“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?
Marli Silveira já afirmou, em artigo publicado no site, que “percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto”.
Leia mais: www.neipies.com/ressentimento-e-feminicidio/
Repercutimos, aqui, posições que demonstram seu conhecimento e sua grande preocupação com a temática violência contra as mulheres, agora tema de um livro.

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Em novo livro, onde aborda o drama dos feminicídios no Brasil, a autora debruça-se sobre a questão do ressentimento. A autora revela um profundo conhecimento antropológico e cultural na abordagem da temática violência contra a mulher.
“O tema dos afetos não é esporádico na minha obra, principalmente nos textos em que articulo categorias da Filosofia. Nos livros O pêndulo da angústia, Daseinspedagogia e Psicagogica da experiência estética, para citar alguns, indico a relação entre os afetos e a ética originária, a educabilidade e a condução estética de base ontológico-existencial, respectivamente.
Agora, no Antes que o dia anoiteça, procuro explicitar a relação entre o afeto do ressentimento e o feminicídio. Quando ancoramos nosso estudo na perspectiva nietzschiana, alargada pelas leituras psicanalíticas e antropológicas, reconhecemos as implicações desse afeto no gesto feminicida.
A reatividade e a memória recalcitrante, para citar dois aspectos importantes, ambientam, circulam e atravessam a existência de homens violentos. Disso não decorre que todos os afetados pelo ressentimento sejam feminicidas e que também pudéssemos ignorar outros aspectos importantes que concorrem para a potencialização da violência contra a mulher, como este sistema patriarcal e misógino que referência e orienta o manejo cultural e existencial em que estamos inseridos.
Acredito, contudo, como tentei demonstrar na obra, que o ressentimento está implícito no gesto feminicida, inclusive, em pesquisas que reconhecem a dimensão afetiva que circula no espaço doméstico, esse humor aparece “agarrado” à circularidade referencial e auto referencial.
Podemos dizer que há uma gramática afetiva que circula e orienta comportamentos e modos de se compreender e visibilizar ou invisibilizar, produzindo e implicando a existência humana no mundo e no tempo.
É importante ressaltar pelo menos duas outras questões: que o livro e a minha postura teórica não têm como mote psicologizar o feminicídio e a violência, mas reconhecer as implicações de afetos na e para a existência humana, e o que entendemos por afeto, ou seja, quais são os marcadores que orientam a nossa compreensão dos afetos. É importante que o livro seja lido”.

