Não é possível que todos saibam muito sobre tudo e não podemos nos guiar apenas pelo senso comum, para isso existem os especialistas, que dominam determinados assuntos.
Em uma matéria de 2017 na revista
Foreign Affairs, o professor americano Tom Nichols fala sobre o fenômeno social
da percepção da ignorância como uma virtude. Ele é autor do livro “A Morte da
Competência”, sobre esse tema.
Referindo-se à sociedade americana,
ele entende que atualmente há uma desconfiança com relação aos especialistas
(experts), e uma desvalorização do conhecimento acadêmico e científico. Os
leigos tenderiam a considerar a sua opinião e o senso-comum como base suficiente
para julgar questões complexas e para questionar os especialistas.
Lendo essa matéria, com algum
atraso, tive a impressão de que esse fenômeno também ocorre no Brasil. Parece
haver um crescente desprezo pelos intelectuais, cientistas e especialistas, e
um questionamento permanente dos fatos comprovados pela ciência.
Desde a relativização de dados e estudos sobre meio ambiente e saúde
pública, até a contestação absurda de descobertas científicas, a postura da
sociedade tende a enaltecer o senso comum e equiparar opinião pessoal a
conhecimento acadêmico e científico.
O autor cita muitos fatores que
contribuem para esse comportamento, entre eles os vieses cognitivos, o medo que
faz com que as pessoas rejeitem aquilo que não conseguem compreender, e também o
ambiente da internet e redes sociais, onde proliferam opiniões e dados falsos
misturados a fatos comprovados, favorecendo a confusão.
Há um alerta importante no artigo
sobre o risco desse comportamento para a democracia e para o futuro da
sociedade. O conhecimento acumulado durante séculos foi o que permitiu que a
humanidade evoluísse, e siga evoluindo.
Embora o questionamento seja
importante, numa organização social complexa como a nossa, não é possível que
todos saibam muito sobre tudo e não podemos nos guiar apenas pelo senso comum, para
isso existem os especialistas, que dominam determinados assuntos. Precisamos
confiar neles e na ciência, e aceitar a nossa ignorância em certas áreas.
Aceitá-la sem enaltece-la.
“Um professor quer ser alguém que ajude a formar opiniões sólidas, não meramente a achologia. Isso exige de mim uma formação continuada que me encanta e me agrada, me coloca o tempo todo no risco de ser alguém em quem as pessoas prestam muita atenção. Isso exige afastar o risco da superficialidade sem deixar de ser simples”. (Mário Sérgio Cortella)
André Régis, desde muito novo, manifestou interesse nas artes marciais, nos desafios das lutas e no conhecimento da cultura oriental como um todo. Ensinado e acompanhado por mestres na arte marcial do Taekwondo, percorreu e morou em cidades do Brasil, participou de competições fora do país e de treinamentos na Coréia do Sul.
André
fez também a Faculdade de Educação Física, onde aprendeu a conciliar a
aprendizagem que obteve como atleta, nas competições, com o conhecimento do
corpo humano e suas potencialidades físicas.
Estas
experiências únicas, de um jovem de nossa cidade Passo Fundo, que conheceu o
mundo em busca de sabedoria e conhecimentos do mundo oriental, permitiram a ele
construir um método de ensino que alia a arte marcial do Taekwondo ao
conhecimento da educação física, tendo em vista colaborar para a formação do
ser humano na sua integralidade.
Sua
academia, apresentada por uma bela logomarca e um interessante portfólio,
apresenta “a filosofia do Taekwondo baseada em cinco princípios fundamentais:
cortesia, integridade, perseverança, autocontrole e o desenvolvimento de um
espírito indomável. Através da mesma, procuramos atingir o nosso objetivo
final: construir um mundo melhor e mais pacífico, tornando-nos campeões da
justiça e da liberdade”.
Conheçamos
André Régis por ele mesmo, em entrevista que concedeu ao site, organizada em 3
momentos: história e vida pessoal, vida de atleta e mestre; estruturação da
Academia e sua compreensão do Taekwondo para uma formação humana integral.
NEI ALBERTO PIES: Conte-nos um pouco de sua
história de vida pessoal envolvendo, desde novo, sua vontade de conhecer as
lutas e as artes marciais, como também a filosofia oriental.
Desde pequeno eu gostava
de filmes de artes marciais e então, através de um convite da minha irmã,
comecei a treinar Taekwondo. Nunca mais parei.
Como eu
morava em um lugar bastante violento e perigoso, o taekwondo foi uma
oportunidade que me ajudou a encontrar uma forma de enfrentar o medo e
canalizar essa energia em algo positivo. Assim aprendi valores que iam formar a
minha conduta moral e mudar a minha vida dali em diante.
Ainda criança, também,
gostava muito de saber sobre o poder da mente e sempre que possível, lia algo
sobre o assunto ou fazia cursos relacionados a isso. Comecei fazer
mentalizações positivas de autoafirmação e que as coisas dariam certo. Mais
tarde vim a descobrir que a filosofia oriental está totalmente ligada a isso.
NEI ALBERTO PIES: Passastes por Rio Grande, Porto
Alegre, Florianópolis e Blumenau/SC, morando em Academias de Artes Marciais e
convivendo com consagrados mestres. Qual é a importância desta experiência na
formação pessoal e como Mestre de Taekwondo?
O Taekwondo foi tão
significativo para mim que adotei isso como objetivo maior da minha vida. Fui
atrás do meu sonho de ser atleta.
Como tive muito destaque
em competições esportivas, fui convidado a morar nestes outros lugares, sempre
vivendo como atleta e desenvolvendo minhas habilidades como lutador.
Passei por várias
dificuldades neste percurso. Desde dormir em academia, mal alocado, ter dificuldades
para me alimentar… Eu era um jovem que tinha um sonho, porém, fui ludibriado
por pessoas que estavam ali para me ajudar (muitos atletas passam por isso).
Mas essas experiencias me serviram de base para uma evolução ainda maior,
pessoal e profissional também.
Minha
dedicação exclusiva e integral ao taekwondo me fez um excelente atleta marcial
e essas experiências me fizeram um Mestre melhor, mais humano, pois aprendi
inclusive como NÃO SER com as pessoas.
NEI ALBERTO PIES: Fizeste passagem pela Seleção
Brasileira de Taekwondo. Que aprendizagens carregas desta experiência?
Após anos sem competir,
cursando a faculdade de Educação Física, resolvi colocar em prática os conhecimentos
científicos do treinamento esportivo e assim, fui representar a UPF no
Campeonato Brasileiro Universitário, em Salvador/ BA. Lutei com o atleta Marcio
Wenceslau. O Marcio era um atleta modelo, ia representar o Brasil nas
olimpíadas. Foi uma luta muito acirrada
então, o técnico da seleção brasileira, naquela época, Carlos Negrão
convidou-me a treinar com seus atletas, no centro de treinamento em São Paulo.
Passei um tempo treinando
com atletas de excelente nível técnico, aprendi muito como lutador. Porém,
optei por seguir o caminho do taekwondo como arte marcial, para a formação de
pessoas melhores. Voltei para Passo Fundo e segui com minha academia. Desta experiência,
carrego a felicidade pelo reconhecimento do técnico. Me senti lisonjeado,
especial e muito orgulhoso pelo convite.
Como passei a maior parte
da minha vida treinando, boa parte dos aprendizados que eu tenho vieram mesmo
das competições. A competição é um momento extremamente rico para a formação do
atleta e do ser humano.
Para
entrar em uma quadra e enfrentar alguém que vai te dar chutes e socos, você
precisa desenvolver muitas habilidades, dentre elas pode-se destacar:
a coragem (vencer o teu medo e conseguir
reagir em uma situação adversa);
a humildade (aprendemos que fazer reverência
não é um simples gesto, pois muitas vezes quando você começa a vencer nas
competições você se torna arrogante e algumas vezes acaba perdendo para
adversários inferiores);
o autocontrole (manter o seu controle e
equilíbrio emocional, reagir somente dentro das regras e normas, respeitando os
árbitros e o adversário);
a concentração (manter um estado de atenção
plena. Observar atentamente o adversário, o juiz, o treinador ou técnico, a
área de luta e não ser influenciado pela torcida) e
o espírito indomável (é o que um lutador tem
que ter acima de tudo. Ele não pode desistir nos momentos difíceis. Mesmo
quando está cansado ou não está indo bem na luta, deve seguir em frente
mantendo seu espírito aguerrido e superar as dificuldades que se apresentam, sempre
em direção ao objetivo).
