O homem sem furo na mão

O homem sem furo na mão

Em algum momento — ele não se lembra ao certo quando —, o furo começou a fechar. Levou anos, mas fechou. Diminuiu de tamanho. Ficou um furinho, quase imperceptível. Depois, só a borda. Até que desapareceu…

Sempre teve um furo. Na mão. Todos achavam estranho. Desde pequeno, na escola, os colegas apontavam o dedo e diziam:

— Olha, ele tem um furo na mão! — e riam.

​A aula bagunçava. A professora chamava a atenção. Mas a verdade é que até ela gostava daquele furo — do furo na mão.

​Os pais sempre acharam esquisito. Quando ele nasceu, perguntaram ao médico:

— Vai dar algum problema?

— Não, está tudo bem. Fizemos exames, tudo tranquilo. Só vai ser engraçado…

​Ele cresceu quase normal, sempre com o furo na mão.

— É bonitinho — diziam as senhoras.

​O moleque foi crescendo e, por onde ia, ficava conhecido por ter um furo na mão. Às vezes se sentia incomodado. De quando em quando, se achava idiota. Na adolescência, teve crise de identidade. Mas aprendeu, depois de um tempo, a gostar novamente daquele furo.

​Porém, algo aconteceu…

Em algum momento — ele não se lembra ao certo quando —, o furo começou a fechar. Levou anos, mas fechou. Diminuiu de tamanho. Ficou um furinho, quase imperceptível. Depois, só a borda. Até que desapareceu…

​Hoje, já adulto, ninguém o reconhece pelo furo na mão. Apenas ocasionalmente, em reuniões sociais, algum amigo comenta:

— Seu pai tinha um furo na mão — e todos riem.

​Ele não.

Ele disfarça.

Vai até o quarto. Olha a mão.

Tem nada ali…

(esta crônica foi inspirada no texto “Aquilo”, do autor Ricardo Azevedo: https://ricardoazevedonews.substack.com/p/aquilo

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professor não é palhaço e escola não é circo”: www.neipies.com/professor-nao-e-palhaco-e-escola-nao-e-circo/

Edição: A. R.

Como perder meu voto

Se você pretende conquistar meu voto, não tente conquistar minha fé. Não se apresente como escolhido de Deus. Apresente suas propostas. Não me ofereça profecias. Ofereça dados. Não me peça devoção. Preste contas. Não demonize seus adversários. Mostre o que pretende fazer. Não peça que eu confie cegamente. Dê-me razões para confiar.

Quem me conhece sabe que não costumo me envolver em campanhas eleitorais. Não faço do púlpito palanque, não transformo a igreja em comitê e não entrego minha consciência a partido algum. Mas, já que existem candidatos empenhados em conquistar votos a qualquer preço, permito-me oferecer algumas “sugestões” àqueles que fazem questão de não ter o meu.

Quer mesmo perder meu voto? Então tome nota.

1. Desdenhe da cultura.

Trate manifestações culturais que não correspondem à sua visão de mundo como degeneração, ameaça ou coisa de gente inferior. Reduza a riqueza cultural do país aos limites daquilo que você considera aceitável. Demonstre desprezo por tudo o que não cabe no seu repertório moral.

2. Ataque a religião alheia.

Zombe das tradições religiosas que não são as suas. Transforme a fé das minorias em motivo de escárnio e faça da religião uma trincheira. Apresente-se como único representante legítimo de Deus e ensine seus seguidores a enxergar os demais como inimigos espirituais.

3. Minta com convicção.

Espalhe fake news, distorça fatos, invente inimigos e repita uma falsidade tantas vezes quanto for necessário para transformá-la em “verdade”. Quando for desmentido, não peça desculpas. Mude de assunto, ataque quem o desmentiu e siga em frente. A mentira, afinal, funciona melhor quando vem acompanhada de segurança.

4. Atribua ao adversário os próprios pecados.

Acuse-o daquilo que você mesmo fez, faz ou pretende fazer. Transforme qualquer denúncia contra você em perseguição política. Jamais admita um erro quando houver alguém a quem responsabilizar.

5. Nunca assuma a responsabilidade por uma gestão fracassada.

Se algo deu errado, a culpa é do antecessor, da imprensa, do Judiciário, do Congresso, da oposição, dos servidores, dos comunistas, dos globalistas ou de qualquer conspiração suficientemente ampla para absorver a sua incompetência. Governar é mérito seu; fracassar é sempre culpa dos outros.

6. Prometa o impossível.

Prometa aquilo que o cargo não permite realizar, ignore limites orçamentários, competências institucionais e condições materiais. Transforme desejo em programa de governo e fantasia em compromisso eleitoral. Há sempre alguém disposto a acreditar que um candidato pode resolver sozinho problemas que atravessam décadas.

7. Fabrique o apocalipse.

Diga que, se seu adversário vencer, o país acabará, a família desaparecerá, a economia entrará em colapso, Deus será expulso da nação e o inferno tomará conta das ruas. Não apresente argumentos. Produza medo. O eleitor assustado pensa menos e obedece mais.

8. Cerque-se de predadores.

Escolha como aliados aqueles que enxergam o Estado como propriedade particular, o dinheiro público como oportunidade de enriquecimento e a política como negócio. Dê espaço aos inescrupulosos, desde que sejam úteis. Depois, se alguma coisa vier à tona, declare que não sabia de nada.

9. Use Deus como cabo eleitoral.

Associe seu nome ao nome de Deus. Suba a púlpitos. Receba orações. Seja apresentado como “ungido”, “escolhido” ou “levantado para salvar a nação”. Transforme o Evangelho em propaganda eleitoral e a fé em instrumento de mobilização. Misture cristianismo com moralismo, fundamentalismo, negacionismo, intolerância e desprezo pela ciência. Faça parecer que votar em você é um ato de fidelidade religiosa.

Meu voto? Você jamais terá. E não o terá nem que estivesse disputando contra o próprio diabo. Porque existe algo que considero ainda mais repulsivo do que um político que não tem fé: um político que usa a fé dos outros para conquistar poder.

O diabo, segundo a narrativa bíblica, pelo menos reconhece diante de quem está. Os demônios sabem quem é Jesus e tremem diante dele (Tg 2:19; Mc 1:24).

O que me escandaliza não é a irreligiosidade de quem não crê, mas a religiosidade de quem instrumentaliza Deus enquanto despreza aquilo que Deus, nas Escrituras, ordena com insistência: justiça, misericórdia, verdade, compaixão e cuidado com os vulneráveis.

Não me interessa o candidato que sabe citar mais versículos. Interessa-me aquele cuja vida pública suporta o peso dos princípios que esses versículos anunciam.

Não me impressiona a Bíblia erguida diante das câmeras. Quero saber o que acontece quando as câmeras se apagam.

Não me convence a oração feita no palanque. Quero saber como esse candidato trata quem não pode lhe oferecer nada em troca.

Não me interessa ouvir que determinado político “defende a família” se sua política produz abandono, fome, violência e desumanização. Não me interessa ouvir que “defende os valores cristãos” se mente, persegue adversários, despreza a ciência, alimenta o ódio e transforma os pobres em estatística.

O nome de Deus não absolve ninguém do exame moral.

Por isso, se você pretende conquistar meu voto, não tente conquistar minha fé. Não se apresente como escolhido de Deus. Apresente suas propostas. Não me ofereça profecias. Ofereça dados. Não me peça devoção. Preste contas. Não demonize seus adversários. Mostre o que pretende fazer. Não peça que eu confie cegamente. Dê-me razões para confiar.

