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Reflexões & Atividades

Editamos mais de 700 publicações em nosso site desde o mês de dezembro de 2014 até o início de 2020, sendo em torno de 240 de autoria de Nei Alberto Pies e as restantes colaborações de mais de 40 pessoas ou instituições convidadas.

O propósito do site sempre foi produzir e editar conhecimentos críticos e reflexivos, que colaborem com a nossa humanização. Entendemos humanização como a possibilidade de nos tornarmos seres humanos melhores, através do conhecimento.

O público a quem pensamos e dirigimos nossas publicações sempre foram os professores e professoras, lideranças sociais, populares e sindicais, além de leitores que gostam de abordagens críticas e reflexivas da área de conhecimento das Ciências Humanas (História, Literatura, Filosofia, Sociologia, Geografia e Ensino Religioso).

As temáticas que organizam nossas publicações são, preferencialmente, Educação, Cidadania e Espiritualidade.

Queremos, agora, dar um passo além com as nossas publicações. Produziremos, inicialmente, um roteiro, com pequenas resenhas, de publicações que estão orientadas para uso, em práticas pedagógicas, inicialmente ligadas aos conteúdos de Filosofia, Filosofia e Meio Ambiente e Ensino Religioso.

A intenção e o objetivo destas primeiras publicações é que professores acessem o material e trabalhem as temáticas com seus alunos a partir de memórias/sínteses de texto ou questões elaboradas por eles próprios, nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Muitas das temáticas, com respectivos links das publicações, já seguem com “Sugestões para uma prática pedagógica”.

Agradecemos, desde já, pela apreciação, sugestões e contribuições dos professores e professoras: Valdecir Bianchi, Márcia Carbonari, Sandra Santos, Andreia Benetti Moraes, Alex Rossset e Graziela Bergonsi Tussi.

Num segundo passo, editaremos reflexões e textos com sugestão de atividades específicas em cada uma delas, com a participação de professores da área do conhecimento que já aplicaram esta atividade em suas aulas.

Se pudermos contar com a participação dos colegas professores com sugestões e críticas, ficaremos sempre gratos!


Nei Alberto Pies,
Editor do site

Padre Zezinho: religioso coerente com Doutrina Social da Igreja

Padre Zezinho é “marca registrada”
de uma espiritualidade cristã, viva,
intensa e embasada na doutrina social da Igreja.


Acompanho, bem recentemente, Padre Zezinho nas redes sociais, em sua página do Facebook (com 283 mil seguidores). Padre Zezinho é “marca registrada” de uma espiritualidade cristã, viva, intensa e embasada na doutrina social da Igreja.

Dias atrás, ele mesmo declarou que não é de direita, nem de esquerda, mas que segue a doutrina social da Igreja Católica Apostólica Romana desde Pio XI até os dias do Papa Francisco. Provavelmente, escreveu sobre o tema porque deve ter sofrido grandes pressões para definir-se sobre as conjunturas políticas de um Brasil em efervescência.




Certeza é Ilusão é uma composição do cantor, compositor, cronista urbano, professor de música e fundador do bloco Todo Mundo, Paulo Padilha.




Muitos cristãos católicos guardam uma lembrança doce, suave, evangélica e sempre profética do Padre Zezinho em muitas de suas canções que se transformaram em verdadeiros hinos para a comunidade católica brasileira.

Mais recentemente, encorajado por pregações proféticas e pelas críticas ao modo de ser igreja proferidas por Papa Francisco, percebo que Padre Zezinho, com seus 78 anos, resolveu assumir posições com relação à temas sociais da atualidade, em especial com relação aos riscos iminentes da pandemia do Coronavirus (COVID -19).

Em uma publicação datada em 28 de março, escreveu:
“Então, como creio em Deus e não entendo de dores humanas como os especialistas em virologia e dores, eu oro daqui da minha quarentena! Não me deixam sair porque sou do grupo de risco! Meus 11 sobrinhos médicos e enfermeiras e meus amigos policiais terão que ir lá e correr o risco. São jovens. Já arrisquei saúde por muitos anos quando era jovem. Agora tenho que ouvir os médicos e autoridades. Então, as críticas ferinas e o xingamentos políticos em busca de votos são mais vírus em cima de vírus na rua e na internet. Estou apagando tudo que exala ódio e raiva. Mantenho quem discorda, mas não joga veneno nos outros!

Dois dias depois, escreveu:
“Preciso desenhar o que acabo de descrever? Aos que se dizem crentes em Deus releiam o livro dos números! Está tudo na sua Bíblia! Você ainda acha que o COVID 19 não mata? Vai seguir líderes corajosos que não têm medo do vírus, ou vai ouvir e seguir os cientistas e os médicos, muitos dos quais estão arriscando a vida para salvar os que caíram vítimas desta PANDEMIA?”

No mesmo dia, postou uma charge e escreve o texto:
“A frase do presidente que chamou de moleque quem discorda dele (dia 29/3/2020) será lembrada por cientistas, médicos e religiosos que pediram30 dias de quarentena para que o coronavírus não fizesse tanto mal como fez na Itália e na Espanha!”.


Esta publicação gerou a maior polêmica e suposta “decepção” de centenas ou milhares de seus seguidores, como também de manifestações de apoio a sua corajosa publicação. Em um dia de postagem, esta publicação obteve 7100 curtidas, 3000 comentários e 2100 compartilhamentos.

Que tipo de cristãos a Igreja Católica vem formando ao longo das últimas décadas?

Lendo algumas centenas de comentários de seus seguidores, sobretudo os mais críticos, ácidos e estúpidos, vieram-me a mente algumas indagações:

  • Por que a opinião de religiosos em temas atuais geram tanto “frisson” entre os seguidores, sobretudo quando questionam a atitudes incoerentes de autoridades como as do presidente Bolsonaro?
  • Por que a Doutrina Social da Igreja ainda é tão pouco conhecida pela maioria dos católicos?
  • Qual é a origem de tanto ódio, raiva e estupidez, justamente propagada entre cristãos que tem sua vivência baseada no amor (inclusive no amor aos inimigos)?
  • Podem, e devem, os religiosos manifestar opiniões sobre a conjuntura atual do Brasil (que chamamos de efervescência e incerta no início desta reflexão)?
  • A atual politização da COVID -19 não trará sérios prejuízos ao enfrentamento e combate a esta pandemia no Brasil?

