Podemos nos libertar do humanismo e do capitalismo? Duvido que só a política faça isso.
Minha neta Mariana ainda não sabe falar. Mas ela já sabe ver o
“Monica Toy” no tablet. Ela toca a mão naquilo, no gesto de deslizar, e se
delicia com as aventuras dos bonecos mauricianos. Há uma imediaticidade nisso:
os sentidos da visão e da audição são acionados conjuntamente com o do tato.
São três formas de imagens: tátil, visual e auditiva, não mais separadas, mas
dadas em conjunto.
Nossas crianças estão sendo educadas, já corporalmente, para o
imediatismo das imagens. O imediatismo, ou seja, o sem mediação, é antes de
tudo o rápido. Acesso e entendimento precisam, agora, de velocidade.
As pessoas
aceleram meus vídeos. Não querem pensar. Se irritam se não recebem toda a
informação de uma vez só, como quem recebe um tapa na cara, e não um beijo. São
pessoas que já foram educadas pela minha neta. Que sabe beijar já, mas que
estará propensa a estapear, aposto.
As imagens dominam a Terra, em três dimensões dos sentidos, que se
dão conjuntamente, e que obrigam o pensamento a se modificar e, ele também, a
se tornar peça do imagético. O pensamento, que era por definição uma mediação,
agora se põe como arauto da degradação da imediaticidade. Desse modo, o
pensamento não pensa. The Flash era um cara rápido. Agora, o flash é algo que
se impõe ao pensamento, como se este só pudesse funcionar no seu não
funcionamento, ou seja, no piscar de receber imagens.
O mundo não faz sentido (Weber nos avisou), então, o sentido é
dado pelas imagens disparatadas, dadas por um fluxo louco. Se podemos chamar
isso de espetáculo, eis que agarramos tal situação para que, pelo nome,
saibamos que alguma coisa está ocorrendo, que ainda estamos vivos e passando
por alguma coisa, ou alguma coisa passando por nós.
Não foi a TV que nos preparou para isso, embora ela tenha ajudado.
Não foi a Internet vinda pelo celular à mão que nos jogou nisso, embora tal
coisa tenha fundado um novo reino para sermos súditos. O que nos preparou para
tal foram, seguindo Heidegger e Debord, duas grandes viradas. Uma que foi a da
“subjetivação do mundo”, estrelada pelo Humanismo, tendo Descartes à frente.
Outra foi a do império da mercadoria, que forjou o mundo fetichizado, e que
empurrou a subjetividade para outro plano. Marx foi o herói crítico dessa
segunda fase.
Na amostragem de Heidegger, Descartes fez a verdade passar do
desvelado para o certo (para a certeza), e fez o mundo apresentado, então,
tornar-se representação – algo feito pelo homem. Tendo assim agido, colocou o
mundo como algo do homem para o homem. Inaugurou uma época em que tudo é
manipulado pelos olhos humanos, quando faz ciência, e pelas mãos, quando faz
tecnologia, e pela guerra, quando quer testar tudo isso.
Na amostragem de Debord, Marx denunciou o advento da mercadoria
como portadora de valor, ou seja, de hora de trabalho abstrato, algo que é o
social humano embutido numa peça material. Sendo assim, a mercadoria, se tem
utilidade, é algo que se impõe ao homem como tendo subjetividade, como o que
aparece ao homem comandando sua ação, e transformando-o em objeto. Ela mostra
ao homem seu modo de ser sensível e supra sensível ao mesmo tempo. Nisso, se
põe como fantasma, como fetiche. Essa fetichização é seu espetáculo. A imagem
fantástica disso nos embasbaca.
Assim, para Heidegger a modernidade é a época em que o mundo vira
imagem, enquanto que para Debord a contemporaneidade é a época em que as
imagens são já feitas em forma de espetáculo, de algo fantasmático. A
imediaticidade da minha neta com as imagens, ou a daqueles que olham o vídeo do
celular com pressa, ou, ainda, a dos que se deixam seduzir por tudo que é
imagem tátil-sonora-visual imediata, como as simplórias imagens da campanha de
Bolsonaro, revelam que a operação descrita por Heidegger e Debord foram
eficientes. Primeiro, transformamos o mundo em imagem. Depois, transformamos o
mundo das imagens em espetáculos.
Primeiro, a
ação humana de trazer tudo para o homem. Depois, a ação do capital de trazer
tudo que é do homem e da terra para o fetiche. Vivemos sob o domínio disso. E
criamos o Humanismo e o Capitalismo em comum acordo. Não à toa, eles nasceram
praticamente juntos. Foram embalados por gôndolas de Veneza.
Ninguém acha
que pode ter o mundo, mas acha que pode ter representações dele. Daí a força do
Facebook e do Youtube na produção de ontologia. Ninguém acha que pode escapar
da mercadoria lhe dando ordens, como sujeito humano, daí a força das imagens de
compra e venda das mercadorias que dominam nossa vontade, desejo, ação e,
enfim, nossa subserviência ao valor, expresso numericamente em dinheiro.
Esse projeto nos fez duplamente dominado: a dominação do homem
pelo homem e a dominação do fetiche, do fantasma, sobre o homem. Dominação não
em pensamento que passa, para nos dominar, pela cabeça, mas dominação que nos
torna súdito por vivermos realmente numa situação de súditos. Súditos do homem
pela técnica, súditos do homem pelo fantasma.
Podemos nos libertar do humanismo e do capitalismo? Duvido que só
a política faça isso. Todavia, enquanto cidadão, continuarei assinado petições
por liberdade de imprensa, lutando pelo voto correto, cobrando meu deputado,
condenando o genocídio e os ataques às minorias. Farei tudo isso como cidadão
liberal americano, ou social democrata europeu. Mas, se eu fizer demais isso,
matarei minha rebeldia e deixarei de tentar pensar em horizontes utópicos,
livre da sociedade do espetáculo e seu humanismo? É um desafio ainda, mesmo
para mim, aos 62 anos. Estou como quem começa agora.
O trabalho do filosofar não se faz sem o trabalho de adentrar o pensamento de alguns filósofos. Essa entrada é uma armadilha. Entramos no pensamento de filósofos consagrados, mas então percebemos que só podemos assim realmente fazer se deixarmos as coisas se inverterem: é o filósofo que adentra em nós e nos utiliza para voltar a pensar. Perdemos nossa identidade nisso.
Falando com simplicidade, nunca é demasiado asseverar que o “funcionamento” de toda a economia, isto é, a capacidade de produzir qualquer coisa, exige recursos materiais e energia da única (vale o grifo) fonte existente, a natureza.
Daí
a necessidade de pormenorizar ao menos dois pontos cruciais que, não raras
vezes, passam despercebidos: i) o sistema econômico é um subsistema do
ecossistema global; portanto, trata-se de incomensurável risco afetar o sistema
maior, o meio ambiente; ii) sem exceção, estamos todos dentro de um mesmo sistema, e basicamente devemos ter em
conta que tudo o que é extraído da natureza a ela retorna em forma de lixo
(alta entropia); logo, quanto mais aumentarmos a extração/produção, mais
aumentaremos a entropia (grau de desordem de um sistema).
O excesso populacional e a voracidade consumista.
Fazendo uso de uma linguagem de fácil compreensão, vale registrar dois pontos importantes: Primeiro – se estamos usando de forma intensa e extensivamente os recursos da natureza (vista como um “almoxarifado da economia”), então parece óbvia a dedução de que seguimos por trilhas perigosas, colocando em apuro a civilização moderna. Desse modo, vamos aumentando as tensões estruturais no relacionamento historicamente conflituoso entre a economia, a sociedade civil e o seu meio natural.
Segundo –
gostemos ou não, já não é mais possível negar que nossa conduta nos condena. Diante
disso, e de forma perceptível, parece mesmo que vale tudo em prol do aumento da
escala de produção material; inclusive devastar os ecossistemas.
