O que Michelangelo pode ensinar ao futebol brasileiro

O jogo contra a Escócia parece ter despertado uma alma que há tempos não era invocada. A essência do futebol brasileiro estava, sem dúvidas, incorporada naquele time.

“A Copa deveria acontecer logo depois das eleições”, me disse uma amiga outro dia desses. O motivo? Só assim para o Brasil se unir de novo.

E ela tem razão. É preciso um pretexto forte para nos lembrar de quem somos nação.

“Vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo”.

Inspirado nas ideias de Platão, para Michelangelo a forma ideal já existia na mente de Deus e estava, de certo modo, refletida ou aprisionada dentro da matéria. O trabalho do escultor era um ato quase espiritual de quebrar a “prisão de pedra” para trazer a alma, a essência da figura, para fora.

E, acredite você ou não, um técnico da seleção brasileira deve ser, antes de tudo, um escultor. Porque o futebol brasileiro é arte. Uma arte que precisa dos elementos certos para se manifestar. Na Grécia Antiga, esses elementos essenciais eram três:

  • Proporção: quando nada falta e nada sobra.
  • Beleza: quando os pés esquecem o peso e passam a brincar com a bola.
  • Harmonia: quando o Brasil inteiro joga junto.

Um bom escultor tem a consciência de que não é um braço ou uma perna isolada que faz uma obra de arte; é o todo. E isso fica claro na resposta unânime do Mister em toda entrevista em que um repórter insiste em eleger o “diamante da temporada”.

O Brasil tem disso: o nosso imaginário cultural ainda espera pelo Salvador. O Neymar ocupa esse lugar para muitos, o futebol e o político também. Mas, sinceramente, e sabe-se lá se foi fruto do acaso ou de uma escolha técnica, o fato de o “Menino Ney” não ter jogado até então fortaleceu a unidade da equipe.

Quando não há um messias em campo, os outros são obrigados a crescer. Assim, a gente deixa de esperar “Jesus chegar” para fazer alguma coisa e assume a própria responsabilidade. Para Kant, isso se chamaria maioridade.

É também tarefa do escultor intuir o lugar exato de cada elemento. Alisson no ataque e Vini Júnior no gol seria o fim já no início! Existe uma inteligência na composição: cada parte encontra sentido não isoladamente, mas em relação ao todo.

Para os gregos antigos, a arte possuía algo de espiritual. O verdadeiro escultor não era apenas aquele que moldava a matéria, mas aquele capaz de despertar o melhor da humanidade através da sua obra.

Talvez seja isso que sentimos diante de um time que realmente funcione: algo maior do que onze jogadores correndo atrás de uma bola. Há um sentimento raro de pertencimento, de integração, de reconhecimento.

Porque, no fundo, a seleção é um espelho. E quando ela joga como arte, revela também algo sobre nós: um povo criativo, que improvisa na falta, ginga na adversidade, persiste depois dos tombos e que, apesar de tudo, ainda encontra razões para sorrir.

Se conseguíssemos canalizar esse mesmo espírito de união e maturidade para a nossa política… já imaginou até onde poderíamos chegar?

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Pé direito e pé esquerdo e o andar do Brasil”: www.neipies.com/pe-direito-pe-esquerdo-e-o-andar-do-brasil/

Edição: A. R.

Cantorias de quintal: uma bela obra de Eloí Elisabete Bocheco

No quintal de casa, legumes e verduras inventam brincadeiras poéticas
e cantigas de roda. Inspirando-se na poesia popular, a autora brinca
com as formas, cheiros, sabores e cores da horta.

A beterraba, a cebola, a batata, o jiló e outros moradores do quintal são personagens destes
poemas. Uma festa poética que começa no fundo da terra, se disfarça
nos arbustos comestíveis e, levada pelo vento, passeia pelo céu da boca
e do mundo.

Veja aqui: https://www.youtube.com/shorts/KjZhE1JhGc4

Da autora:

Eloí Elisabete Bocheco, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo-RS e pós-graduada em Alfabetização e Metodologias de Leitura. Atuou como alfabetizadora, professora de Língua Portuguesa e Literatura. Trabalhou como animadora da biblioteca escolar, foi coordenadora do ensino de língua e literatura, dentre outras atividades ligadas ao ensino.

O texto literário foi sempre o grande aliado na tarefa de criar a corrente de paixão pela leitura, e na criação de uma memória literária na vida de crianças e jovens com quem conviveu nos anos de magistério.

Teve, na juventude, grandes mestres de leitura e destaca especialmente a professora Ana Schirley Favero e Paulo Bragatto Filho no ensino básico e o professor Henrique Manuel Ávila, na graduação em Letras na Universidade de Passo Fundo/RS.

Leia mais: www.neipies.com/eloi-elisabete-bocheco-universo-infantil-na-escola-na-paixao-e-na-literatura/

Onde adquirir a obra Cantorias de quintal: www.physaliseditora.com/product-page/cantorias-de-quintal

Edição: A. R.

O frio que não suportamos nos outros

O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano.

O poeta Manuel Bandeira viu uma realidade que o inquietou. Dono de uma poesia crítica, em linguagem simples, cotidiana e profunda, escreveu.

“Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio / catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem.”

A denúncia poética foi registrada por Bandeira ainda em 27 de dezembro de 1947. Ocorre que ele não apenas enxergou o fato. Ele o viu. E há uma diferença fundamental nisso, pois enxergar é aptidão biológica, enquanto que ver é uma atitude política, ética, sensível.

