Escolas terão conteúdos de prevenção à violência contra a mulher

Governo regulamenta ensino da Lei Maria da Penha na educação básica. O ministro da Educação, Camilo Santana, defendeu que é preciso começar a discussão sobre a prevenção à violência contra as mulheres, com as crianças e jovens estudantes dentro das escolas brasileiras.

(Por Daniella Almeida – repórter da Agência Brasil)

Os ministérios da Educação (MEC) e das Mulheres assinaram, nesta quarta-feira (25), em Brasília, a portaria de regulamentação da Lei Maria da Penha Vai à Escola (nº 14.164/2021, para incluir conteúdo sobre a prevenção a todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres nos currículos da educação básica.

A lei determina que a produção de material didático relativo aos direitos humanos e à prevenção da violência contra a mulher deve ser adequada a cada nível de ensino.

O ministro da Educação, Camilo Santana, defendeu que é preciso começar a discussão sobre a prevenção à violência contra as mulheres, com as crianças e jovens estudantes dentro das escolas brasileiras.

Para Santana, a nova geração será formada com base no respeito, na equidade e na justiça. 

“Estamos afirmando um projeto de país. Um Brasil onde meninas podem estar sem medo, onde mulheres podem ocupar todos os espaços e onde o conhecimento seja instrumento de libertação e não de exclusão.”

“Não há futuro possível sem a garantia plena de direitos para meninas e mulheres. A educação é o caminho mais poderoso para transformar essa realidade”, disse o ministro da Educação, Camilo Santana.

Instituições públicas

Durante a cerimônia Educação pelo Fim da Violência, na Universidade de Brasília, foi assinado o Protocolo de Intenções para Prevenção e Enfrentamento da Violência contra as Mulheres e Acolhimento nas instituições públicas de ensino superior e Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.

O documento estabelece orientações para que instituições de ensino públicas não sejam omissas em eventuais situações de violência de gênero no ambiente acadêmico.

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, classificou como importantes as medidas de proteção às meninas e mulheres, no âmbito da educação, porque vão do ensino básico ao superior. Ela citou o pedagogo Paulo Freire. “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo.”

A ministra ainda defendeu que os currículos e os planos pedagógicos de cada curso de graduação e de pós-graduação abordem conteúdos de combate e enfrentamento de todo tipo de violência contra as mulheres.

“Imagine daqui a 4, 5, 6 anos, como sairão os profissionais que atuarão em todos os lugares, como unidades básicas de saúde, escolas, Cras [Centro de Referência de Assistência Social], Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social]. Isso vale para todas as profissões deste país.”

O ministro Camilo Santana explicou que o documento simboliza uma construção coletiva que nasce a partir da escuta, da ciência e da experiência das instituições de ensino.

“Reafirmamos que nossas universidades, institutos federais e redes de ensino são espaços de produção de conhecimento, mas também devem ser espaços seguros, acolhedores e livres de qualquer forma de violência ou discriminação”, enfatizou.

Santana anunciou que lançará, em breve, um edital para apoiar a criação de cuidotecas nas universidades federais. 

“São espaços de cuidado e acolhimento para crianças que permitirão que mães, estudantes, professoras e trabalhadoras possam estudar, trabalhar e permanecer na universidade com dignidade.”

Mulheres Mil

No conjunto de ações voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência contra as mulheres, os dois ministérios assinaram o acordo de cooperação técnica para a ampliação de vagas do Programa Mulheres Mil, coordenado pelo MEC.

A política pública tem a missão de elevar a escolaridade de mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

O programa também tem o objetivo promover a inclusão socioprodutiva e a autonomia das mulheres por meio de cursos de qualificação profissional.

Os presentes ainda assistiram ao trailer do filme Mulheres Mil, produzido pela pasta. A obra retrata o impacto do programa na vida de cinco mulheres, suas famílias e comunidade.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=T0NSirlNHW4

As iniciativas integram as ações do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em fevereiro.

FONTE: Escolas terão conteúdos de prevenção à violência contra a mulher | Agência Brasil

Edição: A. R.

Doulas

Doula não faz parto. Essa profissional faz parte de uma equipe que acompanha a gestante no parto, onde cada profissional faz a sua parte.  É uma acompanhante contínua, desde o início, não apenas à gestante, mas também à família.

Este termo, Doula, vem do grego, diz mulher que cuida, que serve, que é escrava.  Todo o médico que acompanha uma gestante no pré, trans e pós parto, sabe como é importante o cuidar, o servir, o apoio emocional a estas pacientes que estão prestes a ter seu bebê. Facilita em muito o desfecho do ato, do nascer da criança. Dá segurança, não só à gestante, mas à família também.

Se diz que um parto não é apenas o fato de ganhar um filho. Envolve toda uma situação de emoções, inseguranças, dores, medos, que culminam com a chegada do recém nascido. Por isso, toda a ajuda à essa gestante deve ser bem vinda, pois envolve uma situação emocional típica e própria de cada mulher.

É aqui que deve atuar a Doula, por desejo da gestante.

Doula não faz parto. Deve ter limites de atuação, tanto do ponto de vista de saúde como ético, que devem ser bem entendidos. Essa profissional faz parte de uma equipe que acompanha a gestante no parto, onde cada profissional faz a sua parte.  É uma acompanhante contínua, desde o início, não apenas à gestante, mas também à família.

Atua explicando o que é uma gestação, fazendo massagens, ajudando a se movimentar, sugere posições adequadas, encoraja. Usa algumas técnicas, não medicamentosas, que aliviam a dor, ensina exercícios, e, principalmente, entender e aceitar as dores características e necessárias de um parto. É treinada para ensinar isso. Também ajuda o parceiro a se envolver no parto, a apoiar a futura mamãe. Depois do parto, auxilia na amamentação, na higiene, no banho, no sono do bebê e da puérpera.

Doula não é, ainda, uma profissão regulamentada por lei. Contudo, é uma ocupação incluída no CBO, Cadastro Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho, com o código 3221-35. E, para exercer essa ocupação, a pretendente deve ter uma formação adequada, com uma carga horária e conteúdo programático bem definidos.  A OMS, Organização Mundial da Saúde, também reconhece e recomenda a existência das Doulas, quando preconiza o parto humanizado.

 Desde 2017, o Congresso Nacional tentava regulamentar a profissão. Inicialmente o PL (projeto de lei) 8.363/2017 e depois o PL 3.946/2021, tinha esse objetivo. Agora, dia 11 de março de 2026, finalmente o PL 3.946 foi aprovado. Vai, agora para sanção do Presidente, que, espero, ocorra sem demora.

Importante afirmar que Doula não faz parto, seja domiciliar ou não, cirúrgico ou não, não faz toque ou escuta fetal, não receita, não faz anestesia. Não verifica a pressão, não corta o umbigo. Não substitui a enfermeira ou o médico. E não é a parteira antiga, que muito serviço prestou, ajudando muitas gestantes a ter o seu filho. Por fim, não interfere no nascimento do recém nascido. Pela nova lei, fica proibido uso de medicamentos e manuseio de equipamentos médicos.

 Claro, isso suscitou reações, principalmente da classe médica. Normalmente a alegação é de que essa função não consta na tabela do SUS, que não é uma profissão reconhecida, que falta regulamentação e definição dos requisitos relacionados ao exercício da profissão, que pode acontecer cobranças judiciais junto aos hospitais, que pode haver interferência no ato médico de fazer o parto, etc. Agora, se promulgada a lei, certamente que essas questões serão resolvidas.

