Atuando de forma voluntária e com poder deliberativo sobre as ações e os recursos da saúde pública no Brasil, milhares de brasileiros cumprem com uma das grandes diretrizes do SUS: Sistema Único de Saúde, o controle social.
Em nossa cidade, Passo Fundo, temos um Conselho Municipal de Saúde bem
atuante, que se organiza de forma autônoma e independente frente ao gestor
público, a Prefeitura Municipal de Passo Fundo/Secretaria Municipal de Saúde.
Em 2005, este Conselho Municipal foi reconhecido no Brasil como um modelo de
gestão e controle social.
Entrevistamos Neri Gomes, um militante da área da Saúde e de políticas
públicas desde o ano 1986. Atualmente, Gomes é presidente do Conselho Municipal
de Saúde de Passo Fundo.
Nesta entrevista, ele relatará como surgiu seu envolvimento com as
políticas de saúde, qual é o papel e a função de um Conselheiro Municipal de
Saúde, qual é a realidade da Saúde em nosso município, no Estado e no país e,
em que medida, o SUS corre riscos de ser extinto ou ser desidratado na sua
principal função que é garantir a universalidade e o acesso à saúde a todos os
brasileiros e brasileiras.
NEI ALBERTO PIES: Começaste teu ativismo ou militância política como
comerciário em 1984. Entraste na vida política partidária, elegendo-se vereador
por dois mandatos. Ocupaste funções de governo estadual e, mais recentemente, a
função de assessoria parlamentar. Por que a política é uma atividade tão
importante para ti e para todos nós?
GOMES: Penso que são os
políticos que decidem as nossas vidas, eles decidem onde vamos morar, se vamos
ter condições de ter formação superior, se vamos ter saúde pública e de
qualidade e universal. Neste sentido, entendemos que não é só nos sindicatos
que se faz a defesa dos trabalhadores e da população em geral; é no parlamento
que são aprovadas as leis e é o executivo que implementa as ações elaboradas
discutidas e a aprovadas
NEI ALBERTO PIES:Como, quando e porque o Senhor passou a atuar em
defesa de políticas públicas, mas em especial, o SUS, a partir de 1986?
GOMES: Antes de 1988
quando foi aprovada a CF e nela aprovado as artigos 196 ao 200 que garantem uma
saúde pública de qualidade e universal, e quando da aprovação da lei federal
8080/90 que é a Lei orgânica da saúde. Antes disso tudo só tinha acesso ao
atendimento na saúde quem tinha a carteira de trabalho assinada e tinha a carteira
amarelinha do antigo INAMPS, os demais eram atendidos com indigentes nos posto
1 do HSVP e do HC, ou tinha que ser particular, sendo obrigado a vender moves casa
terrenos, a vaquinha, etc.
NEI ALBERTO PIES: Foste eleito presidente do Conselho Municipal de
Saúde recentemente. Qual é a principal função
do Conselho Municipal de Saúde? Como ele é composto? O que significa seu poder
deliberativo?
GOMES: Eu tive por várias
vezes na coordenação do conselho e por último foi de janeiro de 2019 a dezembro
de 2019. O conselho cumpre uma tarefa importante no controle social,
fiscalizando as ações do gestor municipal de saúde,
NEI ALBERTO PIES: O que faz um Conselheiro Municipal de Saúde? Qual é o
seu compromisso diante de sua comunidade?
GOMES: Os conselhos de
saúde no Brasil são regidos pela lei federal 8142 /90 e lei municipal 2840 / 92.Os
Conselhos Municipais de Saúde têm poder deliberativo na aprovação do orçamento
da saúde, nos planos de aplicação com recursos estadual e federal, fiscalização
das ações na saúde do gestor municipal e dos hospitais pactuados com o SUS,
fiscalização em toda a rede municipal na atenção básica, e nas cobranças
indevidas no atendimentos em hospitais.
NEI ALBERTO PIES: Todo município tem a obrigação legal de investir 15%
do seu orçamento em Saúde Pública? Como o nosso município organizou seu Plano
Municipal (de 4 anos) e o Plano Anual de Saúde em período recente? Há
estatísticas que justificam os programas e os investimentos em saúde?
GOMES: A lei obriga os
municípios a investirem no mínimo 15% do seu orçamento, os estados 12% e a
união 10%. A maneira como esses valores serão utilizados é o que prevê o plano
municipal de saúde, cujo processo de elaboração inclui a discussão nas
conferências e sua aprovação no Conselho
de Saúde em cada esfera de governo.
O plano é elaborado a cada 4 anos
e, anualmente, se traduz no Plano Anual de Saúde – PAS, tendo como base as
ações que constam do Plano Municipal. É no PAS que se discute onde, como e
quais as prioridades e as ações terão mais ou menos recursos. Essa construção e
definição deve ser orientada por um diagnóstico produzido nos distritos
sanitários de saúde do município. Em geral, as secretarias de saúde trabalham
com dados, estatísticas que fundamentam a construção do plano, embora seja
ainda muito insuficiente. Eu diria que um dos problemas do exercício do
controle social hoje tem a ver com a fragilidade das análises e estatísticas de
saúde produzidos pelas prefeituras.
NEI ALBERTO PIES:Passo Fundo é uma referência regional e nacional na
área da Saúde, sobretudo com estruturas médicas e hospitalares de média e
grande complexidade. Mas como anda a Saúde dos nossos 200 mil habitantes?
GOMES: Passo Fundo é referência na média e alta complexidade nos dois hospitais que são pactuados pra estes atendimentos, mas na atenção básica, que é responsabilidade do gestor municipal, estamos com problemas de mal atendimento e falta de profissionais médicos e equipes multiprofissionais pra que a população tenha atendimento completo e de qualidade. Fazer a prevenção à saúde e deixar de trabalhar só o curativo. Penso que esta ação é o maior desafio.
NEI ALBERTO PIES: Sempre defendeste muito os CAIS (Centros de Atenção
Integrada à Saúde) como uma forma de descentralizar o atendimento à saúde e
atender especialidades. Os quatro CAIS de nossa cidade atendem, hoje, às
finalidades pelas quais foram criados?
GOMES: Na verdade são 5
CAIS em nossa cidade, infelizmente não estão cumprindo sua função para a qual
foram criados e os motivos são vários. A estrutura é defasada e mal conservada.
Os profissionais não têm formação continuada porque o gestor não tem interesse
em fazê-lo. Os atendimentos são realizados por fichas e não por demanda e os
agendamentos de consultas médicas chegam a demorar até 120 dias para o primeiro
atendimento.
Os médicos são contratados por
hora de trabalho e atendem por ficha e temos o agravante de alguns destes
profissionais não cumprirem o seu horário para a qual foram contratados. Com isso, hoje nos CAIS são feitas os
atendimentos que deveriam ser nas UBS ou ESF.
Aliás, temos só 15 equipes da
estratégia de saúde da família regularizadas. Essa quantidade é a mesma de 1997.
Com poucas equipes, o município deixa de receber recursos do MS e do estado,
NEI ALBERTO PIES:Por que, na sua visão, o SUS ainda não conseguiu
atingir, como deveria, a promoção da saúde e ainda atua e demanda mais recursos
para cura de doenças?
GOMES: Na minha opinião,
são vários os motivos e um deles é a falta de gestão qualificada, além da
histórica falta de recursos para investir na prevenção. Esta, em particular, é
fundamental e é uma opção política que precisa ser tomada, pois se a prevenção
funcionar como prevê o SUS, os hospitais, laboratórios, farmácias e os médicos
que defendem o Estado mínimo não vão ganhar dinheiro com a doença.
NEI ALBERTO PIES:O governo federal propôs acabar com pequenos
municípios que não tenham população ou renda compatíveis com sua autogestão.
Não é também uma forma de diminuir os recursos investidos em saúde ou
democratizar o acesso aos mesmos?