Todos esses ensinamentos
servem para a competição, mas também, para nossa vida cotidiana.
NEI ALBERTO PIES: Conheceste e te tornaste um
seguidor da filosofia Seicho-No-Ie. Qual foi o conhecimento que agregaste desta
filosofia para compreender o mundo e os fundamentos da cultura oriental?
Aqui no ocidente,
geralmente, se ensina luta com uma visão estereotipada (visão ocidentalizada),
que se resume aos movimentos físicos/externos (luta e defesa pessoal),
esquecendo da parte essencial que é a filosofia.
Tive a oportunidade de
visitar a Coréia do Sul algumas vezes e presenciei na prática que lá se ensina
a arte marcial com uma visão global, levando em conta os aspectos físicos,
educacionais, sociais, afetivos e espirituais. Por isso a conduta deles é
extremamente cortês e respeitosa em todos os momentos.
Eu, particularmente
acredito que o ensinamento da Seicho-No-Ie é a filosofia da arte marcial que
geralmente é esquecida de ser ensinada no ocidente. Por isso agreguei esse ensinamento
ao meu trabalho, tendo em vista que a Seicho-No-Ie, falando de uma forma
simples é um ensinamento de amor que acredita que Deus vive dentro de todas as
pessoas, e, por isso, elas possuem bondade dentro de si.
Um exemplo prático disso
é quando um pai ou uma mãe leva seu filho até a academia dizendo que seu filho
tem déficit de atenção, hiperatividade, ou quando um adolescente ou adulto vem
através de indicação de psicólogo/psiquiatra com transtornos de humor,
dificuldade para lidar com suas raivas e emoções, alto nível de estresse… consigo
prestar atenção e observar pelo ponto de vista científico porém, ao mesmo tempo
eu nego esses aspectos e acredito firmemente que estes possuem uma Imagem
Verdadeira que é perfeita e maravilhosa.
A partir do conhecimento
que fui adquirindo na Seicho-No-Ie, fui mudando a minha vida e a visão que eu
tinha do mundo e por perceber que essa filosofia funcionou na minha vida
prática, não tive como não agregar isso ao meu trabalho, algo que eu realmente
amo e acredito.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a diferença entre briga,
luta e arte marcial?
A maioria das pessoas
desconhece a diferença e acredita que é tudo a mesma coisa. Mas não é bem
assim. Constantemente sou convidado a ministrar aulas e palestras em escolas,
faculdades e universidades para falar sobre isso. Então vamos lá!
Falando de um jeito
simples, a Briga acontece entre uma ou mais pessoas, pode envolver objetos como
pedras, paus, facas e inclusive arma de fogo. Geralmente tem como motivação a
vingança. Pode machucar os envolvidos gravemente ou mesmo, levar a morte.
Lutas são disputas que
acontecem sem uso de armas de fogo, em um espaço e local determinado, devem
respeitar as regras da competição e a integridade física do adversário;
Já, a Arte Marcial que
também é um sistema de combate aprimorado onde um adversário deve sobrepujar o
outro com técnicas de torção, imobilização, chutes e socos, semelhante ao da
luta, tem características extremamente relevantes que a diferenciam: a
filosofia, a religião e a conduta.
Por exemplo: Você pode
ensinar Taekwondo, Karatê, Judô, etc, que são artes marciais sem ensinar a
filosofia, porém, assim você estará ensinando uma luta, e não uma arte marcial.
Algumas lutas como o Boxe, Muay Thai e o MMA, tem como finalidade o
desenvolvimento do golpe, a velocidade e potência dos chutes e socos, sendo
assim, consideradas somente um esporte de combate.
É
importante que se dissemine aqui no ocidente a arte marcial que mantenha a sua
ideia original, de expressão cultural e busca pela evolução do ser humano. Sabe-se
que os conhecimentos milenares da cultura oriental relacionados a saúde, alimentação
e ao estilo de vida são extremamente necessários para vivermos mais e, porque
não, melhor!?
NEI ALBERTO PIES: O que significa ser Mestre?
Mestre, em coreano, é
SABONIM que significa “um exemplo”. Um Mestre é uma pessoa que tem posição de
muito respeito e que deve procurar, literalmente, fazer jus a palavra, em tudo
que faz, para que através da sua própria vida, possa ensinar o caminho correto.
NEI ALBERTO PIES: De volta ao
Passinho, como carinhosamente muitos chamam Passo Fundo, sobreviveste
trabalhando em academias de musculação como professor. Quando, como e porque
surgiu a vontade de fazer a tua academia?
Eu estava morando em
Porto Alegre e treinando com um renomado mestre, aliás, um dos responsáveis por
introduzir o taekwondo no Brasil, o Grão Mestre Te Bo Lee. Nessa época eu já
conhecia a Seicho-No-Ie e participei de uma palestra que falava sobre a
formação do destino. A partir disso decidi retornar à minha cidade natal e
recomeçar a minha vida aqui.
Comecei ministrando aulas
em algumas academias e fui percebendo que os alunos gostavam muito das minhas
aulas. No decorrer do tempo recebi um convite para montar uma sociedade em uma
academia de arte marcial. Mais tarde dividimos a sociedade e compramos uma
academia de musculação também. Nesse processo todo percebi que tinha capacidade
para conduzir meu próprio negócio, da forma que eu entendia ser mais adequado.
E surgiu assim a Academia André Régis Taekwondo.
Como já existiam várias
academias, com diversos focos e objetivos, algumas inclusive, nem tão bem
vistas, quis dar destaque para meu diferencial e desejava que as pessoas
soubessem que era eu quem estava ali, cuidando de tudo. Então optei por colocar
meu próprio nome, iniciando assim um novo momento da minha vida.
NEI ALBERTO PIES: Pode nos explicar o símbolo
(logomarca) e a concepção de trabalho de tua academia que já existe há 16 anos?
Através de rabiscos,
criei uma primeira ideia do que eu queria para a logomarca. E até usei esta,
impressa em algumas camisetas e materiais. Mais tarde, percebendo a necessidade
de evoluir, busquei auxilio em uma agência de publicidade. Geralmente quando
existe uma logomarca de artes marciais logo se vê um dragão, um tigre, uma
caveira ou um punho… coisas que fazem alusão a violência. E não era isso que
eu queria transmitir. Nessa época eu já cursava Educação Física e meu desejo
era passar um conceito de movimento, leveza, educação e valorização da vida.
Por isso pode-se ver na minha logomarca essa ideia. Daí também surgiu de forma
muito natural o nosso slogan “Valorizando a vida”.
NEI ALBERTO PIES: Como fundiste os conhecimentos da
arte marcial com os conhecimentos da educação física e do desenvolvimento do
corpo humano?
A Faculdade de Educação
Física foi fundamental para mim e para o meu sucesso pois eu já tinha sido
atleta e era professor de taekwondo já a muitos anos. Trazia comigo o conhecimento
empírico, transmitido pelos meus professores e mestres, da forma rígida e
tradicional. Também acreditava que todo aluno era um atleta.
Através da faculdade
percebi que precisava rever meus conceitos, adotar mudanças na forma de executar
meu trabalho. Entendi, por exemplo, que crianças, adolescentes e adultos têm
necessidades e objetivos diferentes, sua constituição física, características
hormonais e emocionais são distintas e necessitam de estímulos específicos para
que possam desenvolver o potencial que já possuem, que eu deveria respeitar a
individualidade biológica e as características pessoais de cada um. Entendi
também que poucas pessoas nascem com o perfil e a vontade de ser atleta e desta
forma iria limitar muito o meu público. Sendo que se eu ensinasse o taekwondo
como forma de exercício físico e educação, meu trabalho seria muito mais
abrangente e eu poderia ajudar um número muito maior de pessoas a melhorarem
suas vidas. A partir daí nascia o método André Régis Taekwondo Sistem. Um
método que alia o conhecimento científico ao conhecimento tradicional da arte
marcial.
