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A arte como forma de humanização

Acreditamos que o maior desafio humano é a humanização. Entendemos humanização como a possibilidade de nos tornarmos melhores seres humanos. O conhecimento reflexivo, assim como a arte, podem potencializar muito a nossa humanização.

Aline Venturini é filha de mãe professora e pai comerciante. Desde adolescente, jovem, envolveu-se em atividades comunitárias e coletivas. Já foi professora da rede municipal de Passo Fundo, professora universitária e professora de Cursos de línguas. É formada em Letras, pela Universidade de Passo Fundo, e realizou mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Sempre acreditou no poder da arte. É artista plástica, gosta de cantar e interpretar, nas horas vagas, músicas de cantores e compositores populares do Brasil. Participa da Confraria das Artes, associação de artistas que agrega os mesmos para manifestações públicas de arte, sobretudo ocupando espaços vazios do mundo urbano para pinturas e representações de desenhos, em forma de arte.

Pela sua experiência e convicções, Aline Venturini, com certeza, nos ajudará a encontrar pistas para compreendermos a importância da arte e da educação como ferramentas de humanização.

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SITE NEIPIES: O que te realiza na profissão docente? O que te fez professora?

Venturini: Para mim, o que me realiza como professora é o ato de compartilhar conhecimento e de participar do processo de troca mútua. Como afirmava Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém.” Então, o processo é mútuo. Aprendemos com o aluno também. A aprendizagem, bem como a avaliação verdadeira, ocorre durante o processo, no fazer. Portanto, a prova é apenas meio de quantificar em números esta avaliação da aprendizagem, porque o sistema exige, porque é durante o processo que avaliamos o aluno verdadeiramente. O processo é que me encantava e ainda encanta.

A minha maior satisfação como professora é constatar quando um aluno aprende de fato ou se envolve mesmo na aula ou na discussão realizada e isso nem sempre é possível mensurar somente com provas. Por exemplo, pode ser uma reação positiva a determinada atividade, ou uma constatação que ele fez em sala de aula, um insight interessante…

SITE NEIPIES: Como foram tuas experiências como professora junto à rede municipal de ensino, no ensino superior e como professora em escolas particulares?

Venturini: Posso adiantar que a escola pública é um grande laboratório e que te forja professor (a). E não é uma trajetória fácil, pois a gente lida com as carências, os problemas, a falta de disciplina e de fé no estudo dos alunos e dos pais, as exigências e as contradições do sistema escolar, muitas vezes, também.

Posso dizer que todas as experiências foram, ao mesmo tempo, árduas, mas muito felizes, ao mesmo tempo. Passei por quase todo o fundamental nas escolas municipais e no estado, em Ernestina e em Passo Fundo, e tive a oportunidade de atender diversos tipos de público, desde crianças até jovens e adultos. Todo o fundamental, incluindo alfabetização, com o currículo por atividades, pois fiz magistério; o ensino médio, dando Língua Portuguesa e Literatura, no Cecy Leite Costa; a Educação de Jovens e Adultos em Ernestina, na Escola Raimundo Corrêa.

Depois, tive ainda a oportunidade de trabalhar com projetos de arte na Secretaria Municipal de Educação, mas nunca saindo da sala de aula: atendia várias escolas, com Coral, com violão e projeto de Artes visuais. Foi nesse tempo que, juntamente com a Lindiara Paz, a Elvira Battisti, o Pablo Morenno, o Paulo Monteiro e a professora Tânia Fornari, montamos o “Eu e os artistas da minha terra”, que funcionou entre 2012 e meados de 2014, com várias parceiras professoras de outras escolas, como a Singraí Stradiotti, atriz também; a Desiré de Meira e Meira, a Sônia Gabin, a Clarice Giacobbo, o professor Carlitos e tantas outras (os), e as escolas que integravam. Perdão se não disse o nome de todos (as), mas sintam-se lembrados todos que participaram. 

Foi muito gratificante! A gente trabalhava as obras do artista local com os alunos na escola, contava a exposição e o convidava. E aí havia uma troca de conhecimento incrível! E tínhamos uma comunidade no face, onde colocávamos as fotos de todas as escolas e seus eventos. A artista Miriam Postal participou e deu seu apoio. Participaram a EMEF Helena Salton, EMEF Lions, EMEF Coronel Lolico, EMEF Benoni Rosado, EMEF Coronel Benoni, EMEF Cohab Sechi, e tantas outras.

