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Um jovem ativista cultural

Cássio Borges, um jovem ativista cultural, teve influências importantes desde muito cedo. Com uma avó professora, desenvolveu, desde os quatro anos, a vontade de ler. No seu tempo de escola, a vontade de trabalhar literatura, poesia e música com adolescentes e jovens. Vivendo de música, viu possibilidades de conciliar música e poesia.  Contando histórias, percebeu que as crianças desejam e necessitam de encantamentos.

Estas habilidades lhe permitiram estar trabalhando no SESC de nossa cidade, coordenando projetos culturais de abrangência local, regional e nacional.

Hoje, no auge dos seus 23 anos de idade, Cássio esbanja vigor e vitalidade na defesa da cultura como uma forma de cidadania. Defende a inclusão das diferentes formas de arte e cultura, sobretudo nas escolas públicas.

Conheçamos Cássio Borges por ele mesmo, em entrevista que concedeu ao site, organizada em 3 momentos: história e vida pessoal e literária; história profissional e artística; sua relação com a cidade de Passo Fundo e as experiências literárias e culturais.

NEI ALBERTO PIES: Conte-nos um pouco de sua história de vida pessoal envolvendo, desde cedo, sua vontade de ler e descobrir o mundo.

Minha avó- que não é de sangue, mas que uma vó que a vida deu-me de presente – trabalhou a vida toda como professora. Apresentou-me ao mundo dos livros e, por isso, em por mais um tanto, sou eternamente grato.

Nos finais de semana, ela colocava gibis e livros ao meu redor. Lia muito para mim. Graças a isso, com 4 para 5 anos, aprendi a ler. O primeiro livro que consegui ler sozinho foi “O Sanduíche da Maricota.” Depois, aventurei-me com Ziraldo e seu mundo de Menino Maluquinho, Joelho Juvenal e Professora Maluquinha. Então, soube – não sei como – que queria ser professor e estar envolto de livros.

NEI ALBERTO PIES: Ao cursar magistério na EENAV, surgiu desejo de servir a escola, trabalhar com adolescentes e jovens. Por que?

Antes mesmo do Magistério, esse desejo já estava vivo e latente. Sempre me senti muito a vontade no ambiente escolar e queria, de alguma forma, contribuir para melhorá-lo.

Trabalhar como adolescentes é desafiador em tempos de muito acesso virtual e pouca conexão.

Sim, pouca conexão. Conectar-se é estar de corpo e mente presente para exercitar nosso saber científico. Nas redes (anti) sociais, isso não acontece. Todos querem navegar, mas a maioria naufraga.

Meu objetivo é ajudar o jovem a buscar fontes de entretenimento que sejam culturais e edificantes. Acredito que é possível entreter-se e aprender ao mesmo tempo. Só é preciso saber onde e como buscar tais atividades.

NEI ALBERTO PIES: Qual foi a importância de alguns professores e professoras para despertar sua perspectiva artística literária?

Os professores Lauro Gomes e Laercio Fernandes dos Santos são aqueles seres inesquecíveis na vida de um aluno. Tamanha foi a motivação desses dois mestres que meu desejo de não sair nunca mais do ambiente escolar potencializou-se de uma maneira prazerosa e sem chance de dissuasão.

No magistério, aprendi muito sobre o que é ser professor e dos sacrifícios profissionais e pessoais que essa profissão envolve.

Apesar de não lecionar, tenho o privilégio de trabalhar com escolas através do Sesc e através da Literatura. Os ensinamentos desses mestres, até hoje, ecoam na minha cabeça quando sento para fazer um projeto, quando estou no palco, quando medio uma leitura. Enfim, há aqueles que se tornam eternos por tudo aquilo que ensinaram.

NEI ALBERTO PIES: Trabalhaste na Biblioteca Pública Municipal com contação de histórias. O que carregas desta experiência?

A Professora Suzana Einloft é um patrimônio humano da nossa cidade. Com ela, aprendi muito sobre como realizar projetos, firmar parcerias, tratar as pessoas. Na época, era ela quem coordenava todo o Núcleo Literário da Prefeitura Municipal. Os trabalhos que fizermos juntos –nos estagiários e ela – foram inesquecíveis: Contações de História, Teatro, Intervenções, Recitais de Poesia.

Na Biblioteca Pública Municipal, aprendi tudo que um curso superior não ensina. Aprendi a prática de ações culturais na veia.

NEI ALBERTO PIES: Há alguns anos no SESC, coordenas projetos culturais. Quais são estes projetos e como você se envolve com eles?

No Sesc, trabalho na Equipe da Cultura e estou a frente dos projetos de Literatura. Sempre tive muita autonomia para criar atividades e desenvolver esses projetos.

A Biblioteca é o meu QG. Um acervo com mais de 5.000 livros que estão disponíveis para qualquer um que queira ler. Também disponibilizamos acesso à computadores e à internet. Tudo de forma gratuita.

O Sesc Mais Leitura acontece 5 vezes ao ano e traz para a cidade autores, palestrantes, professores, ilustradores, contadores de história que fazem um trabalho todo voltado para fomentar o gosto pela leitura.

O Sesc Literatura possibilita que estejamos em mais de 30 municípios do interior da nossa região, levando a literatura para todos. Em Passo Fundo, participamos de atividades com escolas e instituições que nos procuram para que juntos motivemos a leitura.

NEI ALBERTO PIES: Fizeste a experiência de viver 04 anos de música. Que experiência foi esta?

Tocar semanalmente durante 4 anos, no mesmo lugar, ensina muito. Principalmente, como conhecer e lidar com pessoas. Se para um músico que fazia suas apresentações toda sexta-feira, para praticamente o mesmo público, já era um desafio, fico imaginando um professor que está diariamente com os alunos e precisa motivá-los, ensiná-los, manter a atenção, mas voltemos…

Trabalhar com a música foi muito prazeroso e instrutivo. Estar perto das pessoas e perceber do que gostam e do que não gostam ensinou-me muito mesmo. Hoje, trago em minhas atividades a música com complemento e a vivência que ela me proporcionou como metodologia.

NEI ALBERTO PIES: Sarau Literal. O que foi? Que lembranças?

O Sarau Literal Musical foi uma experiência única. Selecionei, carinhosamente, 10 canções que tiveram como fonte de inspiração a Literatura – Literatura com L maiúsculo. Disponibilizei, previamente, para as escolas que participaram, a lista de canções, os compositores e as obras literárias correspondentes. Foi um momento de exaltação à arte. Inexplicável a energia e a beleza desse momento. Podemos repetir, hehehe.

Já o Sarau Literal Livre, nasceu de um desejo que carrego sempre no bolso e no coração: DAR OPORTUNIDADE PARA TODOS.

O palco do Sesc tem de ser o mais democrático possível. Dever abrigar todos os artistas, independentemente do seu nível profissional. Desde que entrei nessa empresa que posso, tranquilamente, chamar de lar, fiquei entusiasmado com a ideia de poder oportunizar o nosso palco para os talentos locais.

O Professor Laercio trouxe os alunos do Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis que deram um show. Cantaram, dançaram, recitaram, dramatizaram. A Professora Ivania, da EENAV, trouxe as alunas do Magistério que realizaram uma dança cênica belíssima.

