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Oligarquias assassinas

Antes da descoberta do Brasil (1444), em Portugal registrava-se o primeiro leilão de africanos escravizados, na vila de Lagos, Algarve. O início oficial do tráfico negreiro para a América veio pelo decreto de janeiro de 1510, emitido pelo rei Fernando, da Espanha, segundo Laurentino Gomes.

Em 1535 começam a chegar os primeiros escravos para os canaviais brasileiros. Em 1672, a cidade do Rio de Janeiro, com uma população de quatro mil moradores brancos, acumulava 20 mil escravos africanos. No ano de 1687 São Paulo tinha dez mil escravos para uma população branca de 1.500. O resto, sabemos como foi.

O poeta abolicionista, Castro Alves, descreve em versos condoreiros a cena funeral, infame e vil: “Era um sonho dantesco…o tombadilho/ que das luzernas avermelha o brilho,/ em sangue a se banhar”. Narra como os filhos de Agar foram tolhidos do ventre da mata, dos montes e cascatas, do vento livre que ondulava savanas. Eram cidadãos que viviam em tribos, nutridos pela pesca nos rios canoros, caça e favos de mel. Guerreiros, príncipes tragados de suas habitações com suas mulheres, filhos, crianças e donzelas lindas, logo acorrentadas. Muitos morriam no caminho ou nos porões lúgubres dos navios negreiros.


Quilombo

O Quilombo dos Palmares, depois de quase cem anos de resistência, foi destroçado pelas forças oficiais. A cabeça de Zumbi dos Palmares foi exibida no Recife em 1695. Todos tinham a natureza e Deus, mas os escravizadores negavam-lhes a alma e o corpo.

Sangue e liberdade

Foram 300 anos da maior injustiça social, em que os braços vigorosos dos escravos produziam riquezas para os brancos dolentes. Índios, que remanesciam das doenças que os dizimavam eram também assassinados ou subjugados. As forças oficiais garantiam o ritmo impudente dos grandes senhores que tripudiavam sobre filhos de Deus, açoitando, estuprando mulheres negras, mutilando homens, ao menor sinal de rebeldia.

E foi assim

Começava o debate no parlamento, mais acalorado no século XIX. A exemplo de tantos escravocratas, o celebrado escritor José de Alencar pregava a superioridade da raça branca e denunciava como sedição o crescente movimento de liberdade. Grande canalha! Para as oligarquias organizadas os escravos deveriam agradecer por produzirem as riquezas do país cujas leis os excluíam da condição humana. Joaquim Nabuco, José do Patrocínio (o Tigre da Abolição), Luiz Gama, André Rebouças, Rui Barbosa, Souza Dantas e tantos outros intelectuais sustentaram da tribuna, ou nos jornais a luta pela abolição.

Nas fazendas ou usinas de cana de açúcar ocorriam as fugas das senzalas. Era preciso muita coragem para fugir. O Tigre da abolição rugia perigosamente afrontando os escravocratas. Morreu pobre e abandonado, pagando o preço de uma luta libertária.

Consciência Negra

O sangue derramado pelo herói Zumbi dos Palmares simboliza a mais legítima causa emancipadora de nossa história. O valor de tantos bravos guerreiros fecundou a semente da libertação.


Justo e divino

A escravidão foi a maior e mais longa catástrofe de nossa história. Mas é impressionante como ainda hoje ouvimos vozes reducionistas e covardes tentando explicar as violações infames. A liberdade formal, pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, foi apenas um flerte circunstancial com o justo e divino, após séculos de imoralidade e covardia no estado brasileiro.

Valores
O ator e escritor Lázaro Ramos, no livro Na Minha Pele, trabalha a ideia do empoderamento e afeto. Destaca a importância de pronunciar os pendores, que são muitos, presentes na cultura negra.



O autor Lázaro Ramos fala sobre sua trajetória, racismo, ser um artista de destaque no país e as tensões do lugar que ocupa.



A religiosidade, que sempre acompanhou a humanidade em todos os lugares do planeta, a arte e a cultura formam esteira virtuosa de cooperação. E não nos surpreende a praticidade e objetividade na missão de crescimento humano. Menciona como instrumento de construção coletiva o curso pré-vestibular para a população de baixa renda no Instituto Cultural Beneficente Steve Biko. O nome é homenagem ao herói sul-africano mártir na luta contra o apartheid. É cidadão negro que agarra o próprio destino. 

Esta coluna foi publicada no dia 21/11/2019, no jornal impresso O Nacional.

Celestino Meneghini, um jornalista reconhecido pelo seu talento de comunicar e escrever, também foi entrevistado neste site por outra jornalista, Márcia Machado. Confira a entrevista:

Autoria: Celestino Meneghini, jornalista

Violência contra a mulher

Florbela Espanca, poetisa portuguesa,
disse com muita propriedade: “é pensando
nos homens que eu perdoo aos tigres
as garras que dilaceram”.

De 25  de novembro  a  10  de  dezembro  são 16  dias  de  ativismo  contra  a  violência  sobre  as  mulheres. Período para que façamos uma necessária  reflexão sobre  sua  luta  ao longo da história.

O sistema patriarcal, através de construções ideológicas misóginas e machistas, sedimentou a ideia de inferioridade da mulher em relação ao homem.  Por muito tempo a mulher ficou restringida a uma imagem limitada e distorcida de si mesma. 

Ela foi silenciada; suas aptidões desprezadas, sua capacidade intelectual subestimada; suas ideias, desdenhadas, seus talentos ignorados e desperdiçados.

Ao longo dos tempos do patriarcado, a mulher deveria corresponder, incondicionalmente, às expectativas masculinas e em troca  receber  proteção e sustento. Seus desejos e sonhos foram ignorados. Não eram ouvidas, ou melhor, nem sequer se manifestavam, pois  eram educadas  para o silencio, a resignação e a obediência.

A sociedade brasileira, extremamente conservadora, viu na mulher  ideal  aquela  que  deveria  ser dócil, obediente, fragilizada – bela , recatada e do lar –,para pertencer a um homem.

O nosso patriarcado determinou que as  mulheres  fossem inferiores e, portanto, submissas aos homens  e, estes, superiores, dominadores.

Em pleno século 21, a realidade de crimes sexuais, feminicídios, preconceitos, ameaças e  assédios seguem  fazendo parte do atormentado cotidiano  das mulheres  brasileiras.

Se tudo isto não bastasse  a ministra Mulher, pastora  Damares, promove palestras  contra  o feminismo  e  declara que sua missão  é ensinar meninos  a serem gentis  com as meninas;  os primeiros de  azul, as  últimas de rosa.

Uma das absurdas fixações dos novos cavaleiros da  “moral e  dos  bons costumes” é a tentativa  de disciplina sobre  os corpos  femininos  e  o enquadramento heteronormativo da  sexualidade, no melhor modelo fascista.

Assim, a cultura  da violência  contra a mulher se acentua.  Ela ainda  é vista como mero objeto por boa parte  de nossa sociedade.  E é fácil de encontrar explicações  para tal fenômeno.

