos matéria do Jornal Correio do Povo que relata importante experiência desenvolvida junto aos agressores homens, visando sua reeducação, como forma de evitar reincidência de violência contra as mulheres. Iniciativas de reeducação vêm sendo implementadas, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais.

(Por Leticia Pasuch e Lúcia Haggström)

“Da lista, são duas Paulas, duas Marines e duas Gislaines. Onze delas tinham menos de três décadas de vida. Outras três tinham os 30 anos completos. Três também dividiam a mesma idade, 24. A mais nova tinha apenas 15 anos. Já a mais velha, 77. Seis décadas a separaram, mas o feminicídio não escolhe faixa etária.

As 42 mulheres brutalmente assassinadas até o dia 26 de junho deste ano, que entraram para a estatística no Rio Grande do Sul, mudam de nome, idade e profissão. Em praticamente todos esses casos, o principal suspeito é o companheiro ou ex-companheiro da vítima, que não aceitava o fim do relacionamento.

Na maioria das ocasiões, não havia medida protetiva de urgência, mas os homens já tinham apresentado comportamentos abusivos. Em outros, até havia, mas a determinação não foi respeitada. As maneiras dessas vidas serem tiradas também apresentam um padrão. Em muitos casos, são com facadas ou com armas de fogo, com objetos ou com estrangulamento – todos, sem exceção, com crueldade.

Uma das vítimas era bombeira civil. Outra, servidora municipal. Ainda, uma era ex-vereadora e diretora de secretaria estadual. Uma delas teve sua vida tirada dentro da própria casa. Dentro de casa, também, uma filha presenciou sua mãe ser assassinada. Outra mãe foi encontrada sem vida em uma plantação de soja. Deixou um filho, cuja idade ainda não enchia uma mão.

No ano em que se comemora o 20º aniversário da Lei Maria da Penha, mais de seis mulheres morrem a cada mês só por serem mulheres no Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado. A prática, que antes era uma qualificadora do crime de homicídio, desde o ano passado é considerada crime autônomo, podendo a pena ser aumentada caso a vítima seja gestante ou puérpera.

AUMENTO DE CASOS APESAR DO AUMENTO DA PENA

Na prática, a mudança permitiu a criação de estatísticas mais precisas sobre ocorrências dessa natureza, além, é claro, de aumentar as penas para quem as pratica. No entanto, só nos primeiros seis meses deste ano o número de casos já ultrapassou 50% dos 80 registrados em todo o ano anterior.

Para Elizabeth Mazeron, psicóloga e socióloga que estuda violência há mais de 10 anos, os números ajudam a entender que medidas repressivas sozinhas não ajudam a resolver o problema. “Não adianta simplesmente prender esse sujeito, tem que fazer um trabalho com ele para que possa recuperar o sentimento de que pertence a um espaço, de que ele não precisa controlar tudo e agredir para garantir sua condição de homem”, afirma. Em nível nacional, mais da metade dos homens que cometem algum tipo de violência de gênero volta ao sistema prisional por crimes relacionados à Lei Maria da Penha.

Conforme a juíza do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Foro Central I de Porto Alegre, Madgéli Frantz Machado, o feminicídio é um crime complexo e, por isso, o combate às ocorrências não pode ser tratado apenas com aumento de pena.

“Todo mundo quer ouvir que, porque aumentou a pena, e agora é a maior prevista no Código Penal, ajudou a diminuir os casos. Mas, em qualquer lugar do mundo, é verificado que somente aumentar a pena não vai erradicar as ocorrências”, explica a magistrada, que é responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS).

 Juíza responsável pelo 2º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Madgéli Frantz Machado | Foto: Alina Souza

A juíza defende que iniciativas de reeducação sejam mais eficientes, tendo em vista que a motivação para esses crimes tem raízes culturais. Dentro do juizado, é desenvolvida uma série de ações que preveem o apoio às vítimas e, também, os Grupos Reflexivos de Gênero, direcionados a homens que queiram participar voluntariamente ou por determinação para quem é alvo de medida protetiva ou que responde por ocorrência relacionada à Maria da Penha. Esses grupos promovem debates sobre os direitos das mulheres e os papéis de gênero dentro de uma sociedade saudável desde 2011.

