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Quando as aulas voltarem, eu não quero que tenha “aula”

Acredito, é mais importante preocupar-se
com a saúde mental das crianças e jovens
do que com o conteúdo a ser “vencido”.


Tenho recebido e compartilhado vários “memes” que falam da incompatibilidade do homeoffice com o homeschooling. São várias as mães, eu entre elas, conhecidas e amigas, assoberbadas com o isolamento social tendo que dar conta das compras, comida dentro de casa, demandas do trabalho remoto, lidar com as notícias diárias de infectados e mortos e, ser tutora EAD dos filhos.

Homeschooling, ao contrário do que afirmam,
não será, no Brasil, salvamento seletivo para
um modelo educacional moribundo?



Ninguém estava preparado para a educação domiciliar: nem escolas, nem crianças, nem famílias.

As escolas não são mágicas para tirarem das cartolas aulas e atividades EAD para todos os anos em todas as disciplinas.

As mães não são professoras experts em todos os conteúdos de todas as disciplinas. As crianças, também estressadas pelo isolamento, não possuem experiência com aulas EAD e não compreendem que estar em casa não significa férias.

Óbvio que tem muita gente irritada, ansiosa, frustrada com a sua “incompetência pedagógica” questionando como os conteúdos serão recuperados, discutindo a necessidade de turnos inversos para dar conta do que está “atrasado”, enviando e-mails e telefonemas para as escolas perguntando quais serão as estratégias de “recuperação”.

A instituição onde trabalho prorrogou por mais duas semanas o isolamento. As crianças voltarão para as escolas dia 5? Dúvida no ar, talvez tenhamos mais tempo de crianças em casa.

Ontem, quando li um monte de mensagens angustiadas sobre as aulas EAD e o que e como deve ser recuperado fiquei pensando o que é “atrasado” no currículo de crianças que estão fazendo 10 anos, que estão no 4º ano do Ensino Fundamental.

O que é conteúdo “atrasado” em qualquer segmento escolar?

O que eu espero, quando as crianças voltem para as escolas, é que tenha uma semana “sem aula”, que elas fiquem correndo e gritando nos pátios como os hamsters do capiroto até perderem a voz!

 Que as escolas mandem na agenda o seguinte bilhete: venham com roupa que possa ser rasgada, para que elas possam ralar os joelhos e cotovelos de tanto rolar na terra; que comam tatu-bolinha; que tomem banho de mangueira e muito, muito sol; que façam penteados malucos; que dancem muito e joguem bola até caírem exaustas no chão.

Depois disso, gostaria que as escolas refletissem com as crianças o que significou essa experiência para elas, para as famílias. Que falem sobre resiliência, enfrentamento de frustrações, sobre solidariedade. Temos que levar alguma lição do que estamos vivendo, temos que fortalecer nossas relações como famílias e como sociedade.



Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. (Nei Alberto Pies)



As escolas PRECISAM falar sobre a necropolítica, que resolve quem vale à pena viver ou morrer.

Não quero ver crianças confinadas, novamente, nas escolas em turno inverso para “recuperar” locuções adverbiais.

Se é que elas terão que ficar no turno inverso, é para que aprendam a ser mais humanas, menos egoístas, mais sensíveis.

Em vinte e poucos anos, serão os amiguinhos ranhentos do meu filho que poderão estar “selecionando” os com mais de 80 anos para serem mortos, eu estarei na fila.

Uma psicóloga conhecida comentou que ninguém imagina o impacto que essa pandemia terá, em longo prazo, nas subjetividades das crianças e jovens que a estão enfrentando.

Que a gente possa, agora, pensar nesses efeitos e repensar o papel da escola na volta às aulas… nesse momento, acredito, é mais importante preocupar-se com a saúde mental das crianças e jovens do que com o conteúdo a ser “vencido”.

Abraços virtuais e que sigamos nos apoiando mutuamente.

Para o mestre em Educação e palestrante Marcos Meier, em resposta a muitos que o interrogavam por mensagens virtuais: “E as aulas?”, “Como vai ficar a reposição de aulas?”, “As crianças vão ficar muito atrasadas na escola” e outros cobrando desde já uma decisão por parte de nós, professores. Então segue uma reflexão para os mais aflitos: Mesmo que a gente fique em quarentena até o fim do ano, que importância na vida teria formar-se na faculdade aos 21 ou 22 anos? A vida é mais que escola. Pessoas valem mais que currículos. Proteção é melhor que gramática e aritmética. E, mais do que qualquer outra coisa, a esperança é melhor que a preocupação exagerada. Abraços a todos os papais e mamães preocupados com a educação de seus filhos. Quando voltarmos às aulas, decidiremos com calma, levando em conta o que é melhor para as crianças”.



“Cada escola constitui um ambiente único, mediado pelos sujeitos, pelas suas intencionalidades e pelos seus métodos e modos de ver o ser humano, a vida e a sociedade. Os diferentes sujeitos e as diferentes estratégias educativas representam os “nós” que fazem uma rede ser o que ela é”.




Tatiana Lebedeff
Professora universitária UFPEL

“Fé em ação”: em defesa da vida e do equilíbrio planetário

“Somente lutam bem aqueles que tem visões de beleza.
Até lá, será a luta contra o feitiço. Já devastaram a terra.
Que não devastem a alma…”
Rubem Alves, em “Conversas sobre política”


Marcus Eduardo de Oliveira e eu, Nei Alberto Pies, nos conhecemos há pelo menos 07 anos, quando passamos a dividir a edificante responsabilidade de assinar mensalmente, de forma intercalada, coluna em Revista Missionária impressa MISSÕES.

Faz dois anos que, dada a facilidade do mundo virtual, passamos a conversar/teclar através das redes sociais. A bem da verdade, como dois caminhantes que somos, e que não temem se perder nesse vasto mundo que nos ampara, ainda estamos nos conhecendo e reconhecendo como sujeitos ativos (atores sociais) na sempre necessária luta diária e ininterrupta a fim de edificar uma sociedade mais igualitária – e “menos malvada”, como disse Paulo Freire, o pedagogo da esperança -, capaz de respeitar a dignidade humana e a diversidade religiosa, reverenciando o meio ambiente e a natureza (matriz da vida), não deixando de considerar com elevada distinção todas as formas de viver e ser no mundo contemporâneo que compartilhamos.