Nossa experiência de ter realizado muitos partos, em quatro décadas de profissão, penso que a classe médica exagera nessa preocupação. O médico, por lei e por aceitação cultural, é quem domina e conduz toda as ações durante a gestação, desde o pré natal, durante o parto e no pós parto. Isso é legal, ético e natural. Dentro desses limites, nada deve impedir que se tenha auxílio nesse trabalho, seja da enfermeira obstétrica ou da doula. Pois, nunca se pode esquecer que quem interessa, o que é importante, nesse momento, é a gestante e seu bebê que está por nascer. E, fundamental, a Doula só participa do parto com a anuência da gestante. Há que se respeitar isso, independentemente de qualquer outra circunstância.  

À propósito, recentemente, há 7 e 8 anos, minhas duas filhas tiveram o auxílio de Doula em seus partos. O que foi muito bom, foram dois partos sem qualquer complicação e com muito afeto.

* Alberi Grando estreia coluna neste site a partir deste texto. Abordará temas de cidadania, saúde e política. Seja bem-vindo!

Autor: Dr. Alberi Grando Cremers 6430. Especialista em Saúde Pública. Ex-Secretário Municipal da Saúde. Ex-Delegado Regional da Saúde da 6ª Coordenadoria/ Delegacia Estadual da Saúde. Vereador por 3 mandatos na cidade de Passo Fundo, RS.

Exportamos água ou grãos?

Água é fundamental para produzir alimentos em qualquer pais do mundo. Que quantidade de água o Brasil exporta para a China, via os grãos de soja?

O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking internacional de produção de soja no mundo. Em 2024 foram exportadas 101,8 milhões de toneladas do grão, sendo que 74,4 milhões foram embarcadas rumo a China.

Dos Estados Unidos, a estimativa é que a China compre de 20 a 25 milhões de toneladas do grão. Para quê os chineses usam esta soja?

Mas, além da importância para a alimentação humana e animal, o que torna a soja tão importante para a China?

Teriam  os componentes químicos necessários, como fosforo e potássio, para produzí-la?  Provavelmente sim. Mesmo que haja, não há água suficiente,  para  produzir toda a soja que a China necessita.

Água é fundamental para produzir alimentos em qualquer pais do mundo Que quantidade de água o Brasil exporta para a China, via os grãos de soja?

Para produzir 1 kg de soja são necessários 1388 l de água. Do plantio a colheita.

Em 1994, o Brasil exportou para a China 69.000.000.000 kg de soja.

Quanta água é necessária para produzir esta tonelagem? Considerando que são necessários 1.388 l/kg,  95.772.000.000.000 litros é o que custou em água para a produção das 69.000.000 de t que foram remetidos à China via exportação de soja em navios.

Considerando navios de grande porte, de 105.000 t, seriam necessários 657 navios para escoar esta exportação.

Você conhece algum país que exporte ou importe água para fins de produção agrícola em grande quantidade?

A água é o bem mais precioso que um país pode dispor para a produção de grãos. Somos poderosos, não pelas forças armadas. Não temos porta aviões de 100.000 t, com 5.000 tripulantes, movidos a energia nuclear e com numerosos aviões a bordo.

Temos água, produzimos alimentos, grãos ou carnes e abastecemos parte do mundo.

Acrescente-se à exportação de grãos de soja, a de carnes bovina, suína e de aves, estimada em 31.000.000 de toneladas, somente considerando o peso destes três tipos de carnes, quanta água é necessária para esta produção exportada de soja, carne bovina, de aves de suína?

Nossa água, aliada a força de nossos produtores, nos dá um poder imenso diante das mudanças climáticas.

Agora estão comentando que o grande problema na região produtora de petróleo é a baixa disponibilidade de água. Prova disso é a grande quantidade de plantas de dessalinização de água do mar, nesta região.

 Acorda Brasil para o tesouro que tens!

Autor: Eng. Agr. Roque G. Annes Tomasini. Também escreveu e publicou no site “O velho e o novo mundo”: www.neipies.com/o-velho-e-o-novo-mundo/

Edição: A. R.

Nunca foi contra a corrupção!

No Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado.

O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos), historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.

A Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial, foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um Golpe Militar de oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social geradora da pobreza.

O século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo – representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora. Eleito democraticamente em 1951, Getúlio foi perseguido e difamado, sob campanha feroz da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que o acusava de imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que desembocou no trágico suicídio em 1954.

O ciclo repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular, foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.

O regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.

A redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”, foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Collor.

No dia da eleição, a Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro encenado do empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e desestabilização. O ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra Lula, um teatro midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Collor, o moralista da Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a hipocrisia do uso do discurso moral dissociado da prática. Atualmente Collor encontra-se condenado por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em função de enfermidade.

O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais radicais do capital financeiro.

A Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e deslegitimando a democracia representativa.

O verdadeiro alvo nunca foi o combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente interesses estadunidenses.

O padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida, direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do país.

E assim chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral com acusações de corrupção seletiva (p.ex. do STF que puniu golpistas), e apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O objetivo real e não declarado é emplacar o campo político preferido e escolhido pela elite oligárquica.  

Portanto, quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as respostas.

Ficou famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos.   

No Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.

Sempre foi.

É isso que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto. Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos internos e externos.

Autor: João Carlos Loebens. Auditor Fiscal, doutorando em Economia e integrante do Instituto Justiça Fiscal. Também escreveu e publicou no site “Negacionismo: força destrutiva, inclusive o negacionismo econômico: www.neipies.com/negacionismo-forca-destrutiva-inclusive-negacionismo-economico/

Edição: A. R.

Em memória à Sílvia, Mulher da Paz!

O ano era 2012. Em Passo Fundo, RS, foi implantado um Projeto com mulheres de diferentes bairros da cidade para enfrentar, preventivamente, através do conhecimento, cidadania e ações sociais, a violência contra as mulheres e a afirmação de seus direitos.

Uma das razões do projeto era o empoderamento de 200 mulheres, através da formação, informação e atividades sociais inseridas em suas comunidades. As mulheres da Paz levavam conhecimentos e traziam demandas das mulheres, numa relação de trocas com a equipe multidisciplinar que acompanhava o seu trabalho. A equipe era composta por educadoras sociais, psicóloga, assistente social, advogada.

Principais Atuações da Equipe e das Mulheres da Paz:

  • Capacitação: Formação das mulheres líderes através de oficinas sobre direitos humanos, cidadania e mediação de conflitos.
  • Mediação Comunitária: Atuação direta em áreas com altos índices de violência, promovendo o diálogo.
  • Rede de Proteção: Encaminhamento de famílias, jovens e mulheres em situação de violência doméstica ou urbana para a rede socioassistencial e projetos como o PROTEJO.
  • Visitas Domiciliares: Realização de busca ativa e visitas para monitorar situações de risco.

Sílvia Aparecida de Miranda, mulher da Paz brutalmente assassinada durante a realização do Projeto Mulheres da Paz 2012/2013.

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“Morávamos na mesma cidade, mas não nos conhecíamos. Foi uma experiência muito grande estar junto com dezenas de mulheres por mais de 12 meses. O Projeto ocorreu em apenas 12 meses porém, estivemos juntas um pouco mais que isto. Meses antes para a organização e os preparativos e meses depois para as comemorações e comentários de tudo o que havíamos vivido juntas.

