Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.
A gente morava ali onde o mundo se dividia em duas esquinas de Passo Fundo. De um lado, a uma quadra, o Protásio Alves; do outro, bem na frente, o Conceição. Eu era o filho adotivo, o menino que trazia no sangue um mapa que ninguém sabia ler, mas que minha mãe e minha avó desenhavam com o suor da cozinha do colégio, nos tempos em que o Conceição ainda era internato. Foi ali que elas costuraram minha bolsa de estudos, entre o cheiro de feijão e o vapor das panelas grandes.
Mas aí veio o Sarney. E com o Sarney veio aquela dança louca de moedas que sumiam antes que a gente pudesse aprender o nome delas. Para piorar, resolvi brigar com o filho do médico. Ele me batia sempre. Um dia cansei, reagi, e os irmãos maristas — que de caridade tinham apenas o verniz — decidiram que a heresia de enfrentar a elite da cidade custaria a minha bolsa.
Fui jogado no Protásio Alves. No primeiro dia, a civilidade do Conceição desmoronou: um guri, no pátio, batia nos outros com uma mangueira de borracha preta. Era o caos cinza de uma escola pública no fim dos anos oitenta. Uma loucura mental. Mas o ser humano se adapta ao cimento quente. Fiz amigos.
Aí veio o verão. São Francisco de Assis, a praia de água doce, o sol estalando na pele e meus primos correndo. Minha mãe, com aquele olhar que só as mães que adotam de corpo e alma possuem, parou e olhou para a minha perna esquerda.
— Tá entortando — ela disse, baixinho, como quem descobre uma rachadura no vidro da janela.
De volta a Passo Fundo, começou a via-crúcis. Mais de vinte médicos. Um terrorismo silencioso nos consultórios. Falavam em cortar os nervos, em encurtar a outra perna. Um guri na cidade já tinha perdido a perna por causa daquilo. Mas minha mãe tinha uma teimosia sagrada, dessas que dobram o destino. Disse não para todas as lâminas e serras, até que um médico propôs uma cirurgia experimental: enfiar um pedaço de osso entre a minha tíbia e o perônio.
Deu certo. Mas o preço eram dois meses de gesso e imobilidade no inverno. Como eu era gordo, as muletas eram minhas inimigas. Perdi as aulas, a matemática virou um deserto de números incompreensíveis, e eu rodei de ano. Três invernos seguidos, três cirurgias, o cheiro de flores da janela do quarto, a TV de tubo ligada e as pilhas de gibis.
Num desses invernos, alguns colegas do Protásio foram me visitar. Lembro deles sentados na beira da cama, rindo de piadas que eu não entendia, com os olhos parados, brilhantes e vagos no escuro do quarto. Eu era ingênuo demais para sacar o que era aquela lentidão. Para passar o tempo, comecei a desenhar minhas próprias histórias em quadrinhos. Criava mundos onde as pernas não dobravam e as pessoas não tinham os olhos estáticos.
Anos depois, o desenho virou realidade quando um amigo resolveu se candidatar a vereador. Saí do quarto para a campanha. Era preciso encarar o vento da rua. E foi aí que reencontrei a turma que tinha se perdido no final dos anos oitenta.
A notícia veio como um sussurro de vento sul: estavam quase todos com o “bichinho”. O HIV. Na virada da década, a moda entre os drogados mais velhos era a cocaína injetável. Em algum apartamento em frente a Padaria Cruzeiro, eles compartilharam a mesma seringa. Uma comunhão maldita. Todos se contaminaram. Até o guri que batia nos outros com a mangueira de borracha no Protásio tinha pego, mas ele já estava perdido demais na droga para conseguir socializar.
E no meio de toda aquela poeira, brilhava o Sol.

O Sol tinha cabelos cacheados, longos, uma aura de anjo decaído. Ele pintava à mão as faixas de lona da campanha do nosso candidato. Foi ele quem me levou para o Barril 2000, no Boqueirão. Era um redemoinho. A gente ficava na calçada, bebendo cerveja, tocando violão e gaitas de boca, berrando as letras dos Cascaveletes, do TNT, do The Doors. Uma urgência de viver que parecia pressentir o fim do estoque de oxigênio.
— Onde é que tu anda indo, guri? — minha mãe perguntou um dia.
Antes que eu respondesse, o rádio na cozinha anunciou: um grupo de jovens tinha desenhado uma cruz com gasolina no asfalto perto do Barril 2000 e ateado fogo de madrugada, causando um acidente.
— Não são teus amigos, né? — ela me olhou, desconfiada.
— Claro que não, mãe.e
Era mentira. Eram eles. E o Sol estava lá, rindo, com aqueles cachos imensos onde, às vezes, ele escondia um baseado para mais tarde.
A campanha acabou, quase vencemos. Passamos a nos refugiar no New Kids, rock ao vivo na veia, bebendo até o dia clarear e o céu de Passo Fundo ficar daquela cor de chumbo úmido. Foi numa dessas noites que alguém encostou no meu ombro e soltou:
— O Sol tá com o vírus.
Ele e a Babu. Mas a doença, naqueles tempos de AZT que parecia veneno, não tirava o magnetismo do Sol. No meio da pista, as gurias — grunges de camisas xadrez, hippies de saias longas — cercavam o Sol e a Babu. Abraçavam, beijavam no rosto, num carinho desesperado, mas ninguém transava por medo de se contaminar.
O Sol era da umbanda. Tinha uma regra sagrada: ninguém podia tocar no topo da cabeça dele.
— Se encostar no meu cabelo, o espírito passa — ele avisava, sério, com aqueles olhos imensos.
Quando ele caía de cama e ia para o hospital, a salinha de espera virava uma filial do New Kids. Trinta, quarenta pessoas sentadas no quarto, esperando o Sol voltar a brilhar. E ele voltava. Parecia indestrutível.
Aí a vida deu o seu tranco. Virei jornalista, mudei de rotina, as madrugadas de cerveja barata foram substituídas pelas últimas máquinas de escrever e pelos primeiros computadores na redação. Nos afastamos.
A última vez que vi o Sol, ele passou por mim. Dirigia um carro. Estava bonito, ao lado de uma namorada. Tinham ido morar em Santa Catarina; ela também era soropositiva. Parecia que tinham encontrado um pacto de silêncio e sal com o mar.
Na virada do milênio, dezembro de 1999, eu estava em casa, tenso com o tal do Bug do Milênio, com medo de que os computadores ficassem loucos e o mundo parasse de funcionar à meia-noite.
O mundo não parou. Mas, logo depois, no calor abafado do verão de Passo Fundo, cruzei com um amigo de adolescência na calçada.
— Tu soube? O Sol morreu.
Foi seco. Sem aviso, como o clique de um disjuntor que desliga a luz de um quarto inteiro. A gente sabia que ia acontecer, mas quando acontece, o silêncio que fica é maior do que a nossa capacidade de entender.
Hoje, às vezes, quando a tarde cai e o vento minuano sopra entre a Protásio e o Conceição, eu converso com o Sol. Lembro da nossa última despedida real. Num descuido dele, ou talvez num milagre de consentimento, eu estiquei a mão e toquei no topo daquele cabelo fofo, cheio de cachos. Toquei bem de leve, no meio do redemoinho.
Desconheço se o espírito dele passou para mim. Mas sinto que, desde aquele dia, uma parte daquela luz frenética e perigosa dos anos noventa continua acesa, bem aqui dentro, insistindo em não apagar.
Autor: Leandro Dóro. Também escreveu e publicou no site “Amazônia Tupã”: www.neipies.com/amazonia-tupa/
Edição: A. R.