Por esses dias também vi um homem deitado na calçada. Fazia frio, com previsão de esfriar mais. Todos passavam, mas ninguém se importava com ele. Estavam ocupados com seus afazeres.

Eis que uma mulher o viu, se comoveu, mas, ao mesmo tempo, sentiu medo. Quem será? Por que estará aí desse jeito? O que fazer? Ou nada fazer como todos, revestindo-se de frieza? As inquietações se acumulavam. São elas que podem nos levar à ação primeira e mais fundamental, qual seja:  aproximar-se de quem consideramos como próximo não apenas por proximidade física, mas por vínculo humano.

Os moradores e moradoras em situação de rua são nossos próximos. Eles não só sentem frio e fome. Também sentem solidão, tristeza, abandono. Enquanto comia um pão e tomava o café que lhe foi oferecido, o homem da calçada disse-me que ali estava porque tinha perdido o amor à vida e se sentia só.

O que fazer para não perder o amor à vida? O que é possível ser feito para recuperar a vontade de viver e conviver? Como agir em relação a si e aos outros sobre questões como essas? As perguntas que emergem de realidades sofridas não requerem respostas apenas teóricas. Elas nos convocam para ações concretas.  

O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano. Não há como ser profundamente solidário sem colocar-se no lugar do outro, daquele que necessita, sem preconceitos e sem juízos condenatórios.

Por outro lado, há um frio que pode estar em nós, mesmo no contexto do aquecimento global. Um frio de outra natureza: da indiferença, da insensibilidade diante da dor, da fome, dos problemas dos outros. Essa frieza humana só pode ser combatida com acolhida, empatia e amor fraterno.

As campanhas por doação de agasalhos na cidade, no estado e por outros estados onde faz frio estão em pleno andamento. São muito necessárias. E nos fazem pensar sobre a importância da solidariedade. Mas, não só. Também da reflexão mais ampla.

Saber agir diante das mudanças climáticas e diante das permanências das desigualdades, da fome, do frio, da perda do sentido da vida, dos sofrimentos ocasionados pelas mais diferentes situações é um dos grandes desafios do nosso tempo. Não vamos permitir que o frio do clima se instale em nossas mentalidades, em nossos comportamentos e relacionamentos.

De acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População da Situação de Rua da UFMG, o Brasil possui cerca de 388 mil pessoas vivendo em situação de rua.

Os dados são obtidos a partir da atualização do CadÚnico, instrumento do governo federal e que é utilizado por todas as cidades brasileiras para o registro dessas populações e o acesso às políticas sociais. Os números são sempre imprecisos, dada a inexistência de um censo da população em situação de rua e também pela mobilidade e alteração contínua das pessoas nessa condição.

Para além dos casos particulares e do número total, bem como das causas que levam muitas pessoas a viverem em situações de rua, existem diversas atitudes possíveis e importantes. A primeira é despir-se de preconceitos. Associar a isso a promoção da cidadania, o fortalecimento de políticas públicas de acolhida, escuta ativa, assistência social, psicológica, espiritual, de saúde física e mental. Também o apoio e a contribuição às pessoas e instituições que já vêm realizando esse trabalho. Orientar a buscar ajuda nos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CRAS) e nas unidades públicas de atendimento como os albergues e Centro POP.

Permanecer na rua não é crime. Afinal, a rua é de todos; a cidade é pública. Porém, a falta de opção de não permanecer na rua é que deve nos fazer refletir e agir enquanto humanos e cidadãos.

Tudo o que pudermos fazer além da indiferença já é importante. Mas, o mais importante é ver e não apenas enxergar. Dar uma palavra de encorajamento antes que uma de apedrejamento. Estender a mão antes que virar as costas. Em tudo, a sensibilidade, o calor humano e a solidariedade ainda são a melhor medida para enfrentar as friezas da vida!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Emergências climáticas e migrações forçadas”: www.neipies.com/emergencias-climaticas-e-migracoes-forcadas/

Edição: A. R.

O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados. Que história é esta?

O elemento central é a lenda do Minhocão do Jacuí, uma criatura gigantesca e misteriosa que habita as profundezas do rio, sendo responsável por fenômenos inexplicáveis e, por vezes, temida pelos moradores.

O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados é uma obra de ficção fantástica e mergulha no sulrealismo folclórico e nas lendas da região do Rio Grande do Sul, especialmente ligadas ao Rio Jacuí e seus afluentes. Está catalogada na Biblioteca Nacional na categoria LENDAS DO SUL. A história gira em torno de elementos místicos e da relação entre a natureza e o ser humano.

O livro narra as aventuras de um grupo de personagens, como o menino, o seu cãozinho Tupy e o misterioso MONGE BARBUDO, que vivia próximo ao Rio Jacuí numa caverna rodeada pelo POÇO DO PANÇUDO, onde hoje é a cidade de ESPUMOSO/RS.

A trama é ambientada em um cenário que mistura a realidade da vida ribeirinha com o imaginário popular desde as origens dos nativos e colonização.

O elemento central é a lenda do Minhocão do Jacuí, uma criatura gigantesca e misteriosa que habita as profundezas do rio, sendo responsável por fenômenos inexplicáveis e, por vezes, temida pelos moradores (que já foi documentário nas estórias extraordinárias da RBS-TV).