A violência pode  ser atribuída  a uma interpretação histórica  tendenciosa  e preconceituosa que a  colocou  na  condição de  mera  servidora  à  sociedade,  ao marido  e aos  filhos.

A violência, portanto, não é casual. Em sociedades estruturadas , como a nossa, sobre a desigualdade e a discriminação contra  as mulheres, as vítimas  são escolhidas precisamente por seu gênero.  É a permissividade social da dominação masculina que conduz  a práticas cotidianas de violência sistemática.

Florbela Espanca, poetisa portuguesa, disse certa vez, com muita propriedade: “É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres  as garras que dilaceram”.



Na cidade onde você mora mais da metade da população é formada por mulheres. Engraçado, todas as representações são homens. A única mulher que aparece é a que serve o cafezinho. E, atrás do cafezinho, e apenas ali, está Ela. Única guerreira no meio de tantos. Parece que as coisas mudaram mas nem tanto nos últimos séculos. (Ingra Costa e Silva, jornalista)

A caixa de Pandora

A Esperança. Hoje também, parece ser o que nos resta.
Talvez a única arma que teremos para lutar contra
o mal desatinado que foge ao controle de todos.

Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher da terra, criada por ordem de Zeus. Ela teve em seu poder um jarro contendo todos os males do mundo.

Conhecido como a Caixa de Pandora, esse recipiente não deveria jamais ser aberto. Pandora, no entanto, não resiste à curiosidade (talvez maldade ou ingenuidade) e abre a caixa. Uma vez aberta, não é mais possível impedir que o horror se espalhe pelo mundo.

A expressão “abrir a caixa de Pandora” costuma ser utilizada para se referir a uma ação que iniciamos, no sentido de pôr em movimento forças destrutivas, e que não somos capazes de interromper.

Ao longo de séculos, talvez milênios, a humanidade tem evoluído no sentido de inibir os seus instintos nocivos e incentivar a cooperação e a convivência em grupo. A civilização só é viável porque conseguimos manter sob controle a nossa tendência para o individualismo e para a aniquilação do outro.

Vivemos pacificamente e trabalhamos juntos de forma produtiva na medida em que somos capazes de conter nossa pulsão destrutiva. De tempos em tempos, algo escapa da caixa. São as guerras, genocídios, tragédias humanas de grandes proporções, e também as violências do nosso dia a dia.

Sem querer ser apocalíptica, observo os fatos dos últimos meses, no Brasil e no exterior, e sinto como se a terrível caixa estivesse novamente se abrindo. Agressões, apologia à violência, a situação dramática dos imigrantes, destruição, ataques motivados pela intolerância, parece que uma terrível energia negativa está entre nós.

E é cada vez mais comum ouvirmos aqueles que ocupam posições de liderança sugerindo que deixemos aflorar nossos instintos mais terríveis, ou relativizando o mal. Eles o libertam sem perceber que não serão capazes de conte-lo. Palavras não são só palavras, expressam pensamentos e motivam ações.

Diz a lenda que Pandora, ao perceber o equívoco de seu ato, consegue fechar a caixa. Porém o mal já havia sido libertado, estava fora de controle. Permaneceu na caixa apenas um de seus conteúdos: a Esperança. Hoje também, parece ser o que nos resta. Talvez a única arma que teremos para lutar contra o mal desatinado que foge ao controle de todos.



Em outra publicação no site, já afirmamos: “Não basta seguirmos em frente cumprindo nossas tarefas. Sim, precisamos nos envolver. Precisamos denunciar a corrupção, enfrentar a violência, combater a intolerância, cuidar de todas as crianças, restaurar os prédios, recolher o lixo”.

Onda de indignação: greve tem novas adesões e chega a mais de 1500 escolas

A onda de indignação dos educadores(as) não para de crescer.

Em todo o estado, já são 1556 escolas envolvidas na greve da educação. Destas, 788 seguem totalmente paradas. A apuração foi atualizada junto aos 42 núcleos do CPERS nesta quarta-feira (27).

A contagem representa um novo crescimento em relação à última contabilidade, que apontava 1544 instituições afetadas na segunda.

A greve extrapolou os muros das escolas e tomou as ruas do estado, com amplo apoio social e institucional.

Ao corte de ponto dos grevistas e ao continuado desrespeito com a categoria, educadores(as) responderam um com uma das maiores Assembleias das últimas décadas e cerraram fileiras no movimento paredista.

O CPERS ingressou com mandado de segurança na última segunda para sustar os efeitos da medida e o TJ deve julgar o pedido liminar até esta quinta (28).

Com a mobilização histórica da categoria e da sociedade gaúcha, o castelo do governador começou a ruir.

Nesta quarta (27), a maior bancada da base governista (MDB) divulgou nota conjunta posicionando-se contrariamente à proposta que prevê alterações na carreira.

A Famurs, entidade que congrega prefeitos e gestores de todos os 497 municípios gaúchos, enviou uma moção de apoio aos educadores(as). Outro acontecimento inédito. Nas Câmaras de Vereadores, representantes de mais de 250 cidades já aprovaram moções semelhantes.

O movimento conquista a sociedade, com adesão crescente de comerciantes, que afixam cartazes de apoio junto às vitrines. A economia local sente o peso do arrocho sobre os professores(as) e funcionários(as) de escola.

Atos de rua se espalham pelo Rio Grande do Sul. É impossível acompanhar a densidade e a quantidade do que está ocorrendo.

Eduardo Leite está acuado e já fala em “atenuar” as medidas. Mas não há remendo para o que não tem conserto.

O Comando de Greve ratifica que qualquer perspectiva de negociação com Eduardo Leite depende da retirada dos projetos da pauta da Assembleia Legislativa.

Nenhum diálogo é possível sem, antes, tratar das reivindicações urgentes da categoria: salário em dia, reajuste já e nenhum direito a menos. A educação merece respeito.



Nesta última quinta-feira, (28) houveram caminhadas luminosas em muitas cidades do RS, com o objetivo de dialogar com as comunidades e pedir apoio delas para as demandas do magistério que incluem o fim do parcelamento dos salários, o reconhecimento da dignidade da profissão e a retirada do pacote de reestruturação da Carreira do Magistério que precariza ainda mais a vida dos professores e professoras.

Caminhada luminosa em Passo Fundo, RS.
Caminhadas luminosas inspiraram a luta e a greve dos professores estaduais. Quem luta, também educa! Greves ensinam a todo mundo.

Docentes e decentes!

Fica bem mais complicado
Quando aquilo que é sagrado
Precisa agora ser exigido, mendigado.

O respeito ao professor
A dignidade do seu trabalho
A valorização de sua função social.

Quem enfrenta o magistério
Com cacetetes e força brutal
Já esqueceu a humanização.

Só os conhecimentos, da vida e da escola
Podem nos humanizar
Nos tornar seres humanos melhores.

O que nos torna brutos e estúpidos
Insensíveis e covardes
É a ausência de educação.

A ignorância gera a violência,
Gera a estupidez
Que só o conhecimento e convivência conseguem superar.