E, se ainda assim insistir em utilizar Deus como cabo eleitoral, pode ficar tranquilo: meu voto você já perdeu.

Nesse caso, prefiro não votar a entregar meu voto a alguém que, em nome de Deus, aprendeu a desrespeitar o próximo.

A você, caro candidato, eu não tiro o chapéu.

Não por falta de reverência à autoridade, mas por excesso de reverência à consciência.

Autor: Por Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “A teologia do descanso e a escala 6 x 1”: www.neipies.com/teologia-do-descanso-e-a-escala-6×1/

Edição: A. R.

Difícil de escrever, mas necessário

“Se eu, podendo fazer o meu melhor, me contento com o possível, eu caio num lugar perigoso chamado mediocridade.” (Mário Cortella)

Há algum tempo, encontrei essa frase do Cortella – ou ela me encontrou. As palavras deram forma a um sentimento que vinha me acompanhando nos últimos meses: o de não estar entregando o meu melhor. E isso, para quem me conhece de perto, é algo que tenho muita dificuldade em tolerar.

Eu preciso ver propósito em tudo que eu faço, porque sempre vou me dedicar de alma e coração para que dê certo.

É assim que eu vejo a educação: não em números e metas alcançadas, mas em vidas transformadas e sonhos realizados. Por isso, o modelo atual de gestão da educação estadual já não fazia mais sentido para mim.

Meu maior receio era sentir que falhei. Afinal, pedir exoneração de um cargo público pode trazer essa sensação. Contudo, diante do tanto de carinho que recebi ontem e hoje, sei que essa foi uma experiência exitosa.

Eu não desisti. Eu decidi abandonar a minha mediocridade. Da curta trajetória como professora do Estado, carrego apenas o tanto que fui desafiada e o quanto amadureci como professora. As pedras, deixarei pelo caminho.

Aos colegas e amigos, muito obrigada por terem sido abrigo em meio às tempestades.

Aos meus alunos, o meu mais sincero agradecimento pelas palavras de apoio e incentivo. Disse e repito: não é problema ser um estudante ruim, mas você tem a obrigação de ser uma boa pessoa. É isso que deixamos para o mundo: o nosso exemplo. Espero reencontrá-los do mesmo jeito que me despeço hoje: com coragem para recomeçar e para buscar ser sua melhor versão.

Autora: Daniele de Freitas Schuster. Professora da rede municipal de Passo Fundo, RS.

Livro que retrata história e memória da comunidade de Pratinha, Espumoso, RS

Os ecos do início do século XX ainda ressoam na Pratinha, onde os primeiros colonizadores lançaram as sementes de uma comunidade que se tornou parte da identidade de Espumoso/RS. Com base em pesquisas e depoimentos de moradores, a obra resgata causos, costumes e tradições, homenageando as trajetórias, as raízes e o espírito comunitário que unem gerações.

Lançamento do livro Pratinha no Coração: Raízes e Memórias, do autor Cesar Augusto Pierezan e das autoras Rosane de Fátima Sonda Pierezan e Nadir Salette Fontana ocorreu na Festa de São Roque da Comunidade da Pratinha-Espumoso-RS, com mais de 108 anos, neste mês de agosto de 2026. O livro foi editado por Editora Alternativa, de Porto Alegre, RS, com 256 páginas.

Com o prefeito Gereon Lopes Rodrigues Machado e a Secretária de Educação Dania Nicolini Borghetti.

A festa, bem como o lançamento do livro, contou com a presença de aproximadamente 650 pessoas no almoço e, depois, com momento ímpar com muita história para contar. Participaram do evento descendentes desta importante localidade de Espumoso, RS, hoje moradores de Sorriso-MT e Luiz Eduardo Magalhães-BA. Estiveram presentes pessoas dos municípios de Passo Fundo, Carazinho, Tapera, Campos Borges, Alto Alegre, Santa Isabel do Oeste/PR e Pato Branco/PR.

Reconhecemos a importância de livros que buscam resgatar a história das comunidades e construir espírito de congraçamento e fraternidade através das verdadeiras histórias.

Parabéns ao autor Cesar Augusto Pierezan e às autoras Rosane de Fátima Sonda Pierezan e Nadir Salette Fontana pela bela e honrosa iniciativa.

Para adquirir o livro, acesse: https://www.editoralternativa.com/pratinha-no-corac-o-raizes-e-memorias

Seguem alguns registros, enviados e cedidos pelo autor César Augusto Pierezan.

Edição: A. R.

Ser Freireano: pedagogia da autonomia e educação como prática da liberdade

A educação libertadora precisa ser necessariamente dialógica e problematizadora. Não há liberdade onde existe apenas obediência intelectual; não há autonomia onde o estudante é permanentemente reduzido à condição de receptor; não há democracia onde não existem condições para argumentar, escutar, discordar e participar.

Paulo Freire (1921-1997) certamente é o brasileiro mais representativo e conhecido fora do Brasil quando o assunto é educação. Embora tenha nascido em uma família de classe média, enfrentou sérias dificuldades financeiras após a morte do pai aos treze anos de idade. Formou-se em direto, mas sua vida foi dedicada à educação. Em 1963, em Angicos (Rio Grande do Norte – RN) coordenou uma experiência de alfabetização de adultos, envolvendo 300 trabalhadores rurais em apenas 40 horas, usando palavras do cotidiano dos próprios alunos.

Sua experiência não só alfabetizava, mas conscientizava seus alunos de sua condição de trabalhadores explorados e oprimidos. No ano seguinte (1964), com o golpe militar, foi preso e forçado ao exílio de 16 anos, passando por diversos países tais como Chile, Bolívia, Estados Unidos e diversos países da África. Em todos os lugares onde passou, deixou suas marcas, seu pensamento e foi constituindo uma obra educacional que o torna o pensador educacional brasileiro mais citado e traduzido no mundo.

De volta ao Brasil em 1979, continuou seu legado e tornou-se em 2012 o Patrono da Educação Brasileira. A crítica a Educação Bancária, a proposta de um ensino dialógico, a educação como ato político, como prática de liberdade e como processo de conscientização, a necessidade que o processo educativo possibilite não só a leitura da palavra, mas principalmente o desenvolvimento da capacidade de leitura de mundo, são alguns dos temas/problemas que percorrem a vasta obra produzida durante sua vida.

Embora consagrado como Patrono da Educação Brasileira, nem todas as camadas sociais tem apreço por Freire. Ao contrário, os setores reacionários, a extrema direita, as elites do atraso, os setores econômicos exploradores da classe trabalhadora veem em Freire um inimigo a ser combatido.

O medo de que a educação passa conscientizar e politizar os jovens trabalhadores, a lucidez com que expõe a pedagogia do oprimido, sua aproximação com ideias revolucionárias do marxismo e com os setores progressistas da Igreja que fez a opção preferencial dos pobres, seu foco educacional na transformação social e sua firme convicção de que a educação transforma as pessoas e estas podem transformar o mundo, fizeram de Freire um bode expiatório por parte dos setores sociais, econômicos e ideológicos da sociedade brasileira que não que o pobre, o marginalizado, o trabalhador humilde possa se libertar dos grilhões da opressão.

Nesta última semana de agosto, foi publicada a coletânea PAULO FREIRE: um símbolo de esperança contra a barbárie humana, organizada pelo meu amigo Ivan Fortunato, Milagros Elena Rodríguez (Venezuela) José Gregório Lemus Maestre (Venezuela) e Juan Carlos Yáñez Velazco (México). Na coletânea, escrevi com meu grande amigo e parceiro de pesquisa Evandro Consaltér, o capítulo “SER FREIREANO EM TEMPOS DE BARBÁRIE: A CURIOSIDADE EPISTEMOLÓGICA COMO FUNDAMENTO DE UMA PEDAGOGIA DA AUTONOMIA”.