Conheça aqui: https://share.google/m7uo0N2GGo6JQ5aiC

À medida que os personagens exploram a região, eles se deparam não apenas com os mistérios do Minhocão, mas também com os Lagos Encantados, locais mágicos onde a natureza se manifesta de forma extraordinária e onde lendas antigas ganham vida. Esses lagos podem guardar segredos, criaturas fantásticas e até mesmo portais para outras dimensões ou épocas.

E há sim, um mapa de tesouro, sobre a custódia dos JESUÍTAS que estiveram na região um enigma para elucidar as peripécias desta história…? Será verdade mesmo, ou é mais uma história de pescador! Aonde está o tesouro dos Jesuítas?

Comece essa aventura… mas não se esqueça que o Monstro do Jacuí é o guardião do Rio. Cuidado com a família do Minhocão! A narrativa envolve: Descoberta: Os protagonistas descobrem indícios da existência do Minhocão e dos lagos, despertando sua curiosidade. Aventura: Eles embarcam em uma jornada para desvendar esses mistérios, enfrentando desafios e perigos ao longo do caminho.

SOBRE O AUTOR:

CESAR AUGUSTO PIEREZAN, 51 anos, nascido em 19 de março de 1975, natural de Espumoso/RS, filho de Artênio Luis Pierezam, agricultor e Elvira Textor Fetalian Pierezan, mãe, professora e alfabetizadora.

Membro Vitalício da Real Academia de Letras de Porto Alegre/RS, com a Cadeira de Acadêmico Correspondente n 10. Recebeu a distinção da Cadeira n. 246 da ALMMURS – Academia de Letras dos Municípios do Rio Grande do Sul, sediada em Porto Alegre/RS, (2019).

Prêmio Cultura Nacional no Palácio Anchieta em São Paulo/SP, 2015 com seu livro “Meus Primeiros Ensaios Poéticos” que reúne poemas, contos e crônica, de 140p. Foi empossado com Acadêmico da Academia de Letras do Brasil – Seccional do Rio Grande do Sul na Cadeira 116 com o Patrono Juarez Alvez, Poa/RS, (2020). Acadêmico Imortal da Academia de Belas Artes do Rio Grande do Sul – ABARS, 2025.

Publicou o livro “O Monstro do Jacuí e o Monge Barbudo” em 2004, 21p.; em 2008, seu livro tornou-se o 1º Episódio do Documentários Estórias Extraordinárias do RBS TV de uma série de outras lendas gaúchas;  e a segunda edição com tiragem de 2.000 exemplares pela LEW Editora de Tapera, 2012, 78p. Em fevereiro de 2026, em sua terceira edição revisada e ampliada para 138p. e com cerca de quarenta imagens estilo Boobies Goodies para a garota pintar, colorir e se divertir, é um livro lúdico e infanto-juvenil, onde o imaginário toma conta desta faixa etária, cercado do mistérios, mas que é indicado a todas as idades para ser lido e degustado em família, incentivando as crianças e adultos a lerem mais.

A meta é arrojada, chegar a 100.000 exemplares publicados até 31 de dezembro de 2030. Como escutei muitas histórias em minha infância por meus pais e avós, é uma forma de gratidão, incentivar a leitura e reconhecer o quanto a leitura transforma a vida das pessoas!.. Enfim, o livro tem pitadas de patranhas, mitos, verdades, imaginação… vale a pena conferir! Está disponível em várias plataformas digitais e de marketplace, como a maior distribuidora de livros do país, a www.umlivro.com.br e www.amazon.com.br www.kobo.com.br , www.estantevirtual.com.br https://www.casadellibro.com/ (Espanha), www.googlebooks.com.br (em versões físico, digital em Kindle) e 40 livrarias físicas no País.

Vídeos sobre a história NEXJOR – UPF (em episódios):

  1. https://youtu.be/BnIDjNMUCWA?t=6
  2. https://youtu.be/Yhz-Mcbrhp8?t=13
  3. https://youtu.be/1GKwHbGRwyc?t=10

Créditos: https://www.facebook.com/memoriasdopampa

Edição: A. R.

Culpa consciente, dolo eventual e outras ficções punitivistas

Os episódios recentes envolvendo a morte de uma jovem em atividade de rope jump e a morte de um ciclista aqui na cidade de Passo Fundo revelam, cada um a seu modo, uma dificuldade recorrente do debate penal contemporâneo: a tendência de transformar acidentes em crimes dolosos pela simples gravidade do resultado.

Não poderia haver tema mais apropriado para este reencontro com os leitores.

O caso que inspira a reflexão a seguir desperta emoções legítimas: dor, indignação, tristeza e desejo de justiça. Mas também nos coloca diante de uma pergunta desconfortável: quando uma tragédia ocupa o centro das atenções, estamos realmente buscando compreender os fatos ou apenas procurando uma resposta capaz de satisfazer nossa indignação?

O texto que segue não pretende oferecer respostas definitivas. Pelo contrário, pretende convidar o leitor a refletir e a tomar posição diante de um debate que ultrapassa um caso específico e alcança uma questão fundamental: qual deve ser o papel do Direito Penal diante da comoção pública?

Ao final da leitura, convido você a responder a duas teses possíveis.

A primeira tese entende que quem assume riscos elevados e acaba causando uma tragédia deve responder de forma mais rigorosa pelos seus atos.

A segunda tese defende que a gravidade da consequência não pode substituir a análise técnica dos fatos, e que a Justiça deve julgar a conduta, não a intensidade da indignação social.

Entre essas duas perspectivas – teses -, há espaço para diferentes opiniões. E é nesse espaço que cada leitor é convidado a pensar, refletir e formar seu próprio entendimento.

