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O brasileiro silencioso

O brasileiro quieto está acovardado
e tenta se convencer de que deve
se orgulhar da sua covardia.


Antes do golpe, muita gente ficou calada com o argumento de que não acreditava no êxito dos golpistas. Quando o golpe se consumou, continuaram quietos, porque imaginavam que aquilo não iria durar muito.

Quando prenderam Lula, os quietos aquietaram-se ainda mais, como se aquele fosse um drama do PT, até porque alguns diziam que Lula logo seria solto.

Quando Bolsonaro levou a facada e disparou nas pesquisas, teve gente que não acreditou no que iria acontecer, e preferiu de novo não se mobilizar contra nada, não abrir a boca, não palpitar, porque era preciso esperar.

Bolsonaro se elegeu e os quietos continuaram silenciosos, porque a situação era confusa, os interesses não estavam bem claros, a família estava dividida e o país seria salvo por algum milagre.

Quando Sergio Moro decidiu participar do governo e confirmou-se o golpe do Judiciário, como todo mundo previa, os silenciosos ampliaram seus silêncios, porque Moro era o guru da classe média ressentida e poucos tinham coragem de questionar o juiz caçador de corruptos.

Bolsonaro, Moro, os milicianos, Queiroz, os filhos de Bolsonaro, os armamentistas, os desmatadores, os grileiros, o agronegócio, os fabricantes de veneno, os assassinos de Marielle, os destruidores da educação, os adoradores de torturadores, todos eles se apoderaram do país.

E os quietos estão cada vez mais encaramujados. Os quietos são, pela quietude, parte do conluio.

Os silenciosos manejam a pior das políticas, a política do drible, do negaceio, do não-sei-nada-disso, do me-deixa-fora, do isentão e do isentinho que têm mil desculpas para não dizer e não fazer nada.

O brasileiro silencioso, acomodado na sua mudez, é o pior dos bolsonaristas, porque sua aparente neutralidade apenas fortalece a extrema direita.

O sujeito quieto, que se omite diante de todas as questões postas pelo bolsonarismo, é mais cúmplice da destruição do país do que os que aliaram ao golpe de 64 de peito aberto, como a maioria dos adesistas fez.

O omisso tenta ficar encoberto pelas próprias desculpas. Muitas vezes, domina a família, alguns amigos e até orienta posições onde trabalha. A posição dele é não ter posição, e aí é que está a posição do quietão dissimulado.

O silencioso é o colaboracionista que, como fizeram na Paris ocupada, recolheu-se ao seu acovardamento porque não queria se indispor com o entorno que havia virado nazista.

Mas hoje o cara isentão e omissão não chega a ser alguém com medo, que teme perder emprego, amigos e a admiração da direita, Ele é na essência um acomodado no desconforto geral. O desalento dos que estão na volta aprofundam sua acomodação.

O omisso vive das sobras da desgraça geral, porque ele não é da elite, não é rico, mas flana entre os que se beneficiam da desgraceira como se fosse um deles.

O silencioso se apresenta como um ser acima dos dilemas postos pelos entreveros políticos, como um cara com sabedoria superior. O brasileiro quieto está acovardado e tenta se convencer de que deve se orgulhar da sua covardia.



Há, sim, um silêncio que pode unir toda a humanidade. Mas, este não é o silêncio dos brasileiros diante de tantos desmandos no país.


O objetivo do bestialógico?

Enquanto se travam inúteis  discussões 
sobre  as necessidades  fisiológicas,
as decisões políticas  e burocráticas 
selam o destino dos recursos oficiais.

Em governos autoritários, os encarregados da propaganda sempre procuram  aperfeiçoar-se  na arte  da empolgação e envolvimento  das “multidões”  através  das mensagens políticas.

Nesse tipo de discurso, o significado das palavras  importa pouco, pois, como afirmou  Goebbels, ministro da propaganda nazista, “não falamos  para dizer  alguma coisa,  mas para obter  determinado efeito”.

Diante do bestialógico de Bolsonaro, no qual fica  evidente que lhe  falta não apenas  tirocínio, mas  também  senso moral; de suas  respostas  desmedidas, grotescas e agressivas  que revelam traços  psicopáticos  e um completo despreparo  para ocupar o cargo  de mandatário maior do País, perguntei  a meus  botões:

Tal postura faz parte de uma  tática  ou Bolsonaro  está mostrando o que  sempre foi, isto é, um  completo ignorante?

Como deputado, fez parte do chamado “baixo clero”,  formado por políticos medíocres  e irrelevantes. Como militar, deixou a tropa  depois de dois episódios  de ativismo  e indisciplina.  Referindo-se ao ex-capitão, o ex-presidente  Ernesto Geisel classificou-o  como “um mau militar”.

Intelectualmente, é sofrível. Submete a língua portuguesa a uma interminável sessão de tortura. Faz apologia de crimes contra  a humanidade  como se recitasse  um poema. Também não se espere que aprecie um bom livro.

Para alguns, entretanto, a pauta escatológica esconde, na verdade, outras  sujeiras, como  Itaipu.  Isto é, enquanto o Presidente chama atenção para assuntos banais – o cocô dia sim, dia não – por exemplo,  o governo toma decisões  que envolvem negócios  milionários, às vezes,  suspeitos.

Os feitos do governo  se materializam, efetivamente, em despachos  que formalizam  a aplicação de verbas públicas  e os negócios no setor privado.

Nesse ponto, enquanto se travam inúteis  discussões  sobre  as necessidades  fisiológicas, as decisões políticas  e burocráticas  selam o destino dos recursos oficiais.

Um tema obscuro, por exemplo, é o acordo firmado em maio entre os governos  do  Brasil e do Paraguai  sobre  a energia  elétrica de Itaipu. A revelação de  bastidores  das negociações  derrubou  autoridades do país  vizinho  e abalou o mandato  do presidente, Mario A. Benítez. Qual teria sido a razão?

No caso, a mídia paraguaia envolve  a empresa  brasileira  Leros,  ligada  à  família  Bolsonaro, segundo o noticiário.  O MP está investigando a negociação.

Tem mais.  Bolsonaro quer legalizar os  garimpos e a exploração de terras indígenas. É um mundo  de dinheiro fácil e volátil. Abrem-se oportunidades  para privilégios e negócios  escusos.

Nota-se risco de privilégio, igualmente, na  atuação  da representante  de mais de  200  faculdades  particulares, Elizabeth Guedes, irmã  do ministro Paulo Guedes. Ela é membro da ANUP  ( Associação  Nacional das Universidades  Particulares) e tem acesso facilitado  ao gabinete  da Esplanada.