FENÔMENO CULTURAL

Os casos de feminicídio deste ano percorreram todas as macrorregiões do Rio Grande do Sul: Metropolitana, Serra, Vale do Taquari e do Rio Pardo, Fronteira-Oeste, Campanha, Sul, Litoral, Noroeste e Norte. Embora tenham ocorrido em endereços, famílias e histórias distintas, e sob circunstâncias aparentemente particulares, carregam semelhanças impossíveis de desassociar: um mesmo roteiro de ciclo de violência, que envolve a escalada de diferentes insultos, ameaças, abusos e agressões.

Mesmo que sociólogos e profissionais da saúde entendam o feminicídio e as violências de gênero como fenômeno cultural, diferente de outras agressões e homicídios, a previsão legal de pena não é específica quando se trata da ressocialização de pessoas que respondem por crimes que tenham perspectiva de gênero.

A violência doméstica é classificada pelos especialistas como o tipo mais persistente da história e de difícil combate, já que, por séculos, foi sustentada por um sistema que naturaliza a submissão feminina.

Para a psicóloga e socióloga Elizabeth Mazeron, os avanços culturais que questionam essa lógica são recentes, assim como o estabelecimento de direitos específicos dessa população. “Até a década de 1970, no Brasil, ainda existia a previsão da legítima defesa da honra. Quer dizer, a mulher era tida como uma propriedade do homem, a quem ele podia dispor como quisesse. Se ela não obedecesse, ele podia matá-la e ter uma pena abrandada.” Apesar de a maioria dos feminicídios deste ano ter sido cometida por homens, em um deles a vítima foi morta pela ex-namorada, que também não aceitou o término do relacionamento.

Na contramão dos avanços legais, atualmente têm ganhado proeminência movimentos que reforçam estereótipos de gênero. Na avaliação da socióloga, esses comportamentos são resultado de uma nova configuração social que questiona o que antigamente era estabelecido como a identidade masculina. “É quase como se o homem estivesse tentando encontrar seu lugar de novo na sociedade. Quando o poder de um lado é ameaçado, a tendência é que haja reação, mas isso é sempre uma tensão cultural. Não dá nem para supor isso como uma coisa biológica.”

ESCALADA DE VIOLÊNCIA

Conforme um levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), levando-se em consideração os 80 casos de feminicídio registrados em 2025, em 75% das ocorrências não havia sequer um boletim de ocorrência registrado contra o autor. Deste mesmo montante, 95% não tinham medidas protetivas de urgência ativas no momento do crime. Esses números passam a impressão equivocada de que essas mulheres são vítimas de um descontrole repentino.

Na maioria esmagadora dos casos, antes de ocorrer uma agressão física, já são identificados comportamentos nocivos relativos à violência verbal, ciúmes excessivo, controle financeiro, patrimonial e a contenção de liberdades, como a socialização com determinadas pessoas, o monitoramento da localização da mulher, entre outras formas de controle que são normalizadas e, em alguns casos, podem escalar para outras violências, como ameaças e abuso sexual.

“A questão de controle é uma situação complicada e podemos identificar que fica mais difícil ainda no Interior, em zonas rurais. Às vezes, a distância também dificulta a esses órgãos [de proteção]”, destaca Bibiana Veríssimo, dirigente do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública do Estado (DPE-RS).

A legislação define como estupro a satisfação da lascívia sem o consentimento do outro. A partir dessa definição, uma em cada quatro mulheres que estão em um relacionamento relata já ter se sentido forçada a ter relação sexual. Levantamentos realizados em diferentes regiões do Brasil dão conta de que mais de 80% dos homens não percebem essa prática como violência quando não há emprego de ameaça direta.

Muitas vítimas, além de sofrerem violências simbólicas por parte dos seus companheiros, ainda enfrentam o julgamento social ao tomar medidas a respeito dos abusos que sofrem. Foi o caso de A.S., que tinha 23 anos quando conheceu J.C.F., de 22. Ao longo do relacionamento, ela começou a notar comportamentos mais agressivos por parte dele, geralmente relacionados ao consumo de álcool. Após idas e vindas, ela tomou providências legais. Foi acolhida pelo Projeto Borboleta, iniciativa idealizada pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJRS.

