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Cestas básicas para professores!

As promessas de melhorias na educação
e valorização dos docentes continuam esquecidas. 
A amnésia anda de mãos dadas com o cinismo.

Li no Correio do Povo, embasbacado, o relato de uma educadora  de  72  anos de idade, contando  ter passado  uma semana inteira  comendo apenas  pipoca, pois não tinha  dinheiro  para  comprar  outros alimentos.

Esta é a  realidade  do magistério  gaúcho  após  50 meses  de salários atrasados e parcelados, piso  sem  reajuste há  cinco  anos  e uma greve que beirou  dois meses.  O  sindicato foi obrigado  a  iniciar uma  campanha  para arrecadar  dinheiro e  alimento para  os educadores que enfrentam terríveis  dificuldades  financeiras.



Buscando formas de amenizar o sofrimento dos trabalhadores(as) em educação, o CPERS lança a Rede de Apoio aos Educadores do Rio Grande do Sul. Trata-se de uma campanha para arrecadar cestas básicas e recursos para adquirir alimentos, a serem doados a quem necessita.



Eis  a situação a que o  atual governo estadual  remeteu seus professores.  Quando  ingressei  no magistério, nos anos  1970, a possibilidade  de obter  dois contratos  de  20 horas, em uma escola estadual,  garantia um patamar  de vida  digno.

Havia  a perspectiva  de entrar no plano de  carreira  e contar  com o respaldo  do Instituto de  Previdência do Estado. Isto representava  segurança.

Dava  para  casar, alugar uma boa  casa  ou comprar um apartamento. Até um carro popular  passava a fazer  parte  dos sonhos de um jovem  e sonhador professor, além do status  de uma profissão  respeitável. Dependendo do talento e  disposição, a renda  era complementada com um trabalho  em alguma  escola privada, faculdade, cursinho etc.

Era possível ter  acesso  a livros, atividades  culturais, pensar  na especialização, no mestrado e até mesmo doutorado. As  triplas  jornadas  de  trabalho, embora  cansativas,  eram compensadoras  e conferiam   sentimentos  de respeito e dignidade.

Com o  fim do “milagre econômico”  na ditadura militar  ( sim, houve ditadura), os governos  estaduais passaram  a arrochar  os salários  de seus  funcionários e, os professores, foram duramente  punidos  aqui no RS.

O discurso  da premência  de uma boa educação  continuou como até hoje: Educação de qualidade, sim. Professor valorizado, não!  Começaram as greves.

O CPERS ganhou força  e passou a ser visto, como nos dias atuais pelos  sectários de plantão – a  maioria  na  grande  mídia, sempre  de olho nas verbas publicitárias públicas –, como instrumento  ideológico, político, corporativo, etc jogando a sociedade  contra  os professores.  A  consequência  foi  a lenta  e inevitável  queda  na qualidade  do ensino público.

Profissionais  frustrados  e sem perspectivas.  Escolas  abandonadas, sem ambiente  apropriado para educar, gerando atitudes  agressivas  e a displicência  dos  alunos.



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Mais. Atualmente, convivemos com os  alucinados  de  plantão,  pregando  o  reacionário, medieval e ideológico  projeto da  Escola  Sem Partido.  Isto  é, querem que censura e perseguição a professores  vire política para a educação no governo.  É  a  valorização da  estupidez.

Agora, sem dúvida, chegamos ao fundo  do  poço, em que  se  faz  necessária uma  campanha  de  cestas  básicas para  professores !!! A continuar assim, professores disputarão a tapa com os alunos a merenda  escolar. Enquanto isto, o deputado  que nos representa  na  A.Legislativa gastou  9 mil reais em diárias (dinheiro público), em viagem à  Europa.  Ulala!

Se tudo isto não bastasse, o  governo,   com sua  reforma, desrespeita  direitos  adquiridos  no plano de  carreira  dos  professores.  As promessas de melhorias  na  educação e valorização dos docentes continuam esquecidas.  A amnésia  anda  de mãos  dadas  com o cinismo.



Greve suspensa, mas a luta continua!

Precisamos organizar o SUS

Em entrevista exclusiva, Drauzio Varella
defende o sistema como política de inserção social
e reforça sua importância para a sobrevivência dos brasileiros.


Publicado originalmente em Revista Radis.

“O que aconteceu com a saúde do Brasil?”, perguntou Drauzio Varella à plateia que lotava o auditório do Museu da Vida, no Rio de Janeiro, naquela manhã de 21 de outubro. O médico havia chegado de São Paulo para abrir a 16ª edição da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) da Fiocruz. Iria falar de saúde, ciência, mostrar dados do país. Mas, como ele disse logo no início, deixou seu pen drive com a apresentação em casa. Falaria de improviso. Sem perder o bom humor, Drauzio teve espaço de sobra para se voltar a temas que defende de forma incondicional, em especial o SUS, que considera uma “ousadia” e “a maior revolução na história da medicina brasileira”. “Imagina um país como era o Brasil, em 1988, em que um bando de visionários resolve dizer ´nós temos que dar saúde gratuita para todos´. Até hoje, nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou tanto”, avaliou.

Dono de uma personalidade carismática, Drauzio voltou no tempo e costurou histórias de sua vida pessoal para mostrar o quanto o Brasil avançou depois da criação do sistema. Para ele, há um antes e um depois claro, um marco a partir de 1988. O menino nascido no Brás, um bairro operário na Zona Leste de São Paulo, só aos sete anos foi ao médico — e virou o centro da curiosidade dos amigos. “Naquela época ninguém tinha pediatra, ninguém ia ao médico tão cedo. Alguém consegue imaginar que isso é possível hoje em dia?”, comparou, lembrando que o país, à época, era majoritariamente rural. “Se não havia pediatra para crianças que moravam na periferia da cidade que mais crescia, imagina que tipo de assistência médica era dada pelo país. Não havia assistência médica. Ponto. Não havia nenhum planejamento ou intenção de dar saúde pública para todos. O SUS mudou esse quadro”.

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde entrou em 1962, Drauzio Varella é oncologista, professor, escritor — autor de 10 livros sobre saúde e temas sociais — e palestrante. Há mais de 30 anos, é voluntário em penitenciárias paulistas, masculinas e femininas, trabalho que foi iniciado com prevenção à aids na Casa de Detenção de São Paulo. Dessa experiência surgiu a trilogia “Estação Carandiru” (1999), “Carcereiros” (2012) e “Prisioneiras” (2017), que mostram a crueza do sistema carcerário brasileiro, a invisibilidade de pessoas encarceradas e como funciona a vida para quem está atrás das grades. O primeiro deles, um best-seller, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria “não-ficção”, em 2000. Quatro anos depois, virou filme dirigido pelo cineasta Hector Babenco.

Muito antes do filme, em 1985, Drauzio tratou os primeiros casos de aids em São Paulo. O médico foi um dos pioneiros no tratamento da doença, especialmente do sarcoma de Kaposi, no Brasil. Em 1986, gravou campanhas de prevenção à aids em rádios paulistas. Ao publicar um artigo em um jornal sobre o assunto, ele deu seus primeiros passos no campo da comunicação e saúde. “Quando comecei, médico não falava nos meios de comunicação pois era interpretado como autopropaganda. Hoje mudou completamente e há muita gente da melhor qualidade transmitindo informações importantes”, assegurou.

Mas foi a televisão que deu ao médico visibilidade nacional. Desde 2003, ele apresenta um quadro aos domingos no Fantástico, da Rede Globo. Hoje, Drauzio participa de todas as mídias e faz sucesso nas redes sociais. Seu canal no YouTube, lançado em 2015, é identificado como “o maior canal de saúde do Brasil: de resfriado a questões sociais”, definindo os contornos de sua abordagem sobre saúde. Só nesta rede ele possui 1,75 milhão de seguidores que, junto com a audiência da página no Facebook e perfis no Instagram e Twitter, somam quase 6 milhões de pessoas.

Por meio de seu trabalho, o médico fala de saúde, de vida e do SUS, sem se furtar a tocar em temas tabus, como o uso de drogas e o sistema de encarceramento no país. Um dos vídeos mais acessados do Canal do Drauzio, no YouTube, é justamente o bate-papo sobre maconha, assunto que também abordou na palestra. Sua fala na Fiocruz manteve o mesmo tom leve e direto de quem fala sobre drogas “sem pagar de moralista”. Durante 50 minutos, o médico provocou reflexões e risadas. O status de celebridade ficou patente ao final quando, atrasado para pegar um voo, foi retido pelos inúmeros pedidos de selfies e autógrafos.

A saída pela porta lateral foi, assim, estratégica: com uma agenda apertada, Drauzio tinha que voltar rapidamente para São Paulo a fim de cumprir sua rotina semanal de atendimento na Penitenciária Feminina de São Paulo. A caminho do Aeroporto Santos Dumont, ele conversou com a reportagem da Radis e voltou a reforçar a potência e importância do SUS para a sobrevivência dos brasileiros. Seu pensamento pode ser resumido em uma frase: “Sem o SUS é a barbárie”.

