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Desmandos de Moro e da Lava-jato

O argumento de que fins  justificam os meios
não pode prosperar  numa sociedade desenvolvida.
Quando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.

Uma verdadeira legislação beligerante foi  introduzida no sistema  de justiça criminal brasileiro pela  Operação Lava-Jato, promovida por  uma força  tarefa  de  treze  Procuradores  da República e processada pelo então Juiz Federal Sérgio Moro.

Juristas nacionais e estrangeiros denunciaram, desde o início da operação, a  existência de uma vertiginosa policialização da  justiça  penal, mediante aplicação  sistemática  de uma lei de combate  aos “novos inimigos internos”.

Assim, a  Lava-Jato, cancelou  garantias jurídicas e políticas  constitucionais, destruiu  a economia nacional, quebrou centenas de empresas, lançou milhões  de  trabalhadores  no desemprego, no desespero e na fome, não só no Brasil, mas em vários países da  América Latina.

Depois de  sucessivas  derrotas  eleitorais, nossas  elites  conservadoras lançaram mão de uma estratégia, fundada numa legislação de guerra  garantida  pelo  crime de obstrução da justiça, para reconquistar a  Presidência da República.

O   cenário  de lutas  políticas  deslocou-se  das praças  públicas  para  o espaço judicial  monocrático  da Vara Federal Criminal do juiz Sérgio Moro.Com ele, verificou-se a potencialização da partidarização ostensiva  da  Operação Lava-Jato.

Sob verdadeira  compulsão psíquica de uma obsessão  punitiva marcada pelo abuso do poder de processar e prender ( para confessar e delatar ), a Lava-Jato  desencadeou uma radical perseguição penal contra  Lula, a maior liderança política  da história  da República.

Nesse processo inquisitorial a hipótese prevaleceu sobre os fatos no processo penal. Os dados da realidade foram subordinados às  crenças pessoais  de acusadores e julgadores, movidos por um verdadeiro messianismo, onde não faltaram arroubos de  fé.

O MPF não teve pruridos em alardear  que não tinha prova dos fatos imputados, mas  tinha convicção dos mesmos.Uau!!   Sérgio Moro e os Procuradores foram vistos como “justiceiros  sagrados” e ganharam o  status  de  heróis.

Agora, com a gradual revelação dos diálogos dos “justiceiros”, pelo jornalista Glenn Greenwald, fica  patente  como Sérgio Moro  exorbitou em suas  funções  de juiz, comandando as  ações  na  Lava-Jato.

 O  Ministério Público cumpria  à  risca  as ordens de Moro. Ele era a figura  chave  nas investigações, deixando de lado a imparcialidade que  se exige de um magistrado.

A pedra angular do estado de direito  foi  desrespeitada.  Moro, declaradamente, ajudou um dos lados do processo a  fortalecer-se. Ele e  os Procuradores  deram um mau exemplo, rompendo  as  fronteiras  da legalidade. Ninguém, ninguém está acima do que reza  o regime  constitucional.      

O argumento de que os fins  justificam os meios  não pode prosperar  numa sociedade desenvolvida. Quando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.  Positivamente, não é assim que   se  combate  a  corrupção.

A arte e seu poder transformador

O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade, aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório cultural e estético.


Adaptados nesta nova realidade, na qual tudo é feito e resolvido através de recursos online e as relações são baseadas em aplicativos, não paramos para pensar nem apreciar o suficiente sobre arte.

Pode-se dizer que na arte existem inúmeros pontos não resolvidos, uma vez que não há uma definição clara sobre sua composição, o que torna o fazer arte uma tarefa angustiante. Mas toda atividade humana tem seu momento de angústia e, como dizem, “o antagônico da angústia é o sucesso e a vitória”.

Tenho angústias como todos nós seres humanos e elas ocorrem muitas vezes diante de possíveis indagações a respeito dos meus critérios no instante de fazer aquilo que se chama criação artística. 

Fernando Pessoa considera que a criação artística implica na concepção de novas relações significativas, graças à distanciação que faz do real. O poeta parte da realidade, mas distancia-se, graças à interação entre a razão e a sensibilidade, para elaborar mentalmente a obra de arte.

Na criação da arte, é fundamental haver liberdade e sensibilidade. Como artista plástica, não uso raciocínio lógico na criação, me perco nas linhas, nas curvas que se encontram e alteram significados, que compõem imagens, figuras incomuns e que são constituídas pelas cores e pela ausência delas. Eu crio com liberdade e emoção, pinto aquilo que me emociona, que me é significativo e sobre tudo que me apraz. Geralmente abordo questões do feminino porque, como já dizia Frida Kalho, “é o assunto que conheço melhor”.

Em trabalhos passados abordei a dor emocional, a força e resiliência das inúmeras mulheres que apesar de despedaçadas encontram coragem para se reestruturarem e colocam toda sua energia na tarefa de criar seus filhos, com delicadeza e sorriso no rosto. 

Há quatro anos me debrucei sobre os movimentos do corpo, algo tão simples que fazemos todos os dias sem pensar, sem refletir, sem dar a devida importância para essa engrenagem genial que é o nosso corpo.

Devo confessar que só parei para contemplar esse fenômeno do corpo em movimento quando meu pai sofreu um AVC e teve todo o seu lado esquerdo do corpo paralisado. Sem um corpo completo coisas simples como comer, ir ao banheiro e beber agua passam a ser movimentos extremamente difíceis.

No último ano, voltei as minhas origens e me encontrei fascinada pelo Sagrado Feminino, em minhas leituras percebi que na mitologia de muitos povos a mulher tem papel fundamental através de uma Deusa-Mãe, representada como a deusa geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade e cultura.

Na maioria das civilizações pagãs as deusas são as criadoras do Universo, conhecidas como qadesh (sagrado), elas são apresentadas como responsáveis por gerarem vidas, culturas, a linguagem e a escrita. Na mitologia grega a Deusa-Mãe ou Mãe-Terra é personificada como Deusa Gaia, a primordial geradora de todos os deuses, um dos primeiros elementos que surgiu no despontar da criação, junto com o ar, o mar e o céu.

Como professora não desvinculo o meu fazer artístico do meu dever de ensinar, por isso me encontro novamente angustiada. Para ensinar Arte é preciso ensinar a ler textos sem palavras, explorar fotografias, pinturas, ilustrações e charges, é preciso saber a gramática própria que rege a linguagem visual e contextualizar as condições de produção de cada obra estudada.

Assim como os grafites nas ruas, os comerciais da TV, as pinturas em livros e as obras de arte são formados por sinais, por elementos que formam a linguagem visual que precisam ser decodificados, lidos, para serem compreendidos. Expressões artísticas com características próprias precisam ser dialogadas com as turmas para que sejam realmente lidas e não “adivinhadas”.

 Hipóteses sobre o significado:

  • A composição é abstrata ou figurativa?
  •  O espaço é bidimensional, tridimensional ou plano?
  •  Existem linhas na imagem?
  • De que tipo: retas ou curvas, finas ou grossas?
  •  A opção por um tipo de cor (quente, fria, clara, escura) está ligada ao horário do dia ou estação do ano?
  •  E quanto às texturas: alguma camada passa a sensação de maciez, dureza, lisura ou aspereza?
  •  O trabalho é complementado com a análise de outros elementos formais da linguagem visual – formas, luminosidade, técnicas, gênero (retrato, paisagem, natureza-morta) e estilo a que a obra pertence. 

Somados aos textos verbais, essas linguagens ajudam os alunos a interagir com o mundo e a se expressar melhor.   “Colocar os alunos para produzir com os conhecimentos adequados das obras artísticas, surgem atividades de contextualização”.

As atividades artísticas são na verdade o contato mais direto do aluno com a arte, pois são inúmeras possibilidades de experimentações das linguagens artísticas como o desenho, a pintura, a escultura, o teatro e a musica, e compete à arte-educadores uma reflexão mais intensa em relação à aprendizagem de arte nas escolas, embasada nos procedimentos artísticos.

O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade, aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório cultural e estético.

O que é mais significativo do processo de aprendizagem é o momento em que o aluno, com autonomia, começa a admirar o trabalho artístico, interpretando e identificando suas características.  O aluno também passa a consumir arte de forma natural, seja através de filmes, vídeos, música, internet ou até mesmo ao observar a arte ao seu redor no cotidiano.