Sejam todos bem-vindos novamente a esta coluna. Que a leitura provoque mais perguntas do que certezas e que o debate seja conduzido com a mesma responsabilidade que se espera da Justiça.

A todos os leitores, desejo uma boa reflexão!

***

“Quando a tragédia exige resposta, o Direito Penal não pode substituir prova por indignação, nem transformar culpa em dolo pela gravidade do resultado.

Há fatos que chegam ao debate público já acompanhados de uma sentença moral. A morte, quando filmada, compartilhada e repetida nas telas, parece dispensar mediações: alguém morreu; alguém deve pagar. O raciocínio se encerra em sua própria circularidade punitiva: se a dor é intensa, a resposta penal também deve ser.

O problema é que o Direito Penal não pode funcionar como caixa de ressonância da comoção. Sua tarefa não é negar a tragédia, mas impedir que a tragédia substitua a prova e que a comoção pública valha mais que o próprio ordenamento em vigor.

Os episódios recentes envolvendo a morte de uma jovem em atividade de rope jump e a morte de um ciclista aqui na cidade de Passo Fundo revelam, cada um a seu modo, uma dificuldade recorrente do debate penal contemporâneo: a tendência de transformar acidentes em crimes dolosos pela simples gravidade do resultado.

Não se trata de defender impunidade. Tampouco se pretende minimizar a dor das vítimas ou afastar a necessidade de responsabilização civil e penal quando houver violação de deveres objetivos de cuidado. Trata-se, antes, de preservar uma distinção elementar: culpa não se converte em dolo porque o fato é triste, revoltante ou socialmente insuportável ou reprovável.

A culpa consciente e o dolo eventual são categorias que se aproximam, mas não se equivalem. Em ambas, pode haver previsão do risco. A diferença está na posição subjetiva do agente diante do resultado possível. Na culpa consciente, o agente prevê o risco, mas confia, ainda que equivocadamente, que conseguirá evitá-lo. No dolo eventual, o agente prevê o risco e, mesmo assim, prossegue, aceitando o resultado como consequência possível da sua conduta.

A distinção parece, à primeira vista, uma charada típica dos primeiros anos do curso de Direito ou uma questão recorrente em provas de concursos jurídicos. Mas é exatamente nesse ponto que reside uma das fronteiras mais importantes da dogmática penal: não basta provar que o resultado era previsível; é necessário demonstrar que ele foi subjetivamente assumido. Por isso, a morte de alguém em uma atividade de risco não autoriza, por si só, a imputação de homicídio doloso, nem as consequências processuais e penais que essa classificação naturalmente acarreta (prisão preventiva, por exemplo).

Pode haver negligência gravíssima, imperícia absurda, imprudência intolerável. Pode haver, sim, responsabilidade penal. Mas a intensidade do resultado não altera retroativamente o elemento subjetivo da conduta. O cadáver não prova o dolo. A dor não prova a aceitação do risco, bem como a indignação não prova a vontade.

A prisão preventiva dos investigados no caso do rope jump, nesse contexto, expõe uma das faces mais preocupantes desse fenômeno: a antecipação simbólica da pena como resposta à comoção. Quando o sistema prende antes de demonstrar concretamente a necessidade cautelar, deixa de proteger o processo e passa a satisfazer a plateia.

A prisão provisória, então, deixa de ser medida excepcional e se converte em ritual público de apaziguamento: prende-se para mostrar que o Estado reagiu, embalado por uma falsa promessa, regada pelo jargão de que, com os agentes presos preventivamente, “a justiça chegaria até eles”.

O raciocínio precisa ser testado pelo avesso. Imagine-se, com toda a carga humana que a hipótese comporta, que um filho seu fosse lançado de uma ponte em uma prática esportiva e morresse por uma falha operacional. A revolta seria inevitável e, sem dúvida, natural. A exigência de responsabilização, legítima.

Mas inverta-se a posição: imagine-se agora que seu filho fosse o responsável técnico que, por erro grave, falha de conferência, negligência ou imperícia, causasse a morte de alguém. Você aceitaria que ele fosse tratado como alguém que quis matar? Aceitaria que a falha fosse juridicamente narrada como indiferença homicida? Aceitaria que o acidente fosse convertido em dolo apenas porque o resultado foi, de fato, devastador?

É nesse exercício de inversão que o Direito Penal revela sua função civilizatória. Ele não existe apenas para punir o outro. Existe, sobretudo, para limitar a punição quando todos desejam punir. O garantismo penal não é uma gentileza oferecida aos simpáticos; é uma técnica de contenção do poder quando a emoção coletiva pede exceção.

Acidentes acontecem. A afirmação pode soar fria e duríssima diante de uma morte concreta, mas é justamente por isso que precisa ser dita com precisão. Acidente não significa ausência de responsabilidade; significa que a intenção não pode ser presumida. Significa que a resposta jurídica deve investigar dever de cuidado, previsibilidade, causalidade, protocolos, omissões e falhas concretas, sem saltar diretamente para a imputação dolosa como se o sofrimento social fosse uma prova do elemento subjetivo.

Em uma sociedade de bilhões de pessoas, atravessada por trânsito, esportes, lazer, trabalho, tecnologia, exposição, velocidade e risco, o acidente é uma possibilidade permanente da vida em comum.