Como o senhor vê o Brasil de hoje?

O Brasil está atravessando uma fase muito dura do ponto de vista econômico. Eu nunca vi uma crise com um desemprego absurdo como esse. São 13 milhões de pessoas sem emprego. Lógico que esse quadro repercute na saúde. Hoje, há mais pessoas dependentes do SUS e quem está desempregado vive em situação de vulnerabilidade, como acontece com grandes massas populacionais no Brasil. Além disso, eu vejo o desinteresse até ostensivo com programas sociais, não só em relação à saúde. O SUS já vinha lutando com dificuldades enormes. Aí cortaram [a verba] e entrou a ideologia no meio de fatores que são puramente de ordem técnica. Ficou ainda mais difícil.

Qual é o nó crítico da política de saúde brasileira?

O país não tem uma política de Estado na saúde. Nos últimos dez anos, tivemos 13 ministros da Saúde. De que forma vamos organizar o sistema sem continuidade? Se o ministro cai, muda todo mundo. Nos níveis federal, estadual e municipal, muitos são escolhidos por orientação política. Acho que a saúde tem que ser blindada dessa política partidária no mau sentido. Falta dinheiro, claro, mas dinheiro não vai resolver nosso problema. Os Estados Unidos investem 17% do PIB deles em saúde. Só que o PIB deles é de 19 trilhões de dólares, então vão uns 3 trilhões de dólares para a saúde. É mais do que o PIB brasileiro; tudo que nós produzimos no país eles investem em saúde. E o americano médio vive 78 anos; o brasileiro vive 76 anos. Eles jogam dinheiro e a expectativa de vida deles está caindo. Lá tem um conjunto de fatores que levam a à obesidade e a um pacote de doenças difíceis de tratar. E uma medicina tecnológica da qual nunca vamos dispor.

É uma questão de gestão?

Nenhum sistema funciona bem com várias portas de entrada, nem a casa da gente. Temos que ter uma única porta de entrada. Até pouco tempo, quando alguém precisava de atendimento, pedia que um político ou uma pessoa influente telefonasse para um médico amigo no hospital, este falava do caso e furava a fila. Esse era um sistema cheio de privilégios e começou a ser organizado. Hoje, se um milionário precisa de um transplante de fígado, tem de entrar na fila junto com os outros na disputa pelo órgão. Não vai passar na frente de ninguém porque essa informação está disponível na internet. A Estratégia Saúde da Família está montada e é um dos dez melhores programas de saúde pública do mundo, mas ela é tratada com descaso. Se funciona bem e cobre 66% da população do país (no Nordeste cobre 82% da população), deve ser a porta de entrada. A pessoa está com dor de cabeça e vai procurar um neurocirurgião: isso encarece demais, não é sustentável. Se olharmos a fila com um pouco de critério, veremos que 80% a 90% das pessoas não tinham que estar naquele lugar. Por isso é que eu acho que a estrutura toda está aí, falta organização. Nós temos tudo. Claro que precisamos de mais recursos, mas nunca os recursos serão suficientes. O que é doído é que temos toda a estrutura armada no SUS, só que ela funciona mal.

O senhor tem afirmado que é o SUS é a maior política de inserção social.

O SUS já atende diretamente 75% da população ou 150 milhões de brasileiros. Se você retirar o SUS, é a barbárie. O que vai acontecer com essa legião de pessoas? Onde serão atendidas? Não tem alternativa: precisamos organizar o SUS para atender essas pessoas com mais eficiência, interferir com a medicina preventiva, dar o atendimento com a atenção básica à saúde. O SUS tem tudo, não precisaria nem de recursos imensos para fazer a cadeia funcionar regularmente. Repito: a estrutura está toda montada e o que precisamos é de uma diretriz política. Sim, nós precisamos de mais dinheiro, mas a organização é que vai mudar as características do SUS completamente. Porque o SUS é o maior programa de distribuição de renda: ele gasta R$ 240 bilhões e o Bolsa Família gasta 10% disso. É uma ajudinha pequena diante do SUS. O SUS faz um trabalho maravilhoso no Brasil e, infelizmente, o que fica são só os exemplos das situações em que ele não funciona ou funciona mal.

Quais são os principais desafios a serem enfrentados pelo sistema público de saúde no futuro?

Vejo dois desafios: nós temos todos os problemas do envelhecimento e ainda não nos livramos de muitas doenças infecciosas. Acho que o maior desafio é o do envelhecimento, porque envelhecemos mal: 90% dos brasileiros chegam aos 60 anos com pelo menos uma doença crônica. São 15 milhões de pessoas com diabetes. Aos 70 anos, praticamente 70% dos brasileiros têm pressão alta. Aqui, temos 825 mil pessoas HIV positivo. As doenças crônicas demandam um esforço enorme de todo o sistema de saúde. Tudo tem que ser feito rapidamente porque a população envelhece muito depressa.

Isso inclui ações de prevenção.

O Ministério da Saúde tem sido até agora o ministério da doença. A saúde suplementar também. A questão é que nós não soubemos organizar a atenção primária à saúde. Não há sentido, no mundo moderno, esperarmos que as pessoas fiquem doentes para tratar. A preocupação tem que começar lá atrás. Claro que com mais recursos nós poderíamos fazer mais e muito melhor.

Qual a sua avaliação do Mais Médicos, em especial da participação dos médicos cubanos no programa?

Os médicos cubanos tiveram uma importância muito grande para o sistema em regiões que estão abandonadas. No início, houve uma reação corporativista de uma parcela de médicos. Mas os cubanos não queriam fazer Medicina como a gente, eles foram contratados para fazer Medicina onde a gente não fazia, onde nós não chegávamos. Eles ajudaram muito. Eu andei por muitas cidades e eles eram médicos adorados pela população. O problema é que a gente não contava que, de uma hora para outra, isso acabaria com a mudança de um governo que tinha posições antagônicas e destruiu o programa. Nós não imaginamos que esses médicos poderiam ir embora quando não tínhamos ainda um plano B. E estamos nessa situação complicada.

Há saídas para repor esses profissionais?

Um país como o Brasil vai ter sempre dificuldade para distribuir médicos. A gente teria que substituir esses médicos gradativamente, pois é muito difícil conseguir tanta gente capacitada para atender em lugares tão pobres. Há 450 mil médicos concentrados no Sudeste; no Norte e Nordeste eles estão nas capitais e cidades grandes. Temos 300 faculdades de Medicina — sem professores para tanto. Fazem faculdades esperando que os médicos se espalhem. Quem garante isso? As faculdades privadas custam R$ 10 mil, R$ 12 mil reais por mês. Você acha que quem paga esse valor e se forma depois vai para a periferia de Quixadá, no Ceará, atender gente pobre? Vai se especializar e ficar por um grande centro. Precisamos de médicos de família, que resolvem 90% dos problemas. Temos que ter essa formação. Os Estados Unidos têm esse mesmo problema nas pequenas cidades do interior. Temos que criar alternativas para poder fazer o trabalho que os médicos não são capazes de fazer. A ESF cobre dois terços da população. O esforço para acabar de cobrir o resto não é grande. Então, faz a entrada toda por ela, usa a Enfermagem de uma forma decente — porque nós desperdiçamos os enfermeiros no Brasil. Eles se formam, se especializam, fazem pós, e depois enfrentam resistência porque a classe médica corporativa acha que só ela pode fazer o atendimento. Ótimo, só que não faz. Esse corporativismo exagerado não ajuda em nada.

Como anda a saúde nas prisões?

Quando cheguei ao sistema penitenciário, eram 90 mil presos; hoje são 820 mil. Temos a terceira população carcerária do mundo em números absolutos. Prendemos muito e temos que saber que cadeia não diminui a violência urbana. Nós construímos facções criminosas. Eu vi o crime organizado nascer nas prisões de São Paulo e como ele tomou conta delas. Poder é um espaço abstrato. Se o Estado não consegue dar proteção ao homem que está na cadeia, o crime organizado vai dar.

E como encarar o tabu das drogas?

Droga não tem solução. Usamos desde a antiguidade. O que não podemos ter é essa estupidez de querer resolver um problema de saúde pública com polícia. Polícia não é para isso. Não é função da polícia resolver problema de saúde pública.

De que forma a prática de atividade física pode diminuir a epidemia de obesidade?

A população tem acesso a uma comida de qualidade, a um preço tão acessível, e não temos esse breque [freio] para parar. Começamos a comer muito e falta atividade física. Hoje é possível ganhar a vida sentado, ficar o dia inteiro sem se movimentar. Mas na época das cavernas não existia isso. Nosso corpo foi desenhado para o movimento. Como resultado, vivemos uma epidemia grave de obesidade no Brasil. A Organização Mundial da Saúde recomenda que é preciso fazer 30 minutos de caminhada cinco vezes por semana. E ninguém mais anda. Eu vejo que temos que atacar o problema do sedentarismo. No século 21, o sedentarismo vai matar tanto quanto o cigarro, e o cigarro vai matar 800 milhões de pessoas. A vida sedentária faz muito mal.