Logo, não é de se estranhar que permaneçamos cegos
aos débitos ecológicos e visivelmente obcecados pela conquista material;
tão obcecados que o gênero humano parece que foi contaminado pela pleonexia
(apetite insaciável de possuir bens materiais).
Grosseiramente
fazendo mea-culpa, a verdade é que nossa
espécie Homo sapiens-imprudentis
segue com devotado vigor destruindo os ecossistemas naturais numa velocidade
assustadora, assim como também o faz em relação às formas de vida conhecidas (vide, por exemplo, o avanço da
defaunação, i.e., a extinção de
espécies, e a morte das florestas e de tudo o que nela existe).
Aos
mais céticos, serve de exemplo o que segue:
(1) metade das florestas
tropicais e temperadas do mundo já sumiu de nossas vistas;
(2) de 1970 a 2008, houve a
perda de 28% de toda a biodiversidade da Terra;
(3) nas últimas cinco
décadas, o número de espécies de vertebrados teve um
declínio de 30% em todo o mundo;
(4) mais de 50% do habitat
selvagem foi completamente destruído em 49 dos 61 países tropicais do Velho
Mundo;
(5) entre 1970 e 2010, os sapiens-imprudentis
destruíram 52% da fauna do planeta (notadamente as espécies de mamíferos,
pássaros, répteis, anfíbios e peixes);
(6)
trinta e cinco por cento dos mangues do mundo e 20% dos recifes de coral foram totalmente
destruídos desde o início dos anos 1980;
(7) trinta e três por cento
dos solos do mundo estão degradados, o que equivale a afirmar que perderam
fertilidade, por isso não mais captam carbono da atmosfera, interferindo assim nas
mudanças climáticas;
(8) pelo sistema das águas, já atingimos o ponto crítico de despejar nos mares, todos os anos, 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas no mundo. A estimativa para o ano de 2050, pasmem, chega a ser odiosa: haverá mais plásticos do que peixes nos mares.
Uma nova economia baseada em uma racionalidade
ambiental
Sejamos claros e objetivos: o estágio atual de devastação
do mundo natural exige que a comunidade humana se esforce no sentido de elaborar
uma nova economia baseada em uma
racionalidade ambiental, estabelecendo para tanto um novo modo de produção material
adaptado ao equilíbrio climático e ambiental; portanto, longe do modelo de
economia que hoje nos direciona que sequer respeita a capacidade de
recuperação da Terra, isto é, a sua resiliência (do latim resiliens, a capacidade de voltar ao normal).
O mais importante valor da economia, contrariando assim o senso comum, é a natureza
(matriz de nossa existência). Sob essa inspiração, e abusando um pouco mais de
uma linguagem cotidiana, deve ser devidamente esclarecido que está em jogo diversas
consequências econômicas e sociais que são acarretadas por uma série de
descompassos que o modo econômico de produção global termina por levar ao meio
ambiente.
Essa série de descompassos – que tem peso
significante, frisa-se – pode ser traduzida na alteração das condições
climáticas (devido à queima de combustíveis fósseis; ou seja, na maneira como
“funciona” a economia global); no empobrecimento biológico da Terra (resultante
do aumento da perda de biodiversidade, como já mencionado) e na preocupante
diminuição dos serviços ecossistêmicos, incluindo entre outros a captura de CO2, a prevenção a erosão e desertificação, e a melhora
da qualidade do ar.
Todo esse descompasso, ou seja, esse drama ecológico (se cabível for o termo),
é mais bem percebido quando são lançados olhares ao que ocorre na fronteira
entre a economia e a ecologia; não deixando ainda de observar com redobrada
atenção o que se passa pelo lado social, em especial junto às populações
carentes (vulneráveis), reconhecidamente as mais afetadas pela crise ambiental.
Nessa direção, é dado saber que a comunidade humana permanece numa situação
completamente desconfortável.
O calamitoso quadro social de necessidades
humanas básicas ainda não atendidas atualmente é bem conhecido. Citemos apenas
dois dos casos mais gritantes que saltam à vista: um bilhão de habitantes do
mundo sofre diuturnamente o drama da subalimentação, e 2,5 bilhões de pessoas
não têm acesso a saneamento básico.
Voltando nossa atenção à narrativa central aqui
contextualizada, é o caso de perguntarmos se o crescimento econômico, traduzido
na expansão da oferta de bens e serviços, pode colaborar promovendo a
emancipação desse contingente de necessitados e, a reboque, levar em consideração
a necessidade de preservação do mundo verde?
Partindo para uma rápida resposta, mas não deixando
de observar a celeuma que envolve o crescimento (inovação tecnológica), a
preservação da natureza (quando combinado ao termo crescimento sustentável) e a imediata possibilidade de melhorar a
vida social, ouso levantar ao menos cinco pontos-chave que merecem reflexão:
1)
o crescimento sustentável – seja dito, um oximoro – simplesmente é irreal, dado
que a expansão da produção material colide, e também contraria, com a
necessidade de preservar a natureza (recursos
materiais e energéticos). Fora isso, é impossível repetir o ritmo de
crescimento que o século 20 assistiu, uma vez que a dimensão desse “movimento”,
vale notar, já não mais se limita a ficar aquém
das fronteiras ecossistêmicas (isso implica em dizer, grosso modo, que a economia se tornou maior que as condições
ecológicas);
2)
a chamada ecoeficiência (fazer mais
com menos), mesmo que seja intensificada e passe a contemplar de uma vez por
todas um novo modo de produção econômica combinando a substituição de energias
fósseis por renováveis e reduzindo o uso de recursos por unidade de produto, não
traz garantia alguma de que compensará no curto e longo prazos os efeitos do
crescimento econômico acelerado;
3)
no confronto entre o alto crescimento econômico e a baixa preocupação ecológica,
tão comum nos dias de hoje, é preciso estar atento ao aparecimento dos “custos
do crescimento”, isto é, àquela situação em que os prejuízos ambientais superam os benefícios
econômicos, condição que deve ser interpretada na convidativa expressão
“crescimento deseconômico”, termo criado por Herman Daly;
4)
embora tenhamos nos acostumado a medir desempenho econômico pelo nível de
consumo material – erro grotesco, diga-se – é preciso não se desprender da
compreensão de que há sim distinção entre o crescimento
e o desenvolvimento, frisando,
nesse estrito sentido, que crescer nada
mais é do que promover o aumento da produção (ou seja, é atingir quantidade;
ficar maior), ao passo que desenvolver se
refere basicamente a conquistar bem-estar/bem-viver (logo, é atingir qualidade;
ficar melhor);
5) por fim, e guardando certa proximidade com o item anterior, sempre que possível devemos evitar um mal-entendido: o aumento da riqueza de um País, quase sempre percebido no crescimento da economia, não corresponde em imediata melhoria da vida social; daí a constatação de que o crescimento, visto no mais das vezes como o beijo do Príncipe que desperta a Bela Adormecida, não é a solução de todos os males; e nem mesmo a elevação do PIB (reduzido a sinônimo de sucesso), cujos erros de interpretação são tão flagrantes quanto numerosos, pode ser apresentado, na prática, como um indicador supremo de prosperidade/felicidade. O crescimento, cumpre realçar, pode até nos fazer mais ricos, mas certamente não nos deixará mais felizes.
“A escolha é nossa”
Concluindo e falando ainda com
certa simplicidade: tudo o que temos a fazer em prol da conquista de um mundo ecologicamente
mais equilibrado (e socialmente próspero), consoante à relação existente entre
o comportamento humano, a economia, e o meio ambiente, é colocar nosso jeito de
viver dentro dos meios ecológicos
conhecidos, partindo da orientação máxima de que cabe à comunidade humana, com
muita prudência, organizar todo o aspecto da economia produtiva que facilita,
no todo, a condição de vida humana.