Como diz bela música
“Só o amor muda o que já se fez
E a força da paz junta todos outra vez”.

Avante, educadores de fé,
Unidos pela educação.
Somos docentes e decentes, leais aos propósitos mais nobres da educação.

(Nei Alberto Pies, professor e escritor).

Fonte: Cpers

Professor, último bastião de defesa da escola pública!

Nossas escolas públicas
têm em seus professores,
o último bastião em sua defesa.


O final do ano de 2019 nos surpreendeu com uma das maiores greves dos professores estaduais do Rio Grande do Sul. Acuados após inúmeros ataques de diferentes siglas partidárias, ao longo dos últimos anos, nossos docentes, da escola pública estadual, levantaram-se de forma corajosa, contra este, que pode ser o golpe de misericórdia em sua carreira.


De forma geral, a comunidade saiu em defesa de seus professores, reconhecendo a legitimidade da sua luta, exemplo disto foram as inúmeras manifestações de estudantes que viralizaram nas redes sociais. Porém, como sempre, não faltaram aqueles, que quer por ignorância ou mau-caratismo, atacaram nossos professores sob a falsa alegação de que os mesmos não estavam preocupados com os estudantes, queriam apenas “antecipar suas férias”. A estes, tenho uma informação: nossos docentes não lutam apenas pelos seus diretos, mas também pela manutenção da escola pública em seus princípios originários: gratuita, laica, inclusiva e de qualidade!


Temos certeza que o espaço teórico é importantíssimo, porém pode se tornar, por vezes, um pouco vago, sobretudo quando fica em desconexo com a realidade. Nesse sentido, podemos ilustrar a problemática do parágrafo anterior com duas situações vividas no primeiro semestre na cidade de Passo Fundo. Na ocasião, às escolas EEEM Professora Lucille Fragoso de Albuquerque e EEEM Mário Quintana, ficaram por quase três meses sem aula.

Cerca de mil alunos correram o risco de perder seu ano letivo por negligencia da Secretaria Estadual de Educação, pois o motivo para a paralização foi o descaso do estado com a manutenção da rede elétrica destas escolas, que acabaram entraram em colapso, colocando em risco inclusive, a integridade física de estudantes, professores e funcionários.


Aqueles que hoje acusam levianamente nossos professores de estarem sendo movidos por sentimentos nada altruístas na greve, nada fizeram para defender aquelas comunidades escolares quando aqueles alunos perderam quase um trimestre. Já por sua vez, às equipes diretivas e o corpo docente se mobilizaram para denunciá-la, cobrando que os problemas fossem resolvidos o quanto antes: foram a imprensa; fizeram atos e abaixo-assinados; contataram autoridades públicas (MP, vereadores, coordenadores da CREA…).


Talvez não seja do conhecimento daqueles que não vivenciam diariamente a rotina das nossas escolas públicas, mas o funcionamento de muitas delas não seria possível sem a ação direta de seus professores. E aqui, não estou me referindo a pratica pedagógica, também indispensável, mas sim aos esforços extras.

Acredito que ninguém seja ingênuo de acreditar que as parcas verbas repassadas pelos governos, para a manutenção de nossos educandários, sejam suficientes. Não por acaso, temos inúmeras ações nas escolas, promovidas por seus docentes, afim de capitalizá-las minimamente: festas, rifas, almoços… são alguns exemplos. Isso quando o professor não retira dinheiro do seu próprio bolso, para comprar folhas de oficio ou pagar por cópias.


Volto a repetir, nossas escolas públicas têm em seus professores, o último bastião em sua defesa. E nós, enquanto sociedade, temos o dever de apoiá-los nessa empreitada, quer seja pelo mérito em suas reivindicações ou pelo fato de serem os últimos defensores da utopia de ensino público que almejamos: GRATUITO, LAICO, INCLUSIVO E DE QUALIDADE!

Greve dos/as professores/as

Greve é um direito que ajuda
a proteger  outros direitos.

Não existe direito mais complexo  na história  recente  brasileira do que o direito de  greve. O tema sempre suscitou debates apaixonados, questionamentos e  indignação.

Quando, por exemplo, uma categoria como a dos professores decreta  greve, as  opiniões se dividem. O fato é que se trata de um direito incômodo, mas essencial para a defesa dos trabalhadores.

É um direito que ajuda  a proteger  outros direitos. Negar o direito que uma categoria tem de paralisar duas   atividades é negar  os princípios de um Estado de Direito e da própria  República.

Os professores estaduais gaúchos são pressionados  pela política de arrocho, pelos  parcelamentos salariais, pela impossibilidade de cumprir  seus compromissos  financeiros.

Mais. Verdadeiras milícias medievais os acusam de “subversivos, doutrinadores” e, assim, alimentam a agressividade  de pais e alunos  influenciados  pelos defensores da anacrônica  Escola Sem Partido.

Vilipendiados em tal dimensão, vivem em um ambiente  de  total desalento. São muitos os que perdem o ânimo de enfrentar qualquer nova  exigência profissional e, não raramente, acabam doentes.

Se não bastasse toda esta carga de problemas e desilusões profissionais, agora  o governo acena  com  a perda  de benefícios e alterações  no plano de  carreira. Conquistas duramente obtidas ao longo de anos de muita luta e de muitas greves. Pequenas vantagens para melhorar a carreira  de  remuneração já tão  baixa parecem condenadas a desaparecer.

Estas são algumas das “Novas  Façanhas”, slogan escolhido pelo governador  Eduardo Leite  como marca  que apresenta  a síntese do que pretende  ser  a linha política  e administrativa de seu governo.

Como Bolsonaro, Leite avança  contra o funcionalismo público  com base em preconceitos.  Não é de hoje que o governo  ameaça  os servidores, pintados  como inimigos  da nação pela  versão de  Jair  Bolsonaro  e de  Paulo  Guedes, cujo plano de governo é tão somente  desmontar  o patrimônio público  e entregá-lo  sem resistência  à iniciativa privada, como se ela fosse exemplo  de  eficiência  e integridade.

Aqui no RS, o bode expiatório é o magistério público.  Entra governo e sai governo, o que os professores mais ouvem é que, por se  tratar  da categoria  mais numerosa, seus  reajustes  têm impacto maior nas contas   públicas.

Reclamar o que é de direito e o que  é devido parece, para alguns, um ato de ilegalidade.  Curiosamente, a conta de todos os problemas é passada para  os professores e  outros  setores  do funcionalismo que estão longe  de ter  quaisquer privilégios.

Eis as “novas façanhas”, isto é, a precarização da Educação Básica do Estado., além, de manter e  agravar  a perversidade  do parcelamento salarial.

Minha solidariedade aos colegas  professores  grevistas!!

Apoio greve dos professores do RS

Professor não é vocacionado, assistencialista ou prestador de serviço gratuito. Professor não quer ficar rico, famoso, ou ter jatinho financiado pelo Estado ou às custas da exploração do trabalho alheio.