Autora: Clea Batezzini, professora e artista plástica.

Sentimento oceânico na educação brasileira?

Por onde devemos começar mudança na educação?
Pelos empresários da alta tecnologia?
Pelos doutores em seus sofisticados laboratórios?

Sentimento Oceânico é apresentado por Freud como impressão de vínculo e comunhão com o mundo, sendo para ele, uma ilusão ou utopia. Tenho participado de diversas conferências e debates sobre como melhorar a Educação Básica brasileira.

Nos eventos mais qualificados e com embasamento científico e político, os temas são redundantes: versam sobre a importância de formular políticas públicas educacionais de estado, não de governo, por meio de um Sistema Nacional de Educação.

Frequentemente, são citados excelentes exemplos de alto impacto em aprendizado dentro do próprio Brasil, por regimes de colaboração entre redes municipais e estaduais de educação. Também é comum ser apontado que, no século 21, precisamos potencializar as habilidades cognitivas e socioemocionais dos estudantes.

Porém, o tema mais debatido nessa área é a urgência de uma nova lógica na formação de professores. É unânime, entre os mais renomados especialistas, que a formação inicial dos nossos professores está obsoleta, utiliza métodos, tecnologia e, principalmente, um modelo mental ultrapassado, embasado no século 19, quando o mundo era baseado na escassez.

Partindo do princípio que nenhum de nós está preparado para os desafios da indústria 4.0, para a enchente de informação e o uso massivo de tecnologias exponenciais, que já estão mudando radicalmente a nossa vida, por onde devemos começar esta mudança? Pelos empresários da alta tecnologia? Pelos doutores em seus sofisticados laboratórios?

Hoje, tenho a mais clara certeza: devemos iniciar pelos nossos professores da Educação Básica. Não empurrar o problema para eles, e, sim, investir nossos melhores talentos da ciência e todo recurso disponível, para oferecer a eles a melhor formação, as melhores condições e o mais alto status social: de forjadores de nação.



Sentimento” é uma palavra aberta – nela cabe toda a massa difusa de nossa subjetividade. “Oceânico” é um adjetivo emprestado do substantivo “oceano”. O oceano é a imensidão líquida que envolve 71% do nosso planeta. Vasto e grandioso, abriga em seu ventre os segredos de uma biodiversidade escondida de nós, que, enquanto seres terrestres, vivemos à margem do principal componente da superfície da Terra. (Gabriela Richiniti)

Educar ou doutrinar sem escola?

Num cenário intensa desconfiança em relação aos professores,
chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro
a educação domiciliar significa colocar mais lenha na
fogueira desse conflito, produzindo também uma
cortina de fumaça para a segurança
do direito à educação.


A discussão sobre educação domiciliar (“homeshoolling”) é bastante ampla, porém a defesa dessa ideia no Brasil tem ocorrido de forma limitada.

Avalia-se a escola pelos seus déficits, tanto públicas quanto privadas, em relação ao conteúdo, às formas de inclusão e aos resultados e são propostas soluções simplistas e restritas para um pequeno grupo. Mas essa política deveria ser prioritária se pensamos que há pelo menos 1 milhão de jovens fora da escola no país por conta da pobreza e da violência?



“A grande motivação dos defensores do modelo, seria a violência e o bullying sofrido pelos estudantes, além de incompatibilidade moral e religiosa das famílias com o sistema escolar. Mas será mesmo? Ou seria um processo de salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?” (Amilton Martins, professor)



A escola com todas as suas dificuldades ainda é o espaço garantidor de outros direitos. A cada 1% a mais de crianças na escola, reduz em 2% os homicídios (IPEA, 2016). Além disso, através dela se pode construir uma sociabilidade na diversidade, com a pluralidade de ideias e aprendizados.

Por melhores que sejam as mães e pais eles não poderiam ter a prerrogativa exclusiva de educação dos filhos e a Constituição Federal assim o diz, até porque as mulheres, em geral as cuidadoras dos filhos, não são recompensadas por este trabalho, fragilizando-as socialmente e em relação aos homens.


Em um cenário de intensa desconfiança em relação aos professores, chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro a educação domiciliar significa colocar mais lenha na fogueira desse conflito, produzindo também uma cortina de fumaça para a segurança do direito à educação.

E os pais que querem homeshoolling sem interferência do Estado não estariam pleiteando uma espécie de doutrinação, advogando por um projeto educacional de pensamento único, desconsiderando outras realidades, inclusive que 70% das crianças e adolescentes abusadas sexualmente são vítimas em casa?

 
Uma escola mais inclusiva e humanizadora precisa ser construída, com espaço para a subjetividade e rompimento dos preconceitos, fomentando seres livres, focados no bem comum, empáticos e capazes de resolver problemas concretos, sem tanto foco no individualismo e na competição, a começar pela experiência de aprender no coletivo, e nada como estar em uma sala de aula para barrar doutrinações e violências.



“Na minha experiência, se a escola se construir num espaço onde os estudantes são convidados a se encantar com os conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais que alunos. Formaremos seres humanos.” (Ivan Dourado, professor UPF)

Vivências de um Carioca no Sul

Nascido numa favela carioca do Rio de Janeiro,
colega no ensino fundamental do jogador
da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se
um “camarada legal, disponível, aberto e convicto
de suas opiniões e entendimentos de mundo e sociedade.


Alberto Eleutério Alves, mais conhecido como “Carioca”, faz parte de um grupo de pessoas com atuação social e política diferenciada em nossa cidade, Passo Fundo, RS. No meio político local, seja através de sua atuação na Câmara de Vereadores da cidade, na Prefeitura Municipal, nos movimentos de juventude e nos partidos políticos, é uma figura querida e estimada por muitos.

Nascido numa favela carioca do Rio de Janeiro, colega no ensino fundamental do jogador da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se um “camarada legal, disponível, aberto e convicto de suas opiniões e entendimentos de mundo e sociedade”. Um cara acessível, fácil de conviver e bom de boa prosa sobre cultura, política e organização da sociedade.

Com grande prazer, entrevistamos este cidadão do país, carioca de nascimento e, hoje, gaúcho por adoção.

NEI ALBERTO PIES: Nasceste numa favela carioca, convivendo até teus 43 anos no Rio de Janeiro. Apresente-nos um pouco da tua história a partir do Rio de Janeiro.

Nasci e até os oito anos morei na Favela da Catacumba, localizada numa das áreas mais nobres do Rio de Janeiro, a Lagoa Rodrigo de Freitas. A Elite carioca vivia incomodada com aquelas casas uniformes e com os seus moradores. A ditadura Militar então decidiu atender os anseios da burguesia da cidade e começou e instituiu um processo de remoção das favelas existentes na zona sul do Rio de Janeiro.

Nos anos 1970, a produção de conjuntos habitacionais esteve associada à política de remoção de favelas. Nesse período, grande quantidade de moradores de favelas foi transferida para assentamentos distantes do núcleo, que na maioria das vezes não contava com comércio e nem com sistema de transportes coletivos que desse boas condições de deslocamento para essas pessoas.

Boa parte das áreas de onde foram removidas as favelas foi ocupada por grandes empreendimentos imobiliários que se destinavam à construção de conjuntos de edifícios de apartamentos de alto luxo.

Minha família foi jogada num desses conjuntos habitacionais que chamo de favela de cimento armado, nos confins da cidade. Conjunto do Quitungo, Vila da Penha, Zona Norte da cidade. Diante da falta de estrutura e de trabalho não é difícil entender porque os conjuntos habitacionais construídos naquela época viraram locais dominados pelo tráfico e pelas milícias.

Minha infância foi como a de milhares de jovens que moram nas periferias ou nas favelas Brasil a fora, sem luxo, com muitas dificuldades, mas talvez a diferença tenha sido a família. Naquela época era eu e uma irmã, Sandra, que mora em Cataguases Minas Gerais. Depois nasceram meu irmão, Roni e minha irmã Bárbara.

Viver numa comunidade não é fácil você tem que aprender a conviver com a violência dos chamados bandidos e com a violência daqueles que deveriam nos proteger, a polícia. Mesmo com todos os problemas eu não tenho do que reclamar da minha infância. Tudo que vi, e vivi serviram para moldar o meu caráter e a minha personalidade.


NEI ALBERTO PIES: Muito se discute e se fala da violência nos morros e favelas cariocas. Qual é a tua percepção desta realidade desde a tua existência até hoje?