A dedução feita aqui se refere sobretudo ao processo de mudança
associado à consciência. Indo direto ao assunto: diante de tudo o que temos
presenciado, no mínimo é cabível dizer que a história da relação entre o Homem,
a Economia, e a Natureza, não mais pode continuar avançando pelo “lado ruim”. Inocência
analítica à parte, a verdade é que temos tido pouco cuidado com o planeta que
nos acolhe.
Caso queiramos realmente marcar
um novo tempo, precisamos agir ao menos em três direções: i) construir uma nova economia que dialogue com os
princípios da ecologia; ii) organizar os serviços ecossistêmicos de modo
benfazejo em relação ao trato humano; iii) estabelecer estratégias
civilizatórias na radical defesa de uma postura favorável à natureza e ao projeto
maior que o ser humano conhece, o sistema-vida.
Vale enfatizar: nada pode ser superior à defesa da vida. Se o aumento
produtivo dos dias de hoje vem ocorrendo na contramão do equilíbrio ecológico, afetando
sobremaneira a qualidade social da vida humana e aproximando-nos assim de um
perigoso colapso ambiental, acelerando de vez o impasse civilizatório, somente
nos resta com alguma coragem engendrar um percurso diferente de tudo o que
fizemos até agora.
Sem mais, para o pleno sucesso
dessa ação, me posiciono ao lado daqueles que ousam acreditar que a comunidade
humana, antes de mais nada, carece de assimilar com muita responsabilidade o
que disse John Sawhill (1936-2000), ex-presidente da The Nature Conservancy: “No
final, nossa sociedade será definida não somente pelo que criamos, mas pelo que
nos recusamos a destruir. A escolha é nossa”.
Num tempo em que o desenvolvimento tecnológico avança celeremente no intuito de facilitar a construção de mundo mais pacífico e menos desigual, parece não haver paradoxo mais tosco e aberrante que presenciar incomensurável contingente populacional vivendo em desumanas condições de vida, expostas ao convívio diário com esgotos a céu aberto.
Diante do desejo de V.Ex.ª de suprimir – entre outras disciplinas
– Sociologia, do currículo de nossas universidades, gostaria de lhe dizer que é
através dela (Sociologia), que explica-se a formação do Brasil. Os sociólogos, como
os filósofos e historiadores, não ensinam a amar a pátria acima de tudo, mas a compreendê-la.
Foram muitos os autores que, ao longo do tempo, buscaram interpretar
nossa sociedade. Tenho certeza que V.Ex.ª os desconhece. Atarefado com o twiter,
em liberar o uso de armas, cortar verbas para a educação, ouvir Olavo de Carvalho,
dispõe de pouco tempo para uma leitura séria. É compreensível.
Joaquim Nabuco, historiador, jornalista e jurista lutou para que
se desse ao liberto e ao escravo a condição de cidadãos no final do séc. XIX. Nabuco
antevia que o preconceito, o racismo, seriam problemas que subsistiriam por muito
tempo. O senhor é um exemplo desta permanência.
Euclides da Cunha mostrou que o sertanejo conselheirista era “um
forte”, mesmo que refratário ao Estado nacional, à República. Rezava e acreditava
na predestinação de seus objetivos, enquanto lutava pelo domínio da terra e autonomia
social diante dos exploradores. O “mito” do sertanejo era D.Sebastião, não um “messias”
qualquer.
Darcy Ribeiro, mostrou que a nação brasileira adquiriu plenas condições para lidar com as adversidades e diferenças e para se constituir como um modelo de civilização. Advertiu, entretanto, que temos um certo pendor para o mandonismo, para o autoritarismo e para a tirania. Se identificou Presidente?
Darcy Ribeiro
Gilberto Freyre valorizou o negro. Mostrou que a mestiçagem, o
hibridismo e mesmo a plasticidade cultural da convivência entre contrários não são
apenas uma característica, mas uma vantagem para o Brasil. Casa Grande & Senzala
precisa ser lido urgentemente por seus ministros!
Caio Prado Jr., escrevendo sobre o Brasil colônia, mostrou que
o sentido da colonização não se esgotou nas bases sociais locais de exploração econômica.
Foram decisivas as relações com a Metrópole que nos sugou por séculos. Hoje V.Ex.ª
quer transformar Washington na nossa Lisboa do passado?
V.Ex.ª deve ter ouvido falar de Sérgio Buarque de Holanda. É,
o pai do Chico. Comunistas, o senhor dirá! Sérgio defendeu a tese do “brasileiro
cordial”, indivíduo emotivo que guia as escolhas por preferências afetivas e pessoais
e não pela racionalidade. O senhor é a confirmação da tese!
Jessé Souza, o sociólogo do momento, garante que “a capacidade
humana de autoreflexão e descoberta de novos sentidos, para a vida pessoal e social
sempre foi mantida em vigilância. Quando deixada livre tende a questionar o sentido
da tradição e da reprodução da vida”.
A doença do Brasil é o ódio de classe.
Será este o medo da Sociologia? Detentores de privilégios não têm interesse nesse tipo de liberdade, que abre caminho para a reflexão e a crítica.
O gaúcho Raymondo Faoro, na obra “Os Donos do Poder”, ressalta
o papel do patrimonialismo, que se afina mais com o personalismo autoritário. Cuidado
com o empreguismo Presidente. Ele leva a estripulias no uso do bem público.
Portanto, Ex.ª, esta ciência – Sociologia – tem uma função fundamental.
Fazer nossa gente compreender a realidade em que vive, analisar a nossa formação.
Ela nos permite inventar o futuro, sem negar a importância dos temas do passado
e os feitos concretos que deles resultaram.
Ela é uma lupa que permite ver quem somos e como somos. Quem sabe
até ajude seu governo a encontrar um rumo. Eliminá-la é sinal de obscurantismo e
retrocesso.
De acordo com estudiosos da temática, posse de uma arma não é sinônimo de proteção. A arma funciona como a força do fraco.
Multiplicam-se
pelo território nacional os clubes de escola de tiro ao alvo. “Santa Catarina
está entre os três estados com maior número de clubes de tiro do país, ao lado
de Rio Grande do Sul e de São Paulo, com cerca de 120 estabelecimentos cada um.
Em janeiro deste ano, eram 838 os clubes de tiro no Brasil, segundo o Exército”
(AMORIM, Silvia, Este clube é bala, in:
Revista Época, nº 1088, Editora Globo, pág. 37).
De
acordo com o mesmo artigo, Eduardo e Carlos Bolsonaro frequentam o “Clube e
Escola de Tiro .38”, localizado na região Metropolitana de Florianópolis.
“Eduardo não se cansa de defender, durante as horas de lazer atirando em Santa
Catariana, a ampliação dos direitos de colecionadores, atiradores e caçadores –
grupo conhecido como CAC. A reivindicação foi atendida por um decreto
presidencial do pai”.
O que
pode significar esse aumento de escolas e essa sede histriônica de cuspir fogo
e bala? Que implicações terá o decreto do presidente Jair Bolsonaro que “facilita
e amplia a concessão de porte de armas para um conjunto de 20 profissões, como
políticos eleitos, servidores públicos que trabalham na área de segurança
pública, advogados em atuação pública, caminhoneiros, oficiais de justiça,
profissionais de imprensa que atuam em coberturas policiais e agentes de
trânsito, entre outras categorias”? Um “tiro no pé”, comenta o editorial da
revista.
Não faltam os argumentos a favor e contra
um maior acesso às armas de fogo. Argumentos que vão desde a atitude subjetiva
e psicológica do cidadão, até a insistência no direito de legítima defesa,
diante da integridade física e da propriedade privada. Tampouco faltam armas no
Brasil, considerado “entre os sete países mais armados do mundo”.
Existem
oito armas para cada grupo de 100 mil habitantes. O país tem em circulação 16
milhões de armas – quase metade sem registro legal”, ainda conforme o citado
editorial.