Acreditamos, antes de mais nada, no poder das palavras. Não por acaso, ambos temos livros publicados, e com relativa frequência, emprestamos nossas penas para sites ou mesmo páginas eletrônicas das redes sociais. Por certo, e desde há muito, já temos a leitura e a escrita como hábitos, como verdadeira rotina que nos ajuda a engrandecer, incorporados ao nosso cotidiano ou vida profissional. É assim que seguimos professando nossa fé!

Agora, deixando de lado essas lacônicas linhas de apresentação, cada um de nós, de modo próprio, relatará sobre a importância de assinar a coluna Fé em Ação, da Revista Missões. Na oportunidade, também explicitaremos, cada qual a seu jeito, a nossa maneira de professar a fé e suas correlatas crenças, algo que, por certo, nos ajuda a construir relações cotidianas.


I

“Sou Nei Alberto Pies, e me assumo como professor, escritor e ativista de direitos humanos, sempre em formação. Sempre escrevi como um ato libertador. Desde a minha adolescência e juventude, escrevia para me tornar belo aos olhares dos outros (como ensinou Rubem Alves). Diante da minha dificuldade de comunicação, por sofrer de gagueira, lia e escrevia para me sentir acolhido e reconhecido em alguma habilidade, desde os colegas da sala de aula.

Aos poucos, o escrever foi tornando-se uma necessidade. Desde o ano de 2007, passei a escrever, sistematicamente, em forma de crônicas, aliando reflexão filosófica com realidades do cotidiano. Foi então que aprendi que ninguém escreve se não tiver alguém que lê o que a gente produz. Neste momento em diante, busquei espaços em diferentes plataformas (analógicas, impressas ou digitais) para publicar minhas reflexões. Descobri, ainda, que quem “escreve, pensa melhor”.

Em 2014, já com mais de 150 crônicas publicadas em jornais e revistas impressas ou digitais, criei site www.neipies.com que hoje conta com mais de 40 Convidados, dentre eles, o amigo Marcus Eduardo de Oliveira.

Escrevo porque acredito no poder das palavras. As palavras, escritas de forma reflexiva e crítica, podem nos tornar seres humanos melhores. Escrevo também para afirmar os valores de solidariedade, compaixão, espiritualidade, fé, convivência, cidadania, democracia. Deste jeito, com convicção nestas ideias (que também são ideais), coloco a minha “fé em ação”.


Como nos tornamos humanos?

Participar da Coluna “Fé em Ação” nestes últimos 07 anos é motivo de muita satisfação e alegria por poder dividir parte do que creio e do que cultivo como ser humano e como cidadão do mundo. Misturar as dimensões humanizantes com as dimensões do conhecimento do planeta e de sua sustentabilidade tem feito desta coluna da Revista MISSÕES uma referência importante para os leitores da mesma”.


II

“Sou Marcus Eduardo de Oliveira, economista, professor e ativista ambiental. Assim como você, prezado (a) leitor (a), eu também não passo de um grão de areia, habitando a Terra, esse “cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica”, para fazer uso das pontuais palavras de Carl Sagan.

Indo direto ao ponto, sem confabular com o pessimismo, o fato é que estamos num momento bastante delicado (e perigoso) em que a realidade está fazendo questão de nos dar uma lição de humildade. E mais que isso: está nos dando uma incomensurável chance de resgatarmos certos valores morais (nosso edifício cultural, por assim dizer) há muito esquecidos. Portanto, precisamos aprender. Temos necessidade de aprimorar nosso entendimento e refinar nossa percepção. Urge lapidarmos nossa cosmovisão.

Mas veja, no entanto, que, tentar dar respostas para tudo o que está ocorrendo, convenhamos, é tarefa quase impossível. Porém, não podemos nos esquivar à tentativa de procurar compreender o que se passa lá fora. Para tanto, nem mesmo é preciso muita imaginação para logo compreender que os fatos confirmam a lógica: o CONHECIMENTO – talvez a mais importante ferramenta que a humanidade conhece – se bem usado, pode ser a chave do paraíso; mas também pode abrir, dado o uso inadequado, os portões do inferno.

Por isso, para não perder a oportunidade, afirmo em alta voz que sou daqueles que acreditam que o capital cívico (isto é, as crenças e os valores que estimulam a cooperação, no qual o conhecimento se destaca) faz a diferença. E repare no detalhe: isso é algo que perceptivelmente encontra-se enraizado na cultura de certos povos.

Grosso modo, é no capital cívico que precisamos nos apoiar, uma vez que isso ajuda até mesmo a identificar as boas escolhas no campo da ação política. Com essas, goste-se ou não, temos a possibilidade de melhorar a qualidade do Estado e dos serviços por ele prestados.

Falando em linguagem simples, a coisa toda, salvo erro de interpretação, me parece, à primeira vista, bastante simples. Ouso dizer que não há segredo. No fundo, e a rigor, todos, sem exceção, precisamos de um Estado a serviço da sociedade, e não de uma sociedade a serviço do Estado. Afinal, somos nós, atores sociais, que, dia a dia, ajudamos a “construir” o Estado em todas as vertentes conhecidas.

Em última análise, o Estado depende de todos nós. Trabalho, cidadania, fortalecimento da democracia, do Estado de Direito, cumprimento dos deveres, prática da cooperação/solidariedade, estímulo à pesquisa e desenvolvimento, ampliação da ciência e tecnologia, consolidação dos valores morais, atuação político-partidária, fortalecimento das instituições. É assim que podemos consolidar nossa participação na hercúlea tarefa de “fortalecer” o Estado. Importa ter em vista, sobretudo, que a qualidade de vida – legítimo anseio dos povos – vem a reboque disso tudo. Não duvidemos dessa assertiva.

Por fim, pelas bandas de cá, e em reforço ao presente argumento, bastante simples e igualmente modesto, confesso, mas dotado de muita esperança, estou plenamente convencido de que esse conjunto de ações, chamemos assim, nos ajudará naquilo o que mais interessa aos povos, estejam esses onde estiverem: imprimir muita, mas muita qualidade ao mais universal dos mistérios, A NOSSA EXISTÊNCIA.

