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O mundo em que vivo – como filósofo e como cidadão

Podemos nos libertar do
humanismo e do capitalismo?
Duvido que só a política faça isso.

Minha neta Mariana ainda não sabe falar. Mas ela já sabe ver o “Monica Toy” no tablet. Ela toca a mão naquilo, no gesto de deslizar, e se delicia com as aventuras dos bonecos mauricianos. Há uma imediaticidade nisso: os sentidos da visão e da audição são acionados conjuntamente com o do tato. São três formas de imagens: tátil, visual e auditiva, não mais separadas, mas dadas em conjunto.

Nossas crianças estão sendo educadas, já corporalmente, para o imediatismo das imagens. O imediatismo, ou seja, o sem mediação, é antes de tudo o rápido. Acesso e entendimento precisam, agora, de velocidade.

As pessoas aceleram meus vídeos. Não querem pensar. Se irritam se não recebem toda a informação de uma vez só, como quem recebe um tapa na cara, e não um beijo. São pessoas que já foram educadas pela minha neta. Que sabe beijar já, mas que estará propensa a estapear, aposto.

As imagens dominam a Terra, em três dimensões dos sentidos, que se dão conjuntamente, e que obrigam o pensamento a se modificar e, ele também, a se tornar peça do imagético. O pensamento, que era por definição uma mediação, agora se põe como arauto da degradação da imediaticidade. Desse modo, o pensamento não pensa. The Flash era um cara rápido. Agora, o flash é algo que se impõe ao pensamento, como se este só pudesse funcionar no seu não funcionamento, ou seja, no piscar de receber imagens.

O mundo não faz sentido (Weber nos avisou), então, o sentido é dado pelas imagens disparatadas, dadas por um fluxo louco. Se podemos chamar isso de espetáculo, eis que agarramos tal situação para que, pelo nome, saibamos que alguma coisa está ocorrendo, que ainda estamos vivos e passando por alguma coisa, ou alguma coisa passando por nós.

Não foi a TV que nos preparou para isso, embora ela tenha ajudado. Não foi a Internet vinda pelo celular à mão que nos jogou nisso, embora tal coisa tenha fundado um novo reino para sermos súditos. O que nos preparou para tal foram, seguindo Heidegger e Debord, duas grandes viradas. Uma que foi a da “subjetivação do mundo”, estrelada pelo Humanismo, tendo Descartes à frente. Outra foi a do império da mercadoria, que forjou o mundo fetichizado, e que empurrou a subjetividade para outro plano. Marx foi o herói crítico dessa segunda fase.

Na amostragem de Heidegger, Descartes fez a verdade passar do desvelado para o certo (para a certeza), e fez o mundo apresentado, então, tornar-se representação – algo feito pelo homem. Tendo assim agido, colocou o mundo como algo do homem para o homem. Inaugurou uma época em que tudo é manipulado pelos olhos humanos, quando faz ciência, e pelas mãos, quando faz tecnologia, e pela guerra, quando quer testar tudo isso.

Na amostragem de Debord, Marx denunciou o advento da mercadoria como portadora de valor, ou seja, de hora de trabalho abstrato, algo que é o social humano embutido numa peça material. Sendo assim, a mercadoria, se tem utilidade, é algo que se impõe ao homem como tendo subjetividade, como o que aparece ao homem comandando sua ação, e transformando-o em objeto. Ela mostra ao homem seu modo de ser sensível e supra sensível ao mesmo tempo. Nisso, se põe como fantasma, como fetiche. Essa fetichização é seu espetáculo. A imagem fantástica disso nos embasbaca.

Assim, para Heidegger a modernidade é a época em que o mundo vira imagem, enquanto que para Debord a contemporaneidade é a época em que as imagens são já feitas em forma de espetáculo, de algo fantasmático. A imediaticidade da minha neta com as imagens, ou a daqueles que olham o vídeo do celular com pressa, ou, ainda, a dos que se deixam seduzir por tudo que é imagem tátil-sonora-visual imediata, como as simplórias imagens da campanha de Bolsonaro, revelam que a operação descrita por Heidegger e Debord foram eficientes. Primeiro, transformamos o mundo em imagem. Depois, transformamos o mundo das imagens em espetáculos.

Primeiro, a ação humana de trazer tudo para o homem. Depois, a ação do capital de trazer tudo que é do homem e da terra para o fetiche. Vivemos sob o domínio disso. E criamos o Humanismo e o Capitalismo em comum acordo. Não à toa, eles nasceram praticamente juntos. Foram embalados por gôndolas de Veneza.

Ninguém acha que pode ter o mundo, mas acha que pode ter representações dele. Daí a força do Facebook e do Youtube na produção de ontologia. Ninguém acha que pode escapar da mercadoria lhe dando ordens, como sujeito humano, daí a força das imagens de compra e venda das mercadorias que dominam nossa vontade, desejo, ação e, enfim, nossa subserviência ao valor, expresso numericamente em dinheiro.

Esse projeto nos fez duplamente dominado: a dominação do homem pelo homem e a dominação do fetiche, do fantasma, sobre o homem. Dominação não em pensamento que passa, para nos dominar, pela cabeça, mas dominação que nos torna súdito por vivermos realmente numa situação de súditos. Súditos do homem pela técnica, súditos do homem pelo fantasma.

Podemos nos libertar do humanismo e do capitalismo? Duvido que só a política faça isso. Todavia, enquanto cidadão, continuarei assinado petições por liberdade de imprensa, lutando pelo voto correto, cobrando meu deputado, condenando o genocídio e os ataques às minorias. Farei tudo isso como cidadão liberal americano, ou social democrata europeu. Mas, se eu fizer demais isso, matarei minha rebeldia e deixarei de tentar pensar em horizontes utópicos, livre da sociedade do espetáculo e seu humanismo? É um desafio ainda, mesmo para mim, aos 62 anos. Estou como quem começa agora.



O trabalho do filosofar não se faz sem o trabalho de adentrar o pensamento de alguns filósofos. Essa entrada é uma armadilha. Entramos no pensamento de filósofos consagrados, mas então percebemos que só podemos assim realmente fazer se deixarmos as coisas se inverterem: é o filósofo que adentra em nós e nos utiliza para voltar a pensar. Perdemos nossa identidade nisso.
Reflexão originalmente publicada aqui.

Adaptar jeito de viver aos meios ecológicos?

 Falando com simplicidade, nunca é demasiado asseverar que o “funcionamento” de toda a economia, isto é, a capacidade de produzir qualquer coisa, exige recursos materiais e energia da única (vale o grifo) fonte existente, a natureza.

Daí a necessidade de pormenorizar ao menos dois pontos cruciais que, não raras vezes, passam despercebidos: i) o sistema econômico é um subsistema do ecossistema global; portanto, trata-se de incomensurável risco afetar o sistema maior, o meio ambiente; ii) sem exceção, estamos todos dentro de um mesmo sistema, e basicamente devemos ter em conta que tudo o que é extraído da natureza a ela retorna em forma de lixo (alta entropia); logo, quanto mais aumentarmos a extração/produção, mais aumentaremos a entropia (grau de desordem de um sistema).


O excesso populacional e a voracidade consumista.


Fazendo uso de uma linguagem de fácil compreensão, vale registrar dois pontos importantes: Primeiro – se estamos usando de forma intensa e extensivamente os recursos da natureza (vista como um “almoxarifado da economia”), então parece óbvia a dedução de que seguimos por trilhas perigosas, colocando em apuro a civilização moderna. Desse modo, vamos aumentando as tensões estruturais no relacionamento historicamente conflituoso entre a economia, a sociedade civil e o seu meio natural.