Conheça os programas de treinamento:
Pequenos Ninjas:
para crianças a partir de 4 anos, com foco na formação integral do ser humano.
Bem-estar:
exercícios para adultos com foco na qualidade de vida e bem-estar
For Women:
exercícios específicos para mulheres. Aulas que procuram respeitar as
características físicas e emocionais da mulher.
V.I.P.: exercício
para alunos com alto grau de exigência, que buscam um treinamento individual e
personalizado.
Black Belt:
treinamento específico para alunos que já possuem ou que tenham o objetivo
específico de conquistar a Faixa Preta.
NEI ALBERTO PIES: Que outros conhecimentos buscaste
para lograr êxito e sucesso tanto na organização como na gestão de sua
academia?
Após alguns anos de
trabalho com acertos e também erros, na condução da academia, percebi que
precisava aprender mais sobre a gestão do negócio. Assim, fui buscar auxílio no
SEBRAE, onde realizei vários cursos sobre a gestão e organização da empresa e
obtive também, assessoria empresarial. Pudemos realizar um diagnóstico da
empresa (os pontos fortes e fracos) e, a partir disso, realizamos um
planejamento.
Mais tarde, quando a
academia já estava mais estruturada, consegui buscar assessoria em uma empresa
particular, chamada APORT Empresarial. Com eles pude identificar a Visão,
Missão e os Valores da minha empresa. Algo que foi fundamental para a
remodelação da Academia e a consolidação de um projeto de sucesso.
NEI ALBERTO PIES: Como o Taekwondo é uma arte e uma
ferramenta para a prática de uma educação na dimensão integral do ser humano?
O taekwondo é muito mais
do que um exercício físico para desenvolver habilidades motoras e
características físicas. Ele é uma ferramenta de transformação humana pois nele
agregamos o conhecimento milenar oriental e os conceitos atuais da educação.
Trabalhamos a
corporeidade do aluno com a educação pelo movimento e não apenas do
movimento, por exemplo, quando ensinamos um golpe não estamos pensando apenas
em melhorar a amplitude, força, coordenação e a velocidade. Através do ensino
desse golpe, trabalhamos a perseverança do aluno, a persistência, a paciência,
a determinação, o autocontrole e a postura, dentre outras características do
comportamento humano. Assim a simples prática de um golpe, tem uma dimensão
muito maior.
Ensinamos a luta
esportiva, que tem o contato físico e o confronto, porém, usamos isso para que
o aluno tenha uma vivência e possa compreender questões fundamentais como
empatia, autocontrole e respeito ao próximo. Pois se um golpe recebido, dói em
mim, um golpe desferido, dói no outro também. Nesse sentido a luta que
aparentemente é algo agressivo, torna-se um excelente instrumento de educação.
Além disso, usamos todas
as situações acontecidas em aula para esclarecer a filosofia da arte marcial e
reforçar a importância de uma conduta correta em todos os momentos da vida. O
aluno é levado a repensar sua conduta e estabelecer uma ligação do que acontece
dentro do tatame, com o que acontece na sua vida cotidiana.
Ouço muitos relatos de
alunos, dizendo que em situações de conflito, lembram que precisavam usar o
autocontrole. Em outros momentos dizem que nos momentos difíceis da sua vida,
lembram do espirito indomável e assim conseguem aplicar a filosofia do
taekwondo naquilo que é mais importante: na sua própria vida.
NEI ALBERTO PIES: Educação e Taekwondo são os
alicerces da cultura coreana. Na sua visão, quais deveriam ser os alicerces da
cultura do Brasil?
O Brasil é um país que se
caracteriza pela diversidade de raças. Acredito que essa miscigenação poderá
criar uma raça que é a mistura de todos os povos.
Hoje em dia, o que
acontece é que talvez essa diversidade faz com que os descendentes de
italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc, acabem cultuando o país dos seus
descendentes e esqueçam de ter o sentimento nacionalista de amor pelo Brasil.
Por ser um país
continental, o Brasil possui climas, costumes e culturas diferentes. Mas acima
de tudo isso, uma das características mais fortes do povo brasileiro é a sua
dimensão afetiva. O brasileiro é um povo receptivo, alegre, caloroso, que se
importa com o ser humano. Isso é algo muito importante e que tem um grande
valor.
Penso que deveríamos fazer um resgate das nossas
origens e a partir disso construir uma nova cultura moral, onde a diversidade e
a dimensão afetiva estejam ligadas a uma conduta correta de vida.
Nesse sentido, acredito
que temos muito que aprender com a cultura milenar oriental. Quando pensamos em
povos que tem dois ou três mil anos de história, que já passaram por muitas
civilizações, períodos de guerra, escassez de alimento e problemas climáticos,
e que ao longo desse tempo aprenderam aprimorar seus costumes e o seu modo de
vida, podemos pensar que o Brasil ainda é um país muito jovem que deve aprender
com exemplos que deram certo em outros lugares.
Estabelecendo um paralelo
com a cultura coreana, além do que já foi dito, acredito que deveríamos ter
como pilares para o nosso desenvolvimento, a educação com incentivo financeiro e valorização dos
professores como também, a massificação do esporte, que é um instrumento de
controle da violência, sociabilização e difusão de valores e de uma postura de
vida.
Para finalizar gostaria
de destacar uma frase que sintetiza os valores coreanos: “Povo saudável faz uma
nação forte!”
NEI ALBERTO PIES:
A quem e porque recomendas a prática do Taekwondo? Tem idade para
praticar este sistema de luta com filosofia?
Todos podem praticar
taekwondo, segundo a metodologia que eu desenvolvi. Desde crianças, a partir de
4 anos de idade, até pessoas da terceira idade. Basta fazer uma adequação a
faixa etária, aos objetivos e a necessidade de cada grupo.
Para crianças é um
excelente método de educação. Além de melhorar a saúde e desenvolver-se
fisicamente, divertem-se e ao mesmo tempo aprendem a resolver conflitos,
conviver harmoniosamente e respeitar regras e normas.
Para os adolescentes é
uma possibilidade de realizar exercícios físicos vigorosos e enfrentar aquela
adrenalina típica de desafios. Desenvolve a autoconfiança e garra necessárias
para essa fase da vida, onde passam por exames pré-vestibulares e desafios da
futura vida profissional.
Já, para adultos é
indicado como exercício físico que melhora a capacidade aeróbica, anaeróbica e
a flexibilidade. Além de ser um excelente meio de controlar o estresse e
extravasar a tensão da vida moderna, através de chutes, socos e gritos que
fazem o aluno sentir um aumento da vitalidade e sensação de bem-estar.
Isso tudo muito bem entrelaçado aos valores e
a filosofia oriental, trabalhados de forma adequada para o melhor entendimento
de cada um. De uma forma geral, o taekwondo ajuda as pessoas a serem mais
fortes física e emocionalmente.
NEI ALBERTO PIES: Como percebes e como encaras o
reconhecimento de tua academia em nossa cidade?
Minha percepção é a
melhor possível. A Academia André Régis Taekwondo se tornou ao longo do tempo
uma referência em excelência do ensino da arte marcial.
Quando iniciei meu
trabalho tinha ideia de fazer algo muito bem feito e continuar melhorando em
todos os aspectos. Eu acreditava que se fizesse isso sempre e de forma
constante, iriam reconhecer o meu valor.
Hoje me sinto muito feliz
quando as pessoas vêm até a academia pois praticamente todas dizem ter ouvido
falar muito bem do nosso trabalho. Também recebo muitos elogios e
agradecimentos de alunos e dos pais destes. Percebo o quanto meu trabalho é
significativo na vida das pessoas, e isso é extremamente gratificante.
Sinto-me lisonjeado pelos
inúmeros convites que recebo para participação em eventos, aulas, palestras…
Poder compartilhar com os amigos e até com colegas de profissão minhas
experiencias pessoais e profissionais a fim de contribuir para o crescimento
deles, me fazem sentir que estou cumprindo a minha missão.
Dedico a minha vida a aprender,
treinar e ensinar taekwondo. E a Academia é a síntese de tudo isso. Então
perceber que tenho um negócio muito bem-sucedido e que ao mesmo tempo cumpre a
missão de melhorar a vida das pessoas, é algo que me deixa extremamente
orgulhoso pois para mim isso não é só um negócio, é algo que eu realmente amo.