No
modesto ponto de vista de um cidadão comum, aumentar o número de armas é aumentar
o número de mortes por assassinato. A equação é matemática: mais armas, mais
balas, mais gente potencialmente atingida.
Quem
garante que a posse de uma arma torna a pessoa menos vulnerável e mais segura?
O mais provável é que a autodefesa represente um suicídio. Pressupondo que o
cidadão esteja armado, é natural que a ousadia e a agressividade por parte dos criminosos
tenda a crescer. O criminoso antecipa-se à vítima, até mesmo para roubar-lhe a
própria arma. Esta última, ao fim e ao cabo, pode acabar reforçando o arsenal
já considerável do crime organizado. Vale aqui a máxima de que violência gera
violência.
Mas não é só isso! Por trás dos argumentos
falados, existem interesses silenciados. As palavras ditas supõem palavras não
ditas, as linhas supõem entrelinhas. A arma funciona como a força do fraco.
Em
lugar de reflexão e diálogo pelos canais democráticos instituídos, é mais fácil
disparar balas, palavrões, ofensas e ameaças pelas redes sociais.
O
mesmo se verifica com frequência no interior de muitas casas, protegidas pelo
“segredo familiar”. Em vez de sentar para conversar, apela-se para o grito, o
tapa, o soco e o pontapé… E para o tiro, se houver uma arma de fogo ao
alcance dos nervos exaltados. Neste caso intrafamiliar, as mulheres e crianças
resultam como vítimas. Quantos hematomas ocultos e quantas lágrimas engolidas
em silêncio, para não piorar as coisas! Os feminicídios e abusos sexuais
espalham-se pelo país!
Enquanto isso, para a indústria das armas,
o que importa é fabricar e comercializar o máximo de unidades. Produzir e
vender instrumentos de morte rende mais que criar políticas públicas para
melhorar a situação do trabalho, da saúde, da educação, da habitação, da
alimentação… Enfim, o bem-estar e a paz para o conjunto da população.
Mais
perverso ainda, porém, é transferir da esfera pública para a esfera privada o
ônus e a responsabilidade da segurança pessoal e familiar. Segurança aparente e
enganosa, pois, de acordo com numerosos estudiosos da temática, a posse de uma
arma não é sinônimo de proteção. O remédio, longe de trazer a cura, tende a
agravar o quadro precário da política nacional de segurança.
Para Juiz Dalmir Franklin, a punição não é a única solução.
Qual a função de um juiz? Em
teoria, é resolver conflitos. Avaliar se o réu é culpado ou não. Ouvir a
alegação das partes, oportunizar a apresentação de todas as provas e,
posteriormente, solucionar o conflito de forma imparcial. Para o magistrado da
Vara de Família de Passo Fundo (RS), Dalmir Franklin de Oliveira Júnior,
43, sua profissão vai muito além disso.
Dalmir entende que a punição não
é a única solução para recuperar jovens infratores. Ele, que já foi da Vara da
Infância e da Juventude, pode acompanhar o impacto da criminalidade na vida de
muitos jovens, e o contato direto com a realidade o fez se envolver em um
projeto que nasceu no pátio do Centro de Atendimento Socioeducativo
(Case): uma banda para tocar com os jovens muitas vezes condenados por
ele.
Professor do curso de direito,
Dalmir teve uma longa conversa com o Educação e Debate sobre a conjuntura
política, redução da maioridade penal, Escola Sem Partido, perseguição a
professores, direito constitucional, questões de gênero e, claro, sobre o
projeto que resultou na Banda LibertArte.
Educação&Debate- No último período, tanto em nível nacional quanto
municipal, questões como os projetos de lei que seguem a linha “Escola Sem
Partido” e o ataque aos estudos de questões de gênero foram muito presentes.
Como você avalia essas investidas?
Dalmir- Aqui nós tratamos de um
direito social, que é o direito à educação, que está no artigo sexto da
Constituição. A Constituição de 88 estabelecede forma jurídica, mas
constitucional que o Brasil deixa de ser um país meramente liberal e passa a
ser um estado social.
O estado social é aquele que tem
o dever de prestar direitos, serviços e bens, dando a todos os cidadãos uma
vida minimamente digna. O mínimo para uma pessoa viver com dignidade são os
direitos sociais. Direito à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, à
alimentação… A educação está dentro desse mínimo existencial que o estado tem
que prover para todas as pessoas. Além de estabelecer esse direito social, a
constituição estabelece a Liberdade de Cátedra, de ensinar e de aprender, o que
configura esse direito fundamental de educação. Então, no momento em que tu
restringes esse conteúdo, você fere uma cláusula pétrea da constituição.
Não basta somente dizer que o
estado é responsável por permitir o acesso à educação, trata-se de garantir que
essa educação seja plural, porque o pluralismo é um dos valores da constituição
e, mais do que isso, a questão das vedações das discriminações, que também
estão na constituição, tudo isso vai configurando esse direito à educação. O
pluralismo e a liberdade são valores que transcendem todos os direitos, e o
artigo 206 da Constituição fala especificamente na Liberdade de Cátedra de
ensinar e de aprender, então essas propostas de vedar a discussão de questões
de gênero, vedar a discussão política e ou partidária, tudo isso é
evidentemente inconstitucional.
E&D – Os professores vêm sendo atacados em diversas esferas.
Ao final do último ano (2018), uma deputada de Santa Catarina incitou alunos a
gravar seus professores em sala aula. Como o docente deve se portar se tem sua
sala de aula invadida, ou um aluno começa a gravar sua aula com a alegação de
doutrinador?
Dalmir – Eu acho engraçado isso
porque o ensino, o conteúdo sempre vai ser de uma forma ou de outra ideológico.
Qualquer área do conhecimento, se tu estuda filosofia ou epistemologia fica
mais claro, em perspectivas de análises e questões. Na matemática, por exemplo,
tem quem defenda que existe uma verdade absoluta e tem gente que sustenta que
não… Sempre tem uma perspectiva de visão, de conhecimento, e que se pode
optar por um ou outro.
Costuma-se dizer que a história é
contada pelos vencedores, então eu não consigo compreender se a gente for
dividir entre direita e esquerda, a gente pegaria os governos que tiveram no
Brasil nos últimos 500 anos, que sempre foram governos mais de centro a
direita, daí nunca se falou tanto dessa questão da ideologização, porque a
esquerda esteve no poder por cerca de 16 anos, aí se diz que existe doutrinação
da esquerda. Ou seja, são 16 anos contra 484 anos. Essa é uma coisa absurda que
estamos vendo. Existe essa questão do conteúdo mínimo que o MEC estabelece e
cada professor vai ter uma perspectiva sobre o conteúdo e vai ministrar aquilo.
Dentro da perspectiva do
pluralismo, tu tens ideias liberais, tu tens ideias social democratas, do
bem-estar social, tu tens ideias socialistas ou comunistas, eu acho que o aluno
tem que ter condições mínimas de saber o que cada uma delas é. Pra mim, o mais
correto é que o professor se identifique, diga seu posicionamento sim, para
esclarecer o teu lugar de fala, assim a pessoa pode filtrar o conteúdo que ela
vai receber.
E&D – O ministro da educação indicado pelo presidente eleito, no
início do governo Jair Bolsonaro, Ricardo Vélez-Rodríguez, declarou que os
brasileiros são, “na sua essência”, conservadores e avessos “a
experiências que pretendem passar por cima de valores tradicionais ligados à
preservação da família e da moral humanista. Como você avalia a educação nos
próximos quatro anos?
Dalmir – A gente viu algumas
propostas na campanha da chapa vencedora que são preocupantes. Quando se fala
na questão de incentivar a educação a distância, especialmente no ensino médio,
não sei se essa proposta valeria para o ensino fundamental, está retirando da
questão pedagógica a relação professor-aluno, e isso eu não posso admitir.
O espaço da escola é um espaço de socialização e a socialização se dá
na convivência. A relação professor aluno é uma relação que por si só já permite
o ensino, o aprendizado.