Que tipo de cristãos a Igreja Católica produziu nestas últimas décadas? O que penso sobre é que um religioso de relevância como Padre Zezinho tem de estar na frente de seu povo, para profetizar verdades, não para “adular” ilusões. O seu post teve um tom profético!

Por fim, desejo publicar a genial e corajosa reação do próprio Padre Zezinho (em 30/03/2020).


PADRE, VÁ ORAR E CANTAR

Na minha página de Facebook, os que me aconselharam a orar, eu já fazia. Quem me aconselhou a “apenas” ora, eu ignorei. Quem me disse que padre não deve opinar sobre grandes problemas sociais, como é o caso da atual pandemia e outras epidemias, e graves enfermidades que atingem nosso povo, tentei explicar.
Quem escolheu agredir, caluniar e mostrar que primeiro pensavam no partido e na ideologia e que a fé em Cristo vinha depois, primeiro expliquei e depois os excluí da minha página.
Eles têm outros padres e outros leigos e outras páginas que também falam de política de esquerda ou de direita e também oram muito. Mas raramente ensinam Doutrina Social. Se ensinam não olham para todos os ângulos e todos os lados!
No meu caso, eu oro como padre e ensino o que está escrito desde o Vaticano II, nos mais de 100 documentos de cunho social da nossa Igreja e ensino o que ensinaram os Papas, desde Pio XI até Francisco de Buenos Aires, todos eles inspirados no santo Francisco de Assis que não apenas orou.
Além disso, desde 1964, mais da metade das minhas canções falam de oração , de doutrina social, de política e de espiritualidade . Eu li tudo o que a Igreja tem dito desde em que fui ordenado padre. Estou obedecendo nossa Igreja!
A eles respondo: Vá ler a doutrina social da nossa Igreja ! Eu li !

(Pe Zezinho scj)




“Temos todos o direito e o dever de discordar, de quem quer que seja, quando a estupidez, a arrogância e a mentira agridem a nossa inteligência, sabedoria e ponderação.  A gente até suporta, silenciosamente, até um certo ponto, mas a reação da racionalidade se impõe. A cultura de ódio, perseguição e mentiras cega toda a sociedade, manipula as mentes e nos transforma em “robôs”, repetidores de inverdades e frases prontas”. (Nei Alberto Pies)

Valorizar a vida e prestar solidariedade aos imigrantes

“Nem tudo está perdido!
Ainda podemos acreditar
na humanidade, Laercio”.


Ouvi, e ainda ouço, muitos comentários em relação à morte que poderá ser provocada pelo vírus. O que assusta é que são comentários tão desumanos, ao extremo. O que está acontecendo com o “ser humano”?

“Condição de ficar parado assim, afeta as consequências que nós vamos ter economicamente no futuro, vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora. Eu sei que nós temos que chorar, vamos chorar cada uma das pessoas que morrer”. “Pessoas morrendo é muito triste, 15000 mortos para 7 bilhões de pessoas no mundo é um número muito pequeno.” Quanto vale a vida de uma pessoa?

 “Por conta de 5 mil pessoas ou sete mil pessoas que vão morrer, eu sei que é muito grave, eu sei que isso é um problema, mas muito mais grave é o que vai acontece no Brasil com a economia.”

Em meio às atrocidades blasfêmicas que ouvimos, ainda encontramos outros gestos que ainda nos fazem acreditar no “ser humano”, como humano.

Ano passado, no Instituto Estadual Cecy Leite Costa, deparei-me com uma situação que exigiu de mim, mais do que ser um professor, ser um verdadeiro ser humano, que vê no outro o seu semelhante. Entrei para dar aula num 3º Ano, observei que 3 alunos não eram brasileiros. Eu poderia fazer como muitos: eles que se virem, quem mandou sair do Haiti para morar no Brasil? Darei minha aula de Língua Portuguesa e se eles não aprenderem, o problema é deles.




“As histórias se repetem: fome, pobreza, perseguição política ou religiosa, medo, violência, ou alguma razão semelhante faz com que as pessoas abandonem sua casa, seu país, suas raízes e parte de sua família para viver em outro lugar”. (Tatiana François Motta)




Logo de cara, percebi que o Obelsone dominava muito bem a Língua Inglesa, além do Francês e do Criolo. Logo para esse comecei dar uma atenção especial e quando não entendia em Português a explicação, falava em Inglês para, que de fato, ele entendesse a estrutura linguística do Português. Em contra partida, ele me ensinava o Francês e me ajudava comparar com a minha língua materna na forma estrutural.

O Jean falava muito bem espanhol, como domino esta língua muito bem, foi moleza para explicar a estrutura do Português em espanhol, para que ele entendesse.

O Youmenson , dominava um pouco de Inglês, Francês e Criolo.

Com o passar do tempo, percebi o entusiasmo e a força de vontade que ambos traziam para suas vidas, que acabava me motivando, enquanto ser humano, que por vezes, devido ao sufocamento provocado pelo governo à nossa profissão, estava desanimado, porém, logo era esquecido, tomando como exemplo de vida, suas vidas.

Sem dúvida, eles entendiam muito bem o Português, porém percebi que precisava inserí-los ainda mais na língua e na sociedade. Foi aí que levei a minha inquietude a minha Orientadora , Professora Dra. Marlete Diedrich, da Universidade de Passo Fundo, e juntos desenvolvemos um projeto de inserção na sociedade brasileira e convocamos outros pesquisadores da linguagem para formar encontros intitulado Ateliê de Conversação. Nossos encontros foram para aflorar as línguas. As discussões se deram em espanhol, francês, inglês e até em criolo.

Envolvemo-nos tanto, que fomos aos bancos resolver questões financeiras, procurar trabalhos, no fórum para organizar papeis de casamento, visitar as condições de trabalho deles, visitas em TVs e Shopping. Acreditamos no humano, por isso, fizemos isso. Somos irmãos. Foi uma experiência humana fabulosa, na e pela linguagem.