GOMES: São várias as MP do
governo Bolsonaro. Entre elas está uma que prevê a privatização do SUS que
iniciou com a nova Política Nacional de Atenção Básica – PNAB que reformula
toda a estratégia de atenção básica no pais, excluindo o conceito de território.
Nesta nova proposta, os agentes de saúde e os profissionais que integram a
equipe não terão mais vínculos com suas unidades, podendo ser deslocados em
todas as áreas. Por exemplo: agentes de
saúde podem ser chamados para fazerem trabalhos de agentes de endemias. O
governo disse, recentemente, que vai
investir mais nos municípios que são agrícolas mas tem MP quer o fim dos
pequenos municípios. Se isso se confirmar, onde serão atendidas as pessoas que
precisam de atendimento?
NEI ALBERTO PIES:Na sua visão, está em curso a privatização da Saúde no
Brasil? Nos dê exemplos de ações que apontam nesta perspectiva.
GOMES: O 1ª exemplo foi
aprovação EC 95 que congelou o orçamenta da União por 30 anos. Em 2018 e 2019,
o SUS já perdeu 9 bilhões e no orçamento do 2020 são 10 bilhões a menos para Saúde
pública. Agora a portaria ministerial que altera o repasse dos recursos para os
municípios investir na Atenção Básica que até hoje Passo Fundo recebe R$ 23,00
por habitante ano e a partir de 2020 será criada carteira social e o repasse
será pelo número de pessoas cadastradas no sistema. Com esta mudança, o nosso município
terá redução de mais de 1 milhões por ano, de um recurso que já é pouco.
NEI ALBERTO PIES:Qual é o interesse ou de quem o interesse de extinguir
ou colocar o SUS em colapso/sufoco?
GOMES: O governo tem
compromisso com os banqueiros e vai fazer o que fez com a Previdência Social: repassar
para os bancos ou para iniciativa privada, através dos Planos particulares de
Saúde.
NEI ALBERTO PIES: Por que o “SUS é LEGAL”?
GOMES: Você já foi no posto tomar vacina e não pagou? SUS. Come em restaurante onde há vigilância sanitária? É Responsabilidade do SUS. Já levou alguém no CAIS ou na UBS é não pagou nada? É o SUS. Tem acesso a alimentos fiscalizados pelo SUS, já reportou um acidente e recebeu ambulância? SUS. Hemodiálise? É exclusivo do SUS. Transplante de órgãos? Exclusivo do SUS.
NEI ALBERTO PIES: Por que, nos dias atuais, é tão importante a defesa e
o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde)?
GOMES: Hoje defender o SUS
é defender a democracia brasileira onde todos e todas tem acesso gratuito e
universal à saúde.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a sua
maior realização como ativista ou militante da Saúde Pública?
GOMES: Comecei minha
militância em defesa da saúde publica e de qualidade antes do SUS existir 1986
na organização da 8ª Conferencia Nacional de Saúde de onde saíram todas as
propostas de construção do SUS. Em 1994, no primeiro mandato de vereador,
consegui aprovar emenda no orçamento municipal garantindo no mínimo 10% para
investir na saúde do município. Foi o primeiro município que teve esta
conquista e que contribuiu muito na melhoria da saúde na rede da atenção
básica,
Alberi Nascimento Grando é médico há 45 anos. Especialista em Cirurgia Geral, Pediatria, Saúde Pública, Homeopatia e Auditoria Médica.
Médico por vocação, chama atenção pela atuação profundamente humana na relação com seus pacientes.
Grando
começou sua vida profissional numa pequena cidade do RS, Santa Bárbara do Sul.
Envolveu-se, intensamente, na defesa do SUS (Sistema Único de Saúde). Também exerceu
funções como secretário municipal de saúde, delegado e coordenador regional de
saúde e vereador por dois mandatos em nossa cidade Passo Fundo.
Doutor
Alberi leva uma vida simples, com intenso contato com a natureza, valorizando a
família e amizades.
Nesta
entrevista, Alberi Nascimento Grando fala da sua trajetória pessoal e
profissional, da sua atuação política e em defesa do SUS, num momento em que este
SISTEMA está correndo riscos de colapso ou extinção.
NEI
ALBERTO PIES: Como surgiu seu desejo de atuar na medicina?
GRANDO:
No
tempo de estudante no Instituto Educacional fiz parte do Grupo Escoteiro
Botucaris. Nas atividades de campo,
gostava de “socorrer” quem precisasse de um curativo, uma atadura ou tinha um
desmaio. Dentro do sistema escoteiro, me especializei em Primeiros Socorros.
Acho que foi por aí. E não perdi mais o
gosto de socorrer.
NEI
ALBERTO PIES: O que mais o realiza na profissão, neste 45
anos de atuação como médico?
GRANDO: No
“Organon de Medicina” Samuel Hahnemann diz que a única e mais alta missão do
médico é restabelecer a saúde de quem está doente. Ver um paciente recuperado,
seja após uma cirurgia ou tratamento clínico, é muito gratificante. Embora, nem
sempre seja possível. O agradecimento é despretensioso e realizador.
NEI
ALBERTO PIES: Criaste cinco filhos (dois por adoção): Uma
professora, outra arquiteta, um filho advogado, outro comerciante e um
funcionário público. Como foi conciliar a exigente profissão de médico com o
acompanhamento da sua família?
GRANDO:
Penso
que eles é quem sofreram com isso. No início, o tempo era todo dedicado ao
consultório e ao hospital. Mesmo hospital sendo perto de casa, várias vezes
dormi lá, pois tinha uma gestante em trabalho de parto ou um paciente mal. Sabia que a Luiza, minha esposa, comandava
tudo em casa.
Hoje penso que poderia ter
dedicado mais tempo à família. Quem sabe isso foi bom? Eles aprenderam a
decidir por conta própria, ter autonomia, não ter uma proteção paterna em
excesso. Tenho orgulho de como hoje são meus filhos: autônomos, independentes,
seguem seu caminho, com ética e muito trabalho, são profissionais competentes.
NEI
ALBERTO PIES: Decidiste levar uma vida simples, morando numa
chácara, no interior do município. Por que?
GRANDO:
Penso
que um pouco está na minha origem, nasci e passei parte da infância no
interior. Além disso, a Luiza também gosta de viver lá. Longe do atropelo, do
barulho, da multidão. Plantas, animais também chamam.
NEI
ALBERTO PIES: Começaste sua vida profissional, como médico,
numa pequena cidade do RS, ainda no período em que se discutia a criação do
SUS. Conte-nos sua trajetória profissional em paralelo à trajetória do SUS.
GRANDO:
Podemos
dividir a assistência à saúde em antes e depois de 1990. Por influência da 8ª
Conferência Nacional da Saúde, de 1986, se sacramentou cinco artigos na
Constituição Federal de 1988. Dois anos depois, 1990, esses artigos foram
regulamentados pela Lei Orgânica da Saúde. Era o SUS legal!
Então, na era pré SUS, isto é,
INAMPS (Instituto Nacional da Assistência Médica da Previdência Social), a assistência
à saúde se resumia em atendimento médico hospitalar, e dar remédio aos
pacientes. Tinha sua importância. Mas também tinha consequências. Entre as consequências estava que apenas se
buscava a cura da doença, pouco se investindo na prevenção. Isso levava a uma
alta mortalidade infantil e baixa expectativa de vida. E não existia um
planejamento de saúde.
Cada um no seu canto, atendia
seus pacientes, fazia cirurgia, fazia partos e atendia quando o paciente ficava
doente. Essa situação fez com que, alguns que trabalhavam na saúde pública, resolvessem
brigar pela reforma sanitária. Isto é, havia necessidade de reformar.
O
horizonte era: “Queremos um planejamento com base em dados epidemiológicos para
resolver essa mortalidade infantil alta, essa baixa expectativa de vida. Vamos
investir num bom pré natal, num bom atendimento da gestante durante o parto, de
preferência normal, e depois acompanhar essa criança até 1 ano, com leite
materno e fazendo vacinas e acompanhando o seu desenvolvimento físico e mental.