Juntos, e unidos, exercitando a cooperação e a solidariedade, venceremos todo e qualquer óbice. Especialmente a prática da cooperação, e somente ela, vale reforçar e não perder isso de vista, traz consigo a possibilidade de SOMAR e INCLUIR. Duas palavrinhas aparentemente ingênuas, mas com elevado poder de fazer a diferença, quero crer.

Desnecessário dizer, às claras, que o desafio que temos pela frente é enorme. Difícil contestar, do ponto de vista lógico, que precisamos agir com brevidade, uma vez que somos constantemente convocados ao entendimento de que as coisas seguem, e a nossa história, para o bem maior da humanidade e de necessários tempos de paz, não tem fim. Sigamos cooperando. Temos o dever de continuar nossa evolução moral.



Autores: Nei Alberto Pies e Marcus Eduardo de Oliveira

Como não morrer por dentro!?

A literatura, assim como todas as artes, é capaz de provocar catarses.
Vemo-nos ali, expostos e nus diante da vida. A libertação dos nossos medos, retidos na memória por anos e anos, podem ser resgatados,
tirando-nos de traumas e conduzindo-nos à cura psíquica.


Sempre percebemos quando estamos agonizando por dentro. O vazio existencial não depende de grandes acontecimentos, mas ele surge do nada.

A aridez interna dá-nos conta de que algo não vai bem com relação ao trabalho de constante crescimento a que nos submetemos, cônscios de que estamos incompletos, inconclusos. Sentimos que devemos dar continuidade à evolução da nossa alma, mas, de tempos em tempos, duvidamos de que tenhamos energia e condições para isso.


Sinto que a velocidade que usamos por acompanhar o que acontece está criando uma situação de ansiedade, quando nossa atenção é chamada ao mesmo tempo para tantos interesses.

A incapacidade de digerirmos com vagar – como deve ser -, leva-nos à precipitação em tirarmos conclusões sem sabedoria, eivadas de preconceito e carentes de embasamento.


Quando entro em estado de agonia da alma valho-me da literatura. Nenhum livro caiu voluntariamente no meu colo para ser lido, por óbvio. A caça ao que ler é fruto da minha vontade solitária, é, antes de tudo, um cuidado comigo mesma, necessitada de me aquietar e preencher o compromisso pessoal de não morrer por dentro. O processo de regeneração interior é silencioso e gradual. Um livro carrega-nos para fora, para vermos o mundo com amplitude.



“A literatura ao longo de sua trajetória vem provando que uma de suas funções primordiais é a humanização do ser, que transforma a vida através da linguagem. Porém, a literatura só exercerá completamente sua função se tiver um comprometimento social”. (Laércio Fernandes dos Santos)




A literatura, como um bálsamo, cura-nos enquanto descortina lugares que, visitados, tornam-se nossos, aos poucos. Os personagens movem-se dentro de situações que conhecemos e ajudam-nos a transcender as nossas, às vezes tão pesadas.

A literatura encerra denúncias sociais que aqui na vida real perecem não ter solução, mas que, no livro, ajudam a compreender a nossa condição humana tão marcada por injustiças e compreendemos por que, muitas vezes, agimos movidos pela cultura, da qual é tão difícil escapar.


Um livro é cheio de luzes que se acendem pouco a pouco. A alma identifica alguns desses clarões e outros só conseguimos ver quando relemos uma obra. Há livros que guardamos pela vida afora, tal a profusão de entrelinhas, sombras, nuances que encerram, fazendo-nos reféns dele.

São os livros que relemos ou deixamos ali, caso entremos em estado de agonia de novo. Há os que nos mostram que há esperança, sempre. Esses fornecem “insights” súbitos, capazes de solucionar situações até então insolúveis.


A literatura, assim como todas as artes, é capaz de provocar catarses. Vemo-nos ali, expostos e nus diante da vida. A libertação dos nossos medos, retidos na memória por anos e anos, podem ser resgatados, tirando-nos de traumas e conduzindo-nos à cura psíquica. O significado disso é imensurável.

Ao fecharmos um livro compreendemos que nos apropriamos de milhares e milhares de anos de produção. Entendemos que esse livro vem impregnado de influências e memórias infinitas. Um mundo está contido em um livro e ele passa a ser parte do nosso mundo interior.


Sempre que perguntam o que se deve ler, eu respondo: Tudo o que lhe cair às mãos! Os grandes leitores passaram por um processo natural de seleção e isso é absolutamente subjetivo.

Só podemos saber o que é bom se vivermos também o que não é bom. O processo de depuração do nosso gosto não acontece do dia para a noite, portanto, gosto dos que conseguem ter momentos a sós na companhia de um livro.

Estamos necessitando de quietude, de diálogo com nossa alma, para que ela se revigore, tenha alimento de qualidade, se liberte do que é a morte interior. O discernimento acontece quando estamos alimentados, a compaixão existe desde que conheçamos o que é a natureza humana tão bem iluminada pelas luzes da literatura.


Devemos abastecer nossas prateleiras com obras enriquecedoras, para que, agora sim, bem vivos, esperemos por algo diferente do que os noticiários tão incansavelmente vêm mostrando. E vamos lá para um clichê: Há luz no final do túnel! E há mesmo!




Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados. (Padre César Moreira)

O Cristo, este ano, não sai?

Quem contou essa história,
que o Cristo este ano não sai?
Se Ele está vestido de branco,
de azul, ou verde,  no hospital?

Quem disse que o Nazareno
não pode fazer penitência?
Se todos estão atendendo
doentes nas emergências?

Quem diz que ninguém
há de encontrar Jesus caído?
Veja-o nem cada médico
caindo exausto, rendido.

São humildes Cirineus
ajudando a cada passo:
socorristas, enfermeiras,
sem descanso, lado a lado.

Como em Jerusalém, em um jumento
entrou o Cristo montado.
Assim os caminhoneiros, noites e noites acordados,
abastecem hospitais, farmácias, supermercados.

O exército e a polícia
patrulham as desertas ruas.
Cuidam das nossas famílias
ficando longe das suas.

E eis que, também no campo,
Jesus semeia a terra, prostrado.
Cuida torres de energia, cava poços,
do mar nos  traz o pescado,
colhe hortaliças e pastoreia o gado.

Que ninguém diga que o Senhor
não está  nas ruas presente.
Quando, em igrejas solitárias,
os padres celebram missa diariamente.

