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Era da ignorância

Não é possível que todos saibam muito
sobre tudo e não podemos nos guiar
apenas pelo senso comum,
para isso existem os especialistas,
que dominam determinados assuntos.


Em uma matéria de 2017 na revista Foreign Affairs, o professor americano Tom Nichols fala sobre o fenômeno social da percepção da ignorância como uma virtude. Ele é autor do livro “A Morte da Competência”, sobre esse tema.

Referindo-se à sociedade americana, ele entende que atualmente há uma desconfiança com relação aos especialistas (experts), e uma desvalorização do conhecimento acadêmico e científico. Os leigos tenderiam a considerar a sua opinião e o senso-comum como base suficiente para julgar questões complexas e para questionar os especialistas.

Lendo essa matéria, com algum atraso, tive a impressão de que esse fenômeno também ocorre no Brasil. Parece haver um crescente desprezo pelos intelectuais, cientistas e especialistas, e um questionamento permanente dos fatos comprovados pela ciência.

Desde a relativização de dados e estudos sobre meio ambiente e saúde pública, até a contestação absurda de descobertas científicas, a postura da sociedade tende a enaltecer o senso comum e equiparar opinião pessoal a conhecimento acadêmico e científico.

O autor cita muitos fatores que contribuem para esse comportamento, entre eles os vieses cognitivos, o medo que faz com que as pessoas rejeitem aquilo que não conseguem compreender, e também o ambiente da internet e redes sociais, onde proliferam opiniões e dados falsos misturados a fatos comprovados, favorecendo a confusão.

Há um alerta importante no artigo sobre o risco desse comportamento para a democracia e para o futuro da sociedade. O conhecimento acumulado durante séculos foi o que permitiu que a humanidade evoluísse, e siga evoluindo.

Embora o questionamento seja importante, numa organização social complexa como a nossa, não é possível que todos saibam muito sobre tudo e não podemos nos guiar apenas pelo senso comum, para isso existem os especialistas, que dominam determinados assuntos. Precisamos confiar neles e na ciência, e aceitar a nossa ignorância em certas áreas. Aceitá-la sem enaltece-la.


“Um professor quer ser alguém que ajude a formar opiniões sólidas, não meramente a achologia. Isso exige de mim uma formação continuada que me encanta e me agrada, me coloca o tempo todo no risco de ser alguém em quem as pessoas prestam muita atenção. Isso exige afastar o risco da superficialidade sem deixar de ser simples”. (Mário Sérgio Cortella)

Valorizando a vida com Taekwondo

André Régis, desde muito novo, manifestou interesse nas artes marciais, nos desafios das lutas e no conhecimento da cultura oriental como um todo.  Ensinado e acompanhado por mestres na arte marcial do Taekwondo, percorreu e morou em cidades do Brasil, participou de competições fora do país e de treinamentos na Coréia do Sul.


André fez também a Faculdade de Educação Física, onde aprendeu a conciliar a aprendizagem que obteve como atleta, nas competições, com o conhecimento do corpo humano e suas potencialidades físicas.

Estas experiências únicas, de um jovem de nossa cidade Passo Fundo, que conheceu o mundo em busca de sabedoria e conhecimentos do mundo oriental, permitiram a ele construir um método de ensino que alia a arte marcial do Taekwondo ao conhecimento da educação física, tendo em vista colaborar para a formação do ser humano na sua integralidade.

Sua academia, apresentada por uma bela logomarca e um interessante portfólio, apresenta “a filosofia do Taekwondo baseada em cinco princípios fundamentais: cortesia, integridade, perseverança, autocontrole e o desenvolvimento de um espírito indomável. Através da mesma, procuramos atingir o nosso objetivo final: construir um mundo melhor e mais pacífico, tornando-nos campeões da justiça e da liberdade”.

Conheçamos André Régis por ele mesmo, em entrevista que concedeu ao site, organizada em 3 momentos: história e vida pessoal, vida de atleta e mestre; estruturação da Academia e sua compreensão do Taekwondo para uma formação humana integral.

NEI ALBERTO PIES: Conte-nos um pouco de sua história de vida pessoal envolvendo, desde novo, sua vontade de conhecer as lutas e as artes marciais, como também a filosofia oriental.

Desde pequeno eu gostava de filmes de artes marciais e então, através de um convite da minha irmã, comecei a treinar Taekwondo. Nunca mais parei.

Como eu morava em um lugar bastante violento e perigoso, o taekwondo foi uma oportunidade que me ajudou a encontrar uma forma de enfrentar o medo e canalizar essa energia em algo positivo. Assim aprendi valores que iam formar a minha conduta moral e mudar a minha vida dali em diante.

Ainda criança, também, gostava muito de saber sobre o poder da mente e sempre que possível, lia algo sobre o assunto ou fazia cursos relacionados a isso. Comecei fazer mentalizações positivas de autoafirmação e que as coisas dariam certo. Mais tarde vim a descobrir que a filosofia oriental está totalmente ligada a isso.

NEI ALBERTO PIES: Passastes por Rio Grande, Porto Alegre, Florianópolis e Blumenau/SC, morando em Academias de Artes Marciais e convivendo com consagrados mestres. Qual é a importância desta experiência na formação pessoal e como Mestre de Taekwondo?

O Taekwondo foi tão significativo para mim que adotei isso como objetivo maior da minha vida. Fui atrás do meu sonho de ser atleta.

Como tive muito destaque em competições esportivas, fui convidado a morar nestes outros lugares, sempre vivendo como atleta e desenvolvendo minhas habilidades como lutador.

Passei por várias dificuldades neste percurso. Desde dormir em academia, mal alocado, ter dificuldades para me alimentar… Eu era um jovem que tinha um sonho, porém, fui ludibriado por pessoas que estavam ali para me ajudar (muitos atletas passam por isso). Mas essas experiencias me serviram de base para uma evolução ainda maior, pessoal e profissional também.

Minha dedicação exclusiva e integral ao taekwondo me fez um excelente atleta marcial e essas experiências me fizeram um Mestre melhor, mais humano, pois aprendi inclusive como NÃO SER com as pessoas.

NEI ALBERTO PIES: Fizeste passagem pela Seleção Brasileira de Taekwondo. Que aprendizagens carregas desta experiência?

Após anos sem competir, cursando a faculdade de Educação Física, resolvi colocar em prática os conhecimentos científicos do treinamento esportivo e assim, fui representar a UPF no Campeonato Brasileiro Universitário, em Salvador/ BA. Lutei com o atleta Marcio Wenceslau. O Marcio era um atleta modelo, ia representar o Brasil nas olimpíadas.  Foi uma luta muito acirrada então, o técnico da seleção brasileira, naquela época, Carlos Negrão convidou-me a treinar com seus atletas, no centro de treinamento em São Paulo.

Passei um tempo treinando com atletas de excelente nível técnico, aprendi muito como lutador. Porém, optei por seguir o caminho do taekwondo como arte marcial, para a formação de pessoas melhores. Voltei para Passo Fundo e segui com minha academia. Desta experiência, carrego a felicidade pelo reconhecimento do técnico. Me senti lisonjeado, especial e muito orgulhoso pelo convite.

Como passei a maior parte da minha vida treinando, boa parte dos aprendizados que eu tenho vieram mesmo das competições. A competição é um momento extremamente rico para a formação do atleta e do ser humano.

Para entrar em uma quadra e enfrentar alguém que vai te dar chutes e socos, você precisa desenvolver muitas habilidades, dentre elas pode-se destacar:

  • a coragem (vencer o teu medo e conseguir reagir em uma situação adversa);
  • a humildade (aprendemos que fazer reverência não é um simples gesto, pois muitas vezes quando você começa a vencer nas competições você se torna arrogante e algumas vezes acaba perdendo para adversários inferiores);
  • o autocontrole (manter o seu controle e equilíbrio emocional, reagir somente dentro das regras e normas, respeitando os árbitros e o adversário);
  • a concentração (manter um estado de atenção plena. Observar atentamente o adversário, o juiz, o treinador ou técnico, a área de luta e não ser influenciado pela torcida) e
  • o espírito indomável (é o que um lutador tem que ter acima de tudo. Ele não pode desistir nos momentos difíceis. Mesmo quando está cansado ou não está indo bem na luta, deve seguir em frente mantendo seu espírito aguerrido e superar as dificuldades que se apresentam, sempre em direção ao objetivo).