O que o Direito deve fazer é distinguir o acaso inevitável da falha imputável; a falha civilmente indenizável da culpa penalmente relevante; e, por fim, a culpa do dolo. Sem essa gradação, tudo vira crime grave. Todo erro vira perversidade. Toda tragédia vira júri. Todo fato vira prisão e, por conseguinte, espetáculo. A tentação punitivista nasce justamente aí: no desejo compreensível de que uma dor intensa encontre uma resposta igualmente intensa.

Mas o Direito Penal não pode medir a imputação pela extensão do luto. A responsabilidade deve ser cobrada, sim. Mas dentro dos limites do ordenamento, da prova e da técnica jurídica. Fora disso, já não se faz justiça; apenas se organiza juridicamente a vingança.

A morte explica a comoção. A comoção explica a cobrança. Mas nenhuma delas prova o dolo. E quando o sistema esquece essa diferença, a culpa consciente deixa de ser categoria dogmática e passa a ser tratada como desculpa; o dolo eventual deixa de ser elemento subjetivo e passa a ser etiqueta de conveniência; e o processo penal deixa de ser limite ao poder para se tornar instrumento de catarse pública”.

Autor do texto: Mateus Contessa de Almeida

Dono de uma escrita elegante, argumentativa e profundamente comprometida com os princípios do Estado de Direito, Mateus Contessa de Almeida desenvolve um estilo que alia rigor conceitual e sensibilidade humana, evitando respostas fáceis para problemas difíceis. Sua produção intelectual sempre se destacou pela defesa da reflexão crítica em temas que frequentemente são capturados pela emoção e pela simplificação. Prova disso foi a excelente repercussão de sua última participação em nossa coluna, quando abordou o fenômeno da adultização da infância e seus impactos sociais e jurídicos. Aos leitores que desejarem conhecer um pouco mais de sua escrita e de suas reflexões, fica o convite para a leitura desse texto, disponível em nosso portal. Segue o link para sua apreciação, caro leitor.

www.neipies.com/adultizacao-quando-a-infancia-e-encurtada-e-a-punicao-e-antecipada/

Autora da coluna: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site “Aposta alta: quando o quer parece certo desafia o que é legal”: www.neipies.com/aposta-alta-quando-o-que-parece-certo-desafia-o-que-e-legal/

Edição: A. R.

A vida é feita de cordas invisíveis

Cada vez que confiamos em alguém, colocamos uma dessas cordas em suas mãos e nos posicionamos na outra ponta. Quem segura a corda assume uma responsabilidade enorme, porque sabe que existe alguém dependurado nela.

Há momentos em que viver exige mais do que coragem. Exige confiança.

Todos os dias entregamos partes de nós a alguém. Entregamos tempo, afeto, expectativas, sonhos. Depositamos nas mãos de outras pessoas aquilo que temos de mais precioso sem perceber que, muitas vezes, estamos assinando contratos invisíveis.

Fazemos isso porque ninguém consegue viver em permanente estado de alerta. Confiar é um ato necessário. É a ponte que nos permite atravessar a solidão e encontrar o outro.

Mas toda ponte precisa de pilares.

O problema começa quando confundimos esperança com evidência. Quando acreditamos que a bondade de alguém é real apenas porque desejamos que seja. Quando projetamos virtudes que nunca foram demonstradas. Quando enxergamos profundidade onde existe apenas aparência.

A vida, afinal, é feita de cordas invisíveis.

Cada vez que confiamos em alguém, colocamos uma dessas cordas em suas mãos e nos posicionamos na outra ponta. Quem segura a corda assume uma responsabilidade enorme, porque sabe que existe alguém dependurado nela. Alguém que pode ser sustentado ou abandonado. Alguém que pode continuar em segurança ou despencar no vazio.

O problema é que nem todos compreendem o peso dessa responsabilidade.

Há quem segure a corda com firmeza e faça de tudo para que você não caia. Há quem a segure apenas enquanto é conveniente. E há aqueles que, por egoísmo, indiferença ou crueldade, simplesmente a soltam.

Então entregamos as chaves da nossa casa interior a quem sequer aprendeu a cuidar da própria.

E um dia descobrimos que nem todas as mãos acolhem. Algumas apenas tomam. Nem todos os abraços protegem. Alguns aprisionam. Nem toda companhia deseja nossa chegada ao destino. Há quem caminhe ao nosso lado apenas para observar onde iremos cair.

As maiores feridas raramente são provocadas por inimigos. Quase sempre vêm daqueles a quem demos acesso ao que havia de mais íntimo em nós.

E quando a confiança é quebrada, não é apenas uma relação que se rompe.

É a corda que escapa das mãos de quem prometeu segurá-la.

E quando isso acontece, não é apenas o corpo que despenca. São os sonhos. São as expectativas. São as certezas que construímos sobre as pessoas e sobre o mundo.

Algo dentro de nós também se estilhaça.

A espontaneidade se recolhe.

A esperança aprende a desconfiar.

A alegria perde um pouco da sua leveza.

O coração passa a olhar para cada novo encontro como quem examina os escombros de uma antiga tragédia.

Por isso, antes de entregar sua corda a alguém, observe.

Não tenha pressa de chamar alguém de amigo.

Não tenha pressa de chamar alguém de amor.

Não tenha pressa de fazer de alguém um porto seguro.

O tempo revela o que os discursos escondem.

Caráter não se conhece pelas promessas feitas nos dias ensolarados, mas pela forma como alguém permanece quando chegam as tempestades.

Veja se a pessoa tem força para sustentar o peso da confiança que você lhe entrega. Veja se ela compreende a responsabilidade de manter as mãos firmes quando você estiver vulnerável na outra ponta.