“Tem gente que fala ‘tu não apanhou’. Eu posso não ter apanhado fisicamente, mas com as palavras, com uma batida forte na porta. Ou quando abria uma cerveja. Ele não é alcoólatra, mas aquilo me remetia a alguma coisa ruim. Quando ele bebia, principalmente com a família dele, ficava totalmente diferente”, relata a mulher, que chegou a solicitar medida protetiva contra o marido.

Ela conta que foi criticada por ter recorrido à rede de proteção naquele caso, mesmo que vivesse em situação de violência psicológica.

Para a socióloga, essa invisibilização é parte de um sistema que permite que essas violências não só se perpetuem, mas escalem. “O que a gente vê são feminicídios que sempre acontecem depois de outras violências. Essa ideia da explosão não cola. Mais que isso, a violência está acontecendo dentro de casa e todas as pessoas que estão no entorno percebem que existe alguma coisa errada. Mas vai sendo naturalizado”, explica. Ela destaca, inclusive, que esses comportamentos podem, muitas vezes, ser entendidos como demonstração de afeto tanto pela vítima como pelas pessoas que convivem com ela.

No exemplo do casal citado anteriormente, a medida protetiva foi expedida contra J.C.F. em 2018. Na época, a Justiça determinou que ele participasse dos grupos reflexivos. Ele conta que, durante o ano em que frequentou, aprendeu sobre leis de proteção às mulheres e teve a oportunidade de repensar comportamentos junto com outros homens, sendo alguns detidos e respondendo por violências físicas contra mulheres.

MUDANÇA DE CULTURA

A juíza Madgéli reforça que a cultura do machismo enraizada na sociedade é como uma “prestação de contas” para os outros homens. Portanto, todos eles acabam sendo pressionados por ela. “Qualquer violência contra a mulher, ele pratica porque está pressionado por uma cultura para agir assim, para os iguais dele, no grupo do churrasco e do futebol, com os amigos do WhatsApp. É a questão do pertencimento. Para pertencer aos ‘machos’, ele tem que agir assim. Se não agir, está fora.”

Especialistas defendem que o caminho para que isso seja desconstruído entre os homens – e na sociedade em geral – envolve trabalhar com a prevenção e com a mudança da cultura. “A gente tem visto no Brasil que o simples fato do recrudescimento da legislação não é suficiente. O que realmente muda algo é a prevenção, a cultura”, destaca Bibiana Veríssimo.

Os grupos reflexivos de gênero podem não só reduzir essa reincidência, mas servir como disparadores desta mudança, defende Aline Vettorazzi, psicóloga e coordenadora técnica Projeto Borboleta, que abrange os Grupos Reflexivos de Gênero no TJRS. O espaço é para ser de escuta e reflexão, e para que os agressores entendam seus atos, se responsabilizem e, assim, possam mudar suas condutas, na direção de quebrar o ciclo de violência.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza

Mas os homens resistem a participar dos grupos de reflexão. “A ideia é, justamente, que a gente consiga trabalhar essa resistência, para ele entender por que foi chamado”, complementa. Ela lembrou que, no ano passado, quatro homens procuraram os grupos voluntariamente, o que é uma exceção, e, por isso, ainda há a necessidade de que exista determinação legal.

A participação dos homens pode ser determinada pelo juiz ou juíza em diferentes momentos do processo judicial, como na medida protetiva de urgência, na condição para concessão de liberdade ou na condenação criminal. Neste caso, pode entrar como pena substitutiva, como condição de suspensão condicional de pena ou durante a execução da pena. Além disso, a participação pode ser considerada favoravelmente na aplicação da pena. No Rio Grande do Sul, são 64 comarcas que contam com Grupos Reflexivos, segundo dados do TJRS.

Após a conclusão dos encontros, o Judiciário acompanha por dois anos a situação, para verificar a reincidência do participante. A juíza Madgéli aponta que o índice de reincidência da violência doméstica entre os homens participantes é de aproximadamente 7%. Apesar de não haver dados recentes sobre a reincidência entre não participantes dos grupos no Rio Grande do Sul, levantamentos realizados em estados como Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso do Sul revelam que cerca de 80% dos homens voltam ao sistema prisional por ocorrências relacionadas à Lei Maria da Penha.

