Venceu a astúcia interesseira do machado

O resultado das urnas reflete esta vontade manipulada pela grande mídia e pelas big techs. Mais de 90% dos brasileiros deploram a corrupção, mas os envolvidos no caso Master foram eleitos!

O Brasil se define como uma república democrática. República (“coisa pública”) é uma concepção de Estado baseado na igualdade de todos perante a lei, na alternância do exercício de governo, na independência dos poderes, na soberania do povo e na busca do bem comum. Democracia (“poder do povo”) é um sistema de governo no qual o poder político pertence ao povo, que o exerce diretamente ou mediante representantes que elege livremente.

O Brasil foi às urnas, no primeiro turno, para escolher os cidadãos e cidadãs aos quais delegou o direito de elaborar e aprovar leis e executar políticas que atendam seus interesses e assegurem a plena cidadania política e social a todos os cidadãos. Tanto os meios de comunicação social como os próprios agentes políticos e as autoridades constituídas gostam de proclamar em alto e bom tom que esta foi uma grande celebração da democracia.

Longe de mim negar o valor do voto universal e das eleições periódicas, transparentes e livres. O voto do empresário tem o mesmo peso que a escolha do operário. A vontade do militante vale tanto quando o voto de protesto do indiferente. Em tese, estamos livres dos sistemas autocráticos e monocráticos, pois a independência e a harmonia entre os poderes estão asseguradas. Sim, as eleições são uma grande e bela festa da democracia!

Mas, para que seja real e não uma mera formalidade, a democracia tem alguns pressupostos.

E o primeiro elemento que o efetivo exercício da democracia supõe é a correta compreensão daquilo que chamamos povo e da sua vontade objetiva. Povo não é um conceito fluido e indiferenciado, mas uma maioria qualificada que se diferencia e opõe àquilo que chamamos elites (econômica, cultural, financeira, política). O poder emana dele, e está a serviço dele.

Quanto à vontade objetiva e legítima do povo, não podemos presumir ingenuamente que seja aquilo que se revela no resultado das urnas. Uma coisa é a vontade objetiva, que coincide com suas necessidades e direitos fundamentais (à vida, à liberdade, ao trabalho, à saúde, à educação, à segurança, ao bem-estar, etc.); outra é a vontade subjetiva, que sofre influência dos medos (reais ou produzidos), das ambições e das manipulações da cultura e da mídia.

O resultado das urnas reflete esta vontade manipulada pela grande mídia e pelas big techs. Mais de 90% dos brasileiros deploram a corrupção, mas os envolvidos no caso Master foram eleitos!

80% querem o fim das bets e 70% querem o fim da escala 6×1, mas os candidatos que as defendem foram os eleitos! Os trabalhadores e aposentados lutam por aumento de salários e pensões, mas elegeram políticos que são contra. As árvores da floresta tombam uma a uma, mas o machado as convenceu que é uma delas por ter o cabo de madeira…

Autor: Dom Itacir Brassiani. Também escreveu e publicou no site “Quando a soberania de um povo corre perigo”:  www.neipies.com/quando-a-soberania-de-um-povo-corre-perigo/

Edição: A. R.

Não é uma escolha difícil

Escolher entre a civilização e a barbárie não pode ser difícil, sobretudo para quem tem um mínimo de respeito pelo país

(Por Jaqueline Moll, Pedagoga. Dra. em Educação. Professora Titular da UFRGS. Professora do PPG em Educação da URI e colaboradora da Universidade de Brasília)

É da Democracia que se alternem, no poder, diferentes grupos, com distintas visões para o desenvolvimento do país.

No período recente, pós Constituição de 1988, foi assim, alternando e confrontando um projeto mais conservador, de traço neoliberal, e um projeto mais progressista, de traço social-democrata. 

Esse caminho foi interrompido em 2016, com a deposição de Dilma Rousseff, pela articulação de forças políticas e econômicas contrárias aos amplos processos de inclusão e de afirmação nacional que o país vivia, sobretudo, a partir de 2003.

A partir deste desastroso marco, a vida política do país foi tomada por ódio, mentiras e retrocessos diversos.

Nos anos 2017 e 2018 assistimos e sofremos a retirada e o recuo de direitos trabalhistas e previdenciários, o famigerado teto de gastos, a reforma do ensino médio, entre outras coisas.

Entre 2019 e 2022, o caos! 

Sofremos, também, 700 mil mortes na pandemia da covid-19, pela disseminação da ignorância, pela negação da ciência e pelo atraso nas vacinas, a volta ao mapa da fome, o retrocesso em todas as políticas sociais e ambientais, a paralisia dos processos de desenvolvimento, a aniquilação do Plano Nacional de Educação, além do escárnio e dos vômitos diários de ódio e incentivo às violências de todas as ordens, inclusive a tentativa de golpe, materializada na destruição generalizada de patrimônio público na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023 – dia nacional da infâmia.

A eleição do presidente Lula, em seu terceiro mandato, recolocou o Brasil no cenário internacional, retomou o caminho do desenvolvimento e reestabeleceu as condições para o país voltar a trabalhar, a estudar e a sonhar.

A educação voltou a ser prioridade, a ciência retornou à esfera pública, oportunidades de trabalho foram criadas e a paz diária reestabeleceu-se com o fim dos impropérios do mandatário anterior e a afirmação cotidiana de palavras de estímulo ao estudo, a união nacional, a cooperação. 

Chegamos, novamente, ao período eleitoral, momento próprio e necessário dos regimes democráticos, fora dos quais nenhum avanço civilizatório é possível.

O horror vivido nos anos anteriores volta a assombrar o país, através do filho do pai desajustado que estraçalhou a alma nacional com sua virulência, crueldade e ignorância.

O filho, envolvido até o pescoço, em relações com milicianos e em falcatruas, inclusive com o banqueiro que embolsou milhões de recursos públicos e desestabilizou a República, reedita a possibilidade do caos.

Racionalmente incompreensível, social e politicamente assustadora, tal perspectiva revela o longo caminho, ainda a ser percorrido pelo país, para sua elevação consciencial e civilizatória.