Deparei-me com mulheres fortes, que levantavam outras mulheres e que carregavam batalhas que nunca ninguém aplaudiu. Mulheres sobrecarregadas, muitas vezes, querendo demonstrar que davam conta de tudo. Mulheres onde a rotina não dava pausa e que transformavam a dor em força, medo em coragem e cuidado em amor próprio.

As Mulheres da Paz, para mim foram inspiração diária. Foram mulheres que fizeram outras mulheres acreditarem nelas mesmas.

Enquanto alguns mostravam-se desconfiados, elas lutavam por elas,  por outras mulheres e pelos jovens do Programa PROTEJO o qual elas acompanhavam e a  cada dia provavam que eram mais fortes do que imaginavam. Para muitos destes jovens elas eram vistas como um farol iluminando seus caminhos. Eram mães, amigas, colegas e professoras da vida. Todas prontas para ouvir, aconselhar, acompanhar e ajudar. Ao mesmo tempo eram mulheres que precisavam ser cuidadas também. Embora carregavam força no olhar e delicadeza no coração percebíamos a necessidade de serem olhadas também.

O Projeto possuía uma equipe de profissionais formada por especialistas que as acompanhavam diariamente o que fazia com que elas se sentissem amparadas e conseguiam provar que juntas carregavam propósitos e conquistas.

Foram mulheres extraordinárias que passaram pelo meu caminho e algumas ainda permanecem hoje.

(Marisa Ré De Rocco, Gestora Local do Projeto)

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“Quando participei do projeto Mulheres da Paz, tive uma experiência muito marcante, tanto no aprendizado quanto na convivência com outras mulheres. Ao longo do projeto, que durou cerca de um ano (e até um pouco mais, considerando os momentos de preparação e depois de encerramento), pude perceber o quanto esse espaço foi importante para troca de vivências, fortalecimento e construção de conhecimento.

Aprendi muito sobre os direitos das mulheres, principalmente em relação à proteção contra a violência doméstica e familiar. Também passei a entender melhor como funcionam as leis e os caminhos que podem ser buscados em situações de vulnerabilidade. Foi um momento de abrir os olhos para uma realidade que muitas vezes está próxima, mas nem sempre é compreendida em sua totalidade.

O que mais me marcou foi a convivência com mulheres extremamente fortes e resilientes. Muitas carregavam histórias difíceis, com sobrecarga, dores e desafios, mas mesmo assim encontravam forças para seguir em frente e ainda apoiar outras pessoas. Eram mulheres que transformavam suas dificuldades em coragem e buscavam levantar umas às outras.

Dentro do projeto, também ficou evidente a importância do cuidado coletivo. Ao mesmo tempo em que essas mulheres apoiavam outras mulheres e jovens, também precisavam ser acolhidas. E esse suporte existia através da equipe de profissionais que acompanhava o grupo, o que fazia toda a diferença.

Outro ponto que me marcou foi perceber o impacto que o projeto tinha na vida de outras pessoas, especialmente dos jovens acompanhados. Muitas dessas mulheres se tornavam referência, sendo vistas como apoio, orientação e até inspiração.

Infelizmente, também tivemos momentos difíceis, como a perda de uma integrante que lutava pelo que acreditava. Isso reforçou ainda mais a importância de continuar falando sobre o tema e buscando mudanças.

Sílvia não era só uma líder comunitária, era também mãe, avó, amiga, uma pessoa do bem, sempre disposta a ajudar quem precisasse. A forma como ela vivia e lutava pelos outros deixa um exemplo muito forte. O que aconteceu com ela não pode ser esquecido, precisa ser lembrado como um alerta e também como uma forma de manter viva a sua história e tudo aquilo em que ela acreditava.

O projeto Mulheres da Paz foi uma experiência muito significativa para mim. Levo comigo aprendizados importantes, principalmente sobre empatia, força coletiva, direitos e a importância de apoiar e valorizar umas às outras.

(Raquel de Oliveira Maciel, Integrante do Projeto Mulheres da Paz Microrregião Integração)

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Quando cheguei em Passo Fundo, no final de 1999, a pergunta que mais me faziam, primeira delegada de polícia a exercer as funções na cidade, era quando se teria a instalação de uma DEAM. Naquele momento, isso não era possível, por questões burocráticas e estruturais, mas pude perceber, no dia a dia do trabalho, que os números locais mostravam a necessidade de haver um outro olhar sobre a questão da violência doméstica e familiar.

Paralelo a isso, no convívio com a sociedade, pude verificar que a cidade tinha um expressivo grupo de mulheres, que buscava com firmeza e determinação a proteção às mulheres e o respeito aos seus direitos. Entre elas, as mulheres que fizeram parte do projeto Mulheres da Paz, no qual participei falando sobre as questões dos direitos femininos e suas especificidades, em especial os ligados à proteção da sua integridade, como um todo.

Esse espaço garantiu que a então autoridade policial pudesse apreender as angústias e os desejos daquelas mulheres, ao mesmo tempo que as colocava a par dos meandros das leis e da forma como as coisas funcionavam até então.

Em seguida, o grupo sofreu uma perda irreparável, com a morte de SILVIA. Ela foi duramente atacada por seu então genro, ao interferir na briga que esse estava tendo com a companheira, filha da MULHER DA PAZ que partiu lutando por aquilo que considerava certo e justo. Infelizmente, essa não foi a única mulher que sofreu as consequências da estrutura machista e patriarcal que ainda se vive, e que segue sacrificando todos os dias mais mulheres.

As ações como a do projeto Mulheres da Paz são extremamente importantes, na conscientização de todas as pessoas que podem conviver e ouvir quem passa esse tipo de capacitação. Viva o grupo das MULHERES DA PAZ de Passo Fundo!

SÍLVIA, presente!

(Claudia C. S. Rocha, delegada da Polícia Civil em Passo Fundo, RS, à época)

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Da memória a iluminação a luta

A minha vivência enquanto Educadora Popular foi um momento singular de aproximar-me de uma realidade desconhecida aos meus pés e ao coração: as realidades periféricas de Passo Fundo e das mulheres que viviam nas suas comunidades.

O meu primeiro desafio foi aproximar, conhecer e juntas, com tantas outras, fazer o projeto MULHERES DA Paz tornar-se realidade.

 Neste período, as nossas diversas ações na comunidade foram capazes de transformar, mediar e celebrar as conquistas das mulheres na medida que se envolviam com o projeto. Com isso, acredito que com formação, organização e possibilidades são pilares para a construção da cidadania.

Viva as mulheres! A luta e a força de cada uma para a construção da sua existência.

(Edivânia Rodrigues da Silva, Educadora popular, da Equipe multidisciplinar contratada pela CDHPF)

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“Como Coordenador da Equipe multidisciplinar, contratada pela Entidade CDHPF (Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo), vinculada ao Projeto Mulheres da Paz pude comprovar o quanto o conhecimento empodera as mulheres para o enfrentamento da realidade das diferentes violências a que elas são submetidas diariamente.

Como coordenador, busquei pelas melhores condições de trabalho e de mediação comunitária das Mulheres da Paz visitando escolas, presidentes de associações de bairros, igrejas, clubes, associações comunitárias. Junto à equipe multidisciplinar, sempre busquei dar o suporte logístico, administrativo e político para que o Projeto pudesse alcançar seus objetivos. Junto à Prefeitura Municipal, responsável pelo Projeto na cidade, procurei representar os interesses e as necessidades da CDHPF para a melhor execução do Projeto, bem como alinhar as atividades com relação às metas previstas.