Nesse ano, 2020, estou eu numa sala de aula do Instituto Cecy Leite Costa, num relance, observo meu Diretor Rodrigo Gomes Rodriguês, ofegante na porta da sala: – Laercio, me socorre! Estou com um pai e uma filha na minha sala e não estou entendendo nada. Aí, desço. Encontro seu Jose Gerardo Gonzalez e sua filha Gerliennys, da Venezuela.

Logo estabeleço um diálogo, descobrindo que eles já tinham o documento da Central de Matrícula e era só encaminhar à secretaria a matrícula. Percebo que a aluna estava numa das 11 turmas do primeiro ano, porém não era a que eu lecionava. Dessa forma, solicito ao diretor que a colocasse na turma da qual lecionava Língua Portuguesa, assim se tornaria mais fácil explicar a estrutura, visto que dominava as estruturas linguísticas das duas línguas.

Passei acompanhar a aluna em eventos da escola, a fim de permitir a tradução e que ela pudesse entender. Na sala, sempre acompanhava explicando a ela a estrutura das línguas.

Foi numa aula onde explicava que no português há sempre a contração do artigo e da preposição, diferente do espanhol. Viro-me para ela e digo que seria importante ela anotar com uma caneta diferenciada. Ela me olhou e disse: –  Professor eu só tenho essa caneta preta, aliás não tenho material, além dessa caneta e desse caderno. Aí estabeleci um diálogo, foi quando me falou que era difícil, pois seus pais estavam sem trabalho. Aquilo me chocou!

Cheguei em casa e relatei o fato a minha Sobrinha e afilhada Isadora dos Santos, sem pretensão nenhuma. No outro dia, ela chegou me dizendo que havia mobilizado todos os terceiros e segundos anos do Colégio Estadual Fagundes dos Reis, escola estadual na qual estuda, recolhendo dinheiro junto a uma colega, Évelyn Giovanna e que, no outro dia, iriam comprar material para a minha aluna venezuelana. No total, juntaram cento e poucos reais. Na semana seguinte, fizemos a entrega para a aluna, que emocionada, chorou e disse: – “Vocês são muito bons”!

Agradeço a Diretora Do Fagundes Cleopatra e sua Vice Taís que além de abrir espaço para este gesto humano, ajudaram com alguns reais também. E finalizo esse texto, usando uma frase da nossa Orientadora Educacional, Ana Van Groll: – “Nem tudo está perdido! Ainda podemos acreditar na humanidade, Laercio”.




“O direito de migrar é universal. Nenhum ser humano é ilegal. É dever do Brasil, signatário de vários tratados internacionais que reconhecem esse direito, garantir a segurança e os direitos dos migrantes no país. A face cruel do capitalismo não irá barbarizar nossa humanidade”. (Setembrino Dal Bosco)

Tempos de assombro

Se a Peste Negra trouxe  grandes  alterações  sociais 
e  contribuiu  para  acabar  com o sistema  de 
servidão imposto  aos  camponeses  à  época,
o que provocará  o  Coronavírus   na  economia,
na sociedade e na política ?


Todos nós  estamos  assombrados diante  da pandemia  do coronavirus. O que líamos nos  livros  de  história está acontecendo  no  aqui e agora. E, como no  passado, buscamos culpados, bodes  expiatórios.

Quando  da Peste Negra, na  Idade Média, judeus  e  leprosos  foram  acusados pela  pandemia,  embora tanto  judeus  como  leprosos  adoecessem  e morressem da peste.

Hoje,  os  chineses  são  vistos  como  os  vilões da história.  Há  até  quem acuse a China  de  ter “fabricado” o vírus  com  fins  econômicos, num  disparate  fruto da ignorância ou  má-fé.

A historiadora Cybelle de Almeida, da  UFRGS, assevera que  as  razões  de  tal  parvoíce vão  desde  questões políticas  a elementos  da psique humana, provavelmente um traço  infantil  que  permanece  em alguns  indivíduos  mesmo durante a idade  adulta.  Isto é, encontrar uma forma de explicar  o inexplicável,  através  de  fórmulas  fáceis, reducionistas e falsas.

Trata-se  de  um atestado de ignorância  histórica. Casos como os  do coronavírus assim existem  e  são registrados  desde  a Antiguidade  e, já naquela  época, várias  epidemias  tiveram sua  origem  naquela  região do planeta.

As teorias da  conspiração  beiram ao ridículo.




“Numa época em que todos se acham profissionais de mídia, circulam as mais absurdas idiotices. É a pulverização da desinformação que ocupa o espaço da verdadeira informação. Isso confunde as pessoas e pode ser letal”. (Luiz Carlos Schneider)




A ciência  explica  que  muitas  doenças  surgem  do contato  próximo entre  humanos  e  animais – típico de  sociedades  agrícolas – e  se  espalham mais  rapidamente  onde há grande  concentração de  humanos. A China  é assim  há  séculos. Daí o fato de que a maior parte das  epidemias  lá  surgem,  como a  de  agora.

Mais. É preciso considerar a falsa noção de riqueza  da sociedade  de  consumo do  século 21.

Ao afetar o sistema  respiratório, a  ciência  aponta, igualmente,  a poluição  e a  contaminação  do ar  como  geradores  da peste. Tudo  começa na China, com a mineração  cobrindo de cinzas  cidades  e campos.  Agora, na  Itália, o núcleo  é Milão, na  região “mais  rica” e poluída  daquele  país.

Em  busca do  lucro rápido,  a  saúde  pública  foi  descuidada.  As  consequências  econômicas  serão terríveis. Estudos  da OIT indicam que  a pandemia  pode causar  mais  demissões  do que a crise  financeira  global de  2008.  Então, 22 milhões perderam o emprego.  Agora, serão  de  5  a 25 milhões.

As vagas precárias, que pagam  pouco  e exigem muitas  horas, se espalharão. Depois da pandemia, 35 milhões  de  brasileiros  serão  engolidos pela pobreza.

Se a Peste  Negra trouxe  grandes  alterações  sociais  e  contribuiu  para  acabar  com o sistema  de  servidão imposto  aos  camponeses  à  época, o que provocará  o  Coronavírus   na  economia, na sociedade e na política ?  Quem  viver,  verá!