As reuniões envolvem um estilo específico de conversa com os participantes. Por meio dos chamados facilitadores, que medeiam os encontros, é utilizada uma metodologia com promoção de atividades e dinâmicas para que os assuntos surjam.

“Por exemplo, o que é ser homem hoje? Questões de transgeracionalidade. O que aprendi com as figuras da minha referência na infância? Como cheguei a este ponto? Com quem aprendi isso? De onde vem esse comportamento? A ideia toda é trabalhar essas questões”, cita Aline. O objetivo é que os homens se enxerguem como pares, gerando uma identificação. “É uma pessoa que está ali na mesma situação que ele.”

Ainda, é essencial trabalhar o que os homens entendem por violência. Segundo a psicóloga, muitos deles pensam que ela é apenas física e que a Lei Maria da Penha deveria ser aplicada para outros casos, não os deles. Dentro das discussões, os frequentadores são motivados a falar de outras dependências, como álcool e drogas, além da sua saúde mental, que interfere nesse comportamento.

A partir das conversas, é possível identificar a maneira como os homens enxergam as mulheres. Segundo Aline, apesar de haver uma variedade de percepções, a grande maioria descreve-as com um discurso racional, como se fossem iguais a eles, com os mesmos direitos. Porém, com o desenrolar das dinâmicas, são revelados estereótipos de gênero intrínsecos.

Está em tramitação na Justiça uma proposta de institucionalizar os Grupos Reflexivos do Tribunal de Justiça em todo o Estado e já há uma resolução do Conselho Nacional de Justiça que traça os requisitos mínimos para o projeto. Segundo a juíza Madgéli, esse processo irá favorecer a ampliação do número de grupos. “Vai, de fato, formar uma política pública.”

Aline Vettorazzi, psicóloga e servidora responsável pelo Projeto Borboleta | Foto: Alina Souza

RESSOCIALIZAR É COMBATER A VIOLÊNCIA

Tendo em vista a brutalidade com que, muitas vezes, esses crimes são cometidos, é necessária a retirada dos autores do convívio em sociedade, como uma medida cautelar de preservação da integridade das vítimas. No entanto, o alto índice de reincidência desses crimes leva a crer que apenas a reclusão não é suficiente para combater a violência de gênero.

Os resultados alcançados pelos Grupos Reflexivos de Gênero, no entanto, indicam uma alternativa viável para a prevenção e combate à escalada da violência. A Lei de Execuções Penais prevê que as sentenças estabelecidas devam “proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”, diz o texto.

A socióloga Elizabeth Mazeron entende que a maioria dos autores de violências contra a mulher tem a capacidade de rever seus comportamentos e se corrigir, entendimento reforçado pela eficácia dos grupos. “Funciona como uma contenção, como se fosse um superego externo. Para a pessoa que não tem essa repressão introjetada, ela passa a ser grupal. Sem dúvida funciona e tem eficácia justamente por esse caráter de ter alguém de fora exercendo um controle”, avalia a especialista, que descarta a hipótese de que todos os autores desses crimes sejam incapazes de ter empatia, apesar da crueldade empregada.

No caso do grupo coordenado pelo TJRS, a ideia é a prevenção da escalada das violências. Mais da metade dos homens que participam das reuniões não têm antecedentes criminais. “A maioria tem uma conduta social idônea, não tem envolvimento em outros processos. Por isso, essa mulher também fica em uma situação de dificuldade de romper o silêncio, porque ela diz: ‘Esse homem é maravilhoso. Todo mundo o ama’”, diz Aline Vettorazzi, o que vai na contramão da ideia de que os autores dos crimes sejam casos isolados e extraordinários.

O projeto do TJRS nasceu para dar efetividade à Lei Maria da Penha | Foto: Alina Souza

No caso de J.C.F., a participação no grupo foi determinante para a melhora em vários aspectos da sua vida. “Ali, aprendi muita coisa. Já falei para uns colegas como funciona, e eles nem faziam ideia da lei das mulheres.” Desde que cumpriu a determinação de frequentar o grupo, ele parou de beber, tem sido mais presente com os filhos e tem mais facilidade de identificar situações de violência.