Então, não é uma escolha difícil: de um lado a perspectiva do desenvolvimento, o respeito a população, a continuidade de avanços – negados por séculos – a maioria da população, o respeito internacional, a soberania, a estabilidade política e emocional e, de outro, o caos, a desorganização societária, a destruição ambiental, a ascensão do crime organizado, o desprezo pela ciência, a submissão ao norte, a liberdade para os que planejaram matar e dissolver a Democracia e, também, o desprezo por tudo que representa beleza, dignidade, equilíbrio e avanço. 

No próximo dia 25 de outubro faremos história com nosso voto!

Decidir entre a civilização e a barbárie não pode ser difícil, sobretudo para quem tem um mínimo de respeito por si, pelos outros e pelo nosso país!

Autora: Jaqueline Moll, Pedagoga. Dra. em Educação. Professora Titular da UFRGS. Professora do PPG em Educação da URI e colaboradora da Universidade de Brasília.

Edição: A. R.

 

Quando as crianças inventam o mundo: uma sociologia do brincar

A criança quando brinca ela estabelece relações de conflitos, de causalidade, de encontros e desencontros com o seu eu interior e os seus outros eus que surgem do mundo imaginário reflexo daquilo que recebe do mundo real.

As crianças estão brincando de amarelinha e uma delas começa a indagar quais são as regras da brincadeira? Todas explicam a mesma coisa porque as combinaram antes de começar a brincadeira. Há um consenso entre o grupo e quem entra na brincadeira passa a conhecer e aceitar essas regras, mas também pode sair da brincadeira quando quiser. Eis o mundo do brincar na sociologia da infância.

Sua criança brinca de casinha com os bonecos, de riscar o chão com um graveto, de pular e brincar junto com os demais amiguinhos ou até mesmo de imaginar situações e papéis para si e para os seus brinquedos os mais diversos, sejam eles: médicos, professores, advogados, garis, donas de casa etc. A criança simplesmente reinventa do seu jeito outro mundo transformando a realidade numa linda brincadeira.

Neste momento, em que os bonecos ganham uma casa para morar, em que o gato e o cachorro passam a dividir o mesmo espaço, pode ser uma cabaninha feita em cima da cama com um lençol ou feita no quintal de casa, não importa, o que a sua criança está mostrando é que ela já tem autonomia para elaborar regras e normas, pois a sua comunidade se constitui a partir do que ela recebe do mundo real e reinventa o seu lugar no mundo conforme percebe a vida que lhe mostramos.

Para um brincar pensando na sociologia da infância podemos dizer que a criança não brinca somente para se distrair, para passar o tempo ou não chorar, quando ela brinca também está criando um espaço seu onde ela tem autonomia para fazer o que desejar.

É ela quem institui a cultura, a religião, a educação e outras instituições para o seu mundo; é ela também quem dá papéis de autoridade ou não aos seus bonecos, ursinhos, carrinhos e até mesmo bolinhas de gude.

O brincar na infância exige da sociologia um olhar com mais cuidado, pois não é apenas uma necessidade de ensinar a criança a se acalmar diante de um mundo cheio de estímulos e pressa, mas também esse brincar oferecer a oportunidade da criança reinventar uma sociedade para si onde possa estabelecer regras e normas que ela gostaria que o mundo real lhe oferecesse, assumir papéis que tem medo de viver no mundo real. Quantas vezes não as dizemos “Você tem que se comportar assim porque este é o jeito certo.”? Se nem sabemos direito o que é o certo ou o errado na nossa comunidade e sociedade.

A criança quando brinca ela estabelece relações de conflitos, de causalidade, de encontros e desencontros com o seu eu interior e os seus outros eus que surgem do mundo imaginário reflexo daquilo que recebe do mundo real. Ela transforma, corrige do seu jeito o que percebe como estranho para si. Respeitar o momento do brincar da criança e até mesmo tentar compreender este brincar é fundamental para ajudarmos na sua formação social, política e cultural.

O brincar não é só um exercício para o corpo, um passar de tempo, um divertir-se etc, é muito mais profundo, quando a criança brinca com outras crianças aprende a respeitar, a cuidar, passa a conhecer limites, regras, normas. É uma experiência vivida no presente. Viver em sociedade exige reconhecer as necessidades de si e os alheios, e as crianças aprendem isso brincando.

Nas brincadeiras as regras são modificadas, o fim de uma história pode ser benéfico para toda a sociedade. A criança pode tentar resolver as suas dificuldades conhecendo as dos amiguinhos, compartilhando brinquedos, reduzindo desigualdades sociais, estabelecer relações com quem tem afinidade e se comprometer em aprender a cuidar do seu próprio corpo.

Brincar é simplesmente estar diante do coletivo, não porque toda brincadeira seja gostosa para as crianças, algumas têm o direito e autonomia de não gostarem de uma ou outra brincadeira, mas o brincar traz aproximação e conflitos, ensinando desde pequeninos o quanto é difícil a vida em sociedade. Temos que respeitar uns aos outros e as regras que estabelecem a boa convivência entre as pessoas. Imaginemos aquela criança dona da bola que a pega e para a brincadeira só porque lhe causaram raiva. Essa criança ainda está aprendendo a viver em uma sociedade cheia de diferenças.

Porém, nem todas as crianças conseguem passar a infância brincando. Algumas vivem realidades difíceis sejam por guerras, doenças, fome e tantos outros problemas. Algumas vivem em espaços com quintais, campos, parques e outras vivem em segurança presas a muros, portões e grades. Também influencia bastante no brincar aquelas que vivem grandes desigualdades sociais, insegurança, trabalho infantil e abusos afetivos. Todavia, o brincar aparece muitas vezes como uma fuga da realidade e uma reinvenção de um mundo melhor onde a criança pode viver do seu jeito respeitando a si própria.

É no brincar que passamos a conhecer as regras interiores do mundo das crianças, logo descobrimos traumas, medos, esquecimentos, lembranças que podem estar ou não doendo dentro delas, assim como uma certa dificuldade para lidar com limites.