O senhor combate fortemente o cigarro. O que acha dos novos dispositivos eletrônicos para fumar?

Eu acho que a indústria tabaqueira é a mais criminosa do sistema capitalista internacional. Ela vende uma droga que é a mais aditiva de todas que a Medicina conhece. Eu tenho uma longa experiência com o crack e sei que é mais difícil largar o cigarro do que o crack. A Penitenciária Feminina de São Paulo é o maior centro de recuperação de usuários de crack no mundo porque o PCC [organização criminosa Primeiro Comando da Capita] não deixa entrar crack na cadeia. As mulheres largam o crack, mas não o cigarro. Então a indústria sentiu que as vendas de cigarro estavam caindo nos países e inventou novas formas de a nicotina ser fumada diretamente. Esses dispositivos viciam ainda mais, porque a concentração é mais alta do que a existente no cigarro. Eles dizem que é seguro, justificando que esse dispositivo vai ajudar a parar de fumar. Isso é redução de danos. Só que vicia uma legião de meninos e meninas que não iriam mais fumar cigarros e apresentam um produto em forma de pen drive, que pode receber carga em USB de computadores.

Foi então uma estratégia da indústria apresentar a nicotina em uma nova e moderna embalagem?

Nos Estados Unidos, 27% dos estudantes de nível médio fumam essa desgraça. Ou seja, criou uma epidemia de viciados quando ela estava diminuindo gradualmente ano a ano. A Altria, a maior fabricante de cigarros, comprou 30% das ações da fábrica que faz o cigarro eletrônico mais comum [Juul Labs]. Explica o raciocínio para mim: eu fabrico um produto e compro uma parte de uma fábrica que fabrica um produto que é para as pessoas pararem de usar o meu produto. Que lógica é essa? A lógica dessa indústria é vender nicotina, eles são traficantes. Eu vejo mais beleza na vida que leva o traficante que está no Morro do Alemão [no Rio de Janeiro] do que na vida dessas pessoas. Elas andam de terno e gravata, são respeitadas socialmente e o traficante do morro vende droga e foge da polícia. Esse pelo menos tem uma vida mais de acordo com a atividade que pratica.

O senhor considera que o brasileiro reconhece a importância do SUS?

Bom, nós olhamos o SUS pelo prisma das grandes cidades e dos problemas que aparecem na televisão. Só que o SUS realmente funciona em muitas localidades do Brasil, especialmente municípios menores, e isso ninguém noticia. As pessoas se surpreendem quando eu digo que nós temos o maior programa de vacinação e de transplante, que mudamos o destino da epidemia de aids no mundo. Ninguém sabe que é o SUS que garante a segurança dos hemocentros. Perdemos na comunicação. As pessoas não entendem o que é o SUS e acham que ele é o pronto-socorro lotado, com fila e cheio de gente deitada no chão e nos corredores. E não é. Não haverá outra revolução com tanta profundidade. Imagina um país como era o Brasil, em 1988, em que um bando de visionários resolve dizer ´nós temos que dar saúde gratuita para todos´. Até hoje, nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou tanto. O SUS tem uma abrangência maior que o NHS [sistema de saúde pública inglês]. Tem problemas, muitos, mas a filosofia de dar saúde gratuita não é uma coisa simples de ser feita.

As informações de saúde ocupam um espaço adequado na mídia?

Nós, médicos, conseguimos popularizar a Medicina de um jeito que outros profissionais de outras áreas não conseguiram. Ninguém tem ideia de quais são os maiores problemas de urbanismo do Rio de Janeiro ou quais são os principais desafios para você organizar o tráfego urbano. As pessoas querem saber mais da própria saúde do que de problemas de urbanismo. Os médicos foram capazes de transmitir esses conceitos no decorrer de décadas. Hoje, todo mundo sabe o que é diabetes, pressão alta, colesterol, que cigarro faz mal. Antes, a gente não tinha esse sistema de comunicação de massa que envolve a televisão e a internet. Embora a internet veicule informação sem nenhum critério, ela dá acesso muito amplo. E questões de saúde sempre interessam.

Como é ser um médico que atua também em comunicação?

Entrei na TV por causa de uma série da BBC sobre o corpo humano que era apresentada por um médico inglês. Queriam um médico brasileiro e me convidaram para fazer. Me interessei porque as imagens eram maravilhosas. Disseram “faça o que você quiser fazer”, com todo o apoio técnico para isso. Eu me sinto tomado por uma responsabilidade pública. Tenho que usar esse tempo da melhor forma possível para poder mandar mensagens de saúde pública que interfiram na vida das pessoas, das famílias. Em um país com tão baixa escolaridade como o nosso, esse é um desafio muito grande. Em todo lugar que eu vou escuto pessoas dizerem que pararam de fumar por causa da série “Brasil sem Cigarro”, apresentada na TV em 2014. Mas eu não tenho ideia alguma do impacto desses programas na saúde. Infelizmente, não temos essa medição aqui no Brasil.

O que o senhor diria para um jovem médico ou um estudante de Medicina?

Tem que gostar de estudar bastante. Aliás, quem não gosta de estudar não deve fazer Medicina. E quem não tem muita paciência, não deve fazer Medicina. Se a pessoa tiver vontade de estudar, pode trabalhar em qualquer ramo ou trabalhar em áreas como a Comunicação, um campo que fica mais forte. Quando comecei a falar de saúde no rádio, médico sério não falava nos meios de comunicação porque isso era interpretado como autopropaganda. Hoje essa visão mudou e temos profissionais da melhor qualidade transmitindo informações importantes. Mas, o principal de tudo é gostar, senão não vai conseguir exercer bem a Medicina.

Qual é a importância da Ciência e Tecnologia para o desenvolvimento do SUS e do Brasil?

Com muita dificuldade, a ciência brasileira conseguiu estabelecer uma rede, os pesquisadores passaram a se comunicar uns com os outros, estabeleceram protocolos cooperativos. De repente, a barbárie cai em cima [dessa rede] para desestruturar todo o sistema. O Brasil depende disso. Nós dependemos da ciência porque se não vamos ficar eternamente dependentes dos outros países. Nós vamos ter que comprar a tecnologia que os outros desenvolveram, pagar royalties. Eu cito um exemplo lá de São Paulo que foi o tratamento com células CAR-T (Radis 206). Só a transfusão das células nos Estados Unidos custa 450 mil dólares. Se contar todos os custos hospitalares, que lá são estratosféricos, chega a mais de um milhão de dólares. E aqui eles desenvolveram em Ribeirão Preto com tecnologia 100% brasileira. O cálculo dessa equipe é que gastaram menos de 100 mil reais, que são 25 mil dólares. A diferença é absurda porque não pagamos royalties para ninguém. Se o Brasil quiser dominar essa técnica e torná-la mais popular, vai conseguir, porque é um preço mais razoável. O mesmo aconteceu com a medicação da aids, que era importada e caríssima, e o Brasil resolveu produzir genéricos. A ciência é absolutamente fundamental para o desenvolvimento. Desorganizar a ciência é renunciar à soberania nacional.




Em outra entrevista, no mês de dezembro de 2019, entrevistamos Alberi Grando sobre a história e a importância do SUS. Grando começou sua vida profissional numa pequena cidade do RS, Santa Bárbara do Sul. Envolveu-se, intensamente, na defesa do SUS (Sistema Único de Saúde). Também exerceu funções como secretário municipal de saúde, delegado e coordenador regional de saúde e vereador por dois mandatos em nossa cidade Passo Fundo.

A democracia questionada

A defesa da democracia precisa ser verbalizada,
assumida e defendida exaustivamente por aqueles e
aquelas que acreditam na liberdade humana e nas
relações interpessoais e instituições regradas pelo
Estado Democrático de Direito.

Pesquisa DataFolha mostrou que, desde 2018, caiu de  69% para 62% o apoio  à democracia. Pior. Subiu de 13% para  22%  a parcela  de brasileiros que não vê distinção entre democracia e ditadura.

Sou da geração que luta, desde a idade escolar, pela democracia. Quando tomei consciência de mim, como pessoa autônoma e como parte da comunidade, estávamos sob a tutela militar. Sei quanto avançamos.

Kant dizia que a busca do conhecimento não tem fim. A busca pela democracia, também não. 

Na prática, democracia, como um ponto final que uma vez atingido nos deixa  satisfeitos  e por isso decretamos o fim da política, não existe.   Existe é democratização, o avanço a um regime  cada vez  mais  inclusivo, mais representativo, mais justo e  mais  legítimo.

Os dados  da pesquisa  refletem  o que  vem acontecendo nos  últimos tempos  entre  nós. Temos um  presidente com um discurso  à  favor  dos  valores antidemocráticos, conquistando uma  audiência  imbecilizada que fez  do antiesquerdismo  uma  crença  sem conteúdo  afirmativo, fundamentalmente  definido  pela negação.

Um dos filhos do presidente, Eduardo, e  até um  ministro  acenaram com a possibilidade  de um  novo  AI-5, o mais ignóbil e violento dos  atos  baixados  pela ditadura militar. O curioso é que, segundo a pesquisa  DataFolha,  65%  dos  entrevistados  disseram nunca  ter ouvido falar  no  citado ato, mas  muitos aprovam  a sua  volta.  Uau!!