Na intenção de divulgar a coletânea, resolvi apresentar na coluna desta semana no site de Nei Alberto Pies uma breve síntese do capítulo. No final da coluna está o link para o acesso gratuito da coletânea. Para uma exposição mais didática da síntese está organizada em tópicos.

1. Ser freireano: mais do que aderir a uma pedagogia, assumir uma postura diante da educação

Revisitar Paulo Freire no contexto contemporâneo não significa simplesmente recuperar um autor consagrado da história da educação brasileira, nem transformar seu pensamento em um conjunto de conceitos ou prescrições pedagógicas a serem reproduzidos.

Ser freireano significa assumir uma determinada maneira de compreender a educação, o conhecimento, o ser humano e a sociedade. Trata-se, fundamentalmente, de uma postura ética, política e epistemológica diante da prática educativa, orientada pelo compromisso com a autonomia, a liberdade, a humanização e a transformação da realidade. O capítulo que escrevi com Evandro (Fávero e Consaltér, 2026) parte justamente dessa compreensão ao sustentar que ser freireano ultrapassa a adesão a um referencial pedagógico específico.

Essa perspectiva torna-se particularmente importante em um contexto histórico marcado pela expansão de racionalidades tecnicistas, pela mercantilização da educação e pelo enfraquecimento das experiências de pensamento crítico. Nessa realidade, recuperar Freire não é exercício meramente retrospectivo: é uma forma de interrogar criticamente os rumos que a educação vem assumindo. Em nosso texto (Fávero e Consaltér, 2026) identificamos, de um lado, a crescente valorização de indicadores, metas, eficiência, produtividade e desempenho; de outro, a necessidade de preservar a formação ética, política e humanística dos sujeitos.

Ser freireano, nesse sentido, significa recusar a ideia de que a educação possa ser reduzida à transmissão eficiente de informações ou à preparação funcional dos indivíduos para atender às exigências do mercado. Significa compreender que educar é uma experiência profundamente humana e, portanto, necessariamente ética e política. Toda prática educativa expressa determinada compreensão sobre o que significa ser humano, conhecer, conviver e participar da sociedade (Fávero e Consaltér, 2026).

Essa concepção está estreitamente vinculada à ideia de que homens e mulheres são seres históricos, inacabados e inconclusos. O inacabamento é justamente o que torna possível a educação: porque somos seres que não estão prontos, podemos aprender, ensinar, transformar-nos e transformar o mundo. Por isso, ensinar e aprender não são processos independentes. Freire (2015) insiste na relação de reciprocidade entre ambos, afirmando que “não há docência sem discência”. Ensinar implica aprender e aprender implica também ensinar.

Ser freireano significa, portanto, reconhecer a dignidade epistemológica dos sujeitos envolvidos no processo educativo. O estudante não é um recipiente vazio a ser preenchido pelo conhecimento do professor. Tampouco o professor é alguém que abandona seu papel e simplesmente “facilita” a aprendizagem. Ambos são sujeitos do processo, ainda que desempenhem funções diferentes. A autoridade docente permanece necessária, mas deve ser exercida democraticamente, sem converter-se em autoritarismo (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Nesse horizonte, a educação freireana se estrutura em torno do diálogo, da pesquisa, da problematização, da rigorosidade metódica, da esperança e do compromisso com a transformação. É essa combinação que possibilita construir uma educação que não apenas informa, mas forma sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo e nele intervir.

2. Como se constrói uma Pedagogia da Autonomia

A Pedagogia da Autonomia (Freire, 2015) representa uma síntese especialmente importante do pensamento freireano sobre a prática educativa. Seu ponto de partida é a compreensão de que ensinar não significa transferir conhecimentos prontos, mas criar condições para que o conhecimento possa ser produzido e reconstruído pelos sujeitos. Essa mudança parece simples, mas possui profundas consequências epistemológicas e pedagógicas.

A pedagogia da autonomia não nasce, portanto, de uma técnica específica. Ela se constrói mediante uma determinada atitude do professor diante do conhecimento e dos estudantes. Freire apresenta um conjunto de exigências indispensáveis a essa prática: rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, criticidade, ética, estética, coerência entre discurso e prática, aceitação do novo, rejeição de qualquer discriminação, reflexão crítica sobre a prática e reconhecimento da identidade cultural (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

A primeira dessas exigências é a rigorosidade metódica. Importa destacar que rigor não significa rigidez, mecanização ou memorização. O rigor freireano é investigativo, criador, inquieto e problematizador. O professor rigoroso não é aquele que simplesmente domina conteúdos e os transmite com precisão; é aquele que ensina os estudantes a pensar, questionar, investigar e construir relações intelectuais com aquilo que estudam (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

A segunda dimensão é a pesquisa. Para Freire (2015), ensinar exige pesquisar porque o professor precisa manter-se em permanente movimento de busca. A pesquisa não constitui uma atividade externa à docência: é parte constitutiva do próprio ato de ensinar. O professor que pesquisa reconhece que não sabe tudo, confronta suas certezas e permanece aberto à novidade. Da mesma forma, o estudante é convidado a tornar-se investigador de sua própria realidade.

Outro elemento decisivo é o respeito aos saberes dos educandos. Esse respeito não significa transformar toda experiência ou opinião em conhecimento válido indistintamente. Significa reconhecer que os estudantes chegam à escola portadores de experiências, linguagens, conhecimentos cotidianos e formas de interpretar o mundo. A função da escola não é simplesmente substituir esses saberes por conhecimentos escolares, mas estabelecer um diálogo rigoroso entre experiência e conhecimento sistematizado (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

É justamente nesse ponto que a pedagogia da autonomia se diferencia radicalmente da educação bancária (Freire, 2005). Enquanto a educação bancária tende a depositar conhecimentos em sujeitos concebidos como receptores, a educação problematizadora procura criar condições para que os sujeitos investiguem a realidade, questionem o aparentemente evidente e produzam conhecimentos em diálogo.

A autonomia, portanto, não significa independência absoluta ou ausência de mediação. O estudante não se torna autônomo porque o professor deixa de ensinar. Ao contrário, torna-se autônomo porque encontra um professor capaz de criar situações intelectuais nas quais possa perguntar, investigar, argumentar, confrontar ideias, errar, rever posições e assumir progressivamente responsabilidade por sua aprendizagem (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

3. Da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica

Entre as categorias mais fecundas do pensamento freireano está a curiosidade. Ela constitui uma dimensão antropológica da existência humana: somos seres curiosos porque somos seres abertos ao mundo e capazes de perguntar por aquilo que ainda não compreendemos. A educação precisa preservar e cultivar essa disposição, e não sufocá-la por meio de práticas mecânicas e autoritárias (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Entretanto, Freire não considera suficiente a curiosidade espontânea. É necessário realizar um movimento de aprofundamento que conduza da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica. A curiosidade ingênua está ligada à experiência imediata do mundo. É aquela que pergunta, observa, estranha e procura explicações, mas ainda não dispõe necessariamente dos instrumentos metodológicos e conceituais para compreender criticamente aquilo que observa. Ela não deve ser desprezada. Pelo contrário: constitui o ponto de partida do processo educativo.