Esse planejamento tem que prever também controle das doenças crônicas, como
diabetes, pressão alta, doenças da tireoide, asma brônquica, etc. E, claro,
vamos continuar e aperfeiçoar o tratamento das doenças agudas, como infecções,
cirurgias, etc”.
Assumi a Secretaria Municipal
da Saúde de Santa Bárbara do Sul, em 1985. Depois, aqui em Passo Fundo, em 1989
e 2005. Então, vivenciamos essa caminhada toda, antes, transição e pós SUS!
Ajudamos na elaboração da Lei Orgânica do SUS. É um arcabouço legal perfeito,
atende as necessidades de uma saúde preventiva e curativa. Mas, infelizmente
existem ainda falhas, digamos, mais de ordem humana de que legal.
NEI
ALBERTO PIES: Em que momento surgiu seu interesse pela
Homeopatia? Qual é o princípio norteador?
GRANDO:
Após
10 anos atendendo crianças, e a norma, o protocolo, era usar muitos medicamentos,
principalmente em algumas doenças crônicas. Comecei a questionar a necessidade
disso.
Algumas patologias era normal
usar medicamentos como antibióticos e corticoides. Como pode interferir no
desenvolvimento físico e mental da criança, pois a mesma ainda está em
formação, busquei alternativas, além da medicina tradicional. Estudei medicina
chinesa, acupuntura e homeopatia. Troquei algumas ideias com um famoso Pediatra
Homeopata, Dr. Valtencir Linhares, de São Paulo, hoje falecido. E me
entusiasmei pela medicina homeopática. Durante 3 anos frequentei, em finais de
semana, a cada 15 dias, o curso da Associação Médica Homeopática, em Curitiba.
Hoje sou especialista em
Homeopatia pela Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina,
como qualquer outro especialista. Em 1987 iniciei medicar com medicamentos
homeopáticos, como experiência, por livre opção minha e, claro, com a
concordância dos pais. E o resultado foi excelente. Não que homeopatia resolva
tudo, muitas vezes a medicina tradicional tem melhores resultados.
Hipócrates,
considerado o pai da medicina, há 2.500 anos mudou o conceito da medicina,
transformando-a em ciência, até então exercida como magia ou ação divina. Para
tanto, postulou duas maneiras de curar o doente: a cura pelo contrário e a cura
pelo semelhante. Vamos exemplificar, de maneira bem simplista: uma infecção
pode ser curada pelo antibiótico, que destrói a bactéria, ou estimulando que o
próprio organismo ganhe forças para debelar essa bactéria.
A primeira postulação é a base
da medicina tradicional e a segunda é a base da medicina homeopática. Outro exemplo:
dor de estômago por excesso de acidez. A medicina tradicional usa um anti-ácido
e a medicina homeopática usa um medicamento, em doses ínfimas, que em doses
ponderais provoca acidez. Existe outros princípios da homeopatia, mas este é o
principal.
NEI ALBERTO PIES: Participaste, na década de 1990, de muitas discussões sobre a implantação do SUS, ainda no tempo do agora extinta ASEDISA (Associação dos Dirigentes e Secretários Municipais de Saúde), entidade substituída pelo COSEMS. Qual era a discussão sobre Saúde naquela época?
GRANDO:
Naquela
época, a grande maioria dos colegas não desejavam mudanças. Afinal, o exercício
da medicina era muito lucrativo. Porque mudar? Mas, um grupo, e não só médicos, queria um
sistema que atendesse muito mais do que apenas curar. Mas, antes promovesse a
saúde.
Digamos, na era pré SUS, o que
exista era o INAMPS, órgão então ligado à Previdência Social, que ofertava
atendimento médico-hospitalar para quem pagasse o INPS (hoje INSS).
O Ministério da Saúde
praticamente não existia, era a Previdência que tratava da saúde.
Existia uma carteirinha
amarela. Quem não tivesse a carteirinha amarela, não tinha esse direito. Era
atendido nos postos de saúde do Estado, e de alguns Municípios, normalmente
como “indigente”. Por outro, lado, quem tinha recursos próprios, pagava
atendimento privado.
A crítica que se fazia, além
de ser excludente, era que a assistência ofertava apenas consulta médica e
medicamentos, além de cirurgias e hospitalizações, isto é, se buscava apenas
curar quem estivesse doente. Claro, isso também era e é importante. Mas, não
existiam programas que buscasse a prevenção da doença, e que se envolvesse
outros profissionais da saúde, não apenas o médico. O resultado disso era uma
estagnação na Expectativa de Vida e no Índice de Mortalidade Infantil,
parâmetros fundamentais na avalição da saúde de um povo.
Quem trabalhava com saúde
pública (os ditos sanitaristas) pedia mudanças, pedia uma reforma sanitária. E
esse reforma veio com a Constituição Federal de 1988 e foi solidificada com a
Lei Orgânica da Saúde, em 1990. A Assedisa (Associação dos Secretários e
Dirigentes Municipais da Saúde), hoje Cosems/rs (Conselhos de Secretarias de
Saúde), teve papel fundamental nessa discussão e na aprovação dos artigos 196 a
200 da Constituição Federal e da Lei Orgânica da Saúde.
Hoje, na era SUS temos outro
sistema, que oferece ações de cura mas também se preocupa com ações
preventivas. Tanto que a EV (Expectativa de Vida) e o IMI (Índice de Mortalidade
Infantil) melhoraram muito após 1990. A expectativa de vida aumentou de 65 anos
em 1990 para 75 anos em 2010. E a mortalidade infantil caiu mais de 60% nesse
período. Com certeza, apesar de ainda ter falhas, o SUS tem muito a ver com
isso.
NEI
ALBERTO PIES: Qual foi a importância do SUS incorporar a
prevenção, como fator de promoção da saúde pública?
GRANDO:
Fundamental.
Quando a abordagem do paciente enxerga apenas a cura da doença, perde-se a
oportunidade de orientar no sentido usar de meios para controlar a doença.
Importante, por exemplo, ensinar ao paciente hipertenso que deve controlar a
ingesta do sal, da perda de peso, da nutrição adequada, para evitar as
complicações da hipertensão, como o acidente vascular cerebral (derrame) ou o
infarto do miocárdio.
Após o SUS, foram
sistematizados, entre outros, os programas de assistência de gestantes, crianças,
doenças sexualmente transmissíveis, doenças mentais, idosos, etc. Isso trouxa mais qualidade de vida às
pessoas. O advento do programa Estratégia da Saúde da Família, com a
participação de vários profissionais da saúde, não apenas o médico, sem dúvida,
melhorou em muito as condições da saúde da população.
NEI
ALBERTO PIES: Por que é tão complicado promover a efetiva
Municipalização da Saúde?
GRANDO:
A
descentralização, uma das diretrizes do SUS, tem como meta principal a
municipalização da saúde. Isto é, o município é que deve ser o gestor a nível
local: planeja, de acordo com suas necessidades, sua realidade epidemiológica,
e executa todas as ações e serviços da saúde. Não tem sentido o Estado ou a
União estar executando ações nos município. É aqui que as coisas acontecem.
Ficam para o Estado e União questões que são nacionais, como vacinação,
vigilância nas fronteiras, etc.
A
municipalização é difícil porque houve a descentralização de algumas ações e serviços
mas não se descentralizaram os recursos. A União não tem interesse em repassar
recursos para que os municípios façam de fato a gestão da saúde. Passa parte do
orçamento, e assim mesmo, mediante a prestação de contas. Então o município é
um prestador de serviços, não um gestor. O poder está em quem tem o recurso.
