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Iniciar aulas encorajando esperanças

As professoras, os professores são portadores
da esperança porque são mobilizadores da
constituição de cada estudante em sujeito, em ser humano.


Um ano letivo em que a rede estadual começa com apenas pouco mais de dez por cento das escolas ter lutado bravamente contra os projetos que humilham a educação ao tratar seus profissionais no sentido contrário que determina o Plano Nacional da Educação: no mesmo nível que os demais profissionais com a mesma formação.

Um ano escolar em que o governo federal anuncia canal para denunciar os e as professoras, quando a vivência democrática, o aprendizado da tolerância, do diálogo, da liberdade para discutir temas da formação humana e societária são tão urgentes diante da violência, da mutilação e suicídio dos jovens, do feminicídio que recrudesce, do abandono escolar.

Um ano em que o financiamento da educação está em risco porque fecham 20 anos de orçamento vinculado a fundos – FUNDEF E FUNDEB – e que o governo federal pressiona por desvinculação, quando sabemos que ainda temos muito a investir em educação para universalizar e qualificar, para construir um Brasil soberano e que inclua sua gente no trabalho e na renda, na cultura e na cidadania.



O FNDE revela que em 2019 foram repassados a prefeituras de todo o país 307,8 milhões de reais para a construção de creches e pré-escolas e melhoria da infraestrutura da rede de educação infantil. Trata-se do mais baixo repasse em 10 anos. (José Ernani Almeida)

Recomeça seu trabalho a educação enfrentando o discurso econômico que hoje explica a política, que impõe austeridade como a única saída, a renúncia a direitos, quando a política é que precisa explicar suas opções: porque abre mão da soberania e desvia da educação a riqueza do petróleo, dos nossos bens naturais e se submete ao rentismo do capital improdutivo que nenhum compromisso tem com empregos e a formação da juventude.


Começa novo ano letivo para reanimar a esperança. Sem aula, sem educação, ela fenece. As professoras, os professores são portadores da esperança porque são mobilizadores da constituição de cada estudante em sujeito, em ser humano.



É incrível que quando a sociedade se mostra disposta a debater qualidade na educação, os professores/as são atacados e apontados como responsáveis pelo insucesso escolar. E o que é mais grave: as peculiaridades de seu ofício começam a ser entendidas como privilégios, não como direitos. Professores e artistas passam a ser tratados como inimigos da família e da sociedade. (Nei Alberto Pies)

“Eu sou esperançoso porque não posso deixar de ser esperançoso como ser humano. Esse ser que é finito e que se sabe finito, e porque é inacabado sabendo que é inacabado, necessariamente é um ser que procura. Eu não posso desistir da esperança porque eu sei, primeiro, que ela é ontológica. Eu sei que não posso continuar sendo humano se eu faço desaparecer de mim a esperança e a briga por ela. A esperança não é uma doação. Ela faz parte de mim como o ar que respiro. Se não houver ar, eu morro. Se não houver esperança, não tem por que continuar o histórico. A esperança é a história, entende?” Nos perguntava Paulo Freire.


Respondamos: sim. Somos sujeitos, fazemos a história.


Feliz ano letivo novo!



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Dívida ecológica

O estilo de vida – ocidentalizado e centrado no consumo ostensivo –
que pauta a realidade do mundo moderno é altamente
insustentável porque afeta a capacidade de carga da Terra
e força o planeta a uma crise ambiental cada vez mais hostil.


No tempo atual, parece não haver nada mais urgente que a afirmação seguinte, ainda que possamos dela discordar: nossa manifestada presença na Terra tem sido caracterizada, de um lado, por uma humanidade esclarecida (com um grau elevado de conscientização), mas, de outro, por uma humanidade obscurecida; tão obscurecida que, de todo modo, é capaz de ignorar que a biosfera não dá conta de suportar as crescentes e insaciáveis demandas humanas.

E tudo indica que ao menos uma boa parte do problema, não é demais frisar, está justamente aí: em prol de atender essas ilimitadas demandas humanas, não nos damos conta dos contratempos decorrentes, haja vista que já chegamos num momento – não me esquivo a afirmar que nos aproximamos de um perigoso ponto de conflito – em que as forças dominantes conseguiram colocar o “consumo” no lugar da “cidadania”. Na figura de cidadão do mundo (sustentado pela Terra), cada vez mais o homem moderno se encontra, pois, diante de desafios ambientais que atinge a todos, seja a parte da humanidade esclarecida ou a obscurecida.

Dada a gravidade da situação em curso que, é presumível assim imaginar, contribui para aumentar as preocupações sobre o futuro do planeta, é esperado que o sujeito humano se esforce e aperfeiçoe seu poder transformativo. Conquanto, não tenhamos dúvida que isso requer dose de coragem o suficiente para virar a página da história da abundância material que vem marcando esses últimos tumultuados e trevosos tempos.

De toda sorte, é bom que se diga às claras que há sim boas razões para acreditar nessa confortável possibilidade, principalmente se houver interesse em aprofundar o processo de conquista de consciência planetária, seja dito, condição de estar atento e ser cuidadoso com os destinos do planeta que nos acolhe, e não se esquivar de condenar o conteúdo antiecológico do capitalismo.

Para quem deseja apostar nesse horizonte, há suficiente razão (i.e., a faculdade da síntese) para imaginar que o desenvolvimento (em toda a sua vertente, social, humano, econômico, ecológico) poderá substituir, no breve tempo futuro, a política de expansão das economias modernas, superando de vez esse monstrengo chamado de “crescimento”, movimento capaz de tornar a economia maior, mas não necessariamente em uma condição melhor.

Não é o crescimento da economia, esclareça-se em definitivo, que deixará a vida de cada indivíduo mais ou menos vibrante. O crescimento econômico correlacionado ao aumento do PIB, dizem os especialistas, é algo naturalmente desigual que apresenta certa facilidade para gerar desequilíbrios, sejam eles intersetoriais ou inter-regionais. Isso ocorre porque sempre haverá uma parte (ou mesmo algum setor) crescendo mais e em velocidade maior que as outras; daí a afirmação, polêmica, dirão alguns, de que o crescimento não apenas gera como também aprofunda desigualdades, e não necessariamente a reduz.