O brincar conduz a criança para uma vida em sociedade onde aprendizagens são compreendidas de uma forma mais respeitosa ao seu pequeno mundo onde tudo é novidade.

Por isso, devemos permitir e deixar sempre que a criança brinque consigo e com os amiguinhos para aprender a respeitar não somente normas e regras, mas para reconhecer que o mundo real também faz parte do seu viver e assim, saber o momento de fazer a birra ou receber um não dos pais e responsáveis. Mesmo a criancinha precisa conhecer que no mundo real há regras e normas que precisam ser aceitas quando nem sempre conseguimos entender para que servem.

Eu fico hoje com a poeta Cecília Meireles no poema “Ou isto ou aquilo em versos que dizem “Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… // e vivo escolhendo o dia inteiro! // Não sei se brinco, não sei se estudo, // se saio correndo ou fico tranquilo.”

Sabendo que a criança que aprende a fazer escolhas e não pode ter tudo ao mesmo tempo está no caminho da autonomia. Ou você tem a mim ou tem a dias sem poesia de leitura. Escolha, querido leitor!

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A voz da criança e o direito de falar de si e de fazer escolhas”: www.neipies.com/a-voz-da-crianca-o-direito-de-falar-de-si-e-de-fazer-escolhas/

Edição: A. R.

Como psicólogo, sou melhor do que qualquer Inteligência Artificial…

Seja na modalidade presencial, ou à distância (psicoterapia online), o encontro de dois seres em uma sessão de psicoterapia é insubstituível. Cansado de “conversar” com robôs de menus de sites e telefones? Procure um psicólogo, certamente, como diz o poeta, encontrará alguém “que tem sonhos e planos como qualquer um…”.

Sim, existo, sou de carne e osso, tenho família, décadas de vida e de experiência como psicólogo, e, por isso, eu não tenho medo da inteligência artificial. É claro que ela pode saber mais do que eu, pode ler, em segundos, aquilo que eu levaria uma vida inteira para estudar, conhecer Freud, Jung, Rogers, Winnicott, Lacan, Frankl e milhares de outros autores. Pode organizar pensamentos, reconhecer padrões, fazer perguntas brilhantes e produzir respostas que, às vezes, poderão parecer mais inteligentes do que as minhas.

Mas, enquanto ela sabe sobre a vida existe uma diferença fundamental: eu a vivo, já sorri, chorei, esbravejei, fiquei em dúvidas, tive medos… e essa diferença muda tudo.

Enquanto uma máquina pode analisar a palavra “perda” eu sei o quanto que perder alguém pode deixar uma cadeira vazia na mesa, um silêncio dentro de casa e uma saudade que aparece inesperadamente numa manhã qualquer.

Se uma máquina pode explicar o que é ansiedade, eu já a senti, e sei que, para algumas pessoas, ansiedade é também acordar de madrugada com o coração acelerado e não conseguir explicar a ninguém o medo que existe dentro do peito. Se a IA pode definir o luto, eu posso permanecer em silêncio diante de alguém que chora e compreender que, naquele momento, nenhuma definição é necessária.

Trabalhar como psicólogo é estar em um lugar de escuta, e isso não é unicamente uma interpretação de palavras (coisas que a IA faz), é sentir a entonação da voz, seus tremores, fraqueza ou firmeza, é também perceber o que não foi dito. É lembrar-me das aulas do Professor Antônio Carlos quando nos ensinava sobre o quanto se escuta ouvindo o silêncio, é poder suporta-lo, legitimamente, dar o apoio que a condição pede.

Como psicólogo, sou melhor do que uma IA por que consigo perceber um olhar desviado, um tique, um pé balançando ou os dedos de uma mão tamborilando na poltrona. Aprendi a reconhecer uma defesa e a saber quando uma pergunta precisa ser feita ou até mesmo, momentaneamente, quando ela deve ser evitada.

Posso perceber ainda que a pessoa passou vinte minutos falando de outra coisa justamente para não precisar responder, ou então, ao levantar-se para sair, dizer… “Só mais uma coisinha…” e largar em meu colo a bomba que segurou durante toda a sessão, aliviando-se por deixa-la comigo, mas sem resposta (ainda) para si.

Li sobre um estudo que diz que o Brasil definha em bem estar e recorre à IA para tratamento.

Os dados aparecem no Mind Health Report 2026, pequisa anual de uma seguradora que mapeia a saúde mental e o bem estar psicológico mundialmente e complementa que a população brasileira demonstra grande abertura para inovações tecnológicas no autocuidado, porém, reflete índices severos de esgotamento profissional e vulnerabilidade emocional e isso implica em um maior potencial para o desenvolvimento de doenças mentais.

O mais grave é que de cerca de 40% dos brasileiros que autoafirmam sofrer de alguma condição de saúde mental, apenas 27% deles possuem um diagnóstico médico. Se já sofríamos com automedicação, agora surge o autodiagnostico, induzido por IA. Mas isso não é exclusividade tupiniquim, o mundo todo utiliza da IA dessa forma, porém, o dado alarmante, é que nós, brasileiros, somos os que mais procuram este tipo de ajuda na IA.

Questionar o uso de IA como substitutivo à psicoterapia, não significa que sou avesso a tecnologias; é impossível viver sem a presença da IA nos dias de hoje, ela se encontra onde sequer imaginamos: no uso do aplicativo de trânsito, nas redes sociais, nas empresas de gerenciamento de água/luz, de distribuição de alimentos, medicamentos, nos entretenimentos, em praticamente tudo, e, claro, eu faço uso de IA. O que questiono é sobre quando algumas pessoas a utilizam em substituição ao psicólogo, e o pior, quando entendem que receberam dela ótimos conselhos!

Psicoterapia não é aconselhamento: nas sessões estimulo o ser humano que está à minha frente para que pense, reflita e consiga decidir por si mesmo, pois os resultados de uma psicoterapia devem ser fatos, acontecimentos, atitudes e consequentes mudanças.

