A falsa prova

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Talvez exista um aspecto revelador na aprovação automática: o de constranger o sistema a reconhecer que a prova não é uma ferramenta eficaz de ensino. Em um contexto de profunda desigualdade social, a prova serve apenas para atestar, justamente, a própria desigualdade.

​É de conhecimento geral que a educação ruma para a aprovação automática. Mesmo quem não integra o universo escolar, já percebe essa tendência. Em um cenário no qual a escola tenta — ainda sem êxito — mitigar os abismos da desigualdade social que geram disparidades intelectuais quase incontornáveis, questiona-se cada vez mais a utilidade das avaliações tradicionais. Em suma: como medir o aprendizado de forma justa?

​Em uma sociedade equânime, a aplicação de provas não seria um problema, pois, garantidas condições básicas semelhantes e respeitadas as subjetividades, todos teriam, teoricamente, as mesmas oportunidades de sucesso. No entanto, é evidente para qualquer um que confronte a realidade que o Brasil está longe desse ideal.

​Como nivelar o estudante que usufruiu de acompanhamento pré-natal, aleitamento, nutrição de qualidade e um ambiente familiar afetuoso com aquele que carece de quase tudo? Como utilizar a mesma régua para medir realidades tão díspares? Se a avaliação já se mostra injusta no âmbito comportamental, o impacto no campo cognitivo é ainda mais profundo. É preciso encarar a verdade: esses alunos não habitam o mesmo mundo.

A disparidade socioeconômica é apenas um dos desafios diários enfrentados na escola pública. Nesse contexto, a não reprovação surge como um paliativo de políticas governamentais que ignoram o essencial: o suporte estrutural, a valorização da escola e da carreira docente.

​Na verdade, a negligência não é apenas com o professor, mas com a própria criança. Se as valorizássemos, a valorização do magistério e de todo o entorno educacional seria uma consequência natural. Vivemos em um país que hostiliza a infância, especialmente quando ela é fruto da miséria. O agravante é que exigimos dessas crianças o mesmo desempenho daquelas nascidas em famílias bem estruturadas.

​Contudo, talvez exista um aspecto revelador na aprovação automática: o de constranger o sistema a reconhecer que a prova não é uma ferramenta eficaz de ensino. Em um contexto de profunda desigualdade social, a prova serve apenas para atestar, justamente, a própria desigualdade.

A solução residiria na melhoria das escolas e das condições de trabalho dos professores, mas esse horizonte permanece distante. Na verdade, retrocedemos. Assim, apesar de termos desmascarado a ineficácia da prova, continuaremos a patinar em um ensino público de baixa qualidade.

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professores não sabem nada”: www.neipies.com/professores-nao-sabem-nada/

Edição: A. R.

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