NEI ALBERTO PIES: Considerações para finalizar
entrevista.
Para finalizar essa
entrevista, gostaria de destacar algo muito importante que é o enfrentamento do
medo.
Lutar é literalmente
enfrentar alguém ou algo. Para enfrentar alguém, primeiro, você precisa
enfrentar a si mesmo e vencer os seus próprios medos. Adquirir a coragem para
encarrar e seguir em frente. Muitas vezes falo: corajoso não é aquele não tem
medo, mas sim, aquele que, mesmo com medo, segue em frente. Isso é muito
importante nos dias atuais. E o Taekwondo é uma excelente ferramenta para
enfrentarmos nossos medos.
Sem o afeto ninguém aprende. Que amor vocês passam aos seus alunos?
Quando o aluno tem afinidades e afeto pelo seu professor o
ensino-aprendizagem tornar-se agradável e é recebido com carinho. O professor
que transmite sabedoria através do afeto consegue alfabetizar com mais rapidez
e os seus índices de ensino-aprendizagem despertam curiosidades por partes de
educadores e pesquisadores do mundo inteiro.
Qual o segredo para alfabetizar criancinhas com dificuldades
de aprendizagem? Não há segredo, dizem muitos professores que conheço, há
afeto. Pegar na mão da criança e ajudar-lhe a cobrir ou colorir uma letrinha
ainda se faz necessário. Tarefas onde o professor e o aluno compartilham
experiências emocionais são necessárias.
O afeto que o professor
dedica a seus pequenos alunos faz com que eles sintam confiança no que está sendo
ensinado, despertem para a curiosidade e a admiração.
O aluno que recebe afeto do professor também passa a conhecer
mais as suas emoções e aprende a conviver com indivíduos de pensamentos
diferentes sem se preocuparem se são ou não amados. O amor do professor
basta-lhe. O aluno vê no professor amado um herói, ele sabe que pode contar-lhe
seus mais íntimos segredos, confiar-lhe seu brinquedo mais querido e falar de
si sem temer ficar de castigo ou coisa parecida.
A arte de ensinar vem de longe, e desde antigamente os nossos
principais educadores nos mostraram que sem o amor pela profissão tudo fica
mais difícil, tomemos como exemplo o amor que Pestalozzi tinha pelas suas
crianças. Falo do cuidado com a criança que estamos perdendo nos dias atuais.
Muitas pessoas estão indo às salas de aulas sem amarem seus
alunos porque quem ama não grita e nem perde a paciência facilmente. Claro é
que as crianças numa sala de aula, na maioria das vezes, fazem um barulho
tremendo, mas isso não significa que elas mereçam ouvir gritos ou serem puxadas
pelos braços para voltarem aos seus lugares.
A aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria? (Ana Manoela Detoni)
É preciso que o professor acima de tudo se ame e tenha conhecimento de si mesmo para que possa amar aquelas crianças que necessitam dos seus cuidados para aprenderem a ler e a escrever.
Todos sabemos que a criança nos seus primeiros dias de aula
sente-se sozinha, triste, saudades de casa e dos seus brinquedos, desamparada e
chorona, algumas vezes. Tudo o que ela mais deseja é voltar para junto daqueles
que lhe querem bem e lhe passam confiança e amor.
Se a criança que chega na escola encontra um professor
sorridente, recebe um abraço e ouve palavras de zelo logo se acostumará com a
escola, pois sabe que ali tem alguém em quem pode confiar. Quem não chorou no seu
primeiro dia de aula?
Os meus primeiros dias de aulas foram horríveis, eu nem
entrava na escola, voltava do portão da escola isso por que eu não fui recebida
com afeto pela minha professora do jardim de infância. Hoje sinto o vazio que
ficou em mim dessa professora que não me ensinou com amor, mas com uma didática
de memorização onde ou eu aprendia ou ficava de castigo. Que amor ela me
passou? Que amor vocês passam aos seus alunos? Vocês são lembrados pelos seus
ex-alunos?
Outro dia, um ex-aluno ligou-me depois de vinte anos para
falar de um problema que estava vivendo e não sabia como resolver, pediu-me
ajuda por que somente em mim confiava. São coisas assim que nos dizem o quanto
ensinar precisa de afeto. Sem o afeto ninguém aprende.
O ensino-aprendizagem com afeto forma cidadãos preparados
para uma vida competitiva como a que estamos vivendo nesse momento de relações
líquidas, onde amigos são descartáveis e jogos eletrônicos são os passatempos
preferidos da infância.
O afeto faz com que a criança perca a ansiedade e aprenda a
desenvolver as suas habilidades cognitivas até mesmo nas disciplinas com mais
dificuldade.
Se na grade curricular dos cursos de pedagogia tivesse a
disciplina de Afeto creio que o nosso ensino-aprendizagem seria de outro jeito
e as nossas crianças viveriam muito mais felizes. Querem a todo custo que
aprendamos enfiando goela abaixo conhecimentos que não sabemos para que
servirão. Esse é o problema do ensino contemporâneo.
É de conhecimento de todos que as crianças têm dificuldades
para aprenderem matemática, mas se for ensinada com afeto colocando aqui a
paciência, dedicação, carinho, vontade de ensinar, respeito ao educando, essa
disciplina passará a ser vista de outra forma, ou seja, as crianças aprenderão
a gostar das suas aulas.
Boa parte dos professores de matemática são carrancudos e
exibem um ar de superioridade diante dos seus alunos. Não falam de poesia e nem
de amor em sala de aula, por quê?
Já pensaram em ensinar uma criança a aprender a tabuada
através da música? Ou até mesmo através de uma contação de histórias. As
disciplinas devem conversar umas com as outras e a criança precisa de
professores que ensinem com afeto para aprenderem com eficiência.
Vocês já perguntaram aos seus alunos qual sonho eles tiveram
na noite passada? Ou o quais são seus maiores medos?
Aproxime-se do seu aluno e procure ser um professor-amigo que
planeja a sua aula com base na experiência de vida das suas crianças, ou seja,
que a sua aula passe os conhecimentos curriculares para um bom
ensino-aprendizagem baseada na formação emocional e física dessas crianças.
“Este depoimento é para lembrar a você, querido professor, que sem amor nada conseguimos em sala de aula. Educamos alunos preparados para concursos e o mercado, mas nunca preparados para a vida. O amor em sala de aula é bastante importante”.
Esse modelo de economia linear que desde há muito orienta os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque, de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta.
Desde que a natureza (matriz do
sistema-vida) e, em especial, os principais serviços ecossistêmicos foram
entregues às forças do mercado capitalista de consumo, passando assim a
orientar o dogma maior da economia global, vale dizer, a busca pelo contínuo
crescimento do PIB, dois “produtos” emergiram decorrentes desse processo de
dominação/espoliação: o desequilíbrio
climático (dado o exagerado nível de emissão de gases de efeito estufa,
dentre esses, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido
nitroso (N2O), o perfluorcarbonetos (PFC’s ) e também o vapor de
água) e o esgotamento
ecológico (notadamente, a depleção dos recursos naturais e energéticos).
“A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependemos está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Nós estamos erodindo as fundações de nossas economias, meios de vida, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida mundialmente”, afirmou o químico britânico Robert Watson, chefe da IPBES”. Veja mais aqui.
Dessa ação de domínio sobre o meio ambiente severamente imposta pela política de crescimento econômico sem fim, percebida num mundo ecologicamente limitado, contam-se ainda uma série de outros “subprodutos” que tem ocasionado seríssimas consequências às vidas humana e não humana, condição que potencializa o empobrecimento biológico da Terra. Não por acaso, abundam exemplos: (i) extinção de espécies (segundo o Living Planet Index, o número de animais no planeta diminuiu cerca de 52% desde 1970); (ii) contaminação química do meio ambiente, erosão eólica e hídrica (devido ao emprego maciço de nitrogênio); (iii) poluição do sistema de água (notadamente a ocorrência de eutrofização dos oceanos e a contaminação de nascentes); (iv) poluição do ar (devido ao acúmulo de gases, líquidos e partículas sólidas em suspensão); e, por último, mas longe de esgotar essa lista de sérios problemas, (v) crescente dificuldade de polinização.