Segundo – gostemos ou não, já não é mais possível negar que nossa conduta nos condena. Diante disso, e de forma perceptível, parece mesmo que vale tudo em prol do aumento da escala de produção material; inclusive devastar os ecossistemas.

Logo, não é de se estranhar que permaneçamos cegos aos débitos ecológicos e visivelmente obcecados pela conquista material; tão obcecados que o gênero humano parece que foi contaminado pela pleonexia (apetite insaciável de possuir bens materiais).

Grosseiramente fazendo mea-culpa, a verdade é que nossa espécie Homo sapiens-imprudentis segue com devotado vigor destruindo os ecossistemas naturais numa velocidade assustadora, assim como também o faz em relação às formas de vida conhecidas (vide, por exemplo, o avanço da defaunação, i.e., a extinção de espécies, e a morte das florestas e de tudo o que nela existe).

Aos mais céticos, serve de exemplo o que segue:

(1) metade das florestas tropicais e temperadas do mundo já sumiu de nossas vistas;

(2) de 1970 a 2008, houve a perda de 28% de toda a biodiversidade da Terra;

(3) nas últimas cinco décadas, o número de espécies de vertebrados teve um declínio de 30% em todo o mundo;

(4) mais de 50% do habitat selvagem foi completamente destruído em 49 dos 61 países tropicais do Velho Mundo;

(5) entre 1970 e 2010, os sapiens-imprudentis destruíram 52% da fauna do planeta (notadamente as espécies de mamíferos, pássaros, répteis, anfíbios e peixes);

(6) trinta e cinco por cento dos mangues do mundo e 20% dos recifes de coral foram totalmente destruídos desde o início dos anos 1980;

(7) trinta e três por cento dos solos do mundo estão degradados, o que equivale a afirmar que perderam fertilidade, por isso não mais captam carbono da atmosfera, interferindo assim nas mudanças climáticas;

(8) pelo sistema das águas, já atingimos o ponto crítico de despejar nos mares, todos os anos, 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas no mundo. A estimativa para o ano de 2050, pasmem, chega a ser odiosa: haverá mais plásticos do que peixes nos mares.

Uma nova economia baseada em uma racionalidade ambiental      

Sejamos claros e objetivos: o estágio atual de devastação do mundo natural exige que a comunidade humana se esforce no sentido de elaborar uma nova economia baseada em uma racionalidade ambiental, estabelecendo para tanto um novo modo de produção material adaptado ao equilíbrio climático e ambiental; portanto, longe do modelo de economia que hoje nos direciona que sequer respeita a capacidade de recuperação da Terra, isto é, a sua resiliência (do latim resiliens, a capacidade de voltar ao normal).

O mais importante valor da economia, contrariando assim o senso comum, é a natureza (matriz de nossa existência). Sob essa inspiração, e abusando um pouco mais de uma linguagem cotidiana, deve ser devidamente esclarecido que está em jogo diversas consequências econômicas e sociais que são acarretadas por uma série de descompassos que o modo econômico de produção global termina por levar ao meio ambiente.

Essa série de descompassos – que tem peso significante, frisa-se – pode ser traduzida na alteração das condições climáticas (devido à queima de combustíveis fósseis; ou seja, na maneira como “funciona” a economia global); no empobrecimento biológico da Terra (resultante do aumento da perda de biodiversidade, como já mencionado) e na preocupante diminuição dos serviços ecossistêmicos, incluindo entre outros a captura de CO2, a prevenção a erosão e desertificação, e a melhora da qualidade do ar.

Todo esse descompasso, ou seja, esse drama ecológico (se cabível for o termo), é mais bem percebido quando são lançados olhares ao que ocorre na fronteira entre a economia e a ecologia; não deixando ainda de observar com redobrada atenção o que se passa pelo lado social, em especial junto às populações carentes (vulneráveis), reconhecidamente as mais afetadas pela crise ambiental. Nessa direção, é dado saber que a comunidade humana permanece numa situação completamente desconfortável.

O calamitoso quadro social de necessidades humanas básicas ainda não atendidas atualmente é bem conhecido. Citemos apenas dois dos casos mais gritantes que saltam à vista: um bilhão de habitantes do mundo sofre diuturnamente o drama da subalimentação, e 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico.

Voltando nossa atenção à narrativa central aqui contextualizada, é o caso de perguntarmos se o crescimento econômico, traduzido na expansão da oferta de bens e serviços, pode colaborar promovendo a emancipação desse contingente de necessitados e, a reboque, levar em consideração a necessidade de preservação do mundo verde?

Partindo para uma rápida resposta, mas não deixando de observar a celeuma que envolve o crescimento (inovação tecnológica), a preservação da natureza (quando combinado ao termo crescimento sustentável) e a imediata possibilidade de melhorar a vida social, ouso levantar ao menos cinco pontos-chave que merecem reflexão:

                   1) o crescimento sustentável – seja dito, um oximoro – simplesmente é irreal, dado que a expansão da produção material colide, e também contraria, com a necessidade de preservar a natureza (recursos materiais e energéticos). Fora isso, é impossível repetir o ritmo de crescimento que o século 20 assistiu, uma vez que a dimensão desse “movimento”, vale notar, já não mais se limita a ficar aquém das fronteiras ecossistêmicas (isso implica em dizer, grosso modo, que a economia se tornou maior que as condições ecológicas);

                   2) a chamada ecoeficiência (fazer mais com menos), mesmo que seja intensificada e passe a contemplar de uma vez por todas um novo modo de produção econômica combinando a substituição de energias fósseis por renováveis e reduzindo o uso de recursos por unidade de produto, não traz garantia alguma de que compensará no curto e longo prazos os efeitos do crescimento econômico acelerado;

                   3) no confronto entre o alto crescimento econômico e a baixa preocupação ecológica, tão comum nos dias de hoje, é preciso estar atento ao aparecimento dos “custos do crescimento”, isto é, àquela situação em que os prejuízos ambientais superam os benefícios econômicos, condição que deve ser interpretada na convidativa expressão “crescimento deseconômico”, termo criado por Herman Daly;

                   4) embora tenhamos nos acostumado a medir desempenho econômico pelo nível de consumo material – erro grotesco, diga-se – é preciso não se desprender da compreensão de que há sim distinção entre o crescimento e o desenvolvimento, frisando, nesse estrito sentido, que crescer nada mais é do que promover o aumento da produção (ou seja, é atingir quantidade; ficar maior), ao passo que desenvolver se refere basicamente a conquistar bem-estar/bem-viver (logo, é atingir qualidade; ficar melhor);

                   5) por fim, e guardando certa proximidade com o item anterior, sempre que possível devemos evitar um mal-entendido: o aumento da riqueza de um País, quase sempre percebido no crescimento da economia, não corresponde em imediata melhoria da vida social; daí a constatação de que o crescimento, visto no mais das vezes como o beijo do Príncipe que desperta a Bela Adormecida, não é a solução de todos os males; e nem mesmo a elevação do PIB (reduzido a sinônimo de sucesso), cujos erros de interpretação são tão flagrantes quanto numerosos, pode ser apresentado, na prática, como um indicador supremo de prosperidade/felicidade. O crescimento, cumpre realçar, pode até nos fazer mais ricos, mas certamente não nos deixará mais felizes.

“A escolha é nossa”         

Concluindo e falando ainda com certa simplicidade: tudo o que temos a fazer em prol da conquista de um mundo ecologicamente mais equilibrado (e socialmente próspero), consoante à relação existente entre o comportamento humano, a economia, e o meio ambiente, é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos, partindo da orientação máxima de que cabe à comunidade humana, com muita prudência, organizar todo o aspecto da economia produtiva que facilita, no todo, a condição de vida humana.