Muitos dos  beócios que  hoje  se  manifestam contra  a democracia  e, via redes sociais, pedem a volta  de uma ditadura  civil-militar, desconhecem  que bons e justos  argumentos  da  política  podem terminar  na mira dos fuzis.

Os valores democráticos sempre foram  considerados pela  direita reacionária  como perniciosos  fatores  de debilidade  e  de  caos  destrutivo.

Também é preciso considerar que quando as pessoas  se  sentem perdidas, desorientadas, desbussoladas, como neste momento, oriundo  da quebra de parâmetros  – vivemos  uma regressão civilizatória –, elas  podem  voltar  a uma  ação  anterior, a um reacionarismo.  E o reacionarismo  de mais  fácil acesso  é  o do caudilho, do pai, do coronel.


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As pessoas, muitas vezes, preferem  uma servidão  voluntária  a  uma liberdade  arriscada, uma liberdade  responsável.  Corremos o risco, se não reagirmos a  este governo de extrema  direita, a ter no lugar  das armas  da  República  o pau de  arara!

Qual a solução? Acredito que passa por estudar mais  história, basicamente. A sociedade precisa de historicidade, de conhecer  seu passado, de entendê-lo. Notadamente,  diante de um governo como este, que se  caracteriza pelo negacionismo.

Através da memória ativa, de um estudo mais consistente, mais  localizado, construiremos  uma memória ativa. Não uma memória sacralizada, museificada.

Também devemos passar à  ação. As grandes  democracias não são  países  estanques, monolíticos, de povos  submetidos  às decisões  das autoridades. As manifestações devem ser externadas e ouvidas. Ou agimos ou contribuiremos para a derrocada  da nossa  democracia que foi duramente  conquistada.


“As democracias estão cada vez mais sob pressão em todo o mundo, como mostrou também o Índice de Democracia, publicado pela empresa britânica de análise Economist Intelligence Unit (EIU) no começo do ano. De acordo com o ranking, menos de 5% da população mundial vive nos únicos 20 países classificados como “democracias plenas”. Leia mais aqui.

Um aceno de esperança

O que é um jardineiro?
Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins.
O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro.
O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.
(Rubem Alves)

Era uma tarde de muito calor. Milhares de professores, embalados por sua cidadania, caminhavam pelas ruas de nossa capital Porto Alegre. Um suave aceno embalava as suas utopias. Uma senhora, de um edifício bem alto, na Borges de Medeiros, ninava as suas esperanças, embalando um lenço verde. É, o lenço era verde e verde é de esperança. E aquela senhora reconheceu que aquela multidão era movida por uma causa: a educação pública e de qualidade para todos.

Não cometemos crime ao lutar por nossos direitos, como muitos desejam supor. Sem medos, caminhamos pacificamente, segurando bem firme as nossas armas: nossa voz e nossas bandeiras. Aprendemos, faz bom tempo, que quem luta, também educa. E que se “educar é nossa vida, lutar é nossa atitude”.

O sol escaldante e reluzente da capital gaúcha nos fez lembrar do educador Rubem Alves, que certo dia resolveu perguntar-se e responder-se: “o que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins”.

Se pudéssemos conversar com a senhora do lenço verde, da Borges de Medeiros, e com todos os que nos acenam (dos mais diferentes jeitos), diríamos a estes que os professores e professoras semeiam, todos os dias, um jardim de esperanças em suas salas de aula.

Que todos os dias, enfrentam o seu ofício não só pelo salário, mas como uma missão de contribuir para com a humanidade, através da educação. Que todos os dias correm riscos de vida, pela vida de outras pessoas, por causa da violência que já chegou às nossas escolas. Que seus dias tem sido castigados, semelhante ao castigo que o sol impõe às plantas do jardim, no rigor dos nossos verões.

Nós somos jardineiros e fazemos a luta a partir de nossa dignidade. Somos referência para muitos jovens, porque ainda não deixamos de semear em suas vidas (e em seus corações) a ideia de que a vida é um jardim, que precisa ser cultivado, regado e cuidado.

As flores precisam de carinho. Os seres humanos, de reconhecimento. Os vegetais precisam de sol, os alunos precisam de horizontes. As plantas precisam de terra, adubo e água. Os seres humanos precisam de estímulos, zelo e cuidados.



Nosso maior palco é a vida.



Logo a gente que cuida de jardins, não é bem cuidado. O nosso clamor é por reconhecimento. Por sabermos da importância dos jardins, exigimos que os governos façam sua parte para engrandecer e embelezar o jardim das nossas vidas, e o jardim das vidas daqueles e daquelas que cuidamos com o maior carinho. Lidamos com vidas e temos dignidade.

Sabemos, por consequência, quanto nos custa ensinar, mas não reclamamos deste custo. Como amamos a nossa profissão, resolvemos pedir que nos reconheçam como gente, e como profissionais da educação.

Sabemos que o sol tende a nos castigar com o avanço do verão. Mas também sabemos que este mesmo sol brilha para todos e é fonte inesgotável para gerar vida, capaz de conduzir novos horizontes. No horizonte do sol, arriscamos paralisar as aulas, pois aprendemos que aqueles que nada arriscam nada podem conquistar. E para a senhora do lenço verde, pedimos que não canse de nos acenar, pois a vida e a luta é esperança. Seu gesto, com certeza, estimulará muitos outros a nos acenar.

Obrigado!



Crônica publicada em livro “Conviver, educar e participar nos palcos da vida”, Ed. Ifibe, 2014.

Nossas mãos!

Essas são as nossas mãos:
Mãos que ensinam,
mãos que protegem,
mãos que aprendem,
mãos que protestam,
mãos que vibram, que gritam!
Mãos que acolhem,
mãos machucadas, feridas!
Mãos que doam,
mãos que ajudam,
mãos que perdoam, que choram!
Mãos que defendem,
mãos que lutam, que suam!
Mãos que abraçam, consolam!
Mãos que escrevem, que acreditam!
Mãos que dão as mãos!
Mãos que trabalham e que não desistem!
Mãos exemplos e mãos de caminhos!
Mãos para construir, esperançar, professorar, amar!
Dando e recebendo!
Mãos, nossas mãos! Mãos que são bençãos!
Amém.

Texto em homenagem ao dia do professor.
Professora Adriana Severo dos Santos.
15.10.2019

Pontes que renovam desejos dos professores

Ao invés de muros, construamos pontes. Pontes de professores para professores. Pontes comunicam e interligam. Muros separam e nos dividem.

Necessitamos acreditar mais na gente, nas nossas possibilidades, nas nossas energias e nas nossas forças.

Em tempos em que tudo conspira para que a gente se divida, se enfraqueça, fazemos um modesto esforço, através desta publicação, de reunir diferentes desejos e pontos de vista de professores e professoras do Rio Grande do Sul.

Somamos na diversidade. Cada um se faz professor a partir de suas experiências e de suas trajetórias profissionais. Mas, juntos, construímos identidade e irmanamos lutas em defesa da dignidade de nossa profissão e da escola pública, de qualidade social.

Convidamos alguns professores para afirmar e renovar seus desejos para 2020. Além de desejos, professores apontam desafios da organização e resistência dos professores e professoras neste ano que recém inicia.



“Este foi um ano maravilhoso para nós, da New Life Educação! Fica aqui a gratidão a todos vocês!!!
Esperamos que seus dias tenham sido tão bons quanto foram os nossos. Se você pensar e não encontrar motivos tão claros, lembre-se; se está lendo este post, é porque ainda há muito a ser grato. Desejamos que os dias do próximo ano sejam maravilhosos para você, que consiga conhecer e se conectar a pessoas que só te retribuam sentimentos bons, bem como os que estão dentro de você. Além disso, desejamos ainda, que consiga se conectar consigo mesmo, com sua melhor versão, para que atinja um grau satisfatório de plenitude”.

Jairo e Danieli Oliveira, Escola New Life




O que eu gostaria de renovar junto a meus colegas professores em 2020?
Uma pergunta difícil, de múltiplas respostas. Mas o primeiro desejo de renovação que me chegou durante o questionamento foi aquele sentimento de quando ainda me preparava, como aluna, para ser professora. O sentimento de ser e ver renovação diária em sala de aula. De fazer a diferença, de acreditar e lutar por uma educação mais humana, compartilhada, inclusiva e plural. A rotina, a desvalorização e o descaso com o professor e com o sistema educacional não podem apagar esse sentimento na prática da docência. Colegas, em 2020, que nosso desejo de ser e ver a renovação na educação sejam renovados, de mãos dadas, diariamente!