“A lógica da peste é verdadeira. Temos aqui e agora, tal como entre os personagens da narrativa, o flagelo real, embora pensemos, tal como Camus, que nem a desgraça é eterna. Temos uma certeza, que é o cumprimento da tarefa diária de cuidado com a gente mesma e com os outros. Estamos intimados a sermos sérios, responsáveis e solidários”.  (Cecília Pires)

As galinhas e o galo covarde

Cansei de falar de política.
O assunto tem me deixado muito irritado.


Para o bem da minha saúde, vou contar para vocês uma fábula: havia um galo, covarde, parasita, sanguessuga, que através da força bruta e da intimidação psicológica, assumiu o controle do galinheiro. Isto só foi possível acontecer graças a meia dúzia de galináceos milicianos que eram aparelhados pelo galo e a um acordo macabro feito com as raposas.

O acordo continha apenas dois termos: 1º – as galinhas produzem as riquezas e eu divido com vocês raposas; 2º – aquelas galinhas que se revoltarem contra minha autoridade serão entregues a vocês para servirem de exemplo. Tendo as raposas por trás de si a aterrorizar o galinheiro, o galo despótico continuava seu regime de terror.

Um dia uma galinha desovou uma ninhada de belos pintinhos amarelinhos. Em alguns dias um dos pintinhos adquiriu uma peste, a bouba aviária.

A galinha mãe preocupada com um dos seus filhotes, procurou o galo covarde, parasita, sanguessuga para solicitar mais atenção e cuidados com sua ninhada. O galo despótico não apenas ignorou a solicitação da galinha mãe como, para servir de exemplo, entregou o pintinho contaminado para servir de janta as raposas.

O que ele não sabia é que a peste já havia contaminado os demais pintinhos da ninhada e, aos poucos, um a um foram apresentando os sintomas da peste.

O galo e seus milicianos não tiveram dúvidas: entreguem todos os pintinhos pesteados às raposas. Esta decisão causou uma revolta enorme no galinheiro. As galinhas se uniram e foram para o enfrentamento contra o galo e seus milicianos.

A batalha durou semanas. Ao término, o galo e seus comparsas foram defenestrados do galinheiro e posto pro lado de fora onde, devido à duração da pendenga, raposas famintas os esperavam. Moral da história: FOORA BOLSONARO E SUA CORJA! Desculpem, não aguentei, precisei falar de política, no final!

Covid-19: crise econômica e resiliência

No momento, a racionalidade lógica e ciência são
realmente a direção que a humanidade deve seguir e respeitar.
Pesquisas científicas nos ajudam a entender o que está
acontecendo com o mundo, bem como orienta o
povo a trabalhar na prevenção e solução para o problema.


Em meio a mais nova pandemia, causada pelo vírus corona Covid-19, um colapso econômico global está se instaurando. Muitos perguntam o que está acontecendo com o mundo e como sobreviver a essa crise de saúde, financeira e individual. Sabe-se que a origem do Covid-19 foi na China, onde o vírus mutou de seu hospedeiro original – o morcego para seu novo hospedeiro – o ser humano.

Muitas são as hipóteses das causas dessa busca de um novo hospedeiro, desde um ato evolucionário espontâneo até mesmo suspeitas de conspiração com interesses políticos utilizando engenharia genética. Vale lembrar que a degradação dos ambientes naturais e da caça de animais silvestres para consumo humano facilita o contato entre vírus e seu novo hospedeiro – ser humano.

Independente da origem, o Covid-19 fugiu do controle das autoridades globais e representa um risco de colapso ao sistema de saúde, como observado na China, na Itália e atualmente nos EUA. Com rápida tiragem de cópias e resistência a vários substratos, o vírus infecta de maneira exponencial com consequências mais graves não só a população idosa e imunocomprometida, mas agentes de saúde e população em geral também.

Contudo, o mais grave em tempos de pandemia é o comportamento individual do ser humano independente de raça, etnia e localização geográfica. Há uma escassez global de papel higiênico e álcool gel. Imagens de pessoas adultas com maior poder aquisitivo enchendo seus carrinhos e deixando a população vulnerável à deriva, tornaram-se comuns.

Muitos questionam se o poder do covid-19 é real ou se o pânico fortalece a pandemia. O medo é um dos maiores problemas da humanidade. Palavras impensadas de cunho racista, políticas de emergência provisórias e quarentena são comuns nesse momento.

O bem-estar e a saúde da população devem ser prioridades, mas com empresas fechadas muitas pessoas perderam seu emprego e estão sujeitas a passar fome, além de tudo isso. Muitos americanos perderam suas aposentadorias porque o mercado das ações está em baixa.

Porém, essa é a chance da humanidade, como um todo, se redimir.

Nos tempos de quarentena forçada, como no exemplo da China, com fábricas e fronteiras fechadas, menor utilização de transporte contribuíram para que houvesse uma queda significativa nas emissões globais e o ar está mais leve. Em termos de poluição desenfreada que contribui para o aquecimento global, o mundo está sendo forçado a desacelerar. 

O mais interessante é que a solidariedade, devagarinho, mostra a sua cara novamente. Vizinhos com material extra, precisamente, papel higiênico, deixam pacotes na entrada de outros vizinhos (aconteceu comigo aqui nos EUA). Costureiras estão doando o seu tempo para confeccionar máscaras hospitalares para profissionais na linha de frente. Além do mais, quem tem reservas financeiras está doando seu salário a quem não tem.

Algumas estimativas apontam que dentro de um ano e meio, o Covid-19 esteja sobre controle, mas o mundo jamais será como antes.

Esse período de quarentena nos faz repensar nossas atitudes e uma reflexão interior é sempre benéfica. Porém, infelizmente muitas vidas estão sendo levadas pelo Covid-19. Que essas vidas já levadas não sejam em vão. Que sirvam para que entendamos que não podemos controlar tudo, ambiente e demais seres humanos, sem consequências.

