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Jornalistas de todos os dias

Não basta ser jornalista, tem que ser contra o racismo,
contra o machismo, contra a homofobia, contra o colonialismo.
Tem que ser defensor dos direitos humanos e defensor do povo.


No dia 07 de abril é o Dia dos Jornalistas. Mas, jornalistas, somos todos os dias e o tempo todo.

Há pouco mais de um ano, decidi dar uma pausa na atuação profissional para me dedicar à minha formação. Ainda assim, o jornalismo pulsa em mim, é parte fundamental do que eu sou e de como vejo o mundo.

Jornalista não é uma profissão isenta de culpas e imparcial, por certo. É claro o papel que a mídia e os jornalistas desempenharam, pelo bem ou pelo mal, para que chegássemos aonde estamos, no que se refere à situação política e social do Brasil.

Eu, que sempre acreditei no jornalismo como uma ferramenta de mudança social, me decepciono cada vez que o vejo sendo utilizado para a manutenção de um bloco do poder que perpetua o racismo, o machismo, o colonialismo e tantos outros problemas que estão na estrutura da sociedade.

O jornalismo (e o jornalista) não deve ser romantizado. Aprendi isso pela dor de ver muitos comunicadores prestando desserviços para a sociedade, apresentando opiniões cheias de preconceito, escrevendo manchetes e matérias que culpabilizam as vítimas em casos de estupro, que condenam pessoas pobres, negras e periféricas quando para a justiça são suspeitos.

A linguagem tem poder. Não são apenas palavras.

Ainda assim, acredito que a comunicação livre é um dos pilares da democracia e que o jornalista cumpre papel fundamental nesse processo – por mais que ainda não tenhamos experimentado uma democracia estável no Brasil. Só uma imprensa livre é capaz de garantir que a máxima “poder do povo” seja minimamente efetiva, longe de manipulações.

Em meio a uma pandemia do COVID -19, ver os jornalistas na linha de frente, correndo riscos, sendo atacados pelo (des)governo e pelo protótipo totalmente errado de presidente que temos, e ainda assim mantendo-se firmes na missão de informar a real situação da crise, me faz sentir orgulho da profissão.



“As ruas precisam continuar vazias para que os jornalistas continuem trabalhando por vocês”.

Ver o crescimento dos veículos independentes e a sua luta diária na construção de uma outra narrativa, na produção de um jornalismo contra hegemônico, me faz ter esperança na profissão. É nesse jornalismo que eu acredito e é esse jornalismo que eu quero ajudar a construir.

Rendo homenagem aos jornalistas que fazem jus ao importante papel que assumem. Mas é necessário lembrar: não basta ser jornalista, tem que ser contra o racismo, contra o machismo, contra a homofobia, contra o colonialismo. Tem que ser defensor dos direitos humanos e defensor do povo.



“Hoje, os melhores textos do jornalismo de fôlego, das grandes reportagens, são de mulheres. E a melhor coisa no jornalismo é o “excesso” de mulheres, que fazem hoje o que a repórter Celia Ribeiro já fazia nos anos 60 e 70. Elas já são maioria nas redações”. (Moisés Mendes)

Fragmentos de espiritualidade em tempos de pandemia

Que significa colocar-se nas mãos de Deus?
Significa muita coisa, menos transferir
para Ele aquilo que devemos fazer com
nossas próprias mãos, nossos meios e nossas forças.

A história humana, ao longo dos séculos, encontra-se pontilhada de epidemias e pandemias. A peste negra e a gripe espanhola figuram entre as mais conhecidas e letais. O livro A peste de Albert Camus representa um quadro aproximativo de uma cidade golpeada e isolada por esses inimigos invisíveis e, por isso mesmo, mais perigosos e difíceis de combater.

Que ensinamentos espirituais podem nos trazer esses períodos dramáticos de isolamento, deserto e quarentena? O que podemos aprender de tais experiências-limite e trágicas? Como dar-se conta que, atrás das nuvens sombrias, o sol segue seu percurso? Três aspectos ganham grande relevância: a) somos todos frágeis e iguais; b) necessitamos uns dos outros e c) estamos todos nas mãos de Deus.



“A maioria dos cristãos acredita no poder mágico e extraordinário que vem do poder de Deus sobre a nossa frágil condição humana. Nesta perspectiva, o milagre sempre é um fenômeno externo à vida da gente. A gente pede, implora e se Deus não atende, a gente xinga, a gente esbraveja Deus porque Ele não nos atendeu. Parece que o milagre é só de Deus e a gente fica na passividade de ser apenas seu beneficiário. Isso, talvez, explique porque há tanta gente que está brigada com Deus”. (Nei Alberto Pies)

Somos todos frágeis e iguais. Entre os animais, o ser humano, ao nascer, é aquele que apresenta maior grau de fragilidade. De início, demora meses para caminhar com as próprias pernas, para comunicar-se com os demais e para alimentar-se por si só. Somente por ocasião da adolescência e da juventude, começará a adquirir uma certa autonomia em relação aos progenitores e à casa em que veio ao mundo.

Para suprir semelhantes carências e lacunas, recebemos do Criador razão, inteligência e imaginação, incomuns no conjunto do reino animal. Daí a criação de utensílios, ferramentas e instrumentos que, de certa forma, ampliam seus braços, pernas poder de visão e audição, conferindo-lhe uma superioridade inquestionável.

Paradoxalmente, a própria fragilidade humana conduziu sua trajetória a uma série de inventos, de descobertas e a um conhecimento sem igual. Nascem a ciência, a tecnologia e o progresso, juntamente com uma inédita capacidade de adaptação.

Se os demais seres vivos nascem já “prontos, completos” e encontram um ambiente a eles adequado, o ser humano é chamado a superar-se a cada obstáculo, a ser sujeito de seu crescimento e construir um entorno propício ao próprio desenvolvimento. Certo, tal capacidade tem levado, não raro, e continua levando, a um poder e domínio absoluto, avassalador, sobre a natureza e a história, chegando muitas vezes à depredação, à devastação e à sujeição não apenas de outras espécies de animais, mas também de seus próprios semelhantes. É o lado negativo de um saber mal utilizado, ou utilizado para interesses escusos, desfigurado em seus fins.

De qualquer forma, fica a lição de que a fragilidade humana e as carências iniciais constituem um convite à humildade, ao aprendizado e a um desenvolvimento que só termina com a morte.

A incompletude humana traz embutida sua criatividade, e esta emerge com força diante das adversidades. Estiagens, inundações, epidemias e outras catástrofes costumam ser terreno fértil para a inteligência, a imaginação e a solidariedade. As potencialidades no ato de unificar-se, superar-se e desenvolver-se permanecem latentes na condição humana. E podem decidir por alternativas inovadoras e insuspeitáveis no curso da história. Certo, novamente aqui, forças semelhantes têm desencadeado fatores perniciosos, tais como tensões e conflitos, opressão e exploração, violência e guerra – mas, como diz a canção, sempre resta a possibilidade de “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Necessitamos uns dos outros. Além da humildade, da abertura ao aprendizado e da faculdade de união, a fragilidade tende a aproximar os seres humanos.