Em 2014, contudo, eu já havia terminado o mestrado na UFRGS e estava disposta a tentar a carreira universitária. Trabalhei no curso de Letras Espanhol na Unespar (União da Vitória) entre 2015 e 2016. Retornei a Passo Fundo e fui para o Ifsul, no qual fiquei nos anos de 2017 e 2018. Lá, durante a disciplina de Gêneros Textuais, na Especialização para Professores, fizemos uma aula resgate do projeto “Eu e os artistas da minha Terra” com a presença de Lindiara, do Pablo e do Paulo.

Em 2019, diminuí a carga de trabalho para me dedicar exclusivamente à tese: “Os pressupostos de Miguel de Unamuno na revista Quixote\RS: Leituras e acolhidas de Dom Quixote”, iniciada em 2015 e defendida em Dezembro de 2019, sob a orientação do professor Ruben Daniel Castiglioni, na UFRGS.  Enquanto isso, comecei a dar aulas de Espanhol na rede Wizard, de idiomas, em Casca, outra experiência bem diversa, particular, com roteiro de aula e exigência de seguir um livro específico, da rede.

E agora, com a Pandemia, ingresso nas aulas remotas, via internet, à distância, algo bem diferente do que já experimentei. Acho que este período, para professores de todas áreas e níveis, está sendo desafiante e nova.

Considerando toda a trajetória percorrida até este momento, acredito que o professor é um ser que passa por altos e baixos, por desânimos e ânimos, diante de todo o cenário que precisa enfrentar: desvalorização, desrespeito da sociedade em geral com ele, da violência que sofre, dos alunos, dos pais, do descaso com o seu trabalho, da pesquisa e do estudo, como estamos presenciando nesse o momento, em que uma opinião qualquer é mais valorizada do que pesquisas bem fundamentadas e anos de estudo.

É preciso, urgentemente, resgatar a valorização em todos os sentidos dos professores, principalmente os de Ensino Fundamental e Médio, pois, sim, não se trabalha apenas por “amor à camiseta e à causa”.

Slides de fotos: (Defesa de tese UFRGS, dezembro de 2019/Parede de casa/ Catedral de Passo Fundo/ O orientador queria um quadro/ livro Maria Cleci Venturini)

SITE NEIPIES: Como as diferentes artes passaram a fazer parte de sua vida? O que modificaram em você?

Venturini: Na verdade, convivo com as diferentes áreas artísticas desde de que me conheço por gente. Me considero uma pessoa que precisa se expressar e sempre de formas diferentes. Acredito que a arte me ajudou a olhar as coisas por outras perspectivas e sim, a ser mais empática. Claro, mas isso é para mim. A experiência da arte é particular de cada um.

SITE NEIPIES: Por que as diferentes formas de arte ainda são tão pouco valorizadas, apesar da reconhecida importância para o pleno desenvolvimento do ser humano? A arte é perigosa aos olhos de quem domina o mundo?

Em primeiro lugar, creio que as diferentes formas de arte são desvalorizadas porque ainda vivemos em uma sociedade extremamente tecnicista e focada no que “dá dinheiro logo”.  Podemos ver isso bem nítido no texto “Reinventando as Humanidades”, de Rouanet, que li durante o Mestrado e nunca mais esqueci.

Também é possível constatar na nossa realidade brasileira e nos currículos escolares, no geral. Isso significa que a arte, enquanto pura forma de expressão, não tem uma função ou utilidade específica, uma vez que cada um vê como lhe parece: para uns, é puramente decorativa, a “arte culinária”, como chamam. Para outros, é instrumento de crítica e denúncia social.  Tem o intuito de somente chamar a atenção, chocar ou mesmo mudar a perspectiva. E tem ainda a função “Rivotril”.

Tudo isso as formas de Arte significam, a saber: as artes visuais no geral, a música, a dança, a Literatura, as Artes Cênicas, o Cinema, o Humor, por exemplo, estilo Stand Up. E elas desenvolvem, no ser humano, a capacidade de ver as coisas sob outras perspectivas, de reinventar as situações e de expressar melhor as suas angústias. Enfim, também como autoconhecimento.

Em segundo lugar, acho muito arriscado afirmar esse “poder redentor” da arte de tornar um indivíduo, digamos, mais humano, mais ético, empático aos sofrimentos dos outros.

De um lado, basta ver o exemplo de Hitler, que era cultíssimo, amante das artes e, no entanto, foi um dos maiores tiranos e assassinos da história. E temos uma série de escritores, músicos, dramaturgos, atores, artistas plásticos geniais, porém, cheios de preconceitos e alguns até fascistas. Isso tem sido um assunto muito debatido na rede agora.