Em uma conversa com uma colega de trabalho, o homem auxiliou aquela família a sair de uma situação de violência. “O padrasto batia nela e na mãe dela, uma senhora de idade. Eu dei o telefone do projeto para essa minha colega e ela ligou. Aí foram na casa e verificaram o que estava acontecendo”, relatou.

Há dois anos, J.C.F. e A.S., o casal mencionado no início da reportagem, decidiram reatar o relacionamento e hoje trabalham os impasses da relação na terapia conjugal. O marido assumiu para si a responsabilidade de conversar com os filhos sobre comportamentos dentro de um relacionamento e já aconselhou o mais velho a participar voluntariamente dos grupos, como uma maneira de formação. O casal, que antes fazia parte da estatística do ciclo da violência, hoje figura como exemplo do poder restaurativo da educação.

Apesar de histórias como essas serem revigorantes, elas representam uma realidade nada comum. Historicamente, a ressocialização enfrenta entraves financeiros e políticos. “Todo mundo merece esse direito de ser corrigido. Mas esbarramos no sistema prisional, com 150% acima da sua capacidade, com insalubridade absurda”, afirma a socióloga Elizabeth Mazeron, destacando a importância de medidas educacionais no enfrentamento a essa realidade.

A defensora pública concorda que os Grupos Reflexivos de Gênero vão ao âmago das pessoas que já tiveram uma condenação e que são potenciais reincidentes. Nas suas palavras, para que a cultura da violência não se reproduza, os homens precisam refletir.

“O sistema penal, ao meu ver, não ressocializa ninguém. Acho que, inclusive, a pessoa certamente não vai estar em um lugar que vai melhorá-la para a sociedade, muito pelo contrário. A gente tem diversas violações de direitos humanos. A ressocialização acaba sendo importante com esses programas de análise, de forma que atinja efetivamente aquele agressor”, disse.

Outras iniciativas do órgão, responsável pelo acolhimento integral e jurídico de acesso à justiça da vítima de violência doméstica durante as medidas protetivas, também auxiliam na prevenção. Entre elas, está o programa Chega Disso, desenvolvido pelos núcleos de Defesa da Mulher e de Defesa da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública. Inicialmente voltado ao sistema socioeducativo, o projeto foi ampliado e passou a alcançar escolas. Atualmente, equipes capacitam profissionais da educação para trabalhar temas relacionados aos direitos humanos e à prevenção da violência.

“Já teve várias escolas interessadas e, hoje, a gente está com centenas de adolescentes tendo essa possibilidade. A gente capacita a equipe pedagógica das escolas justamente para replicarem essa educação em direitos e tentar prevenir”, afirma a defensora sobre a iniciativa que, no ano passado, atendeu 25 mil pessoas.

A Defensoria também desenvolve ações voltadas aos chamados órfãos do feminicídio, crianças e adolescentes que perderam suas mães em decorrência desse crime. Em parceria com a Defensoria Pública da União, o projeto Vidas que Ficam é destinado a fazer a busca ativa dessas crianças e adolescentes para auxiliar na sua proteção integral. A iniciativa, criada em novembro de 2025, busca assegurar direitos previdenciários e assistenciais, além de acompanhar questões relacionadas à guarda, tutela e outras medidas de proteção.

PROTEÇÃO INSUFICIENTE

Em 95% dos casos de feminicídio levantados em 2025 pelo governo do Estado, não havia medida protetiva de urgência ativa contra os autores. Ou seja, a lei ajuda a proteger a vida das mulheres. No entanto, embora as medidas protetivas sejam fundamentais, as mulheres ainda sofrem com violências diversas e medo constante. Há casos de mulheres que chegam a pedir a medida, mas voltam atrás e de outras que nunca chegam a recorrer à rede de proteção.

Diferentes fatores justificam essa realidade. Aline lembra que os casos de violência podem ser silenciosos e, para muitas vítimas, difíceis de identificar. “A gente tem que lembrar que, às vezes, a mulher pode levar três ou mais anos para conseguir romper um relacionamento desse tipo, porque uma das características da violência doméstica e familiar é que ela é paradoxal. Aquela pessoa, infelizmente, já teve momentos bons com essa que está em situação de violência. Essa mulher vai dizer: ‘Mas ele já fez tanta coisa boa, a gente já viveu tanta coisa legal’”, exemplifica a psicóloga. “A pessoa fica enredada nessa situação, não consegue sair, como se ficasse presa em uma teia de aranha.” Por conta de um senso comum que culpabiliza a mulher, ela também pode se colocar responsável pela violência sofrida.