Todos esses ensinamentos servem para a competição, mas também, para nossa vida cotidiana.

NEI ALBERTO PIES: Conheceste e te tornaste um seguidor da filosofia Seicho-No-Ie. Qual foi o conhecimento que agregaste desta filosofia para compreender o mundo e os fundamentos da cultura oriental?

Aqui no ocidente, geralmente, se ensina luta com uma visão estereotipada (visão ocidentalizada), que se resume aos movimentos físicos/externos (luta e defesa pessoal), esquecendo da parte essencial que é a filosofia.

Tive a oportunidade de visitar a Coréia do Sul algumas vezes e presenciei na prática que lá se ensina a arte marcial com uma visão global, levando em conta os aspectos físicos, educacionais, sociais, afetivos e espirituais. Por isso a conduta deles é extremamente cortês e respeitosa em todos os momentos.

Eu, particularmente acredito que o ensinamento da Seicho-No-Ie é a filosofia da arte marcial que geralmente é esquecida de ser ensinada no ocidente. Por isso agreguei esse ensinamento ao meu trabalho, tendo em vista que a Seicho-No-Ie, falando de uma forma simples é um ensinamento de amor que acredita que Deus vive dentro de todas as pessoas, e, por isso, elas possuem bondade dentro de si.

Um exemplo prático disso é quando um pai ou uma mãe leva seu filho até a academia dizendo que seu filho tem déficit de atenção, hiperatividade, ou quando um adolescente ou adulto vem através de indicação de psicólogo/psiquiatra com transtornos de humor, dificuldade para lidar com suas raivas e emoções, alto nível de estresse… consigo prestar atenção e observar pelo ponto de vista científico porém, ao mesmo tempo eu nego esses aspectos e acredito firmemente que estes possuem uma Imagem Verdadeira que é perfeita e maravilhosa.

A partir do conhecimento que fui adquirindo na Seicho-No-Ie, fui mudando a minha vida e a visão que eu tinha do mundo e por perceber que essa filosofia funcionou na minha vida prática, não tive como não agregar isso ao meu trabalho, algo que eu realmente amo e acredito.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a diferença entre briga, luta e arte marcial?

A maioria das pessoas desconhece a diferença e acredita que é tudo a mesma coisa. Mas não é bem assim. Constantemente sou convidado a ministrar aulas e palestras em escolas, faculdades e universidades para falar sobre isso. Então vamos lá!

Falando de um jeito simples, a Briga acontece entre uma ou mais pessoas, pode envolver objetos como pedras, paus, facas e inclusive arma de fogo. Geralmente tem como motivação a vingança. Pode machucar os envolvidos gravemente ou mesmo, levar a morte.

Lutas são disputas que acontecem sem uso de armas de fogo, em um espaço e local determinado, devem respeitar as regras da competição e a integridade física do adversário;  

Já, a Arte Marcial que também é um sistema de combate aprimorado onde um adversário deve sobrepujar o outro com técnicas de torção, imobilização, chutes e socos, semelhante ao da luta, tem características extremamente relevantes que a diferenciam: a filosofia, a religião e a conduta.

Por exemplo: Você pode ensinar Taekwondo, Karatê, Judô, etc, que são artes marciais sem ensinar a filosofia, porém, assim você estará ensinando uma luta, e não uma arte marcial. Algumas lutas como o Boxe, Muay Thai e o MMA, tem como finalidade o desenvolvimento do golpe, a velocidade e potência dos chutes e socos, sendo assim, consideradas somente um esporte de combate.

É importante que se dissemine aqui no ocidente a arte marcial que mantenha a sua ideia original, de expressão cultural e busca pela evolução do ser humano. Sabe-se que os conhecimentos milenares da cultura oriental relacionados a saúde, alimentação e ao estilo de vida são extremamente necessários para vivermos mais e, porque não, melhor!?

NEI ALBERTO PIES: O que significa ser Mestre?

Mestre, em coreano, é SABONIM que significa “um exemplo”. Um Mestre é uma pessoa que tem posição de muito respeito e que deve procurar, literalmente, fazer jus a palavra, em tudo que faz, para que através da sua própria vida, possa ensinar o caminho correto.

NEI ALBERTO PIES: De volta ao Passinho, como carinhosamente muitos chamam Passo Fundo, sobreviveste trabalhando em academias de musculação como professor. Quando, como e porque surgiu a vontade de fazer a tua academia?

Eu estava morando em Porto Alegre e treinando com um renomado mestre, aliás, um dos responsáveis por introduzir o taekwondo no Brasil, o Grão Mestre Te Bo Lee. Nessa época eu já conhecia a Seicho-No-Ie e participei de uma palestra que falava sobre a formação do destino. A partir disso decidi retornar à minha cidade natal e recomeçar a minha vida aqui.

Comecei ministrando aulas em algumas academias e fui percebendo que os alunos gostavam muito das minhas aulas. No decorrer do tempo recebi um convite para montar uma sociedade em uma academia de arte marcial. Mais tarde dividimos a sociedade e compramos uma academia de musculação também. Nesse processo todo percebi que tinha capacidade para conduzir meu próprio negócio, da forma que eu entendia ser mais adequado. E surgiu assim a Academia André Régis Taekwondo.

Como já existiam várias academias, com diversos focos e objetivos, algumas inclusive, nem tão bem vistas, quis dar destaque para meu diferencial e desejava que as pessoas soubessem que era eu quem estava ali, cuidando de tudo. Então optei por colocar meu próprio nome, iniciando assim um novo momento da minha vida.

NEI ALBERTO PIES: Pode nos explicar o símbolo (logomarca) e a concepção de trabalho de tua academia que já existe há 16 anos?

Através de rabiscos, criei uma primeira ideia do que eu queria para a logomarca. E até usei esta, impressa em algumas camisetas e materiais. Mais tarde, percebendo a necessidade de evoluir, busquei auxilio em uma agência de publicidade. Geralmente quando existe uma logomarca de artes marciais logo se vê um dragão, um tigre, uma caveira ou um punho… coisas que fazem alusão a violência. E não era isso que eu queria transmitir. Nessa época eu já cursava Educação Física e meu desejo era passar um conceito de movimento, leveza, educação e valorização da vida. Por isso pode-se ver na minha logomarca essa ideia. Daí também surgiu de forma muito natural o nosso slogan “Valorizando a vida”.

NEI ALBERTO PIES: Como fundiste os conhecimentos da arte marcial com os conhecimentos da educação física e do desenvolvimento do corpo humano?

A Faculdade de Educação Física foi fundamental para mim e para o meu sucesso pois eu já tinha sido atleta e era professor de taekwondo já a muitos anos. Trazia comigo o conhecimento empírico, transmitido pelos meus professores e mestres, da forma rígida e tradicional. Também acreditava que todo aluno era um atleta.

Através da faculdade percebi que precisava rever meus conceitos, adotar mudanças na forma de executar meu trabalho. Entendi, por exemplo, que crianças, adolescentes e adultos têm necessidades e objetivos diferentes, sua constituição física, características hormonais e emocionais são distintas e necessitam de estímulos específicos para que possam desenvolver o potencial que já possuem, que eu deveria respeitar a individualidade biológica e as características pessoais de cada um. Entendi também que poucas pessoas nascem com o perfil e a vontade de ser atleta e desta forma iria limitar muito o meu público. Sendo que se eu ensinasse o taekwondo como forma de exercício físico e educação, meu trabalho seria muito mais abrangente e eu poderia ajudar um número muito maior de pessoas a melhorarem suas vidas. A partir daí nascia o método André Régis Taekwondo Sistem. Um método que alia o conhecimento científico ao conhecimento tradicional da arte marcial.

