Apresento memórias e vivências que tive junto ao Museu Ruth Schneider em Passo Fundo, RS.
Eu trabalhava como chargista do jornal O Nacional quando consegui entrar na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Tânia Rösing, uma das organizadoras, me deu a oportunidade. Mais do que isso: ofereceu-me um lugar na primeira fila na noite do show de Arnaldo Antunes.
“Seu olhar melhora o meu”, ele cantava.
Toda a juventude da cidade parecia ter ido parar naquela sessão de autógrafos. Depois, saímos a pé, ainda emocionados, atravessando a noite de Passo Fundo.
Meses depois, o telefone tocou no jornal.
Tânia e Roseli Preto estavam fundando um museu de artes. Eu seria o primeiro funcionário.
Chegou janeiro e pedi demissão do jornal. Tinha sido meu primeiro emprego, mas eu entrara aos dezessete anos e, apesar do tempo, continuava sendo tratado como guri. Eu já não sentia ali o respeito que achava ter conquistado.
Pensei que a vaga no museu sairia imediatamente.
Não saiu.
Os meses passaram. Nesse intervalo, trabalhei na editora Aldeia Sul, de Ivaldino Tasca, sem receber salário, e fazia aulas de informática na UPF para me preparar para o futuro cargo. Era como se eu já estivesse trabalhando para um lugar que ainda não existia para mim.
Até que, um dia, fui chamado para uma reunião com Tânia. A reunião durou exatamente dois minutos.
Entrei na reitoria da UPF. Tânia estava lá. Com sua voz trovejante, disse apenas:
— Doro, passa no setor de pessoal.
E era isso.
No setor de pessoal, porém, a recepção foi menos entusiasmada. A funcionária fez questão de deixar claro que não gostava da minha presença e que preferia outra pessoa para a vaga.
— Tu vais entrar, mas eu tinha alguém melhor para o posto.
Foi um baque. Por alguns instantes, pensei que talvez ela tivesse razão. Talvez eu não fosse mesmo a pessoa certa.
Quando cheguei ao museu, Regis Kohler terminava os espaços de exposição. O lugar se chamaria Museu de Artes Visuais Ruth Schneider — o MAVRS —, em homenagem à artista passo-fundense que havia levado sua pintura até o Japão.
Conheça Museu de Artes Visuais Ruth Schneider: https://www.upf.br/mavrs/
Naquela época, Ruth convivia com uma doença grave e sabia que lhe restavam poucos anos de vida.
Num dia, eu estava com Denise Aparecida ajudando a montar as peças quando alguém foi embora e nos esqueceu lá dentro. Ficamos trancados no museu. Tivemos de gritar pela janela até que alguém percebesse nossa existência e viesse nos salvar.
Em outra ocasião, eu ajudava André Piasson a organizar os arquivos históricos. Foi quando descobri que ele escrevia sobre a revolta dos motoqueiros. Anos mais tarde, aquele assunto voltaria à minha cabeça e acabaria virando livro.
Outro dia, um segurança, irritado com os gritos de uma criança durante uma visita, levou o menino ao banheiro.
– Se tu não calar a boca, corto teu pinto.
O garoto saiu correndo e chorando. O segurança acabou demitido.
Tinha também a Tânia, museóloga, que no estilo de Roseli organizava aquele prédio de dois andares que um dia tinha sido intendência municipal e agora no térreo abrigava o museu de história e no primeiro andar o de artes, com seu piso de madeira rangendo e paredes de meio metro.
Mais tarde, entrou uma estagiária de História ligada à Convergência Socialista. Quando soube quanto eu ganhava, cismou que havia alguma coisa errada. Para ela, eu era uma espécie de fraude: um funcionário efetivo que ganhava mais do que uma estagiária.
A lógica salarial era simples. A minha autoestima, nem tanto. Aquilo me abalou.