Além disso, também é entrave
para a municipalização, a indicação puramente política dos secretários da
saúde, e a alta rotatividade dos gestores municipais. É difícil gerenciar
questões complexas como as da saúde, quando o gestor não conhece o assunto, ou,
assim que aprende, é trocado por uma questão de mudança de governo.
NEI
ALBERTO PIES: Como foi a sua experiência como gestor da
Saúde (secretário municipal por mais de 10 anos e Delegado/Coordenador Regional
da Saúde por duas vezes)?
GRANDO:
Foi
um grande aprendizado, pois vivenciei, como Secretário Municipal da Saúde
quando ainda era INAMPS, no período de transição e depois quando era SUS.
Gerenciar uma secretaria com mais ou menos 20 servidores e depois uma
secretaria com mais de 1.000, com certeza ensina muito. Além disso, no SUS tudo
era novo, tínhamos que aprender juntos. E as exigências eram cada vez maiores.
Na época de Delegado Regional,
abrangendo 62 municípios, nos mostrou a visão do gestor estadual, com todas as
dificuldades e pouco recursos. Ajudou muito ter estado antes como secretário
municipal.
NEI
ALBERTO PIES: Conte-nos como foi coordenar a primeira
Conferência Estadual de Saúde, no ano de 1991? Que desafios estavam postos para
aquela primeira Conferência Estadual de Saúde?
GRANDO:
Também
foi uma grande experiência. E, importante, em 1991 vivíamos o auge de uma
disputa política no Estado. Isso refletia na saúde. E, no SUS, tudo era
novidade, a lei Orgânica tenha recém sido promulgada. Como Presidente da
Assedisa e Coordenador da conferência, tinha que coordenar a conferência e
mediar as disputas políticas.
A Conferência, seja municipal,
estadual ou nacional, conforme a lei 8142/90 reúne a população para discutir e
estabelecer diretrizes sobre a saúde. Não delibera, apenas opina por maioria.
Depois, os conselhos deliberam, em cada nível.
Então, sendo matéria nova,
foram centenas de propostas, que depois foram sistematizadas e encaminhadas às
autoridades competentes. Lembro que a abertura foi no antigo Cine Pampa, tendo
a palestra magna do Dr. Wilson Fadul, que havia sido Ministro da Saúde em 1963,
quando se falou pela primeira vez em descentralizar para os municípios a
execução das ações e serviços de saúde. A partir do 2º dia, centenas de
representantes dos municípios foram divididos em grupos, trabalhando no campus
da UPF. Penso que saiu um relatório muito bom, definindo o que a população e os
profissionais da saúde desejavam para a saúde do nosso Estado.
NEI
ALBERTO PIES: Qual é a importância do controle social no SUS?
GRANDO:
Prefiro
o termo participação da comunidade, assim está na Constituição Federal de 1988.
Sempre defendi a participação das
pessoas na gestão da saúde. É ter os olhos da população dentro da gestão. São
as pessoas que sabem das suas necessidades.
Nós, técnicos, trazemos essas
necessidades para o planejamento e execução.
Essa participação se faz essencialmente nas
Conferências e nos Conselhos de Saúde.
A Conferência se reúne a cada
2 ou 4 anos, dependendo do nível e necessidade, avalia as questões da saúde e
sugere mudanças. O Conselho, órgão permanente, composto em 50% pela população
organizada, tem poder deliberativo. Isso é a essência da democracia dentro da
gestão da saúde. Por exemplo. Se o
Conselho deliberar que o orçamento da saúde está mais voltado para ações mais
curativas e menos preventivas, discute a questão e leva ao Prefeito. Da mesma
maneira se existe falta de profissionais, exames, medicamentos ou estrutura
física.
NEI
ALBERTO PIES: Que promessas o SUS ainda não conseguiu
concretizar plenamente?
GRANDO:
O
SUS prometeu que a gestão da saúde deve ser descentralizada, ter integralidade,
ter participação da comunidade, ser universal.
Hoje,
ainda se investe três vezes mais na saúde curativa que na saúde preventiva. Aí
falha a descentralização e a integralidade, que é atender as necessidades desde
as mais simples até as mais complexas.
A participação da comunidade,
seja nas conferências ou nos conselhos, é tímida, ou porque as pessoas
desconhecem seus papel ou são dominadas por grupos ou pelo próprio Prefeito. O
acesso aos serviços tem falhas: consegue a consulta, mas não efetiva a cirurgia
necessária. E muitas vezes tem cobrança “por fora”. Issomostra falha no sistema, na gestão do sistema.
NEI
ALBERTO PIES: Sabemos que quase 50% dos recursos do SUS são
gastos em hospital. Pouco menos de 20% com Atenção Básica e os restantes 30 e
poucos por cento com a máquina administrativa e campanhas de prevenção à Saúde.
Estes percentuais dão conta de promover Saúde Pública de qualidade no Brasil?
GRANDO:
Não,
com esses percentuais vamos continuar pagando a doença, não fazendo saúde. No
orçamento para 2019, 129 bilhões de reais, foi previsto investir perto de 59,9 bilhões (46,5%) na
assistência hospitalar e ambulatorial e 25,1 bilhões (19,5%) na assistência
básica. Sabe-se que, nos países desenvolvidos, a atenção básica resolve 80% das
questões de saúde. Então, não tem sentido alocar menos de 20% do orçamento na
atenção básica.
NEI
ALBERTO PIES: Na visão de médico e gestor de saúde por vários
anos, porque é tão importante defendermos e fortalecermos o SUS?
GRANDO:
Primeiro,
porque o sistema anterior demonstrou que não atendia às necessidades de uma
verdadeira saúde para um país como o Brasil
Segundo, porque a proposta do
SUS saiu de amplo debate da população, profissionais da saúde, prestadores de
serviço e gestores. Desde a 8ª Conferência Nacional da Saúde de 1986, passando
CF de 1988 culminado com a Lei Orgânica da Saúde, de 1990. Foram mais de 5 anos
nessa discussão vendo o que melhor. E tem uma legislação muito boa.
Terceiro, porque acertos e
bons resultados já são uma realidade. Devem ser melhorados e aperfeiçoados.
NEI
ALBERTO PIES: Como avalias a Saúde pública no Brasil de hoje,
ano 2019? O Brasil corre o risco de extinguir ou colocar o SUS em colapso?
GRANDO:
A
saúde pública, entendido aqui como a saúde ofertada pelo gestor municipal,
pelas três esferas de governo, podia estar melhor. Faltam profissionais que se
disponham a atender o SUS, principalmente médicos, nas várias especialidades, faltam
cirurgias, faltam medicamentos, faltam consultas e também faltam bons gestores.
A classe médica reclama do baixo ganho. Isso entrava.
Um paciente com uma fratura de
fêmur, por exemplo, fica meses numa fila para fazer a cirurgia. Porque não
operar logo? Porque faltam profissionais que se propõe a fazer a cirurgia! Não
tem profissionais? Tem, basta verificar o número de médicos que trabalham nos
nossos hospitais, mas não querem operar pelo SUS.
Aqui
em Passo Fundo, onde se realizam os procedimentos mais complexos, e muito bem
por sinal, temos falta de médico que opere uma hérnia ou uma fimose numa
criança, retirar um útero, operar uma unha encravada! Tem absurdo maior que
isso?
Quero aqui deixar claro que
existem muitos abnegados que se prontificam e estão fazendo inúmeros
procedimentos pelo SUS. Mas são poucos.
Ou como se explica uma fila que um ano para retirar um útero de uma mulher com
constante sangramento? Ou alguém esperar em cima de uma cama para operar uma
perna quebrada?
A solução? Criar a carreira de
médico do SUS, que recebe um salário de acordo com aquilo que a classe acredita
ser o adequado, pela responsabilidade da profissão. E, fundamental, tal como um
promotor ou um juiz, o médico de carreira, só atende pacientes da saúde
pública. Outros, médicos privados, atendem pacientes privados, internam e são
operados em hospitais privados. E podem
cobrar de acordo com o acerto com o seu paciente.