Dito isso, interessa então falar aqui de uma desigualdade econômica que, à luz de esclarecimentos, está completamente fora de controle. Serve de exemplo: i) dados compilados em 2019 deixam em evidência que os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões (60% da população mundial); ii) caso se separe os 22 homens mais ricos do mundo notar-se-á que eles têm mais riqueza do que todas as mulheres de África.

Entretanto, seria injusto e impreciso não citar algumas das vantagens e/ou benefícios gerados pelo crescimento. Eles existem e precisam ser devidamente anunciados.



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Mas para não tornar o assunto demasiado enfadonho, limitar-nos-emos a citar, por exemplo, que uma das vantagens que o crescimento traz consigo – e jamais se deve negar isso – é a possibilidade da criação de políticas sociais. Algo que no Brasil representa 20% do PIB e contribui em duas frentes para incentivar o próprio crescimento, a partir do fortalecimento do mercado interno de consumo de massas, e da ampliação dos investimentos na expansão da infraestrutura, enfrentando as muitas deficiências estruturais na oferta de serviços públicos.

Nessa direção, ouso assinalar que o crescimento terá considerável contribuição na redução de desigualdades – embora não seja o suficiente – caso proporcione igualdade de oportunidades, o que objetivamente inclui pontos-chave como educação, acesso ao crédito, salários iguais, e assim por diante. A igualdade de oportunidadesé tão importante para o desempenho econômico que o relatório “Situação da População Mundial 2017”, lançado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), mostra que empresas que promovem a igualdade tem uma probabilidade 32% maior de serem mais lucrativas, se projetando à frente das demais concorrentes. O que é preciso levar em conta, nesse caso, é a existência de uma associação positiva entre igualdade de gênero, PIB per capita e níveis de desenvolvimento humano.



Terra chega à sua sobrecarga de recursos naturais.



Ademais, a imediata redução das desigualdades de gênero, frise-se, é bem entendida como fator determinante para que o mundo consiga atingir em 2030 os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Não por acaso, lê-se nesse mencionado relatório que os homens ocupam 76% da força de trabalho global, enquanto as mulheres representam 50%. O valor pago às mulheres – apenas metade delas em todo o mundo possui emprego remunerado – corresponde a 77% aos dos homens.

Indo direto ao ponto, depreende-se o seguinte: enquanto persistir diferenças de gênero (corriqueira atitude que, a meu ver, margeia a ignorância), muito mais complicado será levantar um bom e eficaz sistema de amparo e proteção social capaz de promover a prosperidade humana.

II

O estilo de vida – ocidentalizado e centrado no consumo ostensivo – que pauta a realidade do mundo moderno é altamente insustentável porque afeta a capacidade de carga da Terra e força o planeta a uma crise ambiental cada vez mais hostil. Desde há muito já está claro que esse ponto, expresso no dinamismo do mercado econômico, não levará a comunidade humana para um porto seguro.

Acredito, todavia, que não é preciso levantar e aprofundar a discussão do que é entendido por dinamismo do mercado econômico, salvo para destacar o fato – relevante, segundo suponho – de que é desse modo que o planeta vai sendo literalmente devorado, ajudado pelos múltiplos interesses em torno do extrativismo. Aqui fala-se abertamente de interesses que guiaram muitas das escolhas feitas em diferentes períodos da história humana; especificamente em relação aos interesses que comandam as políticas extrativistas.

O ponto de partida, se observado apenas pelo âmbito da América Latina, é reconhecer, como o faz o economista equatoriano Alberto Acosta, que os governos neoliberais e os governos progressistas, em diferentes momentos, colocaram suas expectativas de desenvolvimento em uma expansão acelerada do extrativismo.

O problema a ser devidamente acentuado, assim confirma Acosta, é que em nenhum caso ocorreu a transformação da matriz produtiva. Tudo se mantém como sempre foi; e sequer se tenta afetar a lógica de acumulação do capital. A rigor, é justamente isso o que leva Acosta, estudioso do assunto, a afirmar taxativamente que se trata “apenas de modernizar o capitalismo. É por isso que, embora tenham reduzido a pobreza, graças ao enorme rendimento das exportações de matérias-primas, os ricos enriqueceram ainda mais”. (1)

O que vale anotar aqui, eliminando dúvidas, é que pouco importa às forças dominantes quais são as contraindicações de todo esse específico dinamismo. Uma vez pautado sistematicamente pela incontrolável ideia (obsessão macroeconômica) de aumentar a produção material, o interesse que se sobressai é o de fazer o PIB crescer, indicando com isso o nível de sucesso de nações e governos. Entrementes, isso permite dizer que, enquanto aumenta-se o fanatismo no princípio do crescimento, de um lado, exacerbam-se os muitos contratempos (ecológico e ambiental, em destaque) do mundo social, de outro. Daí a argumentação corrente de que nos últimos 150 anos, à medida em que o crescimento econômico avançava em diferentes períodos, as indústrias do mundo moderno seguiam poluindo o ar e modificando severamente o meio ambiente.

Ora, sem que se transgrida os fatos verdadeiros, é dado observar que isso configura, ao fim e ao cabo, uma situação na qual a categoria humana é severamente empurrada à convivência com um desconfortante desequilíbrio ecológico-ambiental, cujos exemplos, cada vez mais perceptíveis, pululam diante de cada um de nós. Basta atentar que “(…) mais da metade do carbono dissipado na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas três décadas. E mais: apenas nos últimos quarenta anos, diz o World Wildlife Fund (WWF), mais da metade dos vertebrados do mundo morreu. É cada vez mais óbvio, portanto, que estamos no olho do furacão, em meio a uma crise ecológica produzida por nós mesmos, tal como escreve David Wells.

Essa crise, podendo ser vista por vários ângulos, mas abusando de ilustrativos exemplos, mostra que teremos vagando por aí nada menos que 200 milhões de refugiados do clima até 2050 – assim projeta as Nações Unidas (UN). Detalhe importante: essa crise mostra ainda que “é impossível pensar em recuperar o equilíbrio do sistema da Terra sem abandonar a lógica do capital, que tudo converte em mercadoria e faz da crise uma oportunidade para novos lucros”, escreve Pablo Solón, ativista ambiental boliviano.