A violência no Rio de janeiro não vem de hoje. Ouso muita gente dizer que na época da ditadura não tinha essa marginalidade eu afirmo com conhecimento de causa que quem diz isso não conhece a história da cidade.

Em 1970, depois que fui morar no Conjunto do Quitungo com oito anos de idade foi que conheci a morte de perto. Lembro até hoje de um ajudante do caminhão de gás que foi assaltado na entrada do conjunto e morto por que reagiu. Imagina uma criança de oito anos vendo aquela cena de violência ali na sua frente.

O comércio de droga rolava solto onde eu morava. Como diz uma música de Gabriel o Pensador. Era mais fácil conseguir um baseado ou um pino de cocaína do que um pão. O cheiro da morte vivia impregnado naquele lugar. Não havia um dia sequer que alguém não era morto. Ou pela disputa das bocas de fumo, ou por ter sido descoberto como X-9, ou pela polícia quando se recusavam a pagar a propina para não ser incomodado.

Sim, porque a paz podia até reinar nos bairros ricos da cidade, onde a polícia militar protegia o cidadão mais abastado. Mas nas periferias e favelas a violência nunca foi diferente.


NEI ALBERTO PIES: Afirmas, de forma convincente, que a sociedade brasileira, mais cedo ou mais tarde, precisa enfrentar o tema de desmilitarização. De onde vem este convencimento e quais são os alicerces desta convicção?

Essa é uma discussão que não temos como fugir. A primeira coisa a se fazer nesse processo é esclarecer que Desmilitarizar a Polícia; não é desarmá-la e, sim, trazê-la para os marcos democráticos. Permitindo assim que os policiais tenham direitos civis, os protegendo dos abusos da rígida hierarquia militar que frequentemente se transmuta em assédio moral e violência, é humanizar a formação e a atuação dos agentes.

Primeiro porque a militarização da polícia é uma herança da ditadura. O Tenente Coronel reformado da PM de São Paulo, Adilson Paes de Souza afirma que o curso de formação das policias brasileiras não atende as necessidades do que se espera de uma verdadeira em educação em direitos humanos.

Ele também afirma que em entrevista com policiais que cometeram atos criminosos, todos eles relataram que na formação nenhuma linha sequer sobre a realidade que eles iriam enfrentar. Sobre violência policial, corrupção, letalidade.

“Ao contrário a formação é centrada na virilidade: “o policial deve ser o macho, o herói, aquele que não sente dor”. Prevalecendo o mito que tem que negar a dor em si mesmo e, ao negar em si mesmo, acaba descarregando a dor em alguém”. 

Ele vai ter um comportamento agressivo porque aprendeu que ter autoridade é ser violento. Tratando o oponente como um inimigo no campo de batalha. Fazendo com que sejamos a polícia que mais mata e que mais morre no mundo. Por isso precisamos readequar a polícia para a democracia terminando com o pensamento de guerra que hoje impera. Enquanto isso não for feito continuaremos a viver numa democracia formal e não numa democracia verdadeira.

NEI ALBERTO PIES: Na tua adolescência, fostes colega de escola na quinta-série, do jogador da seleção brasileira e hoje senador da República Romário Faria. Conte-nos sobre Romário, as peladas de futebol, os poucos amigos que ainda estão vivos daquele tempo da infância.

Romário é três anos mais novo que eu. Nós morávamos uma quadra um do outro. O pai dele tinha um time de futebol chamado estrelinha. Naquela época era comum os times terem dois Quadros, ou seja, dois times.

Ele Romário como era muito novo ficava no banco do segundo time, mas quando entrava parecia que a bola o procurava. Dificilmente saia do jogo sem fazer um gol. Estudávamos juntos.

Como afirmo nas respostas acima, morávamos num lugar onde a invisibilidade social era muito gritante, muitos escolhiam o mundo do tráfico como uma forma de ter poder e se vingaram da sociedade que se fingia de cega para não os ver, outros como nós, escolhemos o futebol com a válvula de escape.

Quem é o jovem pobre que não sonha ser jogador de futebol? E nós não éramos diferente.

O clube mais perto de onde morávamos era o Olaria. A.C e foi lá que demos os primeiros os primeiros passos num clube de primeira divisão do futebol carioca.

Mas como a vida é dinâmica ele Romário, Gonçalves e Ailton se profissionalizaram e com toda justiça chegaram onde chegaram. Outros como eu ficaram pelo caminho. Mas eu nunca tive nenhuma frustração por conta de não ter conseguido o objetivo inicial de ser um jogador de futebol.

Acredito que tudo que acontece na nossa vida tem uma razão; nada acontece por acaso; se não for por uma causa, é para um ensinamento… tudo o que chega, chega sempre por algum motivo…

NEI ALBERTO PIES: Durante sua juventude, conhecestes Padre Zezinho, por intermédio de sua mãe, até hoje seguidora do catolicismo. O que levas de ensinamentos para tua vida a partir da convivência com este importante padre da Igreja Católica?

Minha relação com o Padre Zezinho não foi longa pois ele não demorou muito tempo no Rio de Janeiro. Eu nunca o chamei de Zezinho, sempre o chamei de José. Ele nunca reclamou de eu o chamar assim.

Tenho um carinho muito grande por ele. Pois foi um dos poucos padres que convivi que sempre procurou dialogar comigo. Eu hoje compreendo que era um adolescente complicado, pois sempre fui muito contestador, nunca aceitei que me impunha alguma coisa sem me convencer. E ele estava sempre aberto para tentar dirimir minhas dúvidas.

Hoje não tenho religião, não consigo acreditar em um ser superior mas agradeço muito a ele por ter me aconselhado a jamais ser desrespeitoso com a crença alheia. Um de suas músicas que mais me identifico é CANTIGA PARA UM ATEU.

Um grande amigo meu
Que a sua fé perdeu,
No dia de Natal me procurou.
Contou-me a sua vida 
Tão cheia de incertezas
Com tanta honestidade
Que me fez chorar.
E a lágrima teimosa caindo no meu rosto
Lavou meu preconceito de cristão.

Eu sei que da verdade eu não sou dono,
Eu sei que não sei tudo sobre Deus.
Às vezes, quem duvida e faz perguntas,
É muito mais honesto do que eu.



NEI ALBERTO PIES: Estás há mais de dez anos em solo gaúcho, convivendo agora com a nossa cultura gaúcha. Quais são os principais conflitos e diferenças entre a cultura gaúcha e a cultura carioca?

Olha, quando eu morava no Rio de Janeiro eu ouvia as pessoas dizerem que o Rio grande do Sul era a Europa brasileira e eu ficava pensando sobre isso. Depois que vim morar aqui descobri que o Rio grande do Sul realmente é muito belo, mas que não é diferente de nenhum outro estado brasileiro. Pois tem as mesmas mazelas sociais de ambos.

As diferenças culturais são grandes pois o gaúcho tem muito apego as tradições, a sua terra, aos seus costumes, coisas que nós no Rio não nos importamos. O carioca curte muito barzinho, samba, pagode, praia. Aqui vocês até para ir na padaria se arrumam todo, lá vamos ao shopping de chinelo e bermuda.

Mas o mais importante é que essas diferenças não impedem que o carioca e o gaúcho se entendam. Na verdade, somente duas coisas me incomodam aqui no Sul, o frio e o conservadorismo exacerbado.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a tua relação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no Rio de Janeiro, em Passo Fundo e no restante do país?

Eu, no Rio, já tinha uma relação de admiração pelo PCdoB, mas não era filiado. Foi nas eleições de 1986 convidado pelo André amigo de trabalho e baterista de uma banda de Punk Rock que estávamos montando, me inseri na campanha a deputado e conseguimos eleger como a deputada estadual mais votada Jandira Feghali com 91.977 votos e Deputado Federal Edmilson Valentin 43. 730 votos. Nesse ano fiquei muito mais próximo do partido.

Foi só em 1989 que oficializei minha filiação ao PCdoB, que foi o primeiro e será o único partido que militarei. Já viajei para várias cidades do pais e como todo bom comunista onde a gente chega se apresenta ao partido e se coloca à disposição.