Então, sinceramente, tirar isso
de um sujeito em formação é algo que não imaginaria que pudesse acontecer. Eu
vejo com muito maus olhos. Agora eu não sei com relação às propostas… Pelo
que eu vi nas redes sociais, este senhor que deve ser o Ministro da Educação,
indicado pelo Olavo de Carvalho, entende que o Golpe de 64 não seria golpe, que
poderia ser comemorado, alguma coisa assim… Então eles falam de educação sem
partido, mas a ideologia deles vale. A ideologia que eles pregam é possível ser
sustentada. É um discurso muito superficial, muito fraco e que não permite que
se aprofundem as questões.
Tem a questão do Ensino Superior,
que acho que a expectativa não é boa. Temos visto um retrocesso desde o
impeachment da presidenta Dilma, com a sucessão do governo Temer, de diminuição
dos programas de incentivo ao ES. É discutível também se a gente deve investir,
por exemplo, na questão do financiamento estudantil para o acesso ao ensino
superior ou se tu deverias aumentar o número de vagas no ensino superior
público.
Alguns estão falando em cobrança
do Ensino Público, nível superior, que também em princípio violaria a
Constituição. A gente está vendo muitas propostas de retrocesso ao que
estabelece o estado social constitucional de 88, é isso que a gente está vendo,
mas era uma coisa que vinha desde a campanha eleitoral, que já mostrava que a
chapa vencedora fazia vários discursos contra a Constituição.
E&D – Atualmente presenciamos um fenômeno que são os adolescentes
do ensino médio que se posicionam com valores superconservadores e de
extremíssima direita. Como você encara esse comportamento?
Dalmir – A gente tem que pensar
que vivemos num mundo globalizado e dentro dessa perspectiva do mundo
globalizado, especialmente de que a informação hoje ela é muito advinda das
redes sociais, existe uma influência muito grande na formação da opinião por
meio das redes sociais de Whatsapp, de Facebook… é uma questão que circula
por meio das redes sociais. Está se formando opinião de jovens e adolescentes
por meio da internet, por meio das redes sociais.
Eu acho que é bem possível sim
que esses valores estejam sendo transmitidos às pessoas mais jovens e elas
acabam reproduzindo porque é aquilo que elas estão vendo. Antigamente a gente
tinha uma formação que advinha dos bancos escolares e mídia tradicional,
principalmente da TV na minha época, alguma coisa do jornal escrito, alguma
coisa do rádio, mas principalmente a TV. Ela que formava opinião e hoje em dia
a opinião é formada também e muito pelas redes sociais, então se tu consegue
jogar nas redes sociais uma perspectiva e um viés ideológico, eu acho que tu
forma as gerações também, forma as gerações mais novas e acredito que isso
acontece no mundo de uma maneira geral.
Quando a Europa começa a lidar
com a questão do imigrante há uma onda de, digamos assim, tu tem a ação, que é
a vinda dos imigrantes, e tu tem a reação, no sentido de ter uma resistência
vinda dos imigrantes e aí começa se construir toda uma ideia, que é uma ideia
de racismo, de preconceito que já existe na sociedade. Porque já existe nas
antigas gerações, que permitiu que isso acontecesse inclusive com guerras
mundiais, só que agora ela vem com uma outra roupagem, com uma outra forma e
isso informa as novas gerações também. Eu acho que é por aí, não sei.
E&D – Bandido bom é bandido morto?
Dalmir – É um jargão bastante
utilizado que trata de um dos sistemas que mais preocupa a sociedade
brasileira, a violência urbana. A segurança pública é um tema que preocupa a
todos de uma maneira geral, não só a classe média ou elite, porque a pessoa que
mora na periferia também não quer ser furtada, não quer perder suas coisas que
conquista por meio do trabalho. Só que a proposta é uma proposta evidentemente
inconstitucional, que incita a violência.
Responder à violência com mais violência, costuma-se dizer, acaba só
aumentando os níveis de violência na sociedade, é necessário romper o ciclo da
violência e não pode ficar sustentando ele e dando mais violência.
É inconstitucional porque não
existe a possibilidade de aplicação da pena de morte no Brasil. O direito à
vida e a vedação da pena de morte também é uma cláusula pétrea. Não tem nenhuma
viabilidade constitucional a questão da pena de morte, ela teria que ser
rejeitada assim como a redução da maioridade pena de morte ela não pode ser,
ela pode até ser aprovada, mas o penal também é cláusula penal e deveria ser
rejeitada.
Os direitos humanos não podem ser
velados em hipótese alguma, eu não posso pegar a maioria e exterminar
fisicamente a minoria, seja bandido, seja negro, seja judeu, seja homossexual.
Não pode haver extermínio físico e muito menos a desconsideração da dignidade
dessas pessoas, todos são dotados de dignidade e a dignidade da pessoa humana é
uma característica que nos une como raça, como espécie.
E&D – Como você vê a defesa de alguns setores de que haja
diminuição da maioridade penal?
Na prática, isso representa que
elas vão sair do sistema prisional muito pior do que elas entraram. Fui juiz do
sistema prisional e do sistema socioeducativo dos adolescentes, então eu
conheço os dois sistemas. Tenho a absoluta certeza e convicção de que é muito
mais fácil dentro do sistema socioeducativo eu conseguir fazer um trabalho bom
nesse adolescente para que ele volte para sociedade um pouquinho melhor do que
ele entrou no sistema, socioeducativo, do que largar no sistema prisional que
não ressocializa.
Quem é juiz da execução criminal no Brasil sabe que grandes presídios
estão tomados pelas facções. Quem entra dentro do sistema prisional, quem é
preso, entra tendo que optar por ser de uma facção ou da outra, e aí tu vais
pegar um jovem de 16/17 anos e vai botar na mão da facção. Tu pegar esses
jovens para botar na mão de facção e eles ficarem praticando crime na rua em
nome da facção é uma coisa absurda. Mas só quem conhece o sistema é que
sabe que isso acontece, que vai acontecer.
A redução da maioridade penal é
ruim para a segurança pública, ela vai piorar a violência, vai piorar a
segurança pública, vai piorar os índices de criminalidade. E juridicamente ela
é incondicional, ela não pode passar; se passar, o Supremo tem que dizer “está
se violando uma cláusula pétrea da Constituição de 88” e retirar essa proposta
do ordenamento jurídico brasileiro.
E&D
– Como começou o projeto LibertArte, o que fez você se envolver com ele? Na
prática, ele trouxe resultados para os jovens envolvidos?
Bom, tive a experiência de ser
juiz criminal e com adulto imputável, que vai para o presídio. Então, fui
estudar o direito da criança e do adolescente e achei que, em termos de
violência e segurança pública, se eu trabalhar na prevenção, com adolescente
para que ele não seja um maior imputável, eu tenho muito mais chance de êxito
do que trabalhar já com o sujeito constituído. O sujeito que já é maior de
idade é um sujeito que, pela lei, já tem sua personalidade formada. Se eu
trabalhar com um menino de 12, 13, 14 anos, ele está em formação, em
desenvolvimento; então, se eu fizer um trabalho aqui na base, aí eu posso
evitar e diminuir os índices de criminalidade do maior de idade. A primeira
questão foi essa, trabalhar com a delinquência juvenil na perspectiva
socioeducativa.
Se o sujeito ainda está em desenvolvimento, ele tem mais potencialidade
de aprendizado, tem a escolaridade formal dele dentro do CASE, por exemplo, se
ele está em semiliberdade, ele tem que estar estudando numa escola na rua, e
aí, para agregar a questão pedagógica formal da escolaridade, tu acostumas a
pensar em outros projetos que desenvolva a potencialidade deles.