Da incidência dos mais preocupantes
desajustes ecológico-ambientais, implica dizer que a urgência maior – em
termos de desafios a serem superados pela geração de agora, para garantir um
futuro promissor à geração futura – passa pela necessidade de uma profunda
transformação na lógica da economia global, algo que deve estar combinado a uma
sistemática reversão do modus
antrópico que marca a atuação da comunidade humana.
Nessa perspectiva, é preciso dizer algo
mais: transformar a economia dos homens
significa, sem fazer uso de palavras vazias, propor a radical mudança do ritmo frenético
de produção e consumo globais e, a partir disso, reconstruir o metabolismo ser
humano-natureza, buscando igualmente reconstruir
a própria economia de produção.
Inocência analítica à parte, há um claro
sentimento de que isso permitiria consolidar, observando de perto a íntima relação
Homem-Natureza, uma ligação integrada e sustentável (vide quadrante à direita), superando definitivamente a situação
hodierna (quadrante à esquerda), da Figura a seguir.
Relação Homem-Natureza
Dito isso, um esclarecimento se faz
oportuno: se é pouco provável – senão uma miraculosa utopia, dirão alguns –
promover a reconstrução de toda a
estrutura da economia (digo, seu arcabouço axial), é perfeitamente plausível
enveredar esforços para, ao menos, reorientar os pressupostos basilares da
atividade econômica, partindo para uma etapa de produção econômica de baixo
carbono, criando sequencialmente condições para desmaterializar a economia
(serviços e processos produtivos), ou seja, reduzir a intensidade energética e
de material usada na produção econômica.
Essas condições, é bom que se deixe isso às
claras, propiciam, grosso modo e pari passu, que se converta em realidade
algumas “utopias” há muito gestadas na sociedade moderna, dentre elas, conciliar
ecologia e economia e harmonizar a relação natureza-homem (novamente olhando-se
com acurada atenção para o emprego da condição localizada no quadrante à
direita da Figura aqui exposta). O motivo? Preservar o meio ambiente/conservar
a natureza ao mesmo tempo em que se diminui o ímpeto do crescimento econômico (vetor
das emissões de gases estufa), sem, no entanto, renunciar a busca do
desenvolvimento econômico, cuja dimensão sempre será o social, identificada no
viés qualitativo da economia; diferente assim da dimensão econômica do crescimento,
com claro viés quantitativo.
Parece certo afirmar que toda essa questão envolvida
na desejável boa parceria entre o ser
humano e o meio ambiente acirra
os ânimos porque com isso não somente se discute a imprescindível proteção
ambiental, mas explicitamente tudo aquilo que está relacionado às condições de
vida reservadas aos homens e mulheres no futuro, bem como ao mundo animal.
A breve ideia norteadora aqui discutida, que
na prática deve partir obrigatoriamente dos stakeholders, precisa delimitar as
condições de vida econômica adaptadas ao tamanho e possibilidades da Terra. Sob
essa inspiração, cabe asseverar o seguinte: no centro das propostas que se
espera sejam prontamente debatidas visando encontrar um novo jeito de organizar
a vida econômica, a economia (tanto a ciência
quanto a atividade de produção) tem
de ser vista como um sistema parcial inserido num sistema completo (o meio
ambiente).
Para o bem maior do desejado equilíbrio
ambiental, o sistema de economia linear (extração-produção-consumo-descarte) centrado
na fixa ideia do crescimento, do jeito como tem sido praticado até o momento, e
por ter “conseguido” transformar o planeta num imenso hipermercado, entulhando-o
de mercadorias e bugigangas com o propósito descarado de nos obrigar a consumir
freneticamente para assim alcançar o almejado “progresso”, não pode mais permanecer.
Até mesmo porque isso está longe, muito longe, por sinal, de ser considerado,
de fato, legítimo e verdadeiro “progresso”. Sem delongas, é notório que a Terra
não suporta mais duas cotidianas e estapafúrdias situações: a pressão
econômica, inclinada à crescente produção industrial; e a pressão humana,
inclinada ao sufocante nível de consumo material.
Vale insistir: esse modelo de economia linear que desde há muito orienta
os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque,
de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta. É esse o ponto
nevrálgico. O drama é esse.
Finalizando, cabe observar com certa atenção
um argumento-chave. Para experienciarmos a sonhada transformação da economia
global, é absolutamente necessário, antecipadamente, que se reconheça um ponto
fulcral aqui já mencionado: a economia nada mais é do que um subsistema de um sistema maior chamado “meio
ambiente”.
Partindo desse reconhecimento, subleva-se a
condição de se respeitar as fronteiras ecológicas, o que implica em não
ultrapassar os limites existentes da natureza. Isso ajuda a difundir a noção central
de que é a natureza – e somente ela – a responsável por provisionar e sustentar
toda a atividade de produção
econômica. Logo, enfatize-se, é a natureza, e nada mais, que limita o processo de
produção econômico-industrial.
Com relativa facilidade, diga-se a
propósito, o que a ciência tem nos mostrado em termos de conhecimento e dados
técnicos não deixa dúvidas de que os limites biofísicos do planeta põem em
xeque esse destrutivo modelo de crescimento econômico com o qual temos
convivido. Daí a urgência de sepultá-lo, implantando um novo jeito de organizar
a vida econômica; afinal, sem exageros retóricos, estamos no limiar de um
colapso geral.
Três líderes indígenas ameaçados de morte apresentam seus Territórios. O líder high tech, o grande xamã, o visionário. Os 3 encaram a mesma guerra: manter a floresta – e seus povos vivos! Veja mais aqui.
Autor: Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários” (ed. CRV) prof.marcuseduardo@bol.com.br
Escolas e universidades existem para que estudantes aprendam conceitos, teorias; mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos.
Prezados colegas,
bom dia! Sejam bem-vindos à UPF. É uma alegria recebê-los em nossa instituição.
Permitam-me,
inicialmente, em nome da Universidade de Passo Fundo, agradecer a presença e a
disposição de cada um de vocês em buscar conhecimento e investir na educação
continuada. Aproveito para agradecer também aos organizadores dessa atividade,
citando a Coordenadoria das Licenciaturas da UPF, aqui representada pelos treze
cursos de graduação e pelos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado
e Doutorado) vinculados às licenciaturas; aos apoiadores desse evento, citando
a Secretaria Municipal de Educação e a Coordenadoria Regional de Educação.
Como mencionado no protocolo de abertura, o objetivo do XI Semape e do 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas, realizado neste dia 29 de agosto de 2019, é “discutir questões pertinentes às ações dos professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de educação integral, colocada na Base Nacional Comum Curricular – BNCC”.
O que queremos, na verdade, é mostrar, não só através desses eventos, mas
também da campanha Educar é a Nossa Ação,
que a Universidade de Passo Fundo está, desde sua gênese, comprometida com a
melhoria da qualidade da educação.
Desse modo,
valorizamos os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e ativos na instituição;
oferecemos formação inicial de qualidade; somos presentes e parceiros das
escolas e das redes de ensino da comunidade e região; fomentamos formação
docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da
área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder
transformador da educação.
Nesse sentido, o lema da campanha Educar
é a nossa ação não é só a manifestação de uma concepção de formação, mas,
também, a aposta em uma concepção de educação que acredita no potencial
criativo, inovador, transformador da educação e de seus protagonistas.
O foco é a relação professor-estudante, a relação
ensino aprendizagem, que deve, a qualquer custo, manter viva a curiosidade, a
liberdade e a individualidade.
Permitam-me ilustrar o que digo com uma pequena história, relatada no livro
Educação e Justiça Social, de Martha Nussbaum. Nessa obra, Nussbaum cita
Tagore, poeta e romancista hindu (Prêmio Nobel da Literatura, em 1910)
resumindo, assim, um conto chamado O Treino do Papagaio:
Um certo Rajá tinha um pássaro que
adorava. Queria educá-lo por que pensava que a ignorância era uma coisa má. Os
seus gurus convenceram-no de que o pássaro devia ir à escola. A primeira coisa
que teve de ser feita foi a de oferecer ao pássaro uma instalação que estivesse
à altura da sua aprendizagem e, assim, foi construída uma magnifica gaiola
dourada. Depois ouve necessidade de adquirir bons manuais escolares e os gurus
disseram: “Os manuais nunca serão em demasia para atingir o nosso objetivo”. Dias
e noites a fio os escribas trabalharam na produção dos requeridos manuscritos.
