Quando um gênio descreve um herói passando para a história

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Artigas é o herói do Uruguai: criou as bases para sua independência. Lutou contra espanhóis, portugueses, argentinos, brasileiros, paraguaios… Até que derrotado em Taquarembó, retirou-se.

A vida de Artigas (1764 – 1850) foi construída por uma sucessão impressionante de grandes momentos. Porém, o mais marcante, apesar de menos importante que outros tantos, acabou sendo o de sua chegada ao exílio voluntário em Assunción do Paraguai.

Por quê?

Porque um gênio, Euclides da Cunha (1866 – 1909), “encontrou” esse herói e optou por descrever esse exato momento de sua extensa vida.

Artigas é o herói do Uruguai: criou as bases para sua independência. Lutou contra espanhóis, portugueses, argentinos, brasileiros, paraguaios… Até que derrotado em Taquarembó, retirou-se.

Era o ano de 1820. Cinco anos depois, seus sucessores – não necessariamente seguidores -, decretaram a independência.

Conta-nos Euclides:

“Num dia de setembro de 1820 chegou à tristonha Assunção, um prisioneiro ilustre e sexagenário, a quem, não se concedera o pleito da mais diminuta escolta. Vinha só; passou, a cavalo, pelas longas ruas retilíneas e retangularmente cruzadas, entre janelas de grades, à maioria de extensos corredores de uma prisão vastíssima, e descavalgou no largo onde se erige o palácio do governo”.

“Prisão vastíssima” porque era toda a cidade de Assunção e o exílio lhe era uma prisão.

“Viu-se então que a idade o não abatia. Num desempenho de rapaz atlético aprumava-se-lhe a estatura elegantíssima entre as voltas do poncho desbotado que lhe desciam até às botas de viagem, flexíveis e armadas das rosetas largas das esporas retinindo ao compasso de um andar seguro. Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela face rígida, cindida de linhas incisivas e firmes – como se um buril maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos e nervos – um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescritível”.

Lembremos que “buril” é um instrumento de aço temperado com ponta afiada, utilizado por artistas para ir retirando pedaços de um bloco de pedra até transformá-lo em uma estátua. “Como se um buril maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos…”.

Sim, a chegada ao exílio foi o final de sua trajetória heroica como homem de carne e osso e o início como personagem da história. Estava se tornando uma estátua como esta que todos admiramos ao visitar Montevideo.

Só agora, ao final da descrição do homem solitário que acaba de entrar sozinho em sua vasta prisão e do anúncio de sua futura imortalização com o auxílio de um “buril maravilhoso”, Euclides diz seu nome: “Era José Artigas, o motim feito homem…”.

Um gênio, Euclides da Cunha, descreve o momento da entrada de um herói, José Gervásio Artigas, na história.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Mesmo na idade que eu tenho, preciso de um farol”: www.neipies.com/mesmo-na-idade-que-tenho-preciso-de-um-farol/

Edição: A. R.

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