Num mundo tão mecânico e desumanizado, cujas relações interpessoais estão deterioradas, marcadas pelo egoísmo, maldade, violência, interesses escusos, acreditar no ser humano e se importar com o próximo ainda carrega algum sentido? Por que humanistas são tão perseguidos e caluniados desde sempre e na atualidade?
Recentemente, estou refletindo sobre fatores que determinam o nosso jeito de ser e agir no mundo. Há quem diga que podem ser fatores genéticos; outros que são as experiências vivenciadas. Outros, ainda, que a cultura dos lugares e os ambientes de convivência que determinam nossa existência.
O que sabemos é que nada está desconectado com a nossa primeira experiência de socialização: a família. Nesta, aprendemos os valores que sustentam e elevam a nossa ética e moral. Estes primeiros valores vão sendo aplicados e aperfeiçoados ao longo da vida.
Desde meus 16 anos, inicio minha formação cristã humanística em casas religiosas (antigos seminários) e também a organizações de direitos humanos, organizações de juventude e sindicatos.
Uma das minhas passagens por formação cristã humanística foi junto a uma comunidade da Ordem dos Frades Menores (Ofm).
Nesta particular experiência, descobri Francisco de Assis que passou a ser uma importante referência de vida e de espiritualidade. Me marcou e ainda marca, profundamente, a sua simplicidade, sua relação de irmandade com os demais seres humanos e a sua relação amorosa com os demais animais. Uma das coisas que logo incorporei na minha vida é a simplicidade e o uso de sandálias. O uso de sandálias, para além do conforto em dias de calor, representa a humildade de caminhante, a necessidade de se colocar a serviço dos demais e de reconhecer que a sabedoria é um processo que está em curso; jamais está pronto. Leia mais: www.neipies.com/memorias-de-uma-vivencia-franciscana/
Lembrei-me de outras experiências vivenciadas na minha trajetória de vida que impregnaram um jeito próprio de ser e de me relacionar com a vida, com o mundo e com as pessoas do meu entorno e do meu trabalho, às quais passo a descrever.
Aos 16 anos, antes mesmo de ingressar no Seminário da Congregação da Sagrada Família (MSF) em Santo Angelo, RS, ocorreu algo inusitado na Rodoviária de Santa Rosa, RS. Estava aguardando ônibus que me levaria de volta ao meu lar depois de dois dias de encontro de preparação e conhecimentos para entrada no seminário, no ano seguinte. Um senhor se aproxima e diz: “Você é seminarista, não é?” Eu respondi que não, mas que participara de um encontro para conhecer e decidir sobre minha entrada na formação religiosa. Ao que ele me disse: “Sou padre e já identifiquei você como seminarista”. Foi impactante esta sua constatação!
Ao completar meus 20 anos, morando numa comunidade inserida num bairro de nossa cidade Passo Fundo, RS, estudando Filosofia (no turno da noite), trabalhei cerca de um ano no maior supermercado da cidade, à época. Minha função e meu trabalho era de repositor de Cereais e, aos sábados, também empacotador. Ao me conhecerem, os colegas logo me identificaram com jeito de padre e, imagina, meu apelido ficou “Padre”. Era padre para cá, padre para lá, confundindo e distraindo, por vezes, os clientes que acessavam ao estabelecimento. Era divertido, mas, às vezes, constrangedor.
Aos 35 anos, dirigindo-me a uma Assembleia Nacional do MNDH (Movimento Nacional dos Direitos Humanos), que ocorreu em Vitória, ES, um senhor me aborda em grande aeroporto em São Paulo. Se apresenta como um padre missionário, que embarcaria para uma nova missão na África e diz que percebeu que meu jeito de ser e me comportar me remetia a uma formação religiosa. Conversamos, ao longo de duas horas, sobre questões da Igreja, dos desafios de ser missionário na atualidade, dos desafios de um mundo em guerras e do Brasil, de modo geral. Ficou marcado este encontro ímpar e singular!
A escrita, sempre presente desde o meu Ensino Fundamental, alicerçou uma vida em busca da humanização, uma crença de que é possível melhorar o ser humano que somos a partir dos conhecimentos críticos e reflexivos. Neste contexto, em 2015, lanço meu Livro “Conviver, educar e participar: nos palcos da vida”. A partir de então, passo a escrever e produzir materiais para afirmar a educação também com uma missão humanizante!
Vídeo produzido pela RBS TV sobre o livro: https://youtu.be/b0jm9tALzcA?list=PLDwf2YrZZoEeVSfgntzh3aMQd7qe3aA0m
Não me formei padre e nem frei, mas me tornei educador em componentes curriculares que provocam reflexões e estimulam a humanização, através do conhecimento: Ensino Religioso e Filosofia.
A vida me levou ao caminho da educação, mas carregando as marcas e os impactos de uma formação cristã humanística. Em outra crônica, fica clara esta relação:
“Um estudante do sexto ano do Ensino Fundamental me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem pensar muito, respondi: “nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra”.
Leia mais: www.neipies.com/nem-padre-nem-religioso-sou-professor/
Pois, resta comprovado que, com 52 anos de idade e mais de 25 anos de atuação no magistério, não posso ignorar e nem desconsiderar o impacto que a formação religiosa cristã e humanística teve na minha maneira de ser, pensar e agir no mundo.
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Mas, num mundo tão mecânico e desumanizado, cujas relações interpessoais estão deterioradas, marcadas pelo egoísmo, maldade, violência, interesses escusos, acreditar no ser humano e se importar com o próximo ainda carrega algum sentido? Por que pessoas como Padre Júlio Lancelotti, e outras tantas mais, próximas da gente, são alvos de constantes ataques por sua atuação humanista, sendo silenciados, caluniados, perseguidos politicamente? Até quando?
Autor: Nei Alberto Pies. Professor, escritor e editor do site www.neipies.com
Edição: A. R.