O que a gente faz, hoje, por exemplo, com um Monteiro Lobato? E no meu caso, que tive a oportunidade de estudar o grande Jorge Luís Borges e o abordei em minha dissertação, sob a orientação do professor Luís Augusto Fischer? Como lidar com a predileção de Borges por Pinochet? E com o seu racismo?

Pelo outro lado, no mesmo período do Nazismo, nós temos uma menina de treze anos, a Anne Frank, que se refugiou em seu diário, inventou uma personagem, amiga imaginária Kitty, para quem narrava todas as suas impressões e angústias, bem como os sentimentos de empatia pelos prisioneiros levados ao campo de concentração para serem executados. Ela sequer imaginou, antes de morrer, de que sua escrita particular seria lida e significaria tanto para as pessoas, não só as diretamente atingidas pelo horror do Nazismo, mas também por outras do mundo inteiro.

A arte pode, sim, ajudar as pessoas a desenvolverem a sua humanidade, desde que elas assim queiram e sintam empatia pelas situações representadas artisticamente. Vai depender, logicamente, de qual conceito elas têm de arte: se de mera culinária, decorativa e beletrista, ou realmente algo que faça sentido, que as ajude a se expressar e as leve a identificar situações da vida com as quais tenham capacidade de sentir empatia e compaixão. E ainda pode acontecer da pessoa envolver-se profundamente com a ficção, mas não ligar a mínima para uma situação correlata na realidade.

A tese de doutorado que defendi estuda justamente um grupo de jovens intelectuais e artistas da década de 1940 do século XX, “Grupo Quixote”, em Porto Alegre, que desejavam fazer “uma barbaridade”. Essa barbaridade, vale dizer, era justamente a de se expressar, a de opinar, a de dizer a que vieram e a de fazer arte e crítica literária, buscando seu espaço na cena artística e intelectual do Rio Grande do Sul.

A arte, em si, é uma barbaridade. Aí chegamos no terceiro ponto: sim, as formas de arte podem ser perigosas, no momento que questionam os papéis sociais e culturais estabelecidos, quando rompem com os preconceitos e têm coragem de mostrar que existem maneiras de viver e de se expressar diferentes das “grades sociais” pré-determinadas. No entanto, se a não questiona e só mostra mais do mesmo, não será perigosa, ao contrário: pode ajudar a manter as estruturas dominantes e aprisionantes do indivíduo.

SITE NEIPIES: O que te motivou a participar da Confraria de Artes de Passo Fundo? Qual é o objetivo desta associação de artistas?

Venturini: Desde criança, me vejo em torno de tintas, lápis e todo o material que possa servir para pintar e desenhar. Entrei na Confraria quando ainda era a antiga AAPPF (Associação dos Artistas Plásticos de Passo Fundo), coordenada, na época, pela artista Fáthima Rogoloski. Adentrei a associação por meio de Ione Pedro, grande amiga artista, para quem mostrei meus primeiros esboços.  Ela me orientou e somos muito próximas até hoje. Desde aí, comecei a expor, cheguei a ganhar dois prêmios pelo “SESC Descobrindo talentos” pelo quadro “Rio Passo Fundo” e faço parte da atual Confraria das Artes, embora, nos últimos tempos, não tenho conseguido participar muito das atividades, por conta da tese, agora concluída. Participei também, por um período, da AGAPA (Associação Gaúcha de artistas e artesãos plásticos de Porto Alegre), no qual ganhei uma menção honrosa.

Quadro premiado com menção honrosa AGAPA.



O objetivo da Confraria das Artes é propiciar que os artistas locais possam mostrar seus trabalhos à comunidade, que possam contribuir, como fazem no projeto das Intervenções Urbanas na cidade e também de que seus trabalhos tenham visibilidade. Neste momento, continua muito ativa, através das redes sociais, sob a coordenação da artista Lindiara Paz.

SITE NEIPIES: Em tempos de isolamento físico e social, qual é o papel ou a função que a arte pode desempenhar para fortalecer nossas individualidades, nossas relações interpessoais e nosso modo de ver o mundo?

Venturini: Acredito que nunca a arte foi tão necessária quanto agora, nesse período de Pandemia. Vivemos um momento em que milhares de pessoas morrem no Brasil por conta desse vírus e da negligência que a sociedade tem agido em relação ao vírus. Então, a arte é fundamental para que os indivíduos consigam fazer toda a “catarse” do que estão vivendo.