Vim para Passo Fundo em 2004, e assim o fiz, me apresentei e logo estava na luta. Me lembro que tínhamos um fusca para fazer campanha. O camarada Juliano Roso concorria reeleição, o mais engraçado é que ninguém tinha habilitação no partido aqui em Passo Fundo então eu passei três meses mais com o juliano do que a família. Mas no fim deu tudo certo.

Quando aqui cheguei o partido era pequeno, mas os camaradas se multiplicavam na hora da campanha. Eu tenho muito orgulho de fazer parte das fileiras do PCdoB, partido mais antigo do Brasil, presente nas principais batalhas e jornadas da nação e da classe trabalhadora, cumprindo uma agenda que ajudou a construir o Brasil e a formar uma consciência patriótica, nacional e popular. 

NEI ALBERTO PIES: Desde quando nutres sentimentos, curiosidades e apegos com a cidade de Passo Fundo, RS (infância, juventude e momento atual).

Bem o meu primeiro contato com a cidade de Passo Fundo se deu através da música. Sim, pois meu pai levantava cedo para trabalhar e naquela época o rádio era o principal instrumento de comunicação de massa, então ele ligava na Rádio Globo RJ e todos os dias ouvia um programa chamado a Impecável Maré Mansa, era um programa de misturava noticia e música. Tocava de tudo. Desde Luiz Gonzaga a Teixeirinha que o locutor chamava de O Cancioneiro Gaúcho.

A música que mais tocava era Coração de Luto, mas um dia tocou Gaúcho de Passo Fundo e eu deitado, com sono, ouvia aquela canção e ficava imaginando onde ficava Passo Fundo.

Passados alguns anos me casei com uma Passofundense, me separei e já em Passo Fundo conheci a minha atual companheira com quem vivo a 14 anos, ela é da fronteira, mais precisamente de São Borja. Desde que aqui cheguei sempre fui muito tratado por todos, a cidade é muito boa de se morar, as pessoas são muito receptivas.

NEI ALBERTO PIES: Qual é, na tua visão, a importância dos partidos políticos, dos sindicatos, das organizações sociais, dos grupos de juventudes para a manutenção dos direitos sociais e da própria democracia?

Na nossa experiência histórica, as noções de partidos políticos e de democracia (Governo do povo para o povo) estão intimamente ligadas, pois a divulgação, pelos partidos, de diversas doutrinas filosóficas e politicas existentes no mundo tem fomentado o debate e a busca por soluções para as diversas mazelas que afligem a nossa sociedade, favorecendo a formação de opinião sobre as principais questões que envolvem o país e o amadurecimento do eleitor para o exercício da democracia.

Nunca é demais recordar que, ao longo da história, os trabalhadores travaram uma árdua luta para legitimar o sindicato como escudo, diante da desigualdade na relação com o empregador. Quando o trabalhador se une ao sindicato, ele se fortalece, pois dá à instituição poder efetivo para defendê-lo do facão da demissão e da submissão à empresa; para negociar por ele; para ajudá-lo a resolver os problemas do trabalho etc. é preciso conscientizar os trabalhadores da importância do fortalecimento da instituição sindical.




“Neste contexto de mundo individualizado e de redução de direitos e garantias trabalhistas, nos desafiamos a avaliar o papel contemporâneo dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras, uma vez que são, essencialmente, organizações de defesa de interesses coletivos”. (Nei Alberto Pies)




Como já dizia o filósofo Karl Marx “Mudanças na sociedade ocorrem a partir da ebulição dos movimentos sociais: contra o capital e o Estado”.

Os Movimentos Sociais são de extrema importância, porque cobram mudanças, reivindicam transformações, mostram quando a povo não está satisfeito com as medidas adotadas por governantes, dirigentes e gestores, além de cobrar medidas, quando necessário, porém os Movimentos Sociais perderam força com o passar do tempo. Os movimentos sociais nos anos 60/80, diferem dos ideais dos movimentos na atualidade.

O individualismo, egoísmo, concorrência desleal, inveja, ambição, alienação imposta pelo avanço tecnológico e no mundo globalizado vem impedindo que pessoas se unam para cooperar, ajudar e reivindicar o bem comum.

Em se tratando da juventude brasileira está tem se mostrado resistente aos processos antidemocráticos instaurados no país. Desde a ditadura militar, até o golpe parlamentar contra a presidente Dilma, o entusiasmo dos estudantes ocupa as ruas em defesa da democracia e pela educação pública, gratuita e de qualidade.

Entender o processo de representação da juventude ao longo de nossa história recente torna-se fundamental para compreender a conformação de novas políticas que colocam o jovem como sujeito capaz de refletir e agir sobre a própria história.

NEI ALBERTO PIES: Como a cultura e o povo carioca construíram um político tão emblemático como Jair Messias Bolsonaro, hoje, nosso presidente da República?

Bolsonaro é o extremo e a cara da elite carioca, que tem medo da democracia, porque esta tem o poder de mudar a face do país.

Porque democracia inclui os pobres, gente que a elite do Rio sempre tentou deixar de fora do jogo democrático, basta lembrarmos do Governo Garotinho que fazendo o jogo das elites começou a fazer os chamados piscinão nos bairros periféricos da cidade do Rio de Janeiro, iludindo os pobres destas comunidades de que estava lhes proporcionando lazer mais próximo de casa quando na verdade a única intenção era afastar o que os moradores da zona sul do Rio costuma chamar de suburbanos das praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca.

Como lembra o sociólogo Jessé de Souza: “salvo raríssimas exceções, nossa democracia é uma farsa”.

Bolsonaro sempre foi eleito pelo eleitor que vomita conceito de meritocracia sem se dar conta de que na estrutura de poder no Brasil, sempre tiveram mais oportunidades que as classes populares e sua ascensão política também se deu no vácuo do poder que a elite gerou no movimento pelo Impeachment de Dilma.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase, um incentivo, um desafio a todos os que ainda acreditam num país mais justo, mais democrático e com mais inclusão social.

Nesses tempos difíceis não podemos deixar que a realidade corroa a alma. Precisamos de atitude, ação. Tomarmos a frente. Ter consciência do momento perigoso que vivemos e não fugir a luta. Pois não há vitória sem luta.

Seis meses de (des)governo

Desde a campanha presidencial,
uma cultura de culto ao ódio foi desenvolvida
e, agora, se cristaliza.

Passados seis meses do (des)governo Bolsonaro me pergunto sobre o inexplicável Brasil que parece gostar de  amedrontar e sabotar a si mesmo.

O que temos visto é um presidente atrabiliário e peripatético: O que diz pela manhã está sempre sujeito a mudanças repentinas  à tarde.

Na demência bolsonariana não faltou até mesmo a sugestão de armar a população para fins políticos, para acuar imaginários inimigos externos  e o Congresso, no melhor estilo chavista, que tanto o ex-capitão critica. Seria ele um chavista de direita?

Desde a campanha, uma cultura de culto ao ódio  foi desenvolvida e, agora, se cristaliza.  Ele, e seus  seguidores, tratam de repor o que nós temos  de pior e que não foi superado ao longo do tempo.

O bolsonarismo surge  das entranhas  da nossa história de opressão, de  humilhação.  Um passado que nós estávamos buscando superar.

“Nossa sociedade conviveu com a escravidão e preservou, mesmo na contemporaneidade,  uma espécie de ritual  nacional de oposição  às  distâncias  sociais, de gênero, de  religião, de raça, quando na prática  e no cotidiano  as reitera”, assevera a historiadora e antropóloga  Lilian Schwarcz, no livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro.

O bolsonarismo representa esta execrável reiteração. Nestes seis meses, deixou claro que quer destruir a educação, as ciências, a cultura, o meio ambiente, as reservas indígenas, os direitos trabalhistas e das minorias, as leis de trânsito, a aposentadoria dos humildes.

De janeiro a junho Bolsonaro e seus ministros mostraram-se personagens de uma mediocridade tão ostensiva que disfarçá-la  tornou-se  impossível. Isto ecoou até no exterior. Os patéticos personagens bolsonaristas  parecem odiar  a inteligência  ou  com ela  não possuir a mínima afinidade.

O ministro da Educação, por exemplo, conseguiu confundir o escritor Franz Kafka com um prato típico árabe. Se não bastasse, ao acusar Lula e Dilma de possuírem asseclas, os chamou de “acepipes”. Uau!!

O “ilustrado ministro”, não por acaso, quer acabar com as universidades públicas. Para quem é tão medíocre, a inteligência alheia deve ser  estarrecedora.