Nos momentos difíceis, experiências-limite da existência – doença, separação, morte, desemprego, amor não correspondido – cada um de nós pode ajudar os demais a carregarem a sua cruz.

Mas a própria cruz, ninguém a pode carregar sozinho. Até mesmo Jesus, como dizem os relatos evangélicos, teve a ajuda de Simão Cirineu para chegar com o lenho ao lugar da execução. Neste caso, cabe uma máxima: quando mais profundamente conhecermos a nós mesmos e às nossas debilidades e fraquezas, mais estaremos abertos à compreensão frente às debilidades e fraquezas dos outros.

Abertos, prontos e disponíveis à solidariedade. Surge então o outro lado das relações humanas: o conhecimento recíproco da fragilidade, na condição humana, leva por uma parte à sair de si mesmo e prontificar-se a ajudar quem tem a vida mais ameaçada; por outra parte, prepara-nos para receber com devida humildade a ajuda do próximo. Quebra-se assim a autossuficiência, a arrogância que habitam tão perto do saber, do poder e do domínio.

O autoconhecimento abre o horizonte para um conhecimento mais amplo sobre o ser humano e a sociedade. De fato, quem de nós já não passou por uma experiência-limite? Momento difícil e extremo em que chegamos a dizer no íntimo de nós mesmo: “Senhor, até aqui eu vim, arrastei-me com todas as minhas forças, mas agora não posso mais, carrega-me com teus braços potentes”! Não, Deus não vai carregar ninguém! Mas sua graça é capaz de derreter os corações empedernidos, para que possam deixar de lado o orgulho e buscar ajuda. O Senhor, sem dizer uma palavra, indicará seus anjos que nos carregarão sobre suas asas. E semelhantes anjos, com muita frequência, estão do nosso lado: um familiar, um amigo, um companheiro, um conhecido ou desconhecido – como no caso do Bom Samaritano. O desafio é superar a tolerância pelo cuidado uns com os outros.

Importante nesse caso é falar, gritar, pedir socorro! Muita gente está sempre disposta a socorrer os outros, mas se isola e se cala quando a tempestade bate à própria porta. Um certo orgulho impede de abrir o coração e a alma, na tentativa de buscar socorro.

Vale aqui outra máxima: quem fala, grita e pede socorro, tende a salvar-se. A psicologia ensina que o próprio ato de verbalizar o que se sente é já uma forma de afastar os fantasmas que nos perseguem e assustam.

Falar sobre as nuvens sombrias que cobrem o céu individual, é uma forma de desvanecê-las e abrir espaço para um raio de sol, um raio por menor que seja. Depois, aqueles que não falam, não gritam e não pedem socorro, tendem a afogar-se no próprio veneno. A dor, seja ela qual for, quando atinge o pico do desespero, torna-se cega, não permite um raciocínio lógico. Daí a necessidade de buscar alguém como referência de compreensão e ajuda.



Quem fala se liberta e quem escuta permite a si mesmo e aos outros que o mundo e as consciências se alarguem, permitindo que aconteça o que é a maior busca de todos: a felicidade e a realização. (Nei Alberto Pies)

Estamos todos nas mãos de Deus. Iguais na carência e na fragilidade, aos poucos nos damos conta que necessitamos contar com os demais, estender as mãos e deixar que essas se estendam sobre nós mesmos.

Mas tudo ganha um sentido mais profundo quando descobrimos que o Criador, origem do universo, de todos os seres vivos e de todos os seres humanos, ao tornar-se nosso Pai comum, tornou-nos igualmente irmãos e irmãs. É o que rezamos na oração do Pai-nosso, transmitida pelo próprio Jesus. Na primeira parte, o olhar vertical para Deus, seu nome, sua vontade, seu reino; na segunda parte, um olhar horizontal para o próximo, o pão de cada dia, as relações de perdão, os perigos da tentação. Conclui-se que quem reza “Pai-nosso”, não pode rezar “pão meu”. Se o Pai é nosso, o pão também deve sê-lo. E pão aqui, simbolicamente, indica tudo o que o ser humano necessita para manter-se de pé e com a devida dignidade. Ou seja, pão em sentido ampliado é sinônimo de terra, trabalho, teto, salário justo, segurança, educação, saúde direitos respeitados, relações de amizade e solidariedade.

Tudo isso ganha maior relevância quando uma catástrofe se abate sobre a pessoa, a família, um grupo, um povo, uma cidade, um país… E com maior razão quando se abate sobre o mundo inteiro, como é o caso da pandemia do Covid-19.

Que significa colocar-se nas mãos de Deus? Significa muita coisa, menos transferir para Ele aquilo que devemos fazer com nossas próprias mãos, nossos meios e nossas forças.

Convém deter-se numa terceira máxima: a oração não modifica nossos males e problemas, modifica nossa maneira de encará-los. Em outras palavras, Deus não vai resolver aquilo que compete às autoridades sanitárias, aos governos, às instâncias e organismos internacionais e a todos nós, cada qual na sua esfera.

No silêncio da oração, o Pai vai confortar os ouvidos cheios de vírus e ruídos com palavras silenciosas de luz e paz e serenidade; vai aquecer o coração com a chama invisível de seu amor sempre fiel e presente; vai inundar a alma ressequida com a água viva que vem da fonte de sua infinita misericórdia.

Numa palavra, a oração vai fortalecer nosso íntimo com a força da fé e da esperança, armadura que nos torna capazes de seguir adiante na certeza de que o sol brilha apesar das nuvens. “Quando sou fraco é então que sou forte” diz Paulo. Noite e tempestade não duram para sempre e, o final, tornamo-nos mais próximos, fraternos e solidários.



Sugestões de uma prática pedagógica

Esta prática pedagógica pode ser aplicada a estudantes do nono ano do EF (Ensino Fundamental), Unidade Temática “Crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de conhecimento “Vida e Morte”. Habilidades: valorizar o corpo como instrumento divino/analisar dimensão corpórea dos indivíduos como “instrumento divino” e analisar a influência da tradição cristã na estruturação dos conceitos de vida e morte para a ciência e para a filosofia.