Certamente haverá muitas e muitos “Annes Franks” durante esta pandemia, escrevendo, cantando, dançando, representando, suas angústias e impressões sobre esse período. E nunca as pessoas consumiram tanta música, filmes e séries como agora! Isso só mostra como é falaciosa a expressão tecnicista e dinheirista que ouvimos muito recentemente: “de médicos, engenheiros, já precisei, mas nunca de um artista.” Pois bem, aí está a prova de que precisamos sim!

Os artistas estão sendo fundamentais agora, para que as pessoas consigam lidar com o caos social, econômico e, sobretudo, existencial causado pela Pandemia.

SITE NEIPIES: Que sugestões darias aos teus colegas professores e professoras que, neste momento, estão tendo que se reinventar e reinventar o seu jeito de atuar nas aulas?

Venturini: Tenho a dizer de que compreendo o quanto o trabalho está sendo árduo e difícil e a única coisa que posso sugerir é que, quando estiverem muito estressados e aflitos, tentem respirar fundo, nem que seja por um instante, e tentem recobrar a força, a fé e a vontade, do seu modo particular.

Não sou capaz de dar receitas a ninguém, pois sei o quanto ser professor, e especialmente de escola pública e de ensinos fundamental e médio, é difícil. Também é, salvaguardando as devidas diferenças, para o professor de Ensino Superior. A questão é que este ainda tem mais valorização do que o do Ensino Básico. Os professores, embora a sociedade continue ainda a negar e não valorizar devidamente, são tão importantes agora quanto os artistas.

SITE NEIPIES: Achas que sairemos melhores a partir da crise sanitária e da pandemia?

Venturini: Algumas pessoas certamente sairão melhores. Outras, infelizmente, não. Em questões de soluções tecnológicas, acredito que as videoconferências, as aulas à distância, as consultas online, etc, vieram para ficar.

No que tange ao desenvolvimento ético de cada um, basta vermos como cada um está reagindo durante a pandemia: aqueles que se dispõem a seguir as regras sanitárias, os que se cuidam, mesmo sendo obrigados a trabalhar, posto que estão em serviços essenciais, os que procuram ajudar de alguma forma, em serviços comunitários, parecem que sairão melhores do que entraram.

Agora, não tenho muita esperança com os egoístas e negacionistas que insistem em ignorar o perigo da Pandemia e não se importam nem consigo e nem com os outros. Fazem questão de se reunir para festejar, se aglomeram, não usam máscaras e ainda, quando advertidos, se dão ao impropério de repetir a máxima: “Você sabe com quem está falando?” Quanto a esses, tenho sérias dúvidas se sairão melhores da crise sanitária.

É doloroso ver como algumas pessoas têm mostrado a sua face mais egoísta e má durante a Pandemia. Ao mesmo tempo, também há gente mostrando o seu melhor lado, o que não deixa de ser um alento.

SITE NEIPIES: O uso das diferentes tecnologias na escola, no teu ponto de vista, podem ajudar na melhoria da qualidade da educação?

Venturini: Podem melhorar dependendo de sua viabilidade e da forma como são usadas. Por exemplo, de nada adianta ter um aparato super moderno, com sinal de internet potente e bons computadores, se as aulas vão se resumir a somente o aluno copiar da tela do computador como se fosse o quadro negro. Isso mostra que as Tecnologias de Informação (Tics) podem ser um meio poderoso, mas ainda assim vai depender do conceito de educação que o professor, sua escola e rede possuem.

Estou lendo dois livros bastantes significativos sobre isto neste momento, de Roxane Rojo: “Escola Conectada, os multiletramentos e as Tics” (2013) e “Multiletramentos na escola” (2012). Essas obras compartilham experiências muito interessantes realizadas em sala de aula, que envolvem aplicativos de vídeo, de reescrever textos de outros gêneros, de pensar criticamente e de relacionar diversas artes, inclusive.

Agora, claro que, para fazer tudo isso, como já foi dito, são necessários recursos fundamentais, como bons computadores, sinal de internet potente e comprometimento de ambos os lados do processo de aprendizagem, isto é, professor e aluno.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos que leem esta entrevista.

Venturini: Obrigada pela oportunidade de poder colocar meus pontos de vista e de compartilhar com vocês as minhas experiências. Desejo a todos coragem e ânimo para enfrentarmos esse momento. Que todos se cuidem e cuidem seus semelhantes. Um dia, toda esta situação vai passar.