Para piorar, como eu ajudava a contar a história da cidade, alguns estagiários de História implicavam comigo. Diziam que apenas eles poderiam conduzir as visitas. Eu era um historiador amador, e isso parecia ser um crime.
Mas Roseli gostava de mim.
Muito.
Às vezes, voltávamos a pé para casa. No caminho, ela me dava conselhos.
— Doro, não faça faculdade de Artes. Tu é filho único, precisa ganhar dinheiro.
Roseli também me contava como conseguia recursos para manter o museu. Visitava a elite da cidade, sentava diante dos homens importantes e, sem muitas cerimônias, dizia:
— Assina o cheque.
Era assim que ela fazia o museu acontecer.
Ruth era outra coisa. Uma mulher de extrema simplicidade, quase uma personagem de si mesma. Certa vez, contou:
— Quando eu via uma placa escrita “Curso de Desenho e Pintura”, pensava que era para maquiagem e manicure.
O pai dela havia sido taxista do Cassino da Maroca e Ruth transformara em pintura a memória daquela boemia de Passo Fundo dos anos 1940 — um mundo de mulheres, traficantes de pneus, noites intermináveis e orquestras que vinham de Buenos Aires para tocar até a madrugada.

Ruth pintava uma cidade que já começava a desaparecer.
Eu também acabaria desaparecendo do museu.
Fui demitido, acuado pela pressão dos estudantes e profissionais de História. Nunca conte uma história sobre a história se não for formado em história. Acho que a lição foi essa. Desrespeito até hoje.
Uma semana depois, eu já era jornalista do Diário da Manhã. O editor, Álvaro Dalmagro, bateu à minha porta e perguntou se eu queria o cargo.
Fui correndo chamar minha mãe.
— Viu, mãe? Tu dizia que ninguém ia bater na nossa porta para oferecer emprego? Tá aí.
Saí do museu, mas não saí da vida de Roseli.
Mantivemos uma excelente relação. Ela me transformou em seu principal assessor de imprensa e passou a me convidar para todas as exposições.
Roseli tinha uma amizade forte com Maria Tomaselli e trazia para Passo Fundo nomes importantes das artes, como Britto Velho, Vasco Prado, Paulinho Chimendes e tantos outros.
No pátio do museu, havia uma escultura de Gustavo Nackle: um jacaré envolvido por uma cobra cuja cabeça terminava numa piroca.
Roseli, além de tudo, era uma sardenta muito charmosa.
Dizia:
— Todo artista que aparece me dá uma cantada, e eu mando ele passear.
Os artistas locais, por outro lado, não gostavam dela. Queriam o museu fechado em sua própria redoma, dedicado exclusivamente à produção da cidade. Roseli pensava diferente. Abria as janelas, trazer o mundo para dentro.
Quando reclamavam, ela apenas ria:
— A cidade tem que aprender com o museu.
Foi nesse ambiente que me juntei aos acadêmicos e entusiastas de Artes para fundar o Grupo do Museu: Sérgio Tomasini, Luciane Campana, Gustavo Ferernci, Regis, Denise e tantos outros.
Aos sábados, assistíamos a filmes de arte, como Basquiat. Reuníamos bolsistas da Espanha e da Holanda para conversar. Quando faltavam palavras, pegávamos papel pardo e pintávamos com guache.
Numa dessas tardes apareceu o poeta Pedro Marodin. Recitou seus versos e acabou se tornando nosso grande amigo.
– Amor, amor, amor, energia que não se esgota. Quanto mais amor se gasta, mais bonito o amor brota.
Na saída do museu, íamos filar degustações no supermercado ou acompanhar os artistas pela noite de Passo Fundo.
Uma vez, Paulinho Chimendes e Hugo, do Museu do Trabalho — hospedados na casa de Roseli —, perderam-se na madrugada passofundense.
Autor: Leandro Malosi Doro. Também escreveu e publicou no site “Do amigo Sol”: www.neipies.com/do-amigo-sol/
Edição: A. R.











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