Nenhum cidadão brasileiro, independente da profissão que exerce, merece sofrer a injustiça e a desvalorização social, ter os rendimentos reduzidos injustamente e a dignidade humana ofendida.

Professor não é vocacionado, assistencialista ou prestador de serviço gratuito. Professor não quer ficar rico, famoso, ou ter jatinho financiado pelo Estado ou às custas da exploração do trabalho alheio. Se quer, está na profissão errada. Mas, ao professor é devido uma remuneração proporcional à formação e ao esforço exigido da profissão.

Se a educação formal ainda não tem a qualidade que desejamos, não é culpa dos professores, a culpa é da desvalorização dos professores, da instrumentalização do saber, do uso da educação para manutenção única e exclusivamente do desenvolvimento econômico sem a menor preocupação com o desenvolvimento humano.

Se há professores ruins, relapsos, assim como ocorre em qualquer profissão, as providências devem ser tomadas. É raso e falacioso os argumentos que generalizam a profissão docente.

Ser professor, não significa exercer a profissão mais digna do mundo, nenhuma delas merece essa denominação, até porque, e maioria das profissões formais exercidas no Brasil só o são por meio de uma formação que exige a presença do professor.

Professor não é “coitadinho”, não é “herói”, não precisa que se curvem diante dele e muito menos é um desocupado. Professor é um trabalhador intelectual e isso exige muito tempo de preparação continuada, dedicação, custos com livros, cursos, pesquisas, elaboração de atividades, conhecimentos inter, multi e transdisciplinares.

Ser professor, como toda profissão, exige apenas ser respeitado e digno. Na educação básica, principalmente, a presença do professor é condição sem a qual nem mesmo aqueles que criticam os professores o poderiam fazer sem ter tido um professor.

É porque todo mundo que ter razão sobre educação que temos uma educação tão rasa.

Acorda Brasil!

Aquele ser humano que critica os professores e os ofende, sugiro que seja coerente e solicite seu salário parcelado, redução do próprio salário para ajudar o Brasil a sair da crise, e, se exerce profissão regulada por lei, que aceite trabalhar muito abaixo do valor do piso salarial da sua profissão.


Professor, mesmo que queira, não tem condições de doutrinar ninguém. Prova disso é que, se os professores doutrinassem, ao menos não se teria tanta ignorância e argumentos falsos dominando o coletivo comum.

O salário recebido pelos professores no Brasil, é um dos mais pífios do mundo. O pobre, que ganha em média R$ 1.200 reais por mês, acha que é pobre porque tem o outro pobre que ganha entre R$ 1.300 a R$ 5.000 por mês ou um pouco mais. E assim, nós, os pobres, e principalmente os pobres que acham que são classe média ou pequenos burgueses, nos matamos entre nós enquanto enriquecemos os verdadeiros ricos que nos oprimem.

Eu apoio a greve dos professores porque se o Brasil pára e se mobiliza em favor da política do circo também precisa aprender a parar e pensar quem, nesse circo, é a verdadeira piada.

Se você não apoia os professores, rasque seu diploma, tire seu filho da escola, não faça uso de nenhum conhecimento produzido e acessados historicamente pela humanidade, volte para a caverna porque deu tudo errado e você tem culpa nisso também.

Professores, lutemos! Coragem! Em frente e enfrentem!

Por que “matam os professores, aos poucos”?

Douglas Pereto, professor da rede estadual do RS, tem uma linguagem direta e coloquial. Em suas manifestações e publicações, sempre surpreendentes, traz à realidade à tona com seu jeito peculiar.



Pereto é autor do artigo “Matam os professores, aos poucos”, publicado no site no mês de março de 2019.

Com suas provocações, trouxe à luz dos leitores a dramaticidade e a situação delicada em que vive o magistério público estadual.

Nesta entrevista, queremos conhecer o autor, aprofundar seus conhecimentos sobre educação e promover um aprofundamento reflexivo das questões abordadas em seu artigo já referido, que suscitou muitos debates, questionamentos, acessos e compartilhamentos.

NEI ALBERTO PIES: Como surgiu a inspiração e a motivação para escrever o título: “Matam os professores, aos poucos”?

PERETO: Busquei inspiração nos poemas de Mario Quintana, “Rua dos Cataventos” e Affonso Romano de Sant”Anna, “A primeira vez que entendi”. No texto, segui com Ésquilo e seu “Prometeu”, para evidenciar a dilapidação da carreira do magistério.

NEI ALBERTO PIES: A que atribuir o sucesso e a aceitação do seu artigo por tanta gente?

PERETO: Acho que por abordar tema entalado na garganta de tantos profissionais da área. E também por tratá-lo de forma direta, mesclando linguagem formal e coloquial, usando emojis e até linguagem vulgar (no texto original tem um palavrão). O texto não deseja ser uma visão individual, mas uma voz daqueles que não aguentam mais serem colocados em caixas do pensamento.

NEI ALBERTO PIES: O que mais realiza na profissão, como professor de Literatura?

PERETO: É ver o estudante relacionando o texto trabalhado em sala com suas vivências, emoções, com a sociedade, com músicas, séries etc. Literatura que fica vomitando características e gramaticalidades não me serve.

NEI ALBERTO PIES: No seu entendimento, que elementos são importantes para entender a conjuntura difícil dos professores estaduais do RS?

PERETO: Nossa situação é como um desastre, para o qual concorrem diversas falhas: governos incompetentes e covardes, descontinuidade de linhas pedagógicas, disputas internas e trampolins políticos. Enquanto uns governos contribuíram para o arrocho financeiro e estrutural, outros abriram as torneiras como se não houvesse amanhã.

Nosso plano de carreira está defasado e, em nome de sua atualização, não nos oferecem contrapartidas válidas.

Hoje, olhamos desconfiados para qualquer um que diga ser nosso defensor, até porque o acirramento político nacional tem nos rotulado pejorativamente.

NEI ALBERTO PIES: Atuaste, como professor, na escola particular. És também professor de Cursinho de preparação ao Vestibular. Qual é a principal diferença entre a escola particular e a escola pública?

Temos diferenças nas estruturas físicas e pedagógicas oferecidas, na sequência didática, na bagagem cultural trazida pelos estudantes, na disponibilidade dos pais em comparecerem às atividades e obrigações escolares, na questão salarial, dissídios e vantagens.

Também é importante destacar não haver, na rede privada, estabilidade no cargo, o que colocaria muita gente do serviço público no olho da rua por corpo mole ou pura incompetência.

Mas não posso deixar de salientar que os sindicatos já realizaram campanha pela saúde do professor, visto a pressão que sofrem por resultados ou por terem que se virar com as parcas condições ofertadas. E a cobrança, as perdas salariais, o desrespeito, em todos esses espaços, só tendem a piorar nosso cotidiano. É comum ouvirmos “Faça mais com menos”.

NEI ALBERTO PIES: Destacas a polarização política, atualmente vigente no país, como um dos fatores que colaboraram para nossa desvalorização profissional. Como e porque a polarização é nociva aos professores atualmente?