Trata-se, então, sistematicamente de uma crise que tem suas raízes no modelo de economia que prega o expansionismo como “salvação” do mundo moderno, colocando o avanço econômico como o responsável direto pela boa vida das populações. E como não mais se pode pensar os problemas ambientais como meras ocorrências isoladas, insista-se aqui para dizer em tom de esclarecimento que, se desde os últimos 150 anos as economias globais (umas mais outras menos), têm ajudado a desequilibrar ecologicamente o planeta, tão somente nos últimos 60 anos os humanos sobrecarregaram exaustivamente os mais importantes ecossistemas conhecidos, afetando sobretudo as macroestruturas do sistema Terra.

Veja-se, a priori, que o sistema de águas, principalmente quando percebido o nível de esgotamento dos oceanos, o maior dos ecossistemas existentes e, de longe, o grande “sistema de suporte à vida”, nos dizeres de Sylvia Earle, (2) talvez seja o mais ilustrativo dos exemplos. Afora isso, já se sabe que até 2048, caso não haja radical mudança de postura, os oceanos atingirão um ápice em que não mais será permitido a retirada de recursos alimentares, uma vez que a excessiva atividade de pesca não respeita o tempo de reposição dos cardumes.

É curioso e bastante assombroso constatar que o gênero humano não dá importância aos oceanos; e sequer percebem com alguma clareza que são os oceanos que controlam o clima planetário, uma vez que absorvem grande parte de dióxido de carbono da atmosfera, retêm 97% da água da Terra e abriga 97% de sua biosfera. Logo, é imprescindível levantar esforços para colocar um fim à degradação dos oceanos que, como se sabe, segue prejudicado porque um terço do CO2 produzido pela atividade econômica acaba sendo absorvido pelas águas oceânicas, tornando-as imediatamente mais ácidas.

Mas repare no que segue: quando foi explicitado linhas acima que a atualmente excessiva atividade de pesca não permite tempo de reposição dos cardumes, em tom de acusação se quer anunciar, clara e abertamente, a existência de um déficit ecológico que a humanidade vem provocando no mundo biofísico. Um déficit que ocorre a cada ano num período de tempo cada vez mais curto. Por conseguinte, isso exige um oportuno esclarecimento: calculado pela Global Footprint Network, considerando quatro fatores principais, quanto os ecossistemas são capazes de produzir; quantas pessoas existem no planeta; quanto essas pessoas consomem; e, com que eficiência os produtos são feitos, foi observado que em 2019, por exemplo, o planeta Terra entrou no “cheque especial” no dia 29 de julho.

Para ser objetivo, significa dizer que os 7,6 bilhões de habitantes do planeta consumiram todos os recursos naturais que o planeta consegue regenerar em um período de um ano em apenas 210 dias. Por isso a velocidade de consumo, nesse caso, é 74% maior do que a capacidade de a Terra se regenerar. Desnecessário enfatizar, quero crer, que aí está um “drama” (tornando aceitável esse termo) que contribui para alterar o sistema de funcionamento da Terra.

Pois bem, uma vez mais olhando com relativa atenção o uso excessivo de recursos da natureza, e misturando aqui, para efeito de boa compreensão, uma linguagem econômica com a ecológica, a metáfora a seguir esclarece o real perigo que representa essa última passagem: quando a Terra “entra” nesse mencionado cheque especial, a humanidade imediatamente contrai uma “dívida ecológica” que, a olhos vistos, tem sido cada vez mais difícil de pagar.

Uma dívida que vem expressa na forma de esgotamento ecológico, escassez de água potável, criminosa perda de biodiversidade, erosão do sistema solo, acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera, acidificação dos oceanos, empobrecimento biológico. Ou seja, por toda essa série de agudos descompassos ambientais, acentuam-se consideráveis prejuízos que de imediato comprometem a qualidade de vida.

Essa dívida ecológica, é certo afirmar, atesta o quão insustentável tem sido o estilo de vida moderno, uma vez que cria condição de manter boa parte da comunidade humana (principalmente a população que não encontra mecanismo de defesa, dado o estado de vulnerabilidade do qual padece) bem mais próxima das dores de um mundo que aumenta e muda rápido demais face a existência de um relacionamento marcadamente hostil entre o homem, a economia e a natureza.

Diante de receitas e diretrizes econômicas impetuosamente impostas para fazer avançar o produto monetizado, é chegada a hora de chamar a atenção para algo relevante: se cada vez mais a biosfera – i.e., “a esfera da vida”, como escreve Carl Folke – tem apresentado evidências de estar no limite de sua resiliência ecossistêmica, dir-se-á com notoriedade que a partir de certo tamanho da economia os custos socioambientais advindos de um patamar extra de crescimento ultrapassam eventuais benefícios de bem-estar material.

Feita mais essa advertência, e para voltar agora ao ponto inicial deste artigo, eleve-se as esperanças para o que a economista britânica Kate Raworth – a partir de sua já célebre abordagem da “economia donut” – espera que aconteça em breve, isto é, que os economistas se tornem de certo modo “agnósticos” e não “viciados” em crescimento econômico; até mesmo porque, no lugar de se conceber atividades econômicas à serviço da vida, o que se tem hoje, fato concreto, é o sujeito humano aprendendo com invejável rapidez a desvirtuar as chamadas boas condições conhecidas, entre essas a de colocar a vida à serviço da economia de produção, contrariando desse modo o papel social de uma ciência que nasceu para dar respostas afirmativas em torno da vida humana.



Notas:
https://diplomatique.org.br/alberto-acosta-governos-progressistas-apostaram-na-expansao-do-extrativismo/
S. EARLE, A Terra é Azul. São Paulo: SESI, 2018

Carnaval: alegria e forma de protesto

A força do carnaval.
Todos se integram de maneira incrivelmente democrática,
quebrando, quase sem  perceber, cadeias de preconceitos,
rompendo formalidades, denunciando e derrubando máscaras.


Hoje  vamos deixar de  lado o circo  existente  em Brasília  para falar de coisa  séria, o carnaval. Sim, com o que se  vê hoje de parte do governo, carnaval passou a ser  coisa  séria, até  porque tem objetivo – a alegria – e organização. Coisas inexistentes em um governo, marcado pela vulgaridade e o mau humor.

O carnaval é considerado  reminiscência das festas pagãs Greco-romanas que ocorriam entre  dezembro e fevereiro – saturnais  e lupercais, respectivamente.