Conheça os programas de treinamento:

  • Pequenos Ninjas: para crianças a partir de 4 anos, com foco na formação integral do ser humano.
  • Bem-estar: exercícios para adultos com foco na qualidade de vida e bem-estar
  • For Women: exercícios específicos para mulheres. Aulas que procuram respeitar as características físicas e emocionais da mulher.
  • V.I.P.: exercício para alunos com alto grau de exigência, que buscam um treinamento individual e personalizado.
  • Black Belt: treinamento específico para alunos que já possuem ou que tenham o objetivo específico de conquistar a Faixa Preta.

NEI ALBERTO PIES: Que outros conhecimentos buscaste para lograr êxito e sucesso tanto na organização como na gestão de sua academia?

Após alguns anos de trabalho com acertos e também erros, na condução da academia, percebi que precisava aprender mais sobre a gestão do negócio. Assim, fui buscar auxílio no SEBRAE, onde realizei vários cursos sobre a gestão e organização da empresa e obtive também, assessoria empresarial. Pudemos realizar um diagnóstico da empresa (os pontos fortes e fracos) e, a partir disso, realizamos um planejamento.

Mais tarde, quando a academia já estava mais estruturada, consegui buscar assessoria em uma empresa particular, chamada APORT Empresarial. Com eles pude identificar a Visão, Missão e os Valores da minha empresa. Algo que foi fundamental para a remodelação da Academia e a consolidação de um projeto de sucesso.

NEI ALBERTO PIES: Como o Taekwondo é uma arte e uma ferramenta para a prática de uma educação na dimensão integral do ser humano?

O taekwondo é muito mais do que um exercício físico para desenvolver habilidades motoras e características físicas. Ele é uma ferramenta de transformação humana pois nele agregamos o conhecimento milenar oriental e os conceitos atuais da educação.

Trabalhamos a corporeidade do aluno com a educação pelo movimento e não apenas do movimento, por exemplo, quando ensinamos um golpe não estamos pensando apenas em melhorar a amplitude, força, coordenação e a velocidade. Através do ensino desse golpe, trabalhamos a perseverança do aluno, a persistência, a paciência, a determinação, o autocontrole e a postura, dentre outras características do comportamento humano. Assim a simples prática de um golpe, tem uma dimensão muito maior.

Ensinamos a luta esportiva, que tem o contato físico e o confronto, porém, usamos isso para que o aluno tenha uma vivência e possa compreender questões fundamentais como empatia, autocontrole e respeito ao próximo. Pois se um golpe recebido, dói em mim, um golpe desferido, dói no outro também. Nesse sentido a luta que aparentemente é algo agressivo, torna-se um excelente instrumento de educação.

Além disso, usamos todas as situações acontecidas em aula para esclarecer a filosofia da arte marcial e reforçar a importância de uma conduta correta em todos os momentos da vida. O aluno é levado a repensar sua conduta e estabelecer uma ligação do que acontece dentro do tatame, com o que acontece na sua vida cotidiana.

Ouço muitos relatos de alunos, dizendo que em situações de conflito, lembram que precisavam usar o autocontrole. Em outros momentos dizem que nos momentos difíceis da sua vida, lembram do espirito indomável e assim conseguem aplicar a filosofia do taekwondo naquilo que é mais importante: na sua própria vida.

NEI ALBERTO PIES: Educação e Taekwondo são os alicerces da cultura coreana. Na sua visão, quais deveriam ser os alicerces da cultura do Brasil?

O Brasil é um país que se caracteriza pela diversidade de raças. Acredito que essa miscigenação poderá criar uma raça que é a mistura de todos os povos.

Hoje em dia, o que acontece é que talvez essa diversidade faz com que os descendentes de italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc, acabem cultuando o país dos seus descendentes e esqueçam de ter o sentimento nacionalista de amor pelo Brasil.

Por ser um país continental, o Brasil possui climas, costumes e culturas diferentes. Mas acima de tudo isso, uma das características mais fortes do povo brasileiro é a sua dimensão afetiva. O brasileiro é um povo receptivo, alegre, caloroso, que se importa com o ser humano. Isso é algo muito importante e que tem um grande valor.

Penso que deveríamos fazer um resgate das nossas origens e a partir disso construir uma nova cultura moral, onde a diversidade e a dimensão afetiva estejam ligadas a uma conduta correta de vida.

Nesse sentido, acredito que temos muito que aprender com a cultura milenar oriental. Quando pensamos em povos que tem dois ou três mil anos de história, que já passaram por muitas civilizações, períodos de guerra, escassez de alimento e problemas climáticos, e que ao longo desse tempo aprenderam aprimorar seus costumes e o seu modo de vida, podemos pensar que o Brasil ainda é um país muito jovem que deve aprender com exemplos que deram certo em outros lugares.

Estabelecendo um paralelo com a cultura coreana, além do que já foi dito, acredito que deveríamos ter como pilares para o nosso desenvolvimento, a educação com  incentivo financeiro e valorização dos professores como também, a massificação do esporte, que é um instrumento de controle da violência, sociabilização e difusão de valores e de uma postura de vida.

Para finalizar gostaria de destacar uma frase que sintetiza os valores coreanos: “Povo saudável faz uma nação forte!”

NEI ALBERTO PIES:  A quem e porque recomendas a prática do Taekwondo? Tem idade para praticar este sistema de luta com filosofia?

Todos podem praticar taekwondo, segundo a metodologia que eu desenvolvi. Desde crianças, a partir de 4 anos de idade, até pessoas da terceira idade. Basta fazer uma adequação a faixa etária, aos objetivos e a necessidade de cada grupo.

Para crianças é um excelente método de educação. Além de melhorar a saúde e desenvolver-se fisicamente, divertem-se e ao mesmo tempo aprendem a resolver conflitos, conviver harmoniosamente e respeitar regras e normas.

Para os adolescentes é uma possibilidade de realizar exercícios físicos vigorosos e enfrentar aquela adrenalina típica de desafios. Desenvolve a autoconfiança e garra necessárias para essa fase da vida, onde passam por exames pré-vestibulares e desafios da futura vida profissional.

Já, para adultos é indicado como exercício físico que melhora a capacidade aeróbica, anaeróbica e a flexibilidade. Além de ser um excelente meio de controlar o estresse e extravasar a tensão da vida moderna, através de chutes, socos e gritos que fazem o aluno sentir um aumento da vitalidade e sensação de bem-estar.

 Isso tudo muito bem entrelaçado aos valores e a filosofia oriental, trabalhados de forma adequada para o melhor entendimento de cada um. De uma forma geral, o taekwondo ajuda as pessoas a serem mais fortes física e emocionalmente.

NEI ALBERTO PIES: Como percebes e como encaras o reconhecimento de tua academia em nossa cidade?

Minha percepção é a melhor possível. A Academia André Régis Taekwondo se tornou ao longo do tempo uma referência em excelência do ensino da arte marcial.

Quando iniciei meu trabalho tinha ideia de fazer algo muito bem feito e continuar melhorando em todos os aspectos. Eu acreditava que se fizesse isso sempre e de forma constante, iriam reconhecer o meu valor.

Hoje me sinto muito feliz quando as pessoas vêm até a academia pois praticamente todas dizem ter ouvido falar muito bem do nosso trabalho. Também recebo muitos elogios e agradecimentos de alunos e dos pais destes. Percebo o quanto meu trabalho é significativo na vida das pessoas, e isso é extremamente gratificante.

Sinto-me lisonjeado pelos inúmeros convites que recebo para participação em eventos, aulas, palestras… Poder compartilhar com os amigos e até com colegas de profissão minhas experiencias pessoais e profissionais a fim de contribuir para o crescimento deles, me fazem sentir que estou cumprindo a minha missão.

Dedico a minha vida a aprender, treinar e ensinar taekwondo. E a Academia é a síntese de tudo isso. Então perceber que tenho um negócio muito bem-sucedido e que ao mesmo tempo cumpre a missão de melhorar a vida das pessoas, é algo que me deixa extremamente orgulhoso pois para mim isso não é só um negócio, é algo que eu realmente amo.

NEI ALBERTO PIES: Considerações para finalizar entrevista.