Seja na modalidade presencial, ou à distância (psicoterapia online), o encontro de dois seres em uma sessão de psicoterapia é insubstituível. Cansado de “conversar” com robôs de menus de sites e telefones? Procure um psicólogo, certamente, como diz o poeta, encontrará alguém “que tem sonhos e planos como qualquer um…”.

Autor: César Augusto de Oliveira – psicólogo. Também escreveu e publicou no site “Para o bem de sua saúde, escreva”: www.neipies.com/para-o-bem-de-sua-saude-escreva/

Edição: A. R.

História de Passo Fundo em Quadrinhos resgata projeto iniciado há mais de 30 anos

Obra de Leandro Malósi Dóro recupera memórias, personagens e pesquisas iniciadas nos anos 1990 e busca chegar gratuitamente às escolas no ano em que Passo Fundo se aproxima de seus 170 anos.

Acesse aqui: https://drive.google.com/file/d/1lot0G5FagWxuAwAHToPjd2YLrfCgd0rO/view

Um projeto iniciado há mais de três décadas ganha agora sua forma definitiva. História de Passo Fundo em Quadrinhos, do jornalista, cartunista e escritor Leandro Malósi Dóro, nasceu entre 1993 e 1995 a partir de pesquisas históricas, relatos orais e da convivência do autor com pessoas ligadas à preservação da memória de Passo Fundo.

Uma das origens do projeto está dentro da própria família. A mãe do autor conviveu com Antonino Xavier e Oliveira, intelectual ligado à fundação do Hospital de Clínicas e um dos primeiros estudiosos da história local.

As lembranças que ela transmitia despertaram em Dóro o interesse por episódios e personagens da formação da cidade. O autor também foi vizinho da historiadora Marília Mattos e aprofundou suas pesquisas a partir das conversas mantidas com ela e da leitura de trabalhos de Delma Rosendo Gehn e de outras fontes sobre a história passo-fundense.

Foi desse encontro entre história escrita e memória oral que surgiram os personagens Igaí e Goyoen, um menino indígena e uma capivara cujos nomes remetem a denominações associadas à região e ao rio antes da consolidação da ocupação de origem europeia. Ao lado deles aparece o próprio Antonino, transformado em personagem e condutor de parte dessa viagem pela história local.

Ainda nos anos 1990, Dóro apresentou o projeto à Secretaria Municipal de Educação e a editoras, mas a publicação acabou sem continuidade. Na mesma época, frequentando a Aldeia Sul Editora, de Ivaldino Tasca, conheceu o historiador Ney Eduardo Possapp D’Ávila, autor de Passo Fundo: Terra de Passagem. O contato acrescentou outra perspectiva à pesquisa e reforçou uma característica que acompanha toda a obra: a história da cidade contada tanto pelos documentos quanto pelas pessoas que pesquisaram, viveram e transmitiram suas memórias.

O projeto acabou guardado enquanto Dóro seguia sua trajetória profissional, primeiro como chargista de O Nacional, depois como jornalista do Diário da Manhã, até sua mudança para Porto Alegre. Ao longo das décadas seguintes, porém, Passo Fundo continuou presente em sua produção. O autor contabiliza mais de duas mil páginas de quadrinhos e mantém parte desse acervo nos blogs Arquivo Doro e Memórias de Quebra-Cabeça, além de livros, contos e outros trabalhos ainda dispersos em seus arquivos.

Mais de 30 anos depois dos primeiros desenhos, o projeto foi retomado. O estímulo do acadêmico Gilberto Cunha, da Academia Passo-Fundense de Letras, contribuiu para que Dóro voltasse ao material original. O autor recuperou desenhos e o roteiro produzidos em 1995, retomou a pesquisa histórica e utilizou recursos contemporâneos de inteligência artificial como apoio para revitalizar as ilustrações e concluir a narrativa, preservando a concepção e os personagens criados originalmente.

O resultado é uma obra que estabelece uma ponte entre 1995 e 2026: desenhos e pesquisas concebidos há três décadas dialogam com novas ferramentas de produção, revisão e tratamento visual. Mais do que atualizar um antigo projeto, a proposta é recuperar uma narrativa sobre a identidade de Passo Fundo para novas gerações.

Para Dóro, essa memória merece maior espaço justamente porque Passo Fundo sempre teve a característica de ser uma “terra de passagem”. A cidade recebe pessoas de diferentes origens, enquanto muitas outras partem, fazendo com que parte das referências e das histórias locais se disperse ao longo das gerações. Ao mesmo tempo em que existe uma forte identidade gaúcha e personagens culturais passo-fundenses reconhecidos nacionalmente, muitos episódios da formação da própria cidade permanecem pouco conhecidos.

História de Passo Fundo em Quadrinhos nasce dessa tentativa de aproximar crianças, jovens e adultos dessas raízes por meio da linguagem dos quadrinhos, combinando pesquisa histórica, memória oral e narrativa visual.

Com a proximidade dos 170 anos de Passo Fundo, em 2027, o autor considera este um momento especialmente adequado para fazer o trabalho circular. A intenção é colocar a obra à disposição da cidade e buscar parcerias institucionais que permitam sua publicação e, especialmente, sua distribuição gratuita nas escolas de Passo Fundo.

Depois de permanecer três décadas entre arquivos, desenhos, lembranças e pesquisas, a história iniciada em 1995 está finalmente pronta para encontrar seus leitores.

História de Passo Fundo em Quadrinhos

Autor: Leandro Malósi Dóro

Jornalista, cartunista e escritor

Arquivo Doro: arquivodoro.blogspot.com

Memórias de Quebra-Cabeça: memoriasdoro.blogspot.com

Acesse aqui: https://drive.google.com/file/d/1lot0G5FagWxuAwAHToPjd2YLrfCgd0rO/view

Edição: A. R.

Quando Ainda Existiam Árvores

A obsessão pelo crescimento econômico ilimitado e a lógica materialista conduziram a humanidade a uma crise ecológica sem precedentes. No Antropoceno, as intensas emissões de carbono e a degradação da biodiversidade aproximam a Terra de pontos de inflexão irreversíveis.