Duas músicas interpretadas na minha voz.




Fotos: divulgação/arquivo pessoal
Contatos de Aline Venturini:
Facebook: https://www.facebook.com/aline.venturini.3/
Instagram: vent_aline

Quem somos nós?

Mal sabemos porque somos o que somos,
fazemos o que fazemos, pensamos o
que pensamos e dizemos o que dizemos.


Quem somos nós?

Uma fagulha de pensamento no passatempo divino? Um potencial que jamais se concretiza? A brisa tardia do anoitecer sombrio?

Quiçá, somos tudo aquilo que não gostaríamos de ser ou aquilo que outros desejariam ser?

A dúvida assombra a todos que ousam pensar sobre as questões que nascem ao passar e pesar da vida.

Ignorar é a saída? Talvez.

Somos mera possibilidade, dentre todas as contingências, inclusive a da fatalidade possível de sermos somente aquilo que tiver que ser. –

Quem somos nós? – Não sabemos.


Neste vídeo, Mário Sergio Cortella faz importante relação entre autoconhecimento e felicidade. Confira!



Mal sabemos porque somos o que somos, fazemos o que fazemos, pensamos o que pensamos e dizemos o que dizemos.

Por isso, coloca-te, em tudo, no mistério de ser o que você é.

O sentido há de estar sempre oculto à espera da tua ousadia.

Em tudo, tomamos decisões, apesar das cisões que não esperávamos e as quais não poderão jamais ser emendadas no tecido da vida que se costura a cada dia.

“Sou eu. Sou os outros. Sou a vida dos outros. Sou a eternidade dos outros em mim. Sou você. E você talvez possa ser um pouco de mim”. (Laércio Fernandes dos Santos)





Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do Sexto Ano do Ensino Fundamental.

No Sexto Ano, Unidade temática: Conhecimento. Objeto de Conhecimento: O homem, um ser que pensa. Habilidades: identificar a constituição do eu individual e social, o cuidado de si e do outro, conhecer-se e se relacionar melhor.

Questões para pensar:

  • O que o autor do texto quis refletir? Quais são suas perguntas? (Descreva)
  • “Conhece-te a ti mesmo” é uma frase atribuída ao sábio e filósofo Sócrates. Por que é tão difícil conhecer-se? Argumente.
  • Qual é a relação que o escritor e filósofo Mário Sérgio Cortella faz em seu vídeo? Faça uma breve descrição do que ele falou (5 a 10 linhas).

Amor nos tempos de aplicativos


Engenheiro e professor, Aurélio Salton nutre desejo de comunicar-se através da linguagem escrita sobre os desafios cotidianos. Em tempos em que a tecnologia tornou-se uma grande aliada para a comunicação interpessoal e os relacionamentos, ele escreve para combater a ideia oposta: a de que aplicativos de relacionamento são superficiais e perigosos.

Abordando o interessante tema de “relacionamentos”, Aurélio organizou o livro com crônicas, envolvendo personagens da vida real, na forma fictícia e literária, abordando aspectos pouco reconhecidos sobre relacionamentos que ocorrem e que podem ter muito sentido, por meio virtual. Seu livro tem o título: “Amor nos tempos de aplicativos”.

Saiba mais sobre a obra, clicando aqui.



Conheçamos um pouco mais deste jovem escritor, por ele mesmo, a partir de sua experiência com a escrita, com a literatura e com a proposta de seu primeiro livro.

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SITE NEIPIES: Quando, como e porquê decidiste escrever?

Aurélio: Tenho passos largos a seguir: meu pai é escritor e sempre serviu de um modelo para que eu também escrevesse. Aliás, este livro em especial, surgiu de discussões que tivemos juntos: ambos curiosos sobre o comportamento humano, tentando desvendar os relacionamentos da era digital. Eu, com a experiência sendo adquirida na prática, ele, através de relatos de pessoas que apresentam dificuldades de entender estes mecanismos modernos. Juntos, vimos a necessidade de divulgar nossas discussões para um público maior, a fim de promover esse assunto de forma aberta e saudável. Talvez este seja o principal objetivo do livro.



SITE NEIPIES: Teu pai, Jorge Alberto Salton, médico psiquiatra e professor, por sua vez foi incentivado pelo seu avô. Essa relação familiar também te permitiu tornar-se um leitor e agora um escritor?

Aurélio: Com certeza. Gosto de imaginar que a tocha literária foi passada do meu bisavô para o meu pai, e, agora, para meu irmão e eu. Todos devemos muito ao Armando Annes, que certamente também teve influências similares, agora já esquecidas pelo tempo.