Com relação às 200 Mulheres da Paz que se vincularam ao Projeto, estive presente nas atividades, apoiando e animando as mesmas para as tarefas pedagógicas e políticas do Projeto.

Aprendi muito com a coragem, com a garra e com a determinação com que as mesmas sempre defenderam uma sociedade diferente, a partir do diálogo, da convivência, do respeito às diferenças e dos direitos humanos.

É papel dos homens, e da sociedade como um todo, lutar pelo fim da violência contra as mulheres e pela sua dignidade e direitos!

(Nei Alberto Pies, coordenador da Equipe multidisciplinar contratada pela CDHPF)

Legenda: Equipe Multidisciplinar Projeto Mulheres da Paz

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A seguir, como forma de memória, seguem links de matérias que repercutiram, à época, os trabalhos das Mulheres da Paz em Passo Fundo.

MULHERES DA PAZ PASSO FUNDO

VÍDEO SOBRE ESTA HISTÓRIA

VÍDEO SOBRE MORTE DE MULHER DA PAZ, SILVIA

https://globoplay.globo.com/v/2212110

28 MATÉRIAS SOBRE PROJETO MULHERES DA PAZ EM PASSO FUNDO

https://cdhpf.org.br/noticias/mulheres-da-paz-noticia/page/4

Edição: A. R.

Carta pela natureza às futuras gerações

Esta carta-convite foi escrita pelo Sr. Gilberto Brockstedt há cerca de 20 anos, em um momento singular de sua trajetória: aos 76 anos, cursava a faculdade de Biologia e realizava estágio, demonstrando que o amor pelo conhecimento e pela natureza não tem idade. Ambientalista por essência, unia sensibilidade, prática e compromisso com a educação, deixando um legado que ultrapassa gerações.

Resgatar este texto é, ao mesmo tempo, um gesto de memória, de homenagem e de inspiração para as novas gerações.

Gilberto, meu querido pai, era pelotense por origem, e viveu por mais de quatro décadas em Soledade, onde constituiu sua família. Nesta carta, escrita três meses antes do seu falecimento, ele nos faz lembrar que pequenas atitudes constroem grandes transformações.

Cuidar do meio ambiente é, antes de tudo, cuidar da própria vida e garantir o futuro das próximas gerações. Que sua história siga inspirando jovens e adultos a fazerem a sua parte

Segue a carta.

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Estimados alunos da Escola Municipal Aurélio Coelho, de Soledade

Diz uma lenda que havia um incêndio numa floresta, e um beija-flor encheu o bico de água, voou alto sobre o fogaréu e deixou cair uma gota sobre o fogo. Voou dali e encontrou outros bichos que lhe perguntaram por que fizera aquilo. Disse que era para ajudar a apagar o incêndio. Os bichos deram muitas risadas e disseram: o que poderia adiantar uma gotinha d’água sobre um fogo destes? O beija-flor respondeu: – Bem, ao menos eu fiz a minha parte.

A natureza é maravilhosa. Sem ela não é possível a vida no mundo. Então todos têm a obrigação de cuidar dela. Temos de cuidar de nossas florestas, de nossas árvores, de nossos rios, de nossas flores, de nossos animais, do nosso ar, da nossa terra, pois assim estaremos cuidando de nós mesmos.

Vamos cuidar, por exemplo, de nossa terra, pois é ela que, afinal, nos dá o sustento, por meio do que plantamos e colhemos. Afinal, estamos todo o dia sobre ela.

Mas como poderíamos fazer a nossa parte? Vocês já ouviram falar em “húmus” ou terra vegetal? Pois bem, a terra é um elemento vivo, porque ela contém, além de muitas pedras e areia, restos de culturas, folhas de árvores, estercos de animais etc., que são a parte viva da natureza, chamada matéria orgânica. Esta é a parte principal da terra: é onde estão as vitaminas e os sais minerais que sustentam as plantas. Sim, as plantas, como são vivas, precisam beber e se alimentar como nós. A água, que vem das chuvas, é retirada do solo através das raízes e leva consigo vitaminas e sais minerais produzidos pelos restos vegetais e animais. Do ar, elas retiram nitrogênio e gás carbônico, também indispensáveis à vida das plantas.

Podemos ajudar a tornar o solo mais fértil? Sim. Hoje em dia, como a população do mundo aumentou muito e é necessário produzir muita comida, utiliza-se adubo químico, que é caro. Então, que tal produzirmos um adubo muito bom e barato em casa?

Isso é o que vamos aprender a fazer no Sítio Santa Helena, bem perto de vocês, e depois vocês poderão ensinar a seus pais. Vamos aprender a fazer adubo da melhor qualidade e até criar minhocas para pescaria e para alimentação de outros animais, pois elas também ajudam na produção desse adubo.

Vamos usar materiais que geralmente são jogados fora e, o que é pior, muitas vezes queimados, como folhas de plantas, restos de podas, palhas de vegetais, borra de café e erva, estercos de animais etc. Mas isso não vamos apenas estudar, vamos, sim, ver na prática, ao vivo.

VAMOS FAZER A NOSSA PARTE? MÃOS À OBRA!”

(Sr. Gilberto Brockstedt)

Autora: Marilise Brocksted Lech. Também escreveu e publicou no site “Onde mora a felicidade”: www.neipies.com/onde-mora-a-felicidade/

Edição: A. R.

Livro premiado com textos publicados neste site

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O livro “O Fio de Ariadne: textos em diálogo”, de Eládio Vilmar Weschenfelder e Roseméri Lorenz, foi contemplado, com o 2º lugar, na categoria “Crônicas”, no Prêmio Literário Cidade de Passo Fundo. A cerimônia ocorreu no Salão de Atos da Academia Passo-Fundense de Letras no último dia 12 de março.

Considerando que muitos dos textos incorporados ao livro foram primeiramente publicados no site www.neipies.com, resolvemos entrevistar os autores, a fim de entender como se deu o processo de concepção da referida obra.

Como surgiu a ideia de escrever um livro marcado pelo diálogo entre os autores, bem como entre seus textos, mesclando gêneros (crônicas, microcontos e poemas)?

ELÁDIO/ROSEMÉRI: Esse insight surgiu despretensiosamente, no final de 2024, quandoconversávamos sobre nossos textos a serem publicados no site www.neipies.com. Percebemos que estávamos desenvolvendo a mesma temática, porém com abordagens e gêneros textuais diferenciados. Assim, nasceu a ideia de publicá-los em conjunto, propondo, como mensagem de Ano-Novo, justamente o diálogo como ponto de partida para a resolução de problemas, já que até mesmo os textos dialogam entre si.

A recepção desse modelo pelos leitores do site foi tão positiva que resolvemos dar continuidade a esse formato. E, após um ano dessa experiência, reunimos os textos postados e outros inéditos em um único suporte: o livro “O Fio de Ariadne: textos em diálogo”.

O título em questão remete à mitologia grega, de modo mais específico à história de Ariadne que oferece a seu amado Teseu um fio (uma espécie de novelo) para constituir seu guia no labirinto do Minotauro e orientações para matar o monstro. Tal narrativa clássica serviu de inspiração para “tecer” o formato da obra: uma crônica se “entrelaça” com um conjunto de microcontos ou um poema, um poema se “enrosca” em uma crônica e assim sucessivamente. Dessa forma, a “tessitura” obtida oferece uma compreensão mais abrangente da realidade.