(Por Dal Marcondes e Marcus Eduardo de Oliveira)

Em Quando Ainda Existiam Árvores: reflexões críticas sobre a crise socioecológica, os autores Dal Marcondes e Marcus Eduardo de Oliveira oferecem um contundente e necessário manifesto contra a cegueira civilizatória do nosso tempo. A obra parte de uma premissa inegável: o modelo econômico hegemônico, pautado pela obsessão pelo crescimento infinito e pelo lucro imediato, colocou a humanidade em rota direta de colisão com os limites biofísicos do planeta. 

Ao articular dados científicos alarmantes de organismos internacionais — como os recordes de temperatura global do serviço Copernicus, o colapso acelerado das geleiras e a sufocante poluição plástica nos oceanos — com a ancestralidade e a sabedoria crítica de lideranças indígenas como Davi Kopenawa e Aílton Krenak, os autores evidenciam que a verdadeira enfermidade contemporânea reside na racionalidade produtivista. Trata-se de uma arquitetura da exploração em que a natureza é reduzida a meramercadoria descartável, ignorando que o circuito econômico é um mero subsistema subordinado às leis da física e aos ritmos biológicos da biosfera. 

Estrutura e Eixos Temáticos

  • Paradigmas Suicidas e Mitos do Desenvolvimento: Os autores desmistificam a ideia de crescimento infinito em um planeta finito, demonstrando como o imperativo do lucro sacrifica a estabilidade ecológica.
  • Antropoceno e Assepsia Social: Evidencia-se a responsabilidade desproporcional do Norte Global e das elites financeiras na degradação da Terra, enquanto as populações vulneráveis do Sul Global sofrem os impactos do racismo ambiental.
  • Interdisciplinaridade e Vozes de Alerta: A obra cruza relatórios científicos (Copernicus, IPCC, PNUMA, WWF) com o pensamento de intelectuais e lideranças indígenas, como Davi Kopenawa, Aílton Krenak, Serge Latouche e Edward O. Wilson.
  • Concepção Industrial Degenerativa: Analisa-se como o modelo linear (extrai-produz-consome-descarta), a poluição plástica e a perda acelerada de biodiversidade consolidam uma modernidade autodestrutiva.

Ao longo de seus capítulos e seções reflexivas, o livro desenha o quadro detalhado daquilo que classifica como modernidade suicida.

Marcondes e Oliveira expõem as entranhas da desigualdade socioambiental, demonstrando que o esgotamento do planeta não é um acidente abstrato, mas o produto direto dos excessos de uma minoria abastada do Norte Global e das elites extrativistas. Enquanto o grupo dos dez por cento mais ricosdo mundo responde por metade das emissões globais de gases de efeito estufa, as populações vulneráveis do Sul Global sofrem de forma desproporcional com o racismo ambiental, a degradação dos solos, a escassez hídrica e a emergência de desastres climáticos cada vez mais frequentes. Os autores confrontam abertamente o fetiche do Produto Interno Bruto (PIB) como régua do avanço social, resgatando os pilares da economia ecológica, do decrescimento e da alfabetização ambiental para defender uma reorientação de rumos.

Ao aliar o rigor do jornalismo ambiental à profundidade do ensaísmo econômico-filosófico, a obra consolida-se como uma convocação urgente à responsabilidade coletiva. Quando Ainda Existiam Árvores desfaz os mitos da abundância material ilimitada e adverte que não haverá futuro próspero sem o desmantelamento das estruturas predatórias do capital. Mais do que um diagnóstico rigoroso das ruínas do Antropoceno, o texto atua como um farol crítico e humanista, lembrando que a preservação da biodiversidade e a consolidação da justiça climática não são escolhas políticas opcionais, mas a única via viável para fazer as pazes com a Terra antes que as pedras, definitivamente, rachem no calor.

Para adquirir o livro, clique AQUI.

Autores:

Dal Marcondes é jornalista, consultor e uma das vozes mais respeitadas na agenda da sustentabilidade no Brasil. Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Colaborador da revista Missões, responsável pela rubrica Fé em Ação. 

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira. Também escreveu e publicou no site “A febre de Gaia”: www.neipies.com/a-febre-de-gaia/

Edição: A. R.

Eles fariam o que já fizeram

Se Cristo caminhasse por aqui hoje, ficaria longe dos palácios e das bancadas políticas. Estaria na calçada, dividindo o pão com os invisíveis, ignorado pelos que gritam seu nome nos microfones do poder. Talvez cuidando da natureza criada por seu pai.

Nas esquinas do Brasil, o sagrado virou poder para excluir e atacar. Políticos negociam parcelas do céu em troca de votos na terra. Diante da pressa em legislar a fé, restam os dois caminhantes da Galileia.

Jesus e Maria cruzam os séculos em silêncio. Apenas mostrando-nos o que fizeram e como agiram.  Ele avisou que seu Reino não era deste mundo e viveu sem teto onde reclinar a cabeça. Ela, a mãe discreta, acolhia desamparados, não generais.

O mestre nazareno nunca rejeitou o diferente; conversou com a mulher samaritana — considerada de outra crença e marginalizada pelos religiosos da época — oferecendo acolhimento em vez de exclusão. Hoje, ambos são arrastados para o centro de uma arena barulhenta. Suas imagens viraram escudos para quem busca controle. A dupla que jamais desejou o poder humano assiste à própria memória ser usada pela ambição dos homens.

A história avisa sobre esse perigo. O Império Romano usou a religião para divinizar imperadores e esmagar povos. Séculos depois, a Idade Média repetiu o erro ao fundir a coroa e o altar, transformando a divergência em fogueira. Quando o trono se veste de divindade, o dissidente vira um demônio a ser extirpado. Contra o fanatismo cego, a própria tradição cristã traz antídotos.