O papel da educação consiste justamente em não destruir essa curiosidade, mas qualificá-la. A curiosidade epistemológica nasce quando o sujeito começa a superar as explicações imediatas, problematizar suas próprias certezas, buscar evidências, estabelecer relações, confrontar interpretações e compreender os condicionamentos históricos e sociais dos fenômenos (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Nesse sentido, a passagem da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica não representa uma ruptura absoluta entre dois tipos de curiosidade. Trata-se de um processo de superação dialética, no qual a curiosidade inicial é aprofundada e transformada pela investigação rigorosa.

O diálogo desempenha papel central nesse movimento. Para Freire (2015; 2005), diálogo não é simples troca de opiniões. É encontro entre sujeitos mediados pelo mundo e comprometidos com a busca rigorosa de compreensão. Por isso, dialogar não é “tagarelar”: o diálogo envolve reflexão, investigação, escuta e disposição para compreender as razões que sustentam determinada posição. Essa concepção permite compreender por que a curiosidade epistemológica possui uma dimensão simultaneamente cognitiva, ética e política. Cognitiva porque exige rigor na construção do conhecimento; ética porque pressupõe humildade, abertura ao outro e disposição para rever certezas; política porque impede a naturalização das condições históricas e sociais existentes.

A aproximação realizada no texto com Gaston Bachelard (1996) reforça essa dimensão epistemológica. Conhecer exige enfrentar obstáculos que se colocam no próprio processo de construção do conhecimento. Não basta acumular informações: é necessário romper com evidências imediatas e reconstruir criticamente aquilo que parecia evidente.

Assim, desenvolver curiosidade epistemológica significa ensinar a perguntar melhor. Significa passar da pergunta superficial para a pergunta investigativa; da opinião para a argumentação; da aparência para a análise; da informação isolada para a compreensão das relações; da certeza imediata para a disposição de investigar.

Em uma sociedade marcada pela circulação vertiginosa de informações, esse movimento torna-se ainda mais necessário. A curiosidade epistemológica oferece instrumentos para distinguir conhecimento fundamentado de opinião, evidência de desinformação e diálogo democrático de manipulação.

4. A atualidade de Paulo Freire diante dos desafios contemporâneos

A atualidade de Freire pode ser percebida justamente porque muitos dos problemas que ele identificou assumiram novas configurações. A educação bancária não desapareceu; em muitos casos, ela se atualizou por meio de plataformas, métricas, avaliações, rankings, competências e sistemas de controle do desempenho.

Em nosso texto (Fávero e Consaltér, 2026), estabelecemos uma relação importante entre essa realidade e o chamado neoliberalismo pedagógico. A racionalidade empresarial tende a transformar a educação em serviço, os estudantes em consumidores e o conhecimento em instrumento de competitividade individual. Metas, indicadores, produtividade, eficiência e desempenho passam a ocupar o centro das políticas e práticas educacionais.

O problema não está simplesmente em utilizar avaliações ou indicadores. Eles podem produzir informações relevantes. O problema ocorre quando esses instrumentos passam a definir a própria finalidade da educação. Nesse momento, aquilo que pode ser facilmente mensurado começa a valer mais do que aquilo que é fundamental para a formação humana, mas não pode ser reduzido a números: autonomia, solidariedade, pensamento crítico, responsabilidade ética, sensibilidade, capacidade de diálogo e participação democrática (Fávero e Consaltér, 2026).

A escola contemporânea enfrenta também formas renovadas de desinformação, negacionismo científico, polarização, intolerância e superficialização do conhecimento (Fávero e Consaltér, 2026). A velocidade de circulação das informações não significa necessariamente maior conhecimento. Pelo contrário, pode produzir um ambiente em que a opinião imediata se apresenta como equivalente ao conhecimento fundamentado.

Nesse cenário, o pensamento freireano oferece uma contribuição decisiva: recuperar a educação como espaço de problematização. O estudante precisa aprender não apenas a encontrar informações, mas a perguntar sobre sua origem, seus fundamentos, suas consequências e seus interesses. Precisa aprender a confrontar fontes, reconhecer argumentos, identificar contradições e compreender os contextos históricos em que os discursos são produzidos.

A atualidade de Freire também aparece diante da violência e da fragilização das relações humanas no espaço escolar. O texto chama atenção para o crescimento de experiências de violência, insegurança e sofrimento entre estudantes, mostrando que a qualidade da educação não pode ser reduzida aos resultados de avaliações. A escola precisa reconhecer os estudantes em sua integralidade e constituir espaços de acolhimento, diálogo, escuta e construção coletiva.

Nesse sentido, ser freireano hoje significa defender uma escola que não abandone sua função intelectual, mas que compreenda que o conhecimento possui uma dimensão profundamente humana. Ensinar matemática, ciências, filosofia, história, literatura ou qualquer outro campo do conhecimento significa também oferecer aos estudantes instrumentos para compreender o mundo e posicionar-se diante dele.

5. Educação como prática da liberdade e formação democrática

A ideia de educação como prática da liberdade é inseparável do pensamento freireano. Educação e liberdade não aparecem como conceitos abstratos, mas como experiências construídas na relação concreta entre sujeitos, conhecimento e mundo. Educar para a liberdade significa criar condições para que os sujeitos possam compreender criticamente as circunstâncias em que vivem. A liberdade, nesse horizonte, não é fazer simplesmente aquilo que se deseja, nem escolher entre opções previamente estabelecidas. É desenvolver condições para compreender, julgar, decidir e agir conscientemente (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Por isso, a educação libertadora precisa ser necessariamente dialógica e problematizadora. Não há liberdade onde existe apenas obediência intelectual; não há autonomia onde o estudante é permanentemente reduzido à condição de receptor; não há democracia onde não existem condições para argumentar, escutar, discordar e participar.

A formação democrática, portanto, constitui uma consequência direta da pedagogia freireana. Uma escola democrática não é simplesmente aquela em que existem mecanismos formais de participação. É aquela que forma sujeitos capazes de conviver com a pluralidade, reconhecer o outro, sustentar argumentos, rever posições e participar das decisões coletivas.

A curiosidade epistemológica possui aqui papel fundamental. Uma sociedade democrática depende de sujeitos que não aceitem passivamente discursos prontos. A democracia precisa de cidadãos capazes de perguntar: por quê? para quem? com quais consequências? quais evidências sustentam essa afirmação? que outras interpretações são possíveis? quem é afetado por determinada decisão?

É por isso que o conhecimento precisa ser defendido como bem comum. A perspectiva que apresentamos no capítulo (Fávero e Consaltér, 2026), em diálogo com Consaltér, compreende a escola como espaço republicano de acesso ao patrimônio cultural e científico da humanidade. A escola oferece tempo e espaço para que estudantes de diferentes origens possam encontrar-se diante de objetos comuns de conhecimento.

Defender a escola pública e o conhecimento como bem comum significa, assim, defender uma das condições fundamentais da própria democracia. Quando o conhecimento é transformado em mercadoria, sua apropriação tende a ser determinada pelas desigualdades sociais. Quando é concebido como direito, torna-se instrumento de democratização.

6. Educação, humanização e resistência às formas contemporâneas de barbárie

Um dos argumentos mais fortes do texto está na relação estabelecida entre educação, humanização e enfrentamento da barbárie contemporânea. A barbárie não se manifesta somente em atos extremos de violência. Ela também pode aparecer na naturalização da desigualdade, na intolerância, no racismo, na exclusão, na desinformação, no negacionismo, na transformação do outro em inimigo e na redução dos sujeitos a números e indicadores (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Há, portanto, formas explícitas e formas silenciosas de desumanização. Uma educação centrada exclusivamente em desempenho pode desconsiderar as histórias e condições concretas dos estudantes. Uma cultura escolar excessivamente competitiva pode substituir a cooperação pela disputa permanente. Uma racionalidade mercantil pode transformar o conhecimento em produto e o estudante em consumidor.