Lígia Dalchiavon, professora Universidade Federal do Rio Grande, Campus de Santa Vitória do Palmar, RS




O desejo mobiliza. Sem desejo não há propósito de renovação e nem a própria renovação. Assim, meu desejo é que 2020 seja de qualificação da resistência ao modo de “reExistência”. O desafio é recompor as bases de um projeto de vida em abundância para todas e todos. A educação pode ajudar nisso, pois pode enfrentar as subjugacões totalizantes e fortalecer processos de subjetivação abertos, alteritários, alternativos e alterativos. Renovo o compromisso com a responsabilidade que há de se fazer organizando e luta popular por meio da educação popular qua formação para a transgressão. Educadores-educandos e educandos-educadores seguiremos nos fortalecendo na solidariedade que promove e potencializa alegrias.

Paulo César Carbonari, professor universitário e militante de direitos humanos desde Passo Fundo




Eu desejo para 2020 fortalecer minha luta pela retomada da Democracia de Estado de Direito no meu País, denunciando e me somando aos movimentos de combate à intolerância e perseguição à diversidade. Os brasileiros correm sérios riscos por conta do ódio reprimido da elite econômica e “religiosa” conservadora contra os pobres, negros, estrangeiros, mulheres LGTBs e minorias. Dedicarei minha humanidade e espiritualidade à luta incessante pela justiça e respeito ao que é mais sagrado – a humanidade. Assim como disse Nelson Mandela, eu creio também que quem aprende a odiar, pode aprender a amar. Creio no meu desejo de ter às liberdades de volta. O ano de 2020 será o tempo de continuar a ponte da travessia em busca da felicidade roubada. Um dia ela vai voltar com um largo sorriso nos lábios. Então, direi que este sorriso fui eu e os que amam liberdade que o colocamos lá.

Francisco Machado, professor da rede estadual e pastor da Igreja Anglicana




“Não tem como falar em perspectivas para 2020 sem avaliar o retrocesso histórico, pelo qual nosso País vem passando, onde os direitos já conquistados da classe trabalhadora, serviços públicos e as políticas sociais sofrem mudanças avassaladoras que precarizam ainda mais as condições de vida do povo brasileiro, onde ataques institucionais foram protagonizados (congelamentos dos gastos, privatizações, decretos, reforma da CLT, reforma da previdência, sucateamento, corte de verbas para serviços básicos…) e muitos outros estão arquitetados.

O ano de 2019 teve muita luta, várias mobilizações da classe trabalhadora, fechando greve dos professores da rede Estadual do Rio Grande do Sul, que lutam permanentemente pela manutenção de seus direitos conquistados, pela profissão docente e educação de qualidade.

Final do ano foi marcado pelo desrespeito dos nossos governantes que desconsideram as vozes das ruas e as reivindicações do povo que os elegeram. O que esperar para 2020? Não será um ano fácil, teremos muitos desafios, onde nossa única alternativa é manter a esperança viva, pois é uma forma de resistir diante de tantos ataques e descaso com a classe trabalhadora.

Que o exemplo dos professores do Estado, seja alimento para organização dos demais Trabalhadores(as) e que possamos somar forças da luta em defesa de condições dignas de vida e de trabalho para todos(as). Por ser um ano eleitoral espero que todos(as) utilizem da melhor forma seu direito de voto e que tenhamos mais representatividade dos(as) trabalhadores(as).

Como professora Municipal espero que a Educação Pública seja pautada como prioridade e que nossos professores(as) sejam ouvidos, respeitados e que suas reivindicações sejam atendidas. Que nossa luta seja abraçada pela sociedade, onde possamos estar lado a lado na defesa da educação pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade. Obrigada a tod@s que estiveram ao nosso lado e que 2020 nossas energias se renovem e que a nossa Esperança se mantenha viva!

Regina Costa dos Santos, professora de educação infantil e dirigente CMP Sindicato




“Renovo minha esperança na escola pública universal, de qualidade e laica,no respeito e dignidade que merecemos e principalmente, na consciência de classe dos trabalhadores em educação, que sem ela não é possível empreendermos as mudanças tão necessárias em nossa sociedade”.

Marli Schaule, professora aposentada e dirigente CPERS




2020, o ano que nuca será.

2020 se encerra em primeiro de Janeiro de 2020. Este será um ano que nunca terá existido para a educação. Desta forma, desde já desejo um venturoso 2021 a todos e todas.

A tradição de desejar um belo e próspero ano novo vem da simples e ilusória perspectiva de mudança que o final de um ano e o início do seguinte, proporciona às pessoas. A tradição também está calcada no fato de que o limiar de um novo ano, é uma porta de entrada para mudanças de cunho pessoal, profissional, afetivo e de que tudo realmente é possível, uma vez que o futuro de fato sempre é uma incógnita e absolutamente tudo, ou quase tudo, pode acontecer. Pois, nossas variáveis para uma previsão, são quase que ilimitadas.

Infelizmente isso não ocorre com a educação. Não precisa ser um astrólogo, tarólogo, quiromante, bruxo ou até mesmo cientista político para prever que nada de novo acontecerá na educação além daquilo que já presenciamos nos últimos anos e além daquilo que temos de variáveis presentes e que nos apontam para o nada, o vazio absoluto.


Nossas variáveis atuais mostram um ministro da educação que ainda está na pré-adolescência, um presidente e seus seguidores que abominam a ciência, a cultura, o estudo e a pesquisa e que tem como referência intelectual um astrólogo. Temos também um projeto maior de desmonte da educação patrocinado por grandes grupos econômicos nacionais e internacionais, além é claro, de não termos, passado um ano de governo, uma página, quiçá uma linha de uma proposta a curto, médio, longo ou bem longo prazo de algo que se pareça com educação de qualidade.

A educação pública se tornou a barca de Caronte, o ser mitológico Grego e filho de Hades, que carregava as almas para o mundo dos mortos. Cabe lembrar que Caronte era filho de Nix (a Noite) e Érebo (a Escuridão). Era também irmão de Hipnos (o Sono) e Tânatos (a Morte), algo tão funesto e muito parecido com a educação do Brasil de hoje no que diz respeito ao barqueiro e suas relações familiares e ao destino que nos aguarda.

Eduardo de Albuquerque, professor rede municipal de Passo Fundo e dirigente CMP Sindicato




“Meu compromisso absoluto com a recuperação da dignidade da profissão de professor, de professora, de sua valorização e autonomia pedagógica, de seu salário e condições de trabalho. Renovo a convocação para fazermos uma escola cidadã, que construa homens e mulheres democráticos, igualitários e justos!”

Sofia Cavedon, professora municipal de Porto Alegre e deputada estadual

Lições de uma greve histórica dos professores estaduais do RS

Os professores e professoras da
rede estadual do RS fizeram uma greve histórica
porque cansaram de tantos ataques à dignidade
de sua profissão e ataques à escola pública.


 Carregaram, com orgulho, a bandeira do seu Sindicato: CPERS. Receberam apoio de milhares de cidadãos e cidadãs gaúchos, que se somaram nesta dura e desafiadora caminhada de mais de um mês de aulas paralisadas.

 Elencaremos algumas lições e aprendizagens sob o nosso ponto de vista, de professor, escritor, ativista de direitos humanos e editor do site www.neipies.com

Professores e funcionários grevistas assumem um compromisso ético e político muito sério: a greve não é em causa própria, mas em nome de todos os seus colegas. Por isso mesmo, a greve sempre é sustentada pelos mais coerentes, mais conscientes e mais seguros de sua tarefa e missão.

Críticas sempre são bem-vindas ao movimento, mas somente serão aceitas aquelas que vierem de quem luta. É muita covardia esconder-se atrás de certas críticas para não vir somar-se com a luta.

Além de ser um compromisso sério que tem horas e horários definidos, a greve também se faz de alegrias, de encontros, de convivências, de muitas trocas. Uma greve guarda certa espiritualidade e se faz com compromissos de quem se soma para lutar. Por isso mesmo, grevistas tem todo direito de rir, de tomar chimarrão, de sentar em rodas, de ouvir músicas, de exibir-se em fotos. Uma luta boa se faz com alegria!

Quem luta também educa. Quem educa verdadeiramente, desestabiliza os acomodados. Ao nos organizarmos pacificamente, estamos ensinando ao conjunto da sociedade que é preciso organização quando os direitos são atacados.

Jornalistas e parte da imprensa que tentam nos jogar contra a população precisam nos respeitar primeiro para entender nossas causas. Nossas causas sempre são a defesa da dignidade de nossa profissão docente e a defesa da escola pública, de qualidade social (que seja boa para todos os que se envolvem nela).

Os números de grevistas não são o principal parâmetro para sustentar uma greve. O que sustenta uma greve é sua legitimidade e a certeza de que mais avanços são possíveis nas negociações, maior objetivo das greves.

Mentes tranquilas, serenas e convictas incomodam quem é adepto ao terrorismo das ameaças, das punições e das simulações que tentam desestabilizar os manifestantes para desmerecer o mérito das lutas.

Greve de servidores públicos sempre busca aperfeiçoar e aprimorar a qualidade dos serviços públicos. Servidor valorizado cumpre função pública com maior interesse e motivação.

O desejo maior de quem está em greve é voltar ao trabalho, pois o local de trabalho é seu lugar de realização. A escola pública é o lugar de nossa realização pessoal e profissional.