Foi lindo de viver!

NEI ALBERTO PIES: Celebraste 05 anos com Contação de histórias. O que significa esta experiência para ti? O que é ser um bom contador de histórias?

Fazer o que ama é um luxo de poucos. Felizmente, tenho esse privilégio – até quando, com o rumo estamos tomando, não se sabe.

Contar histórias está em mim desde sempre. A diferença é que agora me pagam para fazer, hehehe.

Contar histórias, na minha opinião, é o ápice da arte e do encantamento.

Sem recursos, sem cenário, sem figurino. Apenas uma boa narrativa que se desdobra em vozes e gestos. Todo o resto é elaborado pelo sexto sentido de quem está ouvindo: a imaginação. 

Na narrativa audiovisual – cinema, curtas, séries – temos tudo pronto. É preciso apenas absorver. Depois interpretar e julgar. Na contação de histórias, não. Assim como o leitor, o ouvinte é agente construtor dessa forma de arte. Ele imagina e recria automaticamente, através da sua imaginação, tudo aquilo que o contador de histórias está narrando. Sou um apaixonado por essa arte.

Um bom contador de histórias, antes de tudo, tem de ser um bom leitor. Lambuzar-se nas histórias infantis para ter repertório, pesquisar contos orais – pois é ali que reside a essência do contar- contar histórias para qualquer público independente de idade, classe ou cultura.

NEI ALBERTO PIES: Por tua experiência e trânsito na vida cultural de nossa cidade, como defines Passo Fundo? É uma cidade com grande ativismo cultural?

Sim. Uma cidade de muito ativismo e pouco público. Veja bem, Passo Fundo produz muita cultura, mas não consegue levar grande público até ela. Olha a riqueza que temos:  Sesc, Coletivo Andorinhas, Casa de Cultura Vaca Profana, Casa Drum Música e Arte, Coletivo das Artes, Espaço Cultural Roseli Doleski Pretto que compreende o Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, o Museu Histórico Regional, a Biblioteca Pública Municipal e a Academia Passo-Fundense de Letras, os grupos teatrais Ritornelo, Timbre de Galo e Madame Frigidaire e muito mais.

Contudo, a população prefere pagar R$150,00 para ver uma dupla sertaneja do que pagar R$ 12,00 e assistir um recitar de poesias, uma peça teatral, um conserto de violão.

Essa forma de enxergar a cultura local é o reflexo de que 80% dos passo –fundenses colocaram esse déspota abjeto na presidência da nação. Uma povo que não reconhece, não aprecia, não investe e não prestigia sua cultura local, dificilmente aprimorará seu saber crítico social.

NEI ALBERTO PIES: Por que nossa população e nossa cidade ainda não reconhecem o valor da arte, música, teatro e literatura local?

Esse fato é uma ausência de consciência. Já disse, em um poema, o seguinte:
Não me importo se você fala problema, poblema, pobrema
Eu quero é a solução.
Para todos nós.
Porque o problema mesmo
É quem começou a ganhar dez mil por mês
E pensa que é elite.
Dá chilique quando vê “pobre” no aeroporto
E acha bonito sair dizendo que quem trabalha
faz greve no domingo.
Por isso eu escrevo
Só assim eu me vingo
de um povo contra o povo
desumano e desunido

Somente quando o povo reconhecer-se como POVO e não como elite, começaremos a vislumbrar, ainda lá no horizonte, um preâmbulo de mudança.

NEI ALBERTO PIES: O SESC já atua há 63 anos em nossa cidade com trabalho social dirigido aos comerciários e também na área cultural. Tem um prédio que é uma referência na execução e promoção cultural. É, portanto, um local privado, com finalidades públicas. O que falta, na sua visão, para a cidade apropriar-se mais desta referência social e cultural de nossa cidade?

Essa consciência que tentei ilustrar na questão anterior, agregada de um sentimento de pertencimento. O Sesc trabalha para que as pessoas tenham a oportunidade de vivenciar a cultura e tornem-se consumidores de bens culturais, mas também é preciso que a população aproprie-se dessa oportunidade.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância das feiras do Livro, das Jornadas de Literatura e do Festival de Folclore em nossa cidade?

IMENSURÁVEL! Esses três grandes eventos fazem com que até quem não é frequentador de ambientes culturais tenha um momento de parar e apreciar a arte e, quem sabe, tornar-se um consumidor de bens culturais.

Uma peça de teatro é um bem cultural, um livro é um bem cultural, aquela poesia que você ama e sabe decorar é um bem cultural. O caminho é longo e sem esses eventos a utopia seria embebida em uma piscina olímpica de hipérbole. 

NEI ALBERTO PIES:  Como vê a expressão da arte e a liberdade dos artistas neste momento histórico?

Estamos à mercê de um ignorante (no valor amplo dessa palavra). Os artistas e professores precisam fazer uma frente unidade para berrar aos quatro ventos a importância da cultura e da educação e como a união dessas duas expressões é de suma importância para uma nação.

Não acredito que acontecerá algo como um AI-5 que foi a legalização da censura, mas acredito na teoria do sapo na panela de água fervendo.

“Se você puser um sapo numa panela, enchê-la com água e a colocar no fogo, vai perceber uma coisa interessante: o sapo se ajusta à temperatura da água, e permanece lá dentro. E continuaria se ajustando, quanto mais subisse a temperatura. Quando a água estivesse perto do ponto de fervura, e o sapo tentasse saltar para fora, não conseguiria, porque estaria muito cansado devido aos ajustes que teve que fazer. Alguns diriam que o que matou o sapo foi a água fervendo. O que o matou, na verdade, foi a sua incapacidade de decidir quando pular fora”.

Os direitos serão tirados aos poucos como já estão fazendo. O que nós não podemos é nos acostumar e nos adaptar com um Presidente que fala o que fala e que faz o que faz. O jogo dele é esse. Quer que a população volte a considerar normal: ser grato ao patrão, inferiorizar minorias, soltar piadinhas preconceituosas, não respeitar quem pensa diferente. PRECISAMOS NOS LEVANTAR E JÁ!

Minha foto favorita dessa caminhada de 5 anos.

“A arte é política. Quem diz que não é não entende nada de política e nem de arte.” Precisamos retomar o orgulho de carregar essa bandeira.

Palestra formativa para o Magistério da EENAV.

É preciso ser louco. Gente normal desestimula.

Feira do Livro de Passo Fundo.

Apresentação no encontro em POA com todos os colegas de rede de Bibliotecas Sesc RS.

Faça como o presidente: beneficie seu filho

Cuide, proteja e preserve o meio ambiente.
Essa é a maneira mais indicada de beneficiar seus filhos.

Numa única semana, entre tantos disparates e verborreias, – por sinal, algo típico nos dias atuais – ouvimos do senhor presidente da República do Brasil, acerca da intenção de indicar um de seus filhos para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, a seguinte afirmação: “Pretendo beneficiar um filho meu sim”.

Polêmicas à parte (e aqui não é o espaço mais indicado para discuti-las pormenorizadamente), mas guardando as devidas diferenças e indo, pois, direto ao assunto, ouso crer – imbuído de mínima pretensão – que, se o presidente da República pode fazer isso, nós também podemos fazer o mesmo.