Após leitura do texto, propor o aprofundamento do tema, através da interpretação do texto, com as seguintes questões:

  1. A humanidade já passou por diferentes epidemias e pandemias. Que ensinamentos espirituais podem nos trazer esses períodos dramáticos de isolamento, deserto e quarentena?
  2. “O autoconhecimento abre o horizonte para um conhecimento mais amplo sobre o ser humano e a sociedade. De fato, quem de nós já não passou por uma experiência-limite de doença ou dor intensa”? Descreva.
  3. A concepção cristã de Deus revela que Ele é a origem do universo, de todos os seres vivos e de todos os seres humanos, que ao tornar-se nosso Pai comum, tornou-nos igualmente irmãos e irmãs. É o que rezamos na oração do Pai-nosso, transmitida pelo próprio Jesus. Qual é o sentido da oração do Pai Nosso?
  4. “A dor, seja ela qual for, quando atinge o pico do desespero, torna-se cega, não permite um raciocínio lógico. Daí a necessidade de buscar alguém como referência de compreensão e ajuda”. Qual é a saída sugerida pelo autor?
  5. Qual é a importância de falar ou pedir socorro quando estamos em situações de sofrimento?
  6. “Nos momentos difíceis, experiências-limite da existência – doença, separação, morte, desemprego, amor não correspondido – cada um de nós pode ajudar os demais a carregarem a sua cruz.” Como poderíamos interpretar este gesto de ajudar os outros nestas situações?
  7. “A oração não modifica nossos males e problemas, modifica nossa maneira de encará-los”. O que você entendeu desta afirmação?
  8. O autor fala de fragmentos de espiritualidade em tempos de pandemia. A que fragmentos ele estava se referindo?

Quem manda em Brasília?

Vejam a que ponto chegamos.
Uma espécie de “golpe branco”,
ao se confirmar o que dizem os analistas.


O episódio da ameaça, não confirmada, de demissão do ministro Mandetta pelo presidente, que alardeou poder dizendo-se ser o dono da caneta, deixou dúvidas ou quase uma certeza; Bolsonaro passou a ser uma figura decorativa!

Todos os indicativos revelam que os comandantes militares, tendo à frente o Gen. Braga Neto, assumiram o comando do governo. Seria Braga Neto uma espécie de eminência parda do governo, como Golbery na ditadura militar? Golbery montou e desmontou a ditadura.




“O primeiro a dar uma resposta foi Luis Nassif, que deu em manchete no seu site: “Acordo das Forças Armadas coloca Braga Netto como `presidente operacional´” O que é isso? Nunca tinha ouvido falar nessa expressão, mas o colega deu detalhes: “Oficialmente, o general de Exército Braga Netto assumiu o comando do governo Bolsonaro em cargo que os meios militares estão chamando de Estado-Maior do Planalto”. (Ricardo Kotscho)
Para mais informações, clique aqui.



Ao que parece será permitido a Bolsonaro dar suas caóticas entrevistas, cercado por um grupo selecionado para aplaudi-lo e agredir a imprensa. Nelas ele fará o que sabe e o que mais gosta de fazer, isto é, inventar teorias conspiratórias, acusar os comunistas, ofender as pessoas e dar demonstrações públicas de sua paranoia.

Vejam a que ponto chegamos. Uma espécie de “golpe branco”, ao se confirmar o que dizem os analistas. Convenhamos, aos olhos do mundo o Brasil, mostra-se como uma nave desgovernada e aquele que haveria de ser o timoneiro está completamente perdido na névoa de sua demência.

Até aqui, recusa-se a entender que sua inépcia põe vidas em risco. Pior. Coloca-se contra todas as evidências da ciência, contra seu ministro da Saúde, contra a OMS, baseando-se nos palpites do lunático Olavo de Carvalho e dos filhos, todos de uma formação científica invejável. Ulala!!

Desde sua posse Bolsonaro é assessorado por um grupo ideológico que nunca escondeu seu sectarismo, medievalismo e ódio. Nada mais perigoso do que a ignorância sincera. O país está cansado de sucessivas truculências e imprudências, atitudes alopradas e irresponsáveis, criminosas mesmo. Enfim, o presidente foi construindo seu próprio isolamento.

Estamos vivendo uma situação social semelhante àquela retratada por Machado de Assis no conto O Alienista, onde há um entra e sai do hospício administrado por um maluco.

Diante deste quadro, mais uma vez as forças que historicamente derrubam presidentes no Brasil, desde o século XX, parecem prontas e cada vez mais dispostas a aplicar os velhos métodos e dispositivos contra Bolsonaro.

É bem verdade que este abriu todos os flancos possíveis. Assim, seu afastamento não será nenhuma surpresa. Ou terá que se resignar a ser transformado numa espécie de Rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. A quem diga que o papel ideal seria o de bobo da corte!




Deixem de se preocupar com Bolsonaro, que está sob controle dos militares e do Supremo. Preocupem-se com os 33% que ainda apoiam Bolsonaro, não desistem do sujeito e dão sobrevida aos desatinos do pai e dos filhos. Bolsonaro é a expressão desse um terço da população, e não o contrário. Sem eles, Bolsonaro não seria nada. (Moisés Mendes)
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Foto de Capa: O presidente eleito Jair Bolsonaro, ao lado do general Augusto Heleno, futuro ministro do Gabinete de Segurança Institucional, em cerimônia do aniversário da Brigada de Infantaria Paraquedista, na Vila Militar, no Rio — Foto: Fernanda Rouvenat / G1

O que falta a Bolsonaro?

Na verdade, a competência e o bom senso de Mandetta,
por ser um homem da ciência e sua popularidade,
incomodam uma personalidade como a de Bolsonaro.


O presidente Bolsonaro disse ontem, dia 01 de abril de 2020, em entrevista à uma emissora de rádio que está faltando “humildade” ao ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta.

Aí fiquei confabulando com meus fiéis botões. E o que falta ao Presidente? Falta entender, como disse Barack Obama que “tanto na política como na vida, a ignorância não é uma virtude”.

Falta entender que ele escolheu, desde a posse, o confronto sistemático. Apoiou-se num deplorável grupo ideológico saído diretamente da Idade Média que até agora assombra a sociedade civilizada

Falta a percepção que começou muito mal o seu governo. Inventou a Casa Civil mais desajeitada e incompetente da história republicana e criminalizou o exercício da política como uma indefinida “nova política”.

Falta entender que quando do surgimento da desgraça do Covid-19, seguiu seu “patrão” Donald Trump e alinhou-se com sua gente medieval, que com fervor dizimal, nega todo o conhecimento científico e classificou-a como uma histeria e, posteriormente, como uma “gripezinha”.

Falta entender que na área econômica está desorientado. Na verdade, seu governo não sabe como lidar com a situação. Seu ministro da Economia foi educado para que o Estado sirva ao mercado.

Agora que desapareceu a mão invisível, a perturbação é total. Mas não esquecem a quem realmente serve. Basta ver a criminosa insistência em criticar o isolamento defendido por Mandetta.

Falta entender que é um irresponsável, ineficiente e alienado que joga o País na incerteza num momento dramático da vida nacional. Que merece ser interditado para o bem de todos os brasileiros. Os suíços, como seus relógios, foram certeiros no diagnóstico: ele é o idiota mais perigoso do planeta.

Falta-lhe perceber que não têm empatia, humanidade. Procura radicalizar argumentos para uma fração minoritária da sociedade que permanece ao seu lado. Mostra-se, exacerbado, egoísta, obsceno ao colocar os interesses econômicos acima da vida.