Santo Tomás de Aquino defendia que se a fé contraria a inteligência, é melhor ficar com a inteligência. Afinal, é a nossa capacidade de raciocinar e discernir que nos faz imagem e semelhança do Criador. O Estado religioso totalitário nega essa luz interna ao aniquilar a diferença pela força de massificar e unificar o que é diverso e múltiplo.

O Brasil é majoritariamente cristão, mas sua alma é feita de centenas de grãos de areia da fé.  Sob o céu brasileiro, abrigam-se a espiritualidade indígena que cuida da terra, a resistência viva das religiões afro-brasileiras e o direito de quem escolhe o ateísmo. A Constituição protegeu essa diversidade por meio da laicidade.

O Estado laico não nega Deus; ele garante que o templo, o terreiro e a descrença convivam sob as mesmas leis. Não é preciso ameaçar a sociedade com as chamas do inferno para que as pessoas sejam éticas ou pratiquem o bem. A moralidade nasce do respeito ao próximo, não do medo da punição eterna.

No entanto, o cotidiano agride o bom senso e a tolerância. A mesma mão que ergue um livro sagrado tolera o ataque à casa de matriz africana. Desumaniza-se o vizinho em nome de um Criador que as próprias escrituras definem como amor.

Se Cristo caminhasse por aqui hoje, ficaria longe dos palácios e das bancadas políticas. Estaria na calçada, dividindo o pão com os invisíveis, ignorado pelos que gritam seu nome nos microfones do poder. Talvez cuidando da natureza criada por seu pai. Maria, como ao pé da cruz, estaria mais preocupada com todo tipo de violência e marginalização. Para sabermos o que eles fariam, basta ver o que eles fizeram.

Autor: Pablo Morenno. Escritor e editor. Também escreveu e publicou no site “Guerrear pela paz”: www.neipies.com/guerrear-pela-paz/

Edição: A. R.

E a corrupção?

Não adianta continuar alimentando a rinha entre o “cidadão de bem” e o “malvadão indigno”. Essa gritaria, muitas vezes, não passa de propaganda eleitoral, capaz de produzir mais divisão e violência sem resolver os problemas de quem trabalha e vive neste país.

(Por Paulo Reguly – Professor no município de Caxias do Sul)

A corrupção é um dos temas recorrentes nos períodos eleitorais. Está na mesa do almoço em família, na conversa entre amigos, na roda de chimarrão. Costumamos dizer que precisamos votar em homens e mulheres dignos, honrados, capazes de resistir ao suborno, à propina, ao aliciamento e à podridão que atravessa a sociedade e, por consequência, a política.

Criamos, assim, uma oposição entre “nós e eles”, “dignos e indignos”, “cidadãos de bem e corruptos”. Mas, talvez, estejamos olhando para o lugar errado.

No fundo, o que importa às pessoas é a concretude da vida: escola para as crianças, médico na UBS, trabalho para os adultos, segurança nas ruas, feira, show, dança, música e teatro. Afinal, não queremos apenas comida; queremos também diversão e arte. Há vida para além do trabalho.

Por isso, é preciso compreender a materialidade da corrupção na política e investigar de onde ela vem. Uma breve pesquisa sobre o Parlamento Nacional mostra que, dos 594 parlamentares, cerca de 270 são empresários ou possuem vínculos com o setor privado, enquanto outros 160 são grandes produtores rurais ou mantêm atividades relacionadas aos interesses desse setor.

Esse recorte pode ser reproduzido nas assembleias legislativas, câmaras municipais e no Executivo. A pergunta fundamental é: quais interesses estão por trás de cada candidato, vereador, deputado ou senador? Para nos aproximarmos de uma resposta, precisamos conhecer sua trajetória e, sobretudo, como votou ao longo do mandato: a favor de quais projetos? Contra quais? É nesse exercício de conhecer os atos concretos que podemos encontrar caminhos para enfrentar a corrupção.

Não adianta continuar alimentando a rinha entre o “cidadão de bem” e o “malvadão indigno”. Essa gritaria, muitas vezes, não passa de propaganda eleitoral, capaz de produzir mais divisão e violência sem resolver os problemas de quem trabalha e vive neste país.

Precisamos olhar para propostas concretas: geração de trabalho e renda, combate ao dinheiro das facções, uma política fiscal em que os mais ricos contribuam proporcionalmente mais que os pobres. Caso contrário, continuaremos falando de corrupção, sem resolvê-la e sem enfrentar aquilo que realmente emperra o desenvolvimento do país — e poderemos, mais uma vez, caminhar para a condição de colônia, com uma metrópole que fala inglês para a felicidade de quem tem casa em Miami”.

 Autor: Paulo Reguly – Professor no município de Caxias do Sul

Edição: A. R.

A voz da criança: o direito de falar de si e de fazer escolhas

Apesar das diferenças de formação entre as crianças pobres e ricas, o que sempre aconteceu e acontece até os dias de hoje é que elas nem sempre foram ouvidas, ninguém nunca se preocupou em consultá-las antes de tomar uma decisão sobre elas, as suas dores e medos são muitas vezes ignorados, o que falam não é levado a sério pelos pais ou responsáveis.

No século XVIII, entre 1700 e 1799, a maneira de compreender a infância não era como a de hoje em que pais, pedagogos e psicólogos estão sempre atentos aos anseios e traumas das crianças que vivem presas às telas ou são submetidas a vários estímulos sensoriais que podem sobrecarregar seus corpos e suas emoções.

Em alguns lugares da Europa, as crianças eram vistas como seres em formação que precisavam de uma educação virtuosa, enquanto as crianças mais pobres trabalhavam junto com os pais e eram tratadas com o rigor de que precisavam ser fortes e corajosas.

Algumas crianças ricas já recebiam cuidados valiosos para a formação do corpo e do espírito naquela época e estudavam outros idiomas, como o grego, o latim além de aritmética, religião, artes, filosofia. Existia um cuidado entre os pais ricos com os seus filhos. Por outro lado, as crianças de pais pobres muitas vezes precisavam cuidar da casa, das tarefas no campo ou enfrentar longas jornadas de trabalhos em oficinas ou no comércio.