Todavia, é óbvio que, como não temos nem o poder e tampouco a jactância demonstrada pelo Chefe da Nação de indicar e nomear quem quer que seja para qualquer embaixada, tenha ou não esse indicado a “capacidade” de fritar hambúrguer ou de falar (fluentemente?) inglês – ainda que o idioma oficial da diplomacia seja o francês – reafirmo aqui, desde já, a intenção de consolidar um grande (porém modesto, é claro) movimento direcionado a beneficiar cada um de nossos filhos/filhas, a partir da impostergável necessidade de preservar o meio ambiente e de cuidar da natureza: cada qual a seu modo próprio.

Isso mesmo: qual tal começarmos uma ampla campanha com o seguinte slogan: BENEFICIE SEU FILHO: PRESERVE O MEIO AMBIENTE! É esse o chamado: algo muito simples, direto e objetivo.

Beneficie seu filho e proteja o meio ambiente, afinal de contas, a nossa espécie está agredindo a Terra de diversas maneiras estúpidas: i) pelos alimentos modificados e dotados de resíduos de agrotóxicos (herbicidas, inseticidas e pesticidas) acima do permitido com que nos alimentamos; ii) pela água das nascentes que comumentemente sujamos e contaminamos com resíduos químicos; iii) pelo ar cada vez mais poluído que diariamente respiramos por conta do uso de nossos carros; iv) pelo tipo de economia de descarte que praticamos – nunca houve tanta derrelição como agora.

Beneficie seu filho e cuide da Casa Comum em que todos moramos porque, dito às claras, nossas ações nos condenam, afinal, estamos esgotando tudo aquilo que encontramos pela frente. Nos últimos trezentos anos extraímos mais recursos naturais que em toda a história da humanidade. Nos últimos 150 anos conseguimos extrair a exaustão minério de ferro, manganês, bauxita, cassiterita e enxofre. Apenas nas últimas oito décadas a comunidade humana extraiu mais cobre, vanádio, nióbio, grafita e tântalo, desde que a vida surgiu na Terra, há 3,5 bilhões de anos. E apenas nos últimos cinquenta anos, pasmem, foram poluídos mais rios, lagos e mares desde o momento inicial em que o animal homem, taxonomicamente classificado de sapiens, colocou seus pés na Terra.

Beneficie seu filho sim e “ampare” (metaforicamente falando, é claro) com todo o cuidado possível a biosfera, porque a verdade é uma só: não estamos sabendo lidar com o planeta que nos acolhe. Dito em linguagem modesta, estamos aumentando impiedosamente a devastação sobre o meio ambiente.

Exemplo? Somente em relação aos quatro ecossistemas que fornecem nossos alimentos – florestas, pradarias, oceanos/pesqueiros e terras agrícolas – nos últimos 70 anos todos foram expostos à profunda devastação. E mais: durante esse mesmo período de tempo, das 17 reservas pesqueiras conhecidas, 11 delas, hoje, possuem taxas de retirada maior do que a capacidade de reposição. Especificamente em relação aos oceanos – o maior dos ecossistemas – dados divulgados pela FAO/ONU apontam que até 2048 não mais se poderá tirar de lá algum alimento significativo devido à taxa de extração exagerada que esse ecossistema vem sofrendo.

Beneficie seu filho e trate com muito respeito e até mesmo elevada veneração todo o espaço natural que os humanos habitam, porque a nossa espécie, na verdade, Homo imprudentes, está “engolindo” numa velocidade assustadora quase todos os recursos facilmente disponibilizados ao consumo.

Atualmente, 75% dos estoques mundiais das espécies de peixes mais vendidas no mundo estão no limite da sua capacidade de recuperação ou além desse limite. Algumas espécies como o bacalhau, o hadoque, o badejo e o linguado caíram 95% no Atlântico Norte. Em apenas 30 anos, de 1970 a 2000, as espécies de água doce diminuíram 28%, e as marinhas, 27%. No oceano aberto, onde os barcos que praticam pesca de arrastão se movimentam sem restrições, quantidades de merluza, mero, peixe imperador, atum de barbatana azul e tubarões enfrentam grandes problemas para se reproduzirem. 

Para os céticos que, a exemplo do senhor presidente da República, insistem em desqualificar (sem conhecimento de causa) quase todos os dados de devastação ecológico-ambiental, cabe dizer, especificamente em torno desse assunto, que os números são assustadores: de 1950 até os dias de hoje, a pesca total em águas abertas e abrigadas passou de 20 milhões para 95 milhões de toneladas métricas – um aumento de 375%.

Beneficie seu filho e ajude, de toda e qualquer forma possível, a preservar as áreas florestais, sabe por que? Porque nossas economias, empenhadas na política do crescimento a qualquer custo, estão devastando essas áreas com muita velocidade e sem nenhum senso de reparação. A constatação aqui, como em outros casos já citados, é odiosa: se no início do século XX a área florestal no mundo era estimada em 5 bilhões de hectares, hoje, essa área encolheu para 2,9 bilhões de hectares. Apenas num curto período de 5 anos, de 1990 a 1995, a perda de área florestal nos países em desenvolvimento atingiu, em média, 13 milhões de hectares por ano, ou, em geral, 6,5% de suas florestas a cada década.


As consequências? Simples também de ser entendida: deterioração ambiental crescente; algo evidenciado cada vez mais no esgotamento do capital natural (solos aráveis, rios, mares, florestas, polinização, fauna, flora e outros) com o consequente empobrecimento biológico da Terra.

E mais: somente nas últimas cinco ou seis décadas, de acordo com a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, 20% dos recifes de corais do planeta foram destruidos (até 2030, 60% deles já não mais existirão), e outros 20% estão completamente degradados. Num período de apenas 30 anos (1950 a 1980), mais terras foram convertidas em lavouras do que em 150 anos, isto é, de 1700 a 1850; além disso, 35% das áreas de manguezais foram perdidas nos últimos tempos.

Conquanto, os dados odiosos não param por aí. Em todo o planeta, nada menos que quatro bilhões de hectares de terras firmes se encontram degradadas (vale dizer, já perderam a camada superior do solo).

Nos últimos 100 anos, as atividades humanas multiplicaram a extinção de espécies (fauna e flora) numa velocidade que causa espanto e indignação. Serve de exemplo: 30% dos anfíbios, 25% de coníferas, 21% de mamíferos e 12% de aves. Há mais dados severos: uma em cada oito das 9.946 espécies de aves no mundo; uma em quatro das 4.763 espécies de mamíferos e quase um terço de todas as 25 mil espécies de peixes, conforme consta no “Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas”, estão atualmente sob ameaça de extinção.

Ajude a conservar a natureza, proteja o meio ambiente e, assim, beneficie cada um de seus filhos, porque o momento atual exige de todos nós redobrada atenção, afinal, o engenho humano tem promovido, a toque de caixa, uma drástica mudança física na Terra por uso inadequado e totalmente fora dos limites planetários.

