O ano era 2012. Em Passo Fundo, RS, foi implantado um Projeto com mulheres de diferentes bairros da cidade para enfrentar, preventivamente, através do conhecimento, cidadania e ações sociais, a violência contra as mulheres e a afirmação de seus direitos.
Uma das razões do projeto era o empoderamento de 200 mulheres, através da formação, informação e atividades sociais inseridas em suas comunidades. As mulheres da Paz levavam conhecimentos e traziam demandas das mulheres, numa relação de trocas com a equipe multidisciplinar que acompanhava o seu trabalho. A equipe era composta por educadoras sociais, psicóloga, assistente social, advogada.
Principais Atuações da Equipe e das Mulheres da Paz:
- Capacitação: Formação das mulheres líderes através de oficinas sobre direitos humanos, cidadania e mediação de conflitos.
- Mediação Comunitária: Atuação direta em áreas com altos índices de violência, promovendo o diálogo.
- Rede de Proteção: Encaminhamento de famílias, jovens e mulheres em situação de violência doméstica ou urbana para a rede socioassistencial e projetos como o PROTEJO.
- Visitas Domiciliares: Realização de busca ativa e visitas para monitorar situações de risco.
Sílvia Aparecida de Miranda, mulher da Paz brutalmente assassinada durante a realização do Projeto Mulheres da Paz 2012/2013.

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“Morávamos na mesma cidade, mas não nos conhecíamos. Foi uma experiência muito grande estar junto com dezenas de mulheres por mais de 12 meses. O Projeto ocorreu em apenas 12 meses porém, estivemos juntas um pouco mais que isto. Meses antes para a organização e os preparativos e meses depois para as comemorações e comentários de tudo o que havíamos vivido juntas.
Deparei-me com mulheres fortes, que levantavam outras mulheres e que carregavam batalhas que nunca ninguém aplaudiu. Mulheres sobrecarregadas, muitas vezes, querendo demonstrar que davam conta de tudo. Mulheres onde a rotina não dava pausa e que transformavam a dor em força, medo em coragem e cuidado em amor próprio.
As Mulheres da Paz, para mim foram inspiração diária. Foram mulheres que fizeram outras mulheres acreditarem nelas mesmas.
Enquanto alguns mostravam-se desconfiados, elas lutavam por elas, por outras mulheres e pelos jovens do Programa PROTEJO o qual elas acompanhavam e a cada dia provavam que eram mais fortes do que imaginavam. Para muitos destes jovens elas eram vistas como um farol iluminando seus caminhos. Eram mães, amigas, colegas e professoras da vida. Todas prontas para ouvir, aconselhar, acompanhar e ajudar. Ao mesmo tempo eram mulheres que precisavam ser cuidadas também. Embora carregavam força no olhar e delicadeza no coração percebíamos a necessidade de serem olhadas também.
O Projeto possuía uma equipe de profissionais formada por especialistas que as acompanhavam diariamente o que fazia com que elas se sentissem amparadas e conseguiam provar que juntas carregavam propósitos e conquistas.
Foram mulheres extraordinárias que passaram pelo meu caminho e algumas ainda permanecem hoje.
(Marisa Ré De Rocco, Gestora Local do Projeto)

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“Quando participei do projeto Mulheres da Paz, tive uma experiência muito marcante, tanto no aprendizado quanto na convivência com outras mulheres. Ao longo do projeto, que durou cerca de um ano (e até um pouco mais, considerando os momentos de preparação e depois de encerramento), pude perceber o quanto esse espaço foi importante para troca de vivências, fortalecimento e construção de conhecimento.
Aprendi muito sobre os direitos das mulheres, principalmente em relação à proteção contra a violência doméstica e familiar. Também passei a entender melhor como funcionam as leis e os caminhos que podem ser buscados em situações de vulnerabilidade. Foi um momento de abrir os olhos para uma realidade que muitas vezes está próxima, mas nem sempre é compreendida em sua totalidade.
O que mais me marcou foi a convivência com mulheres extremamente fortes e resilientes. Muitas carregavam histórias difíceis, com sobrecarga, dores e desafios, mas mesmo assim encontravam forças para seguir em frente e ainda apoiar outras pessoas. Eram mulheres que transformavam suas dificuldades em coragem e buscavam levantar umas às outras.
Dentro do projeto, também ficou evidente a importância do cuidado coletivo. Ao mesmo tempo em que essas mulheres apoiavam outras mulheres e jovens, também precisavam ser acolhidas. E esse suporte existia através da equipe de profissionais que acompanhava o grupo, o que fazia toda a diferença.
Outro ponto que me marcou foi perceber o impacto que o projeto tinha na vida de outras pessoas, especialmente dos jovens acompanhados. Muitas dessas mulheres se tornavam referência, sendo vistas como apoio, orientação e até inspiração.
Infelizmente, também tivemos momentos difíceis, como a perda de uma integrante que lutava pelo que acreditava. Isso reforçou ainda mais a importância de continuar falando sobre o tema e buscando mudanças.
Sílvia não era só uma líder comunitária, era também mãe, avó, amiga, uma pessoa do bem, sempre disposta a ajudar quem precisasse. A forma como ela vivia e lutava pelos outros deixa um exemplo muito forte. O que aconteceu com ela não pode ser esquecido, precisa ser lembrado como um alerta e também como uma forma de manter viva a sua história e tudo aquilo em que ela acreditava.
O projeto Mulheres da Paz foi uma experiência muito significativa para mim. Levo comigo aprendizados importantes, principalmente sobre empatia, força coletiva, direitos e a importância de apoiar e valorizar umas às outras.
(Raquel de Oliveira Maciel, Integrante do Projeto Mulheres da Paz Microrregião Integração)