Que ninguém diga este ano,
“às ruas não sairá o Crucificado”.
Enquanto há uma voz serena
falando com  encarcerados.

Ninguém fale que o Nazareno
“este ano não sairá em procissão”,
enquanto há vidas tão plenas
de amor em seu coração.

Com bom humor e sorrisos,
embora, o olhar fatigado,
é Jesus quem nos atende nos caixas
das farmácias e mercados.

Num caminhão, todo dia,
de verde e branco pintado,
Jesus recolhe o nosso lixo
e vai embora sem ser notado.

Quando vejo tanta gente
enterrando seus queridos, sem receber um abraço.
Nossa Senhora da Piedade também sai
das favelas com seu filho nos braços.

E embora nos assuste
esse isolamento sepulcral.
Na solidão, está a fortaleza
daquele que venceu todo mal.

Talvez, não será em imagens esculpidas,
queJesus virá em procissão.
Mas estará em mil faces, sem velas ou soar de sinos,
homenageado com o incenso de pessoas de bom coração.

O amor derruba os muros,
corações não têm fronteiras.
Esta será a Semana mais Santa,
de todas, a mais verdadeira.

Versão musicada por Pablo Morenno.




Poema do Arcebispo de Lima e Primaz do Perú Monseñor Carlos Castillo Mattasoglio.Tradução e adaptação de Pablo Morenno.

Reflexões & Atividades

Editamos mais de 700 publicações em nosso site desde o mês de dezembro de 2014 até o início de 2020, sendo em torno de 240 de autoria de Nei Alberto Pies e as restantes colaborações de mais de 40 pessoas ou instituições convidadas.

O propósito do site sempre foi produzir e editar conhecimentos críticos e reflexivos, que colaborem com a nossa humanização. Entendemos humanização como a possibilidade de nos tornarmos seres humanos melhores, através do conhecimento.

O público a quem pensamos e dirigimos nossas publicações sempre foram os professores e professoras, lideranças sociais, populares e sindicais, além de leitores que gostam de abordagens críticas e reflexivas da área de conhecimento das Ciências Humanas (História, Literatura, Filosofia, Sociologia, Geografia e Ensino Religioso).

As temáticas que organizam nossas publicações são, preferencialmente, Educação, Cidadania e Espiritualidade.

Queremos, agora, dar um passo além com as nossas publicações. Produziremos, inicialmente, um roteiro, com pequenas resenhas, de publicações que estão orientadas para uso, em práticas pedagógicas, inicialmente ligadas aos conteúdos de Filosofia, Filosofia e Meio Ambiente e Ensino Religioso.

A intenção e o objetivo destas primeiras publicações é que professores acessem o material e trabalhem as temáticas com seus alunos a partir de memórias/sínteses de texto ou questões elaboradas por eles próprios, nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Muitas das temáticas, com respectivos links das publicações, já seguem com “Sugestões para uma prática pedagógica”.

Agradecemos, desde já, pela apreciação, sugestões e contribuições dos professores e professoras: Valdecir Bianchi, Márcia Carbonari, Sandra Santos, Andreia Benetti Moraes, Alex Rossset e Graziela Bergonsi Tussi.

Num segundo passo, editaremos reflexões e textos com sugestão de atividades específicas em cada uma delas, com a participação de professores da área do conhecimento que já aplicaram esta atividade em suas aulas.

Se pudermos contar com a participação dos colegas professores com sugestões e críticas, ficaremos sempre gratos!


Nei Alberto Pies,
Editor do site

Padre Zezinho: religioso coerente com Doutrina Social da Igreja

Padre Zezinho é “marca registrada”
de uma espiritualidade cristã, viva,
intensa e embasada na doutrina social da Igreja.


Acompanho, bem recentemente, Padre Zezinho nas redes sociais, em sua página do Facebook (com 283 mil seguidores). Padre Zezinho é “marca registrada” de uma espiritualidade cristã, viva, intensa e embasada na doutrina social da Igreja.

Dias atrás, ele mesmo declarou que não é de direita, nem de esquerda, mas que segue a doutrina social da Igreja Católica Apostólica Romana desde Pio XI até os dias do Papa Francisco. Provavelmente, escreveu sobre o tema porque deve ter sofrido grandes pressões para definir-se sobre as conjunturas políticas de um Brasil em efervescência.




Certeza é Ilusão é uma composição do cantor, compositor, cronista urbano, professor de música e fundador do bloco Todo Mundo, Paulo Padilha.




Muitos cristãos católicos guardam uma lembrança doce, suave, evangélica e sempre profética do Padre Zezinho em muitas de suas canções que se transformaram em verdadeiros hinos para a comunidade católica brasileira.

Mais recentemente, encorajado por pregações proféticas e pelas críticas ao modo de ser igreja proferidas por Papa Francisco, percebo que Padre Zezinho, com seus 78 anos, resolveu assumir posições com relação à temas sociais da atualidade, em especial com relação aos riscos iminentes da pandemia do Coronavirus (COVID -19).

Em uma publicação datada em 28 de março, escreveu:
“Então, como creio em Deus e não entendo de dores humanas como os especialistas em virologia e dores, eu oro daqui da minha quarentena! Não me deixam sair porque sou do grupo de risco! Meus 11 sobrinhos médicos e enfermeiras e meus amigos policiais terão que ir lá e correr o risco. São jovens. Já arrisquei saúde por muitos anos quando era jovem. Agora tenho que ouvir os médicos e autoridades. Então, as críticas ferinas e o xingamentos políticos em busca de votos são mais vírus em cima de vírus na rua e na internet. Estou apagando tudo que exala ódio e raiva. Mantenho quem discorda, mas não joga veneno nos outros!

Dois dias depois, escreveu:
“Preciso desenhar o que acabo de descrever? Aos que se dizem crentes em Deus releiam o livro dos números! Está tudo na sua Bíblia! Você ainda acha que o COVID 19 não mata? Vai seguir líderes corajosos que não têm medo do vírus, ou vai ouvir e seguir os cientistas e os médicos, muitos dos quais estão arriscando a vida para salvar os que caíram vítimas desta PANDEMIA?”