Como eu gosto muito de música também, eu
acabei de um sonho antigo de querer trabalhar com música e criança junto com o
psicopedagogo pensando na musicalização dos internos do CASE. Na minha
dissertação de mestrado em Direito, falei sobre o projeto, estudei
cientificamente quais são as possibilidades e ganhos que a gente tem com a
arte. Dentro da psicologia, a gente tem um conceito que é o de sublimação, que
é quando toda a energia psíquica que nós temos para as coisas boas e coisas
ruins, que são as pulsões de vida e as pulsões de morte, e são sempre
canalizadas por um objeto. Está entre as pulsões de morte a
agressividade. Se eu não a canalizar, elas vão sempre ir para esse mesmo
destino que é a violência, a criminalidade. Só que eu posso pegar essa energia
psíquica e canalizar para as coisas socialmente bem aceitas, reconhecidas
socialmente. E o menino, quando está tocando ali um tambor, um instrumento, ele
está canalizando essa pulsão para uma coisa que é socialmente bem vista e aí
permite a eles um reconhecimento diferente deles.
A sociedade os reconhece de uma
maneira distinta também, então esse é outro benefício que o projeto pode dar
porque tu tens que trabalhar com a autoestima desses jovens. No momento em que
ele tem um reconhecimento social diferente, ele sabe que tem potencialidades
que podem ser exploradas, não que ele vá ser músico, mas, pelo menos, eles
sabem que existe outro caminho que não é o de ser bandido, existem outras
portas. Minha ideia sempre foi de que projetos na socioeducação abrem portas
para esses jovens. A adolescência é justamente a fase de assumir as
responsabilidades por aquilo que se faz e o ruim é se tu não abres as portas.
Se deixar aberta a porta sempre da bandidagem, da criminalidade, ele vai seguir
aquele caminho, porque é o que ele conhece, que sabe que chegou lá.
A gente abre caminhos, abre portas. Quem sabe um que outro pega e aí é
um crime a menos que vai acontecer, dois crimes a menos que vão acontecer,
menos vítimas… Essa é a ideia dos projetos que são desenvolvidos na
socioeducação.
Muitos a gente perde, é fato.
Porque o que leva uma pessoa a praticar o crime, ir para a vida da
criminalidade são vários fatores, então tu tirar todos esses fatores ou
reverter todos esses fatores é difícil. Mas tu conseguir transformar a vida de
1, 2, 3 desses jovens que vão, justamente, trilhar outros caminhos eu acho que
já é um ganho social muito grande. É um ganho para esses jovens sem sombra de
dúvida, porque ele vai ter outras perspectivas, vai ter vida, vai ter outras
pulsões de vida, vai ter família, filhos e vai contribuir para a sociedade.
Agora não é só para ele, a gente
está pensando em termos de segurança pública, isso é política de segurança
pública, é um a menos que vai estar envolvido numa quadrilha, envolvido no
tráfico, que não vai fazer um assalto.
E&D – Bolsonaro ganhou, e agora?
É preciso estar muito atento às
medidas do governo eleito. No que diz respeito aos direitos fundamentais, aos
direitos humanos, há necessidade de continuar conscientizando as pessoas,
ensinando as pessoas o valor dos direitos humanos, o valor dos direitos
fundamentais e que eles não podem ser violados, que eles são cláusula pétrea da
Constituição. Há uma necessidade de continuar nesse trabalho de conscientização
da população sobre a importância desses direitos para que elas lutem por eles,
por essas conquistas e que também se consiga formar opinião contra medidas
governamentais que sejam de retrocesso ao estado social e ao estado democrático
de direito.
O momento é de organização social, toda a sociedade tem que estar
preparada para o governo que vem. Temos a perspectiva de um governo que fez
discursos contrários à Constituição e que acabou tendo apoio popular, a gente
tem que conseguir trabalhar com as pessoas conscientizando da importância dos
valores da democracia para ficar atento aos movimentos do governo.
Se o governo vai extinguir o
Ministério do Trabalho, tu estás enfraquecendo o direito social do trabalho,
porque o executivo tem que ter uma pasta específica para cuidar da parte do
trabalho que é um direito social. Então, tem que fazer movimento contrário; de
repente, o governo recua, se ele continuar, tu vais para as outras arenas de
debate e de discussão, muitas questões talvez devam acabar caindo no
judiciário. Algumas vão ser barradas no legislativo, por exemplo, aquilo que
for proposta de emenda constitucional, de PEC, para ser aprovada tem que ter
3/5 (três quintos) em duas votações, na câmara e no senado, então é um quórum
alto. Talvez, muitas coisas possam ser barradas no legislativo, aquilo que for
barrado no legislativo se resolve, aquilo que passar no legislativo a última
defesa da sociedade e da democracia é o poder judiciário.
A gente vai ter que ver se o
supremo vai ter força e vai ter autoridade para barrar eventuais medidas que
violem a Constituição de 88; se fizer isso, por exemplo, será que é verdade que
daí o governo vai tentar fechar o Supremo Tribunal Federal, com cabo e com
jipe?
Aí a questão é: se decide fazer
isso quem é da população que vai defender o Supremo Tribunal Federal para que
isso não aconteça. A meu ver, é sinal de certo estranhamento e parece ser um
sinal de enfraquecimento, o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal
convidar um militar para trabalhar, a gente não tinha visto isso e causou uma
certa estranheza.
*Esta entrevista foi publicada no jornal impressão Educação e Debate, do CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo, Ano 3, Núm. 05, janeiro de 2019) e organizada pela Jornalista Ingra Costa e Silva. Créditos das fotos: Ingra Costa e Silva Conheça também site do CMP Sindicato: http://cmpsindicato.com.br/
Nossa esposa, ou nossa mãe, antes de tudo, é mulher. E mulher ou mãe, precisa ganhar de nós homens muito mais do que um ramalhete de flores.
Há
séculos civilizados, ainda não temos uma boa receita de relações humanas. Sabe-se
o que não se deve fazer, pouco quanto ao que precisa ser feito. No rechaço à
violência (do instinto) concordamos, é exceção. Para seu lugar ternos a palavra
(da cultura). Enquanto no mundo dos animais o espaço e a fêmea se dominam pela
força, no mundo dos homens se conquistam pelo verbo.
Se
você ainda não assistiu ao “Fale com Ela” de Almodóvar, detenha-se. Spoiler! Falar com ela, aliás, é coisa
em que os machos somos ignorantes. Dizem, os orientais, mulher fala tanto por
seus dois lábios e o homem pensa mais por duas cabeças. Afora a generalização e
o preconceito, é certo: os homens pouco sabem do falar.
Como ficaria o amor se elas entrassem em
coma real ou simbólico? Quem construiria as teias de sentido como elas fazem
falando? Que seria do mundo sem as palavras delas?
Assim
como mulheres não precisam de flores, mas respeito, podemos dizer também quanto
àquelas que não desejam ser mães. Nós homens andamos meio perdidos tanto quanto
ao mundo feminino quanto à maternidade que consideramos a ele inerente.
Que nos restou a nós, varões? A casa não mais
precisa de provedores, nem somos imprescindíveis às instalações elétricas ou
hidráulicas. As mulheres trabalham, e
bem. Para os serviços, basta contratar alguém e pagar. E agora? Precisam as
mulheres de maridos e de filhos para serem felizes?
Diz o mito do paraíso.Deus bipartiu-se em masculino e feminino
para que ambos, na convivência, fizessem o caminho de volta à imagem e
semelhança do único. As mulheres, mais versáteis, já abriram sendas no mundo
masculino. Os homens, mais preconceituosos, nem sequer têm um plano de visita
ao mundo feminino. Com sensibilidade e sensatez, Almodóvar com ida os homens ao
universo temido: o de guardiões dos relacionamentos. Imagine o feminino mudo
para sempre, semimorto, o que faríamos? No filme, apresenta-se um exemplo de
como é possível salvar o amor e a vida. O personagem símbolo não só fala com a
amada (como se estivesse plenamente viva), ademais, cuida dela com zelo
“feminino”, o que faz com que o tenham por homoafetivo. Em contraponto,
o namorado da toureira, embora chore às escondidas (reprimido), na hora de
expressar-se com fala ou gestos, se trava. Enquanto ela escolheu ser toureira
(estereótipo masculino), seu namorado jornalista, que devia ser um expert no
uso da palavra, não sabe comunicar-se. E o fim dos dois relacionamentos é
claro: quem fala revive a amada, quem não fala é cúmplice silencioso de sua
morte.