Falta perceber que está agindo como um necropolítico (“aquele que tem o poder de definir quem importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”, “quem pode viver e quem deve morrer”, na definição do filósofo camaronês, Achille Mbembe). Agora, na pandemia, sua vocação alimenta-se de ambições reeleitorais e do desejo de agradar aos patrões.

Falta, por último, a percepção que possui alta insensibilidade em relação aos outros, busca sempre o conflito, é muito egocêntrico e nunca se arrepende, sente culpa ou remorso. Sintomas claros de sociopatia!

Portanto, o pecado do ministro da Saúde é mínimo, por faltar-lhe “humildade”. Na verdade, a competência, bom senso, por ser um homem da ciência e sua popularidade, incomodam uma personalidade como a de Bolsonaro.

Fica Mandetta!!!

Confidenciei a meus assustados botões: Terá a combalida rede pública brasileira condições de atender como deveria a esta demanda? Basta lembrar que a Saúde deixou de receber no ano passado 9 bilhões de reais. Assim, nada indica que o novo vírus mudará esse cenário.

Pessoas se isolam, seus direitos, não!

O momento é grave, mas a ameaça grave do vírus não pode atacar,
além das vias respiratórias, também nosso discernimento.
E isto deve nos posicionar no plano dos princípios,
dos processos e dos procedimentos…
enfim, de todos os aspectos implicados.


Vivemos uma grave pandemia no Brasil e no mundo, o que nos obriga ao recolhimento (denominado isolamento social) como uma forma de, solidariamente, preservarmos a vida das pessoas mais vulneráveis a esta doença (pessoas idosas e pessoas com algum tipo de doença crônica).

Esta recomendação médica tem se mostrado a mais eficaz para darmos, ao Sistema de Saúde, a possibilidade de atender as pessoas quando o pico da expansão e disseminação do vírus exigir atendimentos considerados mais sérios (ventilação mecânica e cuidados de tratamento intenso). No entanto, este isolamento social, não significa o “afastamento” dos nossos direitos, os direitos humanos.

Além de praticar o isolamento social, devemos cobrar ações efetivas do Estado para promover o controle sanitário da pandemia e minimamente garantir a sobrevivência dos cidadãos mais desfavorecidos, bem como investir recursos no Sistema Único de Saúde, inclusive garantido o aporte dos bilhões retirados da saúde no ano de 2019.



Distanciamento social, lavar as mãos frequentemente, capacidade de fazer testes massivos de diagnóstico e isolamento dos infectados: as recomendações para deter o avanço do coronavírus são relativamente fáceis. Mas não para 13 milhões de pessoas que vivem nas favelas do Brasil: com uma alta densidade demográfica, serviços básicos — como água e luz — deficientes e, muitas vezes, sem nenhum sistema de esgoto. Leia mais aqui.



Para salvaguardar os direitos, preservam-se os serviços essenciais para a manutenção da vida, da saúde e da circulação dos alimentos e insumos indispensáveis para manter a vida e a sociedade funcionando, em condições que garantam a sobrevivência de todos.

Os direitos continuam exigindo todas condições para preservar a dignidade humana, este conceito difícil de ser definido, mas facilmente percebido quando ausente na vida de cada um e de todos os seres humanos.


Economia e saúde pública

Neste contexto, colocam-se em disputa ideológica a manutenção da economia e a preservação da vida. O que é mais importante?  A economia é também uma questão de saúde pública?

Todos sabemos que as condições materiais tem papel importante na qualidade de vida de todos nós. Geralmente, esta preocupação é levantada pelos cientistas sociais, que denunciam e reclamam por condições e dignidade humana para todos, sem distinção. Estranha que agora, esta verdade dos cientistas sociais vem sendo largamente utilizada por muitos outros especialistas para flexibilizar o “isolamento social” e retomar o aquecimento da economia.

O que mudou? Estamos vivenciando uma nova forma de interpretar a realidade ou estamos novamente diante de um oportunismo momentâneo para justificar a supremacia da economia sobre a vida humana?

Paulo César Carbonari, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), argumenta que

“não faz o menor sentido estabelecer relação entre saúde e economia que não seja conjuntiva. Não há espaço para disjuntivas ou condicionais. O que está acima de tudo é a vida, como todo (zoe e bios, nua e qualificada), para todos/as e em abundância, ainda que num contexto de algo risco. Ela preside toda ação e toda decisão. Toda postura distinta será necrófila e ensejará necroética, necropolitica, necroeconomia. A vida não tem valor, é condição de todo valor e determinante de todas as medidas de saúde, de economia, políticas, éticas, … A própria morte há que ser em dignidade. O momento é grave, mas a ameaça grave do vírus não pode atacar além das vias respiratórias também nosso discernimento. E isto deve nos posicionar no plano dos princípios, dos processos e dos procedimentos… enfim, de todos os aspectos implicados. Sempre há uma saída, ainda que difícil e custosa. Longe deste momento soluções orientadas pelo “cálculo do suportável” tão invocado pelos ultraneoliberais (ultimamente em baixa) ou a “redução de danos” como sugerem “humanistas” pouco humanistas”.

A filósofa e professora universitária Cecília Pires, também fala sobre o assunto, afirmando que

“as nossas relações sociais se estabelecem em vários vínculos, que construimos, sendo um deles o vínculo econômico, em determinado momento, pelas relações de mercado. Assim pensando as coisas relacionadas, pois tudo está ligado, a economia, como a saúde e a educação e tudo o mais devem estar no mesmo patamar de importância na vida humana. O problema é quando se estruturam gavetas para guardar setores da vida, como se guardam objetos. Muito mal! Perde-se com isso a visão de totalidade, em que tudo está vinculado a tudo, no processo da vida”.

Júlio Perez, auditor fiscal, lembra que

cabe ao Estado fazer essa mediação entre a saúde e a economia usando do seu poder, em última instância, de ser o fiador dos meios de pagamento, qual seja, da moeda, priorizando naturalmente a saúde, dentro de parâmetros técnicos para que este afastamento da sociedade das atividades econômicas durem o menos possível. Afinal, sem vida, não há economia”.

O historiador José Ernani de Almeida lembra, neste contexto, que leu recentemente uma manifestação de um espanhol de nome Pedro Vallin:

“Acreditávamos que o medo da morte convertia ateus em crentes, mas, na verdade, converteu os neoliberais em keynesianos”. Sem dúvida, o mundo não será mais o mesmo depois do novo coronavirus. A economia não será mais a mesma, com certeza. Acredito que planos estatais, como o New Deal nos anos 30 do século passado, que criou o programa de intervenção estatal mais ambicioso de todos os tempos – com investimento público, proteção aos pobres, impostos progressivos, segurança social, negociação coletiva, serão necessários. É bom lembrar à direita histérica que o New Deal não foi nenhum programa comunista, ele representou uma profunda transformação democrática. Foi naquele momento nos EUA que de certa forma, nasceu o que hoje chamamos de Estado do Bem Estar Social.

