O prédio de cem andares

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Chegamos à outra ponta do problema: o excesso de informação e de acesso. Impactada pelos cem andares desse edifício e por suas incontáveis divisões e departamentos, a geração mais nova sente-se acuada e amedrontada. Restringe, muitas vezes, seu perambular não apenas ao primeiro andar, mas a um canto diminuto que permanece na entrada, ali onde o algoritmo ilumina, tal como um porteiro que (des)orienta os visitantes.

Imagine um prédio de cem andares. Em cada andar, todos os dias, é servido um banquete. Você é um dos convidados e tem passe livre para qualquer andar, podendo se servir o que desejar, sempre que quiser.

Os pratos são os mais variados: comida brasileira, árabe, portuguesa, japonesa, húngara, francesa, argentina, enfim — infinitas porções da culinária do mundo inteiro!

Você passaria a vida toda apenas no primeiro piso, ou exploraria os outros noventa e nove andares, feliz por poder experimentar tantas e diferentes refeições?

Troque, agora, as refeições pelo acesso à cultura que a internet oferece.

​Se as redes sociais têm alguma utilidade em termos educacionais, é a de proporcionar, de forma mais barata, o acesso a esse enorme patrimônio cultural. Como exemplo, cito a produção da indústria fonográfica.

​Há milhões de discos disponíveis no YouTube. Alguém que deseje diversificar sua audição musical não encontrará dificuldade em explorar quase qualquer música gravada nos últimos cem anos. Se tentássemos fazer isso na década de 1980, além das barreiras logísticas e físicas, teríamos um tremendo custo financeiro.

​E aí chegamos à outra ponta do problema: o excesso de informação e de acesso. Impactada pelos cem andares desse edifício e por suas incontáveis divisões e departamentos, a geração mais nova sente-se acuada e amedrontada. Restringe, muitas vezes, seu perambular não apenas ao primeiro andar, mas a um canto diminuto ou — o que é ainda mais comum — permanece na entrada, ali onde o algoritmo ilumina, tal como um porteiro que (des)orienta os visitantes.

Restringir-se a esse diminuto pedaço da cultura, seja na música, no cinema, na literatura, em cursos ou tantas outras possibilidades, é colapsar tudo o que a internet prometeu em termos de liberdade de pensamento e desenvolvimento coletivo.

Há, ainda, uma possibilidade mais bizarra: não apenas restringir-se a um espaço diminuto logo na entrada da construção, mas também negar a altura e a extensão do prédio. Os negacionistas reúnem-se em turmas e nichos, escondidos nas sombras do hall de entrada da cultura. Negam-se a perceber o restante do edifício.

​Castrar a própria experiência é não apenas um ato de covardia, mas também algo que tende a prejudicar a sociedade inteira.

​Não fique apenas no primeiro andar. Caminhe. Visite lugares que nem suspeitava que existiam. Escute. Veja. Suba. Uma vida não vivida é sempre algo muito triste e com pouca redenção. Isso vale para a vida de fora tanto quanto para a digital. Os pratos estão à mesa. Sirva-se!

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito significativa sua trajetória e experiência pessoal, acadêmica e de estudos. Destaco aqui o tema saúde mental.
    Olhar para a saúde mental dos professores das escolas é muito desafiador.

  2. Chegamos à outra ponta do problema: o excesso de informação e de acesso. Impactada pelos cem andares desse edifício e por suas incontáveis divisões e departamentos, a geração mais nova sente-se acuada e amedrontada. Restringe, muitas vezes, seu perambular não apenas ao primeiro andar, mas a um canto diminuto que permanece na entrada, ali onde o algoritmo ilumina, tal como um porteiro que (des)orienta os visitantes. (Autor Aleixo da Rosa)

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