A literatura, infelizmente, sofre de concorrentes desleais em tempos modernos: as próprias redes sociais, sobre as quais o livro fala tão bem, acabam gerando distrações que afastam alguns de seus usuários de formas mais tradicionais de arte e cultura. A influência familiar e do meio nunca foi tão importante.


SITE NEIPIES: Por que decidiste escrever sobre relacionamentos através de aplicativos?

Aurélio: Porque existe uma imagem muito errada sobre os aplicativos de relacionamento. Várias pessoas se frustram com seu uso e acabam por demonizá-los, perdendo a chance de explorar uma ferramenta incrível para conhecer novas pessoas e aumentar seu círculo social. Ao invés de simplesmente abandoná-los, o livro propõe que os utilizemos de maneira saudável e produtiva.

“Existem outras ilhas por aí que, como nós, estão em busca de uma vida mais rica e interessante. Muitas de suas histórias ainda estão pobres e sem propósito. Elas também querem novas aventuras, querem criar histórias para contar, querem sair e experimentar. Mas isso tudo requer novos personagens e uma disposição ao risco. Se deixar sofrer (algumas rejeições) e se deixar viver também. Se permitir a exposição e “avaliação” dos demais, pois é assim que a história é escrita. Procurar esses personagens que agreguem linhas ao nosso livro requer um pouquinho de trabalho, mas, muitas vezes, nossas vidas só estão amargas porque o açúcar está no fundo: basta uma mexidinha e tudo fica mais doce.” (Citação do livro)



SITE NEIPIES: Por que ainda existe preconceito e desconfiança sobre as possibilidades reais de relacionamentos por aplicativos?

Aurélio: Porque o uso dos aplicativos gera muita frustração nas pessoas. Várias dessas frustrações são intrínsecas à pirâmide dos relacionamentos: as pessoas que queremos não nos querem. Mas várias outras, as mais comuns, são completamente evitáveis.

Um primeiro exemplo acontece com as pessoas que passam uma imagem distorcida no seu perfil, gerando a frustração dos demais quando se encontram pessoalmente. Elas acabam se frustrando também pois, apesar de terem sucesso no aplicativo, não conseguem transpor esse sucesso aos encontros presenciais.  Ambos os casos levam ao desprezo dos aplicativos, mas a culpa não é deles, é de seus usuários. Uma vez, por exemplo, saí com uma mulher muito simpática, inteligente e querida. Ela era bonita também, mas as suas fotos eram de mais de dez anos atrás, como depois me contou. Essa usuária me confessou que seus encontros não iam adiante. As razões eram óbvias, mas ela não conseguia ver o que estava fazendo de errado.

Existem inúmeros outros motivos que levam a mais frustrações, eles também são abordados no livro. Geralmente as discussões são trazidas da mesma forma: histórias pessoais que levam a uma reflexão sobre o comportamento das pessoas nessa nova forma de amar.


SITE NEIPIES: As narrativas do teu livro de crônicas são de pessoas reais, que de uma maneira ou de outra, viveram a experiência de relacionamentos a partir do mundo virtual (aplicativos). Que aprendizagens você, como autor, sistematizou no livro?

Aurélio: Não é simples sistematizar boas maneiras de se relacionar, mas posso dizer que a mensagem do livro é que, acima de tudo, devemos ser sinceros. Esse é o grande trunfo dos aplicativos: lá temos acesso a centenas de milhares de pessoas, na palma de nossas mãos. Não precisamos ser “personagens” pois, dentro de um universo tão grande, iremos com certeza encontrar pessoas que nos querem pelo que somos. Mas essa abordagem franca não é natural, normalmente as pessoas querem esconder seus defeitos e passar imagens distorcidas de si. Os usuários levam muito tempo para perceberem que isso é contra produtivo, e nocivo, para todo mundo.


SITE NEIPIES: É possível fazer alguma relação entre relacionamentos através de aplicativos num tempo de isolamento físico e social?

Aurélio: Hoje, as pessoas estão se vendo obrigadas a prestar mais atenção nos aplicativos de relacionamentos. Afinal de contas, está praticamente impossível conhecer pessoas de outra forma. Vendo por esse lado, o isolamento social é uma oportunidade para que todos levem a sério e se dediquem a aprender como utilizar de forma saudável essas ferramentas. Acho que o livro vem em boa hora para fomentar esse tipo de discussão.