Estaria Bolsonaro usando suas  manifestações  bizarras, insanas como  uma espécie de nuvem de  fumaça  para esconder  da opinião pública “tenebrosas transações”, como cantou Chico Buarque no antológico  samba Vai Passar?   Veja mais aqui.

Vamos   dar tempo  ao tempo  e fiquemos alertas. Como ensinou José Saramago, “a pior cegueira é a mental,  que faz  com que não reconheçamos o que temos pela  frente”.



Artigo baseado em matéria da plataforma Metrópoles. Conheça mais clicando aqui

“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”

Este é o tema que o Papa Francisco escolheu para o Sínodo Especial dos Bispos da Igreja Católica, que acontecerá em Roma, no mês de outubro de 2019. Espera-se que esta assembleia seja um grande exercício de escuta recíproca entre o Povo de Deus e as autoridades da Igreja.

Para a Igreja Católica, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito: um grito que brota da escravidão e do abandono e clama a Deus por liberdade e escuta e pede a presença libertadora de Deus, especialmente no momento em que os povos amazônicos enfrentam a destruição da floresta tropical, as águas de seus rios são deterioradas e envenenadas, e seus protestos e lutas são criminalizados pelas autoridades e pela opinião pública (Doc. Sínodo § 8).

Por isso, este Sínodo Especial tem o objetivo de descobrir e propor novos caminhos para desenvolver o rosto amazônico da Igreja e enfrentar as situações de injustiça da região, como o neocolonialismo praticado pelas indústrias extrativistas, pelos grandes projetos que destroem sua biodiversidade e pela imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos (Doc. Sínodo § 12).

Mesmo contando ainda com um pequeno número de missionários na região amazônica, os Missionários da Sagrada Família querem participar ativamente desse mutirão de conscientização que envolve a Igreja do mundo inteiro, e este Calendário Vocacional e Missionário é uma forma de responder ao apelo do Papa Francisco.



Nos nove países que compõem a Amazônia vivem mais de três milhões indígenas, agrupados em 390 povos e nacionalidades, e mais130 povos que decidiram viver isolados. Cada um desses mais de 500 povos tem uma identidade cultural particular, uma riqueza especí_ ca e um modo próprio de ver o mundo e de relacionar-se com ele. (Doc. Sínodo § 3).

A espiritualidade da missão na Amazônia deve assumir o estilo de Jesus: simples, humana, dialogante e samaritana, que permita celebrar a vida, a liturgia, a Eucaristia, as festas, sempre respeitando os ritmos próprios de cada povo. (Doc. Sínodo § 15).

A evangelização nos convida a trabalhar contra as desigualdades sociais e a falta de solidariedade mediante a promoção da caridade e da justiça, da compaixão e do cuidado do ser humano e de toda a criação. (Doc. Sínodo § 8).

Há um mistério a contemplar numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. Quem sabe contemplar o que há de bom nas coisas e experiências do mundo descobre a íntima conexão de todas essas coisas e experiências com Deus. (Doc. Sínodo § 10).

A família é e sempre foi a instituição social que mais contribuiu para manter vivas as nossas culturas. Em períodos de crises passadas, face aos diferentes imperialismos, a família dos povos indígenas foi a melhor defesa da vida. (Doc. Sínodo § 6).

Os missionários, sejam eles nativos ou vindos de fora, precisam desenvolver uma espiritualidade de comunhão e aprender juntos a acompanhar as pessoas, escutar suas histórias, participar de seus projetos de vida, partilhar sua espiritualidade e assumir suas lutas. (Doc. Sínodo § 15).

A região amazônica é uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, pois guarda 30 a 50% da flora e fauna do mundo, 20% da água não congelada de todo o planeta, e mais de um terço das florestas primárias da terra. (Doc. Sínodo § 1).

Tanto os missionários nativos como os que vem de fora precisam cultivar a espiritualidade da contemplação e da gratuidade, sentir com o coração e ver com os olhos de Deus os povos amazônicos e indígenas. (Doc. Sínodo § 15).

Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental e um compromisso básico dos direitos humanos. Para a Igreja, esse compromisso é um imperativo moral coerente com o enfoque da ecologia integral. (Doc. Sínodo § 5).

A riqueza das matas e dos rios da Amazônia está ameaçada pelos grandes interesses econômicos, que provocam desmatamento indiscriminado e a contaminação dos rios, lagos e afluentes, colocando em risco a sobrevivência dos povos originários. (Doc. Sínodo. § 2).

A ação evangelizadora na Amazônia não pode ignorar o cuidado e a defesa do seu território (natureza) e de seus povos (culturas), e precisa estabelecer pontes entre os saberes ancestrais e os conhecimentos modernos. (Doc. Sínodo § 9).

O evangelizador deve apoiar projetos que desenvolvam e sustentem relações vitais com os outros, com a criação e com o Criador, e isso supõe a escuta atenta do clamor dos pobres e da Terra. (Doc. Sínodo § 8).





Sínodo para a Amazônia
Amisafa (Ação Missionária da Sagrada Família)
MSF (Missionários da Sagrada Família)

Professores sob ataque

Nós, professores, continuaremos resistindo a
qualquer espectro ideológico, para que a
liberdade de pensar livremente, por mais absurdo
e contraditório que isso possa soar para alguns,
esteja sempre contemplada.


O episódio ocorrido recentemente no Colégio Marista Rosário, em Porto Alegre, envolvendo alunos, pais e um professor de Sociologia, revela que o obscurantismo ultrarreacionário de segmentos da direita em torno do discurso dogmático da Escola Sem Partido, continua sem o mínimo acanhamento a incitar a perseguição a professores.



Mas não são as crianças e adolescentes que violam as regras de compartilhamento de imagem de menores e de aulas de professores(as), adultos também o fazem e são os principais responsáveis pela viralização de vídeos dessa natureza em grupos escolares de Whatsapp, como nesse caso. (Aline Kerber, presidente Associação Mães e Pais pela Democracia)

Ensinar meninas e meninos a pensar por si mesmos é, na visão dos conservadores, algo impensável. Quem trabalha em escola sabe que famílias ( e professores ) conservadoras sempre existiram, que educação sexual, sobre racismo, diversidade, sempre os escandalizaram. Isto sempre foi muito natural nas escolas.

Entretanto, quando essas coisas deixam de ser consideradas naturais e passam a serem vistas com repúdio e desconfiança, é sinal de que a escola está sendo disputada por dentro. Há, então, um evidente sinal da tentativa de imposição de um pensamento único.

A escola é o local do pluralismo de ideias. Os defensores da Escola Sem Partido, na verdade, defendem um projeto educacional escancaradamente autoritário. Estes não tem o mínimo acanhamento de incitar a perseguição a professores e de se colocar como cruzados de uma guerra contra a liberdade de expressão.