Embora o SUS tenha uma
legislação perfeita, a sua execução apresenta falhas. Uma falha é na falta de
bons gestores, de quem conheçam o assunto e desenvolvam plano de saúde
adequado.
A CF de 1988, em cinco
artigos, de 196 a 200, definiu como seria a saúde no Brasil. E já estabeleceu
as diretrizes: descentralização, integralidade e participação da comunidade.
Descentralização é cada esfera
de governo ser o gestor da saúde: elaborar um plano de saúde, tomar decisões,
ter o recurso à sua disposição, enfim, gerenciar a saúde. Isso não acontece. Os
municípios não são gestores. Eles são prestadores de serviços à União.
Por exemplo, atendem uma consulta e mandam a fatura para a União pagar. Ou o
hospital realiza em procedimento e recebe direto da União, não do município.
Porque? Porque o recurso está com o governo central.
Integralidade é atender todas
as necessidades das pessoas, desde as ações mais simples até as mais complexas.
É fazer a cura mas também a prevenção. É fazer transplante mas também operar
uma unha encravada ou retirar um berne. É tratar uma infecção pulmonar ou um
acidente vascular, mas também ensinar com controlar a asma brônquica ou a
hipertensão arterial.
A
participação da comunidade, através das conferências e dos conselhos de saúde,
caíram no desuso, ou foram usados para fazer proselitismo político. Onde tem
hoje um conselho municipal com atuação resolutiva, com enfrentamento ao gestor
municipal, quando necessário?
Outra falha é no orçamento da
saúde, que desde há muito tempo, 15 ou 20 anos, cada ano vem diminuindo. Em
2019, a proposta foi de em torno de 129 bilhões de reais, para atender tudo que
o SUS propõe: universalidade, gratuidade, integralidade.
É
preciso corrigir e aperfeiçoar o Sistema Único de Saúde, não extinguir e nem
deixá-lo minguando por falta de recursos e problemas na sua gestão.
NEI
ALBERTO PIES: O que a sua atuação parlamentar (vereador por 6
anos) lhe ensinou? Neste período, a Saúde também foi o foco de sua atuação
política?
GRANDO:
Como
parlamentar aprendi a importância do diálogo, da discussão. Vi também que um
dos grandes problemas no sistema político é a reeleição, em qualquer nível,
pois desperta o desejo da perpetuação no poder, o que não é bom e possibilita a
corrupção. Mas também constatei como muitos parlamentares ainda não tem noção
do papel de cada poder. Alguns pensam que o Legislativo é um apêndice do
Executivo…
NEI
ALBERTO PIES: Uma frase que defina sua filosofia de vida.
GRANDO:
Não
é uma frase, mas uma conduta que sempre tentei seguir: sempre tentar conciliar
o que pensa, com o que diz e com o que faz, mas com ética, independente de
estar ou não na lei.
NEI
ALBERTO PIES: Uma frase pela qual, na sua visão, vale a pena
viver.
GRANDO:
É
bom viver porque viver é sempre recomeçar, a cada instante, a cada hora, a cada
dia. E ainda podemos ajustar nossa rota.
Meu
vizinho disse que estrela
lembra um partido comunista.
Eu pedi o que colocar e ele
me emprestou um revólver.
Está na Bíblia, ele me disse.
Que não lhe estranhe o
rubor em meu rosto, nem minha vergonha contida. Aqui estou para confessar o
maior segredo de meus trinta e dois natais.Vou contá-lo com medo de
apedrejamento público. Falarei com um temor adulto de ser tido como louco.
Aos cinquenta, a vida
me convenceu de que Papai Noel existe. Verdade que aceitei resignado, notícia
transparente como seu olhar que me lê. Papai Noel existe e a chuva nos molha os
cabelos. Papai Noel existe e a terra gira ao redor do sol.
Contam às crianças que
os bebês nascem da barriga da mãe de uma sementinha de papai. Mentem aos
pequenos que Jesus é de gesso e defende armas.
Ninguém conta a elas
que os adultos se matam sem motivo, que há uns comendo peru na noite do dia 24
e outros lambendo os ossos no amanhecer.
Minha confissão tardia
torna-se um pedido de perdão. Não a você ou ao mundo. Não é, muito menos,
espera de clemência ou piedade. Quero é que Papai Noel continue me presenteando
na vida.
Oportuno dizer, também,
que não é apenas em dezembro que recebo regalias. Há, ainda, abril e junho,
fevereiro e setembro, enfim, nos meses de 28, 30 e31 dias.
Perdoe-me,
Noel, pela ingratidão de anos! Minha confissão, quase pública, é uma pena
alternativa por meus desatinos, por minha infidelidade ao bom velhinho, por
minha ignorância e vergonha, por achar que os presentes ganhos eram só os
compráveis no comércio.
Quanta ilusão alimentei
de que era o dinheiro que me proporcionava os presentes da vida! Papai Noel
sempre aqui ao meu lado, alentando-me quando aborrecido, orientando-me em
silêncio, fortalecendo-me com sabedoria, abraçando-me nos amigos, amando-me na
esposa, sorrindo-me nas crianças, ensinando-me nos mestres ou alunos,
ajudando-me nos caminhos cotidianos, surpreendendo-me em tantos momentos
singulares.
Papai Noel é parceiro
desde aquela noite, há cinquenta dezembros atrás, quando, sobrevoando o mundo
pendurado no bico da cegonha, eu sonhava. Comigo esteve mesmo nos tempos
céticos, quando se apagava em mim a límpida verdade do Natal.
Eu acredito em Papai
Noel mas, por favor, será que seria possível o bom velhinho explicar aos pais
dos meninos de Paraisópolis alguma razão sensata para seus filhos morrerem
pisoteados?
Eu acredito em Papai
Noel, mas seria possível envenenar menos os alimentos e derrubar menos árvores
na Amazônia?
Será que o Papai Noel
poderia levar para a Lapônia essa gente ignorante que cuida do Ministério da
Educação, essa gente racista que cuida da Fundação Palmares, essa gente
assassina que cuida da Secretaria de Direitos Humanos, esses religiosos
endemoniados que exploram os pobres nas igrejas?
Eu
acredito em Papai Noel. Mas, será que eu poderia pedir de Natal que ele
cuidasse mais da educação e dos professores no Rio Grande do Sul?
Meu vizinho mandou eu
tirar a estrela da ponta do pinheirinho. Disse que estrela lembra um partido
comunista. Eu pedi o que colocar e ele me emprestou um revólver. Está na
Bíblia, ele me disse.
“Aproveitemos o Natal para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho e desafio como ser humano. Viver sozinho e só não vale a pena! Que o Natal tenha a força para nos inspirar para a vida que se faz sempre solidária”. (Nei Alberto Pies)
Retirada dos projetos da Assembleia e realização
de um verdadeiro diálogo com a sociedade e
comunidades escolares para vermos qual o
melhor caminho para a educação.
Este que aí está nos coloca num
impasse sem saída!
Uma profunda tristeza paira sobre o ambiente escolar. Quando se pensava que mais não seria possível perder, “vem a
enxurrada e leva tudo”.
Pode-se fazer essa analogia com as enchentes quando
atingem pobres que já tem tão pouco, pois vínhamos mostrando nos dados do
Observatório da Educação, publicado pela Comissão de Educação da AL este ano,
que o processo de desinvestimento era grave e que impactava a educação pública
do Rio Grande do Sul desde os espaços físicos até a condição de qualificação e
sobrevivência dos profissionais; que empobrecia a experiência pedagógica
resultando em maior abandono e reprovação escolares, em maior distância da
educação de qualidade que nossos estudantes merecem.
Apontávamos que as primeiras medidas do novo governo aprofundavam esse
sentido ao fechar bibliotecas escolares, ao deixar de fazer concurso para
professores, funcionários e especialistas, bem como de profissionais para
realizar as obras necessárias e urgentes – a ponto de perder recursos por conta
disso!