Já a ministra da Agricultura, ao longo deste semestre, autorizou a  liberação de mais  de  230 pesticidas, a grande maioria  condenada na Europa, por prejudiciais à saúde.  Na Amazônia, em maio, a devastação bateu recorde.  É o paraíso do veneno e da moto-serra!

Sérgio Moro, o “herói” do bolsonarismo, está em processo de  desmoralização em decorrência  da comprovação  do que já era  sabido até pelo reino mineral, isto é, seus  capciosos julgamentos com viés ideológico inegável.

A forma como a economia está sendo conduzida deixa claro  que continuará em estado  letárgico. Os resultados pífios dos  últimos meses, mostram  a incompetência da equipe do Chicago Boy Guedes, que só pensa em ferrar  os aposentados. A crise na economia é, acima de tudo, uma crise de inteligência estratégica.

Enfim, o  (des)governo Bolsonaro  tem se  caracterizado por aprofundar a crise e a separação dos  brasileiros  em lugar de harmonizá-los.

A construção de uma sociedade civilizada não faz parte  da agenda  do “mito” e de seus  asseclas (acepipes?), como diria  o ministro da Educação.

Sou obrigado a me valer, novamente, de  José Saramago: “ Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”.





“Sabemos que um dos grandes problemas da instabilidade social é o desemprego e a grave concentração de renda. A dominância financeira é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento país. Não há economia que resista aos vampiros que estão tomando conta do banco de sangue brasileiro. Só não vê quem não quer”. (Setembrino Dal Bosco)

Findam vidas, mas não as lutas!

“Fernandão” deixa órfão uma geração de militantes
que aprenderam a viver a política no seu sangue,
que foram capazes de oferecer-se em sacrifício,
para o bem e para as conquistas da coletividade.

De maneira precoce e inesperada, a cidade de Passo Fundo perde um dos seus cidadãos aguerridos na luta por igualdade e inclusão social, através da política.

Fernando César Brandão Pereira era um cidadão engajado na política local, conhecido por muita gente, filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o ano de 1996. Gostava de executar tarefas partidárias e sentia-se responsável pelas conduções políticos do seu partido.

Fernandão, como era conhecido, tinha um jeito peculiar de se fazer presente nos grandes movimentos da política local e brasileira. Durante os atos públicos, movimentos de greve ou de resistência por direitos, reuniões políticas abertas à comunidade, reuniões partidárias, encontros de militância e de discussão de temas políticos, sempre fazia manifestações contundentes, chamando atenção para que todos mantivessem o foco das lutas e não esquecessem da luta de classes, conhecimento que aprendeu lendo as obras de Karl Marx, mesmo com suas dificuldades de visão.

Formou uma família bonita, tinha dois filhos e uma esposa que sempre foram parceiros na sua superação. Com dificuldades para enxergar, teve de enfrentar os desafios da mobilidade, numa cidade que ainda está se adaptando para a verdadeira inclusão dos deficientes.

A sua voz, o seu discurso, foram formas mais eficazes de se fazer presente entre a multidão. Gostava muito da política feita nas àgoras (referência às praças gregas), da multidão, das caminhadas, da política das vozes da rua.

“Fernandão” deixa órfão uma geração de militantes que aprenderam a viver a política no seu sangue, que foram capazes de oferecer-se em sacrifício, para o bem e para as conquistas da coletividade.

Seguem alguns testemunhos e depoimentos de pessoas da nossa cidade que conviveram e aprenderam a respeitá-lo e a reconhecê-lo como um grande ser humano.

Ao companheiro Fernandão!

A vida que começa, finda. Mas a finalidade da vida é gerar mais vidas e amizades. A pior nota da vida é partir sem deixar amigos/as. Neste sentido, a vida do Fernandão não foi em vão, pois ele teve a capacidade de agregar muitas pessoas ao seu redor.

Eu gostava pessoalmente dele porque admirava o projeto de sociedade que defendia e sua definição política. Lembro-me muito de seus discursos aguerridos nas assembleias do partido e nos pleitos das campanhas políticas. Sua voz era distinguida no meio de outras vozes.

Eu mesmo tive a oportunidade debater com o Fernandão, entre assuntos, o método de Marx, porque ali tínhamos uma divergência teórica salutar. Jamais irei esquecer dos propósitos políticos do companheiro Fernandão!

Pessoas como o Fernandão nunca morrem; ficam na memória. Mais do que um militante fiel e verdadeiro, Fernandão sempre foi um ser humano de coração, nas suas atitudes. A minha gratidão a ele na sua Páscoa é especial por esta atitude afetivo-humana.

Fernandão, você partiu, mas o que construímos juntos tem força ética e irá permanecer na História e vai manter a esperança acesa de outro possível. Da minha parte honrarei seu nome e farei todo o esforço para levar seu legado adiante.
Fernandão, até breve.

Do companheiro José André da Costa (Caldas Novas – Goiás).

“A passagem do Fernando entre nós deixou marcas em muitas pessoas e dezenas delas foram lhe prestar homenagem desde ontem (dia 02 de julho de 2019).

Para os que não conseguiram acompanhar, cabe destacar que passaram por lá várias gerações de militantes da esquerda na cidade, numa demonstração de carinho por ele de toda esquerda, não só do partido.

O Fernando foi velado com uma bandeira do PT sobre o espaço que lhe servirá de hospedagem a partir de agora e, ao ser enterrado, nosso vice-presidente, Ivan Canal, em nome do PT, lhe prestou agradecimentos e entoou as frases que eram marca registrada dele inicia-las ao final de nossos encontros: *Partido, Partido, é dos Trabalhadores*. Que as coisas boas que ele representou fiquem sempre em nossa lembrança!”.

(Áureo Mesquita)

“Falar do Fernandão não é uma tarefa difícil: ele é único, altivo, espaçoso, voz inconfundível e detentor de um conhecimento invejável. Para mim, uma das poucas pessoas em Passo Fundo, com a marca do PT, tanto que usava o PT como sobrenome. Teria inúmeras histórias para relatar sobre ele, mas fico com aquilo que ele sempre repetia, quando em suas falas dizia: “o PT é o alimento para minha alma”. Isso me basta, como recordação de alguém que marcou várias gerações, com suas defesas firmes e a busca por justiça social e um mundo justo para todos e todas.

(Mariniza dos Santos)

“Fernando foi um militante fiel aos ideais de construção de uma sociedade melhor para todos. Lutava radicalmente na defesa de suas ideias e concepções; sem deixar que as divergências políticas fossem maiores que as amizades. Sempre defendeu seu partido, mesmo nos momentos mais difíceis. Acreditava que a transformação social passava pelo partido criado para ser dos Trabalhadores”. (Rosicler Terezinha Dalchiavon)

“Fernando, mais conhecido por Fernandão do PT, assim o conheci desde que comecei a militância partidária nos idos do início dos anos 1990.

Ele sempre foi presença cotidiana e indelével nos processos de construção das lutas pela justiça e pela igualdade, acreditava com toda a força no socialismo e que esse seria uma construção a ser feita pelos/as trabalhadores/as organizados no seu partido, o Partido dos Trabalhadores/as. Fizemos várias ações conjuntas, muitos debates, muitas convergências, algumas divergências. O fundamental sempre foi poder contar nele um Companheiro, da cepa, de boa cepa.

Obrigado por nos permitir construir relações singulares e sempre de forte presença. Seguiremos inspirados e engajados para lhe fazer justiça e memória. Meu reconhecimento e minha homenagem. Fernandão, Presente!

(Paulo César Carbonari)

“Querido Fernandão! Poderia lembrar de inúmeras vezes que convivemos juntos, durante o período da redemocratização em 1984; da formação da frente popular nas eleições estaduais e municipais; das vezes que me chamavas de “trosko” e eu retribuía chamando você de “stalinista”; das risadas no pé da janela do Reitor da UPF em 1987, pedindo por eleições democráticas quando você criou a palavra de ordem: “padre cinderela apareça na janela”; enfim, várias situações cômicas mas que sempre demonstraram a personalidade forte e aguerrida dum camarada-amigo-companheiro.

A última lembrança que tenho tua foi a poucas semanas atrás quando nos reunimos em frente ao Fórum para um ato contra o Moro.