Em seguida, contrataram-se professores que, por terem sido principescamente
pagos, puderam comprar belas casas. No dia em que o Rajá visitou a escola, os
professores explicaram-lhe o método que utilizavam para educar o papagaio. “O
método era de tal modo fantástico que, perante a sua excelência, o papagaio
tinha uma aparência ridiculamente insignificante. O Rajá ficou satisfeito por
não lhe ter encontrado defeitos. Quanto a qualquer hipótese de reclamação por
parte do próprio papagaio, tal era simplesmente impossível: tinha a garganta
tão preenchida pelas folhas dos manuais que era incapaz de assoviar ou de
cochichar. (2014, p.84).
Como diz Martha Nussbaum, trata-se de uma maravilhosa história e, como
tal, dispensa comentários. Entretanto, gostaria de chamar a atenção para a
necessidade de, em termos de concepções de educação/formação, superarmos os
limites da gaiola dourada, dos bons manuais e dos métodos que desconsideram os
sujeitos da ação.
Afinal, as escolas
e as universidades existem sim para que estudantes aprendam conceitos, teorias;
mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e
valores e se realizem como profissionais-cidadãos.
Que a lógica e a dinâmica do professor produtor de currículo possam invadir
nossas mentes e nossas práticas.
Sobre o evento
Seminário de Atualização
Pedagógica ocorreu na UPF nesta quinta-feira (29), provocando os professores da
rede pública a serem produtores do currículo
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento
que regulamenta quais são as aprendizagens essenciais a serem trabalhadas nas
escolas públicas e particulares de Educação Infantil, Ensino Fundamental e
Ensino Médio para garantir o direito à aprendizagem e o desenvolvimento pleno
de todos os estudantes. Com o objetivo de promover a troca de experiências e
conhecimentos entre a Universidade de Passo Fundo (UPF) e os professores da
rede pública de educação, ocorre, nesta quinta-feira (29), o XI Seminário de
Atualização Pedagógica (Semape)
e o 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas. O tema do
evento provoca academia e docentes a pensarem como produtores do currículo.
O Seminário pretende discutir questões pertinentes às ações dos
professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de
educação integral, colocada na BNCC.
Para o vice-reitor de Graduação, professor Dr. Edison Alencar
Casagranda, o que ser quer é mostrar, não apenas por meio desses eventos, mas
também da campanha Educar é a Nossa Ação, é que a UPF está, desde sua gênese,
comprometida com a melhoria da qualidade da educação. Em sua fala, ele destacou
que a Instituição valoriza os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e
ativos, e oferece formação inicial de qualidade. “Somos presentes e parceiros
das escolas e das redes de ensino da comunidade e região, fomentamos formação
docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da
área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder
transformador da educação”, pontuou.
A escola pública deve promover o conhecimento das diferentes religiões, sem quaisquer formas de proselitismo e preferência religiosa.
O
professor de Ensino Religioso, que trabalha na perspectiva do diálogo e do
conhecimento inter-religioso, sempre deve ter mente aberta, compromisso com o
conhecimento das diferentes religiões e ousadia para enfrentar o desapego de
sua convicção ou crença religiosa.
Todos
deveriam reconhecer diferenças entre fé, religião e espiritualidade. Fé sempre
é uma questão pessoal, uma forma e uma relação íntima de cada um com o Transcendente.
Religião é a experiência coletiva da vivência da fé (não por acaso, nas
religiões os seguidores se chamam de irmãos ou irmãs). Já espiritualidade,
remete a uma dimensão sempre maior, que pode e deve ser pensada na perspectiva
das aulas de ensino religioso. Espiritualidade é Cuidado: consigo mesmo, com os
outros, com a natureza e com o Transcendente.
Recorro a
memórias afetivas de estudantes em dois níveis: ensino fundamental séries
finais e Ensino Médio. As duas memórias revelam o reconhecimento de práticas em
sala de aula.
“Um estudante do sexto ano fez uma constatação interessante. Logo após
expor para a turma, de forma entusiasmada, o sentido do Ensino Religioso para a
formação integral do ser humano e para a construção do sentido da vida, o aluno
me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem
pensar muito, respondi: “nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu
prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma
religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem
comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra”.
“Um estudante do Ensino Médio, depois de umas quinze aulas, resolveu
abordar-me. Perguntou se eu era ateu. Resolvi interrogá-lo: – Por que você acha
que o professor é ateu? Ele me respondeu: “professor, o senhor faz uma aula de
ensino religioso desapegado. Eu tinha uma professora conhecedora de muitas
religiões, mas ela não conseguia livrar-se do moralismo. Sempre acabava
querendo enquadrar a gente, afirmando como a gente deveria viver”.
O Ensino
Religioso, no paradigma inter-religioso, cumpre importante papel na formação
integral do ser humano, no reconhecimento das dimensões históricas,
psicológicas, sociais, culturais e religiosas de cada ser humano e de todo
mundo.
Ao longo destes últimos quinze anos trabalhando com a disciplina do Ensino Religioso, especialista em Metodologia de Ensino Religioso, conheci pessoas, vivi experiências de trocas de conhecimentos, visitei templos religiosos e dialoguei muito sobre o universo religioso. Assumo que sei pouco, quase nada, sobre as tradições religiosas.
O objetivo das visitas de conhecimento é complementar e ampliar os conhecimentos das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e compreensível em livros, vídeos ou na internet.
Minha maior aprendizagem é que me percebo um melhor cristão. Sou católico, apostólico e romano. Sigo e vivo minha religião, mas o conhecimento das outras religiões em nada afetou minha fé e nem minhas crenças. Muito antes, pelo contrário, vivo minha religião de forma livre e leve, sem a carga dos preconceitos e discriminações.
Uma
lembrança aos colegas que, como eu, desafiam-se a orientar os jovens sobre os
conhecimentos do Ensino Religioso: não esqueçamos de reconhecer os
conhecimentos religiosos que já integram a vida dos estudantes; de integrar os
diferentes conceitos, habilidades e atitudes que as outras áreas do
conhecimento despertam em nossos adolescentes e jovens. Não esqueçamos de
integrar às nossas aulas os diferentes saberes que são gerados na comunidade,
nas famílias, nos templos, nas ruas e no cotidiano de todos nós.
O Ensino
Religioso, como os demais conhecimentos, não cabem num livro, num caderno ou
numa lousa. Cabem mesmo em mentes abertas e corações capazes de se desapegar
das paixões, dogmas e fundamentalismos, característicos de seguidores de
algumas religiões.
A escola
pública é laica, não significa que ela seja atéia! A escola pública pode e deve
promover o conhecimento das diferentes religiões, sem quaisquer formas de
proselitismo e preferência religiosa.
Numa experiência inédita em nossa cidade, alunos das séries finais de uma Escola Municipal de Passo Fundo, RS, participaram de uma viagem de estudos, deslocando-se por cerca de 330 Km, em meados do mês de junho de 2019, para o município de Três Coroas, para conhecer o Templo do Budismo Tibetano.
Segunda unidade da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) no RS será implantada em Passo Fundo.
“Acolher o preso é proteger a sociedade”. A frase do procurador de Justiça
Gilmar Bortolotto, que esteve em Passo Fundo, nesta sexta-feira, 23 de agosto,
apresentando o método da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados
(Apac), tem muito sentido num cenário caótico do sistema prisional brasileiro,
com casas prisionais superlotadas.
A Apac
foi tema de audiência pública realizada no Salão de Atos da Faculdade de
Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF), promovida pela Comissão de
Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do
Sul.
A cada 100 presos do sistema convencional, 75 voltam a cometer um crime. A
lógica é simples, mas o trabalho é um grande desafio: se recuperar esses
presos, eles não voltarão a ocupar uma vaga nos estabelecimentos prisionais e,
logo, não voltarão a cometer crimes na rua.