No mesmo dia, postou uma charge e escreve o texto:
“A frase do presidente que chamou de moleque quem discorda dele (dia 29/3/2020) será lembrada por cientistas, médicos e religiosos que pediram30 dias de quarentena para que o coronavírus não fizesse tanto mal como fez na Itália e na Espanha!”.


Esta publicação gerou a maior polêmica e suposta “decepção” de centenas ou milhares de seus seguidores, como também de manifestações de apoio a sua corajosa publicação. Em um dia de postagem, esta publicação obteve 7100 curtidas, 3000 comentários e 2100 compartilhamentos.

Que tipo de cristãos a Igreja Católica vem formando ao longo das últimas décadas?

Lendo algumas centenas de comentários de seus seguidores, sobretudo os mais críticos, ácidos e estúpidos, vieram-me a mente algumas indagações:

  • Por que a opinião de religiosos em temas atuais geram tanto “frisson” entre os seguidores, sobretudo quando questionam a atitudes incoerentes de autoridades como as do presidente Bolsonaro?
  • Por que a Doutrina Social da Igreja ainda é tão pouco conhecida pela maioria dos católicos?
  • Qual é a origem de tanto ódio, raiva e estupidez, justamente propagada entre cristãos que tem sua vivência baseada no amor (inclusive no amor aos inimigos)?
  • Podem, e devem, os religiosos manifestar opiniões sobre a conjuntura atual do Brasil (que chamamos de efervescência e incerta no início desta reflexão)?
  • A atual politização da COVID -19 não trará sérios prejuízos ao enfrentamento e combate a esta pandemia no Brasil?

Que tipo de cristãos a Igreja Católica produziu nestas últimas décadas? O que penso sobre é que um religioso de relevância como Padre Zezinho tem de estar na frente de seu povo, para profetizar verdades, não para “adular” ilusões. O seu post teve um tom profético!

Por fim, desejo publicar a genial e corajosa reação do próprio Padre Zezinho (em 30/03/2020).


PADRE, VÁ ORAR E CANTAR

Na minha página de Facebook, os que me aconselharam a orar, eu já fazia. Quem me aconselhou a “apenas” ora, eu ignorei. Quem me disse que padre não deve opinar sobre grandes problemas sociais, como é o caso da atual pandemia e outras epidemias, e graves enfermidades que atingem nosso povo, tentei explicar.
Quem escolheu agredir, caluniar e mostrar que primeiro pensavam no partido e na ideologia e que a fé em Cristo vinha depois, primeiro expliquei e depois os excluí da minha página.
Eles têm outros padres e outros leigos e outras páginas que também falam de política de esquerda ou de direita e também oram muito. Mas raramente ensinam Doutrina Social. Se ensinam não olham para todos os ângulos e todos os lados!
No meu caso, eu oro como padre e ensino o que está escrito desde o Vaticano II, nos mais de 100 documentos de cunho social da nossa Igreja e ensino o que ensinaram os Papas, desde Pio XI até Francisco de Buenos Aires, todos eles inspirados no santo Francisco de Assis que não apenas orou.
Além disso, desde 1964, mais da metade das minhas canções falam de oração , de doutrina social, de política e de espiritualidade . Eu li tudo o que a Igreja tem dito desde em que fui ordenado padre. Estou obedecendo nossa Igreja!
A eles respondo: Vá ler a doutrina social da nossa Igreja ! Eu li !

(Pe Zezinho scj)




“Temos todos o direito e o dever de discordar, de quem quer que seja, quando a estupidez, a arrogância e a mentira agridem a nossa inteligência, sabedoria e ponderação.  A gente até suporta, silenciosamente, até um certo ponto, mas a reação da racionalidade se impõe. A cultura de ódio, perseguição e mentiras cega toda a sociedade, manipula as mentes e nos transforma em “robôs”, repetidores de inverdades e frases prontas”. (Nei Alberto Pies)

Valorizar a vida e prestar solidariedade aos imigrantes

“Nem tudo está perdido!
Ainda podemos acreditar
na humanidade, Laercio”.


Ouvi, e ainda ouço, muitos comentários em relação à morte que poderá ser provocada pelo vírus. O que assusta é que são comentários tão desumanos, ao extremo. O que está acontecendo com o “ser humano”?

“Condição de ficar parado assim, afeta as consequências que nós vamos ter economicamente no futuro, vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora. Eu sei que nós temos que chorar, vamos chorar cada uma das pessoas que morrer”. “Pessoas morrendo é muito triste, 15000 mortos para 7 bilhões de pessoas no mundo é um número muito pequeno.” Quanto vale a vida de uma pessoa?

 “Por conta de 5 mil pessoas ou sete mil pessoas que vão morrer, eu sei que é muito grave, eu sei que isso é um problema, mas muito mais grave é o que vai acontece no Brasil com a economia.”

Em meio às atrocidades blasfêmicas que ouvimos, ainda encontramos outros gestos que ainda nos fazem acreditar no “ser humano”, como humano.

Ano passado, no Instituto Estadual Cecy Leite Costa, deparei-me com uma situação que exigiu de mim, mais do que ser um professor, ser um verdadeiro ser humano, que vê no outro o seu semelhante. Entrei para dar aula num 3º Ano, observei que 3 alunos não eram brasileiros. Eu poderia fazer como muitos: eles que se virem, quem mandou sair do Haiti para morar no Brasil? Darei minha aula de Língua Portuguesa e se eles não aprenderem, o problema é deles.




“As histórias se repetem: fome, pobreza, perseguição política ou religiosa, medo, violência, ou alguma razão semelhante faz com que as pessoas abandonem sua casa, seu país, suas raízes e parte de sua família para viver em outro lugar”. (Tatiana François Motta)




Logo de cara, percebi que o Obelsone dominava muito bem a Língua Inglesa, além do Francês e do Criolo. Logo para esse comecei dar uma atenção especial e quando não entendia em Português a explicação, falava em Inglês para, que de fato, ele entendesse a estrutura linguística do Português. Em contra partida, ele me ensinava o Francês e me ajudava comparar com a minha língua materna na forma estrutural.

O Jean falava muito bem espanhol, como domino esta língua muito bem, foi moleza para explicar a estrutura do Português em espanhol, para que ele entendesse.

O Youmenson , dominava um pouco de Inglês, Francês e Criolo.