É nesse cenário que a educação freireana assume uma função de resistência. Resistir não significa simplesmente negar ou rejeitar tudo aquilo que vem sendo produzido pela sociedade contemporânea. Significa construir condições para que estudantes e professores possam pensar criticamente sobre o presente, compreender seus condicionamentos e agir sobre eles.

A curiosidade epistemológica aparece, então, como uma espécie de antídoto contra a naturalização (Freire, 2000). Quem pergunta, investiga e problematiza percebe que as coisas poderiam ser diferentes. Quem compreende a historicidade da realidade percebe que nenhuma ordem social é absolutamente natural ou inevitável.

Essa dimensão conduz diretamente ao conceito freireano de esperançar. Esperança, em Freire, não é espera passiva por um futuro melhor. É disposição para agir porque se acredita que a realidade pode ser transformada. O texto interpreta a curiosidade epistemológica precisamente como uma forma de esperança ativa: enquanto houver sujeitos capazes de perguntar, investigar, dialogar e aprender coletivamente, permanece aberta a possibilidade da transformação social.

Por isso, enfrentar a barbárie exige recuperar a capacidade humana de pensar. Mais ainda: exige criar instituições, relações pedagógicas e experiências educativas que tornem possível esse pensamento. A escola possui papel privilegiado nessa tarefa porque pode oferecer aquilo que a velocidade da vida contemporânea frequentemente retira: tempo para pensar, espaço para dialogar, acesso ao conhecimento, possibilidade de investigar e oportunidade de conviver com a diferença.

7. Considerações finais: reafirmar Freire para defender a humanidade

A principal contribuição da reflexão analisada está em mostrar que o pensamento de Paulo Freire permanece atual não porque ofereça respostas prontas para os problemas educacionais contemporâneos, mas porque oferece princípios para interrogá-los criticamente.

Ser freireano é assumir a educação como uma prática comprometida com a dignidade humana. É compreender que ensinar e aprender constituem processos inseparáveis; que o professor precisa pesquisar, estudar e refletir permanentemente sobre sua prática; que os saberes dos estudantes devem ser respeitados; que o conhecimento exige rigorosidade; que a educação precisa ser dialógica e problematizadora; e que autonomia não significa individualismo, mas capacidade de compreender criticamente a realidade e participar de sua transformação (Freire, 1995; Fávero e Consaltér, 2026).

A pedagogia da autonomia constrói-se, portanto, na tensão produtiva entre autoridade e liberdade, ensino e aprendizagem, experiência e conhecimento sistematizado, certeza e dúvida, tradição e novidade. Ela não elimina o professor nem transforma o estudante em responsável solitário pela própria aprendizagem. Ela redefine as relações entre ambos a partir do reconhecimento de que todos são sujeitos históricos e inacabados (Freire, 2005; Fávero e Consaltér, 2026).

Nesse percurso, a passagem da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica constitui um dos movimentos fundamentais da formação humana. A educação começa com a curiosidade que pergunta diante do mundo, mas não pode terminar nela. Precisa criar condições para que a pergunta se transforme em investigação, a investigação em conhecimento, o conhecimento em consciência crítica e a consciência crítica em possibilidade de intervenção responsável.

Essa tarefa é particularmente urgente no presente. Em uma sociedade saturada de informações, mas nem sempre comprometida com o conhecimento; marcada por tecnologias sofisticadas, mas também por novas formas de controle; conectada digitalmente, mas frequentemente fragmentada socialmente; capaz de produzir enorme riqueza, mas ainda marcada por desigualdades e exclusões, a educação precisa recuperar sua dimensão pública, democrática e humanizadora.

Reafirmar Freire significa, nesse contexto, reafirmar que a escola não pode ser reduzida a uma empresa, o conhecimento não pode ser reduzido a uma mercadoria, o professor não pode ser reduzido a um executor de protocolos e o estudante não pode ser reduzido a um conjunto de competências mensuráveis.

Leia também: www.neipies.com/pedagogia-do-afeto-e-a-banalizacao-da-formacao/

Significa também reconhecer que a educação não é neutra. Ela pode contribuir para a adaptação dos sujeitos à ordem existente ou pode criar condições para que compreendam criticamente essa ordem e participem de sua transformação. É justamente por isso que a educação precisa ser assumida como prática da liberdade.

A luta contra a desumanização passa, então, pela defesa cotidiana de práticas educativas nas quais os sujeitos possam falar e escutar, perguntar e investigar, discordar e argumentar, conhecer e reconstruir conhecimentos, reconhecer sua incompletude e aprender com os outros. O diálogo, nesse horizonte, não é ornamento metodológico: é condição da própria humanização. A curiosidade epistemológica, por sua vez, não é apenas uma habilidade intelectual: é uma atitude de abertura diante do mundo e uma forma de resistência àquilo que pretende apresentar-se como definitivo.

Por isso, reafirmar Paulo Freire hoje é afirmar que educar é manter aberta a possibilidade do novo. É recusar o fatalismo que transforma as injustiças em inevitabilidades. É preservar a capacidade de indignar-se diante da violência e da opressão, mas também cultivar a esperança de que outra realidade pode ser construída.

Em última instância, defender uma educação freireana é defender a própria possibilidade de continuarmos sendo humanos em uma sociedade que, sob diferentes formas, insiste em produzir processos de desumanização. É apostar que a escola pode ser espaço de conhecimento, diálogo, liberdade, democracia e humanização. É compreender que, enquanto houver sujeitos capazes de perguntar, pensar, dialogar, aprender, ensinar e agir coletivamente, a barbárie não terá a última palavra.

Assim, a atualidade de Freire não reside simplesmente na permanência de seus conceitos, mas na urgência de seu projeto ético-político de humanização. A educação como prática da liberdade continua sendo uma exigência porque a liberdade permanece ameaçada; a autonomia continua sendo necessária porque persistem formas de heteronomia e controle; a curiosidade epistemológica continua sendo indispensável porque a desinformação e o obscurantismo avançam; o diálogo continua sendo urgente porque a intolerância fragmenta as relações sociais; e a esperança continua sendo necessária porque a transformação da realidade exige sujeitos que acreditem na possibilidade de construí-la (Freire, 2015; Fávero e Consaltér, 2026).

Ser freireano, portanto, é muito mais do que falar em Paulo Freire. É viver a educação como compromisso com o outro, com o conhecimento, com a democracia, com a liberdade e com a possibilidade histórica de um mundo mais justo e mais humano.

A coletânea pode ser acessada gratuitamente no seguinte link: https://www.researchgate.net/publication/413718420_Paulo_Freire_un_simbolo_de_esperanza_contra_la_barbarie_humana

Referências:

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuições para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

CONSALTÉR, Evandro. Em defesa de uma escola republicana e do conhecimento como um bem comum. Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 30, n. 3, p. 193-214, 2023.

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro. Ser freireano em tempos de barbárie: a curiosidade epistemológica como fundamento da pedagogia da autonomia. In: RODRIGÉZ, M. E.; FORTUNATO, I.; MAESTRO, J.G.L.; VELAZCO, J.C.Y. (ORGS.). PAULO FREIRE: un símbolo de esperanza contra la barbárie humana. Itapetininga: Edições Hipótese, 2026, p.199-226.

FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d’Água, 1995.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 52. ed. São Paulo: Paz & Terra, 2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 42. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2005.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Democracia e educação”: www.neipies.com/democracia-e-educacao/

Edição: A. R.