Nos dois casos, atualmente, não houve muitas mudanças apesar do trabalho infantil ser proibido em vários países ainda vemos crianças trabalhando nas ruas ou até mesmo dentro de casa. Continuamos vendo a educação das crianças se diferenciar entre as pessoas mais ricas e as mais pobres. São as desigualdades sociais cada vez maiores se apresentando num lugar onde não poderia existir.

Apesar das diferenças de formação entre as crianças pobres e ricas, o que sempre aconteceu e acontece até os dias de hoje é que elas nem sempre foram ouvidas, ninguém nunca se preocupou em consultá-las antes de tomar uma decisão sobre elas, as suas dores e medos são muitas vezes ignorados, o que falam não é levado a sério pelos pais ou responsáveis.

Chegou a hora de dar voz às nossas crianças. Elas são sujeitos políticos e sociais, assim como a gente tem o direito de opinar, de criticar, de perguntar e de falar o que sentem e acham. Acabou esse tempo de que a criança deve apenas obedecer ordens, brincar e estudar. Cada infância deve ser compreendida em sua singularidade, considerando as diferentes condições sociais e as necessidades da criança.

Geralmente, tratamos as crianças como se fossem seres sem pensamento próprio ao nosso redor. As matriculamos nas escolas onde queremos, compramos roupas do jeito que queremos, as levamos para passear onde queremos e nunca paramos para perguntar-lhes o que gostariam de verdade, se o que fazemos está sendo bom ou não para elas. Muitas vezes tornamo-nos os grandes “ditadores” da vida das crianças.

Esquecemos que elas precisam ser ouvidas para se sentirem compreendidas num mundo tão cheio de estímulos que, muitas vezes, rouba a sua curiosidade e criatividade. A criança tem o direito de escolher a roupa que quer vestir, reivindicar mais espaço na casa, dizer que não, e está tudo bem para nós, adultos. Por que uma criança não pode dizer não? Por que uma criança tem sempre que nos obedecer? Ora, ora, ela tem sentimentos e voz. Precisa ser ouvida antes de silenciar aquilo que sente como fazemos muitos de nós na idade adulta nos nossos trabalhos ou relacionamentos tóxicos.

A criança, no seu mundo imaginário, é um ser social, político e cultural que dá ordens aos seus personagens, que administra cidades, que resolve problemas e por que não pode também nos ajudar a tomar decisões no mundo real? Chegou a hora de pararmos de tratar as crianças como seres que não pensam por si mesmos, que não sabem fazer escolhas ou que devem aceitar tudo o que fazemos para elas como se isso fosse grandioso.

Quantas vezes você já parou para conversar com a sua criança sobre economia, política, cultura ou até mesmo contar um pouco da sua vida de adulto para ela conhecer outros mundos? Toda criança deve estar bem-informada não diria do mundo dos adultos, mas do que se passa ao seu redor. Costumamos nas nossas conversas dizer às crianças “isso é coisa para adultos” e mandá-las brincar como se elas não tivessem autonomia para dirigirem as suas próprias vidas.

No filme “Esqueceram de mim”, o personagem Kevim é esquecido em casa em plena noite de Natal e precisa tomar decisões importantes para salvar a sua casa e a si mesmo dos perigos de dois bandidos.

Ele tem ideias fantásticas para não somente se proteger, mas proteger toda a casa onde mora. É uma criança que vai às compras, que conversa com adultos e passa uma noite de Natal sozinha brincando e fazendo a sua própria ceia natalina. Ele, por mais que sinta falta da sua grande família, consegue vencer os desafios desse dia sozinho em casa porque é esperto e demonstra capacidade de tomar decisões.

As relações de poder entre as crianças e os adultos revelam uma sociedade “estranha” onde as primeiras devem sempre aceitar tudo o que queremos para elas como se fôssemos os donos da verdade e nunca serem ouvidas das suas vontades, sentimentos e escolhas. Estamos construindo uma sociedade que quer a toda hora dizer preocupar-se com as infâncias quando, na verdade, não dá voz para elas.

Existe uma diferença muito grande entre ouvir a voz da criança e realmente aceitar o que ela nos disse. Podemos parecer bonzinhos e ouvir tudo o que ela nos diz pensando que vamos enganá-la ou que logo elas esquecerão do que disseram, mas isso chama-se calar a voz de quem pede para ser ouvido a todo instante.

Se a criança não quer ir à escola e chora ela precisa ser ouvida com atenção e perguntar seu motivo, muitas vezes pode não ser somente “preguiça”, mas algo que está acontecendo na escola e não sabemos. Cabe aos pais poder argumentar sobre a importância de ir à escola com jeito e com o cuidado que toda criança precisa. As crianças são conhecidas por nos fazerem muitas perguntas, porém nunca acontece o contrário: quantas vezes no dia fazemos perguntas às nossas crianças? Quantas vezes ouvimos com atenção as suas respostas?  Fica um pouco de descuido onde a criança não é ouvida.

Se as crianças são seres sociais com deveres e direitos, por que muitas vezes não tomam parte nas decisões familiares? É importante que a criança se posicione e diga o que pensa, principalmente quando o assunto em questão pode afetá-la de alguma forma. Toda criança tem algo a dizer sobre o que menos esperamos que elas saibam, observem, escutem ou simplesmente percebam antes de nós.

A escola e a família têm um papel importante na formação da criança quando oferecem para ela o direito de participar e não apenas de ser obediente. Participar das decisões que envolvem mudanças na sua vida escolar, combinar regras, escolher o horário de estudar, poder dizer o que pensa sobre alguma atividade de sala de aula, sentar-se no lugar que escolher se for possível.

São essas pequeninas participações das crianças em suas próprias vidas que vão formando um sujeito social que se adapta logo cedo a conviver numa sociedade contemporânea cheia de compromissos e regras que devemos obedecer a partir da infância até os nossos longos anos de vida.