Outro entrave está nas iniciativas de proteção que já existem, mas que não chegam a todas. Além de várias mulheres não terem conhecimento dos acessos, diversos programas não existem em determinadas regiões. A defensora pública Bibiana Veríssimo lembra que o acesso é mais difícil ainda para aquelas que moram no Interior.

Para a juíza da 3ª Vara do Júri de Porto Alegre, Karen Luise de Souza, a escassez desses registros de ocorrência evidencia a insuficiência da rede de proteção. “A ausência de um boletim não é ausência de violência, é ausência de proteção! É o Estado esperando que a vítima percorra um caminho impossível para a sua sobrevivência”, afirmou a magistrada em uma palestra ministrada na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP) em março deste ano.

Considerando que a violência contra a mulher não faz parte de episódios isolados, ela também é parte de um fenômeno que tem marcadores sociais e intersecções de raça e classe. O Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base nos dados consolidados do ano anterior, levantou que, no Brasil, 67,5% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. “Não quer dizer que mulheres brancas e ricas não sofram violências, mas a maioria das mulheres mortas por feminicídios é negra e com baixa escolaridade. A gente tem um recorte social e econômico que tem que ser contemplado. A gente pode pensar muito mais em estruturas de proteção do que de punição”, disse a socióloga.

Para a defensora pública, se a Lei Maria da Penha fosse aplicada efetivamente, os números de feminicídios não seriam tão altos. Ela destaca a importância de haver uma conscientização por parte de quem trabalha nos órgãos de tomada de decisão para investir nas políticas públicas de combate à violência.

No núcleo da Defensoria Pública, composto em maioria por mulheres, Bibiana Veríssimo ressalta que trabalha para entender cada vez mais sobre os casos das vítimas para pensar em como romper o ciclo. “Como a gente pode fazer um atendimento melhor e como orientar melhor. Não para achar culpados, mas para pensar na possibilidade de se evitar novas mortes, novas violências sexuais e tantas violências possíveis que a gente sofre todos os dias.”

TRANSFORMAR EM POLÍTICA PÚBLICA

Mesmo com os importantes avanços ao longo de duas décadas de implementação do marco mais relevante da política de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, o principal ponto defendido pelas especialistas é que não seja necessária a criação de novas leis, mas sim, a capacidade de implementá-las de modo efetivo. Avaliar o papel de políticas públicas, segundo elas, envolve examinar se os mecanismos existentes têm sido capazes de prevenir a reincidência, reduzir as mortes das mulheres e assegurar proteção suficiente às que estão em risco.

Para a defensora pública, mais do que pensar em novas iniciativas, é importante investir em programas permanentes. “Às vezes muda nome, muda acolhimento. A vítima tem que percorrer uma rota infinita de atendimentos, o que é cansativo, gera desgastes físico e emocional. Ela tem que repetir aquilo que aconteceu com ela infinitas vezes para diferentes agentes públicos. Isso não melhora a vida dela em nada, muito pelo contrário, acaba revitimizando.”

Bibiana também destaca a importância de se analisar três eixos que significam investimento em reeducação. O primeiro, a proteção da mulher, com as medidas protetivas que, na sua visão, podem ser ampliadas. Outra questão é a punição e repressão, não envolvendo o sistema penitenciário, mas trabalhando nos Grupos Reflexivos de Gênero. Por fim, a prevenção, citando as ações da Defensoria Pública.

A ressocialização, aliada a uma mudança de cultura, é um atestado de que, ao menos, uma lição foi aprendida às duras custas das vidas que foram ceifadas e a garantia de que outras mulheres não encontrem o mesmo fim. Investir em discussões sobre os aspectos culturais do crime e da educação em direitos pode ajudar na construção de uma sociedade mais pacífica para todos”.