SITE NEIPIES: Para quem, em especial, dirigiste o livro?

Aurélio: Diversos públicos têm demonstrado bastante interesse. Em primeiro lugar, naturalmente, estão os usuários dos aplicativos, que estão tendo mais sucesso em conseguir o que querem: seja sexo, seja encontros casuais, seja relacionamentos duradouros. Em segundo lugar estão as inúmeras pessoas que sempre tiveram curiosidade pelos aplicativos, mas que, por uma ou outra razão, não criavam um perfil. Estas pessoas estão agora tendo novas experiências, algumas muito boas inclusive.

Além dos usuários e possíveis usuários, dois públicos diferentes tem me contatado para conversar sobre o livro. O principal destes é composto por psicólogos(as) que não tiveram experiências pessoais nos aplicativos. Eles(as) estão recomendando os livros para seus pacientes e têm me dado uma série de feedbacks impressionantes, até tocantes: algumas pessoas que nunca conseguiram um relacionamento antes, agora estão felizes com algum crush encontrado no meio digital. Por fim, todas as pessoas que se interessam por comportamento humano vão gostar do livro também. É um universo diferente para vários dos leitores, mesmo os que estão casados e não tem nenhum interesse em experimentar esse meio por conta própria.


SITE NEIPIES: O convívio com a tecnologia já mudou muito a forma de nos relacionar?

Aurélio: Com certeza. Principalmente quando falamos das primeiras impressões. Antes mesmo de perguntarmos a opinião de amigos e conhecidos sobre os possíveis pretendentes, a primeira coisa que fazemos é uma análise dos perfis de redes sociais: Instagram, Facebook, etc. No caso de encontros iniciados pelos aplicativos de relacionamento então, Happn, Tinder, etc., isso é ainda mais evidente. Daí a importância de mantermos uma boa relação com as redes sociais. Elas servem hoje como cartões de apresentação, não devem ser ignoradas nem menosprezadas.



SITE NEIPIES: Qual é, na sua visão, a função da literatura em nosso momento histórico?

Aurélio: A literatura continua sendo uma maneira de compartilharmos experiências. Através dos livros podemos viver não uma, mas várias vidas. Aprendemos com os erros e acertos dos outros, enriquecemos nosso dia a dia e descansamos da realidade que por vezes nos perturba. O distanciamento social está levando as pessoas a reinventarem suas vidas, a se ocuparem com novos hobbies. É uma ótima oportunidade para intensificarmos a literatura na vida das pessoas. 

Monteiro Lobato seria um racista?

Deixar de ler ou de ensinar as obras de
Monteiro Lobato às crianças e aos jovens
seria uma negação da verdadeira história do
nosso país e até mesmo das Américas.


Dias atrás, li um artigo que afirmava ser Monteiro Lobato um racista. Tomei um susto com essa opinião. Creio que não podemos afirmar qual o jeito de ser e agir da vida real de um escritor.

Não estou defendendo Monteiro Lobato, apenas colocando o meu ponto de vista sobre como as pessoas nos veem em relação ao que escrevemos. Às vezes somos confundidos com os nossos personagens. É preciso, pois, diferenciar o escritor do cidadão comum. Um age inspirado no seu mundo da criação e imaginação, o outro vive no mundo real.

Acompanho essa discussão sobre o racismo em Monteiro Lobato há alguns anos. Não sei se merece tanta atenção assim, mas creio ser importante levantar essa questão aos professores, gestores, pais e responsáveis por crianças e jovens.

O racismo é considerado crime no Brasil, atualmente. Porém, no tempo em que Monteiro Lobato viveu, urgiam nas grandes fazendas as senzalas, as amas de leite, os escravos domésticos e aqueles que trabalhavam na plantação de café. É preciso conhecer um pouco da História do Brasil para falar sobre a escravidão no nosso país.

O grande escritor Monteiro Lobato, que publicou livros para crianças e criou a personagem tia Nastácia do Sítio do Pica-Pau Amarelo, talvez não tenha tido a intenção de explorar a escravidão doméstica, mesmo porque tia Nastácia nunca foi tratada como uma escrava, apenas criou a personagem da forma como eram e se caracterizavam as coisas no seu tempo. Nas fazendas, havia muitas mulheres velhas e negras, na maioria das vezes, solteiras e de pouca instrução.