A postura destes pais segue a linha do ministro da Educação Weintraub com seu comportamento de comediante frustrado de esquetes bobocas.

Ao saírem com faixas dizendo “Marista, sim. Marxista,não”, simplemente estão afirmando, contraditoriamente, que uma ideologia pode e que a outra não. Seria o caso de retrucar com “Marista, sim. Fascista, não”?

Sussurrei a meus botões: terão estas pessoas perdido de vez a capacidade de produzir sinapses no cérebro. Estaria este órgão adoentado e fragilizado pelo veneno diário de uma direita reacionária e pré-medieval?

A história mostra como sociedades com tendências totalitárias e autoritárias sempre atacaram a liberdade de pensamento. A luta pela educação, é preciso entender, não tem lado.

Educar para libertar, para formar cidadãos mais autônomos, é projeto que concede à escola o local que, de fato, ela merece. Já decorar hinos, fazer desfiles e registrá-los visualmente não forma pessoas mais prontas para a prática dos valores de cidadania, como muitos querem nos dias atuais.

Nós, professores, continuaremos resistindo a qualquer espectro ideológico, para que a liberdade de pensar livremente, por mais absurdo e contraditório que isso possa soar para alguns, esteja sempre contemplada.

Precisamos recuperar nossa inteligência, voltar a praticar a reflexão autônoma que é chave de tudo que a raça humana produziu de bonito e distinto na vida da espécie. Afinal, como assevera o sociólogo Jessé Souza, “tudo que foi feito por gente também pode ser refeito por gente”.



“À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver”.

Amizade, amor e afetos

O cuidado, como algo essencial e que constitui
a nossa condição humana, deve ser resgatado
se quisermos devolver à humanidade o
verdadeiro sentido da existência.

Nossa civilização “encaixotou” o afeto. Sim, logo o afeto que nos estimula a criarmos as condições para nossa plena realização humana.

O ser humano é um ser em construção e que, por isso mesmo, demanda e exige investimentos afetivos a vida toda. O cuidado, como algo essencial e que constitui a nossa condição humana, deve ser resgatado se quisermos devolver à humanidade o verdadeiro sentido da existência.

Em nossa trajetória humana, não sobrevivemos se não somos bem cuidados.

 Somos, na escala dos seres vivos, os mais dependentes de todos. Saímos da barriga da mãe, caímos nos braços de uma família. Aos poucos vamos crescendo e nos integrando aos grupos sociais da escola, da vizinhança, dos amigos, dos colegas de trabalho.

Cada fase de nossa vida, exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar, da gente e dos outros. E, somente juntos, promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos, a necessidade de nela sermos aceitos, queridos e promovidos.

A necessidade do cuidado e as carências afetivas, próprias do ser humano, não significam atestado de fraqueza humana. O que nos torna fortes, capazes de superar as nossas maiores contradições, é a nossa capacidade de encarar nossos limites e carências, pois estas nos despertam para o crescimento e discernimento pessoal, afetivo e social.

Como seres de e em relação, os outros são aqueles que, através da convivência, nos permitem imensas possibilidades de autoconhecimento.

Nossos relacionamentos afetivos e sexuados sempre carregam as marcas da sexualidade que nos compõe. Por isso, “o amor é a necessidade gostosa do outro. Fala-se em complementariedade, porque não somos felizes voltados sobre nós. Uma pessoa que admiramos carrega dentro dela uma ternura que nos faz bem”.

As amizades, relações que comungam de partilha, de compreensão, de doação, de gratuidade, de mútua ajuda e confiança são oportunidades que muitos constroem por acreditarem que a sua realização, como pessoa humana, depende da integração, convivência e complementariedade a serem construídas com os outros. São também, excelentes oportunidades de vivenciar a doação.

“O amor é doação. Tudo o que contradiz a doação, machuca. Ninguém é mais do ninguém, porque na doação todos somos iguais e temos a mesma vocação. É neste ser-doação que mora o divino de cada um”.

Redescobrir-se como um ser em permanente relação com os outros pode ser a grande contribuição que cada um, individualmente, pode oferecer para a elevação de uma nova consciência de humanidade. Reconhecer e vivenciar valores como a solidariedade, a amizade, o amor, a partilha, a alteridade pode nos possibilitar um mundo onde existam menos violentos e menos violentados.



A vida de Nita Freire, pedagoga e viúva de Paulo Freire, transita por duas palavras: amor e educação. Nesta entrevista, ela refaz os dois trajetos nos 20 anos de morte do célebre educador brasileiro.

A solução duradoura para os problemas de convivência social não passa pela construção de novos presídios, pela propagação de mais ódio e violência e nem pelo endurecimento de nossas leis.

A cura dos nossos males está na promoção da vida e da humanidade, através do cultivo do amor e do afeto. E na promoção da justiça. Está em nós. Romantismo? Não. Crença na minha e na tua possibilidade de fazer a diferença, enquanto seres que ainda acreditam na força do amor, da compaixão e da amizade.

Repare que cada dia que amanhece é sempre um convite para você crer que o amor cura e o abraço salva. A humanidade pode se salvar se viver o verdadeiro amor.

Semântica de Pai

Pai é uma epifania, aparição de ternura e fortaleza
circundada por recordações das quais é próprio fio.

O pai não é uma imagem racionalizada. Pai é teia de recordações das quais é o próprio fio. Freud diria que o pai habita o superego, cria limites, vigia a consciência; instala-se na cultura como Deus, as leis, o Estado.

Para mim, pai é uma teia de recordações das quais é o próprio fio. Um bichinho-da-seda na memória começa a fazer camisas, calças, mantas, cobertas. Inventa casas, ruas, cidades. Transbordamos o pátio com rolos de fios. Quando nos damos conta, fizemos boa parte do mundo.

O pai não é um guarda noturno. O pai é um acendedor de velas.

Ao sairmos à rua, acende uma vela e vela o seu fogo. Quando a cera se acaba, ou a querosene enxuga o pavio, ele providencia o sustento. O fogo vigiado pelo pai tem características mágicas. Aceso em casa, ilumina nossos passos onde estivermos. Ao regressarmos, neste tempo de luzes elétricas, eis lá as velas acesas dentro do pai. Quer dizer, acabamos por saber que ele mesmo é uma chama inapagável, inabalável.

O pai não está atrasado no tempo. O pai, na verdade, foi morar num tempo não chegado ainda. Um dia lá atracaremos. O ser humano, ao tornar-se pai, toma uma máquina do tempo, parte para o futuro, lá ergue sua casa, esperando os filhos chegarem para pedir conselhos.