Francisco Carles Xavier, advogado, contribui com este debate afirmando que

“o momento requer equilíbrio nas decisões, não só governamentais. Pelo jeito, tanto na saúde como na economia, o dever de casa não estava sendo bem feito. Então o negócio é: primeiro, cuidar das pessoas, não podemos correr o risco de precisar de toda a rede de saúde – médicos, enfermeiros, hospitais, insumos, etc – e não dispormos (morrer na fila); segundo e concomitante: começarmos, todos nós, empresas, instituições e cidadãos, a programar a retomada de todos setores da economia, afinal, ela depende de nós.

Pelo que podemos concluir, a vida humana é a condição para salvaguardarmos a existência planetária e a economia depende mais das pessoas do que as pessoas da economia.


Desqualificar, não. Politizar, sim

Desde o início da pandemia no Brasil, o combate ao novo Coronavirus vem sendo desqualificado do ponto de vista da política. O presidente Bolsonaro, contrariando orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), vem travando uma luta política desqualificada, tentando jogar responsabilidades que seu governo não consegue assumir para outros entes, sejam eles os governadores dos estados, os prefeitos e parte da população que aceita as recomendações médicas e pratica o “isolamento social”.

Desqualificar a condução política do combate à pandemia e fazer jogo político para apontar culpados, não assumir as responsabilidades devidas a cada ente federado, é fazer o jogo de “uns contra os outros”. Fazer desobediência individual propositada de regras que o próprio governo assume como ordenamento para todos. A pandemia do COVID-19 mostra que pode afetar distintas classes sociais e não escolhe a quem vai infectar (embora, como apontamos acima, os mais pobres e os moradores da favela poderão ser os que sofrerão mais).

Politizar o combate ao COVID -19, por outro lado, é fazer a defesa do SUS (Sistema Único de Saúde), é cobrar as responsabilidades de todos os envolvidos nas diferentes instâncias de poder e decisão.

 É apontar e exigir que as decisões tomadas sejam de interesse comum, preservem a saúde, a vida e a dignidade de todos, principalmente daqueles aos quais a nova doença pode ser mais letal. É apoiar e ser solidário ao trabalho dos profissionais da medicina e dos demais trabalhadores que não podem parar para que a vida em sociedade permaneça garantida.

 É também exercer solidariedade ética, pensando na proteção de todos. É participar de iniciativas solidárias para minimizar os efeitos da crise econômica que leva à fome e falta de condições mínimas de sobrevivência. É cobrar que o Estado Brasileiro se responsabilize em propiciar renda mínima suficiente para que as pessoas possam ter suas necessidades básicas atendidas.

Empresária Luiza Trajano, presidente da Magalu, defende o SUS dizendo que é o que de melhor existe no mundo. Iniciativas privadas e governo devem injetar recursos, com foco no social. Leia mais aqui.

Neste momento, as decisões que serão tomadas no Brasil interessam a todos os brasileiros e brasileiras. Por isso, a política exerce papel fundamental, justamente porque opera com escolhas e com prioridades.

Há, ainda, outro elemento a ser considerado. Embora, neste momento da pandemia, os cientistas e médicos tenham de ser ouvidos com muita atenção, a ciência e a medicina não podem ficar apartadas dos critérios da política e da ética.

Como é possível conciliar liberdade da ciência, equidade social e dignidade dos seres humanos? Prevalecerão tais tendências neste século XXI? Veja mais aqui.

Por fim, apontamos a necessidade de uma Solidariedade ética mundial para superarmos de forma humanitária o enfrentamento à pandemia do COVID-19. Atitudes egoístas, pessoais de cada um e de governantes, são exemplos do quanto ainda não entendemos que se trata de que a própria sobrevivência da própria humanidade corre riscos. Como ensina o poeta e música Gonzaguinha, “E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. E é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho, por mais que pense estar”.

Noção de humanidade é o que não pode nos faltar! Com política séria, com discernimento, sabedoria e com cuidados e com aprendizagens diárias, individuais e coletivas, haveremos de fazer mais esta travessia. Como chegaremos do lado de lá?

Como sugere Paulo Carbonari, o meio da travessia, o momento em que estamos vivendo agora, é o indicador de como chegaremos do outro lado da margem. Este indicador está sendo construído agora, nas ações e nas decisões que tomamos, individual e coletivamente!

Nota de falecimento

A pressa se apressa cada vez mais. Viramos presas fáceis de uma pressa difícil. Eu li nos jornais. Artifício. Artificiais.

Alguém, de súbito, pergunta:

– Para onde vamos com tanta pressa?

Um silêncio abismal ecoa, de apressado em apressado.

Não estão livres. Estão prensados, formatados, compactados, estressados demais.

– Alguém sabe para onde estamos indo?

– Segue, meu caro, segue logo, é preciso ir. Não há tempo para questionar.

Continuam nessa, seguindo a pressa. Apressados, passados, ultrapassados pelos que vem logo atrás com pressa ainda maior. A pressa pressiona, não deixa parar.

Reuniões infinitas. Decisões proféticas. Mas eis que é preciso fazer. Não precisa cumprir o acordo. Tudo flui! O planejamento obstrui. Cada um faz como quer. Depois, todos reclamam e apontam os erros de cada um. Outra reunião. Outra decisão. Fechou a porta. Não importa, pode abrir se quiser.

Viva a democracia. Orgia involuntária. Burocratas, tecnocratas, psicopatas! Um bando de patas batendo lata vazia. O que fazer todo mundo sabe, mas ninguém sequer fazia. ‘Homo Faber.’ Fobia de não fazer.

– Segue companheiro! Anda logo, vai ligeiro. Olha a pressa que te espia pela fresta do banheiro. O que era público virou ‘privada’!

– Hei! Alguém me responda? Isso é uma piada.

– Segue a onda camarada. A vida hoje é assim, corrida. Não há tempo para parada. Segue, segue, segue, próxima saída.

E lá se vai, parece rápido, mas está num jegue.

Segue, segue, segue…. Não importa o que se persegue.

-‘Êita diabo doido’ essa vida perseguida.

A correria empurra o dia. A noite é um açoite: tempo demais para parar.

Levanta, vai para sala, faz planilhas, arruma a mala, corre para o aeroporto.

– Está morto?

– Ainda não.

– Que bom. Manda continuar.

E lá vai o apressado. Volta estressado.

– Pera aí, perdi o celular. Para tudo, acabou-se o mundo. Não, não. Está tranquilo, coloquei para recarregar. Liga no outro ou manda WhatsApp, chama no Skype, SMS, até parece que não sabe usar? Vê se me esquece, preciso andar. Não grite, marca reunião no Meet e deixa estar.

– Acabei de ‘curtir’. Li no ‘Face’. Publiquei no ‘My space’. Não tem tempo para ler? Vai no ‘Twitter’, resumi para você! Cento e quarenta caracteres! Cadê meus alteres? Preciso malhar.

– Morreu? Faz quanto tempo já?

– Pelo jeito sim. Faz quinze minutos que não curte nem compartilha.

– E o trabalho?