Sem
responder à necessidade de qualificar a educação, sem sequer cumprir a promessa
de colocar em dia os salários, agora o governo apresenta projetos propondo um
achatamento profundo na carreira, desestimulando a formação e experiência,
descontando mais dos aposentados e fragmentando mais ainda o cumprimento da
carga horária dos professores. Com isso, desencadeou uma greve sem precedentes, tamanho o apoio dos e
das estudantes, das comunidades escolares e da solidariedade de toda a
sociedade!
Sem proposta pedagógica para a educação pública, o governador defende
sua entrega à iniciativa privada.
Ele que foi aos Estados Unidos conhecer as Escolas Charters,
precisa ler o balanço que faz Diane Ravitch, da Universidade de Nova York,
ex-secretária assistente de Educação de Bush e apontada por Clinton para a
Junta Nacional que supervisiona as testagens federais, no livro Vida e
morte do grande sistema Escolar Americano, para saber como fracassam essas
experiências e como os Testes Padronizados e o modelo de mercado empobrecem a
educação.
Recente publicação da nova matriz curricular para nosso Estado, dando
ênfase ao Português e à Matemática – medidos por testes – direciona para esse
caminho que colocou os EUA atrás dos seus paralelos no ranqueamento mundial da
educação.
É urgente a retirada dos projetos da Assembleia e a
realização de um verdadeiro diálogo com a sociedade e comunidades escolares
para vermos qual o melhor caminho para a educação. Este que aí está nos coloca
num impasse sem saída!
Até quando o país vai tolerar
esta
série de ameaças à ordem constitucional?
É preciso entender que não se constrói o futuro
com experiências fracassadas do passado.
Completaram-se
51 anos da outorga do famigerado e ignóbil AI-5 por Costa e Silva, medida que permitiu
a ditadura fechar o Congresso, cassar parlamentares e juízes do STF e abolir garantias
individuais, entre elas o habeas corpus.
O AI-5 que vigorou até 1978,
abriu uma temporada obscura de perseguições, torturas e mortes e permitiu ao governo
militar implementar, sem sustos, uma política econômica impopular e concentradora
de renda.
Mais de meio
século depois, eis que as viúvas da ditadura reaparecem defendendo a possibilidade
de um novo AI-5. A obsessão da família Bolsonaro por saídas autoritárias é por demais
conhecida. Um dos rebentos do clã, Eduardo, foi o primeiro a acenar com tal insanidade.
O pai presidente,
ao saber do fato, comentou que era apenas um “sonho” do filho. Na verdade, um pesadelo.
O AI-5 é incompatível com a democracia. “Sonho” só se for para o clã Bolsonaro e
seus alucinados seguidores da extrema-direita.
Agora, extrapolando
todos os limites aceitáveis, o “liberal” ministro Paulo Guedes trouxe novamente
à pauta a possibilidade de um novo AI-5. O inusitado é que tais liberais acham isto
perfeitamente normal, num deboche a Locke e Adam Smith.
É bem verdade
que Guedes serviu a um dos mais violentos regimes ditatoriais do continente, o de
Pinochet no Chile.
Em 2018, em entrevista à revista Piauí, o nosso Chicago Boy afirmou que o fato de a ditadura chilena ter deixado 40 mil vítimas, entre torturados, assassinados, e desaparecidos, era “irrelevante do ponto de vista intelectual”. Uau!!
Delírios como
os de Guedes fazem parte da fase autoritária que vive o neoliberalismo no mundo
atualmente, a exigir líderes linha-dura para seguir o receituário que há 40 anos
deixa rico mais rico e pobre sem futuro.
Guedes, segundo renomados
economistas, seria a expressão dessa fase, por ser dono de um autoritarismo econômico
e de mercado. Na sua visão, é preciso autoritarismo político: sem repressão o mercado
não funciona.
Assim, não surpreende
a ameaça do ministro que tem uma evidente identificação com o presidente a quem
serve, notadamente, na veia autoritária. Não é à toa que ambos se inspiram em Augusto
Pinochet.
Meus assustados
botões indagaram: até quando o país vai tolerar esta série de ameaças à ordem constitucional?
É preciso entender que não se constrói o futuro com experiências fracassadas do
passado.
“O neoliberalismo já não necessita fazer concessões ao Estado de bem-estar social, pois desapareceu a ameaça comunista. Já não precisa posar de democrata. Agora, a imposição de um único modelo econômico deve se coadunar com a imposição de um único modelo político, o autoritário, de modo a favorecer a acumulação do capital e conter a insatisfação de amplos setores da população sem direito aos bens essenciais à vida digna”. (Frei Betto)
Os profissionais da educação precisam comer, vestir, morar e pagar seus encargos financeiros. Precisam viver com dignidade.
A educação é importante e os professores também.
Acompanhamos a reação da sociedade ao projeto publicado pelo Governo do
Estado em relação aos funcionários públicos, atingindo de forma mais direta os
profissionais da educação.
Neste caso, tomemos o cuidado de não analisar a questão de forma isolada
ou a partir de interesses particulares.
O Brasil tem se caracterizado pelo desleixo em relação à educação,
sobretudo de parte do Governo Federal. Algumas iniciativas pontuais não
têm sido suficientes para suprir o déficit histórico.
Para agravar a situação, no ano de 2016 foi aprovada a PEC 95 que
autorizou o limite de gastos do governo e esta lei também atingiu os gastos com
educação.
O atual chefe do
Ministério da Educação tem se protagonizado mais por revelar disparates e
preconceitos divulgados em redes sociais do que por apresentar projetos
consistentes voltados ao ensino. É o cenário atual da educação no Brasil.
Para a ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), a fim de justificar a diminuição dos gastos com as Humanidades, o ministro fez uma fala inconsistente e desrespeitosa, que demonstra inaceitável desconhecimento da área.
Estas dissonâncias repercutem nos níveis de aprendizado dos alunos do
ensino fundamental e médio e interferem também na qualidade do trabalho nas
universidades.
Os governantes ainda não estão convencidos da necessidade de
investimento na educação. Seria um investimento que abriria caminhos promissores
para o Brasil. Um jovem bem formado em todas as dimensões é riqueza
imensurável.
O investimento favorece não só o jovem, mas a nação. Não é um gasto sem
sentido, que não dá retorno. O investimento abre caminhos, sugere outros
processos, dá retorno. Os valores não se perdem, mas se transformam em
oportunidades.
No caso do nosso
estado (RS), vê-se a continuidade do parcelamento salarial que também atinge os
profissionais da educação. É muito difícil um profissional trabalhar com zelo e
equilíbrio emocional, ganhando pouco ou com salário atrasado.
É um grito de socorro para salvar a escola pública e os sonhos de milhões de gaúchos que dependem de uma educação gratuita e de qualidade. Resistimos para não deixar de existir. (Helenir Oliveira, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato)
Os profissionais da educação precisam comer, vestir, morar e pagar seus
encargos financeiros. Precisam viver com dignidade. Quem é assalariado sabe o
que significa a falta de dinheiro no final do mês.
Sejamos solidários aos professores nas suas ações para salvaguardar
direitos. Compreendamos a importância da educação para o futuro de um país. Uma
boa educação se estrutura com profissionais respeitados e valorizados pelo que
fazem.
Programa Educação e Debate, do CMP SINDICATO, entrevista dirigente do CPERS Passo Fundo, Ricardo Germani, sobre motivações da greve estadual do magistério.
A Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF) celebrou os 35
anos de sua criação, no dia 30 de novembro, com um jantar por adesão. O
encontro foi realizado no salão da Comunidade da Lucas Araújo, em Passo Fundo,
RS. Participaram lideranças de organizações populares com as quais a CDHPF
mantém relação, além de lideranças sociais e políticas.