Para finalizar essa entrevista, gostaria de destacar algo muito importante que é o enfrentamento do medo.

Lutar é literalmente enfrentar alguém ou algo. Para enfrentar alguém, primeiro, você precisa enfrentar a si mesmo e vencer os seus próprios medos. Adquirir a coragem para encarrar e seguir em frente. Muitas vezes falo: corajoso não é aquele não tem medo, mas sim, aquele que, mesmo com medo, segue em frente. Isso é muito importante nos dias atuais. E o Taekwondo é uma excelente ferramenta para enfrentarmos nossos medos.



Conheça também André Régis em vídeo.

O valor afetivo da relação professor-aluno no aprendizado

Sem o afeto ninguém aprende.
Que amor vocês passam aos seus alunos?


Quando o aluno tem afinidades e afeto pelo seu professor o ensino-aprendizagem tornar-se agradável e é recebido com carinho. O professor que transmite sabedoria através do afeto consegue alfabetizar com mais rapidez e os seus índices de ensino-aprendizagem despertam curiosidades por partes de educadores e pesquisadores do mundo inteiro.

Qual o segredo para alfabetizar criancinhas com dificuldades de aprendizagem? Não há segredo, dizem muitos professores que conheço, há afeto. Pegar na mão da criança e ajudar-lhe a cobrir ou colorir uma letrinha ainda se faz necessário. Tarefas onde o professor e o aluno compartilham experiências emocionais são necessárias.

O afeto que o professor dedica a seus pequenos alunos faz com que eles sintam confiança no que está sendo ensinado, despertem para a curiosidade e a admiração.

O aluno que recebe afeto do professor também passa a conhecer mais as suas emoções e aprende a conviver com indivíduos de pensamentos diferentes sem se preocuparem se são ou não amados. O amor do professor basta-lhe. O aluno vê no professor amado um herói, ele sabe que pode contar-lhe seus mais íntimos segredos, confiar-lhe seu brinquedo mais querido e falar de si sem temer ficar de castigo ou coisa parecida.

A arte de ensinar vem de longe, e desde antigamente os nossos principais educadores nos mostraram que sem o amor pela profissão tudo fica mais difícil, tomemos como exemplo o amor que Pestalozzi tinha pelas suas crianças. Falo do cuidado com a criança que estamos perdendo nos dias atuais.

Muitas pessoas estão indo às salas de aulas sem amarem seus alunos porque quem ama não grita e nem perde a paciência facilmente. Claro é que as crianças numa sala de aula, na maioria das vezes, fazem um barulho tremendo, mas isso não significa que elas mereçam ouvir gritos ou serem puxadas pelos braços para voltarem aos seus lugares.



A aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria? (Ana Manoela Detoni)



É preciso que o professor acima de tudo se ame e tenha conhecimento de si mesmo para que possa amar aquelas crianças que necessitam dos seus cuidados para aprenderem a ler e a escrever.

Todos sabemos que a criança nos seus primeiros dias de aula sente-se sozinha, triste, saudades de casa e dos seus brinquedos, desamparada e chorona, algumas vezes. Tudo o que ela mais deseja é voltar para junto daqueles que lhe querem bem e lhe passam confiança e amor.

Se a criança que chega na escola encontra um professor sorridente, recebe um abraço e ouve palavras de zelo logo se acostumará com a escola, pois sabe que ali tem alguém em quem pode confiar. Quem não chorou no seu primeiro dia de aula?

Os meus primeiros dias de aulas foram horríveis, eu nem entrava na escola, voltava do portão da escola isso por que eu não fui recebida com afeto pela minha professora do jardim de infância. Hoje sinto o vazio que ficou em mim dessa professora que não me ensinou com amor, mas com uma didática de memorização onde ou eu aprendia ou ficava de castigo. Que amor ela me passou? Que amor vocês passam aos seus alunos? Vocês são lembrados pelos seus ex-alunos?

Outro dia, um ex-aluno ligou-me depois de vinte anos para falar de um problema que estava vivendo e não sabia como resolver, pediu-me ajuda por que somente em mim confiava. São coisas assim que nos dizem o quanto ensinar precisa de afeto. Sem o afeto ninguém aprende.

O ensino-aprendizagem com afeto forma cidadãos preparados para uma vida competitiva como a que estamos vivendo nesse momento de relações líquidas, onde amigos são descartáveis e jogos eletrônicos são os passatempos preferidos da infância.

O afeto faz com que a criança perca a ansiedade e aprenda a desenvolver as suas habilidades cognitivas até mesmo nas disciplinas com mais dificuldade.

Se na grade curricular dos cursos de pedagogia tivesse a disciplina de Afeto creio que o nosso ensino-aprendizagem seria de outro jeito e as nossas crianças viveriam muito mais felizes. Querem a todo custo que aprendamos enfiando goela abaixo conhecimentos que não sabemos para que servirão. Esse é o problema do ensino contemporâneo.

É de conhecimento de todos que as crianças têm dificuldades para aprenderem matemática, mas se for ensinada com afeto colocando aqui a paciência, dedicação, carinho, vontade de ensinar, respeito ao educando, essa disciplina passará a ser vista de outra forma, ou seja, as crianças aprenderão a gostar das suas aulas.

Boa parte dos professores de matemática são carrancudos e exibem um ar de superioridade diante dos seus alunos. Não falam de poesia e nem de amor em sala de aula, por quê?

Já pensaram em ensinar uma criança a aprender a tabuada através da música? Ou até mesmo através de uma contação de histórias. As disciplinas devem conversar umas com as outras e a criança precisa de professores que ensinem com afeto para aprenderem com eficiência.

Vocês já perguntaram aos seus alunos qual sonho eles tiveram na noite passada? Ou o quais são seus maiores medos?

Aproxime-se do seu aluno e procure ser um professor-amigo que planeja a sua aula com base na experiência de vida das suas crianças, ou seja, que a sua aula passe os conhecimentos curriculares para um bom ensino-aprendizagem baseada na formação emocional e física dessas crianças.



“Este depoimento é para lembrar a você, querido professor, que sem amor nada conseguimos em sala de aula. Educamos alunos preparados para concursos e o mercado, mas nunca preparados para a vida. O amor em sala de aula é bastante importante”.

Um novo jeito de organizar a vida econômica

Esse modelo de economia linear que desde há muito orienta os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque, de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta.


Desde que a natureza (matriz do sistema-vida) e, em especial, os principais serviços ecossistêmicos foram entregues às forças do mercado capitalista de consumo, passando assim a orientar o dogma maior da economia global, vale dizer, a busca pelo contínuo crescimento do PIB, dois “produtos” emergiram decorrentes desse processo de dominação/espoliação: o desequilíbrio climático (dado o exagerado nível de emissão de gases de efeito estufa, dentre esses, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), o perfluorcarbonetos (PFC’s ) e também o vapor de água) e o esgotamento ecológico (notadamente, a depleção dos recursos naturais e energéticos).


“A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependemos está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Nós estamos erodindo as fundações de nossas economias, meios de vida, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida mundialmente”, afirmou o químico britânico Robert Watson, chefe da IPBES”.
Veja mais aqui.


Dessa ação de domínio sobre o meio ambiente severamente imposta pela política de crescimento econômico sem fim, percebida num mundo ecologicamente limitado, contam-se ainda uma série de outros “subprodutos” que tem ocasionado seríssimas consequências às vidas humana e não humana, condição que potencializa o empobrecimento biológico da Terra. Não por acaso, abundam exemplos: (i) extinção de espécies (segundo o Living Planet Index, o número de animais no planeta diminuiu cerca de 52% desde 1970); (ii) contaminação química do meio ambiente, erosão eólica e hídrica (devido ao emprego maciço de nitrogênio); (iii) poluição do sistema de água (notadamente a ocorrência de eutrofização dos oceanos e a contaminação de nascentes); (iv) poluição do ar (devido ao acúmulo de gases, líquidos e partículas sólidas em suspensão); e, por último, mas longe de esgotar essa lista de sérios problemas, (v) crescente dificuldade de polinização.