Na ocasião, sempre com a marca registrada da voz inconfundível gritava a todo pulmão: “juiz marreco de Maringá”; “Moro corrupto”; “Moro ladrão quebrou uma nação”… enfim, lá pelas tantas passou um carro com dois bolsominions que retrucaram atacando todos com palavrões – que imediatamente foram respondidos por você que desafiou eles a descerem para se tivessem coragem…. clima tenso. Perguntei: “Como vai fazer para enfrentar eles dois Fernandão…você não enxerga…como vai localizar eles??? Respondeu: “Julio Ramos, fica tranquilo, tenho um saco de bolacha aqui comigo…fácil, é só chegarem perto que finco a mão nos fascistas..”

Esse era nosso Fernandão. Solidário. Companheiro. Leal. Amigo. Fica em paz que enquanto estivermos lembrando das coisas que fazia e dos momentos que vivemos juntos contigo, serás eterno. #FernadãoVive

(Júlio Francisco Caetano Ramos)





Fernando César Brandão Pereira (Fernandão) deixou-nos sozinho, mas como ele sempre demonstrou, “ele era os outros”, em luta, em debate, em caminhada. Em sua homenagem, postaremos algumas imagens, gentilmente cedidas pela jornalista Ingra Costa e Silva.
Obrigado, Ingra Costa e Silva, pela foto de capa preparada especialmente para esta publicação. Obrigado por nos mostrar na luta, pelas lentes de sua máquina e pela sensibilidade do teu olhar.

O paraíso dos agrotóxicos

O que assusta é que do total de liberações recentes,
64, ou 43% das liberações, estão terminantemente proibidos
em diversos países, especialmente na União Europeia,
um dos principais mercados para os
produtos agrícolas brasileiros.

Para o filósofo australiano Peter Singer, em seu livro “Ética Prática”, “as atitudes ocidentais ante a natureza são uma mistura daquelas defendidas pelos hebreus, como encontramos nos primeiros livros da Bíblia, e pela filosofia da Grécia antiga, principalmente a de Aristóteles.

Ao contrário de outras tradições da Antiguidade, como, por exemplo, a da  Índia, as tradições hebraicas e gregas fizeram do homem o centro do  universo moral; na verdade, não apenas o centro, mas quase sempre,  a totalidade  das  características moralmente significativas deste mundo”.

Assim, o homem teria recebido, segundo o Gênesis, uma espécie de concessão de  “domínio” sobre todas as demais criaturas existentes. Um “cheque em branco”, para fazer tudo o que quiser na natureza.

O governo Bolsonaro está seguindo à risca estas tradições. Em apenas 6 meses de governo os órgãos de controle  liberaram  211 pesticidas  para uso em lavouras, média superior a um produto  por dia.

O que assusta é que do total, 64, ou 43% das  liberações, estão terminantemente  proibidos  em diversos países, especialmente  na  União  Europeia, um dos principais mercados para os produtos agrícolas  brasileiros.

A liberação é um presente de Bolsonaro aos ruralistas que o apoiaram na campanha. O governo entende que o mundo natural   existe para o benefício da turma da bancada ruralista. Na verdade, há uma grande irresponsabilidade e desdém pelo meio ambiente.

Enquanto na França é anunciada a intenção de abolir até  2022 o uso do glifosato em suas plantações, aqui , dos produtos recém-licenciados pelo ministério da  Agricultura, nove contêm o herbicida como insumo básico.

Mais. Há menos de 60 dias, o governo prorrogou até 2020 a redução de  60% do imposto relativo à comercialização dos defensivos.  Não é à toa que atual ministra, Teresa Cristina, quando deputada, recebeu o apelido de “Musa do Veneno”, em breve,  será  a  Rainha.

A natureza, longe de ser apenas o palco de nossas atividades, deve ser o objeto  de um respeito  estético, moral e jurídico. A civilização ocidental, entregue a um consumismo desenfreado, vem conduzindo de forma inequívoca à  devastação da Terra.

O governo Bolsonaro mostra um desprezo absurdo pelo meio ambiente. Se tenta eliminar as reservas legais, áreas indígenas são invadidas, criminosos são liberados de multas e se libera esta quantidade de agrotóxicos, quando o mundo todo luta  contra isto. Hoje o Brasil é o verdadeiro   paraíso dos   agrotóxicos.

Ao contrário de muitas sociedades humanas mais estáveis e voltadas para as suas tradições, a nossa formação política e cultural tem uma grande dificuldade de admitir valores a longo prazo.

Precisamos, definitivamente, entender que algumas coisas, depois de perdidas, não podem ser   recuperadas. Uma delas é a saúde. O que está em jogo é o futuro de nossos filhos e netos diante da irresponsabilidade deste desgoverno.



Os homens inventam coisas que matam e que curam, sem nenhum constrangimento, porque agem em nome do progresso e da ciência. Resta saber como cada um decide o que consumir saudavelmente. Quem morre ou quem se cura é sempre a gente. O problema é que não temos poder nenhum sobre a produção. Resta saber o que nos resta! (Nei Alberto Pies)

Não somos responsáveis pela crise

Sabemos que um dos grandes problemas da instabilidade
social é o desemprego e a grave concentração de renda.
A dominância financeira é um dos maiores
obstáculos para o desenvolvimento país.

Em momentos de crises profundas no modelo de organização social capitalista, como o que estamos vivendo, em geral quem mais perde são os trabalhadores [as]. Para garantir os lucros dos grandes empresários, sobretudo banqueiros, os governos que ocuparam e ocupa a presidência da nação, capachos do capital, impõe ao mundo do trabalho medidas político-econômicas de austeridade duras e nos atacam brutalmente.

Exemplos práticos da afirmação foram às edições das MP 664 [pensão por morte e auxílio doença]; 665 [abono salarial – PIS, seguro defeso e seguro desemprego]; Os ajustes fiscais 1 e 2 que resultaram no reajuste nas tarifas públicas  [energia elétrica, gás, combustíveis];  No aumento da inflação e do desemprego; Os cortes orçamentários na saúde educação já feitos durante o governo Dilma e  sequenciados pelo Governo Temer; A reforma trabalhista feita pelo segundo e os ataques em curso contra nossos direitos, sobretudo a reforma da previdência, em transito no congresso de mafiosos do governo Bolsonaro.

Em geral é isso. A conta da crise econômica recai sempre sobre o conjunto da Classe Trabalhadora.

O combate à sonegação não seria a alternativa viável às políticas  de austeridade  econômica, dispensando  especialmente a reforma  da Previdência?

Os responsáveis pela crise se garantem

Como em toda crise econômica, o capital também tem perdas. As chamadas queimas de ativos, quebra de empresas, redução das vendas, estoques em alta, etc. Porém tem um segmento capitalista que não admite perder. É o segmento financista-rentista-especulativo. Estamos nos referindo aos grandes bancos e financeiras.  

Este segmento, para garantir sua lucratividade, exige que a União se responsabilize em repassar bilhões de recursos, via superávit primário, a banca financeira nacional e internacional, indiferente do aumento da carestia e da miserabilidade social. Para ter uma ideia, os valores anuais dispararam nos últimos anos.

Em 2010, o governo pagou R$ 122 bilhões em juros da dívida. Em 2012, foram R$ 134 bilhões; 2014, R$ 170 bilhões; 2016, R$ 205 bilhões; 2017, R$ 328 bilhões.

Em 2017 foram gastos com a rolagem da dívida pública [troca de uma dívida velha em dívida nova] R$ 205 bilhões. Esta rolagem custou aos cofres públicos mais de cinco vezes os gastos com programas de assistência social [Bolsa Família, assistência a crianças e adolescentes em situação de risco, assistência a idosos e pessoas portadores de necessidades especiais, etc.]. Em 2018, o governo federal gastou, com juros e amortização da dívida pública R$ 1,065 trilhões [40,6% de todo o orçamento]. Essa quantia corresponde a 11 vezes o que foi destinado à educação; 10 vezes aos gastos com saúde e quase o dobro dos gastos com a Previdência Social.

Some-se a esta política econômica decenal-suicida, os contratos lançados no mercado financeiro pelo BC para evitar a alta do dólar, conhecidos como swaps [troca] cambiais, que objetivam proteger os investidores do capital financeiro-rentista-especulativo, da futura variação do dólar, que somente no ano de 2018 custaram aos cofres públicos R$ 15,2 bilhões.