No Brasil chegou  com os lusos, na comemoração do entrudo, que festejava  a  entrada da primavera e  abria  as solenidades litúrgicas  da Quaresma, período da abstinência  de carne – palavra  que designa  o nome carnaval.



Entenda mais sobre a festa do Carnaval.


O entrudo era  uma festa barulhenta, suja, e por vezes, violenta. Foi  a  partir da segunda metade  do  séc. XIX,  que o entrudo passou a conviver com  bailes  de máscara em teatros e clubes, à moda europeia.

A primeira música  carnavalesca  foi  Ô Abre-alas, composta por  Chiquinha  Gonzaga em 1899. Sinhô, compositor  da época, também é considerado  o pioneiro da mistura de classes sociais no carnaval. Primeiro  passo  rumo  à concepção  atual dos desfiles  das grandes escolas  de samba.

Lentamente, o carnaval  foi se transformando na expressão que mais sintetiza  as  características do que se chama  brasilidade, ou seja, a identidade  cultural do brasileiro, reflexo de sua formação, de sua história, de suas venturas e desventuras.

Samba, frevo, festa de rua, com muita gente suada, corpos bronzeados. A beleza, o erotismo (para desespero da Damaris ) , o riso acima de tudo e, principalmente, a alegria. No carnaval há uma mescla de culturas e gentes.

Hoje, através  dos seus enredos, as  grandes  escolas  aproveitam para fazer denúncias  sociais  e marcar  sua  presença  na política. O samba  da Mangueira é exemplar:

“Nasci de peito aberto, de punho cerrado/ Meu pai carpinteiro, desempregado/Minha mãe é  Maria das Dores Brasil./Favela, pega  visão/Não tem futuro sem partilha/ Nem messias de arma na mão”.

Já  Zeca Baleiro compôs  marchinhas contundentes:

“Escória, escória/Nem fodendo  vocês  vão conseguir  entrar pra história/Vou lhes dizer  o que é política/O vagão de lixo passa e o trem da história fica/Vou lhes dizer  o que é arte e cultura/Não vai crescer  nem capim sobre vossa  sepultura”.

Outra, dedicada  ao ex-secretário de  Cultura Roberto ‘Goebbels’ Alvim: “Respeita Fernanda Montenegro, babaca/Tu saiu de que cloaca?/Respeita Martinho da  Vila, sem mané/Você não vale nem a sola do seu pé”.

Eis a  força do carnaval. É onde todos  se integram de maneira incrivelmente democrática, quebrando, quase  sem  perceber, cadeias de preconceitos, rompendo formalidades, denunciando e derrubando máscaras.

Todos passam a ser protagonistas de um mesmo espetáculo. Todos em uma só festa, cuja tônica é a alegria, a criatividade e a ampla liberdade de expressão. A direita bolsonarista  vai à histeria!!!



O carnaval é uma das festas populares mais lucrativas do Brasi. Para conversar sobre as oportunidades de negócios em torno da festa, o Sem Censura conversa com o promoter Diógenes Queiroz, organizador do camarote “Allegria”, na Marquês de Sapucaí, e com Gebran Smera, estilista, cenógrafo e carnavalesco.
Veja mais aqui.

Vocalização do texto poético escrito: relato de um curso no exterior

O intuito foi apresentar uma possibilidade de vivência significativa na linguagem por meio do trabalho com o texto poético em turmas de Educação Básica, contemplando a experiência singular do sujeito que, via vocalizações, mobiliza significações na particularidade do discurso poético.


No mês de novembro de 2019, estive ministrando um curso na II Jornada Mundial sobre o Ensino e Aprendizado do Português em Lima, Peru. O tema do meu curso foi “O trabalho com a poética da língua”, voltado para professores que ensinam português no mundo. Nesse evento, estavam presentes professores dos Estados Unidos, Perú, Argentina, Venezuela e Brasil.

A Jornada foi promovida pela Asociación  de Profesores de Portugués como lengua Extranjera en Perú e aconteceu na Pontificia Universidad Católica del Perú.

O tema que eu levei para a explanação faz parte do eixo temático de minha Dissertação de Mestrado em Linguística, na Universidade de Passo Fundo, que tem como Orientadora a Professora Dra. em Linguística, Marlete Sandra Diedrich. Na pesquisa trabalhamos à luz de princípios do linguista francês Émile Benveniste e de Roman Jakobson.

O intuito no Perú foi apresentar uma possibilidade de vivência significativa na linguagem por meio do trabalho com o texto poético em turmas de Educação Básica, contemplando a experiência singular do sujeito que, via vocalizações, mobiliza significações na particularidade do discurso poético.

Apresentei um trabalho com a poeticidade via vocalizações arranjos linguísticos e seu potencial alcance de significação no ensino de língua. Neste estudo, voltamos nossa atenção para a abordagem teórico-metodológica do ensino da língua portuguesa, à luz de princípios advindos das reflexões de Roman Jakobson (2007), em especial, daqueles apresentados no texto Linguística e Poética. Apresentamos uma proposta de minicurso no escopo da temática “As metodologias e abordagens de sucesso no ensino de português”.



“A literatura, como arte, consiste em um grande trampolim para o ensino e para despertar no educando o interesse em aprimorar a linguagem e a leitura, por consequência, uma mudança de atitude e de competência linguística em todas as áreas do conhecimento e da formação humana do cidadão”.



Em Benveniste buscamos suporte no artigo Significância e experiência, que encontramos em Últimas aulas no Collège de France. Nesse texto, aparece “a noção de “enunciação” compreendida como uma “experiência”.

Percebemos, por esse viés, que a experiência na linguagem coloca em destaque a propriedade da significância, pois é nela e por ela que o sujeito se reconhece. Dá a entender que uma poética está ligada a experiência humana na linguagem, salientando que isso é um ato individual, tendo a atividade linguística como eixo central.

Não obstante, os autores chamam atenção de que a linguagem em que se apresenta essa modalidade que é a escrita, porque é através dela que encontramos o discurso do poeta, por exemplo, “, impunha-se uma reflexão sobre a experiência específica da escrita representada pela linguagem poética” (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 53), notamos que o linguista salienta a “experiência específica” que é a linguagem poética, quer dizer que devemos olhar com diferenciados à esta linguagem.