No belo poema de Ruth Rocha “O Direito das Crianças” encontramos tudo isso que disse acima de uma maneira poética grandiosa em seus versinhos “Direito de perguntar… // Ter alguém pra responder. // A criança tem direito // De querer tudo saber.”

Que possamos dar voz às nossas crianças não as fazendo submissas aos nossos desejos, mas com autonomia desde cedo para tomarem decisão e aprenderem a diferenciar o bem do mal, o feio do bonito, o certo do errado e por aí vai.

  Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Dê colo a uma criança; não um aparelho celular”: www.neipies.com/de-colo-a-sua-crianca-e-nao-um-aparelho-celular/

Edição: A. R.

Quando construir presídios se torna mais fácil do que evitar prisões

Que sociedade estamos construindo quando encontramos recursos para construir cada vez mais lugares para prender, mas ainda convivemos com crianças e adolescentes sem as mesmas oportunidades para construir seus projetos de vida?

A nova Cadeia Pública de Passo Fundo está chegando à sua fase final. Serão 800 vagas e cerca de R$ 125 milhões de investimento público, aproximadamente R$ 48 milhões oriundos da União. A estrutura foi projetada também com espaços para educação, saúde e trabalho das pessoas privadas de liberdade. (GZH)

Mas uma obra desse tamanho precisa provocar em nós uma pergunta que vai muito além dos muros que estão sendo levantados: que sociedade estamos construindo quando encontramos recursos para construir cada vez mais lugares para prender, mas ainda convivemos com crianças e adolescentes sem as mesmas oportunidades para construir seus projetos de vida?

R$ 125 milhões.

É impossível olhar para esse número sem pensar: quantas escolas poderiam ser construídas, reformadas ou equipadas? Quantas bibliotecas, quadras esportivas e projetos culturais poderiam receber investimentos? Quantos jovens poderiam ter acesso à formação profissional? Quantas políticas de prevenção e tratamento da dependência de álcool e outras drogas poderiam ser fortalecidas? Quantas famílias vulnerabilizadas poderiam receber acompanhamento antes que suas histórias chegassem ao sistema penal?

Não significa negar que, nas condições atuais, existam pessoas que precisam estar privadas de liberdade nem ignorar a necessidade urgente de substituir estruturas superlotadas e degradantes. O próprio Presídio Regional de Passo Fundo enfrenta há anos problemas de superlotação, e uma nova estrutura pode proporcionar condições mais dignas para pessoas presas e servidores. (GZH)

Mas precisamos ter coragem para perguntar: até quando nossa principal resposta à violência será construir mais vagas?

Um presídio pode ter paredes novas, salas de aula, espaços de trabalho e a melhor estrutura física possível. Pode — e deve — garantir dignidade e direitos.

Mas grades novas continuam sendo grades.

Podemos até construir grades de ouro. Isso não significa que teremos construído, automaticamente, caminhos de responsabilização, transformação e reintegração social.

E existe algo ainda mais profundo: a prisão começa muito antes do portão de uma penitenciária.

Quando uma criança nasce cercada pela fome, abandona a escola, cresce sem acesso adequado à cultura, esporte, profissionalização e oportunidades; quando convive diariamente com diferentes formas de violência e vê o tráfico oferecer pertencimento, dinheiro e poder onde o Estado chegou de maneira insuficiente, precisamos perguntar onde começou realmente essa história.

Há periferias que parecem presídios sem grades.

Não porque seus moradores sejam criminosos — muito pelo contrário —, mas porque milhares de pessoas honestas vivem cercadas por limitações que reduzem brutalmente suas possibilidades de escolha.

Por isso, segurança pública não pode começar somente quando alguém comete um crime.

Segurança também se constrói na escola.

Constrói-se quando uma criança descobre que estudar pode abrir horizontes.

Constrói-se quando um adolescente encontra esporte, cultura e oportunidades antes que organizações criminosas lhe ofereçam aquilo que a sociedade não ofereceu.

Constrói-se quando uma pessoa dependente de drogas encontra uma rede séria de saúde e tratamento.

Constrói-se quando uma família vulnerabilizada encontra políticas públicas antes de encontrar o sistema penal.

E aqui entra também a Justiça Restaurativa.

Precisamos abandonar a ilusão de que justiça significa simplesmente colocar alguém atrás de uma porta de ferro. Justiça exige responsabilização, mas também pergunta: quem sofreu o dano? Quais necessidades surgiram? Como reparar? Como responsabilizar de maneira efetiva? E como impedir que o dano volte a acontecer?

Depois de décadas construindo presídios, uma pergunta continua diante de nós: a violência diminuiu na mesma proporção em que aumentamos nossa capacidade de encarcerar?

Se continuarmos cuidando somente das consequências sem enfrentar as causas, continuaremos construindo celas e encontrando pessoas para ocupá-las.

Por isso, quando vejo R$ 125 milhões transformados em concreto, muros e grades, não consigo apenas comemorar uma nova obra.

Eu penso nas crianças.

Penso nas escolas.

Penso nas famílias.

Penso nos jovens das periferias.

Penso nas pessoas que precisam de tratamento.

Penso nas vítimas que precisam de cuidado e reparação.

Penso nas pessoas presas que um dia retornarão para a sociedade.

E continuo acreditando profundamente: o maior investimento em segurança que uma sociedade pode fazer é construir condições para que suas crianças tenham razões para acreditar no futuro.

Precisamos voltar a ensinar que estudar vale a pena.

Precisamos ajudar nossos jovens a recriar o desejo de estudar, trabalhar, sonhar e acreditar que podem vencer na vida sem precisar atravessar os portões de uma prisão.

Porque construir uma penitenciária pode levar alguns anos.

Reconstruir uma vida pode levar uma geração inteira.

E talvez a pergunta que Passo Fundo precise fazer diante dessa enorme construção seja justamente esta: se somos capazes de investir milhões para receber uma pessoa depois que tudo deu errado, quanto estamos dispostos a investir nela para que sua história não precise chegar até ali?

Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “Prisão mata. Não cura!”: www.neipies.com/prisao-mata-nao-cura/

Edição: A. R.

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