“Uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade.” (frase atribuída a Goebbels, Ministro da propaganda nazista.)
Agora imagine uma mentira contada por trinta anos!
As pessoas que têm mais de 50, 60 anos, podem entender melhor estas linhas. Mas fica aqui como um registro histórico para todos, de uma geração que foi informada e distraída pelo mesmo grupo editorial por 20 anos; pelo menos.
Assim todos os dias escoavam: o mesmo noticiário ao meio-dia, a mesma programação pela tarde, as mesmas novas pela noite, a mesma novela, as mesmas histórias…
Não que a realidade fosse muito mais instigante, desafiadora, inesperada. Como ser paradoxal se todos pensam iguais? Um ou outro que saísse fora da caixa, vá lá. Mas a maioria imaginava, pensava e falava mais ou menos a mesma coisa. Achavam ser liberdade; era controle!
Havia um governo que não fora eleito, que escolhia a dedo as indicações de líderes que mais lhe convinha; os que pensavam da mesma forma, os que agiam dentro das linhas estabelecidas, os protegidos, os amigos… E havia um povo.
Ao final dos anos 60, todos os 70 e parte dos 80, quase tudo igual. Na economia, falava-se até em uma década perdida. Uma nação jovem, perdida. Pense!
Tudo isso não seria possível se não houvesse uma voz que nos conduzisse. Não era a da Igreja, não era a voz de sindicatos ou associações, tampouco a voz das urnas. Era a voz da mídia. De uma só, aliás.
Todos os dias, o mesmo canal, os mesmos rostos que disparavam notícias “isentas,” disfarçadas e envelopadas em resumos, quando lhe parecia o certo ou em grande destaque, quando era do seu interesse. Verdades e mentiras entrelaçadas, para uma plateia, um público diverso, uma nação parada para assistir… E acreditar.
Noticiário pensado, valores ocultos, tudo transmitido ao vivo para um telespectador amortecido. Afinal, o que se faz necessário para pensar se todos já pensaram. O que eu posso fazer diferente que os outros já não fizeram?
Ligava-se a TV, uma novidade, claro, e se embarcava em uma jornada de alienação, bebericando da verdade aos pedaços.
O pior neste desfile de dias com notícias escolhidas, eram os domingos: o enfado de um programa sem graça e alienante, pelas tardes, um quadro de humoristas patéticos para inaugurar a noite e, logo após, o principal prato da semana; a música de abertura, que remetia ao pensamento destrutivo de que uma segunda-feira estava próxima. Ouvi relatos que, ao ouvir a chamada neste quadro, algumas pessoas sentiam, em seu imaginário, o limite da depressão.
O principal programa do país, 30 anos sendo exibido no mesmo horário, com a mesma música, feito e pensado para distrair, sovar o pão que iria ser distribuído ao povo pelo longo da semana: muito sentimentalismo, apologia aos valores aprovados pelos chefes de plantão, muita sensualidade, distração barata, formador de opinião… Com opinião.
É certo que outros canais de TV estavam dando as caras. Mas nas capitais. O grande interior do país foi nutrido e amassado pelo mesmo grupo, que pensava o que o povo deveria pensar. Até porque muitas opções eram de péssima escolha e conseguiam ser piores que o veio principal.
É certo também, que em meio a uma ditadura, não restam muitas opções. Adere-se ou fecha-se a boca. Neste caso, preferiu-se aderir.
E foi assim pelo menos por 30 anos; ou quase. Nas estradas, em seus restaurantes, em paradas para almoço ou jantar… Um canal de TV ligado; o mesmo.
Nas cidades, a transmissão de jogos e outros circos, todos anunciados; pelo mesmo.
Há que se estudar, pelas Universidades nestes trópicos, as consequências em uma população, que sempre se nutriu e se alimentou pelo mesmo sinal ‘cultural’ de apenas um meio de comunicação.

O que antes era monopólio, agora virou oligopólio!
Assista: https://www.instagram.com/reels/DV3MY0xCbnr/
Nada pode ser generalizado. Vamos combinar! Coisas boas foram sendo captadas, mesmo que com a demora eterna. Descobriu-se muito: com dinheiro público, por exemplo, com o povo adocicado, um inimigo comum a ser construído e a seguir ser perseguido, sempre se enriqueceu por aqui.
Dia desses, a mesma televisão apresentou ao seu distinto público, no mesmo programaço de domingo, no mesmo horário, um cara que havia se enforcado na prisão política do regime militar; uma corda no pescoço e com as pernas dobradas. A reportagem até se esforçava para fazer passar como uma investigação. Pareceu um ‘mea culpa’.
Mas há 30 anos foi diferente. Exibiram a mesma foto, os mesmos fatos, o mesmo Wladimir em posição de enforcamento forjado. Não lembro muito bem, mas duvido que tenha se indisposto contra seus bajuladores e lutado para colocar a nu tamanha farsa.
E assim o grupo cresceu, dando e recebendo apoio a um regime atrasado e autoritário, jogando o país em duas décadas de escuridão e medo. A família, dona da TV, enriqueceu. Suas antenas cresceram e fizeram adeptos em todo o país. Foi a regionalização do conceito de TV única. Mas o mesmo povo que serviu de base neste espetáculo ainda não se libertou.
O país de 30 anos atrás é muito parecido com o de hoje, exibido pela mesma tela de TV: periferias empobrecidas, desigualdade sem fim, violência sem controle.
Nós, público-alvo naqueles tempos, jamais imaginaríamos que a ignorância foi rentável e o ódio crescente é um baita gerador de lucros. Eles sabiam!
Peça para o seu pai ou ao seu tio, que feche os olhos por instantes, na frente de um noticiário da mesma emissora; aumente o som, concentre-se nos “fatos.” Ouça que um pequeno país está bombardeando os seus vizinhos na terra média, um outro, gigante, está invadindo um menor e cavando-lhe a sepultura política. Finalmente, perceba um político que foi apanhado com dinheiro vivo em sacolas de lixo…
Agora desligue a TV e pergunte ao seu familiar: em que ano mesmo ele ouviu isso? Hoje ou há 30 anos?
As mesmas mentiras embaladas em lacinhos de verdade, sempre na defesa dos mesmos e que nos eram apresentadas, foram apenas recicladas na defesa e na proteção… Dos mesmos.
A história não mudou muito e a maneira de contá-la também. Os heróis, em todos os tempos, sempre vencem…Para a falsa independência de uma mídia escravista. Deve ser em todos os povos assim, decerto.
Mas e a verdade?
É o que deveria sobrar, depois de tamanha dominação imperceptível. Mas pelos candidatos todos, eleitos recentemente, nota-se que a mensagem da TV única, por tantos anos, foi muito bem absorvida por corações e mentes.
Alguém aí não quer se aprofundar?
Veja também:
Até onde vai o poder da Mídia? https://youtu.be/PPYn2L_bEz0?si=4xAWFwlpyaL61yZQ
Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Deus salve-nos da maldade dos homens que você enviou para nos salvar”: www.neipies.com/deus-salve-nos-com-urgencia-da-maldade-dos-homens-que-voce-enviou-para-nos-salvar/
Edição: A. R.












Do autor:
Há que se estudar, pelas Universidades nestes trópicos, as consequências em uma população, que sempre se nutriu e se alimentou pelo mesmo sinal ‘cultural’ de apenas um meio de comunicação. (Nelceu Zanatta)