– Nem me fale. Sobra tempo para nada mais. Essa vida está muito apressada. Capitalismo selvagem. Matilha! Sai para lá Satanás! Vadiagem aqui não cabe mais.

– É, virou malandragem. Real ou virtual, tudo tão oculto na sempre visível ‘time line’.

– Então, morreu mesmo?

– Está ‘off line’. Então, morreu.

– Vai no velório? Eu não posso, estou com pressa.

– Pois é, nem eu!



Sem a pretensão de esgotar o assunto, enquanto a técnica se desvincular da ciência humana, estaremos em um mundo que evolui caminhando a passos largos para a desumanização. Essa “rede de relações”, esse emaranhado de nós e fios que formam a sociedade complexa, precisa se converter em ferramenta para a educação dos afetos, para a potencialização da compaixão, para a vivência da solidariedade.

Quando as aulas voltarem, eu não quero que tenha “aula”

Acredito, é mais importante preocupar-se
com a saúde mental das crianças e jovens
do que com o conteúdo a ser “vencido”.


Tenho recebido e compartilhado vários “memes” que falam da incompatibilidade do homeoffice com o homeschooling. São várias as mães, eu entre elas, conhecidas e amigas, assoberbadas com o isolamento social tendo que dar conta das compras, comida dentro de casa, demandas do trabalho remoto, lidar com as notícias diárias de infectados e mortos e, ser tutora EAD dos filhos.

Homeschooling, ao contrário do que afirmam,
não será, no Brasil, salvamento seletivo para
um modelo educacional moribundo?



Ninguém estava preparado para a educação domiciliar: nem escolas, nem crianças, nem famílias.

As escolas não são mágicas para tirarem das cartolas aulas e atividades EAD para todos os anos em todas as disciplinas.

As mães não são professoras experts em todos os conteúdos de todas as disciplinas. As crianças, também estressadas pelo isolamento, não possuem experiência com aulas EAD e não compreendem que estar em casa não significa férias.

Óbvio que tem muita gente irritada, ansiosa, frustrada com a sua “incompetência pedagógica” questionando como os conteúdos serão recuperados, discutindo a necessidade de turnos inversos para dar conta do que está “atrasado”, enviando e-mails e telefonemas para as escolas perguntando quais serão as estratégias de “recuperação”.

A instituição onde trabalho prorrogou por mais duas semanas o isolamento. As crianças voltarão para as escolas dia 5? Dúvida no ar, talvez tenhamos mais tempo de crianças em casa.

Ontem, quando li um monte de mensagens angustiadas sobre as aulas EAD e o que e como deve ser recuperado fiquei pensando o que é “atrasado” no currículo de crianças que estão fazendo 10 anos, que estão no 4º ano do Ensino Fundamental.

O que é conteúdo “atrasado” em qualquer segmento escolar?

O que eu espero, quando as crianças voltem para as escolas, é que tenha uma semana “sem aula”, que elas fiquem correndo e gritando nos pátios como os hamsters do capiroto até perderem a voz!

 Que as escolas mandem na agenda o seguinte bilhete: venham com roupa que possa ser rasgada, para que elas possam ralar os joelhos e cotovelos de tanto rolar na terra; que comam tatu-bolinha; que tomem banho de mangueira e muito, muito sol; que façam penteados malucos; que dancem muito e joguem bola até caírem exaustas no chão.

Depois disso, gostaria que as escolas refletissem com as crianças o que significou essa experiência para elas, para as famílias. Que falem sobre resiliência, enfrentamento de frustrações, sobre solidariedade. Temos que levar alguma lição do que estamos vivendo, temos que fortalecer nossas relações como famílias e como sociedade.



Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. (Nei Alberto Pies)



As escolas PRECISAM falar sobre a necropolítica, que resolve quem vale à pena viver ou morrer.

Não quero ver crianças confinadas, novamente, nas escolas em turno inverso para “recuperar” locuções adverbiais.

Se é que elas terão que ficar no turno inverso, é para que aprendam a ser mais humanas, menos egoístas, mais sensíveis.

Em vinte e poucos anos, serão os amiguinhos ranhentos do meu filho que poderão estar “selecionando” os com mais de 80 anos para serem mortos, eu estarei na fila.

Uma psicóloga conhecida comentou que ninguém imagina o impacto que essa pandemia terá, em longo prazo, nas subjetividades das crianças e jovens que a estão enfrentando.

Que a gente possa, agora, pensar nesses efeitos e repensar o papel da escola na volta às aulas… nesse momento, acredito, é mais importante preocupar-se com a saúde mental das crianças e jovens do que com o conteúdo a ser “vencido”.

Abraços virtuais e que sigamos nos apoiando mutuamente.

Para o mestre em Educação e palestrante Marcos Meier, em resposta a muitos que o interrogavam por mensagens virtuais: “E as aulas?”, “Como vai ficar a reposição de aulas?”, “As crianças vão ficar muito atrasadas na escola” e outros cobrando desde já uma decisão por parte de nós, professores. Então segue uma reflexão para os mais aflitos: Mesmo que a gente fique em quarentena até o fim do ano, que importância na vida teria formar-se na faculdade aos 21 ou 22 anos? A vida é mais que escola. Pessoas valem mais que currículos. Proteção é melhor que gramática e aritmética. E, mais do que qualquer outra coisa, a esperança é melhor que a preocupação exagerada. Abraços a todos os papais e mamães preocupados com a educação de seus filhos. Quando voltarmos às aulas, decidiremos com calma, levando em conta o que é melhor para as crianças”.



“Cada escola constitui um ambiente único, mediado pelos sujeitos, pelas suas intencionalidades e pelos seus métodos e modos de ver o ser humano, a vida e a sociedade. Os diferentes sujeitos e as diferentes estratégias educativas representam os “nós” que fazem uma rede ser o que ela é”.




Tatiana Lebedeff
Professora universitária UFPEL

“Fé em ação”: em defesa da vida e do equilíbrio planetário

“Somente lutam bem aqueles que tem visões de beleza.
Até lá, será a luta contra o feitiço. Já devastaram a terra.
Que não devastem a alma…”
Rubem Alves, em “Conversas sobre política”


Marcus Eduardo de Oliveira e eu, Nei Alberto Pies, nos conhecemos há pelo menos 07 anos, quando passamos a dividir a edificante responsabilidade de assinar mensalmente, de forma intercalada, coluna em Revista Missionária impressa MISSÕES.

Faz dois anos que, dada a facilidade do mundo virtual, passamos a conversar/teclar através das redes sociais. A bem da verdade, como dois caminhantes que somos, e que não temem se perder nesse vasto mundo que nos ampara, ainda estamos nos conhecendo e reconhecendo como sujeitos ativos (atores sociais) na sempre necessária luta diária e ininterrupta a fim de edificar uma sociedade mais igualitária – e “menos malvada”, como disse Paulo Freire, o pedagogo da esperança -, capaz de respeitar a dignidade humana e a diversidade religiosa, reverenciando o meio ambiente e a natureza (matriz da vida), não deixando de considerar com elevada distinção todas as formas de viver e ser no mundo contemporâneo que compartilhamos.