Qual a importância do Prêmio Literário Cidade de Passo Fundo? O que isso significa para a trajetória de um(a) escritor(a)?

ELÁDIO/ROSEMÉRI: Acreditamos que o prêmio revela-se um incentivo à produção de literatura na cidade e na região, promovendo não só o gosto pela leitura, mas também pela escrita, o que sintoniza diretamente com o título de “Capital Nacional de Literatura”. Afinal, ao valorizar escritores(as) municipais, despertam-se novos talentos que tomam tais ícones como referência, sentindo que também podem ter sua produção aqui reconhecida e, quiçá, por meio das cores locais, atingir uma dimensão mais ampla. Assim, como afirma Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Veja também:

Edição: A. R.

Osvandré Lech – Vida dedicada à Ortopedia

O Acadêmico, contudo, não limita o interesse literário à criação alheia. É autor de obras importantes na área de ortopedia, traumatologia, cirurgia do ombro e cirurgia da mão. Além disso, também escreve acerca de temáticas de cultura geral e resgate histórico, como “150 Momentos Mais Importantes da História de Passo Fundo”, publicado na celebração dos 150 anos do município em 2007.                      

Por Jornalista André Pereira, Porto Alegre, RS.

O novo titular da cadeira número 1 da ASRM (Academia Sul-Riograndense de Medicina) poderá fazer um convite que soará estranho a um confrade de Porto Alegre.  “Vamos realizar um tour para ver livros médicos raros em Passo Fundo?”, indagará a um interlocutor certamente surpreso. Sim, na cidade do planalto médio gaúcho existe uma coleção de obras especiais só comparável a acervos de bibliotecas de capitais brasileiras.

Batizado com prenomes que homenageiam seus dois avôs Osvaldo e André, ao nascer em solo passo-fundense em 31 de janeiro de 1956, filho de João Lech e Almery Canfield Lech (ambos in memoriam), o médico Osvandré Luiz Canfield Lech possui mais de 3.000 livros médicos raros – editados há pelo menos 70 anos –  distribuídos em diversas estandes no quarto andar do hospital São Vicente de Paulo Unidade Uruguai, conta ele, instalado no consultório de Porto Alegre, seu outro local de atendimento de pacientes.

O estudante do Instituto Educacional (IE) e do colégio Nicolau Vergueiro (CENAV) que chegou à Seleção Gaúcha de Voleibol, gostava de guardar revistas infantis antigas, um gatilho para iniciar o acervo de livros médicos antigos. O primeiro volume de livro médico raro foi presente do professor norte-americano Wayne Kotcamp, da Universidade de Louisville, Kentucky. “O The Shoulder, de Earl Codman,de 1934,  é uma relíquia pelo ineditismo do título e pela pequeno número de exemplares impressos”, conta ele.  

 O Acadêmico, contudo, não limita o interesse literário à criação alheia. É autor de obras importantes na área de ortopedia, traumatologia, cirurgia do ombro e cirurgia da mão. Além disso, também escreve acerca de temáticas de cultura geral e resgate histórico, como “150 Momentos Mais Importantes da História de Passo Fundo”, publicado na celebração dos 150 anos do município em 2007. 

Legenda: Posse na Presidência da Academia Passo-Fundense de Medicina em dezembro de 2025, na presença de sua esposa Marilise.             .

Depois de graduar-se em 1979 na UPF e, após obter o título de ortopedista, foi aprender os avanços da cirurgia da mão e microcirurgia com Harold Kleinert, em Louisville, Kentucky, EUA, em 1982-83, e da cirurgia do ombro e cotovelo com Charles Neer e Louis Bigliani na Universidade de Columbia, Nova Iorque, EUA, em 1986. 

Com bolsas da Fundação Rotária e da JICA (Japanese International Cooperation Agency), visitou diversos centros médicos nos EUA, Europa e Japão.  

Em Passo Fundo, foi o primeiro residente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) junto ao Hospital São Vicente de Paulo, em 1980. Mantém-se ligado ao ensino e pesquisa desde então, auxiliando a cidade e o estado do RS a conquistar credibilidade científica nacional e internacional. Chefiou a Residência Médica de ortopedia de 1991 a 2016, onde conduziu a formação de dezenas de novos ortopedistas e de cirurgiões do ombro.   

Ligou-se ao fomento intelectual através de colunas em jornais e revistas, afiliação à Academia Passo-Fundense de Letras desde 1996, tendo presidido a entidade em 2012-2013. É membro-fundador e atual vice-presidente da Academia Passo-Fundense de Medicina.  Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Passo Fundo de 2013 a 2018.  Com 45 anos de formado, mantém rígida rotina de consultório e cirurgias em Passo Fundo e em Porto Alegre.  

Na ortopedia gaúcha – presidiu a SBOT-RS em 2000-2001, quando organizou o Congresso Sul-Brasileiro e publicou o livro “História da Ortopedia Gaúcha”; a partir do modelo gaúcho, publicações semelhantes foram reproduzidas por outros estados brasileiros. Em 2008 presidiu o 40º CBOTchê em Porto Alegre com 5.100 participantes. 

Legenda: Presidindo o Conselho Mundial de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (IBSES)

Na ortopedia brasileira – palestrou em todo o país, passou por diversos cargos diretivos na SBOT (Educação Continuada, Marketing, Secretaria e Tesouraria) e culminou com a presidência em 2011, quando capitaneou profunda reestruturação administrativa.  Naquele ano criou a Comissão de História da Ortopedia Brasileira (CHOB) e o Mérito Ortopédico “Nicolas Andry”, que homenageia anualmente um ortopedista de destaque escolhido pelos seus pares.  Foi o terceiro gaúcho a ocupar a presidência da SBOT, depois de Luiz Guerra Blessmann (1944) e de Elias Kanan (1956).  Foi membro do corpo editorial da Rev Brasil de Ortopedia, examinador do TEOT desde o início dos anos 90, presidiu a Comissão Científica do 53º Congresso Anual da SBOT em 2021 e foi o editor-chefe do jornal da SBOT em 2022. 

Na ortopedia internacional – foi agraciado como membro correspondente e de honra de diversas sociedades internacionais.  Foi membro do Corpo Editorial do Bone and Joint Journal (Inglaterra) e do Journal of Shoulder and Elbow Surgery (EUA).  É membro-fundador do World Orthopaedic Alliance (WOA), baseado em Pequim.  Estabeleceu diversos acordos para treinamento de brasileiros nos EUA e Europa. Atuou em mais de 1.200 atividades científicas – conferências, temas livres, mesas redondas, aulas magnas – em cidades dos cinco continentes, incluindo Mumbai, Sydney, Osaka, Nagoia, Seoul, Pequim, Shangai, Xi`an, Londres, Lyon, Coimbra, Praga, Edimburgo, Helsinki, Nova Iorque, Seattle, Chicago, Las Vegas, Miami, Santiago do Chile, Cidade do Cabo, Buenos Aires, Cidade do México, Cairo, Roma, Málaga.

Na cirurgia da mão e microcirurgia – publicou, em 1992, o “Protocolo de Investigação das Lesões por Esforços Repetitivos (LER), a primeira publicação nacional sobre o assunto. É membro da American Society for Surgery of the Hand. Em 2001, presidiu o congresso brasileiro em Gramado, RS, e a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão. Foi “Visiting Professor” da University of Louisville, EUA, no Serviço dos icônicos Harold Kleinert e Joseph Kutz em 2012.