Confiança não é um presente que se oferece de uma vez. É uma construção que se faz tijolo por tijolo.

E quanto mais valiosa for a parte de você que será entregue, mais importante é saber quem está do outro lado para recebê-la.

Porque algumas pessoas seguram a corda com tanta firmeza que se tornam abrigo para a nossa vida.

Outras a soltam sem hesitar e nos deixam cair de alturas das quais nem sempre voltamos os mesmos.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quanta verdade somos capazes de suportar”?: www.neipies.com/quanta-verdade-somos-capazes-de-suportar/

Edição: A. R.

Os migrantes e as leis além fronteiras  

Como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todo ser humano, em qualquer lugar que esteja, é sujeito de seus direitos fundamentais. Diante disso, aos Estados compete garanti-los. À sociedade cabe superar o preconceito diário, o racismo estrutural, a xenofobia e todas as formas de discriminação em virtude de cor, religião, origem geográfica e condição social.

Para migrantes, estar sob a lei pode significar a existência de legislações rígidas de controle de fronteiras ou de permanência no país de destino. Estar na lei configura a ideia de poder usufruir de direitos previstos em lei, bem como cumprir com os deveres por ela estabelecidos. Já estar fora da lei pode não só traduzir atitudes de infração às leis existentes, mas também não ter direitos assegurados por elas. E muitos ainda assim estão, com direitos não afirmados legalmente. E mesmo quando estão previstos em lei nem sempre estão garantidos na prática.

No que diz respeito à efetiva acolhida, integração, valorização da interculturalidade, superação de preconceitos, xenofobia e práticas discriminatórias há um longo caminho a ser percorrido no Brasil. Em alguns contextos culturais, os desafios são ainda maiores.

Para enfrentar processos históricos de racismo, colonialismo cultural e violências simbólicas, foi criada a Lei do Racismo (nº 7.716/1989) e a Lei nº 14.532/2023, que equipara a injúria racial com o crime do racismo, tornando ambos imprescritíveis e inafiançáveis. A fim de tornar obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e indígena, promovendo a educação das relações étnico-raciais, foram criadas as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. São marcos legais importantes, mas ainda insuficientes.

Há necessidade de um trabalho permanente, sério e em todos os espaços para avançarmos na direção de uma sociedade que não seja só amplamente miscigenada, mas também profundamente democrática e respeitadora das diferenças.   

A Lei de Migração (nº 13.445), em vigor no país, foi sancionada dia 24 de maio de 2017, assegurando diversos direitos, com ênfase aos direitos humanos e combate à xenofobia. Contudo, embora com alguns avanços, a referida lei não garantiu a anistia dos estrangeiros em situação irregular, o que foi amplamente criticado pela Associação Nacional dos Estrangeiros e Imigrantes no Brasil (ANEIB). A nova Lei de Migração foi motivada pelo aumento e pela diversificação dos fluxos migratórios a partir da primeira década do presente século. Realidade que se tornou ainda mais expressiva com entrada em massa de venezuelanos no Brasil a partir de 2016.

Anterior à Lei de Migração havia o Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), com marcas de autoritarismo próprio do regime de ditadura militar. O Estatuto estabelecia uma seletividade no que tange à permissão de ingresso de estrangeiros no país e rigorosas restrições à sua permanência. Embora com alguns artigos modificados ao longo da sua vigência, no geral a legislação via os estrangeiros com suspeita e como ameaça à soberania nacional. Mais proibia e restringia direitos do que os assegurava.

Por sua vez, o artigo 3º, inciso XI da Lei 13.445/2017 prevê acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social.

O tema da moradia, em especial, como direito aos migrantes é abordado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na 41ª Semana do Migrante, celebrada de 14 a 21 de junho de 2026. Se é um direito de direito, será também de fato? As inúmeras situações que vemos todos os dias dão conta de que há muitos migrantes sem acesso a esse e outros direitos básicos. Sim, a questão é bem complexa. E é exatamente por isso que precisa ser ainda mais debatida a fim de buscar resoluções justas e adequadas.

Como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todo ser humano, em qualquer lugar que esteja, é sujeito de seus direitos fundamentais. Diante disso, aos Estados compete garanti-los. À sociedade cabe superar o preconceito diário, o racismo estrutural, a xenofobia e todas as formas de discriminação em virtude de cor, religião, origem geográfica e condição social.

É dever de todos também promover e praticar o respeito à diversidade, a integração social e os direitos humanos para todos os humanos.

Autora: Vania Aguiar Pinheiro. Mestra em Ciências Humanas, com pesquisa sobre imigração contemporânea. Também escreveu e publicou no site “Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista”: www.neipies.com/feminicidio-o-preco-de-ser-mulher-em-um-mundo-machista/

Edição: A. R.

Por um Congresso amigo do povo

Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância.

A política é construção de convivências para promover as condições necessárias para que os diversos se encontrem para realizar em comum. Mas, ela também pode abrir a possibilidades que promovam exatamente o contrário disso, particularmente quando for capturada por quem a faz render-se a interesses privatistas, corporativos.

No primeiro caso teremos a produção de direitos; no segundo, a afirmação de privilégios. No primeiro teremos a valorização da vida comunitária como interdependência e interatividade; no segundo o superindividualismo egoísta ou os identitarismos comunitaristas. No primeiro, teremos cuidado e proteção dos bens comuns, no segundo apropriação, expropriação e lucro sem limites. No primeiro teremos políticas de amizade; no segundo, de inimizade… e, na consequência prática, Congresso amigo ou inimigo do povo.