Observamos que Benveniste conceitua a linguagem poética, chamando-a de “linguagem interior”, pois a linguagem poética exige que o analista “mude de instrumentos”, (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 54), Em seguida ele define:“Essa “língua diferente” que seria a poesia necessita, portanto, de uma “translinguística”: pois a “significância da arte” é não convencional”.

Podemos entender que o linguista dá ênfase a essa linguagem e define que devemos ter um olhar diferente, pois se trata de uma linguagem e trata como “significância da arte”. E segue definindo quais pontos merecem destaques nessa “translinguística” presente na poética, “a mensagem poética, “ao contrário das propriedades da comunicação”, fala uma emoção que a linguagem “transmite”. (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 54). Com essa definição do autor, acreditamos que estamos lidando com uma linguagem “interior”, “diferente”, “não convencional” e que transmite “emoção”.

Assim, continuamos nosso olhar teórico com Jakobson, para o ensino de língua a partir da concepção da sua manifestação poética. Nessa concepção, entendemos que a linguística não pode ser vista separada da literatura, pelo contrário, “[…] a Linguística é a ciência global da estrutura verbal, a Poética pode ser encarada como parte integrante da Linguística” (JAKOBSON, 2007, p. 119). Para Jakobson (2007, p.119), “A poética trata dos problemas da estrutura verbal, […]”.  O autor (p. 128) afirma que “[…] A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão-somente a função dominante, determinante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.”

Com essa motivação, entendemos a função poética como um investimento nos arranjos verbais, os quais se pautam nas relações entre as unidades linguísticas. Tais unidades comunicam para além de si mesmas, num jogo de relações entre formas e sentidos que são mobilizadas no discurso.

Em Lima, tive a oportunidade de sentir que o trabalho que venho realizando há muitos anos no que tange a materialização no discurso da experiência de vocalização do texto poético vivenciada em sala de aula na relação enunciativa de emissão e recepção entre eu/tu, foi muito bem aceito, por dar atenção a uma abordagem teórico-metodológica do ensino da língua portuguesa e demonstrar algumas possibilidades de ensino alicerçadas na teoria e prática. Inclusive, muitos professores que lá estavam parabenizaram-me, dizendo que a partir da minha fala se sentiram motivados enxergando novas possibilidades para o ensino da língua.



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Sobre a fé

A vida se equilibra,
saudavelmente, entre fé e dúvida. 
Quando a fé aumenta, diminui a dúvida, e,
quando a dúvida aumenta, diminui a fé.

Recordo, como se fosse hoje, mas já se passaram trinta e três anos, de uma cena que dá o que pensar. Eu estava voltando da universidade, à noite e, no caminho, entre a universidade e a parada do ônibus, havia uma igreja aberta e decidi entrar.

No exato momento em que entrei estavam sendo distribuídos envelopes para a oferta e, o pastor, no alto de sua técnica persuasiva, utilizou um único argumento de motivação para despertar a generosidade dos fiéis. Ele dizia: a dúvida é a presença do diabo na vida da gente. Quem estiver com dúvida não precisa colaborar com Deus…! Repetiu o mantra umas três vezes e parou…! Os envelopes foram passando e, em seguida, recolhidos…! Acho que só eu não fui generoso, naquela noite…! E não foi por falta de fé, ou por estar endemoniado.

Cuidado: não há nada de errado em ser generoso com a igreja, até pelo contrário, a generosidade é uma das melhores virtudes humanas.

A fé, também, é uma virtude, uma das três virtudes teologais.

A fé, também, é uma virtude, uma das três virtudes teologais, mas a dúvida não é um vício diabólico. Insisto: a dúvida não é a presença do diabo na vida da gente. A dúvida é irmã gêmea da fé e lhe presta um auxílio inestimável a fim de que não seja terreno fértil para aproveitadores.

A fé não nasce da dúvida e nem a dúvida nasce da fé, mas ambas são filhas da mesma mãe: o mundo da vida. A vida se equilibra, saudavelmente, entre fé e dúvida.  Quando a fé aumenta diminui a dúvida e quando a dúvida aumenta, diminui a fé. Ou será que quanto mais a fé aumenta, mais a dúvida também aumenta e quanto mais a dúvida aumenta, a fé também aumenta? Fica a dúvida!

Contudo, o certo é que uma não vive sem a outra, como a cara necessita da coroa para ser moeda.

Não pretendo, contudo, falar da dúvida, mas da fé, apesar da dúvida.

A fé tem seu habitat natural nas religiões, todavia, a fé é uma experiência humana importante demais para ser deixada somente para os profissionais das religiões.

Antes da fé religiosa, que em alguns sequer se manifesta, ocorre a fé antropológica, isto é, a fé em si mesma e nos outros. Uma não se opõe a outra, pelo contrário, se complementam e se retroalimentam.

Há uma dialética frutífera ou um círculo virtuoso entre fé antropológica e fé religiosa. A fé antropológica favorece a fé religiosa e a fé em Deus fortalece a fé no humano.

Por uma questão de método, quando nos aventuramos conversar sobre a fé, deveríamos começar pelo cotidiano da fé antropológica e, só depois, falar da fé em Deus, para proceder do elementar ao complexo, do mais evidente ao mais misterioso, do antropológico ao teológico.

Sem fé em si e nos outros, na vida cotidiana, acabaríamos por adoecer. Se alguém descrê de si, não crê ser capaz para nada e desconfia da própria sombra, que se pode esperar? A fé em si mesmo é a mais primária e genuína atitude de uma biografia saudável. Mas, saudável é, também, a fé que depositamos no outro, sem a qual nos tornamos paranoicos.

Sim, o contrário da fé não é a dúvida, mas o medo e o medo leva à paranoia. Não queira viver ao lado de um paranoico, não é uma experiência edificante. O paranoico vê inimigo e perigo lá onde inimigo e perigo não há. O universo mental e psicológico de um paranoico é povoado por conspiradores por todos os lados. O medo paranoico é doentio, a fé e a confiança, saudáveis.