Com o passar do tempo, percebi o entusiasmo e a força de vontade que ambos traziam para suas vidas, que acabava me motivando, enquanto ser humano, que por vezes, devido ao sufocamento provocado pelo governo à nossa profissão, estava desanimado, porém, logo era esquecido, tomando como exemplo de vida, suas vidas.

Sem dúvida, eles entendiam muito bem o Português, porém percebi que precisava inserí-los ainda mais na língua e na sociedade. Foi aí que levei a minha inquietude a minha Orientadora , Professora Dra. Marlete Diedrich, da Universidade de Passo Fundo, e juntos desenvolvemos um projeto de inserção na sociedade brasileira e convocamos outros pesquisadores da linguagem para formar encontros intitulado Ateliê de Conversação. Nossos encontros foram para aflorar as línguas. As discussões se deram em espanhol, francês, inglês e até em criolo.

Envolvemo-nos tanto, que fomos aos bancos resolver questões financeiras, procurar trabalhos, no fórum para organizar papeis de casamento, visitar as condições de trabalho deles, visitas em TVs e Shopping. Acreditamos no humano, por isso, fizemos isso. Somos irmãos. Foi uma experiência humana fabulosa, na e pela linguagem.

Nesse ano, 2020, estou eu numa sala de aula do Instituto Cecy Leite Costa, num relance, observo meu Diretor Rodrigo Gomes Rodriguês, ofegante na porta da sala: – Laercio, me socorre! Estou com um pai e uma filha na minha sala e não estou entendendo nada. Aí, desço. Encontro seu Jose Gerardo Gonzalez e sua filha Gerliennys, da Venezuela.

Logo estabeleço um diálogo, descobrindo que eles já tinham o documento da Central de Matrícula e era só encaminhar à secretaria a matrícula. Percebo que a aluna estava numa das 11 turmas do primeiro ano, porém não era a que eu lecionava. Dessa forma, solicito ao diretor que a colocasse na turma da qual lecionava Língua Portuguesa, assim se tornaria mais fácil explicar a estrutura, visto que dominava as estruturas linguísticas das duas línguas.

Passei acompanhar a aluna em eventos da escola, a fim de permitir a tradução e que ela pudesse entender. Na sala, sempre acompanhava explicando a ela a estrutura das línguas.

Foi numa aula onde explicava que no português há sempre a contração do artigo e da preposição, diferente do espanhol. Viro-me para ela e digo que seria importante ela anotar com uma caneta diferenciada. Ela me olhou e disse: –  Professor eu só tenho essa caneta preta, aliás não tenho material, além dessa caneta e desse caderno. Aí estabeleci um diálogo, foi quando me falou que era difícil, pois seus pais estavam sem trabalho. Aquilo me chocou!

Cheguei em casa e relatei o fato a minha Sobrinha e afilhada Isadora dos Santos, sem pretensão nenhuma. No outro dia, ela chegou me dizendo que havia mobilizado todos os terceiros e segundos anos do Colégio Estadual Fagundes dos Reis, escola estadual na qual estuda, recolhendo dinheiro junto a uma colega, Évelyn Giovanna e que, no outro dia, iriam comprar material para a minha aluna venezuelana. No total, juntaram cento e poucos reais. Na semana seguinte, fizemos a entrega para a aluna, que emocionada, chorou e disse: – “Vocês são muito bons”!

Agradeço a Diretora Do Fagundes Cleopatra e sua Vice Taís que além de abrir espaço para este gesto humano, ajudaram com alguns reais também. E finalizo esse texto, usando uma frase da nossa Orientadora Educacional, Ana Van Groll: – “Nem tudo está perdido! Ainda podemos acreditar na humanidade, Laercio”.




“O direito de migrar é universal. Nenhum ser humano é ilegal. É dever do Brasil, signatário de vários tratados internacionais que reconhecem esse direito, garantir a segurança e os direitos dos migrantes no país. A face cruel do capitalismo não irá barbarizar nossa humanidade”. (Setembrino Dal Bosco)

Tempos de assombro

Se a Peste Negra trouxe  grandes  alterações  sociais 
e  contribuiu  para  acabar  com o sistema  de 
servidão imposto  aos  camponeses  à  época,
o que provocará  o  Coronavírus   na  economia,
na sociedade e na política ?


Todos nós  estamos  assombrados diante  da pandemia  do coronavirus. O que líamos nos  livros  de  história está acontecendo  no  aqui e agora. E, como no  passado, buscamos culpados, bodes  expiatórios.

Quando  da Peste Negra, na  Idade Média, judeus  e  leprosos  foram  acusados pela  pandemia,  embora tanto  judeus  como  leprosos  adoecessem  e morressem da peste.

Hoje,  os  chineses  são  vistos  como  os  vilões da história.  Há  até  quem acuse a China  de  ter “fabricado” o vírus  com  fins  econômicos, num  disparate  fruto da ignorância ou  má-fé.

A historiadora Cybelle de Almeida, da  UFRGS, assevera que  as  razões  de  tal  parvoíce vão  desde  questões políticas  a elementos  da psique humana, provavelmente um traço  infantil  que  permanece  em alguns  indivíduos  mesmo durante a idade  adulta.  Isto é, encontrar uma forma de explicar  o inexplicável,  através  de  fórmulas  fáceis, reducionistas e falsas.

Trata-se  de  um atestado de ignorância  histórica. Casos como os  do coronavírus assim existem  e  são registrados  desde  a Antiguidade  e, já naquela  época, várias  epidemias  tiveram sua  origem  naquela  região do planeta.

As teorias da  conspiração  beiram ao ridículo.




“Numa época em que todos se acham profissionais de mídia, circulam as mais absurdas idiotices. É a pulverização da desinformação que ocupa o espaço da verdadeira informação. Isso confunde as pessoas e pode ser letal”. (Luiz Carlos Schneider)




A ciência  explica  que  muitas  doenças  surgem  do contato  próximo entre  humanos  e  animais – típico de  sociedades  agrícolas – e  se  espalham mais  rapidamente  onde há grande  concentração de  humanos. A China  é assim  há  séculos. Daí o fato de que a maior parte das  epidemias  lá  surgem,  como a  de  agora.

Mais. É preciso considerar a falsa noção de riqueza  da sociedade  de  consumo do  século 21.