As projeções do Tesouro Nacional apontam que entre 2019/21, a título de pagamento dos juros da dívida pública serão desembolsados R$ 1,05 bilhões.  Os banqueiros agradecem. Até maio deste ano, de acordo com o Tesouro Nacional, o endividamento bruto atingiu o patamar inédito de 77% do PIB [Produto Interno Bruto] o que corresponde a R$ 5,133 trilhões!

O tripé da economia brasileira [metas de inflação, câmbio flutuante e superávit fiscal primário] é uma bomba relógio-econômica que está prestes a explodir a economia nacional e não tem relação nenhuma com o pseudo-déficit da Previdência Social. 

Retiraram os bodes da sala

A proposta de reforma da Previdência apresentada pelo deputado Samuel Moreira [PSDB-SP] à Comissão Especial da Câmara continua sendo um duro ataque à Previdência e ao direito à aposentadoria de milhões de trabalhadores. A nova versão da reforma tira alguns “bodes da sala”, como o BPC [Benefício de Prestação Continuada], a capitalização e alguns ataques à aposentadoria rural, mas deixa o restante.

A reforma como um todo é, na verdade, um grande bode. Bem parecida com a reforma que Temer tentou aprovar em 2017.

Mantém a idade mínima de 65 anos e o aumento do tempo mínimo de contribuição para 20 anos [no caso dos homens], além da redução da base de cálculo dos benefícios e aposentadoria “integral” só com 40 anos de pagamento ao INSS. Neste ponto em específico cabe salientar que a integralidade da aposentadoria, na prática, jamais será alcançada considerando que a proposta propõe a soma de 100% das contribuições o que reduz o percentual do benefício.

A versão de reforma apresentada na comissão da Câmara reduz a “economia” de R$ 1,2 trilhão em 10 anos, como previa o projeto original do ministro da Economia, Paulo Guedes, para algo em torno de R$ 900 bilhões. Outra parte vai vir do desvio de 40% do FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador], que deveria justamente custear benefícios como Seguro-Desemprego ou abono salarial, mas que vai para os banqueiros.

Os mesmos bancos vão ter um pequeno aumento no imposto que, além de ser um troco perto do que vão ganhar com a reforma, podem muito bem repassar à população.

Uma mentira alardeada pelos deputados e os articuladores dessa reforma é que a “nova” proposta retira os ataques aos miseráveis. Estão lá, por exemplo, o ataque aos rurais, à pensão por morte e ao abono salarial, benefícios que dependem milhões de trabalhadores, justamente os mais pobres. A reforma tem um único objetivo: excluir do sistema previdenciário a maioria dos trabalhadores [as], força-los a migrarem para planos de previdência privada e, os que conseguirem se aposentar, terão seus rendimentos reduzidos. Na essência a reforma da previdência não dá nenhuma garantia aos trabalhadores [as], mas total garantia ao capital financeiro-rentista-especulativo.

Não à Reforma da Previdência

A Reforma da Previdência, os cortes orçamentários da saúde, educação, programas sociais não fogem a esta lógica perversa. Mundo do capital em crise e os canhões são disparados contra o mundo do trabalho. Nada se comenta sobre a rapinagem da transferência de riquezas produzida pelos trabalhadores [as] anualmente para os detentores dos títulos da dívida pública, ou seja, os banqueiros.

A renda deve vir do trabalho e da produção e não do mercado financeiro por meio de especulação. O Tripê da economia brasileira foi responsável pelo sequestro do poder político pelo poder econômico e, sobretudo, não se sustenta. A geração de emprego e renda deveria estar no centro da política econômica.

Sabemos que um dos grandes problemas da instabilidade social é o desemprego e a grave concentração de renda. A dominância financeira é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento país. Não há economia que resista aos vampiros que estão tomando conta do banco de sangue brasileiro. Só não vê quem não quer.

Frente a estes ataques só temos uma saída: organização, mobilização e luta. Precisamos construir uma greve geral para barrar os ataques do governo Bolsonaro contra nossos direitos. Construir na luta uma alternativa dos trabalhadores/as em defesa das estatais [BB, CEF, Petrobras, Eletrobras, Correios e demais estatais remanescentes]; Contra a privatização das escolas, do SUS, da extinção da Justiça do Trabalho e contra a Reforma da Previdência.

Nenhuma outra possibilidade se apresenta a Classe Trabalhadora a não ser a luta direta contra Bolsonaro e sua pacotilha.  Então vamos à Luta!


Há uma campanha deliberada para destruir ou acabar com o poder de representação dos sindicatos feita por governos e setores produtivos da sociedade. Há um ataque deliberado de acabar com as conquistas e direitos dos trabalhadores, inclusive, com possibilidade de acabar com a Justiça do Trabalho no Brasil. Por que?

Viagem de conhecimentos: Templo Budista Três Coroas, RS

Numa experiência inédita em nossa cidade, alunos das séries finais de uma Escola Municipal de Passo Fundo, RS, participaram de uma viagem de estudos, deslocando-se por cerca de 330 Km, em meados do mês de junho de 2019, para o município de Três Coroas, para conhecer o Templo do Budismo Tibetano. Uma atividade que foi planejada na disciplina de Ensino Religioso desde o início do ano letivo e que envolveu professores, estudantes e alguns pais e mães. Uma atividade preparada com estudos, pesquisas e aulas antes de acontecer.

No mês de abril, conheceram também outros templos religiosos da cidade de Passo Fundo, conforme registro de matéria.

Conforme apresentação da página oficial do Templo, “O Chagdud Gonpa Khadro Ling, localizado no município de Três Coroas, no Rio Grande do Sul, é a sede sul-americana de uma rede de Centros de Budismo Tibetano Vajraiana fundado por Sua Emª Chagdud Tulku Rinpoche em 1995. Com o falecimento de Rinpoche em 2002, os centros estão sob a direção espiritual de Chagdud Khadro, sua esposa. Em tibetano, Kha significa “céu”; Dro significa “mover-se”, “ir”, “dançar”; Khadro é a tradução de Dakini, palavra associada a um aspecto da energia iluminada na forma feminina. Já Ling significa “local”. Uma tradução possível para Khadro Ling, então, é “Morada das andarilhas do céu”.

Cerca de 50 praticantes do Budismo Tibetano Vajraiana moram no Khadro Ling. São pessoas de vários locais do Brasil e do mundo, que vieram para cá com o objetivo de priorizar a prática espiritual e auxiliar nas atividades diárias necessárias à manutenção da Fundação Chagdud Gonpa. Toda a estrutura do centro é mantida por doações”.

Com esta publicação, queremos repercutir e dividir com os leitores as impressões, conhecimentos e a importância de conhecermos as diferentes expressões religiosas, aquelas que, sobretudo, se diferenciam em seus fundamentos e também em suas práticas. Quer também indicar e recomendar esta visita de conhecimento do templo Budista como parte de um roteiro de conhecimento desta região da Serra Gaúcha que envolve as cidades de Três Coroas, Canela e Gramado.

Neste relato que segue, teremos o registro da preparação para a visita ao Templo de 3 Coroas, uma breve entrevista com professora Glória Fauth, depoimentos de alunos e alunas, professoras e registros fotográficos.

Entrevista com professora Glória Fauth, seguidora do Budismo e moradora em Três Coroas, hoje.

NEI ALBERTO PIES: Professora Glória, conte-nos como descobriste o budismo tibetano? Como o budismo envolveu também a sua família?

Foi por volta de 1994 quando ganhei um livro do Dalai Lama. Ao ler, fui me identificando totalmente com os ensinamentos do livro. Percebi que era o que eu estava procurando há muitos anos. A conexão foi total e imediata. Assim comecei procurar mais livros dele para ler.

Em 1995 fiquei sabendo que um mestre tibetano havia chegado à serra gaúcha para comprar uma terra e construir um templo. Comecei a acompanhar esse evento. Sempre aparecia reportagens sobre ele em revistas…Mesmo com muito interesse, apenas em 2002 tive oportunidade de visitar o templo e conhecer o mestre Chagdud Tulku Rinpoche. A partir daí, comecei a estudar mais e ouvir os ensinamentos e efetivamente praticar.

Quanto a minha família, nunca convidei nenhum deles para me acompanhar. Acho que a mudança em mim foi tal que eles quiseram ver de perto o que estava acontecendo. O primeiro que ficou interessado foi meu marido, depois o filho mais novo com 8 anos, depois a filha e o filho do meio mais tarde.