Na vida cotidiana, se de tudo tivéssemos medo, não tomaríamos o ônibus, pois, quem nos garante que o motorista não seja um terrorista disposto a nos queimar vivos? Se fôssemos movidos pelo medo, então não comeríamos num restaurante ou mesmo em casa, pois a cozinheira pode não ter acordado de boa fé e decidido temperar, com veneno, a saborosa comida. Alguém subiria em um avião se tivesse medo paranoico? Duvido. O amor entre duas pessoas seria possível se um tivesse medo e a suspeita, permanentemente, do outro? No começo e no fim do amor está a fé no amor. Nem a obra do amor, como nos diz Kierkeggard, é prova suficiente do amor. O amor se revela na obra, mas a obra pode enganar e, por isso, é preciso crer no amor.

Há risco? É óbvio que há, é da condição humana. Apesar do risco, contudo, cremos. No começo está a fé que vence o medo, mas, cuidado, a dúvida acompanha, saudavelmente, a fé como um anjo bom, nos alertando e protegendo do perigo!

O que vale para a fé humana, vale também para a fé religiosa, a fé em Deus. E até mais, pois a Deus ninguém viu. Se há risco na fé humana, imagine na fé em Deus! Há muitos indícios para crer, mas crer continua sendo um salto no escuro.

Em algumas coisas é fácil crer, por exemplo, que a paz, o amor, a fraternidade, o perdão e a comunidade são divinos, quem duvidará disso? Mas crer que Deus existe e é trindade eterna, que Jesus é Deus, que a ressurreição dos mortos é o destino de todo humano vivente, que Deus pode intervir na natureza e fazer milagres etc., é fé em estado puro. Contudo, é melhor continuarmos acreditando, apesar do risco e da dúvida. Afinal, como diz o apóstolo Paulo, a fé é a certeza do que não vemos e uma posse antecipada do que esperamos.

Note bem, a dúvida é saudável e é divina. O que é doentio é o medo paranoico. Duvidar de Deus não nos torna doentes e diabólicos, mas se tivermos medo de Deus e nele não depositarmos a confiança e, ao invés de cremos no seu amor e misericórdia, vivermos com medo do seu castigo, adoeceremos espiritualmente, com certeza.

A fé sem a dúvida nos fanatiza.

O pai da fé, Abraão, é prova disso. Engana-se quem pensa que Abraão era um tonto e um fanático. A fé de Abraão não se mede pela disposição de matar o filho, se preciso for, mas pela decisão de não matar o filho, sabendo que isso era o desejo de Deus. Mas, como sabia que esse era o desejo de Deus? Pela fé dos que acreditam na vida e não na morte. Abraão ouviu dois mandatos, um dizia: mate o filho. Desse ele duvidou. Outro dizia: não lhes faça nenhum mal. Nesse ele acreditou.

A sua fé foi contra tudo e todos, pois a tradição era de sacrifícios humanos. Abraão rompe a tradição, diz não à morte obedecendo o anjo que lhe pede para não sacrificar e por isso mesmo se torna o pai da fé. Quando se fala da fé de Abraão, portanto, não é qualquer fé, sobretudo não é a fé do fanático e do tradicionalista, mas a fé no Deus vivo e da vida, isento de sacrifícios humanos, essa é a fé de Abraão.

De qualquer forma e, apesar de tudo, a melhor atitude ainda continua sendo do pai do menino epilético endemoniado que procura Jesus para que este o ajude. Diz o pai: “se tu podes, ajuda-nos, tem compaixão de nós”. Ao que Jesus responde: “Se tu podes!… Tudo é possível àquele que crê!” Imediatamente, o pai do menino gritou: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade! ”

A fé é uma certeza do que não vemos e posse antecipada do que esperamos. Mas, para não virarmos fanáticos fundamentalistas é melhor rezar, dia após dia: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade”!




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Obrigado, Padre Elli!

Pe Elli foi um testemunho do bem,
seja na vida presbiteral, seja na missão de educador.
E este posicionamento inspirou muitas pessoas
nos caminhos a serem trilhados.


No início de fevereiro, Pe Elli Benincá partiu para a eternidade. Junto como o sentimento de pesar que passou por todos nós, havia também o sentimento de gratidão pelo o que este irmão significou na vida de muitas pessoas. Alguém que passou no mundo fazendo o bem deixa um legado, um caminho a ser seguido. O testemunho de fé e agir cidadão do Pe Elli foi válido e tem inspirado as pessoas nas mesmas atitudes.

Pe Elli chegou à Passo Fundo em 1965 e de imediato assumiu dois serviços, o de presbítero, auxiliando na Catedral Nossa Senhora Aparecida, e do professor, nas áreas de filosofia e educação, no Consórcio Universitário Católico, hoje Universidade de Passo Fundo.

Quem o conheceu é unanime em dizer que ele exerceu com profundo senso de responsabilidade estas duas missões.

Como presbítero foi um grande diferencial na Arquidiocese de Passo Fundo, contribuindo de forma significativa na formação dos futuros padres e também na formação dos agentes de pastoral leigos e religiosos. Ajudou muitos a compreenderem a importância da evangelização como um projeto eclesial e pessoal. 

Como homem ligado ao ensino superior colaborou para que a formação dos futuros professores aliasse o conhecimento formal com o sentido humano do ser educador. Era um homem que acreditava no ser humano e o seu potencial libertador.

Ele operou com maestria o encontro da fé com a ciência, fortalecido no cotidiano de trabalho em vista do bem do ser humano. O respeito e consideração por cada interlocutor marcava as pessoas com quem dialogava, mesmo que as posições fossem divergentes.

Foi um dos fundadores da Itepa Faculdades e a criação do Curso de Teologia foi muito importante para a formação teológica e pastoral dos presbíteros, leigos e religiosos da região de Passo Fundo e de outras regiões do Brasil. Tinha preocupação para que a formação teológica fosse dialogante com os diferentes contextos e ajudasse a encontrar caminhos para a eficácia da ação evangelizadora. 

Uma outra contribuição importante do Pe Elli estava nos escritos. Deixou-nos muitos artigos e livros escritos.

As suas publicações eram uma forma de contribuição para que outras pessoas exercessem a tarefa pedagógica e teológico-pastoral na perspectiva que sempre sonhara: formação profunda e autonomia em ser e agir. A leitura dos textos leva a pessoa a interagir com o seu contexto de vida e trabalho em uma perspectiva crítica e aberta às transformações necessárias.

Por fim, ressalto o testemunho deixado. Nosso mundo precisa de bons testemunhos, de gente que exerce com coragem a missão de ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13ss).