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Silveira revela como, na sua visão, a sociedade deve fazer um melhor enfrentamento do feminicídio, sendo mais assertiva no seu combate.
“Percebemos alguns movimentos na sociedade, entre eles e de um lado, uma crescente apresentação da mulher, ocupando lugares e posições que eram reconhecidos como masculinas. De outro, um processo inverso, uma espécie de resistência, inclusive odiosa, de grupos e pessoas que se articulam existencialmente a partir de afetos que alimentam e retroalimentam práticas e discursos violentos, preconceituosos e avessos às mulheres, não apenas. Como existências “fracassadas” que não podem voltar no tempo para refazer experiências e organizam suas vidas a partir de certo compromisso para que a vida dos outros, que considera menor e ou responsável pelo seu fracasso, sejam igualmente esmagadas.
Em termos gerais, pode-se dizer que há uma circulação de afetos impeditivos do vigor existencial que decorre, do ponto de vista cultural, dessa contínua exposição à falta de uma orientação segura, com papéis determinados, em que prevalece um desejo de se voltar ao passado, de se repetir scripts e experiências.
O ódio está para o ressentimento como a alegria para a compaixão. Percebemos também outro movimento: certa parcimônia por parte daqueles (daquelas) que se sentem confortáveis nos seus nichos, socialmente percebidos como intelectual e ideologicamente solidários e corretos. O caso do feminicídio expõe a complexa e dura realidade de se alastrar por todos os matizes culturais, econômicos, formativos, etc., mesmo que existam grupos e contextos mais vulneráveis. É como reconhecer que todos os homens são potencialmente violentos e as mulheres matáveis.
Tem outro dado e é assustador, que também se dirige a outras formas de violência: a localização antropológica. A violência contra a mulher ocorre dentro de casa ou nos espaços e relações que ela mantém. Não é por acaso que Márcia Tiburi faz uma leitura do lar/espaço doméstico pelo recorte de Agamben, inserindo o corpo da mulher no âmbito do homo sacer e da via nua. Como um corpo reduzido e confinado, desamparado e matável.
São leituras duras, mas fundamentais. Então, creio que um dos primeiros passos é o reconhecimento de que somos uma sociedade violenta, que desde muito agride e é implacável contra as mulheres. Que a história e a vida das mulheres se confundem com a violência. Talvez um segundo passo seja no sentido de (re) abotoar a formatividade aos princípios humanísticos. E aqui não falo apenas do espaço da escola, mas de todos os espaços pelos quais circulam afetos, discursos e práticas que orientam a nossa disposição existencial.
Enquanto o manejo compreensivo de nós e do mundo estiver atrelado a orientações violentas e desprovidas de ética, embebido de afetos embrutecedores e alargados pelas bolhas covardes que confundem e empobrecem a socialidade humana, continuaremos orbitando contextos aterrorizadores.
É preciso que a gente se diga; enfrentar e se colocar em jogo. Também sou, também somos violentos”.
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Como enfrentar discursos que ainda reforçam atitudes agressivas dos homens? Que discursos são estes? Como desarmá-los? Marli Silveira enfrenta esta questão, abordando tanto questões antropológicas como questões culturais de naturalização da violência feminina.
“Se olharmos debaixo para cima (como exercício de pensamento), compreendendo que somos constituídos pelo que nos acontece, pelos sentidos advindos dessa trama antropológica, poderíamos considerar, talvez com desníveis, que todos os espaços são violentos. A violência não é apenas física, em muitos casos a violência física representa o ápice de um sistema e programa continuados de esgarçamento humano. A própria sociedade, para poder suportar a dinâmica desigual, castradora e fracassada, empurra para certos contextos e grupos a visibilização da violência, tornando aceitável e tolerável situações e mortes.
Não podemos fugir ou escamotear a realidade; não podemos continuar invisibilizando e naturalizando violências e desumanidades.
“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos?
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Marli Silveira responde, de forma enfática, sobre a complexidade da temática, que não se resolverá somente com maior rigor das leis.
Na sua visão, “no caso da violência contra a mulher muitos são os aspectos envolvidos e tal complexidade acaba impondo uma barreira importante na efetiva abrangência das leis e programas que atuam para contrapor esse quadro. Eu acrescentaria ainda outro ponto nesta discussão: o empobrecimento da mulher. Há um processo continuado de empobrecimento da mulher, empurrada para situações de vulnerabilidade econômica, social e cultural, tornando-se vítima em potencial da violência.
A proximidade com a extrema vulnerabilidade tem sido um fator fundamental tanto na captura da mulher pelo crime, quanto pela miséria e sujeição social. Os afetos e o sistema patriarcal, combinados ao lar como este espaço em que há a autorização para se matar mulheres, potencializam a violência. De outro, precisamos reconhecer a importância e a necessidade dos marcadores legais e de programas voltados às mulheres, pois sem eles a realidade seria ainda mais dura e violenta.
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Sobre como esperar, num futuro próximo, relações mais saudáveis e proativas entre homens e mulheres, a autora afirma.
“Há em mim uma disposição para sonhar e imaginar outros mundos, mas já não sei se temos mais tempo. Há um cansaço humano orbitando os espaços dos sonhadores e todos/todas que um dia defenderam a vida.
Os discursos e a cultura de violência arrastam a humanidade para o precipício, um simples sopro nos empurrará para a queda e o colapso de um projeto de humanidade. No fundo, se pensarmos bem, somos no mínimo “cúmplices” de alguma forma de violência. Reconhecer, quem sabe, seja um suspiro”.
Edição: A. R.












Obrigado. Escritora Marli Silveira sempre é muito densa e assertiva em suas publicações. Parabéns!
Seus textos sempre são bem-vindos ao site.
Obrigada pela delicadeza, Nei!