Quando os filhos chegam no futuro, descobrem que seu pai já partiu para o outro lado do tempo.  Então, será preciso arrepender-se. Se eles soubessem dessa constituição da vida, teriam pedido conselhos agora. Mas agora seu pai é obsoleto.

Para os que aprendem a lição, as coisas se resolvem sendo eles mesmos pais no momento em que chegarem ao futuro. Tornam-se pais conselheiros para que aos filhos não escasseiem os rumos.



“Meu pai também comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros, para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me tantas coisas, demonstrando especial atenção aos valores do trabalho, do amor e a da fé”. (Nei Alberto Pies)

O problema é que, na paternidade, sem saber, tomaram a máquina do tempo e já estão mais à frente. Tudo recomeça.

O pai não é alguém quase sempre errado. Pai sempre está errado. Seu primeiro erro é crer em nossa compreensão. Engana-se. O segundo erro do pai é crer em sua argúcia e convencimento. Ilude-se. Todo pai pensa que seu filho é tão vivido quando ele, sabedor do sentido oculto das coisas.

Pai não é razão. Pai é fogo de velas. Pai é mistério do tempo. Pai é ânsia de explicar e convencer. Daí se deduz: Pai é uma epifania, aparição de ternura e fortaleza circundada por recordações das quais é próprio fio. O que a gente tem de fazer é ficar contemplando, sem perguntar se Freud tinha ou não razão, se Freud teve um pai ou era clone.



“Não importa o tipo de pai que você tenha. E não espere o tempo passar.  Se você tem vontade de fazer algo, tome essa atitude simples. Dar um beijo. Um abraço que nunca deu por timidez ou vergonha. O carinho não pode esperar. O tempo não para pra você decidir fazer depois. Mate a saudade. Ligue de um desejo de bom dia. Vá visita-lo. Diga um eu te amo!” (Laércio Fernandes dos Santos)

Proteção para quem educa

Publicado originalmente em Radis.

Solange, Mariana e Mariele não escolheram a carreira por conta de privilégios. Até porque, salários atrasados, sobrecarga de trabalho e falta de recursos não são aspirações de nenhum profissional. Também não trabalham apenas “por amor” à profissão — as três acreditam que a carreira merece ser valorizada pela população e pelos governos, com salários adequados e condições dignas. “Nossa missão na sociedade é a de promover educação e transformação por meio do conhecimento”, constata Mariele Furtado. “É um trabalho intelectual, mas também é uma atividade com seres humanos, que exige uma atualização constante e contínua dos educadores, e é também uma grande responsabilidade”, afirma Solange Carvalho. “Nenhuma sala, nenhum dia e nenhum aluno são iguais”, reflete Mariana de Oliveira.

As três mulheres têm, em suas carteiras de trabalho, a mesma profissão: professora. As três, em escolas públicas. E estão entre os trabalhadores que mais passarão por mudanças segundo a proposta de reforma da Previdência, apresentada pelo governo federal, em fevereiro, ao Congresso Nacional. Pelas regras atuais, os professores se aposentam mais cedo por ser uma profissão cujas características laborais geram mais impacto sobre a saúde: para os homens, são exigidos 55 anos de idade e 30 de contribuição; e para as mulheres, 50 e 25, respectivamente. A proposta do governo por meio da “Nova Previdência” eleva o tempo requerido para professores e professoras, ambos fixados em 60 anos de idade e 30 de contribuição. Porém, o texto do relator do projeto, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), alterou para 57 anos o tempo das mulheres; já o dos homens permaneceu com a sugestão inicial (60). A regra vale para professores da educação infantil, ensino fundamental e médio.

Prestes a completar 58 anos, mais de 20 deles em sala de aula, Solange Carvalho é hoje vice-presidente do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (CPERS). Ela é professora de História e Geografia da rede municipal de Caxias do Sul e da rede estadual desde 1994. Conhecedora dos impactos da reforma sobre sua vida e a de seus colegas de profissão, ela explica que a proposta não pretende apenas alterar a idade mínima exigida para os professores se aposentarem (que vai aumentar em sete anos): ela também dificulta o recebimento do salário integral. “Sem a integralidade, você só recebe a média desde quando começou a trabalhar. E sem a paridade, além de se aposentar ganhando menos, o professor não vai obter o reajuste de quem está na ativa. Essa é uma grande derrota dos direitos”, destaca. Na prática, para receber uma aposentadoria equivalente a 100% das médias dos salários, será necessário trabalhar por 40 anos.

“Ficaremos à míngua”, sentencia a educadora, ao apontar que o desamparo ao trabalhador ocorre justamente na velhice, quando ele mais necessita de proteção social. “A reforma impossibilita uma vida digna depois da aposentadoria. Estamos fazendo o máximo para esclarecer nossa categoria de que isso é um roubo. Essa reforma é para os bancos, que vendem a ilusão de que é importante implementar uma previdência complementar”, avalia. Educadoras como Solange possuem regras próprias para aposentadoria não por privilégio, mas porque a profissão apresenta características que impactam sobre suas condições de saúde. “A atividade em si requer muitas horas em pé. Também levamos serviço para casa, pois precisamos planejar as aulas e corrigir trabalhos e provas”, descreve. Além disso, existe a sobrecarga emocional e as tensões da sociedade que vão para dentro da sala de aula. “A gente lida diretamente com seres humanos, não trabalhamos com máquinas. Quanto mais violenta a sociedade fica, mais isso ecoa em diferentes espaços, e a escola é um desses locais em que a gente sente a violência eclodir”, analisa. Entre os problemas de saúde mais frequentes em professores, estão estresses emocionais, varizes, dores na coluna e deficiências na audição e na voz.

Realidade dos educadores

Outro fator que reflete no dia a dia dos professores é a falta de investimentos na educação. Solange ressalta que a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 95 — que congelou por 20 anos os investimentos na área — levou a um cenário de atraso nos salários, escassez de professores e falta de materiais didáticos. “Nem todas as escolas estão em boas condições. Algumas conseguem graças à comunidade, que faz o papel do Estado, por meio de festas, rifas e doações. Também existem escolas que estão em áreas de conflitos, com professores sendo agredidos”, relata. Com menos recursos, outra consequência é a ausência de profissionais fora da sala de aula, que atuam no apoio pedagógico e nas bibliotecas — o que gera ainda mais sobrecarga naqueles que restaram.

Além das dificuldades inerentes à profissão, os educadores narram que são obrigados a lidar cada vez mais com situações de pressão motivadas por perseguição ideológica ou política. “Somos colocados como algozes, doutrinadores ou criaturas perigosas. A sociedade que nos apoiava já começa a ter alguns segmentos que acham que somos nocivos, que podemos ‘doutrinar’ seus filhos”, aponta. Ela se refere a iniciativas que limitam a liberdade de expressão em sala de aula, como o incentivo para que alunos gravem os professores como forma de coação. “A professora em sala de aula tem que conquistar a atenção dos alunos com seu maior empenho e criatividade, mesmo que ela esteja devendo no banco e com salários atrasados”, ressalta.

Professora de História há 3 anos na rede pública de Minas Gerais, na cidade de Cataguases, na Zona da Mata mineira, Mariana de Oliveira narra que as condições de saúde mental são as que mais têm impactos negativos no cotidiano dos profissionais de educação. “É um trabalho difícil e desgastante, que traz uma série de problemas de saúde de ordem física e principalmente mental”, afirma.
Segundo ela, em uma sociedade marcada por desigualdades e por contextos de falência familiar, é comum entender a profissão de educador como uma espécie de “abnegação e amor incondicional”, transferindo toda a responsabilidade na educação de uma criança ou um jovem para os docentes e a escola. “É um peso muito grande para carregar e nós somos humanos! Somado a isso, a gente trabalha em uma escola sem recurso, que literalmente conta as moedas para dar o mínimo para os alunos. Pagamos do nosso próprio bolso muita coisa para tentar deixar a aula mais atrativa”, pontua.

Aos 28 anos, com mestrado em História Colonial pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Mariana acredita que a educação pode ter um papel transformador na vida das pessoas — “assim como fez com a minha”. “A educação me criou vivências que eu jamais imaginei ter, sendo filha de família de classe média baixa e ainda no interior”, reflete. No entanto, segundo ela, ao invés de fortalecer a escola pública, o que tem sido estimulado é o desrespeito e a coação em relação aos profissionais — pela primeira vez, ressalta a professora, a educação é vista como inimiga. “A escola deveria ser um lugar de expansão da mente e está cada vez mais se tornando um depósito de pessoas insatisfeitas”, reflete. Mesmo com as dificuldades, ela considera que no percurso do aprendizado é possível descobrir saídas e provocar reflexões.

Na mesma escola onde Mariana leciona história — a Escola Estadual Professor Clóvis Salgado, em Cataguases (MG) —, Mariele Furtado dá aulas de língua portuguesa. Também aponta problemas como turmas lotadas, salários atrasados ou parcelados, salas de aula sem estrutura e falta de apoio das famílias. Para ela, as mudanças nas regras de aposentadoria de professores fazem parte de um contexto de desvalorização da profissão — e deve levar ao adoecimento daqueles que serão obrigados a trabalhar mais, por mais tempo. “O que justifica as regras especiais de aposentadoria do professor é, sobretudo, o caráter intelectual e formador da profissão, o que demanda um desgaste tanto físico quanto emocional. Ter o direito de se aposentar com um menor tempo é uma forma de garantir a qualidade do trabalho docente e valorizá-lo”, pondera.

Com 10 anos de profissão e 32 de idade, ela se sente desvalorizada como profissional. “Não observo nenhuma preocupação, seja do governo ou da sociedade em geral, com o que pode acontecer com os professores que terão que ficar mais tempo em sala de aula”, lamenta. Porém, ela não perde a esperança no papel transformador da educação. “Tenho certeza de que continuaremos a lutar por uma sociedade melhor, mesmo que tenhamos que enfrentar todos esses desafios”, conclui.

Direito, não privilégio

O céu ainda está coberto de estrelas quando Sandra Pereira de Faria, 49 anos, acende o fogão para esquentar a água do café, que ajuda a cortar o sono e a aragem da madrugada. O marido, Edvar Marçal de Jesus, prepara-se para vencer a escuridão em busca do gado a ser conduzido até o curral, onde a família tira o leite enviado à cooperativa de pequenos agricultores. Antes levantavam por volta de 5h da manhã, mas o plantio de uva — atividade na qual a família se aventurou para diversificar a produção no sítio — fez com que o serviço aumentasse e eles passassem a acordar por volta de 4h. “Aqui não tem férias nem feriado”, conta Sandra, que durante toda sua vida viveu no campo.

Por volta de 9 horas, já terminam a lida com as vacas. É hora de botar a silagem no cocho, transportar o leite, tratar do porco e das galinhas. Às 10h30, Sandra já está de volta à casa para preparar o almoço, enquanto o marido e o genro cuidam do parreiral. Na rotina atribulada da roça, ela ainda encontra tempo para se deliciar com o abraço de seus dois netos, Heitor, de 2 anos, e Mariana, de 4 — que ela chama de “amores de sua vida”. O sítio em que Sandra mora com a família — o marido, a filha mais nova, o genro e os dois netos — fica a 52 quilômetros de Silvânia, cidade de Goiás com cerca de 20 mil habitantes. A família é assentada pela reforma agrária no terreno de 39 hectares; além do leite, eles produzem ovo, banana e milho — e agora veio o sonho do cultivo de uva.

Sandra conta que começou a trabalhar aos 9 anos de idade, como boia-fria, e hoje já soma 40 anos de serviço no campo. Ela vê com preocupação as mudanças na aposentadoria rural, propostas pelo governo com a reforma da previdência. “Encaro com muita preocupação. O trabalhador rural não tem hora para levantar, não tem repouso semanal ou férias, não tem décimo terceiro. A gente está exposto à chuva, ao sol, aos agrotóxicos, a todas as intempéries”, aponta. Para ela, a aposentadoria rural é uma forma de compensação pelo serviço desgastante na roça.

Atualmente assalariados rurais, agricultores familiares e pescadores artesanais têm direito à chamada condição de segurado especial da Previdência Social, para a qual precisam comprovar 15 anos na atividade — além de contar com 60 de idade, no caso de homens, e 55 para mulheres. Em lugar dos 15 anos de comprovação, a proposta da “Nova Previdência” indicou a exigência de 20 anos de contribuição e a idade mínima de 60 tanto para homens quanto para mulheres.

“A proposta tem a intenção de atacar a classe trabalhadora e os mais vulneráveis. Se ela for aprovada como está, poderá trazer pobreza e miséria para o campo”, ressalta Edjane Rodrigues, secretária de Políticas Sociais da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Ela ainda destaca o impacto que essa mudança teria na economia de pequenas e médias cidades brasileiras, pois em 45% dos municípios do país, de acordo com dados da Contag, a soma das aposentadorias rurais é maior do que o dinheiro recebido do governo federal por meio do Fundo de Participação dos Municípios.
Não um privilégio, mas um direito que reconhece as dificuldades enfrentadas por essas pessoas no trabalho com a terra — é o que justifica a condição de segurado especial para os trabalhadores do campo, segundo Edjane. “O trabalho começa mais cedo, ele é mais penoso, e está condicionado a uma série de fatores. Na roça pode acontecer a perda da produção por falta ou excesso de chuva, por presença de pragas, e esses trabalhadores muitas vezes ainda precisam enfrentar dificuldades para comercializar a sua produção”, explica. Segundo ela, mudanças na previdência rural poderiam acarretar impactos negativos na economia, além de aumentar o êxodo rural. “Se as pessoas saírem do campo por causa da falta de oportunidades e de políticas públicas, não teremos como garantir a produção de alimentos saudáveis para a população”.

Por terem em geral uma jornada mais extensa do que a dos homens, as mulheres se aposentam mais cedo, como explica Edjane. No campo, segundo estimativa da Contag, elas trabalham, em média, 51 horas por semana, enquanto os homens têm uma jornada média de 43 horas semanais. Cuidar da casa e dos filhos é uma tarefa que elas dividem com o trabalho na roça. “Quantas mulheres acima de 60 anos hoje, que já estão aposentadas, cuidam dos filhos de suas filhas, porque estas precisam trabalhar? Uma das poucas políticas que reconhece essa divisão sexual do trabalho é a previdência social”, constata ela, que é filha de uma agricultora assentada pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário, em Alagoas. O relato de Sandra confirma essa realidade: “Se brincar, as mulheres trabalham mais do que os homens. Ajudam em todas as tarefas e ainda vão para a roça”, afirma.

Edjane pontua também que a previdência rural tem a função de amparar o trabalhador do campo, que sempre teve dificuldades para garantir seus direitos. “O governo fala muito que a expectativa de vida melhorou, mas a gente precisa levar em conta que estamos vivendo mais graças a políticas que melhoraram nossa condição de vida, dentre elas a previdência social”, observa. Criada com a Constituição de 1988, a Previdência Rural buscou resgatar uma “dívida histórica” com essa categoria, na visão de Jane Berwanger, advogada especialista em direito previdenciário do Rio Grande do Sul — como Radis já destacou na edição 173. “Até 1988 a inclusão previdenciária dos rurais era bastante tímida: só o chefe de família tinha direito e o benefício era de salário mínimo. Além de recuperar essa dívida, também se buscou valorizar aqueles que produzem os alimentos”, analisa.

Uma nova proposta foi encaminhada pelo relator da PEC 06/2019, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), responsável por analisar a reforma da Previdência na Comissão Especial da Câmara dos Deputados: diferentemente do que propunha o governo, o relator propôs (13/6) a manutenção da idade mínima para aposentadoria rural em 55 anos para mulheres e 60 para homens, com a exigência de contribuição sobre a comercialização da produção fixada em 15 anos para mulheres e 20 para homens. Para Edjane, esse recuo foi resultado das mobilizações e pressões do movimento dos trabalhadores rurais, mas não significa que estes não sofrerão com mudanças. “Estabelecer 20 anos de contribuição para os homens rurais trará um grande impacto negativo, tanto para os agricultores familiares quanto para os assalariados rurais. Esse ponto ainda nos preocupa”, avalia.

Além da jornada dupla em casa e na roça, Sandra também participa ativamente de reuniões no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Silvânia — e a reforma da previdência tem sido uma pauta constante nos debates com comunidades rurais e quilombolas da região, como ela conta. Para a agricultora, a previdência é um alento para o povo do campo, que “tem uma vida tão difícil”. “As pessoas do meio rural, quando se aposentam, não vão para a cidade, eles continuam na roça. A aposentadoria é um complemento para nossa vida”, reflete. (L.F.S.)

Há 50 anos, o homem pousava na lua


Marco histórico possibilitou avanço da ciência
e evolução tecnológica para exploração espacial


“É um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade”. Com essa frase, o astronauta Neil Armstrong entrou para história ao ser o primeiro homem a pisar na Lua. Esse grande passo está comemorando 50 anos de história neste sábado, 20 de julho de 2019. A missão Apollo 11 iniciou ainda no dia 16 de julho de 1969, quando os astronautas Neil Armstrong, comandante da missão, Buzz Aldrin e Michael Collins foram lançados do foguete Saturno V do Centro Espacial Kennedy, Cabo Canaveral, com o objetivo de chegar à lua.

Após três dias do lançamento, a tripulação entrou em órbita lunar. Armstrong e Buzz Aldrin pousavam o módulo lunar chamado Águia na superfície da lua, enquanto Michael Collins continuou pilotando o módulo de comando, chamado Columbia. Cerca de seis horas após o pouso, Neil Armstrong foi acompanhado pela TV por mais de 500 milhões de pessoas de todo o mundo que o viram caminhar pelo solo lunar.

Segundo o professor do curso de Física da Universidade de Passo Fundo (UPF), Me. Alisson Cristian Giacomelli, a possibilidade de o homem chegar à lua envolveu um processo extremamente complexo. “Você está saindo da superfície do planeta para chegar à superfície da lua, um satélite natural, então, é preciso ter consciência que você precisa pousar em uma certa região, teve um pequeno desvio, a Apollo não pousou exatamente onde eles queriam. Dificuldades surgem em uma viagem desse tipo, pois, entre outras coisas, devesse ter consciência de que se está mirando em um objeto bem distante e que esse objeto está se movendo”, disse.

De acordo com o professor, foi possível o homem chegar à lua por meio de uma série de cálculos e da evolução de técnicas e materiais. “É extremamente complexo, envolve uma série de cálculos. A lua está a aproximadamente 385 mil quilômetros da Terra. Cerca de uma vez por mês ela dá uma volta completa, então, você tem que ter todos os cálculos para depois conseguir voltar. Marte está a mais de 50 milhões de quilômetros e também está se movendo, então, para você sair com uma nave daqui, viajar meses e acertar aquele ponto, é complicado. Mas não é impossível, nós temos as ferramentas matemáticas, tecnológicas e físicas para conseguir prever, acertar aquele local”, explicou.

Segundo Giacomelli, para que um objeto seja lançado no espaço é preciso atingir a velocidade de escape, para que depois a nave continue a se locomover por inércia, com apenas algumas possíveis correções de trajetória.

Desenvolvimento de tecnologia trouxe benefícios para população
Milhões são investidos no desenvolvimento de novas tecnologias para possibilitar que o homem conheça mais sobre o espaço. A corrida espacial e a missão Apollo11 possibilitaram o desenvolvimento de métodos e técnicas que hoje fazem parte do cotidiano. “Para se conseguir que o homem fosse para a lua, foram desenvolvidos métodos, técnicas e materiais que podem ser usados para outras coisas. Nisso se enquadra até mesmo a ideia de colocar um satélite em órbita para conversar com as pessoas que estão lá. Esse contexto pode representar um grande impacto psicológico para alguns, a partir da materialização da consciência de que o homem pode ir para outro planeta. Mas também Há o impacto direto na parte de materiais, alimentos, questões médicas, tudo isso afetou muito as pessoas”, comentou Giacomelli.

Segundo o professor, a evolução da ciência não se desenvolve de forma neutra, pois está relacionada a aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos de um certo contexto e de uma certa época. “Muitas teorias científicas e avanços tecnológicos são aliados à melhoria de qualidade de vida das pessoas. Além disso, a corrida especial que ocorreu no ambiente histórico da guerra fria entre EUA e União Soviética tinha uma disputa ideológica impulsionando esse desenvolvimento”, comentou.
Teorias de conspiração  

Há muitas teorias da conspiração que dizem que o homem não foi à lua. Segundo o professor, contudo, todas podem ser refutadas. “As teorias de conspiração que sugerem que o homem nunca foi para lua sempre existiram, e hoje em dia, com as redes sociais, isso se potencializa. Acho que a pessoa, antes de aceitar algo, tem que pesquisar em diferentes locais a informação, tem de pesquisar a credibilidade da informação a que teve acesso, para, então, criar uma opinião mais crítica. Mas nesse sentido de teoria conspiratória, há vários argumentos que podem ser de certa forma refutados”, disse.  

Segundo o professor, o homem ter pisado na lua demonstra que há muito a ser descoberto. “Quando pensamos é que vemos a importância de tudo que a raça humana desenvolveu e também é uma lição de humildade, porque percebemos que sabemos muito pouco, porque fomos a uma distância muito pequena com missões tripuladas e porque fomos até a lua, que é extremamente próxima comparando com outros locais que poderíamos ir”, pontuou.

Saiba mais
A Apollo 11 foi um voo espacial tripulado norte-americano responsável pelo primeiro pouso na lua. Armstrong tornou-se o primeiro humano a pisar na superfície lunar, seguido por Aldrin 20 minutos depois. Os dois passaram aproximadamente duas horas e quinze minutos fora da espaçonave e coletaram 21,5 quilogramas de material para trazer à Terra. Michael Collins pilotou sozinho o módulo de comando e serviço Columbia na órbita da Lua enquanto seus companheiros estavam na superfície. Os astronautas retornaram em segurança e aterrissaram no Oceano Pacífico em 24 de julho, após oito dias no espaço.

A magistocracia de Moro e Dallagnol

Foi quebrada a divisão de funções entre
acusador e julgador, desrespeitaram-se
cláusulas  pétreas  da  Constituição.

A “limpeza política” que o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol sempre preconizaram  para  o país,  com a postura de “heróis”  da  ética  e do combate  à corrupção, na verdade escondeu o jogo que promoveram para beneficiar  o  capitalismo financeiro internacional e nacional  ávido  por “privatizar” a riqueza  social em seu bolso.

Destruir a Petrobrás, a mando da elite do atraso, significou  empobrecer  o país  inteiro de um recurso fundamental, levando  à  destruição  de qualquer estratégia  de reerguimento  internacional do país, em troca da recuperação  de recursos  ridículos de tão pequenos.

A tese do Estado e da política corrupta serve para que se repassem  empresas estatais  e nossas  riquezas  do subsolo  a baixo custo  para nacionais e estrangeiros,  que se apropriam  privadamente da riqueza que deveria  ser de todos.

Essa é a corrupção real, como alerta o sociólogo Jessé Souza.  Uma corrupção legitimada   e tornada invisível, por uma leitura distorcida  e superficial de como a sociedade e seus mecanismos  de poder funcionam.

O “modus operandi”, do ex-juiz e do  procurador,  agora  veio à tona, graças  ao site  The Intercept Brasil. Em um dos diálogos revelados, Dallagnol diz claramente: “ A Lava Jato é contra a corrupção, seja de quem ela for. Vamos organizar  congressos  e eventos e lucrar, ok? Bom jeito  de aproveitar nosso networking e visibilidade”. Claros planos de enriquecimento pessoal do procurador.  Uau!!

Para o doutor em direito e professor da  USP, Conrado H. Mendes, “a fronteira  entre a corrupção  criminosa e a corrupção  normalizada  depende de onde o corrupto  se encontra no edifício do poder. A sociologia nos explica que o lugar mais confortável para corromper sem medo  é o da autoridade que interpreta e aplica  a lei”.  



STF e democracia. Assista!



Até porque esta tem o poder  de legalizar a corrupção para benefício  próprio e blindar-se de seu controle. A corrupção do judiciário se  autolegalizou. Simples assim.

A magistocracia, segundo o professor da  USP,  “tem o dom do ‘fiat lex’ (faça-se  a lei): pode ter empresa de ensino, mesmo que a Constituição proíba; pode dar palestra  remunerada e manter  valor sob sigilo mesmo que a Carta exija publicidade; pode usar esposa e familiares como testas de ferro  de sua empresa de palestras; pode falar  fora dos autos  sobre  casos  quaisquer mesmo que a Lei Orgânica  e o Código de Ética  da Magistratura  não permitam”.

Ironicamente, em nome do combate à corrupção, mergulhou-se no populismo judicial, manipulando a opinião pública por  meio de vazamentos sintonizados  no calendário eleitoral. Mais. Foi quebrada a divisão de funções entre acusador e julgador, desrespeitou-se  cláusulas  pétreas  da  Constituição, etc.

Felizmente, a imprensa, através do jornalista Glenn Greenwald, revelou o verdadeiro caráter dos festejados “justiceiros do bem”, que gozavam  da presunção  absoluta da legalidade. Que eram vistos, e ainda são por parte da opinião pública, como símbolos incorruptíveis de moralidade e ética.



Conheça jornalista Glenn Greenwald de um jeito um pouco diferente, em entrevista anterior às repercussões das sobre as revelações do Intercept Brasil.



Na  verdade, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol promoveram um contrabando da legalidade  dentro da normalidade de condutas promíscuas. Graças a eles, a Lava Jato está desmoralizada.



Morte da política? Sem mediações para encaminhar as novas demandas (necessidades, demandas e novos direitos), ficaríamos reféns dos entendimentos dos juízes, os doutores das leis. Eles, somente eles, teriam o poder de decidir nossos destinos e direitos. Os direitos individuais correriam menos riscos, mas os direitos sociais seriam todos banidos porque ninguém mais seria autorizado a organizá-los e defendê-los. (Nei Alberto Pies, março 2016). Veja mais aqui.

Uma nova “teoria da verdade”

É o comportamento típico daquele do barão famoso,
sem com isso dizer que o ministro da Cidadania
também seja um contumaz repetidor de suas
práticas epistemológicas.

Há um ministro, o da Cidadania, Osmar Terra, que tem se especializado em produzir uma “teoria da verdade” que dá sustentação à ação política do governo do qual é parte.

Ele formula seus posicionamentos orientado por um conceito de evidência bem peculiar (e conveniente): se vi (do verbo ver, não do verbo enxergar),[1] então existe e, se existe, é verdadeiro; se não vi, não existe, não é verdadeiro. Uma pérola da epistemologia, que não é nova, remonta ao Barão de Münchausen.

O ministro fez esta formulação em duas ocasiões. Na primeira, foi quando recusou os resultados do trabalho da Fundação Oswaldo Cruz no 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Disse à reportagem de O Globo: “Se tu falares para as mães desses meninos drogados pelo Brasil que a Fiocruz diz que não tem uma epidemia de drogas, elas vão dar risada. É óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências” – grifo nosso[2].



Mafalda (em uma de suas tirinhas) acha que o poder público deveria cuidar daquele pobre, enquanto que a coleguinha da Mafalda, rainha da futilidade e de posições conservadoras, opina dizendo que não era necessário tanto, que bastava que se tirasse o pobre da vista. Ou seja, o pobre, o mendigo, o drogado de rua atrapalha as vitrinas. É realmente isso que importa”. (Filósofo Paulo Ghiraldelli sobre as cracolândias)



Dias atrás, segundo a jornalista Rosane de Oliveira[3], do grupo RBS, teria dito que “em matéria de fomeBrasil está nos níveis de Japão, Suécia, Noruega e Dinamarca. Ministro da Cidadania afirmou ainda que, ‘neste momento’não conhece ninguém que passe fome no país”.

É o comportamento típico daquele do barão famoso, sem com isso dizer que o ministro também seja um contumaz repetidor de suas práticas epistemológicas, apenas que parece pôr mais força em suas convicções do que nos fatos; mais força na sua versão, melhor, na sua visão, que confunde com “evidência”.

O famoso livro “As aventuras do Barão de Münchhausen”,[4] escrito por Rudolf Erich Raspe e publicado em Londres, em 1785, conta a história da “experiência de um explorador disposto a defender seus ideais a qualquer custo”. Sua fama é a de ser o maior mentiroso do mundo. O incrível “barão” acreditava em suas próprias invencionices e as queria fazer passar por “verdades”: “Muito bem, cavalheiros, todos me conhecem e não podem pôr em dúvida minha veracidade” (2014, [59]).

O barão conta suas “histórias”, dá a “prova” da sua “verdade” e fornece os critérios para que tal se estabeleça. Por exemplo, depois de relatar sua segunda ida à lua diz: “Sei bem que tudo isso deve parecer muito estranho. Porém, se a sombra de uma dúvida restar no espírito de alguém, a solução é simples: que ele próprio faça essa viagem, pois vai então constatar o quão fiel à verdade sou como viajante” (2014, [72]). Ora, se restar dúvida que aquele que a tem tire por si a prova, “faça essa viagem”.

Este tipo de posição sugere uma suposta “teoria da verdade”, uma suposta “teoria do conhecimento”. Na verdade, trata-se de uma “anti-teoria” ou da impossibilidade da verdade.

Em termos práticos, não há porque fazer teoria, de qualquer tipo, não há porque fazer ciência, de qualquer tipo, nem mesmo porque buscar a verdade, basta “ver”. O que vale é a “crença”, no mais reles dos sentidos, aquele que não tem sentido algum.

Centrada no “puro mistério”, na ausência completa de qualquer possibilidade de algum tipo de necessidade de ser evidenciada, nem objetiva e nem subjetivamente, simplesmente qualquer coisa, qualquer dito, contanto que dito por quem pode dizer, quem tem poder para tal, pode ser elevada à certeza absoluta, indiscutível e incontestável, natural, eterna e perene: foi o “barão” que disse.

Não há possibilidade de crítica, porque simplesmente não é necessário debate, nem mesmo doutrinação – quem faz doutrinação é que sustenta verdades e as usa para “convencer forçosamente” aos outros.

O que faz é dizer e dizer é mais do que “fazer coisas com palavras” (Austin), dado que não há sequer a necessidade de algum vínculo entre o que se diz (palavras) com qualquer coisa que seja ou simplesmente com qualquer coisa (mas não em sentido pragmático), menos ainda com o que se faz. Está-se diante de tanto “nonsense” que, de tão dito e repetido, vira “bom senso” e está “muito bem distribuído”.

Nem Susan Haack, uma das mais renomadas estudiosas das teorias da verdade, poderia imaginar alguma possibilidade tão inaudita. Até o “paradoxo do mentiroso” por ela analisado[5] ficaria ultrapassado com tanta criatividade epistemológica, gnosiológica, lógica e ontológica.

Enfim, talvez o Pequeno Príncipe possa nos dar algum alento para seguirmos acreditando que possamos voltar a enxergar e, quiçá, poder dizer a verdade, sem virar barão, ou ministro…




[1] A raposa ao Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos” (SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009).

[2] https://oglobo.globo.com/sociedade/ministro-ataca-fiocruz-diz-que-nao-confia-em-estudo-sobre-drogas-engavetado-pelo-governo-23696922?. O Globo, em 28/05/2019.

[3] https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/rosane-de-oliveira/noticia/2019/07/osmar-terra-diz-que-em-materia-de-fome-brasil-esta-nos-niveis-de-japao-suecia-noruega-e-dinamarca-cjyh7wkic01xz01pby5j917di.html. Gaúcha ZH, em 24/07/2019.

[4] RASPE, Rudolf Erich. As surpreendentes aventuras do Barão de Münchhausen. Trad. Claudio Alves Marcondes. Ilustr. Rafael Coutinho. São Paulo: Cosac Naify, 2014 [edição eletrônica]. Os números entre colchetes depois do ano indicam a “página” eletrônica.

[5] Haack diz que tal paradoxo “[…] vem em diversas variantes; a versão clássica diz respeito à sentença: (S) Esta sentença é falsa. Suponhamos que S é verdadeira; então o que ela diz é o caso; logo ela é falsa. Suponhamos, agora, que S é falsa; então o que ela diz não é o caso, logo ela é verdadeira. Assim, S é verdadeira sse S é falsa” (HAACK, Susan. Filosofia das Lógicas. Trad. Cezar A. Mortari e Luiz H. de Araújo Dutra. São Paulo: UNESP, 2002, p. 185-186).

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