Pe Elli foi um testemunho do bem, seja na vida presbiteral, seja na missão de educador. E este posicionamento inspirou muitas pessoas nos caminhos a serem trilhados. É muito bom quando em nosso caminhar encontramos boas referências que reforçam nossa busca. 

As palavras são limitadas para expressar o que o Pe Elli significou para muitas pessoas. Diante desta limitação vale a expressão: muito obrigado Pe Elli.

Descanse em Paz!



Padre Elli Benincá por ele mesmo, vínculo com a UPF (Universidade de Passo Fundo)

Prolongamento da vida e solidão

A medicina paliativa pode e deve ser
implantada na maioria dos hospitais
porque estará priorizando a compaixão
antes da tecnologia.


O medo da morte é ancestral. A alta tecnologia que permite o prolongamento da vida é um adicional pós-moderno, que assombra e exige muito dos que pensam a bioética. E exige muito dos que como eu, entendem nada de medicina, mas entendem de sentimentos.

Aparelhos de precisão nos diagnosticam, mãos habilidosas e cada vez mais especializadas nos operam, remédios sofisticados dão conta da doença, efeitos colaterais dolorosos vêm no rastro, aparelhos hospitalares dão suporte à vida a qualquer custo, sem que muitos pacientes terminais possam manifestar-se contra a prática do prolongamento da vida.

O último direito que um paciente terminal tem é cerceado quando não pode manifestar claramente sua vontade. Há poucos profissionais treinados para auscultar sentimentos. O fim da vida é algo delicado demais para que a vontade de quem está à morte seja negligenciada. Morrer junto a estranhos, mesmo que atenciosos, não é a mesma coisa que morrer junto à família como quase sempre foi permitido.

Os valores pessoais devem vir antes da tecnologia o que exige um preparo especial de quem lida com o final da vida. A escuta cuidadosa e o conhecimento do que traz conforto às pessoas deve vir antes da ânsia por sobrevida. Medicamentos paliativos estão para um paciente terminal, como a prevenção está para a qualidade de vida. Profissionais da saúde que lidam com a vida terminal devem ser tão reconhecidos, quanto os que previnem de forma efetiva o aparecimento de doenças.

A medicina paliativa pode e deve ser implantada na maioria dos hospitais porque estará priorizando a compaixão antes da tecnologia. Proporcionar conforto a alguém que vai morrer é ajudar essa pessoa a superar a dor, a falta de ar e a solidão.

Morrer em uma UTI deve ser algo excepcional e não a regra. Aparelhos sofisticados devem prolongar a vida de quem tem uma vida para prolongar. Velhinhos e velhinhas devem ter o direito de morrer.

Ajudamos a cuidar de algumas pessoas velhas na família. Por vezes assistimos à morte de um (a) deles (as), mas, no desespero de não perder quem amávamos, chamamos ambulâncias e vimos nossos queridos serem ressuscitados, para assistirmos mais alguns anos de sofrimento, que, sem técnicas de ponta, teriam permitido a morte em casa, em paz.

Este é um assunto delicado, mas que temos a obrigação de enfrentar. A morte faz parte da vida e, acho importante, devemos manifestar nossa vontade enquanto tivermos lucidez. Cabe conversar, ponderar, para que nosso direito à morte seja respeitado.

Doing role significa viver o processo de morrer. Temos o direito de, mesmo no fim, estabelecer relações, contar histórias de vida, rememorar o que nos fez felizes. Enfim, os velhinhos e velhinhas, assim como os pacientes terminais, querem finalizar suas vidas de uma forma participativa, exercendo o que lhes resta de vida confortável e respeitosamente.

Somos humanos em um processo longo e duro de evolução. Fugir de assuntos dolorosos não nos ajuda a evoluir, pelo contrário, nos deixa isolados e à mercê do que é frio e tecnológico, sem o calor dos sentimentos amorosos e de pertencimento.

Assim como presenciei procedimentos “heróicos” de prolongamento da vida a qualquer custo, entrei em contato com muita sensibilidade por parte de quem cuida da vida com muita compaixão. Espero que o assunto seja pensado em todos os níveis das ciências.




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Educação abandonada

Servidores públicos, estudantes, doentes, desempregados,
aposentados já foram classificados como fardos.
Simples assim! A educação brasileira agoniza!

O ataque  do governo Bolsonaro  ao setor  educacional  continua  de  forma  descarada. Universidades foram  acusadas  de  locais  de  “balbúrdia”, de manterem plantações de maconha, coisas  nunca provadas. Fruto dos  delírios dos seguidores  do  presidente.

Professores acusados  de  proselitismo  marxista, de promoverem  doutrinação dos  seus  alunos. Como se  sabe,  doutrinação é feita  em igrejas  e partidos políticos.  Em sala  de  aula,  discute-se, argumenta-se  e busca-se analisar  o  presente, com base  na experiência do passado.

A educação é, sem dúvida,  um ato político  em seu sentido histórico: a discussão  da pólis  em que vivemos  e na qual  queremos viver. Na  sala  de aula, privilegia-se a cultura, os saberes e  os valores  dos educandos  como  ponto de partida  e chegada  de uma  educação  como prática  da  liberdade  e da transformação.

Agora, quando as  aulas  estão recomeçando, um dado  espantoso  acaba de ser  revelado, escancarando a forma  como  o atual governo trata  a  educação:  O FNDE revela  que  em  2019  foram repassados  a prefeituras  de todo o país  307,8 milhões de reais  para  a construção  de  creches  e pré-escolas  e melhoria  da infraestrutura  da rede de educação  infantil.

Trata-se do mais baixo  repasse  em  10 anos. É o claro abandono da  educação. E  dizer que  em 2012  o repasse  foi de  2,28  bilhões  de  reais.  Coisa  de governo comunista.!!

E  tem mais. Meus espantados  botões  não acreditaram  ao  saber que o governo vai cobrar  judicialmente  os  estudantes  inadimplentes  do  Fies. E óbvio, que inadimplente deve pagar suas  dívidas. Mas, convenhamos, trata-se de uma perversidade se considerarmos a baixa capacidade orçamentária dos jovens, sobretudo  com a realidade  do desemprego.

A perversidade fica mais evidente quando se sabe  que  em 2017, o governo golpista  de  Michel Temer concedeu perdão  de  47  bilhões  de reais  em dívidas   com a União  a  131 mil  contribuintes, pelo programa  de  recuperação fiscal, o  Refis.