Legenda: O principal livro de ortopedia do Brasil é de autoria de Sizínio Hebert e Osvandré Lech

Na cirurgia do ombro e cotovelo – é membro-fundador da SBCOC em 1988, e da Sociedade Latino-Americana (SLAHOC) em 1994. Lançou em 1992 o “Fundamentos em Cirurgia do Ombro”, primeira publicação brasileira sobre o assunto. Estabeleceu o Serviço de Ombro e Cotovelo em Passo Fundo em 1987 e o centro de treinamento em 1993, um dos primeiros do país, onde educou mais de 100 cirurgiões do país e exterior, constituindo a “Turma de Passo Fundo”.  Presidiu junto com Sérgio Checchia e Adalberto Visco o décimo Congresso Mundial (ICSES) em Sauipe em 2007. 

É membro da American Shoulder and Elbow Surgeons, palestrante oficial Sociedade Européia de ombro em Lyon em 2011. Foi o quinto presidente do International Board of Shoulder and Elbow Surgery (IBSES), numa lista que inclui Charles Neer (EUA),  Robert Cofield (EUA), Steve Copeland (Inglaterra) e Louis Bigliani (EUA), sendo atuante na organização dos congressos mundiais de 2019 em Buenos Aires e de 2023 em Roma.  

Casado com a doutora em educação e professora jubilada da UPF Marilise, pai da especialista em gestão e marketing digital, Graciela, e do futuro psiquiatra Leonardo, o Acadêmico considera a família como um pilar imprescindível da sua trajetória de vida. Jornada que diz ter sido enriquecida com a eleição recente para a Academia Sul- Rio- Grandense de Medicina em 2024. “Me sinto muito honrado em compartilhar o mesmo ambiente com luminares da ciência que mudaram os rumos da Medicina”.

Fotos: arquivo pessoal/divulgação

Edição: A. R.

Impactos da formação religiosa cristã: caminhada em busca da humanização

Num mundo tão mecânico e desumanizado, cujas relações interpessoais estão deterioradas, marcadas pelo egoísmo, maldade, violência, interesses escusos, acreditar no ser humano e se importar com o próximo ainda carrega algum sentido? Por que humanistas são tão perseguidos e caluniados desde sempre e na atualidade?

Recentemente, estou refletindo sobre fatores que determinam o nosso jeito de ser e agir no mundo. Há quem diga que podem ser fatores genéticos; outros que são as experiências vivenciadas. Outros, ainda, que a cultura dos lugares e os ambientes de convivência que determinam nossa existência.

O que sabemos é que nada está desconectado com a nossa primeira experiência de socialização: a família. Nesta, aprendemos os valores que sustentam e elevam a nossa ética e moral. Estes primeiros valores vão sendo aplicados e aperfeiçoados ao longo da vida.

Desde meus 16 anos, inicio minha formação cristã humanística em casas religiosas (antigos seminários) e também a organizações de direitos humanos, organizações de juventude e sindicatos.

Uma das minhas passagens por formação cristã humanística foi junto a uma comunidade da Ordem dos Frades Menores (Ofm).

Nesta particular experiência, descobri Francisco de Assis que passou a ser uma importante referência de vida e de espiritualidade. Me marcou e ainda marca, profundamente, a sua simplicidade, sua relação de irmandade com os demais seres humanos e a sua relação amorosa com os demais animais. Uma das coisas que logo incorporei na minha vida é a simplicidade e o uso de sandálias. O uso de sandálias, para além do conforto em dias de calor, representa a humildade de caminhante, a necessidade de se colocar a serviço dos demais e de reconhecer que a sabedoria é um processo que está em curso; jamais está pronto. Leia mais: www.neipies.com/memorias-de-uma-vivencia-franciscana/

Lembrei-me de outras experiências vivenciadas na minha trajetória de vida que impregnaram um jeito próprio de ser e de me relacionar com a vida, com o mundo e com as pessoas do meu entorno e do meu trabalho, às quais passo a descrever.

Aos 16 anos, antes mesmo de ingressar no Seminário da Congregação da Sagrada Família (MSF) em Santo Angelo, RS, ocorreu algo inusitado na Rodoviária de Santa Rosa, RS. Estava aguardando ônibus que me levaria de volta ao meu lar depois de dois dias de encontro de preparação e conhecimentos para entrada no seminário, no ano seguinte. Um senhor se aproxima e diz: “Você é seminarista, não é?” Eu respondi que não, mas que participara de um encontro para conhecer e decidir sobre minha entrada na formação religiosa. Ao que ele me disse: “Sou padre e já identifiquei você como seminarista”. Foi impactante esta sua constatação!

Ao completar meus 20 anos, morando numa comunidade inserida num bairro de nossa cidade Passo Fundo, RS, estudando Filosofia (no turno da noite), trabalhei cerca de um ano no maior supermercado da cidade, à época. Minha função e meu trabalho era de repositor de Cereais e, aos sábados, também empacotador. Ao me conhecerem, os colegas logo me identificaram com jeito de padre e, imagina, meu apelido ficou “Padre”. Era padre para cá, padre para lá, confundindo e distraindo, por vezes, os clientes que acessavam ao estabelecimento. Era divertido, mas, às vezes, constrangedor.

Aos 35 anos, dirigindo-me a uma Assembleia Nacional do MNDH (Movimento Nacional dos Direitos Humanos), que ocorreu em Vitória, ES, um senhor me aborda em grande aeroporto em São Paulo. Se apresenta como um padre missionário, que embarcaria para uma nova missão na África e diz que percebeu que meu jeito de ser e me comportar me remetia a uma formação religiosa. Conversamos, ao longo de duas horas, sobre questões da Igreja, dos desafios de ser missionário na atualidade, dos desafios de um mundo em guerras e do Brasil, de modo geral. Ficou marcado este encontro ímpar e singular!

A escrita, sempre presente desde o meu Ensino Fundamental, alicerçou uma vida em busca da humanização, uma crença de que é possível melhorar o ser humano que somos a partir dos conhecimentos críticos e reflexivos. Neste contexto, em 2015, lanço meu Livro “Conviver, educar e participar: nos palcos da vida”. A partir de então, passo a escrever e produzir materiais para afirmar a educação também com uma missão humanizante!

Vídeo produzido pela RBS TV sobre o livro: https://youtu.be/b0jm9tALzcA?list=PLDwf2YrZZoEeVSfgntzh3aMQd7qe3aA0m

Não me formei padre e nem frei, mas me tornei educador em componentes curriculares que provocam reflexões e estimulam a humanização, através do conhecimento: Ensino Religioso e Filosofia.

A vida me levou ao caminho da educação, mas carregando as marcas e os impactos de uma formação cristã humanística. Em outra crônica, fica clara esta relação:

Um estudante do sexto ano do Ensino Fundamental me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem pensar muito, respondi: “nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra”. 

Leia mais: www.neipies.com/nem-padre-nem-religioso-sou-professor/

Pois, resta comprovado que, com 52 anos de idade e mais de 25 anos de atuação no magistério, não posso ignorar e nem desconsiderar o impacto que a formação religiosa cristã e humanística teve na minha maneira de ser, pensar e agir no mundo.