Política é lidar com a possibilidade de convergências e consensos, mas também de divergências e dissensos, até dissidências. Não há política sem diferenças… não pensamos e nem queremos da mesma maneira; nem temos as mesmas perspectivas e projetos.

Diferentes projetos estão em disputa. O problema é transformar divergências ou disputas em motivo para eliminar quem não discorda. Fazer isso é acabar com a política ou usar a política para interesses não-políticos.

Importante observar que a política está inserida num contexto complexo: uma “época algorítmica”. Nela, “territórios emocionais” e “mapas afetivos” substituem territorialidades e mapeamentos físicos e geograficamente endereçados. São produzidos diversos tipos de “distritos”: do medo, da raiva, do ressentimento, da fé, da performance, do moralismo, do militarismo, da conspiração, da adesão, do engajamento, do encantamento… são tantos… alimentados por diferentes dietas com nutrientes e reforços próprios e redesenhados ao sabor da manipulação (des)informativa.

Estes novos territórios vêm de engenharias construídas pela manipulação da atenção, do afeto, da percepção e até do conhecimento. Vão resultar no favorecimento ou desfavorecimento de determinados posicionamentos, gerar persuasão, adesão ou repulsa e produzir prejuízo, ganho ou dano.

Longe de disputar argumentos, slogans ou narrativas, o que neles se disputa são estados, vieses, padrões, que deslocam ou alocam, antes mesmo das mensagens… não convencem, mas mobilizam, ativando reações automáticas, comportamentos e práticas em escala industrial, massiva e massificada.

Usa para isso recursos já conhecidos e bastante estudados, mas ainda pouco trabalhados neste novo contexto nos quais se colocam para além dos aspectos cognitivos e epistemológicos, para além de serem justos ou injustos, ainda que sempre mortíferos, pois até mesmo quando sugerem promover vidas, o fazem para algumas, a dos melhores, dos de bem, as que merecem e são “enlutáveis”. As assimetrias já gritantes, tornam-se ainda maiores e mais abissais…

Como esperar confrontos justos entre quem quer disputar projeto, propostas, ideias e quem só quer modular e capturar percepções traduzíveis num voto efêmero (não pode durar mais do que o plim da máquina de votação pois, se lembrar em quem votou no segundo seguinte, já não pode ser)?  A “velha” busca pela “formação da vontade popular”, a elaboração de uma “opinião/posição pública”, a “deliberação consciente” e as “escolha consequente”, se vão! Tornam-se obsolescências arcaicas e insustentáveis.

A fraude já não será nos votos comprados, mas pelos votos capturados… será uma “fraude cognitiva”, não só por dissonância, mas também por inviabilização, visto não haver qualquer possibilidade de reconexão entre o que se fez (voto) e as razões que levaram a ele. O que haverá de ser e de suceder será uma “batalha” de likes e (des)likes, nada mais… que não poderá ter fim, nem mesmo finalidade, pois terá que se manter aberta, desterritorializando e reterritorializando, mapeando e remapeando, freneticamente.

Não haverá tempo para reflexão: nem para flexão, menos ainda para repetir flexão.

A linearidade será impiedosa e “nada do que foi será”, nem agora, nem num tempo “que já foi um dia” e menos ainda num tempo que virá. Simplesmente foi. Mecanismos e dispositivos como “viés de confirmação”, “heurística da afetividade”, “heurística da disponibilidade” e “máquina de priming”, são o “da hora”, seja um por vez, todos juntos ou alguns combinados.

O objetivo nunca será convencer e nem mesmo formar maiorias, será desestabilização permanente, interromper toda e qualquer normalidade, romper qualquer possibilidade de coletividade, destituir toda e qualquer institucionalidade, corroer a confiança em pessoas, autoridades e instituições, polarizar tudo, como se as coisas se decidissem sempre e somente no tudo ou nada, no a favor ou contra, no bem ou mal, num binarismo acachapante e estridente que afasta qualquer tom intermediário. E, tudo o que não couber neste modelo será automaticamente “fraude inaceitável”.

Mas, diante de tudo isso vem a proposta da Campanha Eleger um Congresso amigo do povo. Essa é a tarefa proposta pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) e pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH).

A campanha está ancorada na máxima constitucional de que o poder não só emana, mas é do povo. É o povo aquele que pode, desde sua potência instituinte, desde sua força insurgente, produzir o novo, sempre, de novo.

Propor-se assim exige realizar processos nos quais se possa viver a participação política não apenas como o direito de falar e nem mesmo o direito de ser escutado e de escutar. Trata-se de afirmar o direito a se recusar a deixar que a própria percepção, a própria sensibilidade, a própria vida sejam sequestradas por quem quer que seja, seja quem seja, pessoa, máquina ou algoritmo. Afirmar a política de modo outro. Colocar-se nesta complexidade com dignidade.

Lidar com todas as engenharias manipuladoras exige construir condições para não sucumbir a elas. Mais do que isso, requer fazer frente a “afetividades desviantes”, desinformação alucinante, mentiras deslavadas e enredamentos asfixiantes. E mais ainda do que isso coloca o desafio de gerar lugares outros e processos outros que desloquem as atenções, abram janelas, rompam frestas para fazer a luz entrar, bruxuleante ou ofuscante, em vista de mobilizar afetos regenerativos, raiva justa, atmosferas amorosas, recusas insistentes às frequências alucinantes, algum realismo a tanta fantasmagoria, verdades resistentes. 