Permitiu ainda  o parcelamento  de  59,5  bilhões, pouco  mais  da metade  da  dívida original,  em até  175  prestações.

Desde outubro de  2019, o  governo Bolsonaro, por  Medida  Provisória do  Contribuinte  Legal, está oferecendo  semelhante “mamata”.   Quem são os  beneficiários? Figuras de destaque  da  Casa  Grande. Ulala!!

Aos meus  estupefatos  botões  expliquei: o descaso  com a  educação, a perversidade com os devedores do  Fies  não são novidades. Bolsonaro costuma tratar todos  os problemas  da população, sobretudo dos mais necessitados, como estorvo.

Servidores públicos, estudantes, doentes, desempregados, aposentados já foram classificados como fardos. Simples assim!




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Dose certa de amor segundo a bula

Amor demais, amor não é.

As notas musicais são frequências diferentes do som. Se você aumentar o fá, ele não será mais um fá, será um fá sustenido ou um sol. Não é possível exagerar na nota sem desafinar a música. Um sol exagerado é um sol sustenido ou um lá. O exagero altera a nota desarmonizando a melodia, ou seja, tornando-se outra coisa.

Para cozinhar é preciso controlar o fogo. Fogo demais queima e estraga tudo. Uma excelente comida, com excesso de fogo, pode transformar-se em carvão e fumaça. Adeus ao requinte dos ingredientes e à combinação dos temperos.

Quando os filhos se tornam tiranos dos pais, imaturos e dependentes, fala-se que foi amor demais. Dizem do ciúme que é um amor exagerado. Como assim “amor demais”? É possível dizer se é pouco ou muito aquilo que não tem medida? Como acertar a dose daquilo que não cabe nos frascos?

Recomenda-se aos pais que sirvam aos filhos, até a idade escolar, cinco xícaras de amor por dia, em três momentos diferentes, com quatro horas de intervalo, no mínimo. Para um filho amadurecer equilibrado, após a adolescência, reduza-se o amor para três colheres de sopa antes e depois das festas e após chegar muito tarde de uma festa noturna.

Santa Ignorância, socorrei-nos quando mais precisarmos! O amor é, e ponto final. O amor é sábio, e ponto final. O amor é auto-dosável e tem bom senso, o resto é amor do Paraguai.



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Amor demais é egoísmo com maquiagem barata. O medo da responsabilidade faz dos pais superprotetores dos filhos por culpas mais ou menos conscientes. Quem sabe as ausências injustificadas. Quem sabe a falta de exemplos na vida. Quem sabe uma preocupação mórbida com as finanças da casa, como se nelas, unicamente, repousasse a felicidade da família. Quem sabe os pais mimam os filhos tentando resgatar tardiamente um amor que não tiveram.

Quando se está na floresta do mundo, os filhos precisam referências e segurança, e elas são dadas por marcas claras plantadas pelos pais como árvores coloridas, pegadas profundas, desenhos na terra.

O filho pode andar seguro na floresta do mundo porque sabe os limites. Limites não comprimem, não afogam, não impedem qualquer aventura. Limites são linhas seguras para que a criança, adolescente ou jovem, caminhe no mundo e atravesse a floresta. Pais amorosos e conscientes não prometem pão ou dinheiro para o caminho. Lembrem-se da história de João e Maria em que as migalhas de pão são comidas pelos pássaros e as crianças continuaram perdidas.

Peço perdão aos poetas por preferir dizer que o amor é música e não fogo. É que o fogo pode ser medido no tamanho das chamas, intensidade dos graus. A música precisa de harmonia, ritmo, melodia. Se o sol não estiver lá, tenha-se dó, melhor dar ré e tapar os ouvidos.

Fico com o apóstolo João que diz: “Deus é amor e quem ama permanece em Deus”. Se Deus é perfeito o amor não pode produzir frutos intragáveis. Amor é uma trilha feita pelos pais. Como toda trilha tem pontos escorregadios, pedras, alguns rios para atravessar e até pode e deve haver riscos. Quando o pais não estiverem por perto, os filhos saberão seguir seu caminho a sós. Aliás, é para isso que os bons pais podem morrer serenos. Eles sobreviverão sem nós.  Amor demais, amor não é.



Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.

Eles não sabem o que é vida de professor

Eles não sabem que sabemos que eles sabem,
contudo, fingem que não sabem.


Eles não sabem o que passei pra chegar até aqui, o quanto estudei, abdicando do meu tempo com meus filhos.

Eles não sabem a dor que sinto ao ver o futuro escapar por entre os dedos, decidido pelos votos de terceiros, que nunca calçaram meus sapatos em caminhos pedregosos.

Eles não sabem o quanto sofrem famílias inteiras pelos mais variados motivos quando empurram para a miséria pessoas que estudaram e se dedicaram a garantir uma vaga de trabalho como servidor público.

Eles não sabem o que é faltar o essencial, aquilo que nos confere o mínimo de dignidade, e que é conquistado com muito trabalho.

Eles não sabem a má aposta que fazem em dias vindouros.

Eles não sabem que essa ganância, desumanidade e estupidez, mais dia menos dia cobrará a fatura. Eles não sabem o quanto debocham dos trabalhadores quando comemoram entre sorrisos e abraços tamanha crueldade

Eles não sabem que sabemos que eles sabem, contudo, fingem que não sabem.




Bráulio Bessa, em poesia, conta um pouco da vida dos professores de todo Brasil.


(Se)Mentes do amanhã

A escola pública deve ser assim
Com a finalidade do pomar, do jardim
Que no ventre da terra arada
Depositamos sementes com um fim.
Mestres jardineiros cultivando
Desabrochares futuros
Vislumbrando no horizonte
A colheita farta de fruto maduro.
O fruto disso tudo é a consciência
Valor que só é possível
Numa escola com ciência
Numa escola com decência
Ciência que educa, que prepara
Que fertiliza o intelecto
E espanta do canteiro a chaga
Que outra (se)mente já burlara.
Ciência e decência, que se nega
aos jovens, quando se é omisso
Quando não se tem com o futuro
Nenhum traço de compromisso.
Mas como em terra fecunda
Pouco cuidado ainda vale
A natureza, resiliente e dadivosa
Permite ao broto seu desbrave.



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