Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás. Por isso, vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.
De começo já digo: todos nas nossas relações somos, de certa forma, terapeutas uns dos outros.
Dias atrás, palestrando na Liga de Psiquiatria com a presença de alunos das três faculdades de medicina de Passo Fundo: UPF, ATITUS e UFFS, lembrei do livro “Com a besta na barriga e outras histórias”, de Alberto Stein e Ana Lucia Salgado.

Nele, Alberto conta que costuma perguntar a seus alunos: entre as profissões, qual a que se assemelha mais a de um terapeuta? A resposta de Alberto é: a do Alfaiate: “A pessoa que faz as roupas com as medidas de cada um. Assim como somos únicos, a terapia deve ser específica às necessidades de cada um”.
Já havia ouvido de outro colega, Paulo Sérgio Rosa Guedes, que a “técnica é o paciente”.
Enfim, somos muitos os que pensam assim.
Por isso, levei na Liga de Psiquiatria o caso de uma paciente que apresentava uma depressão de leve a moderada. Segundo a American Psychiatric Association, casos assim podem ser tratados com antidepressivos em associação a uma das técnicas psicoterápicas. Qual das técnicas?
Sugeri aos alunos que obtivessem treinamento em psicofarmacologia e em algumas técnicas psicoterápicas. Assim, poderão oferecer ao paciente as opções de tratamento para o seu caso e, como um “alfaiate” ver com ele aquela que corresponde as suas “medidas”.
E mais, vamos nos permitir ser criativos ao aplicá-las.
Em seu livro, Alberto lembra do mito do Divã de Procusto.
O gigante recebia bem seus convidados, mas levava-os a se deitar em uma cama de ferro. Se menores que ela, ele os espichava.
Se maiores, ele os recortava: “Trata-se de uma Síndrome de Intolerância e as ditaduras são um exemplo perfeito disto. Sejam elas políticas ou de escolas terapêuticas. Em terapia, a síndrome aparece em esquemas rígidos de pensamentos, onde pacientes são colocados em camas emocionais que não refletem as suas individualidades e unicidades”.
E o paciente que já enfrenta seus problemas, por isso foi consultar, passa a enfrentar outro: a pressão do terapeuta para enquadrá-lo na teoria dele.
Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás.
Por isso vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.
Respeitar o outro inicia pelo respeito a sua história de vida. Em vez de desfazê-la, salientar as belezas encontradas nela.
A propósito, o livro “Com a besta na barriga e outras histórias” é da editora Bestiário de Porto Alegre.
Autor: Jorge A. Salton. Completa 50 crônicas suas publicadas no site. Também escreveu e publicou no site “Psicólogos e psiquiatras gostam de olhar pela janela”: www.neipies.com/psicologos-e-psiquiatras-gostam-de-olhar-pela-janela/
Edição: A. R.












Mais uma importante reflexão de Jorge Alberto Salton, publicada no site. Fecha a crônica de número 50. Agradecemos a oportunidade das aprendizagens que construímos juntos.