A dedução feita aqui se refere sobretudo ao processo de mudança associado à consciência. Indo direto ao assunto: diante de tudo o que temos presenciado, no mínimo é cabível dizer que a história da relação entre o Homem, a Economia, e a Natureza, não mais pode continuar avançando pelo “lado ruim”. Inocência analítica à parte, a verdade é que temos tido pouco cuidado com o planeta que nos acolhe.

Caso queiramos realmente marcar um novo tempo, precisamos agir ao menos em três direções: i) construir uma nova economia que dialogue com os princípios da ecologia; ii) organizar os serviços ecossistêmicos de modo benfazejo em relação ao trato humano; iii) estabelecer estratégias civilizatórias na radical defesa de uma postura favorável à natureza e ao projeto maior que o ser humano conhece, o sistema-vida.

Vale enfatizar: nada pode ser superior à defesa da vida. Se o aumento produtivo dos dias de hoje vem ocorrendo na contramão do equilíbrio ecológico, afetando sobremaneira a qualidade social da vida humana e aproximando-nos assim de um perigoso colapso ambiental, acelerando de vez o impasse civilizatório, somente nos resta com alguma coragem engendrar um percurso diferente de tudo o que fizemos até agora.

Sem mais, para o pleno sucesso dessa ação, me posiciono ao lado daqueles que ousam acreditar que a comunidade humana, antes de mais nada, carece de assimilar com muita responsabilidade o que disse John Sawhill (1936-2000), ex-presidente da The Nature Conservancy: “No final, nossa sociedade será definida não somente pelo que criamos, mas pelo que nos recusamos a destruir. A escolha é nossa”.



Num tempo em que o desenvolvimento tecnológico avança celeremente no intuito de facilitar a construção de mundo mais pacífico e menos desigual, parece não haver paradoxo mais tosco e aberrante que presenciar incomensurável contingente populacional vivendo em desumanas condições de vida, expostas ao convívio diário com esgotos a céu aberto.

Carta ao presidente

Excelentíssimo Sr. Presidente da República.

Diante do desejo de V.Ex.ª de suprimir – entre outras disciplinas – Sociologia, do currículo de nossas universidades, gostaria de lhe dizer que é através dela (Sociologia), que explica-se a formação do Brasil. Os sociólogos, como os filósofos e historiadores, não ensinam a amar a pátria acima de tudo, mas a compreendê-la.

Foram muitos os autores que, ao longo do tempo, buscaram interpretar nossa sociedade. Tenho certeza que V.Ex.ª os desconhece. Atarefado com o twiter, em liberar o uso de armas, cortar verbas para a educação, ouvir Olavo de Carvalho, dispõe de pouco tempo para uma leitura séria. É compreensível.

Joaquim Nabuco, historiador, jornalista e jurista lutou para que se desse ao liberto e ao escravo a condição de cidadãos no final do séc. XIX. Nabuco antevia que o preconceito, o racismo, seriam problemas que subsistiriam por muito tempo. O senhor é um exemplo desta permanência.

Euclides da Cunha mostrou que o sertanejo conselheirista era “um forte”, mesmo que refratário ao Estado nacional, à República. Rezava e acreditava na predestinação de seus objetivos, enquanto lutava pelo domínio da terra e autonomia social diante dos exploradores. O “mito” do sertanejo era D.Sebastião, não um “messias” qualquer.

Darcy Ribeiro, mostrou que a nação brasileira adquiriu plenas condições para lidar com as adversidades e diferenças e para se constituir como um modelo de civilização. Advertiu, entretanto, que temos um certo pendor para o mandonismo, para o autoritarismo e para a tirania. Se identificou Presidente?

Darcy Ribeiro

Gilberto Freyre valorizou o negro. Mostrou que a mestiçagem, o hibridismo e mesmo a plasticidade cultural da convivência entre contrários não são apenas uma característica, mas uma vantagem para o Brasil. Casa Grande & Senzala precisa ser lido urgentemente por seus ministros!

Caio Prado Jr., escrevendo sobre o Brasil colônia, mostrou que o sentido da colonização não se esgotou nas bases sociais locais de exploração econômica. Foram decisivas as relações com a Metrópole que nos sugou por séculos. Hoje V.Ex.ª quer transformar Washington na nossa Lisboa do passado?

V.Ex.ª deve ter ouvido falar de Sérgio Buarque de Holanda. É, o pai do Chico. Comunistas, o senhor dirá! Sérgio defendeu a tese do “brasileiro cordial”, indivíduo emotivo que guia as escolhas por preferências afetivas e pessoais e não pela racionalidade. O senhor é a confirmação da tese!

Jessé Souza, o sociólogo do momento, garante que “a capacidade humana de autoreflexão e descoberta de novos sentidos, para a vida pessoal e social sempre foi mantida em vigilância. Quando deixada livre tende a questionar o sentido da tradição e da reprodução da vida”.


A doença do Brasil é o ódio de classe.


Será este o medo da Sociologia? Detentores de privilégios não têm interesse nesse tipo de liberdade, que abre caminho para a reflexão e a crítica.

O gaúcho Raymondo Faoro, na obra “Os Donos do Poder”, ressalta o papel do patrimonialismo, que se afina mais com o personalismo autoritário. Cuidado com o empreguismo Presidente. Ele leva a estripulias no uso do bem público.

Portanto, Ex.ª, esta ciência – Sociologia – tem uma função fundamental. Fazer nossa gente compreender a realidade em que vive, analisar a nossa formação. Ela nos permite inventar o futuro, sem negar a importância dos temas do passado e os feitos concretos que deles resultaram.

Ela é uma lupa que permite ver quem somos e como somos. Quem sabe até ajude seu governo a encontrar um rumo. Eliminá-la é sinal de obscurantismo e retrocesso.


Importância da sociologia.

Tiro ao alvo

De acordo com estudiosos da temática,
posse de uma arma não é sinônimo de proteção.
A arma funciona como a força do fraco.

Multiplicam-se pelo território nacional os clubes de escola de tiro ao alvo. “Santa Catarina está entre os três estados com maior número de clubes de tiro do país, ao lado de Rio Grande do Sul e de São Paulo, com cerca de 120 estabelecimentos cada um. Em janeiro deste ano, eram 838 os clubes de tiro no Brasil, segundo o Exército” (AMORIM, Silvia, Este clube é bala, in: Revista Época, nº 1088, Editora Globo, pág. 37).

De acordo com o mesmo artigo, Eduardo e Carlos Bolsonaro frequentam o “Clube e Escola de Tiro .38”, localizado na região Metropolitana de Florianópolis. “Eduardo não se cansa de defender, durante as horas de lazer atirando em Santa Catariana, a ampliação dos direitos de colecionadores, atiradores e caçadores – grupo conhecido como CAC. A reivindicação foi atendida por um decreto presidencial do pai”.

O que pode significar esse aumento de escolas e essa sede histriônica de cuspir fogo e bala? Que implicações terá o decreto do presidente Jair Bolsonaro que “facilita e amplia a concessão de porte de armas para um conjunto de 20 profissões, como políticos eleitos, servidores públicos que trabalham na área de segurança pública, advogados em atuação pública, caminhoneiros, oficiais de justiça, profissionais de imprensa que atuam em coberturas policiais e agentes de trânsito, entre outras categorias”? Um “tiro no pé”, comenta o editorial da revista.

Não faltam os argumentos a favor e contra um maior acesso às armas de fogo. Argumentos que vão desde a atitude subjetiva e psicológica do cidadão, até a insistência no direito de legítima defesa, diante da integridade física e da propriedade privada. Tampouco faltam armas no Brasil, considerado “entre os sete países mais armados do mundo”.

Existem oito armas para cada grupo de 100 mil habitantes. O país tem em circulação 16 milhões de armas – quase metade sem registro legal”, ainda conforme o citado editorial.

No modesto ponto de vista de um cidadão comum, aumentar o número de armas é aumentar o número de mortes por assassinato. A equação é matemática: mais armas, mais balas, mais gente potencialmente atingida.

Quem garante que a posse de uma arma torna a pessoa menos vulnerável e mais segura? O mais provável é que a autodefesa represente um suicídio. Pressupondo que o cidadão esteja armado, é natural que a ousadia e a agressividade por parte dos criminosos tenda a crescer. O criminoso antecipa-se à vítima, até mesmo para roubar-lhe a própria arma. Esta última, ao fim e ao cabo, pode acabar reforçando o arsenal já considerável do crime organizado. Vale aqui a máxima de que violência gera violência.

Mas não é só isso! Por trás dos argumentos falados, existem interesses silenciados. As palavras ditas supõem palavras não ditas, as linhas supõem entrelinhas. A arma funciona como a força do fraco.

Em lugar de reflexão e diálogo pelos canais democráticos instituídos, é mais fácil disparar balas, palavrões, ofensas e ameaças pelas redes sociais.

O mesmo se verifica com frequência no interior de muitas casas, protegidas pelo “segredo familiar”. Em vez de sentar para conversar, apela-se para o grito, o tapa, o soco e o pontapé… E para o tiro, se houver uma arma de fogo ao alcance dos nervos exaltados. Neste caso intrafamiliar, as mulheres e crianças resultam como vítimas. Quantos hematomas ocultos e quantas lágrimas engolidas em silêncio, para não piorar as coisas! Os feminicídios e abusos sexuais espalham-se pelo país!

Enquanto isso, para a indústria das armas, o que importa é fabricar e comercializar o máximo de unidades. Produzir e vender instrumentos de morte rende mais que criar políticas públicas para melhorar a situação do trabalho, da saúde, da educação, da habitação, da alimentação… Enfim, o bem-estar e a paz para o conjunto da população.

Mais perverso ainda, porém, é transferir da esfera pública para a esfera privada o ônus e a responsabilidade da segurança pessoal e familiar. Segurança aparente e enganosa, pois, de acordo com numerosos estudiosos da temática, a posse de uma arma não é sinônimo de proteção. O remédio, longe de trazer a cura, tende a agravar o quadro precário da política nacional de segurança.


Mário Sérgio Cortella e o uso de armas.

‘Projetos de socioeducação abrem portas’


Para Juiz Dalmir Franklin,
a punição não é a única solução.

Qual a função de um juiz? Em teoria, é resolver conflitos. Avaliar se o réu é culpado ou não. Ouvir a alegação das partes, oportunizar a apresentação de todas as provas e, posteriormente, solucionar o conflito de forma imparcial. Para o magistrado da Vara de Família de Passo Fundo (RS), Dalmir Franklin de Oliveira Júnior, 43, sua profissão vai muito além disso.

Dalmir entende que a punição não é a única solução para recuperar jovens infratores. Ele, que já foi da Vara da Infância e da Juventude, pode acompanhar o impacto da criminalidade na vida de muitos jovens, e o contato direto com a realidade o fez se envolver em um projeto que nasceu no pátio do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case): uma banda para tocar com os jovens muitas vezes condenados por ele.

Professor do curso de direito, Dalmir teve uma longa conversa com o Educação e Debate sobre a conjuntura política, redução da maioridade penal, Escola Sem Partido, perseguição a professores, direito constitucional, questões de gênero e, claro, sobre o projeto que resultou na Banda LibertArte.

Educação&Debate- No último período, tanto em nível nacional quanto municipal, questões como os projetos de lei que seguem a linha “Escola Sem Partido” e o ataque aos estudos de questões de gênero foram muito presentes. Como você avalia essas investidas?

Dalmir- Aqui nós tratamos de um direito social, que é o direito à educação, que está no artigo sexto da Constituição. A Constituição de 88 estabelecede forma jurídica, mas constitucional que o Brasil deixa de ser um país meramente liberal e passa a ser um estado social.

O estado social é aquele que tem o dever de prestar direitos, serviços e bens, dando a todos os cidadãos uma vida minimamente digna. O mínimo para uma pessoa viver com dignidade são os direitos sociais.  Direito à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, à alimentação… A educação está dentro desse mínimo existencial que o estado tem que prover para todas as pessoas. Além de estabelecer esse direito social, a constituição estabelece a Liberdade de Cátedra, de ensinar e de aprender, o que configura esse direito fundamental de educação. Então, no momento em que tu restringes esse conteúdo, você fere uma cláusula pétrea da constituição.

Não basta somente dizer que o estado é responsável por permitir o acesso à educação, trata-se de garantir que essa educação seja plural, porque o pluralismo é um dos valores da constituição e, mais do que isso, a questão das vedações das discriminações, que também estão na constituição, tudo isso vai configurando esse direito à educação. O pluralismo e a liberdade são valores que transcendem todos os direitos, e o artigo 206 da Constituição fala especificamente na Liberdade de Cátedra de ensinar e de aprender, então essas propostas de vedar a discussão de questões de gênero, vedar a discussão política e ou partidária, tudo isso é evidentemente inconstitucional.

 E&D – Os professores vêm sendo atacados em diversas esferas. Ao final do último ano (2018), uma deputada de Santa Catarina incitou alunos a gravar seus professores em sala aula. Como o docente deve se portar se tem sua sala de aula invadida, ou um aluno começa a gravar sua aula com a alegação de doutrinador?

Dalmir – Eu acho engraçado isso porque o ensino, o conteúdo sempre vai ser de uma forma ou de outra ideológico. Qualquer área do conhecimento, se tu estuda filosofia ou epistemologia fica mais claro, em perspectivas de análises e questões. Na matemática, por exemplo, tem quem defenda que existe uma verdade absoluta e tem gente que sustenta que não… Sempre tem uma perspectiva de visão, de conhecimento, e que se pode optar por um ou outro.

Costuma-se dizer que a história é contada pelos vencedores, então eu não consigo compreender se a gente for dividir entre direita e esquerda, a gente pegaria os governos que tiveram no Brasil nos últimos 500 anos, que sempre foram governos mais de centro a direita, daí nunca se falou tanto dessa questão da ideologização, porque a esquerda esteve no poder por cerca de 16 anos, aí se diz que existe doutrinação da esquerda. Ou seja, são 16 anos contra 484 anos. Essa é uma coisa absurda que estamos vendo. Existe essa questão do conteúdo mínimo que o MEC estabelece e cada professor vai ter uma perspectiva sobre o conteúdo e vai ministrar aquilo.

Dentro da perspectiva do pluralismo, tu tens ideias liberais, tu tens ideias social democratas, do bem-estar social, tu tens ideias socialistas ou comunistas, eu acho que o aluno tem que ter condições mínimas de saber o que cada uma delas é. Pra mim, o mais correto é que o professor se identifique, diga seu posicionamento sim, para esclarecer o teu lugar de fala, assim a pessoa pode filtrar o conteúdo que ela vai receber.

E&D – O ministro da educação indicado pelo presidente eleito, no início do governo Jair Bolsonaro, Ricardo Vélez-Rodríguez, declarou que os brasileiros são, “na sua essência”, conservadores e avessos “a experiências que pretendem passar por cima de valores tradicionais ligados à preservação da família e da moral humanista. Como você avalia a educação nos próximos quatro anos?

Dalmir – A gente viu algumas propostas na campanha da chapa vencedora que são preocupantes. Quando se fala na questão de incentivar a educação a distância, especialmente no ensino médio, não sei se essa proposta valeria para o ensino fundamental, está retirando da questão pedagógica a relação professor-aluno, e isso eu não posso admitir.