FONTE: https://www.correiodopovo.com.br/especial?ndk=1782637192428_uid_cb6d7752_e1e4bcc1a039413e985b75e9d1864d5faea6d0af&ndc=

Leia também:

Obra da escritora Marli Silveira que aborda o drama dos feminicídios no Brasil. A autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. Silveira revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher. www.neipies.com/antes-que-o-dia-aconteca-contribuicoes-no-enfrentamento-ao-feminicidio/

Edição: A. R.

“Antes que o dia aconteça”: contribuições no enfrentamento ao feminicídio

“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?

Marli Silveira já afirmou, em artigo publicado no site, que “percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto”.

Leia mais: www.neipies.com/ressentimento-e-feminicidio/

Repercutimos, aqui, posições que demonstram seu conhecimento e sua grande preocupação com a temática violência contra as mulheres, agora tema de um livro.

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Em novo livro, onde aborda o drama dos feminicídios no Brasil, a autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. A autora revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher.

“O tema dos afetos não é esporádico na minha obra, principalmente nos textos em que articulo categorias da Filosofia. Nos livros O pêndulo da angústia, Daseinspedagogia e Psicagogica da experiência estética, para citar alguns, indico a relação entre os afetos e a ética originária, a educabilidade e a condução estética de base ontológico-existencial, respectivamente.

Agora, no Antes que o dia anoiteça, procuro explicitar a relação entre o afeto do ressentimento e o feminicídio. Quando ancoramos nosso estudo na perspectiva nietzschiana, alargada pelas leituras psicanalíticas e antropológicas, reconhecemos as implicações desse afeto no gesto feminicida.

A reatividade e a memória recalcitrante, para citar dois aspectos importantes, ambientam, circulam e atravessam a existência de homens violentos. Disso não decorre que todos os afetados pelo ressentimento sejam feminicidas e que também pudéssemos ignorar outros aspectos importantes que concorrem para a potencialização da violência contra a mulher, como este sistema patriarcal e misógino que referência e orienta o manejo cultural e existencial em que estamos inseridos.

Acredito, contudo, como tentei demonstrar na obra, que o ressentimento está implícito no gesto feminicida, inclusive, em pesquisas que reconhecem a dimensão afetiva que circula no espaço doméstico, esse humor aparece “agarrado” à circularidade referencial e auto referencial.

Podemos dizer que há uma gramática afetiva que circula e orienta comportamentos e modos de se compreender e visibilizar ou invisibilizar, produzindo e implicando a existência humana no mundo e no tempo.

É importante ressaltar pelo menos duas outras questões: que o livro e a minha postura teórica não têm como mote psicologizar o feminicídio e a violência, mas reconhecer as implicações de afetos na e para a existência humana, e o que entendemos por afeto, ou seja, quais são os marcadores que orientam a nossa compreensão dos afetos. É importante que o livro seja lido”.

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Silveira revela como, na sua visão, a sociedade deve fazer um melhor enfrentamento do feminicídio, sendo mais assertiva no seu combate.

“Percebemos alguns movimentos na sociedade, entre eles e de um lado, uma crescente apresentação da mulher, ocupando lugares e posições que eram reconhecidos como masculinas. De outro, um processo inverso, uma espécie de resistência, inclusive odiosa, de grupos e pessoas que se articulam existencialmente a partir de afetos que alimentam e retroalimentam práticas e discursos violentos, preconceituosos e avessos às mulheres, não apenas. Como existências “fracassadas” que não podem voltar no tempo para refazer experiências e organizam suas vidas a partir de certo compromisso para que a vida dos outros, que considera menor e ou responsável pelo seu fracasso, sejam igualmente esmagadas.

Em termos gerais, pode-se dizer que há uma circulação de afetos impeditivos do vigor existencial que decorre, do ponto de vista cultural, dessa contínua exposição à falta de uma orientação segura, com papéis determinados, em que prevalece um desejo de se voltar ao passado, de se repetir scripts e experiências.

O ódio está para o ressentimento como a alegria para a compaixão. Percebemos também outro movimento: certa parcimônia por parte daqueles (daquelas) que se sentem confortáveis nos seus nichos, socialmente percebidos como intelectual e ideologicamente solidários e corretos. O caso do feminicídio expõe a complexa e dura realidade de se alastrar por todos os matizes culturais, econômicos, formativos, etc., mesmo que existam grupos e contextos mais vulneráveis. É como reconhecer que todos os homens são potencialmente violentos e as mulheres matáveis.

