A moral é desafiadora e conecta-se com as raízes profundas da velha árvore. É a ligação direta entre o antigo e o agora, criando novos feitos. Já o moralismo, é preciso entendê-lo melhor.
Moralismo é o que sobra quando a fonte da moral secou. Ouvimos, todos os dias, uma confusão entre esse conceito e a ideia de autêntica moral. O que temos, comumente, é uma acomodação às regras da sociedade, sejam justas ou injustas — um comodismo, em suma.
Se comparássemos a moral à vida — à qual, justamente, a moral de fato serve —, poderíamos imaginar que a moral é árvore, com raízes que se perdem nas entranhas da terra. Não é possível identificar, ao certo, as origens das raízes mais antigas, pois elas se confundem com a base da nossa própria existência enquanto espécie. Se suas raízes são longas e imparáveis, seu tronco é forte, imbatível, e seus galhos e ramos se estendem em todas as direções.
Agora, imagine que, ao longo do crescimento, essa árvore precisou ir soltando suas folhas, conforme as estações. A árvore é a mesma, mas vai se renovando em suas extremidades, em suas superficialidades. O destino das folhas que caíram é a podridão, é serem consumidas pela vida, regurgitadas, reaproveitadas pela energia vital.
Porém, o que aconteceria se alguém insistisse em — no lugar de olhar para as folhas frondosas da árvore viva, as folhas verdes, cortadas pelo sol —, por pura covardia, sentir-se assustado pelo porte gigantesco, majestoso de tão bruta força da natureza? E, acometido pela loucura, se não se encantasse com os ramos assobiando com o vento, com as formigas passeando pelas folhas, com as cigarras entoando o seu canto estridente, e voltasse seu rosto para o chão, assustado, fraco, e visse apenas as folhas mortas, caídas?
O moralista tem medo da vida.
Ele tem dificuldade em entender que a moral, embora antiga, sempre se renova. Ele sente horror dessa renovação e, como um ser necrófago, passa a atentar somente à matéria morta sob seus pés. Essa matéria, ele pode pisá-la, manuseá-la, pode, até mesmo, guardá-la.
Muitos moralistas colocam essas folhas mortas, esses velhos comportamentos, em potes de vidro, e os enfeitam com a mais rebuscada e odiosa verborragia, ao mesmo tempo em que amaldiçoam as folhas novas, o verde nascendo. Saem pelas cidades, amaldiçoando o que é novo e jovem, ao mesmo tempo em que exibem seus potinhos com folhas mortas tristemente conservadas. Com o tempo, encontram outros colecionadores de necrofagias, unem-se e formam partidos.

Não é difícil identificá-los: estão sempre maldizendo as folhas novas e exaltando as folhas mortas. No presente, nada presta.
O futuro não existe, a não ser que as folhas-cadáveres possam ser revividas. Seguindo esse sonho esclerosado, criam frankensteins natimortos.
A moral é o que viceja frente às intempéries da vida. É a força da vida defronte aos desafios do agora e do futuro. Não segue regras engessadas, mas cria novas formas de ser, agir e falar, conforme as necessidades da existência. Não é comodista. Não é souvenir. É desafiadora e conecta-se com as raízes profundas da velha árvore. É a ligação direta entre o antigo e o agora, criando novos feitos.
Se você se colocar perante a Grande Árvore, por favor: olhe para cima, para os ramos buscando a luz. Não baixe a cabeça. Não caminhe olhando para o chão.
Não colecione folhas mortas!
Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Apenas dou aulas”: www.neipies.com/apenas-dou-aulas/
Edição: A. R.










