A pressão para enquadrar o outro na nossa “teoria”

Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás. Por isso, vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.

De começo já digo: todos nas nossas relações somos, de certa forma, terapeutas uns dos outros.

Dias atrás, palestrando na Liga de Psiquiatria com a presença de alunos das três faculdades de medicina de Passo Fundo: UPF, ATITUS e UFFS, lembrei do livro “Com a besta na barriga e outras histórias”, de Alberto Stein e Ana Lucia Salgado.

Nele, Alberto conta que costuma perguntar a seus alunos: entre as profissões, qual a que se assemelha mais a de um terapeuta? A resposta de Alberto é: a do Alfaiate: “A pessoa que faz as roupas com as medidas de cada um. Assim como somos únicos, a terapia deve ser específica às necessidades de cada um”.

Já havia ouvido de outro colega, Paulo Sérgio Rosa Guedes, que a “técnica é o paciente”.

Enfim, somos muitos os que pensam assim.

Por isso, levei na Liga de Psiquiatria o caso de uma paciente que apresentava uma depressão de leve a moderada. Segundo a American Psychiatric Association, casos assim podem ser tratados com antidepressivos em associação a uma das técnicas psicoterápicas. Qual das técnicas?

Sugeri aos alunos que obtivessem treinamento em psicofarmacologia e em algumas técnicas psicoterápicas. Assim, poderão oferecer ao paciente as opções de tratamento para o seu caso e, como um “alfaiate” ver com ele aquela que corresponde as suas “medidas”.

E mais, vamos nos permitir ser criativos ao aplicá-las.

Em seu livro, Alberto lembra do mito do Divã de Procusto.

O gigante recebia bem seus convidados, mas levava-os a se deitar em uma cama de ferro. Se menores que ela, ele os espichava.

Se maiores, ele os recortava: “Trata-se de uma Síndrome de Intolerância e as ditaduras são um exemplo perfeito disto. Sejam elas políticas ou de escolas terapêuticas. Em terapia, a síndrome aparece em esquemas rígidos de pensamentos, onde pacientes são colocados em camas emocionais que não refletem as suas individualidades e unicidades”.

E o paciente que já enfrenta seus problemas, por isso foi consultar, passa a enfrentar outro: a pressão do terapeuta para enquadrá-lo na teoria dele.

Na vida fora das terapias também pois todos em nossos relacionamentos influímos uns nos outros. Somos um pouco terapeutas uns dos outros. Damos opiniões, conselhos, sugestões. Fazemos críticas pela frente ou por trás.

Por isso vale também para quem não é terapeuta ser “alfaiate”.

Respeitar o outro inicia pelo respeito a sua história de vida. Em vez de desfazê-la, salientar as belezas encontradas nela.

A propósito, o livro “Com a besta na barriga e outras histórias” é da editora Bestiário de Porto Alegre.

Autor: Jorge A. Salton. Completa 50 crônicas suas publicadas no site. Também escreveu e publicou no site “Psicólogos e psiquiatras gostam de olhar pela janela”: www.neipies.com/psicologos-e-psiquiatras-gostam-de-olhar-pela-janela/

Edição: A. R.

Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

“Ela não denunciou porque gosta de apanhar”; “ela provocou a violência”; “ela exagerou, não obedeceu”; “foi por causa da roupa curta e insinuante que é um convite, ninguém resiste”; “ela falou demais e tirou ele do sério”; “eles não resistem as novinhas”; “ela provocou, sensualizando”, “o que estava fazendo naquele lugar há uma hora dessas?”.

Frases com estas acima são frequentemente expressas pelo senso comum, tentando explicar e justificar as práticas dos agressores. Todas elas foram retiradas das redes sociais em publicações sobre violência contra a mulher.

Desse modo, mulheres são agredidas, abusadas sexualmente e assassinadas nas mais diversas idades e contextos. São inúmeras as ocorrências, mas, uma em especial, foge de todos os padrões de perversidade.

A notícia de uma religiosa de 82 anos, morta em fevereiro deste ano em um convento no Paraná, após ser vítima de estupro, numa tarde de sábado, não encontra respaldo em qualquer das afirmações apresentadas acima: nem na roupa que usava, nem na sensualidade que exibia, nem na sua idade que possuía, muito menos na hora e no lugar em que se encontrava. Portanto, o horror não tem limites.

Veja e relembre: https://www.instagram.com/p/DVGouABEWzP/

De acordo com pesquisa divulgada no início de março de 2026, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de feminicídios vem aumentando a cada ano em nosso país. Em 2015, foram 449 casos e em 2025 bateu recorde histórico com 1.568 casos, representando alta de 349% em uma década.

A mesma pesquisa mostra que 8 em cada 10 casos de feminicídio no Brasil são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Dos 5.729 casos ocorridos entre 2021 e 2024 aponta que 62,6% eram mulheres negras e 36,8% eram brancas. Portanto, também nesse tema o recorte racial denuncia as históricas desigualdades estruturais.

No Rio Grande do Sul, a escalada da violência contra as mulheres também vem crescendo. Segundo informações publicadas no Jornal Brasil de Fato, nos primeiros três meses de 2026, o estado registrou 27 feminicídios, um aumento de 68,75% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 16 mortes.

No Brasil, o assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres, recebeu a classificação de feminicídio em 9 de março de 2015, com a sanção da Lei 13.104.

Este dispositivo legal, conhecido como Lei do Feminicídio, inclui o referido ato no rol dos crimes hediondos. No sentido jurídico e moral, matar é um horror. E matar mulheres pela condição feminina, por supremacia machista, por ódio ou por qualquer outro motivo, é a face mais extrema deste horror que precisa ser combatido por todos o tempo todo e em todos os lugares.

O machismo é um elemento constituinte do nosso caldo histórico, ligado ao escravismo, ao patriarcado, à misoginia, à submissão feminina e ao patrimonialismo. Tudo isso, somado, resulta na produção da violência em diferentes níveis, modalidades e gravidades. O que causa ainda mais temor é a banalização da violência e da barbárie, dando a impressão de que não é possível interromper esse ciclo.

A Lei do Feminicídio, a Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) e outras são muito importantes no enfrentamento à cultura machista e violenta, mas não são suficientes. O combate ao feminicídio exige ação coordenada do Estado, responsabilidade dos homens e compromisso permanente da sociedade com a vida das mulheres e de todas as pessoas.

Nenhuma vida vale menos. Todas valem ser cuidadas, preservadas e promovidas. Em se tratando das mulheres, que são portais de vida, deveriam ser ainda mais protegidas.