Da incidência dos mais preocupantes desajustes ecológico-ambientais, implica dizer que a urgência maior – em termos de desafios a serem superados pela geração de agora, para garantir um futuro promissor à geração futura – passa pela necessidade de uma profunda transformação na lógica da economia global, algo que deve estar combinado a uma sistemática reversão do modus antrópico que marca a atuação da comunidade humana.

Nessa perspectiva, é preciso dizer algo mais: transformar a economia dos homens significa, sem fazer uso de palavras vazias, propor a radical mudança do ritmo frenético de produção e consumo globais e, a partir disso, reconstruir o metabolismo ser humano-natureza, buscando igualmente reconstruir a própria economia de produção.

Inocência analítica à parte, há um claro sentimento de que isso permitiria consolidar, observando de perto a íntima relação Homem-Natureza, uma ligação integrada e sustentável (vide quadrante à direita), superando definitivamente a situação hodierna (quadrante à esquerda), da Figura a seguir.

Relação Homem-Natureza

Dito isso, um esclarecimento se faz oportuno: se é pouco provável – senão uma miraculosa utopia, dirão alguns – promover a reconstrução de toda a estrutura da economia (digo, seu arcabouço axial), é perfeitamente plausível enveredar esforços para, ao menos, reorientar os pressupostos basilares da atividade econômica, partindo para uma etapa de produção econômica de baixo carbono, criando sequencialmente condições para desmaterializar a economia (serviços e processos produtivos), ou seja, reduzir a intensidade energética e de material usada na produção econômica.

Essas condições, é bom que se deixe isso às claras, propiciam, grosso modo e pari passu, que se converta em realidade algumas “utopias” há muito gestadas na sociedade moderna, dentre elas, conciliar ecologia e economia e harmonizar a relação natureza-homem (novamente olhando-se com acurada atenção para o emprego da condição localizada no quadrante à direita da Figura aqui exposta). O motivo? Preservar o meio ambiente/conservar a natureza ao mesmo tempo em que se diminui o ímpeto do crescimento econômico (vetor das emissões de gases estufa), sem, no entanto, renunciar a busca do desenvolvimento econômico, cuja dimensão sempre será o social, identificada no viés qualitativo da economia; diferente assim da dimensão econômica do crescimento, com claro viés quantitativo.

Parece certo afirmar que toda essa questão envolvida na desejável boa parceria entre o ser humano e o meio ambiente acirra os ânimos porque com isso não somente se discute a imprescindível proteção ambiental, mas explicitamente tudo aquilo que está relacionado às condições de vida reservadas aos homens e mulheres no futuro, bem como ao mundo animal.

A breve ideia norteadora aqui discutida, que na prática deve partir obrigatoriamente dos stakeholders, precisa delimitar as condições de vida econômica adaptadas ao tamanho e possibilidades da Terra. Sob essa inspiração, cabe asseverar o seguinte: no centro das propostas que se espera sejam prontamente debatidas visando encontrar um novo jeito de organizar a vida econômica, a economia (tanto a ciência quanto a atividade de produção) tem de ser vista como um sistema parcial inserido num sistema completo (o meio ambiente).

Para o bem maior do desejado equilíbrio ambiental, o sistema de economia linear (extração-produção-consumo-descarte) centrado na fixa ideia do crescimento, do jeito como tem sido praticado até o momento, e por ter “conseguido” transformar o planeta num imenso hipermercado, entulhando-o de mercadorias e bugigangas com o propósito descarado de nos obrigar a consumir freneticamente para assim alcançar o almejado “progresso”, não pode mais permanecer. Até mesmo porque isso está longe, muito longe, por sinal, de ser considerado, de fato, legítimo e verdadeiro “progresso”. Sem delongas, é notório que a Terra não suporta mais duas cotidianas e estapafúrdias situações: a pressão econômica, inclinada à crescente produção industrial; e a pressão humana, inclinada ao sufocante nível de consumo material.

Vale insistir: esse modelo de economia linear que desde há muito orienta os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque, de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta. É esse o ponto nevrálgico. O drama é esse.

Finalizando, cabe observar com certa atenção um argumento-chave. Para experienciarmos a sonhada transformação da economia global, é absolutamente necessário, antecipadamente, que se reconheça um ponto fulcral aqui já mencionado: a economia nada mais é do que um subsistema de um sistema maior chamado “meio ambiente”.

Partindo desse reconhecimento, subleva-se a condição de se respeitar as fronteiras ecológicas, o que implica em não ultrapassar os limites existentes da natureza. Isso ajuda a difundir a noção central de que é a natureza – e somente ela – a responsável por provisionar e sustentar toda a atividade de produção econômica. Logo, enfatize-se, é a natureza, e nada mais, que limita o processo de produção econômico-industrial.

Com relativa facilidade, diga-se a propósito, o que a ciência tem nos mostrado em termos de conhecimento e dados técnicos não deixa dúvidas de que os limites biofísicos do planeta põem em xeque esse destrutivo modelo de crescimento econômico com o qual temos convivido. Daí a urgência de sepultá-lo, implantando um novo jeito de organizar a vida econômica; afinal, sem exageros retóricos, estamos no limiar de um colapso geral.


Três líderes indígenas ameaçados de morte apresentam seus Territórios. O líder high tech, o grande xamã, o visionário. Os 3 encaram a mesma guerra: manter a floresta – e seus povos vivos!
Veja mais aqui.


Autor: Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários” (ed. CRV) prof.marcuseduardo@bol.com.br

Concepções de educação e de ser humano

Escolas e universidades existem para que estudantes aprendam conceitos, teorias; mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos.


Prezados colegas, bom dia! Sejam bem-vindos à UPF. É uma alegria recebê-los em nossa instituição.

Permitam-me, inicialmente, em nome da Universidade de Passo Fundo, agradecer a presença e a disposição de cada um de vocês em buscar conhecimento e investir na educação continuada. Aproveito para agradecer também aos organizadores dessa atividade, citando a Coordenadoria das Licenciaturas da UPF, aqui representada pelos treze cursos de graduação e pelos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado e Doutorado) vinculados às licenciaturas; aos apoiadores desse evento, citando a Secretaria Municipal de Educação e a Coordenadoria Regional de Educação.

Como mencionado no protocolo de abertura, o objetivo do XI Semape e do 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas, realizado neste dia 29 de agosto de 2019, é “discutir questões pertinentes às ações dos professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de educação integral, colocada na Base Nacional Comum Curricular – BNCC”. 


O que queremos, na verdade, é mostrar, não só através desses eventos, mas também da campanha Educar é a Nossa Ação, que a Universidade de Passo Fundo está, desde sua gênese, comprometida com a melhoria da qualidade da educação.

Desse modo, valorizamos os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e ativos na instituição; oferecemos formação inicial de qualidade; somos presentes e parceiros das escolas e das redes de ensino da comunidade e região; fomentamos formação docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder transformador da educação. 


Nesse sentido, o lema da campanha Educar é a nossa ação não é só a manifestação de uma concepção de formação, mas, também, a aposta em uma concepção de educação que acredita no potencial criativo, inovador, transformador da educação e de seus protagonistas.

O foco é a relação professor-estudante, a relação ensino aprendizagem, que deve, a qualquer custo, manter viva a curiosidade, a liberdade e a individualidade.