PERETO: Ser professor é apresentar diversos pontos de vista, possibilidades de análise, mas qualquer tema tem sido reduzido a um embate Esquerda X Direita, Nós X Eles. A sociedade, motivada pelo comportamento nas redes sociais, empurra a todos para a Bacia da Almas: céu ou inferno, sem escalas. Ver algo de bom naquele grupo diverso do seu é encarado como traição. A polarização nos oferece um prato feito, um combo, um pacote fechado, impossibilitando diálogos e avanços.

NEI ALBERTO PIES: Se o pacote de reestruturação da carreira do magistério for aprovado pela Assembleia Legislativa do RS, como ficará a situação dos professores?

PERETO: Se aprovado na íntegra, vai sepultar a carreira e possíveis avanços, oficializando perdas. O Governo não garante contrapartidas, não enfrenta os grandes devedores, não tem coragem de apertar os cintos de quem ganha mais. Medidas como a PEC do congelamento de gastos, Reforma da Previdência, Lei de Responsabilidade Fiscal e repasse do duodécimo ao Judiciário e Legislativo, nos marginalizam, mantendo as castas bem separadas. Não temos lobby nos corredores da política, não somos influentes.

NEI ALBERTO PIES: Na sua visão, porque os professores da rede estadual e municipal defendem tanto a escola pública, de qualidade social e inserida em suas comunidades?

PERETO: Porque escola pública é a mais democrática, a que acolhe a todos. A escola pública cumpre o papel de acolhimento não apenas educacional, como psicológico, de saúde, chegando a envolver-se com as mazelas da fome, da pobreza. O professor da rede pública é um multiprofissional.

NEI ALBERTO PIES: Por que os pais dos nossos estudantes participam tão pouco das atividades escolares e comprometem-se cada vez menos com os desafios da educação de seus filhos?

PERETO: São gerações e mais gerações de estudantes passando por nós, em ambientes cada vez mais negligenciados, fruto de governos que nada ou pouco contribuíram para a diminuição da desigualdade social, do desemprego, da violência. Tudo isso desemboca na escola. Os filhos daqueles estudantes chegam agora até nós, recebendo a herança de que estudar é chato, desnecessário, servindo, muitas vezes, como ocupação enquanto os pais trabalham ou garantia de um atestado de frequência para conseguir um emprego, quando se trata de estudante do Ensino Médio.

Os pais da escola pública, modo geral, são empregados e não tem a mesma disponibilidade do pai patrão, profissional liberal, para ir ao colégio. São pessoas que saem cedo e voltam tarde.

 Mas para entender isso é preciso sair da aldeia, da visão de quem lê esse texto nas pequenas cidades. Quem mora numa região metropolitana já sente melhor os efeitos dessa estafa em seu cotidiano. Há um terceiro turno doméstico a cumprir, no qual muitas vezes se negligencia o acompanhamento da s tarefas escolares dos filhos. Muitas vezes, quando o filho chega as séries finais do Ensino Fundamental, os pais já dizem com alívio: “Agora ele se vira sozinho, já é responsável”. Quando chega ao Ensino Médio então, os pais são quase alienígenas ao ambiente escolar.

NEI ALBERTO PIES: Qual é, na sua visão, a importância do patrono da educação Paulo Freire e de outros grandes pensadores como Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira para a concepção do ensino brasileiro?

PERETO: Cada um, em seus estudos, conseguiu trazer o excluído para o centro do processo educacional. Montar um projeto, a partir da realidade onde se atua, compreendendo-a, expandindo seus horizontes e aplicando em sociedade, torna-se a chave para um mundo onde a intelectualidade sirva à tolerância, ao respeito, ao crescimento social de forma humana.

NEI ALBERTO PIES: Por que alguns grupos querem controlar os professores, alegando que os mesmos são “doutrinadores”? Qual é a importância da liberdade de cátedra?

PERETO: A liberdade de expressão, a liberdade de cátedra, o estímulo ao debate, pressupõe responsabilidade sobre suas falas e atitudes. Há leis suficientes para coibir abusos. Mas projetos como o Escola Sem Partido são um exemplo claro de grupos políticos retrógrados, tentando silenciar a sociedade, para que ela, anestesiada e desconhecedora da história, não questione os que estão no poder.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase sobre educação.

PERETO: Semear educação é colher segurança, emprego, renda e, por consequência, uma sociedade menos desigual e mais tolerante.

NEI ALBERTO PIES: Uma motivação aos adolescentes e jovens, que são a alegria e a possibilidade de realização dos professores.

PERETO: Não perca tempo com arrogância, respeite quem te apresenta o futuro, seja parceiro do professor. Todos saem ganhando.

NEI ALBERTO PIES: Uma breve poesia, que nos inspire a viver e deixar viver.


“A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais
(…)
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais”

Alucinação – Bechior

Professor: não adianta olhar para o céu!

“Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem
muito protesto pra fazer
e muita greve, você pode
e você deve, pode crer (…).”



“Eu não sou uma pessoa de fé e não costumo esperar que as coisas aconteçam por obra do acaso, ou de boas intenções alheias. Gostaria de poder escolher a passividade e esperar o desfecho de mais um enredo do qual sou personagem, mas não consigo.

Não posso me conformar com a segurança da minha rotina medíocre enquanto tudo em que acredito está sendo contestado: a dignidade, a democracia, a verdade, a justiça. Seria contraditório ensinar seres humanos para que tenham uma vida melhor por meio da educação e me acovardar diante da luta pela manutenção dos direitos que aqueles que lutaram antes de mim conquistaram.

Respeito os colegas que concordam com a opinião do comentarista Túlio Milman, que agora não é hora de fazer uma greve, pois prejudicaria o ano letivo e colocaria a sociedade contra nossa causa.

Contudo, questiono os professores: em que momento tivemos o apoio dos pais? Quais os predicativos usados para nos caracterizar quando dispensamos os alunos e vamos às ruas demonstrar nossa insatisfação e pedir socorro?

Sentirei na pele o que é comprometer o ano letivo, pois meu filho está concluindo o Ensino Médio. Por ser professora de escola pública e por valorizar meu trabalho, meu filho sempre frequentou a escola pública e sabe bem o que é ser prejudicado por projetos governamentais implantados e revogados conforme a ideologia mandante, pela desigualdade de condições em comparação à rede privada, em que a educação custa caro porque é considerada investimento, não gasto.

Portanto, atrasar a formatura do meu filho não é nada, principalmente porque sequer terei dinheiro para pagar sua matrícula numa faculdade. Grande ironia né: dedico minha vida a preparar adolescentes para, inclusive, ingressar no Ensino Superior, e talvez não possa garantir isso ao meu filho.

Motivos todos temos para aderir ou não a esta greve, e a ninguém cabe questioná-los. Eu estarei em greve porque não posso perder tudo que está em jogo no pacote anunciado pelo governador (no qual eu não votei).

Estarei em greve porque não estou mais conseguindo pagar minhas contas (comida, aluguel, luz, água e telefone), o que dirá fazer as comprinhas e tomar a cervejinha com as amigas. Viajar nas férias? Só se for na maionese.