A humanidade pode se beneficiar do entendimento que há forças que não podemos controlar, que há um plano maior em questão. Independente de partido político e religião ou da ausência da mesma, creio que temos que acreditar em algo maior do que nós mesmos. Se acreditarmos em um plano maior ou força maior, tiraremos um peso dos ombros porque há circunstâncias que não podemos controlar. Alguns chamam essa força superior de Gaia – a mãe natureza, outros do poder do Universo, mas eu a chamo de Deus.

No momento, a racionalidade lógica e ciência são realmente a direção que a humanidade deve seguir e respeitar. Pesquisas científicas nos ajudam a entender o que está acontecendo com o mundo, bem como orienta o povo a trabalhar na prevenção e solução para o problema.

A ciência se preocupa com os fenômenos naturais, o que não consegue ser explicado pela ciência pode ser dito como sobrenatural e deve ser deixada para o campo espiritual. A lei moral, intrínseca e inerente em situações de certo e errado ou como realmente foi a origem do universo via Big Bang, (já que a autogênese divide a opinião de muitos) são exemplos de questões onde alguns cientistas encontram o elo com a religiosidade.

O valor da ciência não deve ser questionado, mas para fortalecer nosso cotidiano, nos ajudar a levantar da cama com esperança de algo melhor, para sermos melhores com o próximo, para levantar a cada queda e para superar crises de depressão precisamos de algo além da razão… precisamos de fé. A fé não pode ser racionalizada, tem de ser experenciada. Temos que acreditar que vai dar certo mesmo que não entendamos o processo ou direção.

De uma experiência pessoal de fé

Vou agora ilustrar uma situação real. Muitos já leram parte da minha história no artigo anterior – “O que se pode esperar de uma criança da vila”, onde relatei como passei a ser pesquisadora nos EUA, apesar de ter nascido em família humilde no interior do Brasil. Agora relato minha segunda experiência drástica aonde a fé tornou-se a mola propulsora de minha vida.



“Fui uma criança da vila, estudei a maior parte da minha vida em escolas públicas e, com muito esforço, tornei-me professora da rede municipal de Passo Fundo -RS. Uma vida muito corrida, lecionando em várias escolas. Em 2004, consegui uma bolsa para fazer Mestrado em Educação na UPF  sob orientação do Pe. Eli Benincá”.




Meu marido tinha um bom emprego no estado de Washington, assim como eu. Tínhamos duas meninas para cuidar então e uma terceira na minha barriga. Felicidade era a palavra do momento até que meu marido se envolveu em política na região e sofreu retaliação tremenda.

Ele se identifica com as massas e pensou que poder de livre expressão nos EUA impera. Pura ilusão. Imediatamente ele foi forçado a abandonar o emprego e comprometeu o meu também. Além disso, não conseguia outro emprego porque recebeu essa marca política partidária. Uma família prestes a ter cinco pessoas e as economias esgotando… Com oito meses de gravidez, ajoelhei-me no chão de madrugada e clamei para que uma porta se abrisse.

No outro dia, a resposta, recebi uma ligação para realizar trabalho de campo na agronomia. Sou bióloga geneticista e professora universitária, mas não tinha escolha, tinha que aceitar a pesquisa. A porta aberta foi essa. Com uma barriga enorme e dores que uma mulher prestes a ganhar nenê sente, fui contratada entre 150 candidatos, a maioria homens brancos e jovens. Mas mesmo assim, a preferência foi dada a uma mulher latina e grávida. Logo, iniciei visitas de campo por todo os EUA, Canadá e Nova Zelândia, selecionando variedades, abaixando e levantando, até que o nenê nasceu prematuro.

Tive duas semanas de licença não-remunerada e apesar de ter cesariana, voltei a campo, afinal nos EUA tempo é dinheiro… tive que deixar em casa minha bebezinha recém nascida e suas irmãs com o pai delas, que estava passando por depressão. Não havia alternativa. Meu marido, ora agnóstico ora ateísta, entrou em depressão por empilhar o peso do mundo em seus ombros. Afinal, na opinião dele, somente fatos observáveis são acreditados e assim sendo, não há um plano maior.

Quem é mãe sabe da dor de estar separada de seu bebê recém nascido ou suas crianças, mas entende que deve lutar para dar o melhor a sua família. Mágoa, dor, arrependimento, medo, raiva, vontade de largar tudo foram experiências muito comuns durante o momento. O que me deu força para levantar todo dia e encarar a situação foi minha fé, a crença no superior e no plano maior.

Como cientista, procuro diariamente ler e entender outros cientistas na sua jornada com a fé. Como cristã, procuro ser uma pessoa melhor a cada dia e isso me traz paz e um estado de felicidade interior imensa. Sei que Deus está comigo. Essa situação que relatei anteriormente ocorreu há quase dois anos atrás e aprendemos a nos ajustar como família, estamos felizes e saudáveis.

Meus caros leitores, que me acompanharam até aqui, eu imploro que vocês ouçam a ciência, mantenham-se saudáveis e utilizem medidas preventivas contra a pandemia do Covid-19. Mas, por favor, acima de tudo, desenvolvam sua espiritualidade e acreditem em algo maior do que vocês mesmos e que há um plano superior. Tudo vai dar certo e vamos sair dessa crise mais fortalecidos do que antes, como humanidade e como planeta.



Na Itália, vizinhos chegam à janela no fim da tarde e cantam em coro. Igrejas, mesquitas, sinagogas, abrem suas portas a quem vive na rua e necessita de cuidados higiênicos. Enfim, são inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados. Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco. 
Veja mais aqui.

Concepções de humanidade e religião em tempos de Covid 19

Obedecer as orientações e permanecer em casa
significa pensar na existência como sendo uma grande teia;
teia de relações onde o que parece estritamente pessoal influência
na configuração de toda teia, podemos ser um fio a mais a compor
essa complexidade de relações e agir de forma solidária.



Em tempos de pandemia, algumas reflexões, embora pareçam óbvias, se fazem urgentes.  A seguir, ensaio duas que nasceram da observação e do desejo de contribuir neste momento de intensa crise.

Primeiramente, falamos da noção de humanidade como um projeto que precisa de aprimoramento contínuo; em seguida sobre a função formativa das religiões e o desafio das mesmas no enfretamento desta pandemia; por fim, tentamos poetizar nossa esperança em dia melhores e felizes para a família humana.