A palavra pode trazer de volta a vida e o amor,
e não só entre homens e mulheres. “Temos que falar de tudo entre nós, como
fazem elas”, diz um amigo ao outro. Mas, de novo, o outro não percebe como
“dizer tudo”, e com sinceridade, é tão importante. Sua falta (não
contar tudo ao amigo) é punida com a morte. Por não se entregar à palavra
livre, perdeu seus vínculos afetivos. É o balé da vida.
Nestes
tempos de violência entre amado e amada, filhos e pais, resgatar o falar como característica
intrinsecamente humana, e não apenas feminina, é preciso. Usar a palavra como
mediação nos relacionamentos é o meio mais singelo de se expulsar a violência.
Não importa se em diálogo ou monólogo. Não importa se desde o feminino ou o
masculino. Importa, sim, que se fale, não apenas com ela, mas com qualquer um.
Nossa
esposa, ou nossa mãe, antes de tudo, é mulher. E mulher ou mãe, precisa ganhar
de nós homens muito mais do que um ramalhete de flores.
Principalmente, defendamos o amor em nossa família: trabalhando dignamente para ter uma casa bonita, grande e segura; sacrificando-nos para que os filhos tenham uma vida boa, façam faculdade, saibam três ou mais línguas. (Pablo Morenno)
Há algum motivo para ter esperança e ser otimista a partir do Governo Bolsonaro?
Dias atrás, amigo internauta me disse: “Professor, você anda muito
pessimista”!. Fui obrigado a responder com o português José Saramago, Prêmio
Nobel de Literatura: “Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”.
Efetivamente, a realidade
está sendo péssima. A cada semana, o governo Bolsonaro nos oferece atitudes tragicômicas,
fazendo inveja aos produtores de programas humorísticos.
O ministro da deseducação nos brindou com uma progressista
postura contra disciplinas como Filosofia e Sociologia, no que foi referendado
pelo presidente. Ambos deixaram claro que pobre não deve pensar na vida. Pobre
é mera mão de obra.
Bolsonaro, foi mais adiante, “queremos uma molecada que
comece a não se interessar por política dentro das escolas”. O governo, na
verdade, quer “Alienados acima de tudo. Deus acima de todos”.
O “marxismo cultural” continua sendo o grande medo do
governo. É preciso destruí-lo, já que este prepara o terreno para uma revolução
comunista. Direitos das minorias, avanços civilizatórios são coisas do
comunismo a ser eliminado.
O ministro Weintraub, da deseducação, deixando claro o que
pensa a ala manicomial do governo, vociferou recentemente: “Os comunistas são o
todo do país. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas.
Eles são os donos dos monopólios”. Enfim, estamos em Cuba, ou Venezuela, ou
Coréia do Norte e não sabíamos.
O censor-mor Bolsonaro, alegando “respeito à família”, vetou
uma campanha publicitária do Bco. do Brasil. Esta exaltava a diversidade
étnica, sexual e comportamental. Lembram de Jânio e os biquínis?
O já sobejamente conhecido homofobismo de sua excelência veio
novamente à tona, com a afirmação de que “o Brasil não pode ser um país do
mundo gay, do turismo gay”. Tudo em defesa da família. Já o turismo
heterossexual, segundo o presidente, está liberado. “Quem quiser vir aqui fazer
sexo com uma mulher fique à vontade”. Ode ao machismo!
Estas posturas levaram o país a viver um vexame vergonhoso.
Bolsonaro teve sua visita à NY vetada por iniciativa do prefeito da metrópole
americana. Algo inédito na história republicana. Alguém sugeriu que sua
excelência seja homenageado ao pé da Estátua da Liberdade da Havan. Uau!!
O ministro (da destruição) do Meio Ambiente, condenado por
descumprir leis ambientais e manipular mapas de manejo ambiental do rio Tietê(!!!!),
em São Paulo, só pensa no agronegócio, em tolher o trabalho do Ibama e liberar
agrotóxicos. Na verdade, é o ministro dos Ruralistas. Beleza!
O ministro do Turismo, por sua vez, não consegue explicar a
plantação do laranjal eleitoral. Haja transparência na “nova política”. Agora mesmo
a ONU recolocou o país no mapa da fome. Quem sabe o governo distribui
laranjas!!
Passados três meses de mandato presidencial, a economia continua
acorrentada ao passado recente de recessão e austeridade, sobrando evidências do
poder destrutivo do atual governo tanto no que se refere à relação com os
principais parceiros comerciais do País quanto no encaminhamento político
interno das próprias propostas.
No primeiro trimestre da gestão Bolsonaro, as contas públicas
somaram déficit de R$9,3 bilhões, o segundo pior resultado da série histórica
iniciada em 1997.
Como escreveu com muita
propriedade meu amigo Juremir Machado da Silva, “ o que se esperar de um
governo cujo guru foi astrólogo?
Num bestiário, é a história da união inusitada do astrólogo,
do capitão que não deu certo no Exército, do juiz que flexibilizava provas, do
banqueiro que pretende obrigar pobre a poupar e do agente do mercado financeiro
determinado a privatizar a filosofia e a sociologia”.
Agora me respondam: Há algum motivo para ter esperança e ser
otimista? Repetindo Saramago: “Não sou pessimista, a realidade é que é
péssima”. Simples!
A linguagem quase de guerra, é clara. Trata-se de se defender contra “predadores ideológicos”.
Considerando o pronunciamento da
autoridade central política educacional federal, há um novo sujeito na
educação: o “contribuinte”, o pagador de impostos? Passaria ele, como tomador
de serviços, a ter direito de interferir no “produto” entregue em sala de aula?
Segundo a autoridade, parece que, se é ele que paga a conta, é dele a palavra
final. Não só, parece que é a única efetivamente legítima. As demais todas
estariam a seu serviço.
Tudo parece orientado pela tal
lógica “lean” aplicada à educação: vamos retirar todos os excessos, todos os
atravessadores, todos os desperdícios, todos os intermediários… a questão tem
que ser direta e produzir resultados satisfatórios para quem paga. E quem paga
e não recebe aquilo pelo que pagou, sente-se “lesado”.
Os pais não são mais pais, estritamente, agora são contribuintes; os/as
estudantes não são mais estudantes, agora são contribuintes, melhor, ambos são
clientes; os/as professores/as, estes não são contribuintes, são prestadores de
serviços; a educação não é mais um direito, é um serviço, um produto, um
negócio.
Nesta relação comercial, quando
for detectado algum conflito, aplique-se a legislação penal: o eventual
“lesado”, que produza provas contra o agressor, o denuncie às autoridades.
Elas, instalem um tribunal, melhor que seja de exceção, ainda que
excepcionalmente dento da lei e proceda julgamentos, de preferência que sejam
sumários. Puna-se rápido, não dá para dar chance à impunidade, ela alimenta a
doutrinação ideológica.
O posicionamento é justificado
por um dos filhos da autoridade maior do País que, sobre o caso declarou que
“Gravar/filmar aulas é ato de legítima defesa contra os predadores ideológicos
disfarçados de professores”. A linguagem quase de guerra, é clara. Trata-se de
se defender contra “predadores ideológicos”.
A expressão para qualificar
professores/as que tenham posição e a expressem é cristalina: são “predadores”.
Se não são, são suspeitos. O que se faz com predadores, se elimina! Isso faz
com que se instale a desconfiança no núcleo da relação pedagógica e a seus
agentes, em confronto, só resta atacar/se defender.