Permitam-me ilustrar o que digo com uma pequena história, relatada no livro Educação e Justiça Social, de Martha Nussbaum. Nessa obra, Nussbaum cita Tagore, poeta e romancista hindu (Prêmio Nobel da Literatura, em 1910) resumindo, assim, um conto chamado O Treino do Papagaio:

 
Um certo Rajá tinha um pássaro que adorava. Queria educá-lo por que pensava que a ignorância era uma coisa má. Os seus gurus convenceram-no de que o pássaro devia ir à escola. A primeira coisa que teve de ser feita foi a de oferecer ao pássaro uma instalação que estivesse à altura da sua aprendizagem e, assim, foi construída uma magnifica gaiola dourada. Depois ouve necessidade de adquirir bons manuais escolares e os gurus disseram: “Os manuais nunca serão em demasia para atingir o nosso objetivo”. Dias e noites a fio os escribas trabalharam na produção dos requeridos manuscritos. Em seguida, contrataram-se professores que, por terem sido principescamente pagos, puderam comprar belas casas. No dia em que o Rajá visitou a escola, os professores explicaram-lhe o método que utilizavam para educar o papagaio. “O método era de tal modo fantástico que, perante a sua excelência, o papagaio tinha uma aparência ridiculamente insignificante. O Rajá ficou satisfeito por não lhe ter encontrado defeitos. Quanto a qualquer hipótese de reclamação por parte do próprio papagaio, tal era simplesmente impossível: tinha a garganta tão preenchida pelas folhas dos manuais que era incapaz de assoviar ou de cochichar. (2014, p.84).

Como diz Martha Nussbaum, trata-se de uma maravilhosa história e, como tal, dispensa comentários. Entretanto, gostaria de chamar a atenção para a necessidade de, em termos de concepções de educação/formação, superarmos os limites da gaiola dourada, dos bons manuais e dos métodos que desconsideram os sujeitos da ação.

Afinal, as escolas e as universidades existem sim para que estudantes aprendam conceitos, teorias; mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos.

 
Que a lógica e a dinâmica do professor produtor de currículo possam invadir nossas mentes e nossas práticas.

Sobre o evento

Seminário de Atualização Pedagógica ocorreu na UPF nesta quinta-feira (29), provocando os professores da rede pública a serem produtores do currículo

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento que regulamenta quais são as aprendizagens essenciais a serem trabalhadas nas escolas públicas e particulares de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio para garantir o direito à aprendizagem e o desenvolvimento pleno de todos os estudantes. Com o objetivo de promover a troca de experiências e conhecimentos entre a Universidade de Passo Fundo (UPF) e os professores da rede pública de educação, ocorre, nesta quinta-feira (29), o XI Seminário de Atualização Pedagógica (Semape) e o 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas. O tema do evento provoca academia e docentes a pensarem como produtores do currículo.

O Seminário pretende discutir questões pertinentes às ações dos professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de educação integral, colocada na BNCC.

Para o vice-reitor de Graduação, professor Dr. Edison Alencar Casagranda, o que ser quer é mostrar, não apenas por meio desses eventos, mas também da campanha Educar é a Nossa Ação, é que a UPF está, desde sua gênese, comprometida com a melhoria da qualidade da educação. Em sua fala, ele destacou que a Instituição valoriza os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e ativos, e oferece formação inicial de qualidade. “Somos presentes e parceiros das escolas e das redes de ensino da comunidade e região, fomentamos formação docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder transformador da educação”, pontuou.



Fotos: Caroline Simor
Autor: Edison Alencar Casagranda, vice-reitor de graduação UPF

Nem padre, nem religioso: sou professor

A escola pública deve promover o
conhecimento das diferentes religiões,
sem quaisquer formas de proselitismo
e preferência religiosa.


O professor de Ensino Religioso, que trabalha na perspectiva do diálogo e do conhecimento inter-religioso, sempre deve ter mente aberta, compromisso com o conhecimento das diferentes religiões e ousadia para enfrentar o desapego de sua convicção ou crença religiosa.

Todos deveriam reconhecer diferenças entre fé, religião e espiritualidade. Fé sempre é uma questão pessoal, uma forma e uma relação íntima de cada um com o Transcendente. Religião é a experiência coletiva da vivência da fé (não por acaso, nas religiões os seguidores se chamam de irmãos ou irmãs). Já espiritualidade, remete a uma dimensão sempre maior, que pode e deve ser pensada na perspectiva das aulas de ensino religioso. Espiritualidade é Cuidado: consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com o Transcendente.

Recorro a memórias afetivas de estudantes em dois níveis: ensino fundamental séries finais e Ensino Médio. As duas memórias revelam o reconhecimento de práticas em sala de aula.

Um estudante do sexto ano fez uma constatação interessante. Logo após expor para a turma, de forma entusiasmada, o sentido do Ensino Religioso para a formação integral do ser humano e para a construção do sentido da vida, o aluno me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem pensar muito, respondi: “nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra”

“Um estudante do Ensino Médio, depois de umas quinze aulas, resolveu abordar-me. Perguntou se eu era ateu. Resolvi interrogá-lo: – Por que você acha que o professor é ateu? Ele me respondeu: “professor, o senhor faz uma aula de ensino religioso desapegado. Eu tinha uma professora conhecedora de muitas religiões, mas ela não conseguia livrar-se do moralismo. Sempre acabava querendo enquadrar a gente, afirmando como a gente deveria viver”.

O Ensino Religioso, no paradigma inter-religioso, cumpre importante papel na formação integral do ser humano, no reconhecimento das dimensões históricas, psicológicas, sociais, culturais e religiosas de cada ser humano e de todo mundo.

Ao longo destes últimos quinze anos trabalhando com a disciplina do Ensino Religioso, especialista em Metodologia de Ensino Religioso, conheci pessoas, vivi experiências de trocas de conhecimentos, visitei templos religiosos e dialoguei muito sobre o universo religioso. Assumo que sei pouco, quase nada, sobre as tradições religiosas.



O objetivo das visitas de conhecimento é complementar e ampliar os conhecimentos das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e compreensível em livros, vídeos ou na internet.

 Minha maior aprendizagem é que me percebo um melhor cristão. Sou católico, apostólico e romano. Sigo e vivo minha religião, mas o conhecimento das outras religiões em nada afetou minha fé e nem minhas crenças. Muito antes, pelo contrário, vivo minha religião de forma livre e leve, sem a carga dos preconceitos e discriminações.

Uma lembrança aos colegas que, como eu, desafiam-se a orientar os jovens sobre os conhecimentos do Ensino Religioso: não esqueçamos de reconhecer os conhecimentos religiosos que já integram a vida dos estudantes; de integrar os diferentes conceitos, habilidades e atitudes que as outras áreas do conhecimento despertam em nossos adolescentes e jovens. Não esqueçamos de integrar às nossas aulas os diferentes saberes que são gerados na comunidade, nas famílias, nos templos, nas ruas e no cotidiano de todos nós.

O Ensino Religioso, como os demais conhecimentos, não cabem num livro, num caderno ou numa lousa. Cabem mesmo em mentes abertas e corações capazes de se desapegar das paixões, dogmas e fundamentalismos, característicos de seguidores de algumas religiões.

A escola pública é laica, não significa que ela seja atéia! A escola pública pode e deve promover o conhecimento das diferentes religiões, sem quaisquer formas de proselitismo e preferência religiosa.



Numa experiência inédita em nossa cidade, alunos das séries finais de uma Escola Municipal de Passo Fundo, RS, participaram de uma viagem de estudos, deslocando-se por cerca de 330 Km, em meados do mês de junho de 2019, para o município de Três Coroas, para conhecer o Templo do Budismo Tibetano.

​Apac: do crime à reintegração social

Segunda unidade da Associação de Proteção
e Assistência aos Condenados (Apac) no RS
será implantada em Passo Fundo.



“Acolher o preso é proteger a sociedade”. A frase do procurador de Justiça Gilmar Bortolotto, que esteve em Passo Fundo, nesta sexta-feira, 23 de agosto, apresentando o método da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), tem muito sentido num cenário caótico do sistema prisional brasileiro, com casas prisionais superlotadas.

A Apac foi tema de audiência pública realizada no Salão de Atos da Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF), promovida pela Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. 

A cada 100 presos do sistema convencional, 75 voltam a cometer um crime. A lógica é simples, mas o trabalho é um grande desafio: se recuperar esses presos, eles não voltarão a ocupar uma vaga nos estabelecimentos prisionais e, logo, não voltarão a cometer crimes na rua.

“A cada mil presos que passam pelo sistema prisional, quase 72% retornam a ele. Acolher o preso é proteger a sociedade. Temos que fazer trabalho de recuperação para melhorar o sistema. As pessoas que cometem os crimes nas ruas, quase sempre já passaram por casas prisionais. E quem quer ser morto por um egresso do sistema?”, declara Bortolotto.