As informações de cunho científico, para o combate a pandemia tem como principal orientação que as pessoas permaneçam em suas casas, o isolamento tem soado como a melhor resposta que podemos dar para barrar o avança do Covid 19.

Não obstante este aviso, pessoas e organizações têm oferecido certa resistência, e certa aversão a ciência que parece decorrente do que ouso chamar de “institucionalização da ignorância”. Não aderir ás orientações cientificas e menosprezar os danos que o covid 19 pode causar, mostra entre outras coisas, a fragilidade dos laços coletivos, e infelizmente certa falência da noção de humanidade.




Com a experiência do covid-19 e antes que a emergência climática e ambiental se torne irreversível, por exemplo, é necessário também que estejamos atentos, pois todo filme de desastre começa com cientistas sendo ignorados. (Ergon Cugler, pesquisador da EACH/USP)
Veja mais aqui




Mais do que em outros tempos, é preciso pensar que o ser humano não está pronto, é projeto em construção permanente, se faz ao tomar parte na construção da história. No entanto a história, ainda que pessoal, não acontece fora da coletividade, da sociabilidade que precisa ser retomada e alimentada para que todas as ações construam cidadania e testemunhem esperança na humanidade, contrariando toda lógica individualista, egocêntrica e desnuda de amor fraterno.

Assumir-se na condição de sujeito, ser histórico, não é um processo desvinculado do social e do comunitário, visto que toda ação por mais pessoal e individual que pareça reflete no seio social.

Nosso contexto reforça essa tese, uma decisão que parece simples pode implicar amplamente no conjunto da sociedade, obedecer as orientações e permanecer em casa significa pensar na existência como sendo uma grande teia; teia de relações onde o que parece estritamente pessoal influência na configuração de toda teia, podemos ser um fio a mais a compor essa complexidade de relações e agir de forma solidária, ou desconsiderar as orientações e romper com fios, estraçalhar mentes espalhando o medo e dando vazão ao pânico como tem insinuado algumas pessoas constituídas em cargos de liderança.

Cito três exemplos vivenciados recentemente. Quando fui a consulta médica ontem (20/03) percebi que a maioria do comércio de Passo Fundo estava com as portas fechadas, exceto uma loja que permanecia aberta contrariando o Decreto Municipal; ainda na quarta-feira à noite (18/03) quando retornava do último dia de aula presencial, antes do início da quarentena, uma igreja estava aberta e com significativo número de fiéis, muito perigoso neste momento de transmissão comunitária; vi notícias verdadeiras e muitos comentários sobre a estocagem de alimentos e outros  mantimentos; bem como aumento no preço do álcool gel,   com estes  exemplos ilustro o que foi dito anteriormente, e repito veementemente,  necessitamos nos pensar como humanidade, indivíduos que existem em relação com outras pessoas, que tomam decisões, com impactos mais amplos do que a gente imagina; é hora de relembrar um ensinamento da maioria dos nossos  pais, de que não podemos tudo o que desejamos e queremos, não estamos no centro do mundo e este não gira em torno do nosso “umbigo”.

Agora mais do que em outros tempos urge recuperar a noção de família humana, de humanidade que só é em relação, como numa grande teia; penso que a filosofia africana ubuntu precisa ser retomada, estudada e vivida para que superemos este momento de crise dando a humanidade um direcionamento comunitário, social, global, visto que “ser humano é ser com os outros”.




 “Ubuntu” é uma palavra que representa uma filosofia e uma ética antiga africana que significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós”.




Enquanto humanos que existem em sociedade (políticos por natureza, como disse Aristóteles), também buscamos pela dimensão transcendente da existência. É também da natureza humana desejar um sentido transcendente para a vida, penso que a serviço disso devem se colocar as religiões. A diversidade religiosa tem orientado seus fiéis neste momento difícil, algumas com bastante coerência entendendo que a fé não exclui a necessária prudência e não nos isenta do vírus como se sobre os fiéis existisse um escudo protetor.

São belas e louváveis as iniciativas de solidariedade, as manifestações de carinho feitas desde as janelas dos prédios, através de aplausos aos profissionais de saúde, bem como as ações de conscientização e apoio feitas pelas redes sociais, cujo uso precisa ser potencializado neste momento para que não sucumbamos a desinformação e a solidão.

Cabe as religiões e as diversas concepções de fé, nos auxiliar a passar com equilíbrio por estes momentos de tensão, visto que são elas formadoras de opinião e orientadora das ações de muitas pessoas que a elas aderem com fervor. Repudio toda forma de crença e questiono a veracidade de uma religião que orienta os fiéis a demostrarem a fé se aglomerando em reuniões e ou cultos, com argumento de que é nesta hora que são provados para mostrar o quanto creem.

Entendo que a ação de Deus não é mágica, e não exclui de forma alguma nossa participação, cuidar-se e pensar no outro é o que de mais caridoso podemos fazer neste contexto. Não vá a sua igreja, não frequente as celebrações agora, mas apoie-se na sua fé e tenha atitudes coerentes com o querer de Deus, que segundo as escrituras e o exemplo de Jesus Cristo quer a vida, o cuidado com toda vida; se não és cristão, mas tem uma prática religiosa sugiro que revisite os ensinamentos de sua religião, o livro sagrado e ou a doutrina, te garanto que não encontrara pensamento contrário a este. 

Qualquer orientação que soar contraria ao cuidado da vida, a sua e dos outros, não provém do querer de Deus, a não ser que estejamos falando de experiências diferentes de Deus, de noções controversas, sobre as quais fico a disposição para o diálogo em espirito de fraternidade.  Viva com fé, reze, ore, pense positivo, conecte-se com o Deus de sua fé, mas não desacredite no que tem falado a ciência e a experiência de outros países. Que Deus nos inspire atitudes de cuidado e nos mantenha firmes na esperança ativa de que dia melhores virão.    




Leo Fraiman fala sobre vivência da espiritualidade como lição em tempos do novo Coronavirus.




Por fim, mas sem a pretensão de “fechar a porta” desta temática desejo que cada um de nós possa ser humano, em espírito de fraternidade e solidariedade para que superemos este momento de dificuldade e saíamos dele mais crescidos, mais amigos, mais famílias, mais humanizados e humanizadores.