“A cada
mil presos que passam pelo sistema prisional, quase 72% retornam a ele. Acolher
o preso é proteger a sociedade. Temos que fazer trabalho de recuperação para
melhorar o sistema. As pessoas que cometem os crimes nas ruas, quase sempre já
passaram por casas prisionais. E quem quer ser morto por um egresso do
sistema?”, declara Bortolotto.
As
informações repassadas pelo procurador de Justiça na audiência pública têm como
finalidade fazer com que a sociedade repense o olhar sobre a situação dos
apenados. A recuperação deles pode ser uma das soluções para a diminuição da
criminalidade.
“As pessoas se manifestam, especialmente nas redes sociais, sem ter conhecimento do que está acontecendo no sistema prisional. As facções se utilizam do ambiente das casas prisionais para ‘catequisar’ mais gente. Utilizam os presos para mão de obra para o crime. No entanto, além dos presos, muitos familiares, dentre os quais mulheres e crianças, estão em contato com esse ambiente. Cerca de 1 milhão de pessoas circulam nos estabelecimentos penais”, enfatiza o procurador da justiça, que também já foi vítima da violência por pelo menos três vezes, tendo, inclusive, em uma delas, quase perdido a vida.
As Apacs são associações sem fins lucrativos dedicadas à recuperação e à reintegração social dos condenados. O principal objetivo é promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena, evitando a reincidência no crime e oferecendo alternativas para o condenado se recuperar.
O modelo prisional de Associação de Proteção e Apoio aos Condenados (Apac), como o de Barracão (PR), procura uma alternativa na recuperação do encarcerado. Os próprios presos, chamados de recuperandos, mantém todo o processo de limpeza, cuidados, alimentação, estudo, num modelo que não utiliza policiais, armas ou qualquer tipo de violência. Os apenados recebem ajuda de voluntários em atendimentos psicológicos, religiosos, esportivos e sociais, reduzindo pela metade o custo de um preso, comparado ao sistema tradicional. (Padre Gérson Schmidt)
Por meio desse método, os presos têm direitos e deveres, com rotina diária. Eles têm obrigatoriedade do trabalho e do estudo, bem como regras de disciplina. São responsáveis pela sua alimentação e pela higiene e limpeza do local.
Na Apac,
os presos são corresponsáveis por sua recuperação e contam com assistência
espiritual, médica, psicológica e jurídica, prestadas pela comunidade. A
segurança e a disciplina são feitas com a colaboração dos apenados, tendo como
suporte funcionários, voluntários e diretores das entidades.
“Eu posso dar meu testemunho e dizer que essa iniciativa vale muito a
pena. Eu lido com esse tema em presídios há 21 anos e vejo reações positivas. A
Apac oferece uma oportunidade e o sujeito olha e decide se quer pegar ou não”,
declara o procurador de justiça.
No Brasil, o método Apac surgiu na década de 1970 e, atualmente, 150 unidades são filiadas à Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC). Estão em estados como Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e Maranhão, bem como em outros países. No Rio Grande do Sul, a primeira unidade da Apac foi inaugurada em 2018, em Porto Alegre, e a segunda a ser implantada deverá ser em Passo Fundo. Hoje, há 11 unidades em formação no estado.
Apac de Passo Fundo prevista para 2020
A situação da maior cidade do norte do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, não é diferente da realidade brasileira. Atualmente, são quase 800 apenados no Presídio Regional de Passo Fundo, que tem capacidade para cerca de 300 presos.
A Apac de
Passo Fundo já tem diretoria formada, parte dos recursos para implantação em
caixa, e, em breve, as obras deverão iniciar na área cedida à entidade. “Na
semana passada assinamos, no Ministério Público, o termo de cessão de uso do
espaço da antiga Escola Aberta, na BR 285, uma área de cinco hectares. Logo
daremos início à limpeza da área e à construção de edificações, bem como à
busca por voluntários. O curso de formação deverá ser realizado em novembro, e
a inauguração deverá ocorrer em 2020”, revela o presidente da Apac de Passo
Fundo e professor da UPF Me. Vinícius Toazza.
Foto da Antiga Escola Aberta. Créditos foto: Matheus Moraes/DM
Sobre a audiência
A audiência pública contou com a presença de representantes do Poder Executivo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da OAB, entre outras entidades parceiras da Apac. O presidente da Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, deputado Jeferson Fernandes, conduziu os trabalhos, destacando a representatividade de instituições presentes no evento.
A reitora da UPF, professora Dra. Bernadete Dalmolin, destaca a importância da recuperação dos apenados. “Acreditamos na recuperação e na reintegração dos apenados, desde que haja condições favoráveis no período de cumprimento da pena. Assim, nos unimos à Apac para essa bela iniciativa. É preciso apostar que todas as pessoas têm, dentro de si, potencial para ser melhor”, declara a reitora.
O diretor da Faculdade de Direito, professor Me. Edmar Vianei Marques Daudt, ressalta a importância de a Universidade sediar o evento. “Estamos muito contentes em sediar mais uma audiência pública. A Faculdade de Direito proporciona aos seus acadêmicos uma visão que vai além da sala de aula, o que lhes possibilita um efetivo contato com problemas vividos pela sociedade e, por conseguinte, representa uma formação mais apropriada para contribuir com a resolução desses problemas”, pontua Daudt.
Também participou da solenidade de abertura o presidente da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF) Me. Luiz Fernando Pereira Neto.
“Responder à violência com mais violência, costuma-se dizer, acaba só aumentando os níveis de violência na sociedade, é necessário romper o ciclo da violência e não pode ficar sustentando ele e dando mais violência”. (Dalmir Franklin de Oliveira Júnior) Veja mais aqui.
Fotos: Natália Fávero Assessoria de Imprensa Universidade de Passo Fundo (54) 3316-8110 | www.upf.br Passo Fundo – RS
Getúlio, como ninguém, aperfeiçoara dois atributos fundamentais para todo o homem público: a paciência histórica e o senso de oportunidade política.
Há 65 anos, em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas suicidou-se, pondo fim a uma extraordinária carreira
política que o transformou no personagem mais importante
da história brasileira do século
20.Seus biógrafos revelam que desde muito jovem ele demonstrou qualidades excepcionais.
Uma reminiscência familiar dá conta de
certa visita do senador Pinheiro
Machado a São Borja, quando Getúlio ainda não passava de um menininho a brincar,
no chão, com soldadinhos de osso de boi.
Conta-se que Pinheiro ficara tão
impressionado com a curiosidade e a
inteligência precoce do garoto que teria comentado com o pai de Getúlio, o velho, Manuel Vargas
– natural de Passo Fundo: “ Este menino vai longe! Talvez chegue à presidência da República”. A cena parece circunscrever-se àqueles
casos em que a história é escrita com o propósito de fabular uma suposta
predestinação do personagem.
A verdade é que Getúlio logo cedo demonstrou interesse pela vida política. Como acadêmico de Direito, em Porto Alegre, foi um dos fundadores do Bloco Acadêmico Castillhista, que pelo nome explicitava claramente sua matriz ideológica. Em 1909, aos 26 anos, Getúlio foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano. Sua eleição foi tranquila uma vez que, na época, as urnas rio-grandenses jamais reservavam más surpresas aos amigos do governo. Em 1913 Getúlio foi reeleito.
A
exemplo da vez anterior, com o devido aval de Borges de Medeiros, a
eleição foi garantida antes mesmo das mesas receptoras procederem à
contagem das cédulas eleitorais. Ele foi o candidato mais votado. Entretando,
para o espanto de seus pares, decidiu
renunciar à cadeira de deputado, alegando deslealdades políticas ocorridas dentro do
Partido Republicano. Somente em 1917,
Vargas voltou à política estadual ao ser
eleito deputado pelo PRR, ocupando o papel de líder natural entre os colegas de
bancada republicana.
O crescimento do prestígio de
Getúlio no seio do seu partido, fez com que em 1922 ele fosse indicado para a
Câmara Federal e, com a ajuda da máquina
estadual republicana foi confirmado
nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão, uma vez que o titular
havia falecido. Assim, Vargas teria um período de pouco mais de um ano na
Câmara Federal. No Rio, abriu portas, estabeleceu relações, conquistou
interlocutores.