Todos os que ousam participar de uma greve, voltam transformados e revigorados para seus locais de trabalho. Aprendem, como ninguém, que não é bom ser escravo e que ser sujeito da sua história também tem preço, que sempre vale a pena pagar. Aprendem também que o ombro a ombro, o cara a cara e a solidariedade nos humanizam, transformando-nos em seres humanos melhores.



Créditos fotos: CPERS

Tributo a John Lennon

Tenho certeza que se estivesse vivo,
fatalmente estaria ainda envolvido
com a causa da paz e escrevendo
grandes e inspiradas canções para a gente ouvir,
como a antológica Imagine.


Há 39 anos, em dezembro de 1980, morria aos 40 anos de idade John Lennon, deixando um dos mais extraordinários legados que a cultura moderna já recebeu.

Não há notícia de que outro compositor, ou outro conjunto musical, tenha sido mais universal que John Lennon e os Beatles, ou que tenha encantado tanta gente, durante tanto tempo, em tantos lugares, que tenha influenciado de maneira tão completa a época em que viveu.

Em 1970 os Beatles se dissolveram, para jamais cantar ou gravar juntos. Mesmo assim, passados 49 anos, suas canções, seus discos e sua imagem continuam tão atuais e presentes como se o conjunto continuasse atuando.

Sem existir mais, os Beatles permanecem tão vivos como sempre. John Lennon é a alma e o cérebro desse admirável fenômeno. O único a contestá-los é o guru do bolsonarismo, o terraplanista Olavo de Carvalho, que descobriu ter sido Theodor Adorno o autor das músicas do quarteto. Uau!!

Lennon é o que se pode chamar de o primeiro grande fenômeno de massas produzido pelo marketing moderno, e o único que ainda em termos de mídia, sobrepujou o rótulo que veio daí. Na verdade, mais do que produto de marketing ou gênio, ele foi um produto de sua época.

Época conturbada, rica em mudanças e em estremecimentos sociais – Guerra do Vietnã, Watergate – da qual ele foi, ao mesmo tempo, causa e efeito.

Em 1966, provocou a ira dos católicos, no auge do ardor planetário da beatlemania, ao dizer que os “Beatles eram mais populares do que Cristo”, alimentando uma controvérsia que levou o Vaticano a declarar satânico o rock ‘n’ roll.

Esta pecha durou até o Papa João Paulo II convidar Bob Dylan para cantar na Santa Sé, em 1997. E o popstar americano descascou “Knockin’ on heaven’s door” ( “Batendo na porta do céu” ).

Mesmo antes do desfazimento dos Beatles Lennon passou a desempenhar um papel fundamental na luta pela paz. Foi um dos mais duros críticos da intervenção americana no Vietnã, o que lhe rendeu a proibição de entrar nos EUA.

Sua canção “Give Peace a Chance”, se transformou no verdadeiro hino das grandes manifestações populares contra a guerra no Sudeste Asiático.

Promoveu, igualmente, intervenções mais ousadas, como a que ocorreu em Amsterdã, quando ele e Yoko permaneceram por uma semana na cama de um quarto de hotel, à frente das câmeras – e do mundo –, pedindo: “Deem uma chance à paz”.

Lennon foi um rebelde, um revolucionário e saiu de cena para cuidar do filho em 1975 quando a geração à qual fornecia a trilha sonora crescera e começava a perceber que o mundo, afinal de contas não havia mudado tanto assim, e que ninguém era muito diferente dos seus pais – o que significava encarar o mundo e ter que ganhar a vida, ou seja, entrar no establishement daquele mesmo jeitinho tão criticado.

Lennon tinha plena consciência que a música pop não passava de indústria e que havia sido definitivamente alicerçada por eles, Beatles.

Seu último disco, que hoje ouvi com emoção e nostalgia, enquanto escrevia este texto, Double Fantasy, foi uma espécie de crônica de sua vida. Um disco romântico, sem as letras revolucionárias dos anos 60 e 70.

Um disco que parecia antever a chegada da era Reagan, do neoliberalismo. Um mundo apático, desiludido que passou a assistir as guerras como se elas fossem meros jogos de vídeo game.

Passados 39 anos de sua morte percebemos quanta falta está fazendo um talento como o de Lennon. Tenho certeza que se estivesse vivo, fatalmente estaria ainda envolvido com a causa da paz e escrevendo grandes e inspiradas canções para a gente ouvir, como a antológica Imagine.

Vida docente na perspectiva humanizadora

Para que/quem você educa?
Para qual modelo de sociedade?

Como nasce um professor?

14 anos que me encontrei com essa profissão.

Em 2004 comecei como professor, contrato emergencial no Estado do Rio Grande do Sul. Tinha 22 anos, estava no quinto semestre da graduação (Ciências Sociais UFRGS). No meu primeiro dia fui barrado por não estar com o uniforme da escola pública. Ou seja, fui confundido com aluno.

Minhas primeiras turmas foram incríveis, me senti em casa. O Colégio Estadual Padre Rambo de Porto Alegre foi minha casa até 2009, quando abri mão do contrato para entrar no mestrado na PUCRS com bolsa.

Porém, essas primeiras turmas ecoaram em todas as demais turmas que vieram na minha trajetória e que tive a honra de ser professor.

NUNCA fui tão valorizado como professor em sala nas escolas públicas, nunca fui tão reconhecido por ser mais que professor na instituição que trabalho atualmente (Universidade de Passo Fundo) e me acolheu desde 2013.

Entre minha primeira experiência e a que estou atualmente, conheci o mundo (Timor-Leste em 2012), vivi a realidade das periferias e escolas públicas de diferentes cidades e regiões do Brasil (como palestrante, assessor pedagógico e formador de professores), botei o pé-no-barro em ocupações, comunidades e periferias que me moldaram como um educador.

Não existe caminho fixo, dicas, ou receitas de bolo. Existem caminhos, eu trilhei experiências que não cabem no peito. E foram elas que me fizeram nascer e me tornar quem sou. Mas principalmente, foram meus alunos e alunas que me fizeram o professor que sou. Minha mãe e meus irmãos professores que me deram exemplos e experiências compartilhadas.
Em um dia como hoje eu digo: todos vocês que lembram dos seus professores, mais que nos enviar mensagens, que são importantes, lutem e apoiem eles nas suas lutas.
Nos sentimos sozinhos nas lutas, sejam gratos lutando ao nosso lado. Nossa bandeira é a construção de educação que o Brasil merece.

Professor Universitário

Como professor, que jamais pode imaginar que seria professor universitário algum dia na vida, todos os dias tento tornar consciente onde cheguei e onde ainda quero chegar.


Forço a mente para não naturalizar minhas experiências e conquistas. Torno consciente todas as vezes que alguém me chama de professor. Essa prática me faz JAMAIS esquecer da luta que travei comigo e com o mundo (interno e externo) do que abri mão para chegar até aqui, e das inúmeras conquistas cotidianas que recebo hoje por ter escolhido e conquistado esse espaço profissional.

Ao mesmo tempo não me furto da responsabilidade de JAMAIS perder minhas raízes. Lembrar de onde vim e que foi exatamente a simplicidade, a humildade e a amizade com o mundo, que tornou quem sou. E essas características eu não posso jamais perder e abandonar.

Não sou melhor que ninguém, não sei mais do que ninguém, optei desde que me entendo por gente, pelo lado dos oprimidos. E essa posição jamais mudarei. Sou assim, essa posição torna tudo que faço recheado de sentido. São linhas raízes. E você? Quais são suas raízes?

Mas… quando somos apenas fruto das experiências que a vida te permitiu ter?

Somos mais resultado do meio que protagonistas da nossa própria existência. Deveríamos aproveitar o tempo de vida que nos resta, já que nunca saberemos o quanto marcamos os que ficam.

Tenho saudade de tudo que já vivi, anseio por viver na saudade do que ainda vou viver, aí tudo terá sentido.

Quem somos?

Somos a única espécime que é definido por um verbo. Não existe ser cachorro, ser cavalo, mas o humano é definido por ser humano. Nunca seremos 100% humanos, uns possuem trajetórias mais e outros menos humanizadoras.

 A pobreza, miséria e falta de acesso á saúde, educação e moradia, são exemplos de condições desumanizadoras. A ação de se humanizar não depende das escolhas do indivíduo, mas das condições dadas pelo contexto social de vida e trajetória.

Qual o tipo de ser humano que você seria se todas as condições mínimas de humanização te tivessem sido garantidas? E se o mesmo ocorresse com toda a população de um país? Em quanto tempo teríamos um Brasil melhor e mais justo?

Qual o papel do professor? Qual o compromisso ético envolvido na educação da próxima geração?

Tenho certeza que o ensino de conteúdo não pode mais ser considerado um fim da educação. Conhecimento e reflexões são meios, para a construção de novas formas de pensar, ver e entender o mundo. Se nesse processo oferecermos direitos a aprendizagem e desenvolvimento de habilidades e competências, teremos feito nosso papel com maestria.

Para que/quem você educa? Para qual modelo de sociedade?



