
A liberdade é uma premissa de vida e de convivência e, nas escolas, não deve ser diferente.
Como lembra Paulo Freire, “a educação verdadeira é aquela que nos torna mais livres”. Mas essa liberdade não é dada: ela é construída no conflito, no diálogo, na abertura para o outro. O professor, enquanto sujeito político, não impõe verdades, mas media entre o conhecimento e a diversidade de ideias.
Em seu livro, A educação como prática da liberdade, concluído na prisão e publicado no exílio, Freire destaca as ideias e prática no terreno da alfabetização de adultos a partir de 1961.
Conforme Paulo Freire: “Não existe educação sem sociedade humana e não existe humanidade fora dela”. A educação da sociedade é construída com momentos de liberdade plena, nos grupos, com as perguntas geradoras e de aquecimento sobre a realidade dos estudantes em conexão com o conhecimento adquirido ao longo da vida.

Ao criar espaços de escuta, de questionamento e de convivência ética, o professor combate o ódio não com ódio, mas com pensamento, afeto e presença. É nesse sentido que a prática docente pode ser compreendida como um ato profundamente político — não porque milita por um partido, mas porque defende a vida, a justiça e a possibilidade de um mundo menos violento.
A liberdade é uma premissa de vida e de convivência e, nas escolas, não deve ser diferente.
A escola tradicional transforma a vida escolar em verdadeiros mini quartéis, com filas, regras excessivas, punições e inúmeras burocracias vigilantes. O direito de pensar com autonomia é tolhido com ameaças e planilhas, que mais parecem folhas corridas e boletins de ocorrência de polícia.
As inúmeras ações punitivas e coercitivas, sem resultados, acabam acarretando mais trabalho ao professor, que, em vez de ter tempo para planejar aulas com incentivo à curiosidade, ao conhecimento e à pesquisa, engessa o docente no martírio burocrático sem sentido, afastando a prática educativa da liberdade.
A educação das massas se faz, assim, algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação. A opção, por isso, teria de ser também, entre uma “educação” para a “domesticação”, para a alienação e uma educação para a liberdade. “Educação” para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito. (Freire, 1967, p.36).
As ações pautadas pelo acolhimento, orientação, mediação de conflitos entre estudantes com estudantes, professores com estudantes, escola com a comunidade são máximas para o enfrentamento contra o ódio cada vez mais exposto na sociedade em relação aos trabalhadores da educação.
A comunidade escolar abrange estudantes, professores, direção, coordenação, serviço de orientação educacional, funcionários, pais, parentes, amigos, toda essa amálgama de pessoas, profissionais, indivíduos que formam o coletivo da realidade educacional.
A educação libertadora busca expulsar as sombras da opressão que, ao longo da história humana, foram se perpetuando em nossa sociedade, uma sociedade de classes que privilegia os “donos do poder” e a elite econômica que faz de tudo para manter-se no topo da pirâmide.

Ilustração de Francisco Brenand
A educação tradicional reproduz a domesticação dos estudantes para prepará-los para um dito “mercado de trabalho” comparando o ser humano à uma mercadoria descartável. Não se trata como mundo do trabalho que está em constantes transformações, não se fala de conscientização social.
Na verdade, ela é que na medida em que domestica e endemoniadamente se “apodera” das camadas mais ingênuas da sociedade. Na medida em que deixam em cada homem a sombra da opressão que o esmaga. Expulsar esta sombra pela conscientização é uma das fundamentais tarefas de uma educação realmente libertadora e por isto respeitadora do homem como pessoa. (Freire, 1967, p.37).
A disciplina é uma prerrogativa na educação que ao longo do tempo foi se tornando algo natural, como se sempre fosse assim. Na realidade, ela foi inserida como técnica de exercício de poder, com seus princípios elaborados durante o século XVIII, e já existia há muito tempo, na Idade Média e mesmo na Antiguidade. A disciplina nas escolas confunde-se com as executadas nos quartéis e nas fábricas e também nos presídios.
A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que fizeram é conforme a regra. É preciso vigiá-lo durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares. (Foucault, 1979, p.105-106).
Foucault analisa esse fenômeno em sua obra “Vigiar e Punir” e, em outros estudos que também viraram livros, ele explica que a disciplina é aprofundada nos séculos XVIII e XIX contribuindo para a consolidação do capitalismo. Surge assim uma nova forma de exercer o poder. Em vez de exercer o poder através de punições físicas e de restrição da liberdade, desenvolve-se uma forma de poder mais sútil, contínuo e sistemático, o poder disciplinar.
A liberdade na educação é um chamado urgente e estratégico!
Autor: Saulo Rodrigo Bastos Velasco. Historiador e Geógrafo. Especialista em Metodologia do Ensino em Filosofia e Sociologia. Professor de Rede Municipal de Ensino. Também escreveu e publicou no site “Ser professor em tempos de ódio: resistir é educar”: www.neipies.com/ser-professor-em-tempos-de-odio-resistir-e-educar/
Edição: A. R.









A liberdade na educação é um chamado urgente e estratégico!
Autor: Saulo Rodrigo Bastos Velasco.