***

Mas, num mundo tão mecânico e desumanizado, cujas relações interpessoais estão deterioradas, marcadas pelo egoísmo, maldade, violência, interesses escusos, acreditar no ser humano e se importar com o próximo ainda carrega algum sentido? Por que pessoas como Padre Júlio Lancelotti, e outras tantas mais, próximas da gente, são alvos de constantes ataques por sua atuação humanista, sendo silenciados, caluniados, perseguidos politicamente? Até quando?

Autor: Nei Alberto Pies. Professor, escritor e editor do site www.neipies.com

Edição: A. R.

Uma importante imersão na vida e obra de Eça de Queiroz

Repercutimos, nesta matéria, a primeira atividade denominada Momento Cultural da APLetras (Academia Passofundense de Letras) no ano de 2026. Na oportunidade, o confrade desta valorosa Academia, Senhor Luiz Juarez Nogueira de Azevedo fez uma importante imersão na obra do escritor português Eça de Queiroz.

O evento ocorreu no dia 07 de março de 2026, na sede da APLetras, contando com ampla participação de pessoas interessadas em leitura e literatura.

Publicaremos, a seguir, o texto do palestrante Luiz Juarez Nogueira de Azevedo, destacando a sua eloquente intervenção e entendimento sobre a literatura, de modo especial referindo-se ao autor Eça de Queiroz.

***

A INTEMPORALIDADE DE EÇA DE QUEIRÓS

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

I.

Antes de mais nada, desejo agradecer à direção desta Academia de Letras, na pessoa do presidente Gilberto Cunha, pelo honroso convite, que não poderia declinar, para participar como palestrante do primeiro evento cultural promovido sob a administração recém começada.

No meio de escritores de invejáveis méritos, poetas, prosadores, memorialistas e historiadores, aficcionados à arte e à cultura que integram o nosso sodalício, receio não poder dizer nada que não seja sabido e ressabido.

Neste círculo acadêmico sou dos poucos que nunca publicaram um livro que possa chamar de seu. Apenas, há mais de sessenta anos, colaboro na imprensa local e, nesse tempo, como fiz enquanto docente da Faculdade de Direito e procurador do Estado, participei de publicações coletivas, na Revista da Procuradoria Geral, na Revista da Faculdade de Direito, depois denominada Justiça do Direito, e também na preciosa Água da Fonte, a obra prima imperecível, viva e vibrante, de Paulo Monteiro e Gilberto Cunha, nosso atual presidente. Nesta, principalmente, sempre generosamente acolhido por seus editores, tenho estado sempre presente no afã de corresponder à honrosa condição de membro desta Academia.

II.

Portanto, é como leitor e não como escritor, que aqui me apresento.  Sei muito pouco de teorias literárias e não  me tenho como crítico ou especialista nessa matéria.

Devo confessar, entretanto, que, há muito tempo desde o curso ginasial no antigo Ginásio Osvaldo Cruz, quando funcionava no vetusto prédio da Praça Tochetto, e no Clássico do Conceição, afeiçoei-me profundamente à literatura portuguesa e à sua constelação de poetas e prosadores.  Antes disso, com a clássica “Anthologia Nacional” herdada do meu pai, repassei, entre outros, Camões, Vieira e Bernardes, Castilho, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Almeida Garret e Alexandre Herculano, até conhecer José Maria Eça de Queiroz.

Foi do meu pai que herdei o apreço por Eça. Conservo na minha biblioteca preciosas edições da Livraria Chardron, como esta, de 1924, mais que centenária, autografada por meu pai.

Para mim, Eça foi e ainda é, em todas as épocas o maior de todos. Somente se lhe compara, como romancista, no nosso idioma, o insuperável Machado de Assis. Eça e ele foram contemporâneos e se admiravam mutuamente. Na opinião dos críticos e dos leitores, eles  disputaram e continuam a disputar o primeiro lugar entre os autores em língua portuguesa.

Claro que a literatura portuguesa, paralelamente à que se desenvolveu deste lado do Atlântico, não estacionou em Eça de Queiroz. Depois dele, em Portugal, muitos vieram. Nomes como Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Agustina Bessa Luís e José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, continuam a encantar-nos com sua arte de escrever textos cada vez mais perfeitos na poesia e na prosa.

III.

A história de Eça de Queiroz começa com seu nascimento em circunstâncias dramáticas. Ele iria nascer na Póvoa de Varzim, localidade praieira na região do Porto, onde estive uma vez de passagem.

Seu pai e sua mãe não residiam na localidade.  Ela viera em segredo para o parto porque ainda não estavam casados. Consta que ela era de forte temperamento e, embora grávida do pai de Eça, também chamado José Maria, por algum motivo resistia ao casamento. Por isso o recém-nascido viveu seus primeiros anos numa localidade próxima, — Vila do Conde — separado dos pais, na companhia da madrinha Ana Joaquina Leal de Barros. Somente quando do casamento dos pais, quatro anos depois, sua existência foi revelada e ele foi levado para a moradia da família, que se estabelecera em Lisboa, onde seu pai era juiz de direito.

Um dos biógrafos de Eça, Campos Matos, observa que as circunstâncias do seu nascimento viriam a “deixar marcar visíveis no seu comportamento e na sua obra”.

Ao atingir a idade escolar, tendo a família se transferido para o Porto, o jovem Eça foi matriculado no Colégio da Lapa, pertencente a uma ordem religiosa, onde permaneceu entre os anos de 1856 e 1861. Nele, José Maria teria passado “tempos amargos, amenizados apenas pelas férias que passava não com os pais, que viviam então no Porto, mas na casa da tia materna Carlota, que residia também nessa cidade, na rua da Cedofeita, e tinha duas filhas jovens”.

Não demorariam os tempos de Faculdade de Direito, que cursou na Universidade de Coimbra. Pouco afeito aos estudos jurídicos, preferia as leituras e a literatura, especialmente a francesa. Naquele ambiente estreito e autoritário prevalecia a autoridade do reitor-déspota Basílio Alberto de Souza Pinto. Em passagens frequentes da sua obra, Eça critica acerbamente a atmosfera da Universidade ao mesmo tempo em que manifesta a excelente recordação, que manteve pela vida afora, do cenário estudantil. Nos romances A Capital e Os Maias é constantemente evocado o ambiente coimbrão que tão decisivo foi na sua formação literária e ideológica.

Em junho de 1866 Eça conclui a sua formação em Direito e volta a habitar na casa dos pais, num 4º andar, nº 26, do Rossio, a praça central de Lisboa.  Forma nessa altura um local de convívio de amigos, parte dos quais vindos de Coimbra, a que chamavam O Cenáculo, a todo o tempo inspirado pela marcante personalidade de Antero de Quental. No seu horizonte literário fervilhavam os principais nomes da literatura francesa: Proudhon, Renan, Taine, Balzac, Vitor Hugo, Comte e Flaubert.

A instâncias de seu pai, magistrado prestigioso, futuro ministro da Justiça e do Superior Tribunal do Reino, Eça deverá partir para Évora para uma experiência jornalística de grande fôlego: dirigir e redatar sozinho um jornal do Partido Histórico, de oposição ao governo da época, cujo título era O Distrito de Évora. Durante oito meses ele põe à prova seus dotes de escritor. Cria folhetins, artigos de fundo e tudo o mais, envolvendo-se também em polêmicas. É quando tenta, também, sem êxito, exercer a advocacia, profissão que sempre rejeitou.