As informações repassadas pelo procurador de Justiça na audiência pública têm como finalidade fazer com que a sociedade repense o olhar sobre a situação dos apenados. A recuperação deles pode ser uma das soluções para a diminuição da criminalidade.

 “As pessoas se manifestam, especialmente nas redes sociais, sem ter conhecimento do que está acontecendo no sistema prisional. As facções se utilizam do ambiente das casas prisionais para ‘catequisar’ mais gente. Utilizam os presos para mão de obra para o crime. No entanto, além dos presos, muitos familiares, dentre os quais mulheres e crianças, estão em contato com esse ambiente. Cerca de 1 milhão de pessoas circulam nos estabelecimentos penais”, enfatiza o procurador da justiça, que também já foi vítima da violência por pelo menos três vezes, tendo, inclusive, em uma delas, quase perdido a vida. 

As Apacs são associações sem fins lucrativos dedicadas à recuperação e à reintegração social dos condenados. O principal objetivo é promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena, evitando a reincidência no crime e oferecendo alternativas para o condenado se recuperar.



O modelo prisional de Associação de Proteção e Apoio aos Condenados (Apac), como o de Barracão (PR), procura uma alternativa na recuperação do encarcerado. Os próprios presos, chamados de recuperandos, mantém todo o processo de limpeza, cuidados, alimentação, estudo, num modelo que não utiliza policiais, armas ou qualquer tipo de violência. Os apenados recebem ajuda de voluntários em atendimentos psicológicos, religiosos, esportivos e sociais, reduzindo pela metade o custo de um preso, comparado ao sistema tradicional. (Padre Gérson Schmidt)



Por meio desse método, os presos têm direitos e deveres, com rotina diária. Eles têm obrigatoriedade do trabalho e do estudo, bem como regras de disciplina. São responsáveis pela sua alimentação e pela higiene e limpeza do local.

Na Apac, os presos são corresponsáveis por sua recuperação e contam com assistência espiritual, médica, psicológica e jurídica, prestadas pela comunidade. A segurança e a disciplina são feitas com a colaboração dos apenados, tendo como suporte funcionários, voluntários e diretores das entidades.

“Eu posso dar meu testemunho e dizer que essa iniciativa vale muito a pena. Eu lido com esse tema em presídios há 21 anos e vejo reações positivas. A Apac oferece uma oportunidade e o sujeito olha e decide se quer pegar ou não”, declara o procurador de justiça. 

No Brasil, o método Apac surgiu na década de 1970 e, atualmente, 150 unidades são filiadas à Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC). Estão em estados como Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e Maranhão, bem como em outros países. No Rio Grande do Sul, a primeira unidade da Apac foi inaugurada em 2018, em Porto Alegre, e a segunda a ser implantada deverá ser em Passo Fundo. Hoje, há 11 unidades em formação no estado.



Apac de Passo Fundo prevista para 2020

A situação da maior cidade do norte do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, não é diferente da realidade brasileira. Atualmente, são quase 800 apenados no Presídio Regional de Passo Fundo, que tem capacidade para cerca de 300 presos.

A Apac de Passo Fundo já tem diretoria formada, parte dos recursos para implantação em caixa, e, em breve, as obras deverão iniciar na área cedida à entidade. “Na semana passada assinamos, no Ministério Público, o termo de cessão de uso do espaço da antiga Escola Aberta, na BR 285, uma área de cinco hectares. Logo daremos início à limpeza da área e à construção de edificações, bem como à busca por voluntários. O curso de formação deverá ser realizado em novembro, e a inauguração deverá ocorrer em 2020”, revela o presidente da Apac de Passo Fundo e professor da UPF Me. Vinícius Toazza.

Foto da Antiga Escola Aberta. Créditos foto: Matheus Moraes/DM

  
Sobre a audiência

A audiência pública contou com a presença de representantes do Poder Executivo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da OAB, entre outras entidades parceiras da Apac. O presidente da Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, deputado Jeferson Fernandes, conduziu os trabalhos, destacando a representatividade de instituições presentes no evento.

A reitora da UPF, professora Dra. Bernadete Dalmolin, destaca a importância da recuperação dos apenados. “Acreditamos na recuperação e na reintegração dos apenados, desde que haja condições favoráveis no período de cumprimento da pena. Assim, nos unimos à Apac para essa bela iniciativa. É preciso apostar que todas as pessoas têm, dentro de si, potencial para ser melhor”, declara a reitora.

O diretor da Faculdade de Direito, professor Me. Edmar Vianei Marques Daudt, ressalta a importância de a Universidade sediar o evento. “Estamos muito contentes em sediar mais uma audiência pública. A Faculdade de Direito proporciona aos seus acadêmicos uma visão que vai além da sala de aula, o que lhes possibilita um efetivo contato com problemas vividos pela sociedade e, por conseguinte, representa uma formação mais apropriada para contribuir com a resolução desses problemas”, pontua Daudt.

Também participou da solenidade de abertura o presidente da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF) Me. Luiz Fernando Pereira Neto. 



“Responder à violência com mais violência, costuma-se dizer, acaba só aumentando os níveis de violência na sociedade, é necessário romper o ciclo da violência e não pode ficar sustentando ele e dando mais violência”. (Dalmir Franklin de Oliveira Júnior) Veja mais aqui.

Fotos: Natália Fávero
Assessoria de Imprensa
Universidade de Passo Fundo
(54) 3316-8110 | www.upf.br
Passo Fundo – RS

Getúlio Vargas: 65 anos atrás

Getúlio, como ninguém,
aperfeiçoara dois atributos fundamentais
para todo o homem público:
a paciência histórica e o
senso de oportunidade política.

Há 65 anos, em 24 de agosto de 1954,  Getúlio Vargas  suicidou-se, pondo  fim a uma extraordinária  carreira  política  que o transformou  no personagem mais  importante  da história  brasileira do século 20.Seus  biógrafos  revelam que desde muito jovem ele  demonstrou qualidades excepcionais.

Uma reminiscência familiar  dá conta de  certa visita do senador  Pinheiro Machado  a São Borja, quando Getúlio  ainda não passava de um menininho a brincar, no chão, com soldadinhos de osso de boi.

Conta-se que Pinheiro ficara tão impressionado com a curiosidade  e a inteligência precoce do garoto que teria comentado  com o pai de Getúlio, o velho, Manuel Vargas – natural de Passo Fundo: “ Este menino vai longe! Talvez chegue  à presidência da  República”. A cena parece circunscrever-se àqueles casos em que a história é escrita com o propósito de fabular uma suposta predestinação do personagem.

A verdade  é que Getúlio  logo cedo demonstrou  interesse pela  vida política. Como acadêmico de Direito, em Porto Alegre, foi um dos fundadores  do Bloco Acadêmico Castillhista, que pelo nome  explicitava claramente sua matriz ideológica. Em 1909, aos  26 anos, Getúlio  foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano. Sua eleição foi tranquila uma vez que, na época, as  urnas rio-grandenses  jamais reservavam  más  surpresas  aos amigos  do governo. Em 1913 Getúlio foi reeleito.

A  exemplo da vez anterior, com o devido aval de Borges de Medeiros, a eleição foi garantida antes mesmo das mesas receptoras  procederem à  contagem das cédulas eleitorais. Ele foi o candidato mais votado. Entretando, para o espanto de seus pares, decidiu  renunciar à cadeira de deputado, alegando  deslealdades políticas ocorridas dentro do Partido Republicano. Somente  em 1917, Vargas voltou à política  estadual ao ser eleito deputado pelo PRR, ocupando o papel de líder natural entre os colegas de bancada republicana.

O crescimento do prestígio de Getúlio no seio do seu partido, fez com que em 1922 ele fosse indicado para a Câmara Federal e, com a ajuda da máquina  estadual republicana foi confirmado  nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir  um mandato-tampão, uma vez que o titular havia falecido. Assim, Vargas teria um período de pouco mais de um ano na Câmara Federal. No Rio, abriu portas, estabeleceu relações, conquistou interlocutores.