Não adianta fazer greve? Provavelmente não, exatamente porque cada um tem seus motivos.”



“E hoje chega mais uma paulada no RS: o fim da licença-prêmio, que eram três meses de afastamento remunerado a cada cinco anos, caso você não tenha faltas ao trabalho. E dava para vender e conseguir uns trocos. Agora querem que seja licença-capacitação. “Mas só no serviço público tem isso!”, alguém dirá. Pois bem, no dito serviço público não tem FGTS, não tem dissídio. (Dougas Pereto)

Movimento de Jovens Católicos ONDA

Um dos desafios de todas as religiões e denominações religiosas é envolver os adolescentes e jovens em vivências dinâmicas que alimentem sua fé e os vinculem às práticas religiosas, valorizando os valores que importam.


A Igreja Católica, a exemplo das outras igrejas, desenvolve um movimento específico para jovens de 10 a 13 anos, logo após a realização da Primeira Eucaristia. Chama-se ONDA, fundado justamente para ocupar um vácuo existente entre a Primeira Eucaristia e a Confirmação da fé (o Crisma).

O movimento foi criado pelo Pe. Jose Miguel da paróquia Nossa Senhora de Fátima, de Porto Alegre- RS, que colocou o MENINO JESUS DE PRAGA como o padroeiro porque se identifica em todos os aspectos com essas crianças (adolescentes).

O ONDA tem como objetivo congregar jovens adolescentes que tenham feito a Eucaristia, dando-lhes condições de superarem seus problemas de instabilidade emocional e psíquica, através da vivência em comunidade.

Conversamos, exclusivamente, para esta matéria do site, com o casal Âncora da Arquidiocese de Passo Fundo, Adriano e Luce Segat que irão contar como funciona o ONDA, qual é a metodologia do movimento e o que se pretende com este trabalho específico com as crianças/adolescentes.

NEI ALBERTO PIES: Quais motivações de vocês, como casal, para integrar o Movimento de Jovens Católicos ONDA?

Temos 2 filhos, Eduarda e Bernardo, na época ela tinha 11 anos e ele 3 anos, quando fomos convidados para sermos Tios do Onda juntamente com nossa filha como surfista. Consideramos uma oportunidade única de caminhar ao lado de nossa filha. Viemos de famílias católicas atuantes, atualmente fizemos parte do movimento de casais (ECC) da paroquia Santa Teresinha, onde prezamos muito pela unidade família. Acreditamos que pais devem ser exemplos para seus filhos e, em muitas vezes, não só mostrar o caminho e, sim, caminhar junto. Esta foi a nossa motivação inicial.

NEI ALBERTO PIES: Como os jovens são “recrutados” nas suas paróquias para participar do Movimento?

Para participar do movimento, o surfista pode ser indicado por marujos, tios atuantes, serem catequizandos da paróquia. Ou, simplesmente, demonstrarem interesse em participar do movimento.

NEI ALBERTO PIES: Em tempos em que vivemos uma fé menos apegada às religiões, num momento em que mais se valoriza a espiritualidade, em que os jovens desejam conhecer e experimentar diferentes religiões, qual éo jeito que o Movimento utiliza para chamar os jovens para a vivência dos valores cristãos católicos?

 Muitas vezes, os jovens vêm por vontade própria, motivados por amigos que pertencem ao movimento Às vezes, vem com a pressão que os pais querem que participem do movimento. Este é um dos motivos que muitas vezes não conseguimos total de adesão após o retiro. O adolescente tem que participar por vontade própria e não obrigado. O movimento é monitorado por tios(adultos), mas é organizado, comandado num todo pelos próprios jovens. Ou seja, os próprios jovens (que possuem uma caminhada dentro do movimento) no comando o retiro. São jovens transmitindo na sua linguagem através de prosas, testemunhos de vida, explicando a importância de ter fé, de amar a sua família, de amar o Amigão. É emocionante ver jovens dizendo a importância de dizer “eu amo você”.

NEI ALBERTO PIES: Qual é o conceito de família adotado no ONDA?

Devido a nova formação das famílias, em que o próprio Papa Francisco considera FAMILIA- UM CENTRO DE AMOR, para nós não importa como é a formação da família de nossos jovens marujos e, sim, o desejo de conviver na fé e seguir os princípios ensinados pelo Amigão.

Qual é a importância das famílias na vivência da fé das crianças/adolescentes?

A importância que é dada pela família na vivência da fé perante o jovem é extremamente importante no nosso olhar do movimento e está ligado diretamente com a sua influência na construção de uma identidade cristã do jovem.

O exemplo da família desta vivência, contribui ou interfere na formação dessa identidade cristã. Por exemplo, notamos que as famílias que acompanham os jovens nas missas, nos eventos do ONDA (dia do lazer, arrecadação de alimentos…) são dos jovens que persistem, se destacam no movimento e que quando saem do ONDA levam para vida os ensinamentos que lá aprenderam. É motivo de realização para a gente quando um adulto reconhece a influência positiva do Onda numa fase de sua vida de incertezas, que é a adolescência e, com amor, lembra do movimento.

NEI ALBERTO PIES: Uma criança/adolescente não católica pode participar do ONDA?

Infelizmente, não! Como o retiro é realizado em cima dos ensinamentos do Amigão, uma exigência é que o jovem esteja se preparando para receber o sacramento da eucaristia ou já tenha feito. Mas dentro do movimento ensinamos o respeito que devemos ter pelas outras religiões, dando ênfase que o DEUS é o mesmo.

NEI ALBERTO PIES: Jesus é o grande mestre no Cristianismo. Que valores da vivência, da prática e da pregação de Jesus são ensinados no Movimento?

Muitas das referências que lemos na bíblia mostram Jesus ensinando de maneiras diferentes, mas com frequência, Jesus ensinava sua doutrina através de parábolas, histórias breves que encerravam com ensinamentos. A parábola sobre o Filho Pródigo, por exemplo, fala da grande alegria de um pai, quando vê retornar à casa um filho que saíra a correr mundo. Jesus usou esta parábola para mostrar o amor e o perdão de Deus aos pecadores que se arrependem.

Assim, seguimos no movimento através de prosas dadas pelo jovens, que o Amigão combatia o pecado, a hipocrisia, a crueldade para com os fracos e oprimidos. Sentava à mesa com diversas pessoas de várias classes sociais e, por isso, foi muito criticado pelos Fariseus, classe política daqueles que, na época, eram considerados os Doutores da Lei. Mas Jesus estava sempre disposto a ensinar a prática do amor, mesmo antes que as pessoas se mostrassem arrependidas. De uma linguagem simples, tentamos passar que para o Amigão o poder de Deus era maior que o pecado e Ele ensinava que o arrependimento e a fé podiam salvar os homens.

NEI ALBERTO PIES: Por que a vivência comunitária é tão importante nesta fase da vida das crianças/adolescentes?