Quando Washington Luis foi eleito
para a presidência em 1926, Vargas foi convidado para ocupar o Ministério da Fazenda,
o que pareceu irônico, uma vez que, na época, o Rio Grande do Sul estava imerso
em grave crise financeira. Entretanto, a imagem de austeridade que o castilhismo-borgismo
havia cultivado anos a fio – controlando até mesmo a quantidade de lápis na
prestação de contas de cada secretaria de estado – obtivera ressonância para
além das fronteiras regionais.
Aqui no estado, o último quinquênio de Borges de Medeiros estava chegando ao fim, como previra o acordo de Pedras Altas,que fora celebrado no final da Revolução de 1923. Getúlio, de imediato, surgiu como nome mais indicado para o governo gaúcho. Borges, depois de alguma relutância, assentiu. No papel de candidato único, Getúlio nem precisou fazer campanha para se eleger, em novembro de 1927, o novo presidente gaúcho.
Adotando uma política de
conciliação, Getúlio passou a construir as bases para uma grande aliança estadual, algo decisivo para
as pretensões de uma candidatura
rio-grandense a presidência da República. A conciliação foi facilitada quando
reunidas sob uma nova legenda – Partido Libertador – e lideradas por Assis
Brasil, as oposições gaúchas decidiram oficializar a trégua em relação ao
governo estadual, o que abriu caminho para uma gradativa reconciliação entre as
oligarquias regionais no Rio Grande.
Ao final do governo de W. Luiz, mineiros e paulistas, não chegaram a
um acordo quanto ao candidato à sucessão do presidente que deixava o poder.
Vargas apareceu como uma
alternativa, lançado à presidência pela Aliança
Liberal, formada por Minas, Paraíba
e o Rio Grande, para enfrentar Júlio Prestes, candidato de São Paulo. De
São Borja Getúlio acompanhou com a conveniente distância a crônica sangrenta
que marcou o último mês de campanha. Como era esperado, a candidatura oficial
venceu em todas as unidades da federação, com exceção dos três estados que
compuseram a Aliança.
Entretanto, a vitória nas urnas
não representou a ascensão de Júlio Prestes ao poder. Uma revolução, iniciada
em outubro de 1930, levou Vargas ao Catete, para governar o país por 15 anos e
iniciar um grande processo de modernização. Para tanto usou de toda a sua
habilidade política e, não teve dúvidas, em enveredar até mesmo para uma
ditadura. Em 1945, foi obrigado a se retirar para a sua região natal pelos
mesmos militares que haviam apoiado o seu projeto nacionalista de poder.
Ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restaram as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos. Mas isto seria por pouco tempo. Em 1951 ele estaria de volta, “nos braços do povo”.
Getúlio, como ninguém,
aperfeiçoara dois atributos fundamentais para todo o homem público: a paciência
histórica e o senso de oportunidade política. Há 65 anos,acossado por uma grave crise ,
fez aquilo que em muitos momentos de sua jornada política,
disse que faria: cometeu o suicídio e, assim, transformou-se em um verdadeiro mito.
Aprendo que o maior defeito é o auto-engano, o desespero diante de si mesmo.
No meu silêncio residem todas as possibilidades:
verdades nunca ditas, lágrimas guardadas e sorrisos que aguardam os dias e os motivos
certos. Aqui, nem sempre tudo é alegria, também não é só saudade ou melancolia.
Já foi. Hoje busco me reconstruir limpando os medos
e os demônios que alimentei.
Aqui e ali há de se ter um sonho para viver, um
motivo para rir e um amor para cuidar, de preferência, em primeiro lugar, o
amor próprio.
Não é que eu não tenha medo, angústia ou viva em
fantasias incoerentes com o que é real. Trata-se, bem mais, de coerência, de
aceitar o que é e tentar o que pode ser e me faz bem. “-
Permita-se!”; ecoa no meu silêncio inquieto o grito da vontade e potência.
E assim, ouvindo-me em meu silêncio, reaprendo a
falar e a ser. Aprendo a escolher o que deve ser dito, feito, silenciado ou
desfeito. Aprendo que o maior defeito é o auto-engano, o desespero diante de si
mesmo.
Aprendo que não sou um super-homem, mas que também
não sou o vilão. Aprendo que não é uma guerra, é apenas a vida se entregando
entre silêncios e ruídos, entre o que posso ou não.
Outras anotações
da vida em marcha
Com muitas
oportunidades fluidas, arcabouços da imaginação, deslizava olhares entre a
multidão. Os seres, perfilados em aguardo contínuo, identificavam-se pela
diferença.
Nativos,
estrangeiros, estranhos e indefinidos, buscam na arte um abrigo para o espírito
intangível de si mesmos. As diferentes matizes epidérmicas, as estaturas
variadas, os olhos em diversos ângulos terminados, as vestes multicores, os
“pseudomono” sempre poliamores, os veículos em ruídos desafinados e
os transeuntes móveis, tudo e todos, parados.
Teria a arte,
em traços, estagnado o aparente movimento ou tudo flui em mudança perpétua? Não
sabia dizer.
O olhar,
detido em esguio corpo da qualidade do de Vênus, lia nos lábios o que é uno
entre o múltiplo, o que é real entre o imaginário, o que é estanque entre o
móbil, o que é sabido entre o ignóbil.
A fila seguiu
marcha e, outra vez, mais uma oportunidade foi perdida ou ganha porque sempre
haverá algo mais oportuno para justificar a decisão.
“A coisa mais difícil do mundo é conhecermo-nos a nós mesmos e o mais fácil é falar mal dos outros” (Tales de Mileto)
Ao acessar o Facebook deparei-me com um destes pensamentos que faz a
gente reagir rápido e impulsivamente. Sem pensar, compartilhei frase que diz:
“não aceite críticas de quem não conhece suas lutas”.
Desde então, fiquei preocupado com o impacto que esta suposta verdade
pudesse provocar em mim e nos outros. Por conta disso, proponho esta reflexão.
Minha história, como as histórias de tantos outros lutadores e
lutadoras, é permanentemente perseguida, difamada e mal interpretada. Quem se
coloca na defesa dos mais pobres e excluídos desta terra sabe o preço que paga
por suas posturas e convicções.
Parece verdadeiro que
só pode criticar quem conhece as minhas lutas. Que quem não conhece as lutas da
gente não tem mesmo como nos criticar. Que as críticas aceitáveis podem partir
somente de quem faz parte de nossos círculos, grupos ou lutas.
Após um período de ponderação, dei conta que nem todos aqueles com os
quais me relaciono conhecem a minha história. Pensei que, talvez, aqueles que
não conhecem minhas lutas seriam capazes de uma crítica que me ajudasse a
crescer ou reavaliar minhas convicções ou posicionamentos. Pensei e concluí que
a crítica pode ser importante, dependendo da intencionalidade de quem a
comunica e da interpretação de quem a recebe.
Não é fácil aceitar críticas, venham elas de quem vierem. Vivemos numa
sociedade avessa aos verdadeiros elogios, onde as críticas são poderosas
ferramentas que usamos para destruir a reputação ou a história dos outros, sem
escrúpulos. Por isso mesmo, temos dificuldades para entender a perspectiva
construtiva de uma crítica.
As críticas, no
entanto, quando dirigidas com a intenção de ajudar e melhorar a vida da gente,
podem ser importantes para nos compreendermos sujeitos aprendentes, inacabados
e incompletos.
Dos que nos são próximos, esperamos mais “bajulação” do que críticas.
Dos estranhos, temos pouca ou quase nenhuma disposição de ouvir qualquer
crítica ou opinião. Conclusão: não temos a cultura de ajudar e colaborar com os
outros, oferecendo-lhes sinceras ponderações e pensamentos.
Não somos ensinados a ouvir o que os outros nos dizem. Preferimos,
então, viver sem a pressão e o incômodo de nos avaliar. Preferimos pensar que
não precisamos mudar a partir dos outros. No máximo, mudamos com as
aprendizagens duras da vida.
As críticas construtivas são aquelas que ajudam a crescer.
Aperfeiçoar-se e humanizar-se são desafios humanos grandes e permanentes.