Quando Washington Luis foi eleito para a presidência em 1926, Vargas foi convidado para ocupar o Ministério da Fazenda, o que pareceu irônico, uma vez que, na época, o Rio Grande do Sul estava imerso em grave crise financeira. Entretanto, a imagem de austeridade que o castilhismo-borgismo havia cultivado anos a fio – controlando até mesmo a quantidade de lápis na prestação de contas de cada secretaria de estado – obtivera ressonância para além das fronteiras regionais.

Aqui no estado, o último quinquênio de  Borges de Medeiros estava chegando ao fim, como previra o acordo de Pedras Altas,que fora celebrado no final da Revolução de  1923. Getúlio, de imediato, surgiu como nome mais indicado para o governo gaúcho. Borges, depois de alguma relutância, assentiu. No papel de candidato único, Getúlio nem precisou fazer campanha para se eleger, em novembro de  1927, o novo presidente gaúcho.

Adotando uma política de conciliação, Getúlio passou a construir as bases para uma grande aliança  estadual, algo decisivo  para  as pretensões  de uma candidatura rio-grandense a presidência da República. A conciliação foi facilitada quando reunidas sob uma nova legenda – Partido Libertador – e lideradas por Assis Brasil, as oposições gaúchas decidiram oficializar a trégua em relação ao governo estadual, o que abriu caminho para uma gradativa reconciliação entre as oligarquias regionais no Rio Grande.

Ao final do governo de  W. Luiz, mineiros e paulistas, não chegaram a um acordo quanto ao candidato à sucessão do presidente que deixava o poder.

Vargas apareceu como uma alternativa, lançado à presidência pela Aliança  Liberal, formada por Minas, Paraíba  e o Rio Grande, para enfrentar Júlio Prestes, candidato de São Paulo. De São Borja Getúlio acompanhou com a conveniente distância a crônica sangrenta que marcou o último mês de campanha. Como era esperado, a candidatura oficial venceu em todas as unidades da federação, com exceção dos três estados que compuseram a Aliança.

Entretanto, a vitória nas urnas não representou a ascensão de Júlio Prestes ao poder. Uma revolução, iniciada em outubro de 1930, levou Vargas ao Catete, para governar o país por 15 anos e iniciar um grande processo de modernização. Para tanto usou de toda a sua habilidade política e, não teve dúvidas, em enveredar até mesmo para uma ditadura. Em 1945, foi obrigado a se retirar para a sua região natal pelos mesmos militares que haviam apoiado o seu projeto nacionalista de poder.

Ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restaram as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos. Mas isto seria por pouco tempo. Em 1951 ele estaria de volta, “nos braços do povo”.

Getúlio, como ninguém, aperfeiçoara dois atributos fundamentais  para todo o homem público: a paciência histórica e o senso de oportunidade política. Há  65 anos,acossado por uma grave crise , fez  aquilo que  em muitos momentos de sua jornada política, disse que faria: cometeu o suicídio e, assim, transformou-se  em um verdadeiro mito.

Um sonho para viver, um amor para cuidar

Aprendo que o maior defeito é o auto-engano,
o desespero diante de si mesmo.

No meu silêncio residem todas as possibilidades: verdades nunca ditas, lágrimas guardadas e sorrisos que aguardam os dias e os motivos certos. Aqui, nem sempre tudo é alegria, também não é só saudade ou melancolia.

Já foi. Hoje busco me reconstruir limpando os medos e os demônios que alimentei.

Aqui e ali há de se ter um sonho para viver, um motivo para rir e um amor para cuidar, de preferência, em primeiro lugar, o amor próprio.

Não é que eu não tenha medo, angústia ou viva em fantasias incoerentes com o que é real. Trata-se, bem mais, de coerência, de aceitar o que é e tentar o que pode ser e me faz bem. “- Permita-se!”; ecoa no meu silêncio inquieto o grito da vontade e potência.

E assim, ouvindo-me em meu silêncio, reaprendo a falar e a ser. Aprendo a escolher o que deve ser dito, feito, silenciado ou desfeito. Aprendo que o maior defeito é o auto-engano, o desespero diante de si mesmo.

Aprendo que não sou um super-homem, mas que também não sou o vilão. Aprendo que não é uma guerra, é apenas a vida se entregando entre silêncios e ruídos, entre o que posso ou não.

Outras anotações da vida em marcha

Com muitas oportunidades fluidas, arcabouços da imaginação, deslizava olhares entre a multidão. Os seres, perfilados em aguardo contínuo, identificavam-se pela diferença.

Nativos, estrangeiros, estranhos e indefinidos, buscam na arte um abrigo para o espírito intangível de si mesmos. As diferentes matizes epidérmicas, as estaturas variadas, os olhos em diversos ângulos terminados, as vestes multicores, os “pseudomono” sempre poliamores, os veículos em ruídos desafinados e os transeuntes móveis, tudo e todos, parados.

Teria a arte, em traços, estagnado o aparente movimento ou tudo flui em mudança perpétua? Não sabia dizer.

O olhar, detido em esguio corpo da qualidade do de Vênus, lia nos lábios o que é uno entre o múltiplo, o que é real entre o imaginário, o que é estanque entre o móbil, o que é sabido entre o ignóbil.

A fila seguiu marcha e, outra vez, mais uma oportunidade foi perdida ou ganha porque sempre haverá algo mais oportuno para justificar a decisão.

De quem aceitar críticas

A coisa mais difícil do mundo é
conhecermo-nos a nós mesmos e o
mais fácil é falar mal dos outros”
(Tales de Mileto)

Ao acessar o Facebook deparei-me com um destes pensamentos que faz a gente reagir rápido e impulsivamente. Sem pensar, compartilhei frase que diz: “não aceite críticas de quem não conhece suas lutas”.

Desde então, fiquei preocupado com o impacto que esta suposta verdade pudesse provocar em mim e nos outros. Por conta disso, proponho esta reflexão.

Minha história, como as histórias de tantos outros lutadores e lutadoras, é permanentemente perseguida, difamada e mal interpretada. Quem se coloca na defesa dos mais pobres e excluídos desta terra sabe o preço que paga por suas posturas e convicções.

Parece verdadeiro que só pode criticar quem conhece as minhas lutas. Que quem não conhece as lutas da gente não tem mesmo como nos criticar. Que as críticas aceitáveis podem partir somente de quem faz parte de nossos círculos, grupos ou lutas.

Após um período de ponderação, dei conta que nem todos aqueles com os quais me relaciono conhecem a minha história. Pensei que, talvez, aqueles que não conhecem minhas lutas seriam capazes de uma crítica que me ajudasse a crescer ou reavaliar minhas convicções ou posicionamentos. Pensei e concluí que a crítica pode ser importante, dependendo da intencionalidade de quem a comunica e da interpretação de quem a recebe.

Não é fácil aceitar críticas, venham elas de quem vierem. Vivemos numa sociedade avessa aos verdadeiros elogios, onde as críticas são poderosas ferramentas que usamos para destruir a reputação ou a história dos outros, sem escrúpulos. Por isso mesmo, temos dificuldades para entender a perspectiva construtiva de uma crítica.

As críticas, no entanto, quando dirigidas com a intenção de ajudar e melhorar a vida da gente, podem ser importantes para nos compreendermos sujeitos aprendentes, inacabados e incompletos.

Dos que nos são próximos, esperamos mais “bajulação” do que críticas. Dos estranhos, temos pouca ou quase nenhuma disposição de ouvir qualquer crítica ou opinião. Conclusão: não temos a cultura de ajudar e colaborar com os outros, oferecendo-lhes sinceras ponderações e pensamentos.

Não somos ensinados a ouvir o que os outros nos dizem.  Preferimos, então, viver sem a pressão e o incômodo de nos avaliar. Preferimos pensar que não precisamos mudar a partir dos outros. No máximo, mudamos com as aprendizagens duras da vida.

As críticas construtivas são aquelas que ajudam a crescer. Aperfeiçoar-se e humanizar-se são desafios humanos grandes e permanentes.

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