Não se trata de lamentar o que fizeram conosco ou o que tentam seguir fazendo de nós… o desafio é tomar estas questões, sem hesitar, como aquelas que precisam de respostas que não sejam paralisantes, mas que sejam capazes de mobilizar para novas perspectivas, para novas possibilidades, para novos outros. Se o horizonte que queremos movimentar é excessivamente curto e opaco, não vamos muito longe, por isso vamos agir para “esticá-lo”.

Se queremos Eleger um Congresso amigo do povo é porque acreditamos que há, ainda, espaço para a política como afirmação da vida e para a valorização da vida em abundância.

Insurgir-se contra as mais diversas formas de nos manter presos à carestia e à mimética é defender que a imaginação é a mais forte de todas as possibilidades da política e, ainda que a realidade tente sabotá-la, é porque insistimos nela que a própria realidade, por mais dura que seja, pode ser atravessada. Afinal, viver é travessia!

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), coordenador geral do Projeto Sementes de Proteção Popular de Defensores/as de Direitos Humanos (SMDH/MNDH/Avuar, com apoio da UE). Já escreveu e publicou no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/

Edição: A. R.

Priorizar o tempo em viagens para evitar o ócio improdutivo

Tivemos a oportunidade de conhecer Joel Santos Abreu, um cidadão brasileiro que nasceu em Pernambuco, morou por um período em São Paulo e depois fez boa parte da sua vida no Estado do Rio de Janeiro. Por 30 anos, foi professor da rede estadual do Rio, atuando na rede privada de educação. Mais recentemente, decidiu viajar como um hobby e uma forma de conhecimento.

Por onde passa, Joel grava vídeos e os posta em redes sociais, numa espécie de registros/diários de suas viagens.

Conheça um pouco mais de Joel Santos de Abreu por ele mesmo.

Conte-nos como surgiu a ideia de viajar para conhecer diferentes cidades do Brasil?

Posso dizer que me preocupo, primeiramente, com a possibilidade de minha condição financeira, já que sou aposentado, pois não se viaja sem o recurso financeiro para gastos. Dependo de ter a sorte de encontrar passagens aéreas em preços promocionais, juntamente com milhas. Depois pesquiso a melhor hospedagem em termos de diária e localização. Quanto à alimentação, sempre há restaurantes populares e mercados que não oneram muito o bolso. 

Acima de tudo, está a minha pretensão de priorizar o meu tempo em viagens evitando o ócio improdutivo. Não quero ficar num “apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.” Como dizia o saudoso Raul Seixas.

Há quanto tempo viajas?

Sempre fiz viagens, mas não tão intensamente como estou fazendo desde 2021 para cá. Conheci todas as capitais federais do país, sem exceção, assim como cidades que têm aeroporto, aproveito, de acordo com o meu tempo, para conhecer as cidades circunvizinhas, adjacentes.  Por exemplo: semana passada eu fui conhecer Ribeirão Preto, daí pude então ir a Franca (produtora de sapatos); Brodowski (onde nasceu o pintor Cândido Portinari); Batatais e Barretos (onde acontece os famosos rodeios. Como diz o ditado: mato vários coelhos com uma cajadada só.

 Quais critérios para definir novas cidades a serem visitadas?

Alguns dos critérios que utilizo são preços promocionais de passagens e hospedagem.

Ao chegar em Passo Fundo, quais foram as primeiras impressões?

Toda cidade tem peculiaridades interessantes, que interessam ao olhar do turista como o meu caso. Por exemplo, a Academia Passo-Fundense de Letras e o nosso encontro aí foi um marco muito importante em minha passagem por esta cidade, assim como foi na Biblioteca outras instituições que pude visitar.

Qual foi seu interesse em visitar e conhecer templos religiosos?

Tenho, por costume, produzir vídeos, isto é, registrar minhas passagens em regiões muito frequentadas ou bem conhecidas pelos habitantes da cidade: igrejas, parques, terminais rodoviários, aeroportos, universidades, monumentos…

Joel Santos Abreu também é escritor.

“Joel tem cara de artista e alma de poeta. Quase sempre, parece encantado com a vida. Para além do que escreve, seu jeito poético expressa até mesmo no modo de falar cotidiano, como se um singelo cumprimento, traduzido por um corriqueiro “bom dia”, merecesse uma declamação especial. É o que se pode notar neste multifacetado universo de objetos de suas prosas e poemas contidos neste valioso livro”. (declaração de Jason Ferreira Mafra, Doutor em Educação pela USP. Diretor do Mestrado Profissional em Educação na UNINOVE, na primeira orelha do livro Poemas e Aforismos)

Em sua passagem por nossa cidade Passo Fundo, fez questão de visitar a Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski, Biblioteca da Academia Passo-fundense de Letras (APLetras) e Biblioteca Central da UPF (Universidade de Passo Fundo).

Fotos: Arquivo pessoal do entrevistado/ Divulgação

Seguem links de vídeos seus demonstrando reconhecimento e valorização pelas bibliotecas, onde também deixou exemplares de seu livro.

https://www.instagram.com/reel/DZoAffYsalGkelYm_KfqFcrC1gkS-ObkGWAQXw0/?igsh=eGY4c3FldWMwbWcz

https://www.instagram.com/reel/DZvhsZXJrr8qbXQMqyDQ5DP1z1pp0UWbqAypVIInstagram

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