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

Informar, orientar, denunciar e punir são medidas necessárias, mas também ainda insuficientes. Para além disso, é fundamental formação para prevenção, cultivo de afetividades sadias, espaços para diálogos saudáveis sobre relacionamentos. A construção de uma cultura do respeito, do cuidado e da paz são princípios que precisam ser fortalecidos para enfrentar o feminicídio e todas as formas de violência e barbárie. Essa causa é urgente! E é de todos nós!

Autora: Vania Aguiar Pinheiro. Mestra em Ciências Humanas e Neuropsicopedagoga. Também escreveu e publicou no site “Entre o progresso e a esperança”: www.neipies.com/entre-o-progresso-e-a-esperanca/

Edição: A. R.

Romaria de Nossa Senhora Aparecida é Patrimônio Cultural Imaterial em Passo Fundo

Quando reconhecemos como Patrimônio não somente aquilo que é físico, mas também aquilo que é intrínseco da população, valoriza-se a cultura e a história da cidade. Diante do exposto e da importância dessa história viva, que faz parte da criação de nosso município, a Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo reconhece a Romaria de Nossa Senhora Aparecida como um Patrimônio Cultural Imaterial do Município.

 “Em aprovação unânime na Câmara dos Vereadores de Passo Fundo, a Romaria de Nossa Senhora Aparecida, uma das mais tradicionais manifestações religiosas e populares do Norte do Rio Grande do Sul, agora faz parte oficialmente do Patrimônio Cultural Imaterial de Passo Fundo.

A proposição, apresentada pela vereadora Eva Valéria Lorenzato, na sessão de segunda-feira (25) valoriza uma trajetória iniciada ainda no começo da década de 1980, quando padres da então Diocese de Passo Fundo idealizaram um movimento de fé em homenagem à padroeira do Brasil. Em 1981, ocorreu a primeira edição da Romaria Diocesana de Nossa Senhora Aparecida, reunindo fiéis em um percurso de cerca de um quilômetro. O que começou de forma simples transformou-se, ao longo das décadas, em uma das maiores romarias do país.

Hoje, a celebração reúne milhares de pessoas vindas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul e até de outros estados, consolidando-se como um dos símbolos mais fortes da religiosidade popular e da cultura passo-fundense.

Reconhecimento ultrapassa a dimensão religiosa

Para o padre Daniel Rodrigo Feltes, o reconhecimento representa um marco histórico para a cidade e para a própria trajetória do santuário. Segundo ele, a Romaria está profundamente ligada à história do Seminário Nossa Senhora Aparecida, que em 2027 completará 50 anos de inauguração.

O sacerdote relembra que a devoção à Nossa Senhora Aparecida foi incentivada desde a criação do seminário e que, aos poucos, as celebrações religiosas deram origem à procissão e ao grande movimento popular que hoje caracteriza a Romaria. “O reconhecimento demonstra que um povo não é constituído apenas de elementos materiais, mas também daquilo que possui significado simbólico para sua população”, destaca.

Padre Daniel enfatiza ainda que, embora tenha origem na Igreja Católica, a Romaria transcendeu os limites da religião e tornou-se um patrimônio afetivo da cidade. Durante a votação do projeto, vereadores de diferentes crenças manifestaram apoio à proposta, reforçando o entendimento de que o evento faz parte da identidade cultural do município.

Ele compara a Romaria a outros grandes movimentos culturais de Passo Fundo, como o Festival do Folclore e a Jornada de Literatura, eventos que marcaram a história da cidade, ressaltando que a celebração também se tornou um elemento de pertencimento coletivo.

Uma manifestação que mobiliza multidões

Popularmente reconhecida como a segunda maior Romaria em honra à Nossa Senhora Aparecida do Brasil, a celebração já reuniu, em alguns anos, mais de 200 mil pessoas no entorno do santuário. Mesmo após a pandemia, quando houve redução do público concentrado em um único dia, o movimento segue mobilizando milhares de fiéis ao longo de todo o mês de outubro.

Em 2026, a Romaria chegará à sua 45ª edição. A organização dos preparativos já está em andamento e envolve um amplo trabalho coletivo. De acordo com o padre Daniel, mais de 300 voluntários atuam diretamente durante os dias de celebração, além de dezenas de colaboradores que auxiliam antes e depois do evento.

Patrimônio da cultura popular

Autora da proposta aprovada no Legislativo, a vereadora Eva Valéria Lorenzato afirma que o reconhecimento oficial fortalece a preservação de uma tradição construída coletivamente pela população ao longo de mais de quatro décadas.

Para ela, a Romaria representa um dos maiores encontros de fé e cultura popular do município. “A aprovação demonstra a importância que esse evento possui para Passo Fundo. É um momento de encontro das famílias, de devoção, de agradecimento e também de esperança”, afirma.

A parlamentar também destaca que a Romaria nasceu de forma simples, a partir da iniciativa de padres e moradores da comunidade, e se transformou em um dos maiores eventos religiosos do Sul do Brasil.

A vereadora também defende que o reconhecimento como patrimônio imaterial amplia a responsabilidade do poder público na preservação e qualificação do evento. Entre os pontos destacados estão a necessidade de segurança, infraestrutura e suporte ao longo do trajeto percorrido pelos romeiros”.

FONTE: https://www.onacional.com.br/cidade,2/2026/05/26/projeto-de-lei-transforma-romari,132577  (Por Luciano Breitkreitz)

Justificativa apresentada na tramitação da proposição da vereadora Eva Valéria Lorenzato

Ainda em 1980, no dia 12 de outubro, fora autorizada pelo então presidente do Brasil a realização de uma festa em devoção à Aparecida. No ano seguinte, em 1981, é realizada, então, a 1ª Romaria Diocesana de Nossa Senhora Aparecida, com um trajeto de cerca de 1km. O evento, que nasceu como uma movimentação simbólica e enxuta da fé dos passo-fundenses pela imagem de Nossa Senhora, hoje, quatro décadas depois de sua primeira edição, consolida-se como a segunda maior romaria para a imagem sacra do país.

Com um trajeto de 6,5km até o Santuário, a Romaria de Nossa Senhora Aparecida deixa de ser um evento de 200 devotos a passa a reunir milhares de romeiros da cidade, região e estados próximos. Além de uma manifestação da fé e espaço de expressão dos fiéis, a Romaria consagra-se como um marco da cidade de Passo Fundo, uma projeção do município para os demais centros culturais e religiosos do país.