Voltemos nosso coração e nossos olhos para a dimensão transcendente da existência e sejamos coerentes com o apelo por vida feito em cada jardim que desabrocha em flor; em cada templo de tijolo que fechado nos orienta a sermos nós templos vivos, que na atitude de isolar-se dos demais testemunhemos um amor que é maior e energiza a teia de relações da qual somos feitos.

A Peste ou outra forma de exclusão?

Nesse momento do mundo infestado pela pandemia,
ressurge o cenário da peste, em todos os aspectos.
Deparamo-nos com os “ratos” entrando sutilmente
em nossas casas, perturbando nossa vida,
tirando nossos direitos e impossibilitando
nossa emancipação.


Albert Camus nos inspira, sempre atual. Escreveu (1947) um romance A Peste, em que descreve Oran, uma cidade da Argélia, invadida por ratos. Seus habitantes se tornam vítimas de uma epidemia.


Aparecem personagens solidários, descrentes, irônicos, debochados, enfim tudo aquilo que se situa na subjetividade, como representação do humano. No quadro devastador da peste, os personagens da tragédia se mostram em suas lutas, em suas conquistas, em suas fraquezas, em suas paixões, em suas revoltas.

A contingência humana vivida em uma cidade invadida por ratos estabelece os limites das reações, que se movimentam entre o desespero e a comicidade, a embriaguez e a lucidez.


Ao descrever a cidade-cenário, Camus arbitra sobre os sentimentos de espanto e de indiferença, que percorrem o imaginário dos sujeitos, convivendo em uma cidade assolada pela peste. A descrição assume cânones de investigação e de estranheza. Os atos do cotidiano, as datas e os dias que seguem demarcam a cartografia de uma situação absurda.


A dimensão do entendimento dos que sofrem só pode ser medida na aproximação da vida, em sua concretude e na tessitura de suas significações. Personagens como o médico e o jornalista ocupam lugares diferentes e se comportam a partir de seus valores.


Em Camus, é extremamente acentuada a questão do compromisso do sujeito consigo mesmo e com os outros. Há uma solidariedade que se constrói na aventura humana, estabelecendo laços de convivência.


Esse panorama camusiano aparece diante de nós com uma transparência meridiana sobre o que estamos vivendo atualmente, nessa contingência da pandemia do Coronavírus. Encontramos nos fatos e nos relatos a similaridade da tragédia descrita pelo escritor.


Temos, de um lado, um certo sentimento de indiferença diante da primeira notícia acerca do vírus, em dezembro de 2019. Chutamos a notícia, tal como foi chutado o primeiro rato que apareceu num prédio. O morador achou estranho e o porteiro ficou escandalizado.

Tivemos a mesma atitude. Não nos atingirá, estamos muito longe da China e não temos os mesmos costumes e hábitos culturais daquele povo. Eram as reações preconceituosas ou impulsivas. De outro lado, nos deparamos com a irresponsabilidade de algumas autoridades que não levaram a sério o problema da pandemia. Entenderam (?) que se tratava de uma histeria coletiva, não própria das pessoas inteligentes. Que se resguardem os interesses econômicos, que o mais virá por acréscimo.


E agora?! Tocamos na tela do mundo e o que vemos?! Crescimento da “peste”, mortos que se avolumam, sistemas de saúde entrando em colapso e determinando quem deve viver e quem terá que morrer. Eis a perplexidade diante do imponderável!!


Ainda bem que, tal como no romance de Camus, temos pessoas envolvidas com a Ciência, com a disciplina, com a determinação e a lucidez para nos orientarem sobre como viver e conviver em tempos de dor e de morte. Os “ratos” que invadem o mundo, hoje, são outros, mas igualmente provocam doenças, mortes e atitudes discricionárias.

A lógica da peste é verdadeira. Temos aqui e agora, tal como entre os personagens da narrativa, o flagelo real, embora pensemos, tal como Camus, que nem a desgraça é eterna. Temos uma certeza, que é o cumprimento da tarefa diária de cuidado com a gente mesma e com os outros. Estamos intimados a sermos sérios, responsáveis e solidários.


Por que essa narrativa nos possibilita a reflexão sobre uma forma de excluir os mais pobres, os mais frágeis, os mais despossuídos? Porque presenciamos uma espécie de exílio, uma realidade de exclusão entre os que têm e os que não têm condições de enfrentar a Peste.


Nesse momento do mundo infestado pela pandemia, ressurge o cenário da peste, em todos os aspectos. Deparamo-nos com os “ratos” entrando sutilmente em nossas casas, perturbando nossa vida, tirando nossos direitos e impossibilitando nossa emancipação.


A peste exige que lutemos com dignidade, sem abrir mão da honradez e sem compactuar com a violência. Tal como um dos personagens do romance, queremos produzir esperança entre todos, que estão na cidade invadida pelos ratos. Que na mesa dos excluídos também a alegria seja servida, pois a Justiça será sempre o fundamento da vida feliz.



José Medina Pestana, professor Titular da UNIFESP, também descreve sobre a relação da Peste, do romance de Albert Camus e o novo Coronavirus (COVID 19). Leia mais aqui.

Valter Hugo Mãe, em carta aos brasileiros publicada no dia 19 de março de 2020, escreve: “Se eu estiver “escrevendo do futuro”, percebam que não falo de mais de uns dias adiante. Estamos, talvez, 15 dias à frente. São os 15 dias que têm para salvar o vosso país de uma derrocada sanitária e econômica sem comparação com nada do que viram até agora”. Veja mais aqui.

Tempos difíceis que exigem cuidado, coragem e esperança

Estejamos dispostos a contribuir para que a humanidade
não se perca e torne tudo ainda mais difícil.
De posse das informações é possível sabermos
o rumo a seguir ou que atitudes tomar.


Estamos iniciando uma rotina de tempos difíceis. A pandemia (porque tem alcance mundial) do “corona vírus” ou COVID – 19, chegou ao Brasil. Serão tempos difíceis, contudo oportunidade de aprofundarmos o senso de responsabilidade e solidariedade; de formarmos uma grande aliança de proteção e cuidado com a vida, sobretudo dos mais frágeis. Para tanto urge algumas atitudes.