Atente-se agora para o nosso caso em particular. O Brasil continua sendo o país que mais desmata no mundo, e vale repetir, apesar do excelentíssimo senhor presidente da República, sem prévio conhecimento, contestar dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que através de imagens obtidas via satélite com o nível de precisão de 95%, faz o monitoramento da Amazônia desde 1988. Por conta dessas imagens, confiáveis e reconhecidas pela comunidade científica internacional, os brasileiros e o mundo sabem que, de 1º a 30 de junho do corrente ano, foram destruídos 920,4 km² de floresta amazônica no território brasileiro, contra 488,4 km² no mesmo mês em 2018.

Faça como o presidente do Brasil e beneficie sim o seu filho, a sua filha e os seus herdeiros, procurando deixar um ambiente saudável, equilibrado e seguro para todos eles porque a situação da causa ambiental por aqui, fácil de ser percebida, não está nada boa. Sabe-se que há um total de 627 espécies de animais e 472 de plantas que correm o risco de não mais constar do mapa de biodiversidade brasileira. Dessas espécies, cerca de 160 são peixes, 70 são mamíferos, 20 são répteis, 130 são invertebrados terrestres e 160 são aves. Dessa gravíssima perda de biodiversidade, a maior parte está na Mata Atlântica, da qual restam apenas 27%. Já da Caatinga, restam 63%; dos Pampas, 41%; do Cerrado, 60%; da Amazônia, 85%; e do Pantanal, 87%. A diferença desses percentuais, por dedução óbvia, já foi estupidamente destruída desde há muito tempo.



Nada pode ser superior à defesa da vida. Se o aumento produtivo dos dias de hoje vem ocorrendo na contramão do equilíbrio ecológico, afetando sobremaneira a qualidade social da vida humana e aproximando-nos assim de um perigoso colapso ambiental, acelerando de vez o impasse civilizatório, somente nos resta com alguma coragem engendrar um percurso diferente de tudo o que fizemos até agora.

Proteja e preserve o meio ambiente e beneficie todos os seus filhos, tendo em vista que a realidade atual é tenebrosa e preocupante: quase um quarto de todas as mortes no mundo, pasmem, são causadas por riscos ambientais, como ar poluído, água suja, locais de trabalho arriscados e estradas perigosas, de acordo com estudos produzidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Dados divulgados pela mesma OMS estimam que, de 12,6 milhões de mortes ocorridas no mundo em 2012, cerca de 23% desse total foram atribuídas a esses fatores, desencadeado principalmente pelo modo como avançam as economias industriais; isto é, sem qualquer respeito aos limites ecológicos do planeta.

Por fim, beneficie sim todos os seus descendentes, porque, no fundo, não estamos nem à direita e nem à esquerda nessa sempre candente discussão política do momento; estamos (e somos) da Terra, e estamos à frente.

Somos etimologicamente “húmus”, cujo significado é “terra fértil, fecunda”, originando as palavras homem/humano. Temos íntima relação com a natureza: somos formados por 20 aminoácidos e quatro ácidos nucleicos, e nada mais. Todos os seres vivos, sem exceção, utilizam esses 20 aminoácidos para fabricarem todos os tipos de proteínas de que necessitam. Todos os seres vivos do planeta Terra – homens, pássaros, peixes, vermes, minhocas, árvores, insetos, animais, plantas – são feitos basicamente de átomos de carbono, nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e alguns outros elementos em menor quantidade.

Há muitas semelhanças entre nós, a natureza e os animais, sem contar a dependência mútua existente. Natureza, homem, fauna e flora convivem, metaforicamente, sob a mesma regência. É isso o que precisa ficar claro.

Portanto, trocando em miúdos, somos uma só raça com condições de habitar esse único planeta com possibilidade de fazer a vida prosperar. Cuide, proteja e preserve o meio ambiente. Essa é a maneira mais indicada de beneficiar seus filhos.

Por uma cultura de paz e por menos ódio nas escolas

Mais círculos de paz, metodologia da justiça restaurativa,
e não de fileiras de ódio e incitação de violência que só produzem
e reproduzem a ignorância que cega e a irracionalidade
que exclui e mata as pessoas, a escola, o conhecimento
e o nosso futuro como humanidade!

Circulou indevidamente, nesta semana, um vídeo de 33 segundos nas redes sociais, gravado por um aluno, de uma briga entre adolescentes de um tradicional colégio privado de Porto Alegre no simbólico último dia de aula antes das férias de julho, sem que ficassem claros os motivos que levaram à agressão mútua, ou mesmo, a pró-atividade do professor de uma disciplina não informada. Inobstante, não queremos falar sobre a briga, pois seria certamente mera especulação, já que não tivemos acesso à filmagem na sua íntegra e não gostaríamos de fazer um juízo de valor equivocado.

Embora refutemos toda forma de violência e reafirmemos que nenhuma deva nos ser estranha, relevada ou silenciada, nesse caso, o mais importante é problematizarmos as maneiras de lidarmos com ela. Nesse sentido, queremos analisar as representações sociais de adultos, a maioria pais de alunos dessa e de tantas outras prestigiadas escolas privadas da paróquia, que deliberadamente atacaram adolescente, sem embasamento ou empatia, vociferando ódio, também uma violência e um crime. Ódio sustentado por preconceitos de raça, gênero e de orientação sexual, agudizado pelo cada vez mais reiterado, infelizmente, patrulhamento ideológico contra a escola e professores(as).

Recebemos de vários grupos e de diversas pessoas o tal vídeo, fotos da sala de aula, posts e áudios com lamentáveis comentários sobre o fato. Compartilharemos, neste artigo, alguns desses registros. Acompanhe-nos e tirem as suas próprias conclusões.


Para a psicopedagoga Alcione Marques, “é preciso evitar que crianças e adolescentes sejam expostos a situações humilhantes. “Vivemos uma crise de autoridade, temos professores desprestigiados e frustrados, que precisam ter apoio e preparo, também é necessário que a escola saiba estabelecer regras e o aluno entenda que suas ações têm consequências”. Leia mais aqui.


Vivemos em um época de baixa da ciência, do conhecimento, da universidade e de alta de ideias de financeirização da educação pública e de “Escola Sem Partido”, embora os criadores desse projeto estejam insatisfeitos com o governo federal e, ao que tudo indica, também em crise financeira, como alegou a sua principal liderança para “pôr fim ao movimento”.

Claramente, contudo, essa ideologia continua viva em cada manifestação que coloca o professor na condição de suspeito e fomenta a desconfiança como parâmetro para a relação entre discentes e docente, estimulando a gravação de aulas para interditar conteúdos que fazem parte de conquistas civilizatórias, como a educação sexual e de gênero, entre outros direitos humanos fundamentais. Pasmem, atribuem, equivocadamente, esses temas a uma agenda de “esquerda” ou “comunista”, como preferem, e questionam a relevância, por exemplo, da Sociologia e da Filosofia, vitais para uma reflexão minimamente crítica, portanto potencialmente emancipatória, da realidade.



Cresce, no seio das escolas particulares e algumas escolas públicas, um movimento de mães e pais que defendem o que nem deveria estar sendo colocado em xeque: a autonomia das escolas, a liberdade de cátedra dos professores e professoras, o conhecimento como forma de emancipação e libertação dos adolescentes e jovens, a pluralidade de pensamentos. Conheça mais aqui.