A CDHPF foi fundada em 05 de junho de 1984 por um grupo de cidadãos e cidadãs
passo-fundenses. Na Ata de Fundação se encontram os objetivos que orientam a
entidade ao longo de seus anos de atuação. São os seguintes: “promover e
defender os direitos de pessoas, famílias e organizações e assessorar a
organização popular na defesa de seus direitos”.
A memória dos 35
anos de atuação resultou na construção de um mosaico com reportagens, fotos,
publicações, bandeiras e símbolos que marcaram a caminhada.
Na abertura do encontro foi realizada uma celebração na qual se afirmou que “A Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo é obra com muitas marcas e que marcou vidas e demarcou posições ao longo de 35 anos. Foram dias de engajamento e de responsabilidade com a promoção dos direitos humanos que exigiram a denúncia de situações de violação e de sujeitos/as violados/as e violentados/as, a presença na organização e luta de grupos, movimentos, organizações, a formação de alianças e parcerias, a realização de diálogos e construções conjuntas, mas também o enfrentamento, a pressão e a recusa a aceitar práticas e políticas desumanizantes”.
“Os anos que se
foram só fazem sentido porque nos reunimos para dizer que seguiremos juntos em
novos anos, para novas empreitadas, para novos passos. Este cenário que
montamos juntos é uma pequena representação do que foram as ações, os processos
e as pessoas que fizeram e fazem a CDHPF”.
Cada participante levou para casa sementes de girassol, significando o
compromisso com a luta pelos direitos humanos. O compromisso em multiplicar e
ampliar esta luta. Esta simbologia diz que, como o girassol, “No chão (terra)
fincam-se as raízes, daí vem o alimento, dele a sustentação. Conhecer a fundo a
realidade e imergir nela é fundamental para atuação em direitos humanos.
Ninguém luta por direitos humanos se não estiver profundamente enraizado e bem
nutrido pela Mãe Terra natural, dela vêm o sustento para “ficar de pé”, erguer
a cabeça, sustentar o corpo, para fitar o horizonte (sol).
Temos projeto, temos causas. O desejo do infinito, do impossível, nos
faz enfrentar todas as situações de morte, de violência e de vitimização, de
violação de direitos e desumanização de sujeitos/as. A utopia serve para isso,
dizia Iturri, para seguir caminhando, já que se um passo dou em direção a ela,
um passo ela se distancia de mim. E se é para caminhar, então o caminho (girar),
exige método, construção coletiva, compromisso, para manter vivas as
organizações e as pessoas para dar-se as mãos e não soltá-las, para saber-se
singular na pluralidade, para fazer-se mais com os outros e as outras, para
direitoshumanizar a tudo e a todas e todos”.
A coordenação geral da CDHPF agradece a cada uma e a cada um dos associados e
das associadas que juntos, ao longo destes 35 anos, vêm fazendo realidade a
luta por direitos humanos. Também agradeceu às alianças e parcerias e a todos que
apoiam a atuação. Também agradeceu pelas críticas daqueles que dizem não gostar
dos direitos humanos, pois também desafiam a seguir construindo.
Paulo César Carbonari, atual Coordenador Geral da Comissão, é militante de atuação conhecida e reconhecida em todo Brasil. Desde muito jovem, ainda cursando filosofia, engajou-se na Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF) e nunca mais parou de atuar na defesa e promoção dos direitos humanos. Além de sua atuação local, assessora movimentos populares, cooperativas de crédito, ONGs em diferentes estados brasileiros.
O desafio maior, num mundo marcado pela escassez de matérias e energia, é popularizar a ideia de que nada precisa ser descartado; afinal, tudo pode ser reaproveitado.
Jamais deixar resíduos
durante a fabricação de um produto ou mesmo depois de fabricado. Se não for
possível reciclar, faz-se necessário inventar um modo de reutilizá-lo ou
transformá-lo em algo útil, de tal maneira que, na medida do possível, e usando
toda a criatividade imaginável, nada se perde, tudo se aproveita, nada se
descarta, tudo vira algo útil.
Esse é o
objetivo da “economia circular”, modelo pelo qual, essencialmente e num breve
resumo, tenta aproveitar todos os insumos utilizados na fabricação de um
produto, sem produzir lixo.
A ideia nasceu da percepção
de Ellen MacArthur. Por esse método, não existe desperdício – diferente,
portanto, do método de reciclagem. Para difundir sua ideia junto à empresas,
universidades, governos e ONGs, Ellen MacArthur criou uma Fundação que leva seu
nome.
O exemplo da Renault
A fabricante
de carros francesa Renault, em parceira com a Fundação Ellen MacArthur criou
uma fórmula pela qual reaproveita 85% da estrutura de automóveis velhos ou
danificados na fabricação de novos modelos, segundo reportagem publicada por Veja
(ed. 2462 – 27/jan/2016, p.86).
O
exemplo da Renault está dividido em três etapas: 1) Descontaminação –
Nessa etapa, são preservadas 10% da estrutura do carro, após peças como
baterias e catalisadores, além de acionadores de air bags passarem por
todo o processo de descontaminação, uma vez que determinadas peças contém
elementos tóxicos; 2) Remoção – espumas das poltronas, vidros e
revestimentos de metal do painel – num total estimado de 5% – são
reaproveitados em outros componentes; 3) Britagem – cerca de 70% das peças
de metal, como a lataria, após processo de separação e fragmentação, são
reprocessadas, transformando-se em novas peças.
O ganho financeiro
Ainda de
acordo com a citada reportagem, os ganhos financeiros com a adoção da “economia
circular” são significativos. Relatório produzido pela consultoria McKinsey
& Company, em parceria com o FEM (Fórum Econômico Mundial), apontam que a
adoção desse estilo de “desperdício zero” pode gerar economia de 380 bilhões de
dólares para a iniciativa privada no momento inicial da transição da economia
linear (a atual, baseada no descarte) para a economia circular.
Uma vez adotada de forma
ampla, os cortes chegariam a 600 bilhões de dólares. Fora isso, a demanda por
mão de obra para as fábricas que adotarem o princípio da “economia circular”
faria com que surgissem, somente na Europa, 1 milhão de empregos.
O
desafio maior, diante da necessidade suprema de implantação da “economia
circular”, num mundo marcado pela escassez de matérias e energia, é popularizar
a ideia de que nada precisa ser descartado; afinal, tudo pode ser
reaproveitado.
Em outra
publicação, também afirmamos que: “… é preciso dizer algo mais: transformar
a economia dos homens significa,
sem fazer uso de palavras vazias, propor a radical mudança do ritmo frenético
de produção e consumo globais e, a partir disso, reconstruir o metabolismo ser
humano-natureza, buscando igualmente reconstruir a
própria economia de produção”.
Em tempos tão obscuros como o que vivemos, sorrir é uma afronta, uma negação e um ato revolucionário contra um mundo que convida à tristeza a todo tempo. Vamos resistir sorrindo.
Se o assunto for samba, meu oráculo é a Ilona. A garota sabe as
letras de todas as músicas, quem as gravou e, quase sempre, o nome do disco.
Quando não conhecia um samba entoado numa roda – coisa rara – era capaz até de
adivinhar o compositor:
– Com essa linha melódica só pode ser do Wilson Moreira – dizia
ela e quando conferíamos era batata.
Ilona respirava samba. Segunda-feira se revezava entre o samba do trabalhador e a Pedra do Sal. Na terça-feira ia para o Beco do Rato, quarta esforçava-se na oficina de percussão de que tanto gostava, a quinta terminava nos sambas da Praça Tiradentes. Sexta a laje do Santa Luzia era templo a ser visitado. Sábado e domingo não tinham destino certo. Os sambas do Chapéu, Cabeça Branca, Terreiro de Crioula, Buraco do Galo, Serrinha, ou o da feira da Glória podiam ser visitados.