Qualidade na educação: a culpa é do professor?
Este tipo de relação destrói a condição básica das exigências pedagógicas da aprendizagem, que é a confiança.
O novo sujeito da relação
educativa, o “contribuinte”, “pagador de impostos”, tido por “cliente”, não
participa de outro modo desta relação senão que por meio de uma relação
vertical, não discute, não sugere, cobra pelo que pagou.
O direito à educação, um dos direitos mais elementares para o exercício
dos demais direitos, ao ser tratado deste modo, torna-se mercadoria, produto,
e, ao ser assim entendido, é destruído.
Os sujeitos que o constituem são
destituídos de sua condição de sujeitos de direitos para os quais a relação se
dá em bases não comerciais e as dinâmicas próprias da relação comercial que,
somadas às penais, destroem as condições do exercício da educação como
direito.
Assim, a rigor, não se trata de
um “novo sujeito”, mas da desqualificação dos agentes do direito à educação
como sujeitos e sua transformação em agentes interessados numa relação
comercial. Enfrentar esta “nova” forma de fazer a educação é o que se põe
aos/às educadores/as e a todos/as que seguem acreditando e fazendo da educação
um direito.
“Para avaliarmos a educação, precisamos de legitimidade nos processos avaliativos, a partir de acordos e convencimentos capazes de promover o envolvimento dos sujeitos nas realidades avaliadas. Seres humanos não são passivos como os produtos, e suas ações e atitudes sempre remetem à sua liberdade, sempre em construção”. (Nei Alberto Pies)
Para radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.
Para que ensinar filosofia e sociologia? O ministro
da Educação já havia afirmado na internet que “em vez de as universidades do
Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no Agreste, devem
fazer agronomia”. Tradução: pobre é mão de obra, nada de pensar na vida.
Bolsonaro,
ao empossar o dito ministro, não deixou por menos, “queremos uma molecada que
comece a não se interessar por política dentro das escolas”. Isto é, vamos
produzir alienados.
Agora Bolsonaro anunciou que os cursos de Filosofia
e Sociologia não existirão mais nas Universidades Federais. A medida deve fazer
parte do combate ao “marxismo cultural”, visto pelo governo como um dos perigos
que ronda o país.
Queremos sorrisos, tranquilidade, comida boa, lazer, escolas bonitas e seguras, professores e professoras cuidados e bem pagos, condições dignas de transporte público, pais confiantes e crianças cujo brilho não tenha sido roubado. É pedir muito? (Sueli Ghelen Frosi)
Direitos das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos LGBT, dos pobres, tudo isso seria “marxismo cultural”, a preparar o terreno para uma revolução comunista. Isto é, para esses radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.
Esta verdadeira teoria conspiratória, como todas do
seu gênero, funciona para denegrir e deslegitimar seus alvos.
As teorias da conspiração são, afinal, muitas vezes
tão esdrúxulas que dificilmente se pode esperar que as pessoas acreditem nelas
literalmente. Sua função é, antes, levantar suspeitas gerais sobre a
credibilidade e a decência de seus alvos.
Este anti-intelectualismo do governo Bolsonaro,
atacando universidades e sistemas educacionais que podem contestar suas ideias,
é típico de governos fascistas.
Por seus críticos, o Projeto Escola sem partido é visto como uma proposta autoritária, que limita a pluralidade de ideias nas escolas e ainda constrange professores, favorecendo um clima de rivalidade entre estudantes e entre estudantes e professores.
A política fascista tende a criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração – marxismo cultural – e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado.
À medida que a compreensão comum da realidade se
desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas
criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de
Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento
crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver.
Esta cruzada contra o pensamento crítico é uma tentativa
de emburrecimento do país, de levá-lo à mediocridade. Fica claro o objetivo,
que é de impedir a senzala de compreender e ter a dimensão da exploração a que
é submetida historicamente pela Casa Grande.
Povo que
não pensa não luta por seus direitos. Daí ser perigoso pensar. Filosofia e
Sociologia passam a ser impertinentes. Uau!
Por outro lado, o “iluminado” presidente parece
desconhecer que as universidades possuem algo que se chama autonomia
universitária. Me parece ser uma espécie de vingança, uma vez que o Bolsonaro
sabe que não tem o reconhecimento do mundo universitário.
Este episódio é altamente
representativo do alcance terrificante do cataclismo que se abate sobre todos
nós, tenhamos ou não consciência da monstruosa intensidade do fenômeno gerado
pela demência em estado puro transformada em forma de governo.
Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura. E isso é resultado de uma visão da educação “para vencer”, para ter sucesso. Isso acontece desde a família, que espera de seu filho ser bem s sucedido socialmente. (Pablo Morenno)
Christine Porath cita atitudes que fazem grande diferença tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: agradecer, dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse, reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.
A professora e pesquisadora americana Christine Porath analisou o impacto da incivilidade e desrespeito no ambiente de trabalho. O resultado das pesquisas e entrevistas está resumido em uma palestra proferida por ela em janeiro de 2018 para TEDxUniversityofNevada.
Acho que
todos concordamos que grosseria e agressividade afetam negativamente o ambiente
de trabalho, causando prejuízos à saúde. A novidade apresentada pela professora
Christine está na quantificação dos danos causados por ambientes contaminados
pelo desrespeito. As conclusões são impressionantes e nos fazem refletir sobre
o impacto das nossas atitudes quotidianas na sociedade.
Qualificar um comportamento desrespeitoso não
é tão simples, cada um percebe de forma diferente a maneira de agir do outro.
Em linhas gerais podemos considerar uma incivilidade o uso de palavras
grosseiras ou agressivas, comentários irônicos ou maldosos, piadas de mau gosto
ou fofocas.
Esses
comportamentos trazem consequências óbvias como aumento da agressividade e
mesmo violência no ambiente de trabalho. Mas os dados mostraram mais. Das
pessoas expostas a palavras e atitudes grosseiras no ambiente de trabalho, 66%
reduziram seus esforços nas tarefas realizadas, 80% perderam tempo de trabalho
pensando sobre o ocorrido e 12% abandonaram o emprego. Uma empresa americana de
tecnologia estimou em cerca de 12 milhões de dólares por ano o valor perdido em
função do desrespeito e incivilidade no ambiente de trabalho.
A
pesquisa mostra também que o tratamento desrespeitoso não afeta somente a
pessoa que é alvo das palavras ou atitudes rudes, mas também todos aqueles que
presenciam o fato. Experimentos mostraram que quando um colega de trabalho foi
agredido verbalmente houve uma queda de cerca de 25% no desempenho do grupo que
também teve 45% menos ideias no período que sucedeu o acontecimento.
O efeito das palavras ofensivas sobre o
comportamento das pessoas não está relacionado apenas ao que ocorre no local de
trabalho, ouvir ou mesmo ler palavras desagradáveis nos faz diminuir a atenção
e piora nosso desempenho nas atividades quotidianas, conforme experiências
feitas pela equipe da pesquisadora.
Ela
compara a incivilidade ou comportamento desrespeitoso a um vírus, que afeta não
só quem é alvo da grosseria, mas todo o ambiente, contaminando as pessoas no
entorno e fazendo com que as atitudes delas também tendam a ser agressivas e
rudes.
A boa
notícia é que os antídotos para esse mal são simples e estão ao alcance de
todos nós. A professora cita seis atitudes que fazem grande diferença tanto no
ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: Agradecer,
dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse,
reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.
É uma boa
reflexão para todos nós, como chefes, colegas de trabalho, clientes,
professores, pais e mães.
Assim
como a grosseria e falta de educação contaminam o ambiente e nos tornam menos
criativos e focados, acredito que a gentileza e o respeito também podem ser
contagiosos e tornar nossa vida mais leve e nossa sociedade mais produtiva.
Parafraseando Gandhi, sejamos a mudança que queremos ver nos outros, e no
mundo.