Além disso, com o advento das redes sociais e do uso corrente de celulares e dispositivos móveis, os(as) alunos(as) facilmente gravam e publicam as aulas, mesmo sem autorização e não sendo um direito a priori, já que viola uma série de normas constitucionais e regras legais, e expõem seus colegas, os(as) professores(as) e a própria escola.

Mas não são as crianças e adolescentes que violam as regras de compartilhamento de imagem de menores e de aulas de professores(as), adultos também o fazem e são os principais responsáveis pela viralização de vídeos dessa natureza em grupos escolares de Whatsapp, como nesse caso.

Incrível o que falaram os adultos comentaristas dessa violência. Vejam, sem filtro: “dominada (a escola) pelo ideário de esquerda”; “ideologia de gênero”; “risco a que estão expostos os alunos da referida instituição (em razão da ideologia)”; “princípios (educacionais) impostos pela violência”; postura omissa e covarde do professor”; “a confusão teria começado em função da própria atitude do professor”; “eles estavam em uma aula de sociologia, dá para ver bem pela cara do bosta do professor e estavam falando aquelas imbecilidades comunistas”; “um professor doutrinador do PSOL passou na sala de aula um vídeo para mostrar aos alunos o abuso da polícia. Qual o objetivo disso?”…

Ora, por que falar sobre violência policial? Talvez porque vivemos no país que mais sofre com essa problemática, que também vivenciamos em Porto Alegre, basta ler jornal ou abrir o Facebook. Quer dizer que a escola não deveria ter trazido esse tema para debate? Então, a escola deve estar alheia às questões atuais que nos atingem a todos(as)?

Preferem dividir a sociedade desde a escola com partidarização e a interdição do conhecimento? Não desejam que os jovens pensem em soluções para os problemas concretos do país e do mundo como este ou a desigualdade social e racial que levou o Brasil à liderança mundial, tendo a polícia que mais morre e mais mata!

Quiçá, não saibam ou não reconheçam, as vítimas fatais dos dois lados, da polícia e da população, são jovens negros de periferia, com baixa escolaridade, que pertencem, como todas e todos nós, a uma sociedade racista, estruturadora da necropolítica.

E mais: 70% das vítimas dos mais de 62 mil homicídios anuais no país e a maioria dos 800 mil apenados também têm esse perfil. Sobre isso, os “árbitros” desse triste episódio da semana sentenciam: “entraram no papo do racismo e a guria do cabelo “x” é negra, guria que se diz guri, ela até mudou o nome dela, sabe estes papos assim (sobre racismo)”; “pois bem, uma menina, acreditem que a de cabelo “x” é uma menina”; “a Maria João”;” É claro que o menino foi acusado de ser covarde por bater numa mulher (seria menina, não?), mas é uma mulher com pênis”; “o moleque (que bateu) é tri de boa, eu conheço ele… a guria tava se crescendo na aula…comunista…quis dar uma mitadinha (vem de “mito”, imaginamos), veio para cima dele e tomou um aplauso (em verdade, um tapa no rosto)”.

Como se pode constatar, o preconceito como legadonasce no seio familiar e esses comentários deixam isso bem evidente. Daí porque sustentamos que essa violência, objeto dos comentários, emergiu na escola, mas foi semeada e é cultivada, em parte, pela família e pelos pais.

Uma cidadania ética e consciente, forjada no convívio entre as diferenças e no respeito às diversidades, é formada na primeira infância junto à família, nas inúmeras configurações e arranjos familiares possíveis, depois na escola e nas demais instituições sociais de socialização secundária.

As famílias, o Estado e a sociedade civil precisam disputar as juventudes que estão à margem com políticas públicas inovadoras de inclusão, de proteção e de promoção de direitos e com outras tecnologias de governo mais eficazes para resgatar o sentido e a valorização da vida com outras narrativas a serem construídas por intermédio da educação, da arte e da cultura. E que coincidência tantos dados de morte concentrados nesse perfil social: jovens negros de periferia.

Deixamos os nossos filhos na escola para estranhar essa realidade, para desnaturalizá-la, para pensarem em novas soluções e para entenderem que as violências, no plural, perpassam as relações sociais, o Estado, as polícias e a todos nós a partir dos preconceitos de classe, de raça, de gênero, de orientação sexual, de capacitismo, de credo religioso e de todo tipo de intolerância, discriminação e opressão.

Até quando a sociedade ficará inerte frente à falaciosa ideia de ideologização da escola propagada por extremistas de direita, ao incentivarem, conscientes ou não, a prática de violências, a exemplo do compartilhamento de vídeos seguidos de apelos contrários à liberdade de aprender e ensinar e à benfazeja pluralidade de ideias, própria da democracia?

E como resolver o preconceito macrossocial que chega até a sala de aula, estigmatizando, de forma descontrolada, na Internet, adolescentes e gerando uma ambiência beligerante em toda a comunidade escolar?

Necessitamos de mais debates sobre sobre racismo, gênero, liberdade, diversidade, ciberética e desigualdade. O sectarismo, que não se confunde com a radicalidade (de ir até a raiz) no pensar e no agir, e sua face mais conhecida, o extremismo, antagoniza a sociedade e pólos que não se encontram, impossibilitando o diálogo e a negociação, gerando medos, adoecimentos e vulnerabilidades que vitimam ainda mais alguns grupos, sobretudo os “matáveis”.

Apostemos, ainda, na disseminação da justiça restaurativa nas escolas para recompor as relações, mediar os conflitos, restaurar os danos e restabelecer a confiança, que só se vislumbra com respeito e limites, entre alunos(as) e professores(as), entre mães, pais e escola. Isso que se espera de uma educação democrática.

Carecemos de mais círculos de paz, metodologia da justiça restaurativa, e não de fileiras de ódio e incitação de violência que só produzem e reproduzem a ignorância que cega e a irracionalidade que exclui e mata as pessoas, a escola, o conhecimento e o nosso futuro como humanidade!



Autora: Aline Kerber é presidenta da Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD), em parceria com Eduardo Pazinato, membro da Comissão Jurídica da AMPD.

Devemos educar as crianças. Educamos?

Qualquer lugar é lugar para educar.
A educação vem de casa, mesmo que
esse ambiente não seja a casa.

Algumas histórias, imaginamos que só se efetivam na ficção. Porém, as piores e absurdas, observamos a olho nu, mesmo que elas não tragam nada de construção positiva a um ser: criança ou jovem em formação.

Era meio dia. O restaurante cheio. Comida deliciosa. Variada. Churrasco sendo servido com uma carne selecionada. O bufê apresentava uma gama de opções para saciar a fome. Eu já tinha me servido. Salada como de costume, em primeiro lugar. Depois, alguns outros alimentos que considero saciáveis e saudáveis. Poderia ser um dia como tantos outros, naquele restaurante de costume.

Qualquer lugar é propício para se educar. Inclusive num restaurante. Educar as crianças. A educação vem de casa, mesmo que esse ambiente não seja a casa. Educar os jovens e as crianças não demanda de um ambiente específico, nem momentos determinados para essa prática, que constrói um ser humano, na sua essência, como pessoa.

Uma mãe chegou. Duas crianças estavam com ela. Uma aparentava 2 anos. Esta já trazia um sorvete na mão. Observei discretamente, poderia ser um daqueles sorvetes em forma de cone, “corneto”. Claro essa criança não quis comer. Sentaram-se na mesa.