Damos grande importância da vivência comunitária de nossos marujos. Nos encontros que os movimentos paroquiais fazem a cada 15 dias no mês, motivamos “a retomada” de valores para formação moral dos jovens”. Diante da sociedade atual, faz-se necessário que o jovem conheça, veja os problemas que estão ao seu redor (visitas a asilos, creche, comunidades carentes…) Enxergamos a vivência comunitária do “ONDA” como uma maneira preventiva, na educação de valores éticos e morais, diante de situações conflitantes, que exijam dele futuramente princípios e valores que pregamos no movimento que norteiem suas decisões na família, na escola, no meio social.

Temos um ditado no movimento que diz: Marujo do ONDA é exemplo, dentro e fora dele.

NEI ALBERTO PIES: Quais os maiores desafios deste Casal Âncora de coordenar este movimento na Arquidiocese de Passo Fundo, abrangendo 11 paróquias, algumas inclusive em cidades da região?

As experiências vividas no ONDA neste 10 anos foram muitas. E, com certeza, influenciaram muito na nossa relação familiar, profissional. O motivo principal que nos levou a aceitar o convite há dois anos atrás de sermos Tios Arquidiocesanos. A palavra que define a nossa relação com este movimento é GRATIDÃO. Por isso, quando os desafios são grandes e exigem muito de nós (tempo, trabalho, viagens), olhamos para atrás e fizemos um balanço do nosso amadurecimento como cidadãos do bem. O ONDA é uma segunda família que temos.

NEI ALBERTO PIES: Na vossa visão, porque uma criança/adolescente deve ou pode participar do ONDA?

As palavras do Padre Selau, Missionário da Sagrada Família – Fundador do ONDA da Arquidiocese de Passo Fundo-1993, nos dão o norte de nossa visão: “inspirados na passagem do MENINO (Mt 18,1-14) que toda a pessoa, desde a tenra idade, deve viver com o espirito de alegria e com simplicidade. Foi para isso que Deus nos criou, para que vivamos o espirito de paraíso e tenhamos felicidade”

O que desejamos é que estes jovens e adolescentes não desperdicem a oportunidade de participarem do movimento, a oportunidade fundamentada na esperança e na revelação dos valores positivos, de compreenderem a importância de sua vida e a influência positiva que se possa levar para dentro de uma sociedade, sem deixar-se influenciar mal por ela. No final, é que estes adolescentes sejam pessoas felizes.

NEI ALBERTO PIES: Quais são os resultados nestes 26 anos de trabalho do ONDA na Arquidiocese de Passo Fundo?

Este movimento chegou a Passo Fundo através do Pe Selau, MSF, e um casal de tios Fernando (in memoria) e Fatima da Paróquia Sta Teresinha, que foram participar do retiro em POA e, em 1993, realizaram Iº Retiro na época da Diocese de Passo Fundo, envolvendo 3 paroquias :Santa Teresinha, São Cristóvão e Nossa Senhora das Graças de Carazinho.

Durante estes 26 anos já passaram no nosso movimento aproximadamente 4500 jovens, 180 casais de tios envolvendo 21 paroquias de Passo Fundo e região. Atualmente, estamos na edição do 86°Retiro do ONDA da Arquidiocese, com o envolvimento de 11 paroquias. Infelizmente, outras 10 paroquias não possuem mais o Movimento ONDA, tendo como principais motivos das desistências a falta de incentivo e de apoio de párocos e tios que comandem o movimento.

NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem aos pais e mães de crianças/adolescentes que estão lendo esta matéria.

O ONDA é um movimento próprio e especifico, para jovens e adolescentes que tem a sua iniciação entre os 10 a 13 anos. Tem como objetivo congregar em torno da Igreja os adolescentes que fazem a 1ª comunhão e dar-lhes condição de superar os seus problemas de instabilidade emocional e psíquica, através da vivência em comunidade, valorizando o ambiente familiar.

Temos a compreensão que, muitas vezes, a unidade da família acontece com mais eficiência partindo de baixo para cima, ou seja dos filhos para os pais. Muitas vezes, quando os pais retomam a sua fé, às vezes é tarde para a educação da fé, pois seus filhos já estão grandes demais e viveram sem o exemplo dos pais.

Quando pré-adolescentes e adolescentes fazem e participam do Onda e envolvem a participação dos pais, estes, na maioria dos casos, cedendo à fé que seus filhos descobriram e que eles mesmos não vivem praticamente. Temos muitos casos de pais de marujos que hoje são SUPER Tios atuantes, porque seus filhos os trouxeram para o movimento.

Por isso, queridos pais que estejam lendo esta matéria, se possuem filhos na idade exigida, procurem o nosso movimento em suas paróquias para participarem de nosso retiro.

Não prometemos mudar a vida de seu(s) filhos radicalmente na caminhada da fé, pois este não é nosso papel, mas prometemos que no retiro iremos atingir suas emoções, fortalecendo-os na fé, na perseverança e no seu apostolado junto a vocês famílias e na comunidade. Não deixem esta oportunidade passar de seu filho participar do ONDA. Se tiverem idade superior, de outro movimento da Igreja.

NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem às crianças/adolescentes/jovens que estão lendo esta matéria.

Se alguém um dia te convidar para fazer parte da família ONDA, diga “SIM”, pois através desta pessoa Jesus te chamou, não perca o barco. Lembre-se que estaremos todos juntos, no mesmo barco. Nada acontece por acaso, se você aceitar é porque o Amigão quis que você fizesse parte do ONDA.

Você vai aproveitar, aprender e até ensinar…Você vai surfar e navegar nas ondas do mar que é a nossa vida, em uma comunidade de amor, paz, amizade, harmonia, compreensão. No Onda, o que o Amigão quer é que sejamos todos felizes.

Não importa a tempestade, pois quando você está com o Amigão há sempre um arco íris te esperando. E, se você entregar o leme deste barco para ELE, com certeza você nunca estará sozinho e será muito feliz. Isto que ensinamos no Onda.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância dos “Tios” do ONDA e como pode se tornar um?

O trabalho dos casais de tios dentro do ONDA são totalmente voluntários. Muitas vezes, os tios pagam para trabalhar nos retiros do ONDA. Mas a realização de ajudarem o próximo é o melhor retorno. A grande maioria dos casais de tios (90%) são pais de marujos atuantes ou de marujos que já saíram do movimento. Que é o nosso caso, nossa filha saiu do Onda no retiro nº 80 e onde nosso filho Bernardo entrou.

Os tios são a alma do movimento. A importância do trabalho deles é muito grande. O movimento precisa de mais tios. Casais que se interessarem entrem em contato com as paroquias que tem o movimento. O Amigão agradece.

NEI ALBERTO PIES: Quais as paróquias que fazem parte do Movimento Onda da Arquidiocese de Passo Fundo? E se algum leitor se interessar em entrar em contato com responsáveis pelo movimento quem deverá procurar?

Nosso Diretor Espiritual é o Padre Geral Collet, nós Tios Adriano e Luce somos Tios arquidiocesanos. Se alguma paroquia desejar ter o movimento poderá entrar em contato conosco. Se o interessado já tiver o movimento em sua paroquia, deverá procurar os tios âncoras paroquiais.