IDEB: é melhor pagar do que pensar?

Talvez o esclarecimento comece assim. Não pela recusa dos dados, mas pela coragem de não lhes entregar a última palavra. Recursos são necessários. Avaliações também. Mas nenhuma recompensa financeira pode substituir o trabalho coletivo de pensar o sentido da educação.

(Por Amarildo Luiz Trevisan)

Na manhã seguinte à divulgação do IDEB, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, que é o principal indicador da qualidade do ensino público e privado no Brasil, a diretora chegou à escola carregando uma pasta azul, três planilhas e uma preocupação que não cabia em nenhuma célula do Excel.

Na sala dos professores, alguém perguntou:

*E então, melhoramos?

Ela respirou antes de responder.

*Depende.

Essa palavra costuma anunciar problemas. Quando o médico diz “depende”, o paciente aperta os braços da cadeira. Quando o mecânico diz “depende”, o motorista já imagina a conta. Na educação, “depende” geralmente significa que a realidade não coube no indicador.

A nota da escola havia subido um pouco, mas não o suficiente. O fluxo escolar melhorara, embora a aprendizagem continuasse abaixo da meta. Alguns estudantes avançaram, outros permaneceram quase no mesmo lugar. Havia ainda os que deixaram de frequentar as aulas porque precisavam trabalhar, cuidar dos irmãos ou simplesmente atravessar uma cidade sem transporte adequado.

Nada disso aparecia com nitidez no número.

O Ideb não retiraria automaticamente os recursos regulares do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, que é o principal mecanismo de financiamento da educação pública básica no Brasil. Era importante deixar isso claro. Entretanto, poderia pesar no acesso da rede à complementação-VAAR, uma parcela adicional de recursos da União destinada a premiar avanços na aprendizagem, na gestão e na redução das desigualdades. Ou seja, o VAAR (Valor Aluno Ano Resultado) é um repasse de dinheiro feito pelo governo federal do Brasil para estados e municípios, e este recurso faz parte do FUNDEB.

A professora de Matemática fez as contas.

*Então, quem melhora recebe mais?

*Em princípio, sim.

*E quem não melhora?

*Pode deixar de receber o recurso adicional.

A professora ficou alguns segundos olhando para o quadro.

*Mas quem não melhora talvez seja justamente quem mais precisa de ajuda.

A diretora fechou a pasta azul. Certas conclusões não exigem calculadora.

No intervalo, um representante da secretaria apareceu na escola. Trazia gráficos coloridos e um vocabulário sem recreio: metas, evidências, desempenho, eficiência, monitoramento, responsabilização.

Explicou que a rede precisava reagir. Era necessário identificar descritores críticos, reorganizar os conteúdos, acompanhar resultados e alinhar práticas. Falava com segurança. Os gráficos subiam e desciam como montanhas-russas, embora ninguém parecesse se divertir.

Uma professora levantou a mão.

Podemos discutir por que nossos estudantes estão aprendendo menos?

O técnico apontou para um slide.

*Isso está contemplado no plano de intervenção.

*Mas podemos discutir o que entendemos por uma boa educação?

Ele hesitou. Procurou a resposta entre os gráficos, mas aquela pergunta não constava na apresentação.

*No momento, precisamos focar os indicadores.

Era uma resposta eficiente. Também era uma maneira educada de encerrar o pensamento.

Kant escreveu que é muito cômodo permanecer na menoridade. Não preciso pensar, dizia ele, se posso simplesmente pagar. Alguém se encarregará da tarefa tediosa em meu lugar.

Na escola, a frase parecia ter ganhado uma atualização administrativa: não é necessário pensar se podemos medir, classificar, premiar ou ameaçar com a perda de recursos adicionais. Outros já decidiram o que importa. Basta perseguir a meta.

O índice passa a funcionar como tutor. Diz à escola onde chegar, em quanto tempo e por qual caminho. Se ela obedece e melhora, recebe a recompensa. Se não consegue, pode perder justamente o apoio que talvez lhe permitisse melhorar.

É como retirar o colete salva-vidas de quem ainda não aprendeu a nadar, sob a alegação de que os melhores nadadores merecem mais incentivo.

Ninguém ali era contra avaliações. A diretora sabia que dados ajudam a revelar problemas escondidos. Os professores também queriam conhecer os resultados de seu trabalho. O problema começava quando o número deixava de ser uma pergunta e passava a ser a resposta.

Uma escola pode aumentar sua nota treinando estudantes para provas. Pode reduzir reprovações sem garantir aprendizagem. Pode selecionar prioridades pensando no próximo indicador. Pode, enfim, tornar-se mais eficiente em produzir resultados e menos capaz de perguntar para que, para quem e a que custo educa.

Ao final da reunião, o técnico recolheu o computador e anunciou:

*Se todos fizerem a sua parte, alcançaremos a meta.

A diretora olhou pela janela. No pátio, uma menina dividia o lanche com um colega. Dois estudantes discutiam uma notícia. Um professor ajudava um rapaz que pensava em abandonar a escola. Nada daquilo apareceria no Ideb. Ainda assim, talvez ali estivesse uma parte importante da educação que se pretendia avaliar.

Antes de sair, a professora de Matemática voltou à pergunta inicial:

*Afinal, melhoramos ou não?

A diretora abriu novamente a pasta, olhou as planilhas e depois tornou a fechá-la.

*O número diz uma coisa. Agora precisamos descobrir o que a escola tem a dizer.

Talvez o esclarecimento comece assim. Não pela recusa dos dados, mas pela coragem de não lhes entregar a última palavra. Recursos são necessários. Avaliações também. Mas nenhuma recompensa financeira pode substituir o trabalho coletivo de pensar o sentido da educação.

Porque, quando pagar parece mais fácil do que pensar, quase sempre alguém pensa por nós. E raramente é quem conhece o nome, a história e as dificuldades das crianças que aparecem apenas como números na planilha.

FONTE: https://claudemirpereira.com.br/2026/08/22/ideb-e-melhor-pagar-do-que-pensar-por-amarildo-luiz-trevisan/

Autor:Amarildo Luiz Trevisan, licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). 

Edição: A. R.

Campina das Missões é destaque em Revista sobre Turismo

Repercutimos matéria de Revista Festuris que destaca o município de Campina das Missões como lugar recomendado ao turismo por algumas peculiaridades. Veja, conheça e reconheça este lugar no Rio Grande do Sul.

Situada no noroeste do Rio Grande do Sul,

“Campina das Missões carrega uma identidade singular que a tornou conhecida como um verdadeiro pedaço da Rússia no Brasil. Embora a maioria da população atual tenha origem alemã, os primeiros imigrantes a chegar ao município foram russos vindos principalmente da Sibéria, em 1909. Mais de um século depois, a herança deixada por esses pioneiros segue viva e faz da cidade o maior núcleo de descendentes russos do Estado, representando cerca de 20% da população”.

O legado também se reflete na projeção conquistada por Campina das Missões.

Conhecida como a terra onde os gaúchos falam russo, a cidade já foi tema de reportagens nacionais e internacionais e se tornou reconhecida em diversas regiões da Rússia. Para Solange, a presença dos descendentes russos confere ao município uma característica única. “O fato de termos descendentes russos aqui caracteriza uma singularidade do município na região Sul e também no Brasil”, destaca. Essa herança está presente ainda no turismo local, por meio do Roteiro Turístico Caminhos da Imigração, que reúne espaços históricos, manifestações culturais, culinária típica e símbolos da tradição russa”.

Acesse a Revista:

https://www.festurisgramado.com/revistas

Importância desta publicação

“Município do Noroeste Gaúcho é apresentado como “um pedaço da Rússia no Brasil” em uma das principais publicações especializadas do turismo do Sul do país

Campina das Missões acaba de ganhar um importante espaço de visibilidade no cenário turístico brasileiro. O município é destaque na edição 107 da Revista Festuris, publicação especializada que circula entre profissionais, destinos, empresas e lideranças do setor turístico.

A edição de julho/agosto de 2026 tem como tema de capa “Turismo internacional em ascensão” e apresenta, entre seus conteúdos, uma reportagem especial sobre Campina das Missões dentro da série “O Mundo no Brasil”, com o título “Campina das Missões: um pedaço da Rússia no Brasil”.

Mais do que divulgar um município, a reportagem apresenta ao leitor uma característica que torna Campina das Missões singular: a preservação de uma forte herança cultural russa, construída a partir da imigração e mantida ao longo das gerações.

Uma cultura que virou identidade

A reportagem destaca a trajetória dos imigrantes russos que chegaram à região e ajudaram a construir a identidade de Campina das Missões.

A presença dessa cultura pode ser percebida na religiosidade, na gastronomia, nas tradições, na arquitetura, nas festas, nos costumes e na própria memória das famílias que ajudaram a formar o município.

Entre os elementos apresentados está a presença da Igreja Ortodoxa Russa, instalada na região desde o início do século XX, além de personagens e descendentes que contribuíram para preservar essa herança cultural.

A reportagem também destaca a gastronomia e os costumes russos como elementos capazes de despertar o interesse dos visitantes.

É justamente aí que cultura e turismo se encontram.

Patrimônio que conta histórias

Campina das Missões possui algo que muitos destinos turísticos procuram construir: uma identidade própria.

O visitante não encontra apenas uma praça, uma igreja, uma festa ou um restaurante. Encontra uma história.

Encontra uma comunidade que preservou tradições de seus antepassados e que transformou essa herança em parte da identidade local.

A presença da cultura russa pode ser compreendida como um patrimônio vivo, que continua sendo praticado e transmitido pelas famílias.

E esse é um dos grandes valores do turismo cultural: permitir que o visitante conheça um território através das histórias de quem o construiu”.

FONTE: https://www.facebook.com/turismonoroestegaucho

Leia também matéria no site sobre Campina das Missões, RS.

www.neipies.com/campina-das-missoes-imigrantes-russos-no-rio-grande-do-sul/

Edição: A. R.

Entre o lixo e a esperança

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.  (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

Não é novidade para quem me conhece e comigo convive — seja no cotidiano, seja pelas notícias que velozmente correm através da fibra ótica — que tenho vivido triste e alegre nestes últimos meses. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

E se a tristeza tem suas razões, a alegria também tem nome e sobrenomes, rostinho bochechudo, olhar singular, corpo em pleno desenvolvimento, um pouco mais de um ano e meio de vida. Ela me chega através de um menino de um ano e sete meses, de riso fácil e emoção à flor da pele. Uma presença que pede colo, oferece carinho e distribui abraços capazes de alcançar o que há de mais precioso em um homem: a paternagem.

Talvez esse meu filho me leve ao meu próprio eu infantil e, desde lá, queira me devolver o sorriso. A vida é tão melhor perto dessas crianças: a que fui e a que agora me solicita com uma palavra tão pequena e um significado tão imenso: — Pai. Três letras, de uma extensão muito maior.

Mas, a vida também exige seus enfrentamentos. Quando nos atravessa de verdade, pede autoconhecimento e uma grande dose de coragem para o encontro mais difícil que podemos realizar: aquele autêntico face a face consigo mesmos, com nossas convicções, nossos medos, nossos fantasmas, nossas escolhas e os sentidos que nos movem.

Foi justamente nesse território entre o que sou, o que tenho sido e aquilo que ainda desejo ser que a vida me apresentou um improvável orientador: um viandante que se apresentou como morador de rua. Não sei seu nome. Talvez nem venha a saber.

Ele estava junto aos contêineres onde depositamos o lixo — ou, numa tentativa contemporânea de suavizar a palavra, os resíduos. Procurava ali aquilo que pudesse lhe garantir a sobrevivência daquele momento. E, entre uma olhada e outra, acabou encontrando também uma maneira de remexer em algo muito mais profundo: minhas próprias certezas.

Cumprimentou-me como se já me conhecesse. Falou do bairro, elogiou as pessoas que ali vivem, contou que limpa a calçada de um vizinho em troca de algum auxílio e, com simplicidade, ofereceu-me seus serviços.

Eu o escutei, interagi e agradeci. Disse que, se pudesse, o chamaria para realizar algumas tarefas no pátio e no terreno dos fundos da casa onde resido.

Mediante minha queixa econômica antes de retornar aos meus afazeres, ele me disse:

— Eu acredito em você. Não está fácil para ninguém, mas dias melhores virão.

A frase veio como um soco no estômago. Não pela dureza, mas pela força inesperada da esperança que carregava. Aquele homem, que buscava sua sobrevivência entre aquilo que descartamos, acabava de me oferecer algo que eu estava quase esquecendo que existia: fé na possibilidade de que as coisas possam ser diferentes.

Atravessei a rua e voltei à minha tarefa.

Separava a grama da erva daninha.

Mas, de algum modo, já não separava apenas plantas. Tentava distinguir, dentro de mim, aquilo que alimenta daquilo que sufoca; o que permanece daquilo que precisa ser arrancado; o danoso dos sentimentos das belezas que ainda insistem em renascer.

Depois, fiz mudas de folhagens e as plantei em troncos secos e já em decomposição que acompanham a calçada por onde acesso a porta de entrada de minha casa.

Enquanto minhas mãos preparavam a terra, ouvi meu orientador continuar remexendo os contêineres, acompanhado por músicas de cunho social. Uma delas dizia algo sobre um homem que morreu numa cruz.

E eu permaneci ali, entre a terra, os troncos secos, as pequenas folhagens e aquela voz distante, tentando compreender o significado mais profundo daquele acontecimento que, de algum modo, havia tocado minha alma.

Talvez a vida estivesse me ensinando sem precisar explicar.

O homem procurava vida entre os resíduos.

Eu plantava vida sobre aquilo que estava morrendo.

Ele me oferecia esperança.

Eu reproduzia folhagens verdes e resistentes.

Talvez não seja preciso destruir tudo para recomeçar. Às vezes, basta encontrar uma pequena muda, uma palavra, um encontro, um gesto, uma música, uma criança que nos chama de pai. E observemos bem! Há tanta beleza escondida em meio ao lixo que acumulamos dentro de nós. Há sentimentos que enterramos, lembranças que evitamos, culpas que carregamos, medos que alimentamos e sonhos esquecidos em algum canto da existência.

Mas há também sementes. Há sempre alguma.

Talvez seja por isso que o autoconhecimento sempre é processo desconfortável e doloroso: olhar para dentro não significa encontrar apenas aquilo que gostaríamos de encontrar. É preciso mexer no que apodreceu, reconhecer, separar, limpar e cultivar.

Renunciar a essa tarefa talvez seja uma das formas mais silenciosas de covardia.

Não sei onde aquele homem está.

Não sei se voltarei a encontrá-lo.

Talvez ele jamais saiba que, naquele dia, enquanto procurava alguma coisa entre os resíduos, deixou comigo algo que não estava dentro de nenhum contêiner: esperança.