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Quando cheguei em Passo Fundo, no final de 1999, a pergunta que mais me faziam, primeira delegada de polícia a exercer as funções na cidade, era quando se teria a instalação de uma DEAM. Naquele momento, isso não era possível, por questões burocráticas e estruturais, mas pude perceber, no dia a dia do trabalho, que os números locais mostravam a necessidade de haver um outro olhar sobre a questão da violência doméstica e familiar.
Paralelo a isso, no convívio com a sociedade, pude verificar que a cidade tinha um expressivo grupo de mulheres, que buscava com firmeza e determinação a proteção às mulheres e o respeito aos seus direitos. Entre elas, as mulheres que fizeram parte do projeto Mulheres da Paz, no qual participei falando sobre as questões dos direitos femininos e suas especificidades, em especial os ligados à proteção da sua integridade, como um todo.
Esse espaço garantiu que a então autoridade policial pudesse apreender as angústias e os desejos daquelas mulheres, ao mesmo tempo que as colocava a par dos meandros das leis e da forma como as coisas funcionavam até então.
Em seguida, o grupo sofreu uma perda irreparável, com a morte de SILVIA. Ela foi duramente atacada por seu então genro, ao interferir na briga que esse estava tendo com a companheira, filha da MULHER DA PAZ que partiu lutando por aquilo que considerava certo e justo. Infelizmente, essa não foi a única mulher que sofreu as consequências da estrutura machista e patriarcal que ainda se vive, e que segue sacrificando todos os dias mais mulheres.
As ações como a do projeto Mulheres da Paz são extremamente importantes, na conscientização de todas as pessoas que podem conviver e ouvir quem passa esse tipo de capacitação. Viva o grupo das MULHERES DA PAZ de Passo Fundo!
SÍLVIA, presente!
(Claudia C. S. Rocha, delegada da Polícia Civil em Passo Fundo, RS, à época)

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Da memória a iluminação a luta
A minha vivência enquanto Educadora Popular foi um momento singular de aproximar-me de uma realidade desconhecida aos meus pés e ao coração: as realidades periféricas de Passo Fundo e das mulheres que viviam nas suas comunidades.
O meu primeiro desafio foi aproximar, conhecer e juntas, com tantas outras, fazer o projeto MULHERES DA Paz tornar-se realidade.
Neste período, as nossas diversas ações na comunidade foram capazes de transformar, mediar e celebrar as conquistas das mulheres na medida que se envolviam com o projeto. Com isso, acredito que com formação, organização e possibilidades são pilares para a construção da cidadania.
Viva as mulheres! A luta e a força de cada uma para a construção da sua existência.
(Edivânia Rodrigues da Silva, Educadora popular, da Equipe multidisciplinar contratada pela CDHPF)

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“Como Coordenador da Equipe multidisciplinar, contratada pela Entidade CDHPF (Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo), vinculada ao Projeto Mulheres da Paz pude comprovar o quanto o conhecimento empodera as mulheres para o enfrentamento da realidade das diferentes violências a que elas são submetidas diariamente.
Como coordenador, busquei pelas melhores condições de trabalho e de mediação comunitária das Mulheres da Paz visitando escolas, presidentes de associações de bairros, igrejas, clubes, associações comunitárias. Junto à equipe multidisciplinar, sempre busquei dar o suporte logístico, administrativo e político para que o Projeto pudesse alcançar seus objetivos. Junto à Prefeitura Municipal, responsável pelo Projeto na cidade, procurei representar os interesses e as necessidades da CDHPF para a melhor execução do Projeto, bem como alinhar as atividades com relação às metas previstas.
Com relação às 200 Mulheres da Paz que se vincularam ao Projeto, estive presente nas atividades, apoiando e animando as mesmas para as tarefas pedagógicas e políticas do Projeto.
Aprendi muito com a coragem, com a garra e com a determinação com que as mesmas sempre defenderam uma sociedade diferente, a partir do diálogo, da convivência, do respeito às diferenças e dos direitos humanos.
É papel dos homens, e da sociedade como um todo, lutar pelo fim da violência contra as mulheres e pela sua dignidade e direitos!
(Nei Alberto Pies, coordenador da Equipe multidisciplinar contratada pela CDHPF)

Legenda: Equipe Multidisciplinar Projeto Mulheres da Paz
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A seguir, como forma de memória, seguem links de matérias que repercutiram, à época, os trabalhos das Mulheres da Paz em Passo Fundo.
MULHERES DA PAZ PASSO FUNDO
VÍDEO SOBRE ESTA HISTÓRIA
VÍDEO SOBRE MORTE DE MULHER DA PAZ, SILVIA
https://globoplay.globo.com/v/2212110
28 MATÉRIAS SOBRE PROJETO MULHERES DA PAZ EM PASSO FUNDO
https://cdhpf.org.br/noticias/mulheres-da-paz-noticia/page/4
Edição: A. R.












Eu conheci a Silvia das Mulheres da Paz e sei da história da sua morte. E ela era uma mulher incrível.
Aprendi muito com a coragem, com a garra e com a determinação com que as mesmas sempre defenderam uma sociedade diferente, a partir do diálogo, da convivência, do respeito às diferenças e dos direitos humanos.
É papel dos homens, e da sociedade como um todo, lutar pelo fim da violência contra as mulheres e pela sua dignidade e direitos!
(Nei Alberto Pies, coordenador da Equipe multidisciplinar contratada pela CDHPF, em 2013/2013)