Tem outro dado e é assustador, que também se dirige a outras formas de violência: a localização antropológica. A violência contra a mulher ocorre dentro de casa ou nos espaços e relações que ela mantém. Não é por acaso que Márcia Tiburi faz uma leitura do lar/espaço doméstico pelo recorte de Agamben, inserindo o corpo da mulher no âmbito do homo sacer e da via nua. Como um corpo reduzido e confinado, desamparado e matável.

São leituras duras, mas fundamentais. Então, creio que um dos primeiros passos é o reconhecimento de que somos uma sociedade violenta, que desde muito agride e é implacável contra as mulheres. Que a história e a vida das mulheres se confundem com a violência. Talvez um segundo passo seja no sentido de (re) abotoar a formatividade aos princípios humanísticos. E aqui não falo apenas do espaço da escola, mas de todos os espaços pelos quais circulam afetos, discursos e práticas que orientam a nossa disposição existencial.

Enquanto o manejo compreensivo de nós e do mundo estiver atrelado a orientações violentas e desprovidas de ética, embebido de afetos embrutecedores e alargados pelas bolhas covardes que confundem e empobrecem a socialidade humana, continuaremos orbitando contextos aterrorizadores.

É preciso que a gente se diga; enfrentar e se colocar em jogo. Também sou, também somos violentos”.

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Como enfrentar discursos que ainda reforçam atitudes agressivas dos homens? Que discursos são estes? Como desarmá-los?  Marli Silveira enfrenta esta questão, abordando tanto questões antropológicas como questões culturais de naturalização da violência feminina.

“Se olharmos debaixo para cima (como exercício de pensamento), compreendendo que somos constituídos pelo que nos acontece, pelos sentidos advindos dessa trama antropológica, poderíamos considerar, talvez com desníveis, que todos os espaços são violentos. A violência não é apenas física, em muitos casos a violência física representa o ápice de um sistema e programa continuados de esgarçamento humano. A própria sociedade, para poder suportar a dinâmica desigual, castradora e fracassada, empurra para certos contextos e grupos a visibilização da violência, tornando aceitável e tolerável situações e mortes.

Não podemos fugir ou escamotear a realidade; não podemos continuar invisibilizando e naturalizando violências e desumanidades.

“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?

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Marli Silveira responde, de forma enfática, sobre a complexidade da temática, que não se resolverá somente com maior rigor das leis.

Na sua visão, “no caso da violência contra a mulher muitos são os aspectos envolvidos e tal complexidade acaba impondo uma barreira importante na efetiva abrangência das leis e programas que atuam para contrapor esse quadro. Eu acrescentaria ainda outro ponto nesta discussão: o empobrecimento da mulher. Há um processo continuado de empobrecimento da mulher, empurrada para situações de vulnerabilidade econômica, social e cultural, tornando-se vítima em potencial da violência.

A proximidade com a extrema vulnerabilidade tem sido um fator fundamental tanto na captura da mulher pelo crime, quanto pela miséria e sujeição social. Os afetos e o sistema patriarcal, combinados ao lar como este espaço em que há a autorização para se matar mulheres, potencializam a violência. De outro, precisamos reconhecer a importância e a necessidade dos marcadores legais e de programas voltados às mulheres, pois sem eles a realidade seria ainda mais dura e violenta.

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Sobre como esperar, num futuro próximo, relações mais saudáveis e proativas entre homens e mulheres, a autora afirma.

“Há em mim uma disposição para sonhar e imaginar outros mundos, mas já não sei se temos mais tempo. Há um cansaço humano orbitando os espaços dos sonhadores e todos/todas que um dia defenderam a vida.

Os discursos e a cultura de violência arrastam a humanidade para o precipício, um simples sopro nos empurrará para a queda e o colapso de um projeto de humanidade. No fundo, se pensarmos bem, somos no mínimo “cúmplices” de alguma forma de violência. Reconhecer, quem sabe, seja um suspiro”.

Edição: A. R.

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