Tudo isso para chegar ao fato e ao lugar que realmente
interessam. Estávamos ali na Praça Tiradentes, quando o Fernando Procópio
mandou uma letra dele e do Tinho Brito sobre as diversas formas de amar:
“Eu vos declaro marido e
marido
Eu vos declaro mulher e mulher
Hoje a união tem um novo sentido
Tudo é permitido, casar quem quiser…”
Do outro lado da roda, um desconhecido – nem tão desconhecido
assim, já que encontrávamos com ele em vários lugares na boemia carioca –
entoava toda a canção com uma emoção comovente. Ilona, feminista e defensora de
todas as formas de amor, que já tinha uma paixão platônica pelo desconhecido,
não conseguiu tirar os olhos dele e logo decretou com toda a segurança de uma mulher:
– Hoje eu já sei quem eu vou levar para casa!
Dito e feito. Hidelgardo não teve nem chances para resistir aos
encantos dela. Em pouco tempo, eles já haviam trocado vários beijos e a
determinada levou-o para casa.
O romance foi engrenando. As ficadas aleatórias com encontros
fortuitos foram ganhando caminho para combinações cada vez mais frequentes.
Cinemas, praias, jantares eram vividos com a força que a paixão merece, porém o
samba, elo fundamental entre ambos, continuava sendo o programa favorito.
Lembro-me bem da cara de apaixonada de Ilona no Beco do Rato ao ver Daniel
Rozadas cantando e seu novo amor utilizando-se da letra para se declarar:
” Pra que a gente aproveite
ainda mais
E mais desse sabor
Pra que a gente aceite que a paz
Enfim nos encontrou
E quem acha que é cedo demais
Nunca se apaixonou
Chame de loucura ou do que quiser
Eu prefiro amor…”.
O romance parecia descambar para um namoro e eu fazia gosto,
porém percebi que algo não estava bem, quando Ilona apareceu lá em casa de
surpresa. Insisti para saber o motivo do rosto fechado e ela cedeu:
– É que ontem aconteceu um acidente.
Explicou que, no meio de um beijo maravilhoso, um implante
dentário, vulgo pivô, de Hildegardo se soltou e ela acabou engolindo:
– Fiquei entalada! Quase sufoco. Pior que foi um dente da
frente. O coitado nem vai poder sair de casa.
Falou do constrangimento do rapaz, que logo pediu para ir embora
da casa dela, ainda que minha amiga tentasse tranquilizá-lo. Argumentava que a
cena, apesar de bizarra, não mudara nada o que sentia, mas que Hidelgardo
passou o dia sem nem mandar um oi.
– Deve estar com vergonha. Deixa correr um tempinho – emendei.
Mal fechei a boca e o telefone Ilona começou a tocar. Ao ver
quem ligava, ela abriu um largo sorriso e mudou completamente o humor, pedindo
licença para falar com sua paixão. Foi para o quarto e lá demorou poucos
minutos antes de voltar enfezada.
– O que houve? – perguntei.
– O Hildinho telefonou perguntando se eu tinha achado o pivô
dele.
Ilona contou que respondeu que aquela pergunta era sem
propósito, pois jamais havia pensando em tentar procurar o tal pivô nos
excrementos por razões óbvias.
Segundo minha amiga, o rapaz ficou indignado, ensaiando dizer
que não tinha dinheiro para reparar o estrago feito pelo beijo lascivo da noite
anterior e que ela havia sido inconsequente em não procurar seu implante. A
coisa foi de mal a pior e nem ela sabia quem havia batido o telefone primeiro.
O encanto morrera ali, assim como se morre o amor em cada
esquina, com ou sem motivo, para que um novo possa nascer. Nas semanas
seguintes, eles tentaram alguns encontros, todavia a química intensa de outrora
se perdeu.
Não demorou muito para que
voltássemos às rodas de samba com todo o vigor, mas agora com uma diferença.
Quando o cantor puxava “aquela boca sem dente que eu beijava/ já está com
dentadura…” minha amiga fingia que algo acontecia e saía de perto da
roda.
(Esta publicação faz parte do
livro A VIDA AMOROSA DOS MEUS AMIGOS, escrito pelo autor)
“Não existiria sentido
em literatura se a gente não pudesse se mostrar assim: escondido nos outros. A
VIDA AMOROSA DOS MEUS AMIGOS é o livro mais particular e, paradoxalmente, o
mais universal de Fernando Tenório.
Ele é particular, pois recolhe histórias e delas aproveita-se para construir a sua trajetória, que começou em Maribondo, passou por Maceió até chegar ao Rio de Janeiro. No entanto, essa ode à amizade torna-se universal, justo quando os personagens ganham humanidade, brilho, cor e sonoridade. Entre heróis pouco convencionais e vilões desprovidos de vilania, eles ficam maiores que as páginas do livro, saltando delas e saindo pelas ruas para incorporarem-se em várias figuras humanas familiares, as quais trombam com cada um de nós ao longo da vida. As idiossincrasias dos personagens encontram-se, portanto, com as de muitas pessoas conhecidas pelo leitor, inclusive ele próprio. E é aí que a magia acontece. Apesar de presunçosa, uma vez que cada um ri e goza de modo único, a proposta inicial desse livro foi a de trazer a alegria e os sorrisos. Em tempos tão obscuros como o que vivemos, sorrir é uma afronta, uma negação e um ato revolucionário contra um mundo que convida à tristeza a todo tempo. Vamos resistir sorrindo. Vamos à leitura. Isbn: 9788599396094 Autor: Fernando Tenório Acesse aqui.
Mais de 10 mil educadores abandonaram a rede estadual desde 2014. São profissionais que não se aposentaram. Saíram do chão da escola por óbito, dispensa ou opção. Os dados são da Secretaria da Fazenda, compilados pelo Dieese. Não é de se surpreender.
Sobrevivemos há cinco anos de massacre. Nosso poder de compra foi reduzido em mais de 1/3 desde o último reajuste, corroído pelo inflação. Estamos há 47 meses com os salários parcelados e atrasados, sem dinheiro para ir trabalhar, acumulando empréstimos e escolhendo entre comer e pagar as contas.
Enquanto padecemos, bancos registram lucros recordes, grandes empresas recebem o benefício da sonegação premiada e obtêm isenções fiscais bilionárias. Fecham-se escolas para abrir prisões.
Neste cenário, o governador nos oferece o mesmo remédio amargo, testado e reprovado múltiplas vezes. Mais arrocho, extermínio de direitos, congelamento salarial por tempo indeterminado e confisco de dinheiro dos aposentados. Quem tem menos paga cada vez mais para sustentar a injustiça.
Não há qualquer novidade na tentativa de reforma, se não a dimensão da crueldade. Ao incorporar vantagens ao salário básico, o governo mascara o pagamento do piso nacional. Trata-se de uma farsa contábil. Se os projetos passarem, quem pagará o piso no Rio Grande do Sul será o próprio trabalhador da educação, sem receber um centavo a mais.
Eduardo Leite prometeu tornar a carreira mais atrativa. Na prática, projeta uma diferença salarial de 7% entre o profissional com Ensino Médio e o educador com Doutorado. No plano atual, o crescimento é de 100% no básico. Quem, em sã consciência, vai ingressar no magistério ou buscar qualificação com esse descalabro? Não somos escravos.
Enviamos, no prazo determinado pelo governo, documento elencando as razões para a rejeição do pacote. Não tivemos respostas ou convite para dialogar. O mesmo já havia ocorrido neste ano, quando, após iniciar uma mesa de negociações para tratar da pauta salarial, o Piratini abandonou o diálogo e passou a ignorar ofícios do CPERS solicitando a retomada.
A greve é o último recurso de qualquer categoria, única alternativa ao esgotamento da negociação. É um grito de socorro para salvar a escola pública e os sonhos de milhões de gaúchos que dependem de uma educação gratuita e de qualidade. Resistimos para não deixar de existir.
Helenir Aguiar Schürer, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato