Início Site Página 176

Mudar a Educação salvar a vida das mulheres

Quanto mais cedo começar a
educação para uma cultura não machista,
mais possibilidades teremos de os meninos
tornarem-se adultos que respeitam as mulheres.

Os índices de violência contra a mulher seguem aumentando mesmo quando os demais delitos diminuem, como os dados do início desse ano no Rio Grande do Sul: 233%de aumento do feminicídio no mês de janeiro! Fica muito evidente que não avançamos na percepção das suas causas, ou sabemos e subestimamos, continuando a reproduzir o sexismo – tratamento desigual de homens e mulheres – ou então, que são profundamente enraizadas na formação dos sujeitos e para alterar é preciso políticas públicas em larga escala, que cheguem nas escolas e nas famílias, nas relações trabalhistas e sociais, nas igrejas e nos meios de comunicação.

Quem pode conviver e naturalizar 116 feminicídios em 2019, 1714 estupros, 20989 lesões corporais e 37.381 ameaças de violência contra mulheres, considerando apenas o que foi registrado? Ninguém. No entanto, as explicações ainda tem muitos subterfúgios: ou passam pela responsabilização da vítima, ou são tratados da mesma forma que qualquer outra violência, ou, principalmente, a cultura conservadora que informa a visão da mulher, é defendida e reproduzida desconectada, sem relação com a violência.

Não há outro jeito: se não transformar a cultura machista através da educação. Fica evidente que trabalhar apenas na repressão não resulta em redução da violência contra a mulher e as meninas quando, pelos dados do balanço do Estado do Rio Grande do sul de 2019, aplicou-se mais na Segurança do que na Educação. Os números mostram a redução da maioria dos delitos, porém no caso da violência contra mulheres, não.

É fundamental conseguirmos trabalhar nos fatores geradores da violência. E todos os estudos apontam para a construção cultural dos papeis de homens e de mulheres que coloca essas em posição inferior, a destina a espaços privados e a atividades consideradas de menor complexidade e poder, ao mesmo tempo em que concede ao homem papel superior, de liderança, de liberdade e de poder.

O que chamamos de machismo está aí produzido diariamente nos costumes, nas práticas sociais, no âmbito das famílias, atingindo fortemente a construção das subjetividades.

A exemplo da recente conquista em Porto Alegre, onde pelo mandato de vereadora, aprovamos a Lei 12507/19, protocolamos na ALRS o Projeto de Lei que leva para o âmbito estadual, e seu sistema de ensino, o desafio de transformar a educação no sentido de identificar, problematizar e superar todas as manifestações de discriminação e violência contra mulheres e meninas.

A educação cumpre um papel fundamental para mudar comportamentos machistas e discriminatórios em relação às mulheres e às meninas. Quanto mais cedo começar a educação para uma cultura não machista, mais possibilidades teremos de os meninos tornarem-se adultos que respeitam as mulheres.

A Rede Estadual de Educação pode cumprir função importante e decisiva para a difusão de comportamentos não machistas e de respeito às meninas e às mulheres, desde que profissionais tenham suporte e formação isso.

“Meninos e meninas que recebem orientação adequada têm mais chance de se tornarem homens e mulheres civilizados, tolerantes e fraternos”. (Nota CPERS Sindicato)

A proposta traz diretrizes como:

  • O estímulo ao registro e à socialização de práticas pedagógicas que atuem no sentido da erradicação de todas as formas de discriminação e violência contra mulheres e meninas;
  • A valorização do protagonismo das/dos adolescentes e jovens nas estratégias de reflexão e ação que problematizem manifestações de violência;
  • O incentivo o trabalho integrado com as diferentes linguagens artísticas e tecnológicas que favorecem o envolvimento e a reflexão de temas delicados e a desconstrução de tabus;
  • O favorecimento da manifestação estética de cada estudante e de coletivos, oportunizando a vivência de identidades, papéis, ideias e o confronto saudável de pontos de vista, comportamentos e concepções divergentes;
  • A identificação e problematização das violências que ocorrem contra professoras e funcionárias de escola e que residem no fato de serem mulheres.

O referido projeto de Lei está na última comissão para ser votado – exatamente a da educação – e irá depois a plenário. A par disso, estamos publicando uma cartilha que traz dicas (pesquisadas em sites sobre a temática) para professoras e professores, pais, mães e estudantes e problematiza práticas usuais que sem perceber naturalizamos. Vejam algumas:

  1. Atividades domésticas para todos: marido não “ajuda” nas tarefas domésticas, divide. A responsabilidade é de ambos. Práticas como: vai sentar no sofá com seu pai, enquanto eu e sua irmã lavamos a louça” tornam verdade essa cultura onde só as mulheres da casa são responsáveis pelas atividades domésticas. Tem louça na pia? Juntem-se todos e organizem! A casa tá bagunçada além da pia? Então, dividam as tarefas! Ensine desde a infância os seus filhos, independente do gênero, a organizarem suas coisas, arrumarem seus quartos e a fazerem atividades de casa, colaborando assim com o coletivo! Os meninos e meninas devem ser estimulados sem os rótulos de atividades de: “meninos” e “meninas”.
  2. Pais e mães são exemplos que produzem verdades. As funções do pai só são diferentes das da mãe em alguns momentos por questões biológicas, como o amamentar, no mais, os cuidados com a reprodução da vida deve ser de ambos, compartilhados.
  3. Meninos choram.  O machismo roubou do homem o direito de ser sensível (Ana Luiza Garcia). Ser humano fica triste, sente medo ou se emociona independentemente do sexo. E inibir sentimentos pode causar reflexos negativos no futuro.
  4. O tom da voz não diz alguma coisa sobre ser homem ou mulher. Mas é comum se ouvir a repreensão:não fale com voz fina! Já paramos para pensar que em momentos de insegurança, nervoso, medo e carência o timbre de voz da criança pode mudar? E, além disso, a criança vai passar por todo o processo de desenvolvimento da fala e amadurecimento da voz. Ainda, parecer mulher por ter afinado a voz não deve ser colocado como “defeito”, pois passa a idéia de que ser mulher é ser menos que homem. É assim que o menino cresce se achando superior e se torna um adulto que acredita que destratar a mulher o afirma como homem.
  5. Meninas gostam e tem aptidão para o esporte SIM!  Incentive o Esporte. Inserir as meninas no contexto esportivo – estimulando a prática e levando a jogos é um dos caminhos para mudar esse quadro.
  6. Brincar sem Tabus. Deixe seus filhos e filhas à vontade para brincar com carrinhos e bonecos. Usar as cores que quiserem usar. Assim serão criados para serem felizes e livres.Por que o menino não pode brincar disso tudo quando criança? Porque só as meninas é quem devem e podem brincar de casinha, boneca e ter filhos imaginários? Muitas das experiências da infância é que vão formar o adulto que a criança será. Isso não significa que influenciará seu gênero.
  7. Sexualidade não está à prova. Independentemente da orientação sexual (que vai se manifestar a seu tempo), meninos e meninas devem ser gentis, meninos e meninas devem experimentar autonomia e devem ter uma infância plena.
  8. Meninos e Meninas não são pequenos adultos. Puxar o  canto “com quem será” em um aniversário de crianças, estimular beijinhos entre os bebês ou chamar a filha do amigo de “minha norinha” coloca os pequenos num papel que não lhes cabe e distorce precocemente a formação da sexualidade e o condicionamento a ela.
  9. O respeito ao corpo. Profetizar que o menino vai ‘destruir corações’, enquanto ela quando crescer ‘vai dar trabalho’: expressões como essas acabam por legitimar o assédio masculino e a impor culpa a quem é vítima, no que se refere à exposição da beleza feminina. Para mudar esse quadro, é preciso desenvolver entre as crianças conceitos de integridade corporal e consentimento.
  10. Sem essa de provedor e princesa: A figura da princesa à espera do príncipe encantado (o provedor) sugere fragilidade. Ou, ainda, que uma mulher só se realiza com casamento e maternidade – que podem sim ser aspirações, desde que pautadas em cumplicidade, não em dependência.
  11. Empoderar para igualar: Muitos homens se sentem acuados e até ofendidos por pautas feministas, porque não entendem que o machismo oprime mulheres. O empoderamento feminino busca igualdade, não inverter a opressão.

A despedida de Celso de Mello

“Foi quem, fora do cenário da política,
primeiro advertiu para a possibilidade de Bolsonaro
ter cometido crime de responsabilidade ao passar adiante
para a sua turma o vídeo com a convocação
para os protestos contra o Congresso”.

O personagem de 2020, com ou sem golpe, será o ministro Celso de Mello. Perdemos referências de nomes e atitudes, fomos abandonados pelo direito de ter expectativas e somos ameaçados por um golpe, mas ainda nos resta Celso de Mello.

Teve um tempo em que os operários ou os estudantes iriam nos salvar com suas revoltas e anarquismos, toda vez que o mundo estivesse em apuros com golpistas e fascistas. Os partidos, os sindicatos, os grandes líderes estariam sempre a postos.

Não há mais os líderes das emergências, da presteza do momento, do vem cá e nos tira desse buraco e nos conduz às ruas e à liberdade. Nem os professores, as universidades, o poder do conhecimento, nada mais nos acolhe como um dia nos socorreu.

Desapareceram ou fragilizaram-se os nossos oráculos, as vozes orientadoras de ações coletivas.  Mas ainda temos Celso de Mello, que não é político, não é líder de nada e nem é pop. Mas foi ele quem primeiro reagiu publicamente à tentativa de golpe.

Foi Celso de Mello quem escreveu uma nota enviada à Folha de S. Paulo, apontando Bolsonaro como um presidente com “a visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo”.


Para Celso de Mello, a atitude de Bolsonaro revelaria “a face sombria de um presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de Poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República traduz gesto de ominoso desapreço e de inaceitável degradação do princípio democrático!!!”.
Veja mais aqui.



Foi quem, fora do cenário da política, primeiro advertiu para a possibilidade de Bolsonaro ter cometido crime de responsabilidade ao passar adiante para a sua turma o vídeo com a convocação para os protestos contra o Congresso.

Celso de Mello saiu na frente de todos os que poderiam ter dito alguma coisa e só depois pegaram carona no que ele já havia dito. E por isso, então, será o personagem de 2020?

O ministro será a grande figura desses tempos sombrios porque em março ou abril (se não adiarem mais uma vez) dará o voto decisivo, com texto histórico, no processo sobre a conduta de Sergio Moro na Lava-Jato.

Teremos dele toda uma argumentação em defesa do combate à corrupção, como fez quando do mensalão. Mas, ao final do longo voto, o decano do Supremo irá dizer que há fundamento na acusação de suspeição dos atos do ex-juiz que mandou encarcerar Lula e depois virou ministro de um governo ligado a milicianos e outros favorecidos por suas decisões.

O ministro dirá que não há como compactuar com a postura do ex-juiz e suas consequências, quando essas, ao invés de fortalecerem, ameaçam a Justiça. E falará em voz alta que seu voto tem o objetivo de reparar desmandos e proteger o Judiciário, para que não se normatizem os precedentes do magistrado que agia arbitrariamente como acusador.

O ministro poderá ser um pouco mais incisivo, ou até um pouco mais brando. Mas, na essência, será isso que irá dizer, e a Terceira Turma terá então, com os votos de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, maioria para condenar Moro.

Celso de Mello não terá outra saída que não seja a defesa de um Judiciário torto e vilipendiado – que atua seletivamente, que pune pobres e negros, que deixa prescrever os processos contra corruptos da direita, que encarcera ajudantes de traficantes –, mas que se degradará ainda mais se aceitar com naturalidade as ações de Sergio Moro em Curitiba.

Celso de Mello aposenta-se em novembro, e Moro é candidato à sua vaga. Alguns dizem, por tentativa enviesada de antecipar seu voto, que o ministro não depreciaria a imagem de quem postula uma cadeira que terá ocupado por 31 anos.

Se for brando, o ministro poderá, por esse raciocínio, livrar-se mais adiante da acusação de que julgou com severidade um futuro substituto. Não há como ser contorcionista na hora da despedida.

O processo da suspeição de Moro não tratará apenas da Lava Jato, mas do que seus desvios justiceiros representam como ameaça ao Judiciário. Será o último ato de Celso de Mello. Não haverá como não ser histórico.


Publicado originalmente em Extraclasse.  

Em busca de uma comunidade de destino sustentável para todos

O crescimento da economia, ao aumentar
a oferta de bens e serviços, pode até nos tornar mais ricos,
mas está longe de ser a condição que nos tornará melhores.

Face a incisiva cultura capitalista e seu correlato paradigma dominante, a economia do crescimento, não me parece descabido considerar que cada um de nós, desde há muito, foi habituado a pensar e olhar para a estrutura da economia global exclusivamente pelo espectro do crescimento, da expansão da atividade econômica. Ao sabor de uma boa discussão, tem sido dito nas entrelinhas que cada “homem econômico” foi devidamente doutrinado a enxergar o sucesso de uma determinada localidade da economia observando-se tão somente a tendência ascendente da produção material e da geração de serviços.

Pela visão economicista que predomina, o sucesso econômico das nações (ou algo próximo disso), advém do aumento produtivo, mesmo no caso de se perceber, en passant, que isso tende a provocar certas ameaças à integridade do meio ambiente. Mas como a própria história do futuro ainda está para ser devidamente escrita, esse delicado ponto, não obstante a comunidade de ambientalistas elevar a voz em tom de protesto, permanece em aberto.

No entanto, interessa destacar o seguinte: caso se aprofunde a interação entre vida socioeconômica e mundo natural, perceber-se-á que é do fino ajuste da relação Homem-Terra-Economia que se subscreve a tarefa final que espreita o ser humano, realizar-se para uma vida plena. Essa é a questão definitiva.

E como se sabe que a economia desde a sua emergência (final do século XVIII) tem sido não apenas uma boa ciência, mas notadamente espécie de eixo articulador (enquanto atividade produtiva) que orienta os destinos humanos, é possível dizer que essa desejada condição – realizar-se para a vida plena – requer o alcance de boas orientações. Talvez a mais significativa delas seja a necessidade de “cambiar la economia para cambiar la vida”; premissa-chave defendida, entre outros, pela economista equatoriana Magdalena Léon.

Por fim, cabe chamar a atenção para um decisivo chamado: se a nossa espécie ainda tem a intenção de continuar fazendo parte do acervo biológico terreno, com convicção tenaz deve ser pronunciado que já passou da hora de mudar o comportamento existencial dos primatas, a começar pelo abandono da ideia corrente de que o crescimento econômico, ícone da modernidade, irá nos completar.

O crescimento da economia, ao aumentar de forma considerável a oferta de bens e serviços, pode até nos tornar mais ricos, aliás, disso ninguém duvida, mas está longe de ser a condição que nos tornará melhores. Com algum esforço, muitos afirmam que nos tornaremos melhores, de fato, caso consigamos construir uma comunidade de destino sustentável para todos.

E como já não é mais segredo algum que a comunidade humana se especializou em abusar das condições dos ecossistemas planetários (até mesmo ultrapassando em alguns casos as fronteiras ecológicas e assim comprometendo os sistemas geradores de vida da Terra), convém não perder de vista a narrativa feita por Kate Haworth: “a nossa geração é a primeira a compreender adequadamente os danos que temos causado ao nosso lar planetário, e provavelmente a última a ter a chance de fazer algo transformador em relação a isso”.

De tal modo, é desnecessário dizer às claras que isso exige imediata ação. Até mesmo porque, tomando como referência o que consta no preâmbulo da Carta da Terra, (…) estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro […] A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida […]

Semeando resistência

Dona Luiza embarcou na terça-feira, no ônibus em que eu estava. Trocamos poucas palavras no caminho até Brasília, pois ela estava sentada num dos primeiros bancos da frente e eu mais para o fundo.

Hoje sentei ao seu lado para assistir a segunda mesa de debate do dia, sobre capitalismo, patriarcado, racismo e violência. Enquanto aguardávamos o início, conversamos.

Ela me contou que durante a infância morou no interior de Lagoa Vermelha. Os pais morreram quando tinha 12 anos e como nenhum parente morava perto, ela ficou sob os cuidados de uma vizinha muito pobre, que por não ter condições de criá-la, deu-a em “adoção” a um homem quase 20 anos mais velho.

O homem abusava sexualmente dela e tornou-se seu “marido”. Tiveram 13 filhos, seis dos quais já estão mortos. Vítima diária de violência doméstica, Dona Luiza sobreviveu a espancamentos, tentativas de estrangulamento, fome, frio: tudo ocasionado pelo “companheiro”. Buscou a delegacia diversas vezes, tentando salvar a sua vida e a vida dos filhos, mas, como ela disse “porque eu sou analfabeta, pobre e moro na roça, eles me tiravam para mentirosa…sabe como é, né fia”. Resistiu, do jeito que pôde, aguentando a dor em silêncio.

Quando um dos filhos mais velhos se casou e foi morar num assentamento do MST, chamou a mãe para ir com ele. Ela queria, mas não sabia como se libertar das garras do marido, porque tinha medo que, por raiva, ele se voltasse contra aqueles que ela amava.

Um tempo depois, cansada de apanhar e não ter para quem pedir socorro, Dona Luiza juntou suas coisinhas, pegou as crianças e fugiu ao encontro do filho mais velho, na esperança de começar uma nova vida, com menos dor.

Foi acolhida pelo movimento e, em poucos meses, ganhou um pedaço de terra no assentamento Dom Orlando, que cultiva até hoje, plantando verduras, legumes e criando galinhas. “O MST me fez ser um ser humano e entender, mesmo que eu não saiba ler e escrever, o que é a exploração”, me disse, emocionada.

Pouco antes de começar o debate, que acompanhou atentamente, respondendo com ânimo a cada grito de ordem, Dona Luiza pediu se poderia tirar uma foto minha, para não me esquecer. Eu disse que sim, mas com uma condição: que eu também pudesse fotografá-la, ainda que tenha certeza que jamais vou esquecer sua história. Afinal, Dona Luiza é a materialização de tudo o que esse I Encontro Nacional das Mulheres do MST significa.

“Sou solidário às lutas feministas. Além de solidariedade, quero dividir convicção de que o conhecimento, a valorização e a participação ativa na vida da sociedade são as mais importantes ferramentas para enfrentar a discriminação e a violência a que são injustamente submetidas mulheres do Brasil e do mundo”. (Nei Alberto Pies)
Veja mais aqui.

Autora: Vanessa Lazzaretti

A igualdade como premissa

Meninos e meninas que recebem orientação
adequada têm mais chance de se tornarem
homens e mulheres civilizados,
tolerantes e fraternos.

O Dia Internacional da Mulher é mais uma oportunidade para o debate sobre a discriminação histórica de gênero, que está na origem da opressão, dos maus-tratos e do feminicídio. A luta das mulheres pela igualdade tem um aspecto inadiável, que é o combate à violência, mas inclui vários outros pontos, que vão das brincadeiras infantis segregacionistas à distinção de tratamento na escola e no mercado de trabalho.

Por isso, tão importante quanto denunciar preconceitos e agressões – e não pode haver transigência quanto a isso – é planejar políticas educacionais centradas na igualdade de gênero, tanto no âmbito familiar quanto no educacional. Meninos e meninas que recebem orientação adequada têm mais chance de se tornarem homens e mulheres civilizados, tolerantes e fraternos.

Nesse sentido, impõe-se uma imediata ampliação da participação das mulheres na política, na economia e em todos os setores da sociedade, para que seus pontos de vista sejam considerados no momento da tomada de decisões. As mudanças culturais não ocorrem da noite para o dia, mas só começam efetivamente a acontecer quando a sociedade elege e valoriza lideranças diversificadas, acatando o diálogo democrático como caminho para a solução de conflitos.

De acordo com pesquisa apresentada pela UNICAMP, a participação de mulheres como professoras nas Universidades cresceu 1% entre 2006 e 2016. Nesta edição, o Conexão busca entender os motivos para este fenômeno.




A igualdade de gênero não pode ser encarada como um modismo ou uma conquista de movimentos feministas. Tem que ser vista por todos como uma premissa indispensável para a construção de um mundo mais humano e mais justo.


Professoras de Porto Alegre ensinam
sobre valorização da mulher.
Veja mais aqui.

Se você afirma que não utiliza o SUS você está enganado

Existem muitos brasileiros não se importam com o SUS, porque acreditam que não são seus usuários. Pensam que pagar por um plano de saúde e não se consultar no posto do bairro significa não utilizar o SUS. Para esses, eu tenho uma novidade: todos os brasileiros fazem uso e se beneficiam do SUS.

Se você pode se dar ao luxo de morrer aos 80 anos em decorrência das complicações do Alzheimer, é porque não morreu de diarréia antes de um ano de idade, de sarampo aos cinco, de tétano aos nove, de surto de meningite aos 13, de cólera aos 20, em decorrência de HIV ou sífilis aos 25, de acidente de trabalho aos 30, de picada de cobra ou escorpião aos 35, de tuberculose aos 40, de câncer de boca ou pulmão aos 45, de sequela de tênia aos 50, de infecção alimentar aos 55, de dengue aos 60, de câncer de colo de útero aos 65 ou de gripe aos 70.

Todas essas doenças precisam ser tratadas no campo do que chamamos de “saúde coletiva”, coisa que nenhum plano de saúde seria capaz de fazer, simplesmente porque estes só atendem os seus clientes e, geralmente, com medicina preponderantemente curativa. Ou seja, nenhum plano de saúde, por mais caro que você possa pagar, teria como cuidar de uma epidemia de tuberculose, por exemplo. O controle ou a erradicação seriam a única medida eficaz para combater, de fato, a doença — que é altamente contagiosa. Para isso, os que podem ou que não podem pagar deveriam ser igualmente vacinados ou mantidos sob cuidado para não transmitirem o bacilo.

A dengue também é boa para entender a importância do SUS. Não adianta você cuidar da água parada do seu quintal e nem se isolar no seu maravilhoso condomínio com porteiro 24 horas se não houver o trabalho coletivo feito pelo SUS e seus agentes sanitários e de saúde. A doença vai chegar até você e sua família. Duvido que um plano de saúde se dispusesse a vigiar a limpeza da casa do seu vizinho, que não paga o plano como você.

O SUS regula nosso sistema de água potável e esgoto por causa das verminoses, regula a qualidade da carne que você come, a higiene do restaurante que você frequenta e os medicamentos que você usa (a Anvisa faz parte do SUS). Nosso sistema de saúde está sempre atento à “chegada” ou avanço de novas doenças, evitando que elas se alastrem; exige sistemas de proteção e legislações que reduzam acidentes, epidemias e riscos à saúde e cria campanhas de massa para educação e prevenção de doenças e agravos.

Só para dar outros exemplos: o SUS conseguiu, em poucos anos, mudar completamente a cultura do tabaco no Brasil. Apenas com campanhas educativas e legislações restritivas para propaganda e locais de uso, o número de fumantes passou de cerca de 35% em 1989 para menos de 15% em 2013. Tal mudança de cultura, que se reflete nas gerações seguintes, só foi possível organizada por um sistema público, forte e universalizado.

A Farmácia Popular, também do SUS, não beneficia apenas os que têm acesso à medicação gratuita. Ao impulsionar a expansão do mercado, promove também a queda dos preços para os demais consumidores, além de quebrar as patentes das indústrias farmacêuticas e movimentar pesquisas e a produção de medicamentos com custo mais baixo. O Samu atende acidentes de trânsito, domésticos, urgências e emergências cardíacas ou quaisquer outras que ofereçam risco de morte. Tendo plano ou não, recursos ou não, o atendimento é universal.

O SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, tem um programa de imunização de doenças que é um sucesso, sendo o responsável pela erradicação de várias delas. O impacto do SUS na redução da mortalidade infantil no país é indiscutível. O Brasil tem um sistema de tratamento e prevenção de HIV/aids exemplar e é o sistema público que mais faz transplantes e hemodiálises no mundo todo, incluindo a manutenção de uma rede de doadores de sangue e órgãos, com excelência em tecnologia. Todas essas e outras intervenções de alta complexidade ficam a cargo do SUS, pelo fato de serem muito dispendiosas e inviáveis para o sistema privado, que obviamente, tem como interesse primeiro, lucrar

A idealização do SUS tem raízes numa concepção de saúde integral, solidária, humanitária, democrática e que não seja objeto das leis do mercado. Saúde não tem preço e não pode estar à venda. Esse diferencial já seria suficiente para defendermos o SUS como patrimônio nacional, estabelecendo com ele uma noção maior de pertencimento e agregando-lhe o valor que realmente merece. Entender que o SUS é nosso é fundamental para militarmos em sua defesa, a fim de lhe garantir mais recursos e financiamentos e não o seu desmonte, como vem acontecendo. As deficiências do SUS são decorrentes do que não se investe nele e não pelo que é. O SUS é um sistema para o Brasil e não uma espécie de caridade para os pobres. O SUS está em toda parte; está literalmente no ar que respiramos e na água que bebemos. O SUS é nosso! Defenda o SUS!



Texto de Rita Almeida, psicóloga e psicanalista, professora de pós-graduação em Saúde pública e Saúde Mental. Conselheira pelo CRP/MG, é militante do SUS e da Reforma Psiquiátrica Brasileira

Publicação original Revista Radis.

Conhecendo Jesus pela arte

Quando a Escola retrata as diferentes realidades
do povo pobre nos dias atuais e diz que Jesus está ali
o faz a partir de uma hermenêutica dos evangelhos,
dialogante com os nossos dias.


Assistimos no final de semana passado, por ocasião do carnaval, o desfile de algumas Escolas de Samba que, nos seus diferentes sambas-enredo, nos provocaram à reflexão. Em todo o Brasil outras formas de diversão carnavalesca não deixaram de sugerir uma leitura crítica do atual contexto brasileiro. 

As diferentes manifestações do carnaval são produções artísticas. E a arte tem a capacidade de fazer uma leitura de mundo de um jeito original, mas não menos comprometido. Neste sentido a arte é orientação, quando aponta para um caminho possível. É profecia quando denuncia situações de ameaça à vida e a dignidade humana e ao mundo criado. A arte também faz refletir, provoca a pessoa a sair do senso comum e ler os fatos da vida de uma forma mais aprofundada.

Dá visibilidade a temas que nem sempre a sociedade acolhe como importantes. Foi significativo o enredo vencedor tematizando a trajetória das mulheres negras no Brasil apresentado pela Escola de Samba Viradouro.

Destaco aqui a apresentação da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. A Escola se dispôs a apresentar para o público a história de Jesus de Nazaré. Sem dúvida, o resultado do trabalho foi fruto de pesquisa e também de uma hermenêutica original. Apresentou-se uma interpretação dos fatos da vida de Jesus. Não é novidade.



Na opinião do Teólogo Leonardo Boff, o enredo da escola “atualiza a figura de Jesus para a nossa situação, que é muito semelhante à situação da Galileia, da Palestina, na qual vivia o Jesus histórico”. Veja mais aqui.



Ao longo da história do cristianismo sugeriu-se tantas outras interpretações da vida e missão de Jesus. Algumas próximas dos evangelhos que são o testemunho mais fiel da vida do homem de Nazaré e outras muito distantes.

A Escola de samba falou de Jesus através da arte em suas diferentes dimensões. Certamente surgirão críticas. Muitas críticas. Alguém já opinava que a imagem de Jesus crucificado como um jovem negro favelado era muito feia. Mas podemos nos voltar à imagem de Jesus chagado, crucificado, agonizando na cruz que está em nossas casas e igrejas. Esteticamente não é das mais atrativas. Mas ali está o filho de Deus, aquele que nos amou até o fim. E está também na imagem do jovem negro favelado. 

Os organizadores do desfile procuram retratar Jesus no corpo do negro, do indígena, da mulher e tantas outras pessoas com a vida e a integridade física ameaçadas. É possível que tenha escandalizado os puristas que viram nisso grande pecado.

 Contudo vale a pena retomarmos o evangelho de João, primeiro capítulo. Ali o evangelista afirma que Jesus é o verbo encarnado morando no meio da humanidade. E o verbo se fez carne e veio morar entre nós (Jo 1, 1). Significa que Jesus assumiu a condição humana nas suas grandezas e limitações. Esteve presente na história da humanidade nas condições que esta história permitia. Fez isso para conduzir a humanidade à salvação. Cabe reforçar: assumiu a condição de todos os humanos e não apenas de grupo. Fez isso para salvar a todos. 

O evangelista Mateus descreve as consequências da opção de Jesus de se encarnar. Em Mateus, 25, 31-46 o Filho de Deus afirma os critérios de salvação para os homens e mulheres, a capacidade de reconhecê-lo no faminto, sedento, estrangeiro, na pessoa nua, no doente e no preso. Ver Jesus nestas pessoas e agir para o seu bem, matando a fome e a sede, vestindo, visitando, ou seja, dando uma atenção samaritana e misericordiosa é o grande critério de salvação. Jesus, o Filho de Deus, se fez presente nestas pessoas, porque se encarnou para salvar a todos.

Quando a Escola retrata as diferentes realidades do povo pobre nos dias atuais e diz que Jesus está ali o faz a partir de uma hermenêutica dos evangelhos, dialogante com os nossos dias. Provoca-nos a rever as nossas concepções de Jesus e como consequência, a nossa experiência de fé cristã.



Teólogo e pastor batista Henrique Vieira defende que a Escola levou para a Avenida um Jesus dos evangelhos: amigo, amoroso e parceiro dos oprimidos. Veja mais aqui.



Que Jesus acolhemos em nossa vida e procuramos seguir?


A volta do Index?

Livros ajudam as pessoas a entender seu tempo
e tenham seu espaço na sociedade, questionando-se
e observando a si mesmos e aos outros de forma crítica,
pontua Ann Lee, escritora que teve seus livros
listados no Index.


Desde a posse de Jair Bolsonaro o desapego à lógica e à razão, o impulso emocional manipulador surgiram por trás da onda obscurantista. A negligência à ciência, o incentivo à violência e ao ódio, citações nazistas, o culto ostensivo da ignorância se tornaram corriqueiros.

O retrocesso civilizatório é assustador notadamente no campo da cultura. Não à toa, o Ministério dedicado ao setor foi extinto.

O ataque se dá em várias frentes. Na História, por exemplo. Como História, segundo a direita bolsominia, é coisa de comunista, maconheiro, esquerdopata e professor doutrinador, para que aprender com ela? Assim, repete-se estupidamente o passado.

A palavra “cultura” na direita tem uma recepção bem específica, se tomada positivamente. “Festas em que não se respeita a vida animal, aí sim, é cultura. Cantores populares que gravam mensagem de ódio também podem ser louvados. O mundo sertanejo é amado pelos bolsonaritas”, assevera o filósofo Paulo Ghiraldelli.



Em artigo no site, Paulo Ghiraldelli escreve: “esse projeto nos fez duplamente dominado: a dominação do homem pelo homem e a dominação do fetiche, do fantasma, sobre o homem. Dominação não em pensamento que passa, para nos dominar, pela cabeça, mas dominação que nos torna súdito por vivermos realmente numa situação de súditos. Súditos do homem pela técnica, súditos do homem pelo fantasma”.



Agora, em Rondônia, surgiu uma lista de livros proibidos, abrindo mais um capítulo na guerra à cultura. Foi ideia do governo Marcos Rocha, aliado de Bolsonaro.

Para o governo daquele estado – que negou a medida –, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Rubem Alves, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Euclides da Cunha, não servem para os alunos do Ensino médio de Rondônia. Ulala!!

Autores que têm em comum além da reconhecida qualidade de seus livros o fato de serem nomes estabelecido na literatura.

Já em São Paulo, o governo estadual vetou uma lista de livros doados à penitenciárias. Ora, são apenas livros com “um amontoado de montão de palavras”, na lúcida definição do ocupante do Palácio do Planalto.

É a volta triunfal do Index Librorum Prohibitorum? É a ignorância acima de tudo. Obviamente, em nome da Escola Sem Partido. Convenhamos, trata-se de um despautério imaginar, em pleno século XXI, a retomada de um índice de livros proibidos.

Nenhum livro merece ser proibido, ter seu conteúdo cortado ou alterado, mesmo em polêmicas, pois a atitude configura censura e cerceamento da liberdade de expressão.

Livros são parte fundamental na formação de qualquer indivíduo. Eles ajudam as pessoas a entender seu tempo e tenham seu espaço na sociedade, questionando-se e observando a si mesmos e aos outros de forma crítica, pontua Ann Lee, escritora que teve seus livros listados no Index.

E por aí vai nossa cultura atacada de forma terrivelmente obscurantista, com a negação da evidência empírica, onde Copérnico é contestado, Darwin execrado.

Tribos da direita, prisioneira de preconceitos identitários e religiosos herdados da Idade Média, avançam como hordas bárbaras sobre o que ainda resta da cultura nacional.

O próximo passo será a queima de obras literárias em praça pública?

“Desconectados” em rede

Podemos estar em rede,
mas desconectados uns dos outros,
desprovidos do nó que amarra e junta
um ser humano a outros seres humanos.


 Vivemos conectados, estamos em rede. A internet, através das redes sociais, possibilita interação em escala global. Essa partilha de informações traz em seu bojo algumas revelações que precisam ser refletidas e consideradas pela filosofia pedagogia, sociologia, psicologia, isso para citar algumas áreas do conhecimento, pois ninguém está isento dos efeitos positivos e negativos desta “onda” que se constitui para muitas pessoas em um “modus vivendi”. 



Papa Francisco sobre as redes sociais.



Se leste até aqui, deve estar se perguntando onde desejo chegar: se és um crítico, suspeito que a essa altura já se questionou: qual é o problema? Onde se encontra a hipótese? Que argumentos já foram introduzidos?

Não prometo uma resposta que satisfaça sua curiosidade e seu espírito investigativo, mas me empenharei em oferecer justificativas para a validade deste escrito.

Sou usuário das “redes sociais”, acompanho o que pessoas próximas e distantes publicam em seus perfis, interajo com alguns post, “curto”, “comento” “compartilho”, mas também fico irritado, perplexo indignado diante de outros. Pensado sobre essas duas atitudes, surgiu a necessidade deste texto que, mesmo que pessoal, nasceu para permitir reflexão.

O acontecimento gerador deste texto se deu quando acessei um grupo criado para troca, compra e venda de mercadorias, onde um anúncio diferente chamou minha atenção. Tratava-se de um pedido de ajuda.

Uma pessoa que ainda possui capacidade de sentir com o outro pedia: roupas, calçados, alimentos para uma mulher e seu filho. Abaixo do pedido estava a foto de uma mulher segurando a mão de uma criança, ao fundo uma barraca de lona preta. A mulher com expressões tristes, de poucas esperanças, como muitas imagens disponíveis na “rede”, traz presente uma sensação de desarmonia e uma certeza: a humanidade tem enveredado por caminhos tortos, pois a exuberância de grifes, o excesso de luxo esnobado por famosos, a concentração da renda nas mãos de poucos, a “despolitização” do nosso país contrasta com a pobreza, o descuido e as carências de muitos.

O pedido de ajuda foi feito, alguns se solidarizaram nos mostrando que o ser humano é bom, que o ser é junto com os outros, mas outras manifestações revelaram o que há de pior na humanidade, o preconceito, a indiferença, a atitude de Pilatos.

As manifestações contrárias ao amor, desvinculadas do sentido do humano, no mínimo, expõem que a educação tem falhado na sua tarefa de educar de acordo com os pilares sugeridos por Jacques Delors no livro intitulado “Educação: um tesouro a se descobrir” (1998). Conforme o pensador citado, educar significa formar humanos comprometidos com a justiça social, solidários com os outros, abertos para a perspectiva de cuidado com o planeta, é tarefa política que não pode ficar alheia as evoluções técnicas e as realidades sociais.

Analisar o conteúdo dos “post”, a repercussão das mensagens e dos comentários desperta para a necessidade da crítica constante.

Se por um lado existem iniciativas e conteúdos que precisam ser potencializados, por outro cresce o número daqueles que dão vazão a suas concepções egoístas, individualistas, preconceituosas e por isso desvinculada dos direitos humanos, assegurados pela constituição de 1988.

Exemplos de violações cometidas na rede não faltam, o preconceito de gênero, de etnia, os rótulos colocados em pessoas que cometem erros, o preconceito circula na rede, pulsa em muitas veias e precisa ser combatido com urgência.

Enfim, mas sem a pretensão de esgotar o assunto, enquanto a técnica se desvincular da ciência humana. estaremos em um mundo que evolui caminhando a passos largos para a desumanização.

Essa “rede de relações”, esse emaranhado de nós e fios que formam a sociedade complexa, precisa se converter em ferramenta para a educação dos afetos, para a potencialização da compaixão, para a vivência da solidariedade.

Tecnologia desprovida de uma educação adequada resulta na evolução dos projetos que fortalecem a desumanização, porque crescimento tecnológico e interação virtual nem sempre significam evolução da humanidade. Podemos estar em rede, mas desconectados uns dos outros, desprovidos do nó que amarra e junta um ser humano a outros seres humanos.

Por dias melhores na educação

Esperamos que o governador abandone a intransigência
e demonstre disposição para construir pontes.
A educação não pode mais esperar.

Após um ano letivo tumultuado, marcado pela falta crônica de recursos humanos, desorganização pedagógica, embates constantes com os educadores e o desgaste de uma greve histórica, Eduardo Leite tem a chance de recomeçar.

Pacificar este ambiente conflagrado está ao seu alcance. Basta um gesto de boa vontade: pagar os mais de 27 mil educadores grevistas cujos salários foram cortados, apesar dos serviços prestados e dos períodos recuperados.

O mérito legal do desconto imposto pelo Executivo ainda está em litígio no Tribunal de Justiça, mas as graves consequências na vida da categoria urgem por uma solução célere e compatível com a dimensão do problema.

Trata-se, neste momento, de uma questão humanitária. Os relatos de quem trabalha no chão da escola são angustiantes. Faltam recursos para suprir necessidades básicas, alimentar a família e honrar toda sorte de compromisso financeiro.

Como enfrentar uma sala de aula abaixo de dívidas sufocantes, acumulando empréstimos e escolhendo entre comer ou pagar as contas? O desânimo e a falta de motivação grassam.

Vale lembrar: esta é uma categoria já severamente castigada por 50 meses de salários atrasados e parcelados, e mais de cinco anos sem reposição. Nosso poder de compra foi reduzido em mais de 1/3 desde o último reajuste, corroído pelo inflação.

A despeito da conjuntura terrível, os grevistas honraram seu compromisso com os mais de 800 mil alunos que dependem da escola pública e concluíram o ano letivo, recuperando as aulas devidas.

Apesar disso, veem-se em uma situação calamitosa e sem perspectivas de iniciar o ano com um mínimo de tranquilidade para desenvolver o processo educacional e garantir a qualidade do ensino.

Como demonstraram os deputados durante a votação dos projetos em janeiro, diálogo pressupõe troca, deslocamento, negociação. Esperamos que o governador abandone a intransigência e demonstre disposição para construir pontes. A educação não pode mais esperar.


Autora: Helenir Aguiar Schürer, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato

Veja também