A criança de aproximadamente 4 anos chegou emburrada. A mãe fez, por muitas vezes, a pergunta clássica: – “Quer comer filhinha?” A menina com uma reação de desprezo à mãe, dizia que não queria. Cabeça baixa. Ali ficou. Novamente a mãe insistiu: “O que você quer comer filhinha?” Essa mãe tinha uma entonação de submissão a essa criança. A menina, é obvio, respondeu: – Não quero! Já disse!

Dali, alguns instantes, para minha decepção. Quase perco a noção de equilíbrio e senso humano.

Abri a boca para intervir. Queria dizer que não fizesse isso. Que conversasse com a criança lhe explicando que o importante é comer algo saudável. Queria dizer para essa mãe que o controle da situação compete a um adulto da relação. Que o momento era um momento de ensinar a criança a vencer frustações. Mas, me contive.

Nesse instante, a mãe levanta vai até perto do caixa, onde estavam pendurados alguns salgadinhos e alcança para a criança. A criança abre. Come juntamente com um refrigerante.

É impossível diante de tais circunstâncias não se questionar. Como educamos? Educamos? Que seres se tornarão? Assim, alimentam monstros, com baixa ou nenhuma tolerância à frustação.

Como será o nosso jovem? O nosso adulto? Seguem modestas hipóteses destes adultos ao amanhã.

Um desses poderá ser aquele que ao fim de um relacionamento não supera essa frustação, vai até a casa da ex e a mata, ou ela que poderá se matar por não estar acostumado a lidar com frustrações.

A vida é cheia de frustrações. Será que na vida a adulta não poderá ser contrariado? Será um adulto problemático, que não entende a frustração de seus desejos.



Nossa sociedade está doente, por que não é possível que
uma geração toda receba educação quando os adultos
não entendem seus papeis de progenitores e educadores de vidas.
Que precisam dizer não, ao invés de sempre dizer sim.

República das bananas

Nós, brasileiros, andamos atualmente perseguidos
pelo nosso passado e ainda nos dedicando à tarefa de
expulsar fantasmas que, teimosos,
continuam a assombrar.
Que saga!

Em 1904, o norte-americano William Sydney Porter cunhou o termo “República das Bananas” num conto chamado “O Almirante”.

A história se passa na Anchúria, um local fictício mas que há de ter sido inspirado em Honduras, país onde o escritor morava. A brincadeira pegou e acabou associada às nações latino-americanas, de uma maneira geral, e de forma sempre depreciativa. Identifica um país políticamente instável, submisso a um país rico e governado de forma autoritária.

Nestes sete primeiros desastrosos meses de governo, Bolsonaro, sem fazer muito esforço, nos remeteu à clara condição de República das Bananas.

Sem o menor pudor defendeu a nomeação do filho para a embaixada brasileira nos EUA, dizendo que não vê nada de errado em querer beneficiá-lo. Isto tem um nome: nepotismo!

Para aprovar a Reforma da Previdência, deputados ganharam 2,6 bilhões de reais em emendas. Mais uma vez, as emendas parlamentares acabaram se convertendo em formas de barganha política entre o presidente – arauto da “nova política” – e os congressistas. Uau!!

O Inpe divulgou dados do criminoso desmatamento em andamento na Amazônia. Foi o que bastou para que o presidente chamasse o respeitado cientista, diretor do Instituto, de mentiroso e de covarde.

Sua falta de educação e de traquejo para o cargo que exerce, foram novamente externados, quando chamou os nordestinos de “paraíbas”. Claro desrespeito e preconceito para com nossos irmãos daquela região do país.

Mais. Foi flagrado exigindo retaliações contra os governadores que não apoiaram sua eleição.


Isto me fez lembrar de Hermes da Fonseca que, em 1910, adotou a chamada “Política das Salvações”, contra as oligarquias que não o haviam apoiado na eleição em que venceu Rui Barbosa.

Confidenciei aos meus espantados botões: Nós, brasileiros, andamos atualmente perseguidos pelo nosso passado e ainda nos dedicando à tarefa de expulsar fantasmas que, teimosos, continuam a assombrar. Que saga!

E tem mais. Bolsonaro revelou sua tendência de censor ao querer estabelecer que gêneros de filmes deveriam ser apoiados pela Ancine. Vargas do Estado Novo e os generais da ditadura da década de 1970, estão muito bem representados!

Seguindo sua cruzada contra a imprensa, que considera sua inimiga, S.Exa., hostilizou de forma autoritária e grosseira a jornalista Miriam Leitão.

Outra insanidade presidencial foi ter negado a existência de pessoas passando fome no país. Com esta declaração Bolsonaro, sem dúvida, superou-se em sua demência.

Especialistas que faziam parte do Conselho Nacional de Política sobre Drogas (Conad), foram cortados por ordem do presidente. Isto impede a pluralidade e que a perspectiva científica norteie as discussões e decisões no Conselho.

Na República das Bananas do capitão sequer a caserna é poupada. Em sete meses de presidência, três oficiais-generais foram demitidos e na semana passada disse que outro, Luís Eduardo Rocha Paiva, aliou-se ao PCdoB, isto porque, o militar lhe teceu críticas.

Sem dúvida, estamos diante de um novo Febeapá, Festival de Besteiras Que Assola o País – antológica trilogia de livros lançados na década de 1960, pelo genial Sérgio Porto –, que registrou o besteirol da época.

Não é à toa o que as pesquisas mostram: Em sete meses, apenas um a cada três brasileiros aprova Bolsonaro. Outros 33% da população consideram seu governo ruim ou péssimo e, entre os dois polos, 31% têm a gestão como regular.

Bolsonaro continua focando no segmento mais autoritário e violento do bolsonarismo e, assim, fica cada vez mais preso a esta minoria, que ainda está disposta a sustentar a verdadeira República das Bananas e seu “mito”!

Educação, ciência e cultura sob ataque

Sem educação, sem cultura, sem ciência e tecnologia,
como passaremos do nosso histórico atraso
para o desenvolvimento?

O retrocesso nas políticas educacional, cultural, científica, tecnológica e ambiental vem caracterizando o governo Bolsonaro. Com especial atenção, o bolsonarismo, está destruindo educação e cultura que são vistas, assim como os professores, inimigos do novo regime instaurado no país.

É assustador e trágico assistir a destruição do presente e, consequentemente, do futuro das novas gerações. Sem educação, sem cultura, sem ciência e tecnologia, como passaremos do nosso histórico atraso para o desenvolvimento?

O corte impiedoso e drástico nos recursos destinados à estas áreas é explicitado no criminoso combate à universidade pública. Exatamente esta que investe na pesquisa, forma quadros, dá acesso e proporciona o conhecimento aos mais humildes.

Enquanto países como Alemanha, China, Coréia do Sul, EUA, Japão investem bilhões de dólares em educação, cultura, tecnologia, aqui, Bolsonaro determinou um corte geral de 40% no custeio das universidades federais.



Alemanha anuncia 160 bilhões de euros para universidades e pesquisas. Valor significa aumento médio anual de 2 bilhões de euros nos investimentos em ensino superior e centros de pesquisa durante o período de 2021 a 2030. “Estamos garantindo a prosperidade de nosso país”, diz ministra. Veja mais aqui.