Paróquias Passo Fundo

Santa Teresinha: Tios Roberto e Carla. São Cristóvão: Tios Vanderlei e Silvia. Santo Antônio:Tios Vladimir e Anamery. Nossa Senhora de Fatima:Tios Luciano e Marisa. São José Operário:Tios Renato e Tânia. São Judas Tadeu:Tios Ildo e Renate.

Paroquias da Região

Santo Antônio de CAMARGO:Tios Arildo e Marinês. São José de ERNESTINA: Tios Darci e Marli. Nossa Senhora de Lourdes de SARANDI: Tios Elsion e Maritania. Nossa Senhora da Saúde de Vila Lângaro-Tapejara: Douglas e Tamara. Nossa Senhora de Lourdes de NOVA ALVORADA: Tios Rodrigo e Juliane.


ONDA: um jeito da igreja conversar com os jovens

É preciso resistir a esta cultura do espetáculo e do entretimento, ensinar nossos adolescentes a serem maduros em Cristo e não só manejar técnicas de como fazer amigos influenciar pessoas. Por isso, procura-se alertá-las e não deixar confundir com as pressões culturais em que vivem.

É fundamental aprender a questioná-las antes que elas questionem sua fidelidade ao Senhor. Mesmo que os frutos demorem, não desanimem, porque não se encaixam nos padrões de sucesso que os líderes midiáticos e secularizados propagam. Eles não foram chamados para fazer sucesso, mas para serem fiéis ao Senhor.

A Igreja Católica tem muito a contribuir com nossos adolescentes e jovens. Neste sentido, a igreja e a família devem ser o espaço onde se resgata as verdadeiras virtudes, ou seja, o lugar onde os valores e as virtudes não só são ensinados, mas também cultivados através de um discipulado que visa nos fazer seguidores de Jesus Cristo.

Elencamos algumas diretrizes reflexivas que justificam e organizam o Movimento Onda.

Ser de Relações

O filosofo grego Aristóteles afirmou que o homem é um ser social, que precisa viver em sociedade, relacionando-se com outros homens.

Se ficarmos atentos aos grupos que caminham juntos, vemos que, quando alguém não aceita mais esse grupo e se afasta, ele se excomunga. São do grupo. O grupo continua, esse alguém é que perde. Hoje, o ser humano que não se comunica, não se relaciona, vive mal, vira bicho.

Por exemplo, se levarmos uma criança recém-nascida para o meio da mata, oferecendo-lhe todas as condições para sua sobrevivência (água, comida…), sendo apenas privada do contato com outro ser humano por alguns anos, depois desse período, ao reencontrá-la novamente, iríamos perceber que estaria vivendo como um animal. Não teria aprendido a falar e berraria como os animais. Não seria como uma criança que vive em contato com a família, porque o ser humano precisa de afeto de comunicação.

Meios de comunicação

No tempo de nossas avós, pais… o mundo parecia mais estático, igual, parado, repetitivo… A comunicação era feita de boca a boca…

Hoje, com o avanço das comunicações e dos meios eletrônicos, o mundo parece ter ficado pequeno, imprevisível. Isso tudo vem mudando os usos e costumes e inclusive mudando o próprio ser humano.

Hoje não existem mais distancias… Qualquer fato em qualquer parte do mundo em questão de minutos pode ser vista por todos. Diante desta realidade, pode-se compreender que temos hoje muita informação, mas, por outro lado, temos pouca formação.

O ser humano está bem informado, mas mal formado. Conhecemos e sabemos do mundo, daquilo que acontece no dia a dia e pouco sabemos e pouco nos relacionamos com aqueles que fazem parte da nossa convivência do dia-a-dia.

Anos atrás, os pais mostravam e indicavam o caminho para o bem, para Deus. Hoje, cada um escolhe a partir da influência de tantos meios.

Eu diria que todo esse avanço tecnológico, toda essa avalanche de informações nos envolvem tanto que não sabemos mais o que é prioritário, não temos mais tempo para dialogarmos, sairmos juntos, convivermos juntos… Com isso os valores essenciais da vida humana estão sendo deixados de lado.

No tempo em que eu era criança, se costumava pedir e receber a benção do pai, da mãe… de beijar a mão dos padrinhos, avós… Hoje isso parece ter caído no esquecimento. Com isso, os verdadeiros valores do passado estão sendo substituídos por desvalores ou por novidades dos tempos atuais e onde os verdadeiros valores cristãos tornam-se obsoletos.

Há um dos caminhos para mudar esta situação: é investir na família, resgatando a importância do diálogo, da convivência e da fé.

Jesus Cristo, que no Onda chamamos de amigão, é o modelo desta comunicação e deste relacionamento.

O que é o Onda

Tendo presente esta situação, o Movimento Onda pretende, via adolescentes, atingir as famílias. Os jovens adolescentes estão numa fase em que, apesar de terem “tamanho e harmonia”, não tem ainda “capital, moral” necessário para lidar com as situações mais típicas da vida.

A igreja tem muito a contribuir com nossos adolescentes e jovens. Neste sentido, a igreja e a família devem ser o espaço onde se resgata as verdadeiras virtudes, ou seja, o lugar onde os valores e as virtudes não só são ensinados, mas também cultivados através de um discipulado que visa nos fazer seguidores de Jesus Cristo. Se não fizermos isso, seremos engolidos pelo contexto da fé relativizada tão presente nas mídias, nas redes sociais e universidades.

Cremos que, no mundo de hoje, nada mais urgente do que resistir a esta cultura do espetáculo e do entretimento, ensinar nossos adolescentes a serem maduros em Cristo e não só manejar técnicas de como fazer amigos influenciar pessoas. Por isso, procuramos alertá-los para que não se deixem confundir com as pressões culturais em que vivem.

É fundamental aprender a questioná-las, antes que elas questionem sua fidelidade ao Senhor. Mesmo que os frutos demorem, não desanimem porque não se encaixam nos padrões de sucesso que os lideres midiáticos e secularizados propagam. Eles não foram chamados para fazer sucesso, mas para ser fiel ao Senhor.

Buscamos congregar os adolescente e jovens em torno da igreja, auxiliando-os na superação dos problemas e da estabilidade emocional, próprios da pré-adolescência através da vivencia em comunidade.

O ONDA é baseado na esperança e na revelação de valores. O movimento procura formar e informar o jovem para a vivencia do seu cristianismo e conscientizando-o que ele e sua família devem levar adiante essa missão evangelizadora.

Durante esse processo de tantos anos de caminhada, muitos dos que passaram pelo movimento evitaram caminhos perigosos e tantos outras situações que deixariam marcos tristes. Na verdade, muitas famílias acabaram sendo restauradas pela graça de Deus, evidenciando naqueles pequeninos que aceitaram o convite e entraram nesta “barca” de Jesus.

Autor: Padre Geraldo Colett, diretor espiritual do Movimento Onda na Arquidiocese de Passo Fundo.

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