Assim sendo, destaca-se a importância em considerar o evento como nosso Patrimônio, uma vez que fortalece a identidade daqueles que o compõem e reforça a importância daqueles que o fazem acontecer.

Quando reconhecemos como Patrimônio não somente aquilo que é físico, mas também aquilo que é intrínseco da população, valoriza-se a cultura e a história da cidade. Diante do exposto e da importância dessa história viva, que faz parte da criação de nosso município, propõe-se a referida lei, possibilitando, assim, a Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo reconhecer a Romaria de Nossa Senhora Aparecida como um Patrimônio Cultural Imaterial do Município. 

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal Vereadora Eva Valéria Lorenzato

Vereadora Eva Valéria Lorenzato na tribuna:  Registro Amanda Peres/Divulgação Câmara de Vereadores de Passo Fundo.

Edição: A. R.

Diário de Maria Cecília: por que quando os filhos partem de casa sentimos vontade de voar…  com ou sem eles?

Ela esperou sair do shopping assim que viu o tempo se armar pelos céus, assustador, mais vento que tormenta, para caminhar e chorar um pouco. Na chuva, todas as lágrimas têm menos valor.

Não era pelo sapato.  Mas porque teria de pedir, pedir novamente, pedir todos os meses. O vestido, ela estava liberada para comprá-lo. Mas aí surgiu um sapato.

Depois dos 40, com filhos encaminhados, ter sempre de pedir, era o comprovante de que o seu destino não lhe entregara os seus anseios por completo. Atrás de um fogão ou de uma máquina de lavar, os sonhos podem ser adiados pelo dia.  Mas os anos vão açodando as vontades e basta sair à rua, dar uma volta, para ver que o mundo dilata nossas expectativas e o nosso olhar não se conforma mais com nossas melhores aspirações. Se houver algumas delas ainda em curso, claro.

Aos 60 anos, ficamos conformadas com livros e silêncio.  Aos 40, ainda não.

Muitas mulheres, mesmo após o êxito em seus lares, com filhos já de asas abertas, maridos felizes, sim, muitas delas tem agora a vida pela frente. Mas é outra vida; basta ter saúde e não ter se apequenado em seu antigo papel de rainha do lar, que há uma explosão de vida e vontades em gestação.

Como enfrentar desejos e propósitos se a sua renda está no bolso do seu marido? Como ir à academia sem ter que pedir? Como viajar com algumas amigas, sem ter que pedir, e pedir, e pedir…

Daí seu choro quando lembrava do que as suas amigas falaram:  _você poderia estar aqui com a gente.

Claro. Cruzaram a vida de um outro jeito, nem melhor ou pior, mas hoje são livres. Mesmo que somente para uma viagem.  Uma psicóloga, outra arquiteta, uma outra…

Maria Cecília não quis levar adiante e trancou sua faculdade para casar-se; tornou-se invisível, sem tempo para o espelho.

_Depois eu concluo, dizia.

Nunca mais…

Preferiu um lar, no entanto. Um marido que nada lhe negava; bastava pedir.

Os filhos, os amigos dos seus filhos, a família que sempre parecia mais numerosa em dias de chuva, o marido, tudo foi virando prioridade.

Ela ficou para depois.

Tardes inteiras a sós pela casa. Enquanto seus filhos estudavam e cresciam, seu marido trabalhava e crescia, dias inteiros sozinha pela casa arrumada, gastando horas passando roupas, corroendo seus dias em uma perfeição que duraria até o anoitecer. Ao retorno de todos.

O encantamento de um lar perfeito, com todos almoçados e jantados, roupas arrumadas à perfeição, como num círculo infinito… Olhando pela cozinha arrumada assistia a sua própria formatura; a formatura dos despercebidos.

Enquanto chegavam flores vermelhas no seu aniversário, tudo fluía ao sabor das mesmas manhãs, mesmas tardes, na interminável tarefa de construir o que nunca será reconhecido. Um dia, as flores não vieram. Seu marido esqueceu.

_Volte a estudar?  É o conselho que as suas amigas lhe deram, quando de seu retorno, em meio a fotos e almoços espetaculares neste último cruzeiro.

_ Estudar agora?  -Ahh, nem pensar.

_Poderia ter viajado com elas, pensava.  Em Montevidéu, caminhando e sorvendo um mate diferente, suas amigas, agora três, porque eram quatro, viviam um pedaço de vida inesquecível.

 _E fazer docinhos para fora, o que acha Cecília?  _Tem muitas.

 _Crochê?  _Ninguém mais quer.

Quando moça, seu sonho era ser professora.  Ela pensava em seus alunos às pencas pelo pátio gritando, suas colegas de alegria e infortúnio, em um mundo a descobrir todos os dias, a conquistar e a contestar.

_ Ainda daria tempo, uma de suas amigas a lembrou, avisando, contudo, que pode demorar um pouco para se perceber mais infeliz.

Imaginava vender lingeries vermelhas de porta em porta. Fazer marmitinhas pela semana, ser vendedora de loja de shopping, aprender uma nova língua pela internet, saber avaliar produtos nas redes; ficou até encantada ao ouvir uma tal de IA. _ Será que ela não pode me salvar?

Mas assim que o João Alfredo soube de suas pretensões ficou furioso.

_ Nada falta a você, mulher!  Foram tantas vezes que Cecília ouvira isso.

_ Pense na alegria em vivermos juntos, somente nós, com os filhos formados. Justo agora, na sua idade, você querer trabalhar?  Tudo o que você me pede eu sempre dou…

_E o que eu não peço, por quais razões não tenho recebido, respondeu.

_Virou respondona, devolveu o seu Alfredo.

_Não, ainda não virei. Mas agora que a lavanderia está fechando e os botões do fogão estão ficando gastos como a ponta dos meus dedos, preciso ter a minha renda.

Chegou uma exigência nova à mesa de jantar.  É que depois de uma certa idade, com muitos desejos aparentes, os outros veem com desconfiança.

Cecília sabia no que se tratava – em viver a sós.  Como em quase todas as situações, viver a sós se traduz em uma pessoa sentada no sofá e a outra, servindo.

_Que estranho sentimento eu tenho, sussurrava a si mesma, olhando a fruteira avermelhada sobre a mesa: laranjas e maçãs já muito maduras.

Não poderia nesta estrada haver tantos buracos!

Mas será que eu não tenho o direito de cansar? De largar tudo e ser apenas meia de mim. Isso porque a outra metade já deixei na área de serviço e na mesa de jantar, limpando e cuidando a todos por 20 anos.

Só queria poder comprar um par de sapatos vermelhos, sem pedir a ninguém, com todo o direito de errar na compra. Levantar-me às 11h sem ser julgada. Assistir séries seguidas na Netflix, sem fazer xixi. Queria ir à padaria da esquina, a sós, sentar-me em sua calçada e fumar um cigarro, para espanto de mim mesma, sem que isso pareça uma sentença de fim de mundo.

O João é ótimo, meus filhos são maravilhosos, adoraria meus netos…

Mas será que este desejo, em querer a minha outra metade de volta, não vai passar?

Continua…

Autor: Nelceu Zanatta. Já escreveu e publicou no site “A mudança nunca virá pelo espelho: virá dentro de você”: www.neipies.com/a-mudanca-nunca-vira-pelo-espelho-vira-dentro-de-voce/

Edição: A. R.

Precisa de arte para ser professor

O cenário do trabalho docente permite concluir que ao professor, embora não esteja tipificado, não é conferido espaço para escrever/publicar textos de sua autoria. É um impedimento tácito, pois decorrente das circunstâncias estabelecidas.

Logo, nos primeiros anos, como professora, além de adquirir experiência na arte de ensinar arte, entendi que a prática pedagógica não nasceu para ser réptil, mas pássaro. Era a sinalização para fazer um pouco mais, qual seja, espalhar os conteúdos e minha pratica docente, para além da sala de aula.

Passei então a fazer um rol de assuntos, em uma caderneta que carregava na bolsa. Assim, toda vez que tinha um lampejo, anotava. Com esse acervo, eu daria efetividade aos meus planos de redigir textos e distribuí-los entre meus colegas e nas demais escolas. Após, os publicaria em um jornal e, a longo prazo, publicaria um livro de crônicas com os mesmos assuntos.

Eu estava motivada, pois os assuntos eram de relevante importância para a comunidade em geral.

Eu mostraria a todos o quanto é impactante, para o futuro dos jovens, estudar arte, pois conhecer seus períodos, suas características e respectivos autores implica entendimento detalhado dos fatos mundiais e suas consequências. História factual e arte são manas gêmeas que seguem caminhando lado a lado.

Eu mostraria a todos que a arte, em quaisquer de suas expressões, interage com o espectador, porque esse não é passivo, mas estimulado a refletir e a se emocionar. Em especial, eu dividiria com meus pares as experiências/atividades que tocaram os alunos de forma positiva.

Enfim, o rol se alongou por diversas páginas da caderneta. Eu tinha muitas ideias e as espalharia por aí como pó de giz ao vento.

Contudo, ao tentar redigir os primeiros textos me deparei com a dura realidade: a demanda escolar. Essa tem pouco a ver com o que se aprende na faculdade.

O estudo formal da didática, da pedagogia, e dominar os conteúdos da sua área de conhecimento é apenas 50% daquilo que um professor tem que dar conta dentro de uma escola. Ingressar no magistério implica abraçar um pacote apinhado de desafios que, ironicamente, nada tem a ver com o processo ensino-aprendizagem. Atividades essas que variam entre servir à burocracia que emburrece o ensino, até fazer cartazes para enfeitar a escola. Destacando que esses encargos não constam no edital de concurso.

Essa realidade acarreta ao professor, necessariamente, uma disponibilidade de 24h ao dia, incluindo os finais de semana.

Desse cenário se extrai a conclusão de que, ao professor, embora não esteja tipificado, não é conferido espaço para escrever/publicar textos de sua autoria. É um impedimento tácito, pois decorrente das circunstâncias estabelecidas.

Essa conjuntura é o apagador que deixa riscos indeléveis nos sonhos do professor. A gente perde, sim, mas concomitante a isso, a conjuntura escolar/social deixa de ganhar.

Inconformada com aquele espaço pequeno, no qual me ajustava para atender a demanda escolar, assim que me vi aposentada, assumi a advocacia e, concomitante a isso, uma página no jornal como cronista.  Nesse novo contexto passei a escrever e publicar muito. Comentava as leis novas, relatava ações díspares ou audiências hilariantes.

Atualmente sigo escrevendo para qualificar minha própria voz literária, mesmo porque, na aposentadoria, escrever, divulgar experiências e publicar textos tem sabor de recreio.

Leia também: www.neipies.com/por-que-boas-praticas-educativas-nao-sao-reconhecidas-como-elementos-potentes-para-melhoria-da-educacao-basica/

Autora: Maristela Lopes de Lima, membro da SPV (Sociedade dos Poetas Vivos)

Maristela sempre se encantou com qualquer forma de arte e, naturalmente, escolheu ser professora de educação artística para distribuir a magia da expressão, fosse através das cores, dos movimentos ou da música. Atualmente aposentada, sua principal atividade é escrever literatura.

Edição: A. R.

Quem não se comunica se trumbica!

Lei nº 15.263, de 14 de novembro de 2025 – Institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todos as pessoas.

O velho bordão do Velho Guerreiro Chacrinha – os mais jovens não devem saber quem foi José Abelardo Barbosa – com seu inigualável “Cassino do Chacrinha” continua atual segundo leituras minhas.

Era na Globo. Se você comparar ele com o atual Mion, nas tardes de sábado, vai se fazer muitas perguntas. Quem sabe buscar algo no youtube e pensar.

Foi o que fiz para falar de COMUNICAÇÃO recentemente. Ele não se “trumbicava”, porque falava de forma simples, acessível, e o povo gostava. Não tinha mau humor.

Recentemente, o CNJ – Conselho Nacional de Justiça – instituiu o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples para eliminar o uso de “juridiquês”. O objetivo é tornar decisões judiciais, documentos e o atendimento ao público mais claros, diretos e acessíveis a todo cidadão, garantindo o direito à informação e facilitando o entendimento da Justiça.

Vejam:https://www.cnj.jus.br/gestao-da-justica/acessibilidade-e-inclusao/pacto-nacional-do-judiciario-pela-linguagem-simples/referencias-normativas/

Já a Lei nº 15.263, de 14 de novembro de 2025 – Institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todos as pessoas.

Dias atrás em uma audiência pública sobre o Plano Diretor um sujeito abre o evento, dizendo: “Vamos tratar aqui de “recuo de jardim”, “volumetria”, “área permeável”, etc etc.

Entendeu?

Pois então, como disse há dias atrás numa entrevista: “a Lei passou meio distante da população e da imprensa corporativa”. A Lei da Linguagem Simples, publicada no Diário Oficial da União no dia 17 de novembro, tenta nos ajudar.

Creio que ainda teremos um grande caminho pela frente.

CONGRESSO

Por isso, estou na articulação do 1° Congresso Gaúcho de Comunicação Pública https://www.1congressogauchodecomunicacaopublica.com/

Um dos painéis do mesmo será exatamente sobre o tema da chamada comunicação simples.

Neste painel pretendemos que os cidadãos consigam encontrar, entender e usar as informações publicadas pelos órgãos e entidades da administração. Torna obrigatório que órgãos públicos se comuniquem de forma clara, objetiva e acessível com os cidadãos, usando técnicas como frases curtas, palavras comuns e recursos visuais para facilitar o entendimento e o acesso à informação.

A palestra será de Maria José Finatto que vai nos conduzir para transformar linguagem burocrática em texto que o cidadão compreende, metodologia premiada pelo Google. Finatto é doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

Já Daniela Machado vai nos conduzir para identificar, barrar e corrigir desinformação antes que ela comprometa a credibilidade da sua instituição. Pois, em tempos de “fake News”, manipulações, mentiras e falsificação histórica é essencial informar com verdade, precisão e simplicidade.

Daniela é jornalista e especialista em Letramento Digital (EUA). Coordenadora do EducaMídia. Foco em Integridade da Informação e curadoria responsável de conteúdo.

E por que razão falar de “comunicação pública”?

O Congresso pretende ser inédito e ousado, porque em geral se fala genericamente de comunicação, esquecendo-se de que a comunicação pública é  estatal e não estatal.

Sandra Bitencourt vai começar a conversa do dia para mostrar como a imagem pública de uma instituição se constrói e desmorona, nos momentos de instabilidade política.

Sandra é doutora em Comunicação (UFRGS). Jornalista e Pesquisadora. Assessora do Tesouro do Estado (RS).

E aí vem a crise e no geral junto o caos. Por isso, vamos ouvir Soraia Hanna para não perder tempo e nos dizer o que fazer nas primeiras horas de uma crise: protocolos testados em quatro governos estaduais.

Soraia Hanna é autora do livro “Gerindo crises, construindo reputação”. É também sócia da empresa Critério.

Como neste mundo liquido estamos todos navegando nas águas muitas vezes turvas da Internet, estamos trazendo Rodrigo Abella para nos dizer como medir o que realmente importa: diagnóstico de maturidade digital e os indicadores que revelam se a comunicação está blindada ou exposta.

Abelha é diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

Em não sendo possível ouvir especialistas nas três esferas de poder estatal, optamos pela vinda do representante da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação, Leandro Rolim. Vai nos falar de como a TV 3.0 e a mídia pública nacional podem ampliar a voz da sua instituição além das redes sociais.

Falar de mídia pública, é obrigação falar de dados, de segurança, de transparência. Por isso, Gustavo Ferenci nos falará de como usar transparência e LGPD como instrumentos ativos de legitimidade, não como obrigações a cumprir.

Ferenci é presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios.

CONGRESSO – PRESENCIAL E ON LINE

O 1° Congresso gaúcho de comunicação pública será realizado de forma presencial em Porto Alegre e on line no dia 1° de junho de 2026.         

Será no Auditório da AIAMU, no 8° andar do Edifício Santa Cruz, o mais alto do Centro Histórico, na “Rua da Praia”, ou seja, Rua dos Andradas, 1234.

A referência além da altura é que tem no térreo uma Panvel.

ESG

Em tempos de preocupações com o meio ambiente, os temas sociais e a governança, o Congresso buscou um local com fácil acessibilidade, com uma “pegada ESG” real.

Os resíduos terão o devido destino para uma entidade de reciclagem, a alimentação além de saudável – sem lactose, sem glúten, virá da economia solidária, de agroindústria familiar, de entidades sociais.

O evento terá acompanhamento de uma arquiteta especializada em acessibilidades para pessoas idosas e PCDs.

Haverá uma COLETA DE LIVROS para doação a uma biblioteca.

APOIOS E PATRICÍNIOS

Além do apoio de entidades de classe da área da comunicação – ARI, SINDIJOR – o evento conta com o apoio da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL– CEF -, CORSAN, CRITÉRIO, Associação dos fiscais de tributos/AIAMU, APMPA-Associação dos Procuradores, Governo do Estado, Assembleia Legislativa.

Leia também: www.neipies.com/quem-nao-se-trumbica-se-comunica/

Autor: Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Sobre o envelhecer”: www.neipies.com/sobre-o-envelhecer/

Edição: A. R.

Autoridade Docente Perspectiva Dialética-Libertadora

Autoridade é a capacidade de fazer-se autorizado pelo outro, para que, mediante seu reconhecimento, possa com ele interagir. É, portanto, um gesto de humildade, de bater à porta do outro e perguntar “posso entrar, podemos conversar?”. A Autoridade Docente não é uma função formal ou abstrata, e sim situacional, intencional e relacional.

1. Autoridade Docente é a capacidade, socialmente reconhecida e eticamente fundada, de assumir a responsabilidade pelo processo educativo, a fim de que a escola cumpra sua função social de propiciar as condições para a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno –na perspectiva do bem comum–, e a alegria crítica/docta gaudium, de cada um e de todos os educandos, com a intencionalidade de compreender o mundo, usufruir da herança cultural da humanidade e transformar a realidade.

2. Essa legitimidade ancora-se em referenciais pedagógicos, jurídicos e institucionais, como a Ciência Pedagógica, a Constituição Federal, a LDB, as Diretrizes Curriculares, o Projeto Político-Pedagógico, o Projeto de Ensino-Aprendizagem, o Plano de Aula/Unidade, o Regimento Escolar e o Combinado/Contrato Didático em Sala de Aula.

3. Manifesta-se no empenho consciente e crítico de criar condições para fortalecer, acordar/despertar, favorecer a emergência, estimular, inspirar, ajudar a mobilizar o Desejo e/ou a Necessidade no outro, reconhecido como legítimo outro, de se apropriar de conhecimentos, habilidades e atitudes, em consonância com uma intencionalidade emancipatória.

Neste sentido, autoridade é a capacidade de fazer-se autorizado pelo outro, para que, mediante seu reconhecimento, possa com ele interagir. É, portanto, um gesto de humildade, de bater à porta do outro e perguntar “posso entrar, podemos conversar?”. A Autoridade Docente não é uma função formal ou abstrata, e sim situacional, intencional e relacional.

4. A Autoridade Docente concretiza-se pelo estabelecimento de Limites e Possibilidades tendo em vista atingir conscientemente objetivos (razão de ser ou justificativa, que dá sentido aos limites e possibilidades), tendo por base os Vínculos, especialmente afetivos, criados entre Educador-Educando e Educando-Educando.

5. A Autoridade Docente tem como horizonte o desenvolvimento da Autonomia Crítica do educando. Isso significa, entre outras coisas, que traz em si sua própria negação, o intento de se tornar dispensável, pelo menos a partir de determinado momento e em um determinado contexto.

Afinal, a Autoridade Docente não é eterna –tem de ser atualizada, exercida enquanto necessária–, nem universal –não vale para todas as situações.

Nesta medida, autoridade (do latim auctoritas, que vem de auctor, “aquele que faz brotar”, e este do particípio passado auctus, do verbo augere: aumentar, fazer crescer) é também a capacidade de criar condições para que o outro se faça autor, desenvolva a potência de seu próprio ser.

6. Implica o respeito, o reconhecimento, o acolhimento profundo, o engendramento, a abertura a novos possíveis, mas também o limite, a interdição, a capacidade de dizer não, a norma, o não ter medo de ser adulto (por confundir com autoritarismo), o responder pelos elementos significativos da cultura, tudo isso de acordo com a situação e o objetivo (o plano de ação, que vai guiar a mediação, é fruto da tensão entre a realidade e a finalidade).

7. A Autoridade Docente exige postura crítica e autocrítica, competência técnica conectada com sensibilidade, acolhimento genuíno da diversidade, e inteligência epistêmica: profundidade para identificar o que é essencial, potencialmente significativo, conceitos estruturantes/ alfabetizadores nas diferentes áreas do conhecimento, pautado na busca de totalidade, historicidade, criticidade.

Do ponto de vista didático, demanda conhecimento da realidade/contexto do ensino, clareza dos objetivos específicos, seleção e organização dos saberes, metodologia (incluindo o cuidado com a mobilização (desejo e/ou necessidade) do aluno para a aprendizagem, com sua atividade durante o processo, com sua elaboração e expressão da síntese do conhecimento), avaliação, recursos, adequação do tempo, espaço, mobiliário, climatização, iluminação, contrato didático, relação com outros componentes curriculares.

Tal postura implica não se apegar a meros detalhes, nomes, datas, classificações desconectadas do sentido maior do ensino e do estudo, qual seja, não banalizar a palavra docente, não se tornar mero “piloto de livro didático, apostila ou plataforma digital”!

Por esse caminho o professor pode conquistar a admiração e o respeito por parte do aluno.

8. Dessa forma, como se vê, busca-se superar dialeticamente tanto o autoritarismo quanto o espontaneísmo. Observações Teórico-Metodológicas:

 a) É importante explicitar que esta é uma concepção, e não “a” concepção, até porque esta não existe. As formulações teóricas são sempre construções histórico-culturais, elaboradas a partir de determinados contextos e referenciais. Via de regra, são campos muito complexos, nos quais qualquer definição é necessariamente provisória, fruto de processos que avançam –ou estagnam ou retrocedem– por aproximações sucessivas.

Em outros termos, temos coragem de afirmar algumas clarezas e convicções que fomos adquirindo no empenho de concretizar uma práxis transformadora –pois a urgência do chão da sala de aula e da escola não nos permite esperar, não se sabe até quando, pelo advento de uma teoria perfeita–, todavia, ao mesmo tempo, estamos abertos a revisões diante de fatos novos neste campo, decorrentes da crítica e da autocrítica.

 b) O Sonho, a Utopia (do grego, ou topos, o não lugar, aquilo que não tem lugar ainda, mas que deve ter), o Projeto, o Pôr Teleológico, é um fator Antropoplástico, Antropogênico, formador do Humano!

Em um longuíssimo processo Filogenético, de origem e desenvolvimento da espécie (cerca de 3 a 7 milhões de anos), tornamo-nos Humanos (Homo sapiens sapiens) porque projetamos, porque nossos mais remotos antepassados não se conformaram com o que estava dado, e foram elaborando “proto-projetos” de mudança! Ao tentarem mudar o mundo, para adequá-lo a seus projetos, modificavam-se a si mesmos.

Sonhar, portanto, não é se alienar. Sonhar, associado ao conhecimento da realidade e à elaboração do plano de ação –além da ação e da avaliação– é condição para a transformação da realidade!

A concepção aqui apresentada constitui um horizonte desejado: o vetor de direção que queremos imprimir ao nosso trabalho, o elemento guia e de tensionamento, que impulsiona o crescimento e o aperfeiçoamento. O quanto conseguiremos avançar nesta direção, ou os recuos que teremos de enfrentar, dependerá de inúmeros fatores, muitos dos quais exigirão, inclusive, intensa luta pessoal e coletiva para serem garantidos.

O ponto fundamental é que, diante de tantas dificuldades no cotidiano escolar, não se trata de desistir, de abrir mão do sonho, da intencionalidade, do horizonte maior desejado. Um princípio ético não perde a validade apenas porque é muito difícil ser concretizado em determinado contexto.

Analogamente, não devemos abrir mão do sonho de uma realidade melhor em função dos grandes desafios presentes. O que está em questão é adequar tanto as expectativas (os objetivos estratégicos) quanto as mediações pertinentes (para que seja transformadora, a mediação deve ser fruto da tensão dialética e criativa entre o contexto e o objetivo estratégico), mantendo firme o horizonte maior.

Trata-se da perspectiva de processo: identificar e valorizar os passos concretos, possíveis, ainda que pequenos num primeiro momento, dentro da respectiva Zona de Autonomia Relativa (ZAR) –aquilo que pode ser feito já, mas ainda – não estava sendo feito –, tanto pessoais quanto coletivos, na direção desejada!

Referência Bibliográfica:

  1. VASCONCELLOS, Celso dos S. Gestão da Sala de Aula: Perspectiva Dialética-Libertadora. São Paulo: Libertad, 2026 (no prelo).

Autor: Celso dos S. Vasconcellos. Também escreveu e publicou no site “Paulo Freire: 102 anos, um breve depoimento”: www.neipies.com/paulo-freire-102-anos-um-breve-depoimento/

Edição: A. R.

O que une os cristãos!

Que todos sejam um (Jo 17,21)

Nesta semana, em preparação à Solenidade de Pentecostes, realiza-se no Brasil a Semana de Oração pela Unidade Cristã, tendo como referência bíblica o versículo da carta de Paulo aos Efésios: “vocês formam um só corpo e um só espírito, do mesmo modo que a esperança para a qual foram chamados é uma só” (Ef 4,4). No trecho sugerido prevalece a unidade como fator preponderante da vida cristã, como sustentáculo do percurso de fé e como acolhedora da esperança vindoura.

A tradição de rezar em vista da unidade é secular entre os cristãos e recorda um princípio fundamental na vida dos seguidores de Jesus, a prece comum dirigida ao Criador, compreendendo que a oração aproxima os irmãos entre si e com Deus, pela sua forte capacidade mística. Ela derruba as barreiras e conduz todos ao encontro do criador para fazer a sua vontade.

Na prece comum estão próximos os cristãos com suas diferentes experiências de fé e o criador de todos, inspirados pelo Espírito Santo e fiéis a Jesus Cristo, o grande artífice da unidade. 

A Semana de Oração pela Unidade Cristã convida os fiéis a se inspirarem no rico patrimônio cristão, construído e compartilhado ao longo dos anos; convida também a aprofundarem a comunhão em Cristo que une os cristãos a Si, como insiste o Apóstolo Paulo na Carta aos Efésios: na cruz Cristo eliminou a separação, nos reconciliou e uniu todos a Ele e com o Pai (cf. Ef 2,16).

Aqui está justamente um fator fundamental de unidade: a fé professada em Cristo vivo e ressuscitado, o reconhecendo como Salvador de toda a humanidade.

Todos somos cristãos. Estamos unidos a Ele e somos enviados a anunciar seu nome para salvar a todos, na certeza da sua presença na ação missionária (Mt 28,20). Em Cristo somos um só povo.

Outro fator de unidade é a Sagrada Escritura.

Os cristãos se fundamentam na Sagrada Escritura como orientação da sua condução na fé. Os cristãos seguem o Livro Sagrado, mesmo que com acentos diferenciados. E o Livro Sagrado plasma o agir cristão e todos os lugares do mundo, permitindo um testemunho fiel do Cristo vivo e ressuscitado.

Também fator de unidade é o Batismo.

Os cristãos, seja qual for a denominação, são batizados em Cristo, feitos membros do povo de Deus, configurados ao salvador da humanidade, e esta graça une todos os cristãos. Logo, o Batismo é o Sacramento que unifica os cristãos.

Os cristãos pelo Batismo são mergulhados na proposta de Jesus Cristo e, enquanto membros do povo de Deus, se compreendem um povo santo e sacerdotal. Na prática existe uma bonita iniciativa ecumênica de reconhecimento do Batismo exercido por outra denominação com a qual se tem proximidade.

Existe uma iniciativa ecumênica que é opção das diferentes igrejas, mas que é um forte vínculo de proximidade e unidade. Refiro-me à prática da caridade. É o ato das comunidades cristãs se unirem e colocarem-se a serviço da vida fragilizada considerando-a um bem maior e que exige o compromisso de todos os cristãos.

O cuidado com a vida é fator de unidade.

Compreendamos que existem possibilidades de afastamento entre os cristãos. Estão localizadas na história e se explicitam em tempos atuais. Todavia, existem muito mais possibilidades de unidade e proximidade. Estas trazem enriquecimento e crescimento na fé.

Que esta semana, voltada à oração pela unidade cristã, sob a inspiração do Espírito Santo nos motive neste compromisso. Em Cristo todos somos um!

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis. Também escreveu e publicou no site “A cultura do encontro”: www.neipies.com/a-cultura-do-encontro/

Edição: A. R.

Papo-cabeça com a IA

Perguntei-me como a IA pode alimentar a esperança em um mundo mais justo e solidário? Como pode contribuir com a ecologia integral, ou seja, o cuidado efetivo com a Casa Comum? Poderá ela nos ajudar a fortalecer o diálogo respeitoso, a paz, a vida comunitária e a valorização da diversidade étnico-racial e cultural?

Hoje tirei um tempo para bater um papo-cabeça com a IA. Assim aprendemos a chamar a dona inteligência artificial. Convidei-a para tomar um chimarrão. Ela começou me dizendo que não é dessas coisas. Então já fiquei um pouco desconfiado. Mesmo assim, decidi que faria uma conversa sem beber nada, a seco.

Iniciei perguntando: – Quando você veio ao mundo? Ela não tinha muita certeza disso e nem onde tinha nascido. Manifestou dúvidas também a respeito de seus verdadeiros pais. Bem, vamos conversar mesmo assim, pensei. Não tenho nada a perder. Então, indaguei sobre outra questão: – O que você sabe fazer? Ela disse: – Um pouco de tudo. Pois, vamos ver.

– Qual a raiz quadrada de 70?  Prontamente respondeu: – É 8.36660026534.  Fiquei encantado com aquela precisão e rapidez! Eu tentei e não consegui, refleti comigo. Daí parti para uma questão de Geografia. – Qual a distância entre Brasília e Washington? De pronto me informou:  – Em linha reta é aproximadamente 6.791 km.

Desisti das exatas e fui para a área da saúde. – Você poderia me orientar sobre o melhor tratamento para desnutrição? Ela não hesitou em afirmar: – Geralmente, envolve o aumento gradual de calorias, a reposição de nutrientes e pode necessitar de mudanças na dieta, suplementos, ou alimentação por sonda. Em casos graves, é essencial identificar e tratar a doença de base.

Eu já estava quase satisfeito com aquele papo, mas ainda aproveitei para fazer outra pergunta, agora sobre problemas brasileiros.

Não tardou em dizer:  os maiores problemas do Brasil envolvem desafios estruturais e sociais profundos, encabeçados pela saúde pública precária e pela alta criminalidade e violência. Depois acrescentou também a segurança pública e a histórica desigualdade social.

Adiante, questionei se sabia algo sobre Paulo Freire.  Logo foi dizendo que o grande pedagogo, autor do livro “Pedagogia do Oprimido” e tantos outros, é Patrono da Educação Brasileira. Que faleceu em 2 de maio de 1997, mas continua vivo no pensamento e nas ações de muita gente pelo mundo afora. Disse, inclusive, que acabou de acontecer na Universidade Federal de Santa Maria (21 a 23 de maio/2026) o XXVII Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire com o tema “sementes para o esperançar com diferentes gerações”.  

Como o assunto tomou o rumo das sementes, aproveitei para indagar quais as sementes importantes a humanidade precisa cultivar. Ela me falou das sementes da paz, da justiça, do cuidado, do diálogo e da educação humanizadora. A conversa já ia bem adiantada, quando me inventei de proferir uma pergunta também básica, que foi derradeira: – Você sabe preparar algum tipo de alimento? Ela imediatamente me forneceu a receita de vários.

Foi quando retruquei: – Eu não costumo comer receitas, mas comida. Nesse momento percebi que ela ficou abalada com a pedagogia da cozinha. Não tive medo de prosseguir: – Sempre depois que preparo comida e me alimento, sobra a louça para lavar.  –  Você poderia me ajudar nisso? Aí foi que ela caiu fora. Então pensei:  a IA ia, porém não foi. Aí fui eu de novo.

Mas, ao ficar só, dialoguei comigo mesmo sobre o significado, os impactos presentes e as preocupações com o futuro da IA em nosso cotidiano.

Perguntei-me como a IA pode alimentar a esperança em um mundo mais justo e solidário? Como pode contribuir com a ecologia integral, ou seja, o cuidado efetivo com a Casa Comum? Poderá ela nos ajudar a fortalecer o diálogo respeitoso, a paz, a vida comunitária e a valorização da diversidade étnico-racial e cultural?

Conseguirá, enfim, nos levar a um patamar mais humanizado, a sermos mais democráticos e felizes? Enviei para a IA pensar. Estou aguardando as respostas!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Terra sem Males dos Males da Terra”: www.neipies.com/terra-sem-males-dos-males-da-terra/

Edição: A. R.

Educação como prática de Liberdade

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A liberdade é uma premissa de vida e de convivência e, nas escolas, não deve ser diferente.

Como lembra Paulo Freire, “a educação verdadeira é aquela que nos torna mais livres”. Mas essa liberdade não é dada: ela é construída no conflito, no diálogo, na abertura para o outro. O professor, enquanto sujeito político, não impõe verdades, mas media entre o conhecimento e a diversidade de ideias.      

Em seu livro, A educação como prática da liberdade, concluído na prisão e publicado no exílio, Freire destaca as ideias e prática no terreno da alfabetização de adultos a partir de 1961.

Conforme Paulo Freire: “Não existe educação sem sociedade humana e não existe humanidade fora dela”. A educação da sociedade é construída com momentos de liberdade plena, nos grupos, com as perguntas geradoras e de aquecimento sobre a realidade dos estudantes em conexão com o conhecimento adquirido ao longo da vida.

Ao criar espaços de escuta, de questionamento e de convivência ética, o professor combate o ódio não com ódio, mas com pensamento, afeto e presença. É nesse sentido que a prática docente pode ser compreendida como um ato profundamente político — não porque milita por um partido, mas porque defende a vida, a justiça e a possibilidade de um mundo menos violento.

A liberdade é uma premissa de vida e de convivência e, nas escolas, não deve ser diferente.

A escola tradicional transforma a vida escolar em verdadeiros mini quartéis, com filas, regras excessivas, punições e inúmeras burocracias vigilantes. O direito de pensar com autonomia é tolhido com ameaças e planilhas, que mais parecem folhas corridas e boletins de ocorrência de polícia. 

As inúmeras ações punitivas e coercitivas, sem resultados, acabam acarretando mais trabalho ao professor, que, em vez de ter tempo para planejar aulas com incentivo à curiosidade, ao conhecimento e à pesquisa, engessa o docente no martírio burocrático sem sentido, afastando a prática educativa da liberdade.

A educação das massas se faz, assim, algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação. A opção, por isso, teria de ser também, entre uma “educação” para a “domesticação”, para a alienação e uma educação para a liberdade. “Educação” para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito. (Freire, 1967, p.36).

As ações pautadas pelo acolhimento, orientação, mediação de conflitos entre estudantes com estudantes, professores com estudantes, escola com a comunidade são máximas para o enfrentamento contra o ódio cada vez mais exposto na sociedade em relação aos trabalhadores da educação.

A comunidade escolar abrange estudantes, professores, direção, coordenação, serviço de orientação educacional, funcionários, pais, parentes, amigos, toda essa amálgama de pessoas, profissionais, indivíduos que formam o coletivo da realidade educacional.

A educação libertadora busca expulsar as sombras da opressão que, ao longo da história humana, foram se perpetuando em nossa sociedade, uma sociedade de classes que privilegia os “donos do poder” e a elite econômica que faz de tudo para manter-se no topo da pirâmide.

Ilustração de Francisco Brenand

A educação tradicional reproduz a domesticação dos estudantes para prepará-los para um dito “mercado de trabalho” comparando o ser humano à uma mercadoria descartável. Não se trata como mundo do trabalho que está em constantes transformações, não se fala de conscientização social.

Na verdade, ela é que na medida em que domestica e endemoniadamente se “apodera” das camadas mais ingênuas da sociedade. Na medida em que deixam em cada homem a sombra da opressão que o esmaga. Expulsar esta sombra pela conscientização é uma das fundamentais tarefas de uma educação realmente libertadora e por isto respeitadora do homem como pessoa. (Freire,  1967, p.37).

A disciplina é uma prerrogativa na educação que ao longo do tempo foi se tornando algo natural, como se sempre fosse assim. Na realidade, ela foi inserida como técnica de exercício de poder, com seus princípios elaborados durante o século XVIII, e já existia há muito tempo, na Idade Média e mesmo na Antiguidade. A disciplina nas escolas confunde-se com as executadas nos quartéis e nas fábricas e também nos presídios.

A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que fizeram é conforme a regra. É preciso vigiá-lo durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares. (Foucault, 1979, p.105-106).

Foucault analisa esse fenômeno em sua obra “Vigiar e Punir” e, em outros estudos que também viraram livros, ele explica que a disciplina é aprofundada nos séculos XVIII e XIX contribuindo para a consolidação do capitalismo. Surge assim uma nova forma de exercer o poder. Em vez de exercer o poder através de punições físicas e de restrição da liberdade, desenvolve-se uma forma de poder mais sútil, contínuo e sistemático, o poder disciplinar.

A liberdade na educação é um chamado urgente e estratégico!

Autor: Saulo Rodrigo Bastos Velasco. Historiador e Geógrafo. Especialista em Metodologia do Ensino em Filosofia e Sociologia. Professor de Rede Municipal de Ensino. Também escreveu e publicou no site “Ser professor em tempos de ódio: resistir é educar”: www.neipies.com/ser-professor-em-tempos-de-odio-resistir-e-educar/

Edição: A. R.

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