E talvez também nunca saiba que, depois de ouvi-lo, plantei vida sobre madeira morta.

Ele, procurando algo que o ajudasse a atravessar mais um dia.

Eu, procurando compreender como atravessar os meus.

Ele remexendo os contêineres.

Eu remexendo a mim mesmo.

E, entre nós, uma certeza pequena, verde e resistente começando a nascer: a vida continuará esquentando e esfriando, apertando e afrouxando, sossegando e desinquietando. Talvez seja isso que ela queira da gente: coragem para continuar plantando. Mesmo em troncos secos. Mesmo depois da dor. Mesmo quando ainda não sabemos exatamente o que está nascendo e como se dará a colheita amanhã.

Porque, às vezes, a vida nos ensina sua maior lição nos lugares mais improváveis: há coisas que precisam morrer para que outras possam nascer.

E há encontros que duram apenas alguns minutos, mas permanecem dentro de nós por muito tempo.

Aquele homem eu não sei quem é. Mas sei o que deixou. Uma frase. Uma esperança. E algumas folhagens verdes e resistentes crescendo sobre troncos que, até então, eu julgava destinados apenas à decomposição.

Talvez seja essa a coragem de que fala Rosa.

A coragem de olhar para o que somos, reconhecer aquilo que precisa ser arrancado e, sobretudo, continuar plantando. Porque felizmente há um menino de um ano e sete meses me esperando em algum lugar da casa, talvez com os braços estendidos e uma palavra de três letras capaz de reorganizar a bagunça de meu mundo: — Pai!

Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “Desconectados, em rede”: www.neipies.com/desconectados-em-rede/

Edição: A. R.

Manifesto pela isenção política das igrejas

As igrejas não devem ser instrumentalizadas pela política. Em mais um período eleitoral no Brasil, destacamos e repercutimos este manifesto escrito por um cristão evangélico, que alerta sobre os perigos da mistura entre a manipulação da fé a favor da política.

“É inadmissível que o púlpito de um templo religioso seja usado para fazer aliciamento de eleitores, induzindo o voto num ou outro sentido, nas eleições que se avizinham, dado a ascendência moral que um padre ou um pastor tem sobre os fiéis. O púlpito não se presta a isso, pois, assim como o Estado Brasileiro respeita a liberdade de culto, as igrejas devem respeitar a liberdade política dos fiéis.

A política não deve entrar nas igrejas, porque política e religião têm propósitos distintos. Enquanto a política almeja o poder terreno, a igreja deve zelar pela pureza doutrinária, pelos dons do espírito e pela fé dos seus fiéis. 

Essas coisas não devem se confundir, pois isso acabaria por contrariar os próprios Evangelhos, os quais, se espera, um padre ou um pastor, mais do que ninguém, deve conhecer.

Veja, nesse sentido, o que disse Jesus, por exemplo, em João 18:36, quando Pilatos lhe inquire se ele é o rei dos judeus: “Meu reino não é deste mundo…” ou em Mateus 22:21, quando os fariseus lhe tentam com a questão do tributo, para colocá-lo em oposição ao domínio Romano: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, ou mesmo quando Jesus, em Mateus 6:24, no Sermão da Montanha, ensina ao povo: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas.”

Ainda mais explícito foi São Paulo, quando escreve, em Romanos 13, que devemos respeitar as autoridades constituídas, pois todas elas vêm de Deus.

Quando um padre ou um pastor, pois, durante o culto faz críticas ao governo constituído, às vésperas das eleições, induzindo seus fiéis a votarem em candidatos de uma determinada vertente política ou quando dá espaço a apenas candidatos de um lado para fazerem campanha em pleno templo, esse padre ou pastor está observando os ensinamentos dos Evangelhos? Mais: esse pregador está observando a Lei Eleitoral?

Sobre esse último ponto, aliás, o TSE recentemente se pronunciou ao considerar abuso do poder político usar da estrutura das igrejas para fazer campanha para um ou outro lado. Por menos que isso, empresários foram punidos no pleito passado por constrangerem seus empregados a votarem em determinados candidatos.

Não é ainda mais grave quando um líder espiritual, desfrutando da fé e da confiança das pessoas, faz, em pleno culto, manifestação em desfavor do atual governo, em benefício aos seus opositores políticos, às vésperas das eleições?

Cabe, pois, que as igrejas se abstenham de entrar nesse tema durante as suas celebrações e as autoridades investiguem se há alguma diretriz nacional em sentido contrário, pois tal conduta, além de contrariar os ensinamentos dos Evangelhos, pode caracterizar crime de assédio moral, quando não, crime eleitoral de abuso do poder político, em detrimento da lisura das eleições e da boa prática cristã”.

Assinado: Um evangélico.

Edição: A. R.

Quando a soberania de um povo corre perigo

Ao mandar devolver a César a moeda que traz sua efígie, Jesus assegura aos hebreus a sua pertença a Deus, o que equivale a afirmar sem meias palavras a sua soberania cultural, existencial e espiritual. E estas palavras adquirem especial relevância no contexto das nossas disputas eleitorais.

Três dos quatro evangelhos narram a cena polêmica que envolve Jesus e as autoridades, e termina com uma sentença: “Devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12,17).

A interpretação mais comum ensina que, com esta sentença, Jesus separa radicalmente a fé cristã e a política. Na verdade, é uma contundente afronta ao poder invasor dominador do império romano e uma defesa da soberania do povo judeu.

A aceitação da legitimidade do imposto seria o reconhecimento do domínio romano sobre o povo de Deus e a negação da sua soberania. Ao mandar devolver a César a moeda que traz sua efígie, Jesus assegura aos hebreus a sua pertença a Deus, o que equivale a afirmar sem meias palavras a sua soberania cultural, existencial e espiritual. E estas palavras adquirem especial relevância no contexto das nossas disputas eleitorais.

Segundo a Constituição de 1988 (Art. 1º), a República Federativa do Brasil tem como fundamento e base a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A ausência ou o atentado contra qualquer um desses fundamentos coloca em risco a estabilidade da República e pode ser qualificado como ameaça à soberania e à dignidade do povo brasileiro.

Antes e para além de eventuais polêmicas eleitorais, tenhamos claro que o Magistério católico reconhece de forma inequívoca a importância da soberania dos povos, pois ela é expressão do respeito que deve regular as relações entre os Estados. A soberania é a subjetividade de uma nação sob o aspecto político, econômico e também cultural, uma espécie de extensão dos direitos humanos (Compêndio de Doutrina Social, § 435).

Podem os cristãos católicos, que são também cidadãos brasileiros, aceitar passivamente as movimentações e maquinações de agentes políticos para facilitar ou pedir a ingerência de outras nações em decisões próprias das nossas instituições? Não seria o caso de “dar a elas o que é delas” e de um levante popular contra estes senhores, de levar isso em conta nas eleições e de chamar as instituições democráticas à ação que lhes corresponde?

É claro que Jesus não se identificou com um grupo político específico, e é verdade que os cristãos não podem fazê-lo em nome da fé. Mas Jesus Cristo não se omitiu nem se acovardou quando se tratou de defender a soberania dos seus conterrâneos e de todos os grupos que tinham sua dignidade ameaçada pelas elites nacionais ou pelos poderes externos. E, aqui, os Jesuítas fizeram o mesmo para defender os povos nativos.

Autor: Dom Itacir Brassiani msf. Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul (Artigo semanal 30/07/2026). Também escreveu e publicou no site “Os pobres devem estar no coração da vida cristã”: www.neipies.com/os-pobres-devem-estar-no-coracao-da-vida-crista/

Edição: A. R.

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