Já o Ministério das Comunicações, Ciência, Tecnologia e Inovação foi “presenteado” com um corte de cerca de meio bilhão de reais em seu orçamento.

Há, de parte do bolsonarismo uma verdadeira loucura ideológica, além, de uma evidente e articulada mobilização de interesses econômicos.

Poderosos fundos estrangeiros assistem de camarote a destruição do ensino público nacional, enquanto calculam o que irão faturar com o seu desmantelamento.

Educação, ciência e cultura são, na visão do “iluminado” governo Bolsonaro, secundárias.

 Não fiquei surpreso, portanto, com o anúncio de que não teremos este ano a Jornada Nacional de Literatura.

Não existem verbas, anunciam os frustrados organizadores de um dos maiores eventos culturais do país.

É bem verdade que esta não é a primeira vez que isto acontece.



Conheça um pouco das atividades da Jornada Nacional de Literatura 2017.


Talvez se um painel sobre a “história das armas” e palestras com escritores “terrivelmente evangélicos”, fossem incluídos na programação da Jornada, esta ganhasse a atenção do governo do capitão. Até março de 2020 há tempo para tais “inovações”.

É lugar comum, mas muito verdadeiro, dizer que saber é poder. A habilidade de construir conhecimento sobre a própria existência é exclusiva do ser humano.

O conhecimento, usado como ferramenta de reflexão, é transformador. Isto incomoda um governo reacionário, autoritário, messiânico, pré-medieval, como o que existe hoje em Brasília, representante do que há de pior em nossa “elite do atraso”.

O Estado Brasileiro nunca promoveu a revolução educacional. É refém histórico das elites proprietárias que precisam manter o povo na ignorância e na incultura para ocultar a perversidade de seu projeto social de enriquecimento ilimitado, para reproduzir seus privilégios e se perpetuar no poder.

A difícil adolescência

Nós, os adultos, temos que pedir desculpas
por apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor,
o presente é feio e o futuro é catastrófico.

Confesso que não gostaria de ser adolescente, mesmo sabendo que estaria em meu pleno vigor, com muitos anos pela frente para realizar sonhos. Ter 71 anos me parece ser mais fácil do que ter 15, 16, 17 ou 18 anos.

Ouço muitos comentários por parte de pais e professores, assisto às notícias, leio jornais e chego à conclusão de que nossos jovens estão sendo extremamente prejudicados, pois lhes negamos seu passado, seu presente e seu futuro.

Fazemos isso quando lhes falamos que nossa infância foi muito melhor, pois andamos de carrinho de lomba, brincamos livremente pela rua, exploramos mato, rios e mares. Não nos furtamos em emitir nossas opiniões acerca da infância deles, reprovando o videogame, os sites de relacionamento, as conversas no Messenger, as postagens no instagran e em outras redes sociais.



As redes sociais mais utilizadas por jovens em 2019.
https://www.apptuts.com.br/tutorial/redes-sociais/top-redes-sociais-usadas-mundo/

Quando o assunto é música, então, a coisa fica pior. Nossas músicas tinham mais graça, dançava-se junto, o ritmo e a letra eram coisa que presta. Abominamos o fato de terem trocado o dançar junto pelo ficar junto; por terem trocado caderno questionário com uma pergunta por página – horror das mães – pelo Orkut, depois pelo faceboock, instagran e outras redes sociais. Tudo o que fazíamos era muito melhor do que eles fazem, veja só!

Quanto ao presente, não aceitamos que eles consigam aprender em meio ao barulho, que façam muitas coisas ao mesmo tempo e com uma rapidez incrível. Queremos que eles aprendam de bom grado, sentadinhos por horas, em silêncio, bebendo da sabedoria dos professores.

Eles teimam em aprender do seu jeito, teimam em questionar os comandos e não conseguem obedecer sem que tenhamos que dar mil explicações antes.

Com relação ao futuro, mostramos um mundo que desmontamos, no qual promovemos guerras mundiais, territoriais, religiosas. Cometemos genocídios, mostramos pedófilos, terroristas, queimadas, num festival de tolices feitas por poderosos adultos. Nós somos adultos genocidas, suicidas e cheios de razão, questionamos meninos e meninas que, vendo todo esse descalabro, tratam de viver intensamente o momento presente, por ser impossível vislumbrar um futuro viável.

Não seria mais sábio se olhássemos para nossos adolescentes e tirássemos lições do que estamos  lhes causando?

Sabe-se que o comportamento irreverente da juventude é uma característica e uma marca da própria condição adolescente e infantil; sabe-se que há um modo novo de aprender que ainda não entendemos, mas existe para quem tem olhos de ver. Sabe-se que nossa autoridade está sendo questionada, também por causa das bobagens que fazemos, envolvendo-nos em escândalos de corrupção, em falcatruas amplamente noticiadas pela mídia, pela falta de ética nas nossas atitudes.



Por que ser ético?


Agora, como diriam nossos filhos: Fala sério! É possível ter uma adolescência saudável, se tudo o que se faz está errado? É possível projetar uma vida longa se tudo o que é mostrado está desmoronando? É possível confiar em adultos que exigem que se viva hoje como se viveu ontem?



Conhecimento sobre as novas gírias usadas pelos jovens neste momento histórico. Veja mais aqui.


Nós, os adultos, temos que pedir desculpas por apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor, o presente é feio e o futuro é catastrófico. Melhor seria se mostrássemos a caminhada da maioria que é honesta, trabalhadora, empenhada em melhorar a vida das crianças, dos jovens, dos velhos.

Melhor seria se compreendêssemos que vivemos uma nova era, na qual a família tem um novo papel, que é o de cuidar melhor, que é também o de promover a autonomia dos filhos, sem desqualificá-los, ajudando-os a ver o mundo em permanente evolução, sem saudade de tempos em que éramos comandados de todas as formas, tanto em casa quanto nas ditaduras que sofremos.

O modelo Tabata

A questão é que Tabata Amaral não é apenas
uma deputada do novo centro, ou do
novo liberalismo brasileiro.
Ela se afirma como um modelo.

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.



Nem direita, nem esquerda. Como?


A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As Câmaras de Vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembléias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

A Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos de direita e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.



Matéria da Folha de São Paulo ilustra esta concepção de renovação na política. Veja mais aqui.



Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.


A soberba: pecado contra humildade

Pela soberba participamos do diabólico!
Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.

A soberba é o pecado contra a humildade. A humildade é uma virtude. A soberba é um vício.

A virtude da humildade é o reconhecimento da própria verdade, nem mais nem menos. A humildade não é desprezo de si. O desprezo de si é uma maldade e uma injustiça contra a autoestima.

A humildade é uma virtude de justa medida entre a soberba arrogante e o desprezo de si. A soberba, por sua vez, é achar-se maior do que se é. Se o desprezo de si é uma falsa humildade, um tornar-se menos do que se é, o pecado da soberba é o exagero e a inflação de si, é um excesso do eu, um pecado por inflação do ego.