Primeiro exercitar a capacidade de escutar e discernir as informações que chegam até nós. Acompanhar as orientações dos especialistas que já têm conhecimento na área e que estão dando uma colaboração inigualável. Acolher estas informações com humildade, porque são muito importantes nesta travessia de enfermidade social. É a contribuição possível diante de uma chaga que nos pegou de surpresa. São informações voltadas para o bem da população. Como estão sendo divulgadas muitas informações equivocadas, é necessário o discernimento para distinguir a verdade da mentira ou do equívoco.

Cabe atenção para não divulgarmos uma informação da qual não temos plena certeza da veracidade. Sejamos canais da boa informação e não da confusão.


O segundo passo é agir com solidariedade. O vírus está espalhado e se não formos solidários acabaremos todos prejudicados. Aqui a solidariedade implica em fazer o que é possível para facilitar a vida dos irmãos e irmãs e também o trabalho das autoridades. Se é possível colaborar, mesmo que seja de uma forma mínima, façamos isto com altruísmo e muito amor. O espírito de colaboração estende-se para outras pequenas atitudes no nosso cotidiano.


Lembremos que é também um tempo de diferentes renúncias. Todos teremos que renunciar a alguma coisa: vendas, lazer, estudos, convivências com amigos, diversão, entre outras. Algumas iniciativas e processos ficarão parados. A vida não será normal. Teremos algumas perdas. Elas são justificadas, se preservarmos o bem maior que é a vida.


Outro passo importante é manter a serenidade. Em tempos difíceis não podemos perder a calma ou a confiança. Estejamos dispostos a contribuir para que a humanidade não se perca e torne tudo ainda mais difícil. De posse das informações é possível sabermos o rumo a seguir ou que atitudes tomar. Entretanto, façamos isso como muita serenidade.

Nos últimos anos parte do povo foi mordido pelo vírus da intolerância e o pensamento diferente significava ver o outro como inimigo mortal. Nestes dias o nosso inimigo é o corona vírus. Não existe outro. Sejamos serenos e contribuamos para reconfigurar nossas relações não pelo ódio, mas pelo amor, a concórdia e a solidariedade.


No livro Êxodo, a Bíblia relata a travessia do Povo de Deus no deserto que deixaria para trás a escravidão e tinha a esperança de chegar à terra prometida. No deserto foi desafiado a se refazer como povo, construindo uma nova forma de relação entre eles e Deus, superando os equívocos aprendidos no Egito.


Também estamos em uma travessia. Temos muitas preocupações, dúvidas, medos e incertezas. São sentimentos próprios destas situações. Contudo, não percamos a esperança, a vontade de ajudar, a coragem de coletivamente superar esta travessia. Deus está conosco. Sintamo-nos instrumentos do seu agir nestes tempos difíceis que exigem coragem e esperança.

Desinfecção da ignorância

A imprensa não é vetor de vírus.
A imprensa apenas espalha informações.
Uma delas diz para lavar as mãos.
O momento exige muita cautela com o
inescrupuloso passa e repassa pelas redes sociais.


Lave bem as mãos. Não me lembro de ter vivido uma situação análoga ao momento em que estamos passando. Há riscos, mas não pode haver pânico.

A questão comportamental pode ser mais letal do que a própria doença. A falta de conhecimento ajuda na propagação de falsas informações. Mas lave as mãos.

A ficção supera a imaginação de Ian Fleming, criador de James Bond. Há, ainda, um criminoso interesse para politizar uma pandemia. Chegam ao cúmulo de dizer que o vírus é comunista! Uau, será que também come criancinhas? Isso, claro, quando não parte de homens públicos que desdenham dos fatos e da ciência para colocar a culpa na imprensa.

Ora, a imprensa não é vetor de vírus. A imprensa apenas espalha informações. Uma delas diz para lavar as mãos. O momento exige muita cautela com o inescrupuloso passa e repassa pelas redes sociais. É o moderno vetor do vírus da insanidade. 

Numa época em que todos se acham profissionais de mídia, circulam as mais absurdas idiotices. É a pulverização da desinformação que ocupa o espaço da verdadeira informação. Isso confunde as pessoas e pode ser letal.

Antes de acreditar nas postagens cheias de milagrosos conteúdos, apenas lave as mãos. Escolha bons exemplos e vire o rosto para a irresponsabilidade, além de tapa-lo para espirrar.

Fico pasmo diante daquilo que pessoas, até então tidas como esclarecidas, repassam pelo zap-zap. Recebi um vídeo onde algum idiota leu no rótulo de um aerossol desinfetante de ambientes que o mesmo seria eficaz contra vários vírus. Inclusive o coronavírus. Mas a lata foi produzida muito antes do surgimento da atual ameaça. Então, lá vieram as mais absurdas conclusões e teorias conspiratórias.

Ora, coronavírus são uma família de vírus há muito conhecida da ciência. O Covid-19 que é a novidade. Então lavem bem as mãos e deixem de lado essas postagens. Ou logo entraremos no Guinness World Records no topo da idiotice. Ou muito pior, caso não lavarmos as mãos.


Quando a ignorância bate à porta

Quando batem a porta para a racionalidade, então a ignorância bate à porta. Quando fecham a porta para o conhecimento, a pesquisa e o ensino, escancaram a porta para a ignorância.

Quando as portas estão fechadas para o diálogo, a ignorância fardada pela truculência já se instalou. Quando não há mais portas para o contraditório, a razão evaporou pela janela. Quando não encontramos portas para a igualdade, a ignorância oprime vidas pelo ralo.

Quando a ignorância desafia a verdade, abrem-se as portas para as mentiras. Quando a ignorância desdenha da ciência, a evolução dá com a cara na porta da insensatez. Quando há portas abertas para a discriminação, a ignorância se esbalda.

Quando a ignorância passa pela porta, surge o inconsciente coletivo. Quando a ignorância bate à porta, acaba a inteligência e a civilidade. Então, feche as portas para a ignorância!



Autor: Luiz Carlos Schneider, publicado em O Nacional, Passo Fundo, RS.

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