O espaço da escola é um espaço de socialização e a socialização se dá na convivência. A relação professor aluno é uma relação que por si só já permite o ensino, o aprendizado.

Então, sinceramente, tirar isso de um sujeito em formação é algo que não imaginaria que pudesse acontecer. Eu vejo com muito maus olhos. Agora eu não sei com relação às propostas… Pelo que eu vi nas redes sociais, este senhor que deve ser o Ministro da Educação, indicado pelo Olavo de Carvalho, entende que o Golpe de 64 não seria golpe, que poderia ser comemorado, alguma coisa assim… Então eles falam de educação sem partido, mas a ideologia deles vale. A ideologia que eles pregam é possível ser sustentada. É um discurso muito superficial, muito fraco e que não permite que se aprofundem as questões.

Tem a questão do Ensino Superior, que acho que a expectativa não é boa. Temos visto um retrocesso desde o impeachment da presidenta Dilma, com a sucessão do governo Temer, de diminuição dos programas de incentivo ao ES. É discutível também se a gente deve investir, por exemplo, na questão do financiamento estudantil para o acesso ao ensino superior ou se tu deverias aumentar o número de vagas no ensino superior público.

Alguns estão falando em cobrança do Ensino Público, nível superior, que também em princípio violaria a Constituição. A gente está vendo muitas propostas de retrocesso ao que estabelece o estado social constitucional de 88, é isso que a gente está vendo, mas era uma coisa que vinha desde a campanha eleitoral, que já mostrava que a chapa vencedora fazia vários discursos contra a Constituição.

E&D – Atualmente presenciamos um fenômeno que são os adolescentes do ensino médio que se posicionam com valores superconservadores e de extremíssima direita. Como você encara esse comportamento?

Dalmir – A gente tem que pensar que vivemos num mundo globalizado e dentro dessa perspectiva do mundo globalizado, especialmente de que a informação hoje ela é muito advinda das redes sociais, existe uma influência muito grande na formação da opinião por meio das redes sociais de Whatsapp, de Facebook… é uma questão que circula por meio das redes sociais. Está se formando opinião de jovens e adolescentes por meio da internet, por meio das redes sociais.

Eu acho que é bem possível sim que esses valores estejam sendo transmitidos às pessoas mais jovens e elas acabam reproduzindo porque é aquilo que elas estão vendo. Antigamente a gente tinha uma formação que advinha dos bancos escolares e mídia tradicional, principalmente da TV na minha época, alguma coisa do jornal escrito, alguma coisa do rádio, mas principalmente a TV. Ela que formava opinião e hoje em dia a opinião é formada também e muito pelas redes sociais, então se tu consegue jogar nas redes sociais uma perspectiva e um viés ideológico, eu acho que tu forma as gerações também, forma as gerações mais novas e acredito que isso acontece no mundo de uma maneira geral.

Quando a Europa começa a lidar com a questão do imigrante há uma onda de, digamos assim, tu tem a ação, que é a vinda dos imigrantes, e tu tem a reação, no sentido de ter uma resistência vinda dos imigrantes e aí começa se construir toda uma ideia, que é uma ideia de racismo, de preconceito que já existe na sociedade. Porque já existe nas antigas gerações, que permitiu que isso acontecesse inclusive com guerras mundiais, só que agora ela vem com uma outra roupagem, com uma outra forma e isso informa as novas gerações também. Eu acho que é por aí, não sei.

 E&D – Bandido bom é bandido morto?

Dalmir – É um jargão bastante utilizado que trata de um dos sistemas que mais preocupa a sociedade brasileira, a violência urbana. A segurança pública é um tema que preocupa a todos de uma maneira geral, não só a classe média ou elite, porque a pessoa que mora na periferia também não quer ser furtada, não quer perder suas coisas que conquista por meio do trabalho. Só que a proposta é uma proposta evidentemente inconstitucional, que incita a violência.

Responder à violência com mais violência, costuma-se dizer, acaba só aumentando os níveis de violência na sociedade, é necessário romper o ciclo da violência e não pode ficar sustentando ele e dando mais violência.

É inconstitucional porque não existe a possibilidade de aplicação da pena de morte no Brasil. O direito à vida e a vedação da pena de morte também é uma cláusula pétrea. Não tem nenhuma viabilidade constitucional a questão da pena de morte, ela teria que ser rejeitada assim como a redução da maioridade pena de morte ela não pode ser, ela pode até ser aprovada, mas o penal também é cláusula penal e deveria ser rejeitada.

Os direitos humanos não podem ser velados em hipótese alguma, eu não posso pegar a maioria e exterminar fisicamente a minoria, seja bandido, seja negro, seja judeu, seja homossexual. Não pode haver extermínio físico e muito menos a desconsideração da dignidade dessas pessoas, todos são dotados de dignidade e a dignidade da pessoa humana é uma característica que nos une como raça, como espécie.

E&D – Como você vê a defesa de alguns setores de que haja diminuição da maioridade penal?

Na prática, isso representa que elas vão sair do sistema prisional muito pior do que elas entraram. Fui juiz do sistema prisional e do sistema socioeducativo dos adolescentes, então eu conheço os dois sistemas. Tenho a absoluta certeza e convicção de que é muito mais fácil dentro do sistema socioeducativo eu conseguir fazer um trabalho bom nesse adolescente para que ele volte para sociedade um pouquinho melhor do que ele entrou no sistema, socioeducativo, do que largar no sistema prisional que não ressocializa.

Quem é juiz da execução criminal no Brasil sabe que grandes presídios estão tomados pelas facções. Quem entra dentro do sistema prisional, quem é preso, entra tendo que optar por ser de uma facção ou da outra, e aí tu vais pegar um jovem de 16/17 anos e vai botar na mão da facção. Tu pegar esses jovens para botar na mão de facção e eles ficarem praticando crime na rua em nome da facção é uma coisa absurda.  Mas só quem conhece o sistema é que sabe que isso acontece, que vai acontecer.

A redução da maioridade penal é ruim para a segurança pública, ela vai piorar a violência, vai piorar a segurança pública, vai piorar os índices de criminalidade. E juridicamente ela é incondicional, ela não pode passar; se passar, o Supremo tem que dizer “está se violando uma cláusula pétrea da Constituição de 88” e retirar essa proposta do ordenamento jurídico brasileiro.

E&D – Como começou o projeto LibertArte, o que fez você se envolver com ele? Na prática, ele trouxe resultados para os jovens envolvidos?

Bom, tive a experiência de ser juiz criminal e com adulto imputável, que vai para o presídio. Então, fui estudar o direito da criança e do adolescente e achei que, em termos de violência e segurança pública, se eu trabalhar na prevenção, com adolescente para que ele não seja um maior imputável, eu tenho muito mais chance de êxito do que trabalhar já com o sujeito constituído. O sujeito que já é maior de idade é um sujeito que, pela lei, já tem sua personalidade formada. Se eu trabalhar com um menino de 12, 13, 14 anos, ele está em formação, em desenvolvimento; então, se eu fizer um trabalho aqui na base, aí eu posso evitar e diminuir os índices de criminalidade do maior de idade. A primeira questão foi essa, trabalhar com a delinquência juvenil na perspectiva socioeducativa.

Se o sujeito ainda está em desenvolvimento, ele tem mais potencialidade de aprendizado, tem a escolaridade formal dele dentro do CASE, por exemplo, se ele está em semiliberdade, ele tem que estar estudando numa escola na rua, e aí, para agregar a questão pedagógica formal da escolaridade, tu acostumas a pensar em outros projetos que desenvolva a potencialidade deles.