Retornando a Lisboa, reencontra seus companheiros do Cenáculo, principalmente com Ramalho Ortigão. Junta-se a Antero de Quental e Batalha Reis para criar o grupo Satânicos do Norte, que defendia uma outra forma poética para corresponder ao realismo no mundo da poesia.

Em outubro de 1869, Eça parte com Luís de Castro, conde de Resende, para uma viagem ao Oriente (Egito e Terra Santa). O pretexto da viagem foi a inauguração do Canal de Suez, a que ambos assistiriam, o que seria contado detalhadamente n’O Egito, obra publicada postumamente.  Sua experiência no Egito e na Terra Santa foi aproveitada n’A Relíquia, onde é narrada a trajetória do irrequieto Teodorico Raposo em sua passagem por aquelas terras.  Na sua jornada, Eça e Resende estiveram    depois no Cairo, Heliópolis, Gizé, Sakarah e Mênfis. Do Cairo partiram para a Palestina, indo até Jerusalém, onde conheceram o Santo Sepulcro e a Mesquita de Omar. Depois seguiram   para  Betânia, Belém e o Mar Morto e  voltaram  a Jaffa,   na Síria, para visitar Beirute.  No Oriente Eça e Resende ainda encontraram gentes, costumes e paisagens como eram nos tempos bíblicos.  

Ao   regressar à pátria, soou para Eça a hora de cuidar da sua vida e do seu futuro. Esteve alguns meses em Leiria, onde, sempre por influência paterna, tinha sido nomeado administrador do conselho, uma espécie de prefeito. Muito da sua experiência em Leiria é retratado no Crime do Padre Amaro, cujos personagens foram desenhados a partir de figuras que conheceu naquela vila pacata e interiorana.  Lá estão, o grupo de padres, as devotas, o notário, o noivo da Amelinha, ela própria, o sacristão, as alcoviteiras e outros protagonistas.

 

Em seguida, Eça iria se submeter a concurso para a carreira consular, de onde partiria para representar Portugal em diversos lugares do mundo. Foi aprovado em primeiro lugar e seu destino seria a Bahia. Por influências políticas mais poderosas, seu destino foi trocado pelo consulado de Havana, em Cuba, que ainda se encontrava sob o domínio da Espanha. Lá permaneceu apenas por onze meses. O restante do tempo foi aproveitado em viagem aos Estados Unidos, onde viveu turbulentas experiencias amorosas com duas jovens norte-americanas e visitou Nova York, Pittsburgh, Chicago e as cataratas do Niágara.  

Depois seguiu para o seu segundo posto consular, em Newcastle, na Inglaterra, onde chegou em novembro de 1874. Lá se demoraria por cinco anos, de 1874 a 1879.

Esse foi o período mais produtivo de sua carreira literária quando desenvolveu um importante projeto a que denominou Cenas Portuguesas. Dele resultaram O primo Basílio e o Crime do Padre Amaro, romances realistas.

No fim de sua missão em Newcastle, antes da remoção para o consulado em Bristol, Eça iria casar-se no Porto com D. Emília de Castro, irmã do conde de Resende, seu companheiro na jornada pelo Oriente Médio.

Pouco depois do casamento, iria ocupar seu derradeiro posto diplomático: o consulado em Paris. A Cidade-Luz, aonde chegou em 1888, vivia um momento de esplendor e magnitude. Entre o fim da Revolução e a Belle Époque, se convertera em modelo de modernidade e centro cultural da Europa.

Naquela metrópole cosmopolita, o mais importante centro cultural da Europa e do mundo, Eça poderia realizar seus sonhos e aspirações. A cultura francesa para ele sempre fora alimento e inspiração. Ela fez parte das crônicas de sua autoria, publicadas na Gazeta do Rio de Janeiro entre 1880 e 1897. Numa crônica sobre a Europa, de 1888, a França é referida como “a nossa mãe latina’’. Em carta a Ramalho afirmava que “o meu amor pela França que foi e há de ser sempre a nossa mãe, a nossa educadora, que nos ensinava a vestir-nos que nos iniciou com seus livros em tudo o que há de belo, grande e generoso”.

Ao contrário do que se poderia esperar, seus anos em Paris não foram dos mais animados nem estimulantes. Escrevendo incansavelmente, além dos cuidados com a família, funcionário exemplar que era, cumpria escrupulosamente as suas tarefas no consulado. Também continuava a ler, pensar e escrever intensamente. Decepcionava-se com a política e com os acontecimentos da época.

Não há notícia de que tenha feito algum amigo entre os franceses, mas é certo que continuava vinculado a seu grupo dos Vencidos da Vida, a quem revisitava em idas periódicas a Lisboa. Os artigos que escrevia para a imprensa eram conjunturais.

Nos seus anos finais em Paris, Eça se sentia profundamente abatido. Nem mesmo queria saber do que acontecia em Portugal.

Logo chegaria o seu fim. A doença de que padecia havia alguns anos agravou-se subitamente em fevereiro de 1900. Tentou se recuperar com um tratamento em Genebra, na Suíça, onde se fartou da solidão, do tédio, da tristeza e do frio intenso.  No retorno, ao desembarcar do trem, apresentava-se magro, enfraquecido, com uma cor doentia e ar singularmente desamparado. Era o fim. Iria expirar em seu leito na tarde de 16 de agosto de 1900, sob um calor intolerável, recebendo a extrema unção.

IV.

Desde a minha juventude, venho lendo e, de tempos em tempos, releio os romances, crônicas e a produção jornalística de Eça de Queiroz. O número de suas produções é impressionante, passando os livros, traduzidos em mais de trinta idiomas, de duas dezenas.  Também li as suas melhores biografias, das quais me servi para este estudo.

Gostaria de mencionar aqueles de que mais gosto. São, pela ordem, 1º) Os Maias, 2º) A Ilustre Casa de Ramires, 3º) O Crime do Padre Amaro, 4º) A Relíquia e 5º) O Primo Basílio.  De todos eles, Os Maias é reputado como a sua obra prima. Juntamente com O Primo Basílio, os Maias foram objeto de séries televisivas, de grande sucesso no Brasil.

Deixo a dica a todos para que, como eu, leiam e apreciem muito a obra Os Maias.

V.

É o que, nos limites do tempo convencionado, posso dizer sobre Eça de Queiroz e sua obra.

É opinião de todos os críticos e dos leitores de bom gosto que a sua obra é transcendental e intemporal. Sua importância e perenidade ultrapassa um século e cresce cada vez mais.

No paralelo entre Eça e Machado de Assis, para reflexão, peço licença para ler a observação de Arnaldo Jabor a esse respeito:

“O grande Machado atingia subtons que Eça nem tentou, por escolha Machado é mais inglês, Eça é mais francês. Saído dos castelos de Flaubert, Balzac e Zola, que ele “pós-modernamente chegou até a ”plagiar”, Eça funda um realismo caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas que passa por traços grossos, pelo riso deslavado, por uma proposital “falta de sutileza” (que resulta depois sutilíssima) na tradição de um realismo quase carnavalizado, sem anseio de transcendência, Machado é mais, digamos, “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa.

Veja também material do evento no Instagra: https://www.instagram.com/reel/DVl5oXxgO_D/?igsh=bnpyZ3AybWJ1OHVn

Passo Fundo, 7 de março de 2026.

Autor:  Luiz Juarez Nogueira de Azevedo

Edição: A. R.

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