Acompanhe no canal no yotube Canal Senso Comuna, um canal de vídeos que faça frente ao senso-comum simplificador, preconceituoso e burro. Que motive a criticidade, autonomia de pensamento e, porque não, posicionamento político? Em um contexto em que se tenta criminalizar uma posição ideológica, o canal com nome provocativa de SensoComuna objetiva oferecer conteúdo crítico e reflexivo, além de dicas de leitura, de filmes, documentários e séries que possam provocar novas percepções da realidade.
Senso comuna

Crescimento econômico e custos ambientais: sempre uma relação polêmica

De que vale estimular o aumento quantitativo
(essência do crescimento) quando não
raras vezes se secundariza o fator qualitativo
(essência do desenvolvimento)?

O comentário a seguir feito pelo notável José Goldemberg, uma década e meia atrás, além de oferecer uma analogia sugestiva que facilita o entendimento de como chegamos a esse atual modelo de civilização insustentável do ponto de vista ecológico, ainda permite questionar a ideologia do crescimento econômico como um todo: “Economias vibrantes significam mais ´progresso`, empregos, melhores salários e as amenidades que o dinheiro pode comprar. Apesar de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo continuarem abaixo da linha de pobreza, outras centenas de milhões progrediram, sob muitos pontos de vista, no último século. Este progresso tem um custo ambiental, porque à medida que o consumo aumenta é preciso ampliar a área dedicada à agricultura, construir novas indústrias, estradas e outros meios de comunicação. É impossível ter isso tudo sem interferir no meio ambiente em que vivemos”. (1)

Pois bem, sem tirar os olhos do que se passa na conturbada província da economia – notadamente quanto ao fato de o crescimento econômico pautar o estilo de vida dominante nas modernas sociedades industriais – é possível afirmar, sem exagerar na dose de otimismo, que tem diminuído o número daqueles que colocam em dúvida que o alcance de “progresso” promove sérios e impactantes “custos ambientais”, cabendo citar, entre outros, a exaustão crescente dos recursos naturais, a avassaladora perda de biodiversidade, o aumento da poluição do ar e da água, a degradação dos solos, o aumento do desmatamento (desflorestamento) facilitando tanto a expansão do agronegócio como a especulação fundiária e o comprometimento dos ecossistemas.

Situações que aumentam, grosso modo, o peso e as complexidades que cercam o modo de viver da comunidade humana; principalmente das populações mais vulneráveis, vítimas em potencial dos “custos sociais” da sociedade industrial de crescimento.



Até onde pode nos levar a estupidez da
dominação do ser humano sobre a natureza?

Cabe reforçar: esse progresso orientado pelo crescimento econômico definido pelo aumento do PNB per capita, desde há muito tem sido colocado pelas forças produtivas como a única possibilidade de fazer avançar a vida social moderna, fortalecendo a ideia-corrente (peça-chave) de que, se a economia global se tornar cada vez maior, a sociedade contemporânea estará melhor.

Ao consolidar a busca de crescimento econômico ininterrupto como algo extremamente relevante – não importa o que cresça, como cresça e para quem cresça, desde que cresça de forma acelerada, assim opinam seus proponentes – a economia convencional, de imediato, coloca em curso a lógica do mercado, ou seja, “transforma” a vida social numa experiência de duas ordens, a produtivista e a consumista; como “se a sociedade não fosse nada além de uma grande linha de produção”, como escreve o historiador holandês Rutger Bregman. (2).

Obviamente tudo isso é feito sem que se leve em conta – e aí está um primeiro erro crasso – um pressuposto básico, a existência de limites dada pela natureza (matriz de tudo) à expansão da atividade humana. Como a expansão econômica, a rigor, não ocorre com a justa finalidade de atender exclusivamente as ilimitadas necessidades da comunidade humana (algo impossível, dada a finitude de recursos), mas sim para continuar “alimentando” a lógica capitalista – acúmulo de capital e do consumo, privilégio para que poucos acessem à riqueza, mais lucros, e muito mais resultados econômicos -, a partir daí se constrói com relativa habilidade a falsa promessa de que a conquista material, per si, cumpre o papel de facilitar a ascensão social de cada indíviduo; como se a demanda da humanidade por coisas materiais não ultrapassasse a capacidade de reposição do planeta.

Ora, aceitar que é possível crescer materialmente (de forma ilimitada) sem afetar ou comprometer a base de recursos da natureza é ignorar a assertiva de que a atividade econômica – observando-se o processo linear, isto é, extrai-produz-descarta-polui – é apenas um subsistema de algo maior, o meio ambiente. Insistir na crença de que é plenamente possível um crescimento econômico contínuo (ideologia dominante) é menosprezar, em partes e no todo, a causa ecológica, principalmente a necessidade cada vez mais premente do equilíbrio planetário e o consequente respeito aos limites ecológicos.

Desnecessário dizer que isso dificulta converter o desenvolvimento (condição almejada por todos porque responde pela melhoria dos padrões de vida social) em três fundamentais esferas: numa tarefa economicamente eficiente; num padrão socialmente includente e, por fim; numa visão ecologicamente equilibrada.

Assim, cabe deixar em evidência que o problema se agrava um pouco mais porque, uma vez obcecados pela busca de crescimento econômico (ponto medular da macroeconomia convencional), os proponentes do modelo econômico dominante não hesitam em tratar a Terra (e tudo o que nela contém) de duas maneiras bastante grotescas. Primeiro, como um gigantesco reservatório (espécie de fonte) de recursos naturais para “alimentar” a fome voraz de mais crescimento; e, em segundo, como um depósito (espécie de fossa) para descarregar os resíduos tóxicos do processo de industrialização.



O crescimento econômico
frente a limitação de recursos naturais.

Falando às claras, é dado perceber que tudo acontece como se de fato vivêssemos num Reino da Fantasia, onde o meio ambiente (environment) (3) fosse um imenso “banco” de recursos naturais em que se pode ir lá e fazer frequentes e exaustivas retiradas (recursos, energia) para abastecer a industrialização gananciosa do mundo atual; como se o processo econômico pudesse mesmo “funcionar” livre, leve e solto, sem troca contínua com o meio ambiente. Note-se que isso pressupõe ignorar (mais um erro crasso) que as atividades econômicas estão limitadas pela capacidade de carga dos diferentes ecossistemas da Terra.

Não considerar os limitados recursos ecossistêmicos como uma restrição à expansão econômica, ouso acreditar, equivale a ignorar que a desejável qualidade de vida (o bem viver) depende sobretudo da diminuição da pegada ecológica.

Uma vez alcançado esse ponto, é bom que se esclareça algo central: o fluxo de benefícios produzidos por um ecossistema inclui funções essenciais para a sobrevivência dos humanos e de outras espécies, o que implica dizer, sem delongas, e para contragosto das forças dominantes, que o “que” realmente sustenta a vida na Terra são os ecossistemas.

Sem os serviços ecossistêmicos, isto é, sem a disponibilidade de água potável, a regulação do clima, a biodiversidade, a fertilidade do solo etc, não há produção de absolutamente nada; tampouco há alguma maneira possível de a vida (como a conhecemos) prosperar com alguma qualidade ou ainda de a economia existir, no que toca à sua tarefa principal, crescer transformando recursos em produtos.

E para que não mais se fira à inteligência com o tosco argumento corrente de que a melhoria do padrão de vida passa indubitavelmente pelo aumento da capacidade de produção econômica, insisto num argumento bastante simples de ser entendido: não é possível (nem mesmo imaginável) conceber uma economia dissociada da natureza, visto que não há (eis outra impossibilidade) atividade econômica e humana sem uso de água, energia, matéria, fotossíntese ou uso de solos e pradarias, por exemplo.

De tal modo, não deixa, assim, de ser curioso senão paradoxal, ouvir o argumento em voga dos economistas do crescimento (apóstolos do expansionismo industrial e êmulos à ideia de prosperity without growth) de que o principal fundamento da macroeconomia pode sim, a bel-prazer, se esparramar por aí sem, no entanto, implicar em significativos custos ambientais. Ora, é preciso convir que isso violenta de tal maneira a realidade que chega a causar indignação.

É difícil imaginar que a ideia de crescimento (verdadeiro dogma da modernidade) não compromete da pior forma possível a natureza, quando se sabe que o ato de produzir, na verdade, é uma ação de transformação, como foi dito acima. Assim como é igualmente difícil imaginar que o crescimento, sozinho, é capaz de assegurar tanto a prosperidade quanto a manutenção do mundo vivo, quando “amparado” sob a perspectiva do conhecido e propagado termo sustentável.

Vem daí uma primeira pergunta básica: como sustentar (no sentido direto de manter o equilíbrio, a resistência) um constante crescimento (verdadeiro oximoro, registre-se) da produção econômica que ocorre “dentro” de um sistema complexo, a Terra, que, além de ser dotada de recursos limitados, jamais irá aumentar de tamanho?