Acreditamos, antes de mais nada, no poder das palavras. Não por acaso, ambos temos livros publicados, e com relativa frequência, emprestamos nossas penas para sites ou mesmo páginas eletrônicas das redes sociais. Por certo, e desde há muito, já temos a leitura e a escrita como hábitos, como verdadeira rotina que nos ajuda a engrandecer, incorporados ao nosso cotidiano ou vida profissional. É assim que seguimos professando nossa fé!

Agora, deixando de lado essas lacônicas linhas de apresentação, cada um de nós, de modo próprio, relatará sobre a importância de assinar a coluna Fé em Ação, da Revista Missões. Na oportunidade, também explicitaremos, cada qual a seu jeito, a nossa maneira de professar a fé e suas correlatas crenças, algo que, por certo, nos ajuda a construir relações cotidianas.


I

“Sou Nei Alberto Pies, e me assumo como professor, escritor e ativista de direitos humanos, sempre em formação. Sempre escrevi como um ato libertador. Desde a minha adolescência e juventude, escrevia para me tornar belo aos olhares dos outros (como ensinou Rubem Alves). Diante da minha dificuldade de comunicação, por sofrer de gagueira, lia e escrevia para me sentir acolhido e reconhecido em alguma habilidade, desde os colegas da sala de aula.

Aos poucos, o escrever foi tornando-se uma necessidade. Desde o ano de 2007, passei a escrever, sistematicamente, em forma de crônicas, aliando reflexão filosófica com realidades do cotidiano. Foi então que aprendi que ninguém escreve se não tiver alguém que lê o que a gente produz. Neste momento em diante, busquei espaços em diferentes plataformas (analógicas, impressas ou digitais) para publicar minhas reflexões. Descobri, ainda, que quem “escreve, pensa melhor”.

Em 2014, já com mais de 150 crônicas publicadas em jornais e revistas impressas ou digitais, criei site www.neipies.com que hoje conta com mais de 40 Convidados, dentre eles, o amigo Marcus Eduardo de Oliveira.

Escrevo porque acredito no poder das palavras. As palavras, escritas de forma reflexiva e crítica, podem nos tornar seres humanos melhores. Escrevo também para afirmar os valores de solidariedade, compaixão, espiritualidade, fé, convivência, cidadania, democracia. Deste jeito, com convicção nestas ideias (que também são ideais), coloco a minha “fé em ação”.


Como nos tornamos humanos?

Participar da Coluna “Fé em Ação” nestes últimos 07 anos é motivo de muita satisfação e alegria por poder dividir parte do que creio e do que cultivo como ser humano e como cidadão do mundo. Misturar as dimensões humanizantes com as dimensões do conhecimento do planeta e de sua sustentabilidade tem feito desta coluna da Revista MISSÕES uma referência importante para os leitores da mesma”.


II

“Sou Marcus Eduardo de Oliveira, economista, professor e ativista ambiental. Assim como você, prezado (a) leitor (a), eu também não passo de um grão de areia, habitando a Terra, esse “cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica”, para fazer uso das pontuais palavras de Carl Sagan.

Indo direto ao ponto, sem confabular com o pessimismo, o fato é que estamos num momento bastante delicado (e perigoso) em que a realidade está fazendo questão de nos dar uma lição de humildade. E mais que isso: está nos dando uma incomensurável chance de resgatarmos certos valores morais (nosso edifício cultural, por assim dizer) há muito esquecidos. Portanto, precisamos aprender. Temos necessidade de aprimorar nosso entendimento e refinar nossa percepção. Urge lapidarmos nossa cosmovisão.

Mas veja, no entanto, que, tentar dar respostas para tudo o que está ocorrendo, convenhamos, é tarefa quase impossível. Porém, não podemos nos esquivar à tentativa de procurar compreender o que se passa lá fora. Para tanto, nem mesmo é preciso muita imaginação para logo compreender que os fatos confirmam a lógica: o CONHECIMENTO – talvez a mais importante ferramenta que a humanidade conhece – se bem usado, pode ser a chave do paraíso; mas também pode abrir, dado o uso inadequado, os portões do inferno.

Por isso, para não perder a oportunidade, afirmo em alta voz que sou daqueles que acreditam que o capital cívico (isto é, as crenças e os valores que estimulam a cooperação, no qual o conhecimento se destaca) faz a diferença. E repare no detalhe: isso é algo que perceptivelmente encontra-se enraizado na cultura de certos povos.

Grosso modo, é no capital cívico que precisamos nos apoiar, uma vez que isso ajuda até mesmo a identificar as boas escolhas no campo da ação política. Com essas, goste-se ou não, temos a possibilidade de melhorar a qualidade do Estado e dos serviços por ele prestados.

Falando em linguagem simples, a coisa toda, salvo erro de interpretação, me parece, à primeira vista, bastante simples. Ouso dizer que não há segredo. No fundo, e a rigor, todos, sem exceção, precisamos de um Estado a serviço da sociedade, e não de uma sociedade a serviço do Estado. Afinal, somos nós, atores sociais, que, dia a dia, ajudamos a “construir” o Estado em todas as vertentes conhecidas.

Em última análise, o Estado depende de todos nós. Trabalho, cidadania, fortalecimento da democracia, do Estado de Direito, cumprimento dos deveres, prática da cooperação/solidariedade, estímulo à pesquisa e desenvolvimento, ampliação da ciência e tecnologia, consolidação dos valores morais, atuação político-partidária, fortalecimento das instituições. É assim que podemos consolidar nossa participação na hercúlea tarefa de “fortalecer” o Estado. Importa ter em vista, sobretudo, que a qualidade de vida – legítimo anseio dos povos – vem a reboque disso tudo. Não duvidemos dessa assertiva.

Por fim, pelas bandas de cá, e em reforço ao presente argumento, bastante simples e igualmente modesto, confesso, mas dotado de muita esperança, estou plenamente convencido de que esse conjunto de ações, chamemos assim, nos ajudará naquilo o que mais interessa aos povos, estejam esses onde estiverem: imprimir muita, mas muita qualidade ao mais universal dos mistérios, A NOSSA EXISTÊNCIA.

Juntos, e unidos, exercitando a cooperação e a solidariedade, venceremos todo e qualquer óbice. Especialmente a prática da cooperação, e somente ela, vale reforçar e não perder isso de vista, traz consigo a possibilidade de SOMAR e INCLUIR. Duas palavrinhas aparentemente ingênuas, mas com elevado poder de fazer a diferença, quero crer.

Desnecessário dizer, às claras, que o desafio que temos pela frente é enorme. Difícil contestar, do ponto de vista lógico, que precisamos agir com brevidade, uma vez que somos constantemente convocados ao entendimento de que as coisas seguem, e a nossa história, para o bem maior da humanidade e de necessários tempos de paz, não tem fim. Sigamos cooperando. Temos o dever de continuar nossa evolução moral.