A soberba é um outro nome para a vaidade e o orgulho. O soberbo se acha melhor do que é e melhor de todos os outros. O soberbo “se acha”! Por “se achar” deixa de considerar os outros como iguais, alimentando uma falsa superioridade, enganosa e danosa, pois, em se tendo “numa conta excessiva”, pensa ser mais do que é e, por conta disso, deixa de procurar ser melhor, achando que já é “o melhor”. O efeito espiritual e moral dessa atitude viciosa é devastador. Aliás, tudo o que afronta a reta razão e a verdade, é devastador. E o soberbo afronta a razão e a verdade ao pretender ser o que não é. 

A soberba é o pecado do excesso do eu. A soberba é a mãe de todos os pecados pois alimenta uma vaidade em demasia e um senso exagerado da própria importância.  É a mãe de todos os pecados porque o seu portador se acha, infla o peito e está sempre pronto a dizer, em alto e bom som: “sabe com quem você está falando?” É o pecado da arrogância e o arrogante não se sente confortável a não ser como um “pequeno deus”. É o pecado de Adão e Eva. O pecado de Adão é cair na tentação de querer ser igual a Deus e não aceitar a condição humana.

Ser humano significa aceitar-se como “aquele que veio do húmus”. A humildade nada mais é do que saber-se de origem do húmus. Húmus, humano, humilde são da mesma família ontológica e etimológica. O soberbo pensa que pode se bastar, quando na verdade o bastar-se é a coisa mais estranha ao humano, vulneráveis, dependentes e frágeis que somos. 

O mais prejudicado no pecado da soberba é o próprio soberbo pelo efeito devastador na sua alma, mas não só. O efeito da soberba recai também sobre os outros, inferiorizando-os, diminuindo-os e desprezando-os.

A bem da verdade, na soberba, o ciclo do pecado se fecha porquanto o seu portador, ao transgredir a lei eterna de Deus, acaba causando danos a si e aos outros. Pecar contra Deus, contra si e contra os outros. Eis aí a tríade da essência do pecado.

Mas tem mais. No caso do humano em geral, caímos na tentação da soberba sempre que nos achamos superiores aos outros seres e por isso o efeito devastador, hoje mais do que evidente, desse pecado, sobre a natureza e os animais.

Quanto mal praticado pela atitude soberba de nos acharmos a “cereja do bolo da criação”, diminuindo todos os outros seres, submetendo-os ao nosso domínio! Quanto mal!

Os vícios ou pecados capitais trabalham juntos, subordinados a um principal, a soberba. Caberia aqui pensar na ideia de que todos os males estão submetidos ao príncipe do mal, o diabo, e o diabo é diabo não só por ser velho, mas, sobretudo, por ser soberbo. Ele, o tinhoso, simplesmente não aceitou não ser deus e se rebelou, contra Deus, por soberba.

O diabo não se tornou diabo pelo pecado da luxúria, da gula, da avareza ou da preguiça. Não. O diabo, um anjo decaído, decaiu pela soberba de querer ser deus. Pela soberba participamos do diabólico! Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.

Pensar, ao lado de amar, são as duas formas humanas mais elevadas para não decairmos banalmente no pecado e no mal. Pensar e amar! Amar e pensar!



Gilmar Zampieri mantém um blog onde publica suas reflexões, na ideia de que não se percam e possam estar reunidas. É autor de outras 20 reflexões interessantes no site. Acesse clicando aqui.

Batendo o tambor pra pedir respeito

Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras, sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas, mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que obrigatório nos templos destas religiões.

Gosto de observar a relação que o ser humano tem com o sagrado. São crenças diversas, milhares de fés diferentes, que unem pessoas em torno de sentimentos de amor.

Enquanto algumas pregam a caridade e o amor ao próximo, outras defendem a relação direta com a figura que acreditam ser a representação do divino, seguir algumas regras pré-determinadas e isso basta.

Apesar de não ser grande devota ou frequentadora de qualquer religião, minha admiração pela resistência dos povos africanos me fez pesquisar a temática. Discorri sobre a representatividade da mulher no espaço do terreiro de umbanda e neste processo de observação e aprendizado pude presenciar a dedicação destas pessoas não somente à sua ritualística, como também para o bem-estar da humanidade como um todo, refletida no atendimento prestado a qualquer pessoa que se faça presente na celebração e no envolvimento destes religiosos em campanhas de solidariedade.

Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras, sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas, mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que obrigatório nos templos destas religiões. Mesmo com estruturas por vezes grandiosas, a essência ainda é a da benzedeira que tem um galho de erva e o coração cheio de amor.

Amor esse que parece incomodar os corações cheios de ódio e preconceito. Em cinco anos, as denúncias de discriminação por motivo religioso cresceram 4960%.  

Conforme dados publicados no Relatório de Intolerância e Violência Religiosa, da Secretaria Especial de Direitos Humanos entre os anos de 2011 e 2015, 27% das denúncias feitas nas ouvidorias eram de pessoas da religião de matrizes africana, diante de somente 16% de evangélicos, 8% de católicos e a 7% de espíritas.  Todavia, quando se trata da religião dos agressores, os dados apontam que 17% eram evangélicos, diante de 3% católicos.

Como praticantes da intolerância os religiosos de matriz africana ficam juntos aos Testemunhas de Jeová e Espíritas, com índice de 1%. Em 73% dos casos não foram registradas informações sobre a religião do agressor.



Racismo religioso: saiba o que é.



Conforme dados do Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que recebe denúncias de discriminação e violação de direitos, foram registradas 213 notificações de intolerância religiosa a matrizes africanas, de janeiro a novembro de 2018. Os dados são 47% maiores que os registrados no ano anterior.

São agressões verbais, agressões físicas, pichações em casas de culto e até “guerra sonora” (quando os vizinhos utilizam o som em alto volume para que os religiosos não consigam dar andamento na cerimônia).

Há ainda a perseguição e morte de líderes religiosos de matriz africana, em diversos pontos do país. Em diversas periferias, traficantes ligados às religiões neopentecostais destroem terreiros, imagens e histórias “em nome do senhor”.

Uma violência presente e por vezes invisibilidade pelo tabu que os desconhecedores destas religiões replicam em suas piadinhas carregadas de preconceito.

Ainda que o artigo quinto da Constituição Federal de 88 diga que o brasileiro tem direito ao “livre exercício de cultos religiosos e tendo garantida a proteção aos seus locais de culto e às suas liturgias” poucas são as ações, em especial por parte dos estados, para diminuir os índices (que devem ser muito maiores, já que muitas pessoas não denunciam por saber que dificilmente se busque uma solução para a questão).

Mesmo com penas previstas no Código Penal para crimes de intolerância religiosa que incluem multa ou detenção, de um mês a um ano podendo aumentar em um terço caso se registre algum ato de violência, os povos que cultuam as religiões de matriz africana seguem batendo seu tambor com orgulho, buscando respeito, mas com medo que o seu terreiro seja o próximo a ser perseguido.

Saravá!



Ipácio Carolino e Tânia Mara Duda são parceiros na divulgação do conhecimento das religiões de matriz africana e Umbanda fazendo-se presentes em escolas da rede municipal de Passo Fundo, quando são convidados. O conhecimento das práticas e dos fundamentos permite aos jovens estudantes dos nonos anos do Ensino Fundamental atitudes de maior respeito e consideração às religiões de matriz africana.

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