Dito isso, é oportuno lembrar (desejando ressaltar) que a economia é um sistema aberto inserido num sistema finito e materialmente fechado (a Terra) que somente se “abre” para a energia solar. Falando de forma simples, assim é a Terra, um “corpo” finito e não crescente que recebe um fluxo de energia (luz solar) e devolve calor dissipado.

Portanto, quero crer que está muito claro que o crescimento ininterrupto de um subsistema (a economia) dentro de um “corpo finito” é, pois, uma impossibilidade. E cada vez que se aproxima dos limites planetários, esse “crescimento” se converte – vale enfatizar essa passagem – num fator gerador de desequilíbrio e custo. O custo advém do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metabólico, como escrevem José Eli da Veiga e Andrei Cechin. (4)

Vale o esforço da explicação: metabolismo social (ou metabolismo socioambiental) deve ser descrito como a troca energética e de material entre os seres humanos e seu meio ambiente natural, aproximando-se do nível de esgotamento do capital natural e devolvendo ao mundo vivo todas as formas de poluição, sem que levante preocupações acerca da possibilidade de regenerar o ambiente natural. Ocorre que todo esse processo de fluxo metabólico se inicia com a utilização e consequente escasseamento dos recursos naturais e, como é fácil presumir, termina com a devolução à natureza de mais poluição.

Mas não estranhe: tudo isso, de certa forma, ainda é um assunto nevrálgico que permanece quase que ignorado pela economia convencional (neoclássica, no uso rigoroso do termo) que insiste em observar o meio ambiente, a biosfera, apenas como “partes” da macroeconomia; daí a relutância em responder, por exemplo, algumas outras perguntas básicas, tais como: i) que ritmo de crescimento é possível?; ii) quanto se pode tirar de recursos da natureza e quanto se pode devolver de resíduos ao ambiente natural via atividade econômico-produtiva, ou seja, mais produção, mais transformação de recursos e muito mais energia dissipada (maior entropia)?; iii) como conciliar a voracidade da produção econômica num mundo ecológico limitado e como combinar a verdadeira prosperidade (desenvolvimento, e não crescimento) almejada por todos sem destruição ecológica  provocada justamente pela política de crescimento?

Detalhe importante: como reconhecidamente estamos num sistema de economia que se especializou em desarranjar os processos naturais essenciais para a manutenção da vida no planeta, e dado o claro predomínio da “ditadura do PIB/PNB” (indicadores associados ao desempenho econômico e ao sucesso das nações) que até mesmo visa orientar o destino humano, cada vez fica mais difícil em nossas relações cotidianas assimilar a orientação deixada pelo pensador austríaco Ivan Illich (1926-2002) de que precisamos nos desacostumar ao crescimento.

De um tipo de crescimento, reitera-se, inclinado a aumentar o tamanho da economia, e nem tanto em melhorar essa economia; por isso a pergunta lançada recentemente pelo venerável Joseph Stiglitz merece todo o destaque possível: de que vale o PIB estar crescendo, se a maior parte dos cidadãos está pior? (5)

Para aumentar a dose de provocação convém levantar outra indagação: de que vale estimular o aumento quantitativo (essência do crescimento) quando não raras vezes se secundariza o fator qualitativo (essência do desenvolvimento)?

Aos fervorosos devotos da política de crescimento, convém lembrá-los, nesse meio-tempo, que foi o próprio Simon Kuznets (1901-1985), criador do PIB, no começo dos anos 1960, que taxativamente afirmou que é (…) preciso levar em conta distinções entre quantidade e qualidade de crescimento, entre custos e rendimentos, entre curto e longo prazo. Foi Kuznets que didaticamente assim escreveu: “metas de crescimento devem especificar o que deve crescer e para qual fim”. (6)

De certo modo, isso é uma agressão ao modo de pensar dos arautos do crescimento, haja vista que “a ideia de uma economia que não cresça é anátema para o economista”, como escreve o britânico Tim Jackson; assim como, continua ele escrevendo, “uma economia de crescimento contínuo é anátema para o ecologista”. (7)

Polêmicas à parte, importa dizer que essa tensão retórica (tornando válido esse termo) se deve ao fato (ao menos assim se supõe) de o crescimento da economia ser visto como a pedra angular da ideia de progresso social, o que ajuda a consolidar o sentimento defendido pelos economistas com visão de mundo utilitarista – herdeiros de J. Bentham (1748-1832) – de que não há nada mais além da expectativa do crescimento econômico; como se isso fosse, note-se bem a abrangência do assunto, a razão de tudo.



Como conciliar desenvolvimento econômico
com preservação ambiental?

Dado o que já foi colocado aqui, à luz de razoável bom senso parece mesmo que o jornalista econômico David Pilling tem toda a razão quando provocativamente afirma que “só na economia a expansão interminável é vista como virtude. Em biologia, isso se chama câncer”. (8)

No entanto, o problema e a tensão persistem. Como tudo é mercantilizável (por isso o PIB mede somente a parte da economia que é mercantilizada), e enquanto se avança no erro de confiar ao mercado o cuidado da sociedade e da vida das populações, um tanto mais se consolida o erro (outro) acintoso de sempre exigir crescimento infinito num planeta finito, como se realmente isso fosse possível e realizável.

Objetivamente falando, acreditar nessa possibilidade (que não faz sentido) é cair na estupidez de conjecturar que a economia acontece no vazio, sem fazer uso de matéria e energia vindas da natureza. E mais: é ignorar a possibilidade de que, em alguns casos, pode ocorrer aquilo que Herman Daly chama de “crescimento antieconômico”; isto é, quando os custos costumam ser maiores que os benefícios.

Assim, para o bom entendimento, é válido ter em conta que o crescimento econômico vai só até certo “ponto” (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse “ponto” não há melhorias, mas sim perdas significativas, começando pela qualidade do ar que respiramos e pela devastação ambiental, afetando sobretudo a qualidade de vida nas cidades.

Se há então algum edificante conselho a ser seguido, esse certamente deve ser o de parar (dar um stop) a atividade econômica no momento exato em que os custos novos se igualam aos novos benefícios; nesse caso, abusando do “economês”, se diz que o custo marginal é igual ao benefício marginal.

Exposto isso, a conclusão de imediato soa assim: crescimento além dos limites do planeta é sinônimo de desequilíbrio imposto ao meio ambiente. Mais economia (produção de qualquer coisa) significa menos meio ambiente; mais crescimento implica em menos natureza, uma vez que, goste-se ou não, “todo crescimento sempre é uma depleção”, nos ensina José Eli da Veiga.

Aliás, é bom que se diga que qualquer crescimento que ultrapassa “limites” (seja qual for a delimitação em questão) tende a gerar problemas. Isso acontece até mesmo com o corpo humano (a acromegalia é um exemplo disso, principalmente quando ocorre na infância ou na adolescência). Na economia não é diferente; na natureza também não o é. A propósito, escreveu Nicholas Georgescu-Rogen (1906-1994): não há nada na natureza que cresça continuamente de forma saudável. (9)

Por fim, fica aqui o profícuo recado deixado tempos atrás por dois dos nomes mais representativos da militância ecológica brasileira, Antonio Lago e José Augusto Pádua. Escreveram eles: “A ecologia nos mostra a dimensão dos riscos que estamos correndo, cabe a nós construir as oportunidades” (10).

Construir as oportunidades, ouso opinar, implica imaginar meios de reorientar os rumos do planeta, procurando construir o quanto antes uma nova economia devidamente combinada à conscientização ecológica. Talvez assim consigamos preparar as bases de uma civilização verdadeiramente humana.



Em programa de TV, professor Nei Alberto Pies
aborda a forma como a humanidade tem se relacionado com a diversidade e as riquezas naturais: por ética ou por etiqueta?





Notas:

(1) J. GOLDEMBERG. “Progresso e meio ambiente”, artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 18 de abril de 2006

(2) R. BREGMAN. “Utopia para realistas – Como construir um mundo melhor”. São Paulo: Sextante, 2018, (p.101)

(3) Usando a definição empregada pelas Nações Unidas, MEIO AMBIENTE é o conjunto de componentes físicos, químicos, biológicos e sociais capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e as atividades humanas.

(4) A. CECHIN & J. E. VEIGA. “O fundamento central da Economia Ecológica”, in PETER H. MAY (Org.), “Economia do Meio Ambiente: Teoria e Prática”, 2° edição, Ed. Elsevier, 2010

(5) J. STIGLITZ. “People, Power and Profits – Progressive Capitalism for an Age of Discontent”. Nova York: W. W. Norton & Company, 2019

(6) S. KUZNETS. “How to Judge Quality”, The New Republic, (October 1962)       

(7) T. JACKSON. “Prosperity without growth: economics for a finite planet”. London: Earthscan, 2009, (p.4)

(8) D. PILLING. “A ilusão do crescimento”, São Paulo: Alta Books Editora, 2019, (p.14)

(9) N. GEORGESCU-ROGEN. “The entropy law and the economic process”. Cambridge: Harvard Univesity Press, 1971

(10) A. LAGO & J. A. PÁDUA. “O que é ecologia”. Coleção Primeiros Passos, ed. Brasiliense, 18° reimpressão, 2017, (p. 43)

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