 Como eu gosto muito de música também, eu acabei de um sonho antigo de querer trabalhar com música e criança junto com o psicopedagogo pensando na musicalização dos internos do CASE. Na minha dissertação de mestrado em Direito, falei sobre o projeto, estudei cientificamente quais são as possibilidades e ganhos que a gente tem com a arte. Dentro da psicologia, a gente tem um conceito que é o de sublimação, que é quando toda a energia psíquica que nós temos para as coisas boas e coisas ruins, que são as pulsões de vida e as pulsões de morte, e são sempre canalizadas por um objeto.  Está entre as pulsões de morte a agressividade. Se eu não a canalizar, elas vão sempre ir para esse mesmo destino que é a violência, a criminalidade. Só que eu posso pegar essa energia psíquica e canalizar para as coisas socialmente bem aceitas, reconhecidas socialmente. E o menino, quando está tocando ali um tambor, um instrumento, ele está canalizando essa pulsão para uma coisa que é socialmente bem vista e aí permite a eles um reconhecimento diferente deles.

A sociedade os reconhece de uma maneira distinta também, então esse é outro benefício que o projeto pode dar porque tu tens que trabalhar com a autoestima desses jovens. No momento em que ele tem um reconhecimento social diferente, ele sabe que tem potencialidades que podem ser exploradas, não que ele vá ser músico, mas, pelo menos, eles sabem que existe outro caminho que não é o de ser bandido, existem outras portas. Minha ideia sempre foi de que projetos na socioeducação abrem portas para esses jovens. A adolescência é justamente a fase de assumir as responsabilidades por aquilo que se faz e o ruim é se tu não abres as portas. Se deixar aberta a porta sempre da bandidagem, da criminalidade, ele vai seguir aquele caminho, porque é o que ele conhece, que sabe que chegou lá.

A gente abre caminhos, abre portas. Quem sabe um que outro pega e aí é um crime a menos que vai acontecer, dois crimes a menos que vão acontecer, menos vítimas… Essa é a ideia dos projetos que são desenvolvidos na socioeducação.

Muitos a gente perde, é fato. Porque o que leva uma pessoa a praticar o crime, ir para a vida da criminalidade são vários fatores, então tu tirar todos esses fatores ou reverter todos esses fatores é difícil. Mas tu conseguir transformar a vida de 1, 2, 3 desses jovens que vão, justamente, trilhar outros caminhos eu acho que já é um ganho social muito grande. É um ganho para esses jovens sem sombra de dúvida, porque ele vai ter outras perspectivas, vai ter vida, vai ter outras pulsões de vida, vai ter família, filhos e vai contribuir para a sociedade.

Agora não é só para ele, a gente está pensando em termos de segurança pública, isso é política de segurança pública, é um a menos que vai estar envolvido numa quadrilha, envolvido no tráfico, que não vai fazer um assalto.

E&D – Bolsonaro ganhou, e agora?

É preciso estar muito atento às medidas do governo eleito. No que diz respeito aos direitos fundamentais, aos direitos humanos, há necessidade de continuar conscientizando as pessoas, ensinando as pessoas o valor dos direitos humanos, o valor dos direitos fundamentais e que eles não podem ser violados, que eles são cláusula pétrea da Constituição. Há uma necessidade de continuar nesse trabalho de conscientização da população sobre a importância desses direitos para que elas lutem por eles, por essas conquistas e que também se consiga formar opinião contra medidas governamentais que sejam de retrocesso ao estado social e ao estado democrático de direito.

O momento é de organização social, toda a sociedade tem que estar preparada para o governo que vem. Temos a perspectiva de um governo que fez discursos contrários à Constituição e que acabou tendo apoio popular, a gente tem que conseguir trabalhar com as pessoas conscientizando da importância dos valores da democracia para ficar atento aos movimentos do governo.

Se o governo vai extinguir o Ministério do Trabalho, tu estás enfraquecendo o direito social do trabalho, porque o executivo tem que ter uma pasta específica para cuidar da parte do trabalho que é um direito social. Então, tem que fazer movimento contrário; de repente, o governo recua, se ele continuar, tu vais para as outras arenas de debate e de discussão, muitas questões talvez devam acabar caindo no judiciário. Algumas vão ser barradas no legislativo, por exemplo, aquilo que for proposta de emenda constitucional, de PEC, para ser aprovada tem que ter 3/5 (três quintos) em duas votações, na câmara e no senado, então é um quórum alto. Talvez, muitas coisas possam ser barradas no legislativo, aquilo que for barrado no legislativo se resolve, aquilo que passar no legislativo a última defesa da sociedade e da democracia é o poder judiciário.

A gente vai ter que ver se o supremo vai ter força e vai ter autoridade para barrar eventuais medidas que violem a Constituição de 88; se fizer isso, por exemplo, será que é verdade que daí o governo vai tentar fechar o Supremo Tribunal Federal, com cabo e com jipe?

Aí a questão é: se decide fazer isso quem é da população que vai defender o Supremo Tribunal Federal para que isso não aconteça. A meu ver, é sinal de certo estranhamento e parece ser um sinal de enfraquecimento, o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal convidar um militar para trabalhar, a gente não tinha visto isso e causou uma certa estranheza.



*Esta entrevista foi publicada no jornal impressão Educação e Debate, do CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo, Ano 3, Núm. 05, janeiro de 2019) e organizada pela Jornalista Ingra Costa e Silva.
Créditos das fotos: Ingra Costa e Silva
Conheça também site do CMP Sindicato: http://cmpsindicato.com.br/

Para além das flores

Nossa esposa, ou nossa mãe,
antes de tudo, é mulher.
E mulher ou mãe, precisa ganhar de nós homens
muito mais do que um ramalhete de flores.

Há séculos civilizados, ainda não temos uma boa receita de relações humanas. Sabe-se o que não se deve fazer, pouco quanto ao que precisa ser feito. No rechaço à violência (do instinto) concordamos, é exceção. Para seu lugar ternos a palavra (da cultura). Enquanto no mundo dos animais o espaço e a fêmea se dominam pela força, no mundo dos homens se conquistam pelo verbo.

Se você ainda não assistiu ao “Fale com Ela” de Almodóvar, detenha-se. Spoiler! Falar com ela, aliás, é coisa em que os machos somos ignorantes. Dizem, os orientais, mulher fala tanto por seus dois lábios e o homem pensa mais por duas cabeças. Afora a generalização e o preconceito, é certo: os homens pouco sabem do falar.

Como ficaria o amor se elas entrassem em coma real ou simbólico? Quem construiria as teias de sentido como elas fazem falando? Que seria do mundo sem as palavras delas?

Assim como mulheres não precisam de flores, mas respeito, podemos dizer também quanto àquelas que não desejam ser mães. Nós homens andamos meio perdidos tanto quanto ao mundo feminino quanto à maternidade que consideramos a ele inerente.

 Que nos restou a nós, varões? A casa não mais precisa de provedores, nem somos imprescindíveis às instalações elétricas ou hidráulicas.  As mulheres trabalham, e bem. Para os serviços, basta contratar alguém e pagar. E agora? Precisam as mulheres de maridos e de filhos para serem felizes?

Diz o mito do paraíso. Deus bipartiu-se em masculino e feminino para que ambos, na convivência, fizessem o caminho de volta à imagem e semelhança do único. As mulheres, mais versáteis, já abriram sendas no mundo masculino. Os homens, mais preconceituosos, nem sequer têm um plano de visita ao mundo feminino. Com sensibilidade e sensatez, Almodóvar com ida os homens ao universo temido: o de guardiões dos relacionamentos. Imagine o feminino mudo para sempre, semimorto, o que faríamos? No filme, apresenta-se um exemplo de como é possível salvar o amor e a vida. O personagem símbolo não só fala com a amada (como se estivesse plenamente viva), ademais, cuida dela com zelo “feminino”, o que faz com que o tenham por homoafetivo. Em contraponto, o namorado da toureira, embora chore às escondidas (reprimido), na hora de expressar-se com fala ou gestos, se trava. Enquanto ela escolheu ser toureira (estereótipo masculino), seu namorado jornalista, que devia ser um expert no uso da palavra, não sabe comunicar-se. E o fim dos dois relacionamentos é claro: quem fala revive a amada, quem não fala é cúmplice silencioso de sua morte.