Ao afetar o sistema  respiratório, a  ciência  aponta, igualmente,  a poluição  e a  contaminação  do ar  como  geradores  da peste. Tudo  começa na China, com a mineração  cobrindo de cinzas  cidades  e campos.  Agora, na  Itália, o núcleo  é Milão, na  região “mais  rica” e poluída  daquele  país.

Em  busca do  lucro rápido,  a  saúde  pública  foi  descuidada.  As  consequências  econômicas  serão terríveis. Estudos  da OIT indicam que  a pandemia  pode causar  mais  demissões  do que a crise  financeira  global de  2008.  Então, 22 milhões perderam o emprego.  Agora, serão  de  5  a 25 milhões.

As vagas precárias, que pagam  pouco  e exigem muitas  horas, se espalharão. Depois da pandemia, 35 milhões  de  brasileiros  serão  engolidos pela pobreza.

Se a Peste  Negra trouxe  grandes  alterações  sociais  e  contribuiu  para  acabar  com o sistema  de  servidão imposto  aos  camponeses  à  época, o que provocará  o  Coronavírus   na  economia, na sociedade e na política ?  Quem  viver,  verá!




“A lógica da peste é verdadeira. Temos aqui e agora, tal como entre os personagens da narrativa, o flagelo real, embora pensemos, tal como Camus, que nem a desgraça é eterna. Temos uma certeza, que é o cumprimento da tarefa diária de cuidado com a gente mesma e com os outros. Estamos intimados a sermos sérios, responsáveis e solidários”.  (Cecília Pires)

As galinhas e o galo covarde

Cansei de falar de política.
O assunto tem me deixado muito irritado.


Para o bem da minha saúde, vou contar para vocês uma fábula: havia um galo, covarde, parasita, sanguessuga, que através da força bruta e da intimidação psicológica, assumiu o controle do galinheiro. Isto só foi possível acontecer graças a meia dúzia de galináceos milicianos que eram aparelhados pelo galo e a um acordo macabro feito com as raposas.

O acordo continha apenas dois termos: 1º – as galinhas produzem as riquezas e eu divido com vocês raposas; 2º – aquelas galinhas que se revoltarem contra minha autoridade serão entregues a vocês para servirem de exemplo. Tendo as raposas por trás de si a aterrorizar o galinheiro, o galo despótico continuava seu regime de terror.

Um dia uma galinha desovou uma ninhada de belos pintinhos amarelinhos. Em alguns dias um dos pintinhos adquiriu uma peste, a bouba aviária.

A galinha mãe preocupada com um dos seus filhotes, procurou o galo covarde, parasita, sanguessuga para solicitar mais atenção e cuidados com sua ninhada. O galo despótico não apenas ignorou a solicitação da galinha mãe como, para servir de exemplo, entregou o pintinho contaminado para servir de janta as raposas.

O que ele não sabia é que a peste já havia contaminado os demais pintinhos da ninhada e, aos poucos, um a um foram apresentando os sintomas da peste.

O galo e seus milicianos não tiveram dúvidas: entreguem todos os pintinhos pesteados às raposas. Esta decisão causou uma revolta enorme no galinheiro. As galinhas se uniram e foram para o enfrentamento contra o galo e seus milicianos.

A batalha durou semanas. Ao término, o galo e seus comparsas foram defenestrados do galinheiro e posto pro lado de fora onde, devido à duração da pendenga, raposas famintas os esperavam. Moral da história: FOORA BOLSONARO E SUA CORJA! Desculpem, não aguentei, precisei falar de política, no final!

Covid-19: crise econômica e resiliência

No momento, a racionalidade lógica e ciência são
realmente a direção que a humanidade deve seguir e respeitar.
Pesquisas científicas nos ajudam a entender o que está
acontecendo com o mundo, bem como orienta o
povo a trabalhar na prevenção e solução para o problema.


Em meio a mais nova pandemia, causada pelo vírus corona Covid-19, um colapso econômico global está se instaurando. Muitos perguntam o que está acontecendo com o mundo e como sobreviver a essa crise de saúde, financeira e individual. Sabe-se que a origem do Covid-19 foi na China, onde o vírus mutou de seu hospedeiro original – o morcego para seu novo hospedeiro – o ser humano.

Muitas são as hipóteses das causas dessa busca de um novo hospedeiro, desde um ato evolucionário espontâneo até mesmo suspeitas de conspiração com interesses políticos utilizando engenharia genética. Vale lembrar que a degradação dos ambientes naturais e da caça de animais silvestres para consumo humano facilita o contato entre vírus e seu novo hospedeiro – ser humano.

Independente da origem, o Covid-19 fugiu do controle das autoridades globais e representa um risco de colapso ao sistema de saúde, como observado na China, na Itália e atualmente nos EUA. Com rápida tiragem de cópias e resistência a vários substratos, o vírus infecta de maneira exponencial com consequências mais graves não só a população idosa e imunocomprometida, mas agentes de saúde e população em geral também.

Contudo, o mais grave em tempos de pandemia é o comportamento individual do ser humano independente de raça, etnia e localização geográfica. Há uma escassez global de papel higiênico e álcool gel. Imagens de pessoas adultas com maior poder aquisitivo enchendo seus carrinhos e deixando a população vulnerável à deriva, tornaram-se comuns.

Muitos questionam se o poder do covid-19 é real ou se o pânico fortalece a pandemia. O medo é um dos maiores problemas da humanidade. Palavras impensadas de cunho racista, políticas de emergência provisórias e quarentena são comuns nesse momento.

O bem-estar e a saúde da população devem ser prioridades, mas com empresas fechadas muitas pessoas perderam seu emprego e estão sujeitas a passar fome, além de tudo isso. Muitos americanos perderam suas aposentadorias porque o mercado das ações está em baixa.

Porém, essa é a chance da humanidade, como um todo, se redimir.

Nos tempos de quarentena forçada, como no exemplo da China, com fábricas e fronteiras fechadas, menor utilização de transporte contribuíram para que houvesse uma queda significativa nas emissões globais e o ar está mais leve. Em termos de poluição desenfreada que contribui para o aquecimento global, o mundo está sendo forçado a desacelerar. 