O budismo não é uma religião proselitista, os praticantes não saem por aí falando para converter as outras pessoas. A pessoa que tem conexão com o budismo, vai procurar, ler, estudar, ouvir palestra, se depois disso chegar a conclusão que vai ser bom para a sua vida, ela segue. 

NEI ALBERTO PIES: Durante algum tempo, em nossa cidade Passo Fundo, além de professora da rede estadual de ensino e do seu trabalho com grupos de teatro, usavas do teu tempo para disseminar conhecimentos sobre Budismo Tibetano. O que a motivava para fazer isso?

A motivação maior era para que os estudantes conhecessem essa tradição religiosa. A história do Buda, a arte e a cultura oriental que nós não costumamos estudar no ocidente. Agora com a internet todos tem mais acesso a todas as culturas. Está mais fácil. 

(Uma das primeiras palestras que fiz com alunos das séries finais do Ensino Fundamental foi no ano de 2013, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Guaracy Barroso Marinho)

NEI ALBERTO PIES: Qual é hoje, a sua relação com a prática e a espiritualidade budista

A relação com a prática espiritual e cada vez mais intensa e profunda. Uma vez que morando aqui tenho oportunidade de fazer retiros e estudar ainda mais. 

NEI ALBERTO PIES: Participaste do Conselho do Ensino Religioso (CONER Seccional Passo Fundo) por um certo período. Que lembranças e que aprendizagens levastes desta experiência? 

Tenho ótimas lembranças dos colegas participantes, do respeito entre todos. Foi uma experiência rica e intensa. 

NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância do conhecimento das diferentes religiões para a construção de uma cultura de tolerância e paz?

O conhecimento é importante. Acredito que quando se conhece, se respeita. 

NEI ALBERTO PIES: Que fundamentos e princípios da prática budista podem ser observados por qualquer ser humano, independente de sua opção religiosa?

Acredita que o mais importante é aquele que chamamos a regra de ouro: No budismo tibetano é: “Não causar mal a nenhum ser” No cristianismo é: “Ama ao próximo como a ti mesmo” Outro ensinamento dos nossos mestres é: “cultive um bom coração”.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância do Templo de Três Coroas para a difusão dos conhecimentos e práticas do budismo tibetano no Brasil e na América Latina?

Este templo é o maior centro de estudos budistas da América Latina para leigos. Vem aqui pessoas de todos os países latino americanos, também da Europa e América do Norte. 

NEI ALBERTO PIES: Para quem nunca visitou o Templo em Três Coroas, qual é seu convite (inclusive para grupos de estudantes e escolas)?

Para grupos: recebemos os grupos de quarta-feira a sexta-feira. É só entrar no site www.templobudista.org e agendar a visita. Para as visitas de grupos solicitamos o pagamento de uma taxa de 50,00. Para carros de passeio, é aberto de quarta a domingo e não cobramos nada para estes acessar o templo. Mas sempre é bom consultar o site, porque em algumas ocasiões, pode estar fechado para visitação. São todos bem vindos. 

NEI ALBERTO PIES: Algo que queira acrescentar.

“A vida é um espelho, não uma janela” que nossos mestres preciosos.” Todos nós ao olharmos ao redor, nos vejamos. Que possamos nos ver nas pessoas que nos cercam, nos animais de estimação e naqueles abandonados, naqueles seres que são desagradáveis e nos fazem mal.

Depoimento da Coordenadora da Escola Municipal Zeferino de Costi, Adriana Severo dos Santos

“Na viagem de estudos a Três Coroas, RS, visitamos o Templo Budista. Foi uma experiência única, tanto para professores, pais e, principalmente, aos nossos alunos dos 9⁰ anos.

Nessa oportunidade conhecemos uma filosofia de vida e uma linha religiosa diferente da nossa vivência diária. Foi muito enriquecedor o contato direto com as pessoas, seus ensinamentos e a própria estrutura e organização do Templo (que é esplendorosa).

Posso afirmar que nossos alunos aproveitaram muito, trazendo com eles mais conhecimentos sobre a temática ” Diversidade Religiosa”, que faz parte do Componente Curricular da disciplina de Ensino Religioso, do professor Nei Alberto Pies, organizador e mentor desta viagem de estudos”.

Depoimentos de professoras.

“Atividades como essa são muito importantes para o crescimento de nossos alunos, pois eles vivenciam na prática tudo aquilo que estudam na teoria, em sala de aula. Saímos do Templo com uma vontade de ficar, pois ele é repleto de energia positiva, em um lugar cercado de natureza, no topo de um morro e com vista para o vale. O budista respeita e se integra à natureza de uma maneira que o homem ocidental ainda não consegue. Percebemos o impacto nos nossos alunos, que adoraram a visita e se surpreenderam com os ensinamentos do Budismo”. (Graziela Bergonsi Tussi, Geografia)

“Na semana da viagem, os alunos e alunas dos nonos anos da Escola Municipal Zeferino de Costi tiveram uma aula de yoga e meditação, práticas ascéticas do Budismo, preparando-se para a viagem. Estas práticas podem ser em função da religião, como também em função de uma qualidade de vida que leve em conta o equilíbrio tão necessário entre o corpo e a mente humana”. (Professora Vanilde Bordignon, educação física)

“A visita ao templo budista em Três Coroas foi um passeio de estudos muito interessante. Logo que iniciamos a viagem o professor lembrou dos objetivos para o dia.

Conhecemos um lugar lindo, calmo, tranquilo, com uma natureza incrível, cheio de paz

e harmonia. Conseguimos observar o local e saber mais sobre o budismo.

Foi uma experiência única que agregou conhecimento e bem-estar”. (Ana Cláudia, professora e mãe de aluna/acompanhou a viagem)

Depoimentos de alunos e alunas que participaram da viagem de Estudos.

“Como aluno achei a experiência de ter contato com diversas diferentes crenças uma oportunidade que todo estudante deveria ter. A viagem ao templo budista, assim como todas os estudos feitos durante o ano, foi um contato com uma filosofia muito diferente da que estamos acostumados, assim nos apresentando um pouco da grande diversidade religiosa das quais não estamos acostumados a nos inteirar. Gostaria de agradecer a todos que nos deram essa oportunidade e convidar você a aprender um pouco mais sobre as diferentes religiões”. (Samuel do Nascimento dos Santos, aluno nono ano)


Viagem ao Templo Budista

Os estudantes dos nonos anos A e B, acompanhados de alguns alunos do oitavo ano da escola Zeferino Demétrio Costi, fizeram uma excelente excursão ao Templo Budista Tibetano da cidade de Três Coroas no dia 14/06/19. Sendo acompanhados pelo Professor Nei Alberto Pies (Ensino Religioso e Filosofia), pela Professora Vanilde (Educação Física), Graziela (Geografia) e também pela Coordenadora Adriana.


Juntos, ao chegarem no local do Templo, foram recebidos por uma guia que explicou a história do local e levou-os até uma sala de vídeo, onde contava a história e a origem do Budismo Tibetano. Após, foram dirigidos até o templo principal, onde foi solicitada a retirada dos sapatos para a entrada. Dentro, encontraram uma senhora budista. A mesma contou a história do templo e das imagens de Buda que haviam nele, também tirou dúvidas dos estudantes que a escutavam.


Foram liberados para que pudessem desfrutar das belezas e do efeito calmante deste lugar silencioso e agradável em que estavam. Será uma viagem inesquecível para qualquer um que teve a oportunidade de conhecer. (Aluna Gabrielly Vitória de Almeida, nono ano)

“Acho que a iniciativa da escola de tomar o contato com a diversidade religiosa uma matéria prática através de visitas e viagens diminui cada vez mais a distância entre os alunos e as diversas religiões, algo que todas as escolas poderiam fazer. Conhecer as diferenças e semelhanças entre as coisas que parecem tão distantes do nosso dia a dia é o primeiro passo para criar um futuro sem preconceitos.

Boa sorte a você aluno ou aluna, que está no começo de sua jornada de aprendizagem, sempre buscando o conhecimento para tornar o nosso mundo melhor. Afinal, somos o futuro e nos fazemos no presente”. (Caroline Muller Balsan, nono ano).





A viagem de estudos também teve êxito e sucesso pela parceria, dedicação e profissionalismo da Empresa Sonho Azul, parceira destas atividades na Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi.

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