Autores: Nei Alberto Pies e Marcus Eduardo de Oliveira

Como não morrer por dentro!?

A literatura, assim como todas as artes, é capaz de provocar catarses.
Vemo-nos ali, expostos e nus diante da vida. A libertação dos nossos medos, retidos na memória por anos e anos, podem ser resgatados,
tirando-nos de traumas e conduzindo-nos à cura psíquica.


Sempre percebemos quando estamos agonizando por dentro. O vazio existencial não depende de grandes acontecimentos, mas ele surge do nada.

A aridez interna dá-nos conta de que algo não vai bem com relação ao trabalho de constante crescimento a que nos submetemos, cônscios de que estamos incompletos, inconclusos. Sentimos que devemos dar continuidade à evolução da nossa alma, mas, de tempos em tempos, duvidamos de que tenhamos energia e condições para isso.


Sinto que a velocidade que usamos por acompanhar o que acontece está criando uma situação de ansiedade, quando nossa atenção é chamada ao mesmo tempo para tantos interesses.

A incapacidade de digerirmos com vagar – como deve ser -, leva-nos à precipitação em tirarmos conclusões sem sabedoria, eivadas de preconceito e carentes de embasamento.


Quando entro em estado de agonia da alma valho-me da literatura. Nenhum livro caiu voluntariamente no meu colo para ser lido, por óbvio. A caça ao que ler é fruto da minha vontade solitária, é, antes de tudo, um cuidado comigo mesma, necessitada de me aquietar e preencher o compromisso pessoal de não morrer por dentro. O processo de regeneração interior é silencioso e gradual. Um livro carrega-nos para fora, para vermos o mundo com amplitude.



“A literatura ao longo de sua trajetória vem provando que uma de suas funções primordiais é a humanização do ser, que transforma a vida através da linguagem. Porém, a literatura só exercerá completamente sua função se tiver um comprometimento social”. (Laércio Fernandes dos Santos)




A literatura, como um bálsamo, cura-nos enquanto descortina lugares que, visitados, tornam-se nossos, aos poucos. Os personagens movem-se dentro de situações que conhecemos e ajudam-nos a transcender as nossas, às vezes tão pesadas.

A literatura encerra denúncias sociais que aqui na vida real perecem não ter solução, mas que, no livro, ajudam a compreender a nossa condição humana tão marcada por injustiças e compreendemos por que, muitas vezes, agimos movidos pela cultura, da qual é tão difícil escapar.


Um livro é cheio de luzes que se acendem pouco a pouco. A alma identifica alguns desses clarões e outros só conseguimos ver quando relemos uma obra. Há livros que guardamos pela vida afora, tal a profusão de entrelinhas, sombras, nuances que encerram, fazendo-nos reféns dele.

São os livros que relemos ou deixamos ali, caso entremos em estado de agonia de novo. Há os que nos mostram que há esperança, sempre. Esses fornecem “insights” súbitos, capazes de solucionar situações até então insolúveis.


A literatura, assim como todas as artes, é capaz de provocar catarses. Vemo-nos ali, expostos e nus diante da vida. A libertação dos nossos medos, retidos na memória por anos e anos, podem ser resgatados, tirando-nos de traumas e conduzindo-nos à cura psíquica. O significado disso é imensurável.

Ao fecharmos um livro compreendemos que nos apropriamos de milhares e milhares de anos de produção. Entendemos que esse livro vem impregnado de influências e memórias infinitas. Um mundo está contido em um livro e ele passa a ser parte do nosso mundo interior.


Sempre que perguntam o que se deve ler, eu respondo: Tudo o que lhe cair às mãos! Os grandes leitores passaram por um processo natural de seleção e isso é absolutamente subjetivo.

Só podemos saber o que é bom se vivermos também o que não é bom. O processo de depuração do nosso gosto não acontece do dia para a noite, portanto, gosto dos que conseguem ter momentos a sós na companhia de um livro.

Estamos necessitando de quietude, de diálogo com nossa alma, para que ela se revigore, tenha alimento de qualidade, se liberte do que é a morte interior. O discernimento acontece quando estamos alimentados, a compaixão existe desde que conheçamos o que é a natureza humana tão bem iluminada pelas luzes da literatura.


Devemos abastecer nossas prateleiras com obras enriquecedoras, para que, agora sim, bem vivos, esperemos por algo diferente do que os noticiários tão incansavelmente vêm mostrando. E vamos lá para um clichê: Há luz no final do túnel! E há mesmo!




Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados. (Padre César Moreira)

O Cristo, este ano, não sai?

Quem contou essa história,
que o Cristo este ano não sai?
Se Ele está vestido de branco,
de azul, ou verde,  no hospital?

Quem disse que o Nazareno
não pode fazer penitência?
Se todos estão atendendo
doentes nas emergências?

Quem diz que ninguém
há de encontrar Jesus caído?
Veja-o nem cada médico
caindo exausto, rendido.

São humildes Cirineus
ajudando a cada passo:
socorristas, enfermeiras,
sem descanso, lado a lado.

Como em Jerusalém, em um jumento
entrou o Cristo montado.
Assim os caminhoneiros, noites e noites acordados,
abastecem hospitais, farmácias, supermercados.

O exército e a polícia
patrulham as desertas ruas.
Cuidam das nossas famílias
ficando longe das suas.

E eis que, também no campo,
Jesus semeia a terra, prostrado.
Cuida torres de energia, cava poços,
do mar nos  traz o pescado,
colhe hortaliças e pastoreia o gado.

Que ninguém diga que o Senhor
não está  nas ruas presente.
Quando, em igrejas solitárias,
os padres celebram missa diariamente.

Que ninguém diga este ano,
“às ruas não sairá o Crucificado”.
Enquanto há uma voz serena
falando com  encarcerados.

Ninguém fale que o Nazareno
“este ano não sairá em procissão”,
enquanto há vidas tão plenas
de amor em seu coração.

Com bom humor e sorrisos,
embora, o olhar fatigado,
é Jesus quem nos atende nos caixas
das farmácias e mercados.

Num caminhão, todo dia,
de verde e branco pintado,
Jesus recolhe o nosso lixo
e vai embora sem ser notado.

Quando vejo tanta gente
enterrando seus queridos, sem receber um abraço.
Nossa Senhora da Piedade também sai
das favelas com seu filho nos braços.

E embora nos assuste
esse isolamento sepulcral.
Na solidão, está a fortaleza
daquele que venceu todo mal.

Talvez, não será em imagens esculpidas,
queJesus virá em procissão.
Mas estará em mil faces, sem velas ou soar de sinos,
homenageado com o incenso de pessoas de bom coração.

O amor derruba os muros,
corações não têm fronteiras.
Esta será a Semana mais Santa,
de todas, a mais verdadeira.

Versão musicada por Pablo Morenno.




Poema do Arcebispo de Lima e Primaz do Perú Monseñor Carlos Castillo Mattasoglio.Tradução e adaptação de Pablo Morenno.

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A Ira