O mais interessante é que a solidariedade, devagarinho, mostra a sua cara novamente. Vizinhos com material extra, precisamente, papel higiênico, deixam pacotes na entrada de outros vizinhos (aconteceu comigo aqui nos EUA). Costureiras estão doando o seu tempo para confeccionar máscaras hospitalares para profissionais na linha de frente. Além do mais, quem tem reservas financeiras está doando seu salário a quem não tem.

Algumas estimativas apontam que dentro de um ano e meio, o Covid-19 esteja sobre controle, mas o mundo jamais será como antes.

Esse período de quarentena nos faz repensar nossas atitudes e uma reflexão interior é sempre benéfica. Porém, infelizmente muitas vidas estão sendo levadas pelo Covid-19. Que essas vidas já levadas não sejam em vão. Que sirvam para que entendamos que não podemos controlar tudo, ambiente e demais seres humanos, sem consequências.

A humanidade pode se beneficiar do entendimento que há forças que não podemos controlar, que há um plano maior em questão. Independente de partido político e religião ou da ausência da mesma, creio que temos que acreditar em algo maior do que nós mesmos. Se acreditarmos em um plano maior ou força maior, tiraremos um peso dos ombros porque há circunstâncias que não podemos controlar. Alguns chamam essa força superior de Gaia – a mãe natureza, outros do poder do Universo, mas eu a chamo de Deus.

No momento, a racionalidade lógica e ciência são realmente a direção que a humanidade deve seguir e respeitar. Pesquisas científicas nos ajudam a entender o que está acontecendo com o mundo, bem como orienta o povo a trabalhar na prevenção e solução para o problema.

A ciência se preocupa com os fenômenos naturais, o que não consegue ser explicado pela ciência pode ser dito como sobrenatural e deve ser deixada para o campo espiritual. A lei moral, intrínseca e inerente em situações de certo e errado ou como realmente foi a origem do universo via Big Bang, (já que a autogênese divide a opinião de muitos) são exemplos de questões onde alguns cientistas encontram o elo com a religiosidade.

O valor da ciência não deve ser questionado, mas para fortalecer nosso cotidiano, nos ajudar a levantar da cama com esperança de algo melhor, para sermos melhores com o próximo, para levantar a cada queda e para superar crises de depressão precisamos de algo além da razão… precisamos de fé. A fé não pode ser racionalizada, tem de ser experenciada. Temos que acreditar que vai dar certo mesmo que não entendamos o processo ou direção.

De uma experiência pessoal de fé

Vou agora ilustrar uma situação real. Muitos já leram parte da minha história no artigo anterior – “O que se pode esperar de uma criança da vila”, onde relatei como passei a ser pesquisadora nos EUA, apesar de ter nascido em família humilde no interior do Brasil. Agora relato minha segunda experiência drástica aonde a fé tornou-se a mola propulsora de minha vida.



“Fui uma criança da vila, estudei a maior parte da minha vida em escolas públicas e, com muito esforço, tornei-me professora da rede municipal de Passo Fundo -RS. Uma vida muito corrida, lecionando em várias escolas. Em 2004, consegui uma bolsa para fazer Mestrado em Educação na UPF  sob orientação do Pe. Eli Benincá”.




Meu marido tinha um bom emprego no estado de Washington, assim como eu. Tínhamos duas meninas para cuidar então e uma terceira na minha barriga. Felicidade era a palavra do momento até que meu marido se envolveu em política na região e sofreu retaliação tremenda.

Ele se identifica com as massas e pensou que poder de livre expressão nos EUA impera. Pura ilusão. Imediatamente ele foi forçado a abandonar o emprego e comprometeu o meu também. Além disso, não conseguia outro emprego porque recebeu essa marca política partidária. Uma família prestes a ter cinco pessoas e as economias esgotando… Com oito meses de gravidez, ajoelhei-me no chão de madrugada e clamei para que uma porta se abrisse.

No outro dia, a resposta, recebi uma ligação para realizar trabalho de campo na agronomia. Sou bióloga geneticista e professora universitária, mas não tinha escolha, tinha que aceitar a pesquisa. A porta aberta foi essa. Com uma barriga enorme e dores que uma mulher prestes a ganhar nenê sente, fui contratada entre 150 candidatos, a maioria homens brancos e jovens. Mas mesmo assim, a preferência foi dada a uma mulher latina e grávida. Logo, iniciei visitas de campo por todo os EUA, Canadá e Nova Zelândia, selecionando variedades, abaixando e levantando, até que o nenê nasceu prematuro.

Tive duas semanas de licença não-remunerada e apesar de ter cesariana, voltei a campo, afinal nos EUA tempo é dinheiro… tive que deixar em casa minha bebezinha recém nascida e suas irmãs com o pai delas, que estava passando por depressão. Não havia alternativa. Meu marido, ora agnóstico ora ateísta, entrou em depressão por empilhar o peso do mundo em seus ombros. Afinal, na opinião dele, somente fatos observáveis são acreditados e assim sendo, não há um plano maior.

Quem é mãe sabe da dor de estar separada de seu bebê recém nascido ou suas crianças, mas entende que deve lutar para dar o melhor a sua família. Mágoa, dor, arrependimento, medo, raiva, vontade de largar tudo foram experiências muito comuns durante o momento. O que me deu força para levantar todo dia e encarar a situação foi minha fé, a crença no superior e no plano maior.

Como cientista, procuro diariamente ler e entender outros cientistas na sua jornada com a fé. Como cristã, procuro ser uma pessoa melhor a cada dia e isso me traz paz e um estado de felicidade interior imensa. Sei que Deus está comigo. Essa situação que relatei anteriormente ocorreu há quase dois anos atrás e aprendemos a nos ajustar como família, estamos felizes e saudáveis.

Meus caros leitores, que me acompanharam até aqui, eu imploro que vocês ouçam a ciência, mantenham-se saudáveis e utilizem medidas preventivas contra a pandemia do Covid-19. Mas, por favor, acima de tudo, desenvolvam sua espiritualidade e acreditem em algo maior do que vocês mesmos e que há um plano superior. Tudo vai dar certo e vamos sair dessa crise mais fortalecidos do que antes, como humanidade e como planeta.



Na Itália, vizinhos chegam à janela no fim da tarde e cantam em coro. Igrejas, mesquitas, sinagogas, abrem suas portas a quem vive na rua e necessita de cuidados higiênicos. Enfim, são inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados. Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco. 
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