 A palavra pode trazer de volta a vida e o amor, e não só entre homens e mulheres. “Temos que falar de tudo entre nós, como fazem elas”, diz um amigo ao outro. Mas, de novo, o outro não percebe como “dizer tudo”, e com sinceridade, é tão importante. Sua falta (não contar tudo ao amigo) é punida com a morte. Por não se entregar à palavra livre, perdeu seus vínculos afetivos. É o balé da vida.

Nestes tempos de violência entre amado e amada, filhos e pais, resgatar o falar como característica intrinsecamente humana, e não apenas feminina, é preciso. Usar a palavra como mediação nos relacionamentos é o meio mais singelo de se expulsar a violência. Não importa se em diálogo ou monólogo. Não importa se desde o feminino ou o masculino. Importa, sim, que se fale, não apenas com ela, mas com qualquer um.

Nossa esposa, ou nossa mãe, antes de tudo, é mulher. E mulher ou mãe, precisa ganhar de nós homens muito mais do que um ramalhete de flores.



Principalmente, defendamos o amor em nossa família: trabalhando dignamente para ter uma casa bonita, grande e segura; sacrificando-nos para que os filhos tenham uma vida boa, façam faculdade, saibam três ou mais línguas. (Pablo Morenno)

Pessimismo ou realismo?

Há algum motivo para ter esperança
e ser otimista a partir do Governo Bolsonaro?

Dias atrás, amigo internauta me disse: “Professor, você anda muito pessimista”!. Fui obrigado a responder com o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: “Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”.

Efetivamente, a realidade está sendo péssima. A cada semana, o governo Bolsonaro nos oferece atitudes tragicômicas, fazendo inveja aos produtores de programas humorísticos.

O ministro da deseducação nos brindou com uma progressista postura contra disciplinas como Filosofia e Sociologia, no que foi referendado pelo presidente. Ambos deixaram claro que pobre não deve pensar na vida. Pobre é mera mão de obra.

Bolsonaro, foi mais adiante, “queremos uma molecada que comece a não se interessar por política dentro das escolas”. O governo, na verdade, quer “Alienados acima de tudo. Deus acima de todos”.

O “marxismo cultural” continua sendo o grande medo do governo. É preciso destruí-lo, já que este prepara o terreno para uma revolução comunista. Direitos das minorias, avanços civilizatórios são coisas do comunismo a ser eliminado.

O ministro Weintraub, da deseducação, deixando claro o que pensa a ala manicomial do governo, vociferou recentemente: “Os comunistas são o todo do país. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios”. Enfim, estamos em Cuba, ou Venezuela, ou Coréia do Norte e não sabíamos.

O censor-mor Bolsonaro, alegando “respeito à família”, vetou uma campanha publicitária do Bco. do Brasil. Esta exaltava a diversidade étnica, sexual e comportamental. Lembram de Jânio e os biquínis?

O já sobejamente conhecido homofobismo de sua excelência veio novamente à tona, com a afirmação de que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, do turismo gay”. Tudo em defesa da família. Já o turismo heterossexual, segundo o presidente, está liberado. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher fique à vontade”. Ode ao machismo!

Estas posturas levaram o país a viver um vexame vergonhoso. Bolsonaro teve sua visita à NY vetada por iniciativa do prefeito da metrópole americana. Algo inédito na história republicana. Alguém sugeriu que sua excelência seja homenageado ao pé da Estátua da Liberdade da Havan. Uau!!

O ministro (da destruição) do Meio Ambiente, condenado por descumprir leis ambientais e manipular mapas de manejo ambiental do rio Tietê(!!!!), em São Paulo, só pensa no agronegócio, em tolher o trabalho do Ibama e liberar agrotóxicos. Na verdade, é o ministro dos Ruralistas. Beleza!

O ministro do Turismo, por sua vez, não consegue explicar a plantação do laranjal eleitoral. Haja transparência na “nova política”. Agora mesmo a ONU recolocou o país no mapa da fome. Quem sabe o governo distribui laranjas!!

Passados três meses de mandato presidencial, a economia continua acorrentada ao passado recente de recessão e austeridade, sobrando evidências do poder destrutivo do atual governo tanto no que se refere à relação com os principais parceiros comerciais do País quanto no encaminhamento político interno das próprias propostas.

No primeiro trimestre da gestão Bolsonaro, as contas públicas somaram déficit de R$9,3 bilhões, o segundo pior resultado da série histórica iniciada em 1997.

Como escreveu com muita propriedade meu amigo Juremir Machado da Silva, “ o que se esperar de um governo cujo guru foi astrólogo?

Num bestiário, é a história da união inusitada do astrólogo, do capitão que não deu certo no Exército, do juiz que flexibilizava provas, do banqueiro que pretende obrigar pobre a poupar e do agente do mercado financeiro determinado a privatizar a filosofia e a sociologia”.

Agora me respondam: Há algum motivo para ter esperança e ser otimista? Repetindo Saramago: “Não sou pessimista, a realidade é que é péssima”. Simples!


Leia minhas outras últimas reflexões no site.

Contribuinte: um novo sujeito na educação pública?

A linguagem quase de guerra, é clara.
Trata-se de se defender contra
“predadores ideológicos”. 

Considerando o pronunciamento da autoridade central política educacional federal, há um novo sujeito na educação: o “contribuinte”, o pagador de impostos? Passaria ele, como tomador de serviços, a ter direito de interferir no “produto” entregue em sala de aula? Segundo a autoridade, parece que, se é ele que paga a conta, é dele a palavra final. Não só, parece que é a única efetivamente legítima. As demais todas estariam a seu serviço.

Tudo parece orientado pela tal lógica “lean” aplicada à educação: vamos retirar todos os excessos, todos os atravessadores, todos os desperdícios, todos os intermediários… a questão tem que ser direta e produzir resultados satisfatórios para quem paga. E quem paga e não recebe aquilo pelo que pagou, sente-se “lesado”.

Os pais não são mais pais, estritamente, agora são contribuintes; os/as estudantes não são mais estudantes, agora são contribuintes, melhor, ambos são clientes; os/as professores/as, estes não são contribuintes, são prestadores de serviços; a educação não é mais um direito, é um serviço, um produto, um negócio. 

Nesta relação comercial, quando for detectado algum conflito, aplique-se a legislação penal: o eventual “lesado”, que produza provas contra o agressor, o denuncie às autoridades. Elas, instalem um tribunal, melhor que seja de exceção, ainda que excepcionalmente dento da lei e proceda julgamentos, de preferência que sejam sumários. Puna-se rápido, não dá para dar chance à impunidade, ela alimenta a doutrinação ideológica.

O posicionamento é justificado por um dos filhos da autoridade maior do País que, sobre o caso declarou que “Gravar/filmar aulas é ato de legítima defesa contra os predadores ideológicos disfarçados de professores”. A linguagem quase de guerra, é clara. Trata-se de se defender contra “predadores ideológicos”. 

A expressão para qualificar professores/as que tenham posição e a expressem é cristalina: são “predadores”. Se não são, são suspeitos. O que se faz com predadores, se elimina! Isso faz com que se instale a desconfiança no núcleo da relação pedagógica e a seus agentes, em confronto, só resta atacar/se defender.


Qualidade na educação: a culpa é do professor?


Este tipo de relação destrói a condição básica das exigências pedagógicas da aprendizagem, que é a confiança. 

O novo sujeito da relação educativa, o “contribuinte”, “pagador de impostos”, tido por “cliente”, não participa de outro modo desta relação senão que por meio de uma relação vertical, não discute, não sugere, cobra pelo que pagou.

O direito à educação, um dos direitos mais elementares para o exercício dos demais direitos, ao ser tratado deste modo, torna-se mercadoria, produto, e, ao ser assim entendido, é destruído.

Os sujeitos que o constituem são destituídos de sua condição de sujeitos de direitos para os quais a relação se dá em bases não comerciais e as dinâmicas próprias da relação comercial que, somadas às penais, destroem as condições do exercício da educação como direito. 

Assim, a rigor, não se trata de um “novo sujeito”, mas da desqualificação dos agentes do direito à educação como sujeitos e sua transformação em agentes interessados numa relação comercial. Enfrentar esta “nova” forma de fazer a educação é o que se põe aos/às educadores/as e a todos/as que seguem acreditando e fazendo da educação um direito.



“Para avaliarmos a educação, precisamos de legitimidade nos processos avaliativos, a partir de acordos e convencimentos capazes de promover o envolvimento dos sujeitos nas realidades avaliadas. Seres humanos não são passivos como os produtos, e suas ações e atitudes sempre remetem à sua liberdade, sempre em construção”. (Nei Alberto Pies)

Pensar é perigoso

Para radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.

Para que ensinar filosofia e sociologia? O ministro da Educação já havia afirmado na internet que “em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no Agreste, devem fazer agronomia”. Tradução: pobre é mão de obra, nada de pensar na vida.

Bolsonaro, ao empossar o dito ministro, não deixou por menos, “queremos uma molecada que comece a não se interessar por política dentro das escolas”. Isto é, vamos produzir alienados.

Agora Bolsonaro anunciou que os cursos de Filosofia e Sociologia não existirão mais nas Universidades Federais. A medida deve fazer parte do combate ao “marxismo cultural”, visto pelo governo como um dos perigos que ronda o país.



Queremos sorrisos, tranquilidade, comida boa, lazer, escolas bonitas e seguras, professores e professoras cuidados e bem pagos, condições dignas de transporte público, pais confiantes e crianças cujo brilho não tenha sido roubado. É pedir muito? (Sueli Ghelen Frosi)


Direitos das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos LGBT, dos pobres, tudo isso seria “marxismo cultural”, a preparar o terreno para uma revolução comunista. Isto é, para esses radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.

Esta verdadeira teoria conspiratória, como todas do seu gênero, funciona para denegrir e deslegitimar seus alvos.

As teorias da conspiração são, afinal, muitas vezes tão esdrúxulas que dificilmente se pode esperar que as pessoas acreditem nelas literalmente. Sua função é, antes, levantar suspeitas gerais sobre a credibilidade e a decência de seus alvos.

Este anti-intelectualismo do governo Bolsonaro, atacando universidades e sistemas educacionais que podem contestar suas ideias, é típico de governos fascistas. 



Por seus críticos, o Projeto Escola sem partido é visto como uma proposta autoritária, que limita a pluralidade de ideias nas escolas e ainda constrange professores, favorecendo um clima de rivalidade entre estudantes e entre estudantes e professores.


A política fascista tende a criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração – marxismo cultural – e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado.

À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver.

Esta cruzada contra o pensamento crítico é uma tentativa de emburrecimento do país, de levá-lo à mediocridade. Fica claro o objetivo, que é de impedir a senzala de compreender e ter a dimensão da exploração a que é submetida historicamente pela Casa Grande.

Povo que não pensa não luta por seus direitos. Daí ser perigoso pensar. Filosofia e Sociologia passam a ser impertinentes. Uau!

Por outro lado, o “iluminado” presidente parece desconhecer que as universidades possuem algo que se chama autonomia universitária. Me parece ser uma espécie de vingança, uma vez que o Bolsonaro sabe que não tem o reconhecimento do mundo universitário.

Este episódio é altamente representativo do alcance terrificante do cataclismo que se abate sobre todos nós, tenhamos ou não consciência da monstruosa intensidade do fenômeno gerado pela demência em estado puro transformada em forma de governo.



Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura. E isso é resultado de uma visão da educação “para vencer”, para ter sucesso. Isso acontece desde a família, que espera de seu filho ser bem s sucedido socialmente. (Pablo Morenno)

Gentileza gera lucros

Christine Porath cita atitudes que fazem grande diferença tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: agradecer, dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse, reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.

A professora e pesquisadora americana Christine Porath analisou o impacto da incivilidade e desrespeito no ambiente de trabalho. O resultado das pesquisas e entrevistas está resumido em uma palestra proferida por ela em janeiro de 2018 para TEDxUniversityofNevada.

Acho que todos concordamos que grosseria e agressividade afetam negativamente o ambiente de trabalho, causando prejuízos à saúde. A novidade apresentada pela professora Christine está na quantificação dos danos causados por ambientes contaminados pelo desrespeito. As conclusões são impressionantes e nos fazem refletir sobre o impacto das nossas atitudes quotidianas na sociedade.

Qualificar um comportamento desrespeitoso não é tão simples, cada um percebe de forma diferente a maneira de agir do outro. Em linhas gerais podemos considerar uma incivilidade o uso de palavras grosseiras ou agressivas, comentários irônicos ou maldosos, piadas de mau gosto ou fofocas.

Esses comportamentos trazem consequências óbvias como aumento da agressividade e mesmo violência no ambiente de trabalho. Mas os dados mostraram mais. Das pessoas expostas a palavras e atitudes grosseiras no ambiente de trabalho, 66% reduziram seus esforços nas tarefas realizadas, 80% perderam tempo de trabalho pensando sobre o ocorrido e 12% abandonaram o emprego. Uma empresa americana de tecnologia estimou em cerca de 12 milhões de dólares por ano o valor perdido em função do desrespeito e incivilidade no ambiente de trabalho.

A pesquisa mostra também que o tratamento desrespeitoso não afeta somente a pessoa que é alvo das palavras ou atitudes rudes, mas também todos aqueles que presenciam o fato. Experimentos mostraram que quando um colega de trabalho foi agredido verbalmente houve uma queda de cerca de 25% no desempenho do grupo que também teve 45% menos ideias no período que sucedeu o acontecimento.

O efeito das palavras ofensivas sobre o comportamento das pessoas não está relacionado apenas ao que ocorre no local de trabalho, ouvir ou mesmo ler palavras desagradáveis nos faz diminuir a atenção e piora nosso desempenho nas atividades quotidianas, conforme experiências feitas pela equipe da pesquisadora.

Ela compara a incivilidade ou comportamento desrespeitoso a um vírus, que afeta não só quem é alvo da grosseria, mas todo o ambiente, contaminando as pessoas no entorno e fazendo com que as atitudes delas também tendam a ser agressivas e rudes.

A boa notícia é que os antídotos para esse mal são simples e estão ao alcance de todos nós. A professora cita seis atitudes que fazem grande diferença tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: Agradecer, dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse, reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.

É uma boa reflexão para todos nós, como chefes, colegas de trabalho, clientes, professores, pais e mães.

Assim como a grosseria e falta de educação contaminam o ambiente e nos tornam menos criativos e focados, acredito que a gentileza e o respeito também podem ser contagiosos e tornar nossa vida mais leve e nossa sociedade mais produtiva. Parafraseando Gandhi, sejamos a mudança que queremos ver nos outros, e no mundo.

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