Naquela época, os negros não tinham espaço no mercado de trabalho, a maioria trabalhava em casas de família e, mais precisamente, eram cozinheiros ou cuidavam dos afazeres domésticos. No caso de tia Nastácia, ela é representada como a cozinheira de uma família que a trata com carinho e afeto. Nunca, em nenhuma página dos livros sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, ela sofre preconceito. Dona Benta nunca aparece como racista, causando-lhe maus-tratos ou coisa parecida.

O problema maior de acusação de racismo em Monteiro Lobato pode ser encontrado na personagem Negrinha, que é maltratada pela sua senhora. O escritor Monteiro Lobato relata a feiura da negrinha, mas isso não quer dizer que ele seja um racista. Não é porque eu acho um negro feio que eu seja racista. Assim, também não posso achar uma pessoa branca ou parda feia? Precisamos parar de acusar as pessoas só porque elas não se encaixam naquilo que consideramos o politicamente correto.

A personagem Negrinha aparece sendo torturada por Dona Inácia, sua senhora, como eram chamadas as madames no tempo da escravidão. Mas quem tortura não é o escritor, ele apenas está relatando um fato que veio à sua imaginação.

Se existiu na vida real uma menina feia chamada Negrinha ou não, isso não ratifica que Monteiro Lobato seja um racista. A obra Negrinha é um convite à leitura em sala de aula para que os alunos reflitam sobre o quanto a escravidão foi dolorosa no nosso país. Não devemos rejeitar tal texto nas escolas, pelo contrário: trata-se de um convite à reflexão do aluno para o respeito às mais diversas raças, etnias e culturas; um respeito ao ser humano e ao próximo.

Também não é porque ele considera as bonecas louras e de olhos azuis das sobrinhas de Dona Inácia bonitas que esteja sendo racista. Naquela época, todo mundo louro e de olhos azuis era considerado alguém belo, imagine uma boneca. É possível que Negrinha só tenha tido contato com bonecas de milho ou de pano, talvez nenhuma boneca tivera antes. De repente, ver aquelas lindas bonecas chama sua atenção.

Nosso amado escritor para crianças, Monteiro Lobato mostra, na sua personagem, que a cultura herdada pelos europeus no nosso país, foi o marco da colonização. E agora desconstruímos essa cultura com a expressão “descolonial”, em que o eurocentrismo perde seu espaço. A descolonização visa à superação das verdades trazidas pelo eurocentrismo e atribui ao negro uma causa maior de expressões e valores humanos, respeitando a cultura dele.

Deixar de ler ou de ensinar as obras de Monteiro Lobato às crianças e aos jovens seria uma negação da verdadeira história do nosso país e até mesmo das Américas. O escritor é múltiplo, como dizia Fernando Pessoa e seus muitos eus, logo, Monteiro Lobato poderia vestir-se de racista nas suas obras de ficção para mostrar a verdadeira história da escravidão e ser um cidadão antirracista na vida real. Ninguém pode afirmar isso com certeza.

Não se analisa uma pessoa só pelo que ela escreve, mas, sim, também pela forma de viver e por seus feitos deixados para o mundo. Com isso, defendo, diante do exposto anteriormente, que a obra de Monteiro Lobato deve ser trabalhada de forma consciente e reflexiva por todos os alunos e professores e não vista como racista. Monteiro Lobato escritor nunca foi um racista, quanto ao cidadão não posso opinar.

O escritor Monteiro Lobato foi, dentre outros escritores e estudiosos, um dos pioneiros no resgate do folclore literário brasileiro.Saci-Pererê, o mais simpático dos mitos brasileiros, surge como contraponto aos monstrengos internacionais, como os contidos no Halloween, tanto é que a cada dia 31 de outubro foi criado o Dia do Saci e seus amigos. Sendo um menino livre da escravidão negra no Brasil, Saci, para ter visibilidade, apronta, como todo garoto, suas artes. No entanto, é especial, pois fruto da brutalidade, perdeu uma perna, significando que e a escravidão foi feroz também com as crianças afrodescendentes. (Eládio Vilmar Weschenfelder).

Sociedade cruel

A elite, do alto de sua superioridade,
acha razoável negar comida a quem
vive debaixo de um viaduto.
Já a classe média,
vê como correto humilhar alguém
por não ter um diploma superior.


Dois episódios recentes trouxeram à tona a insensibilidade de segmentos  de  nossa  sociedade. Bia Doria, primeira-dama paulista, em vídeo aconselhou os  espectadores  a não ajudar os  sem-teto  com comidas e roupas, pois, segundo ela, eles “gostam” de viver nas ruas.

Padre Júlio Renato Lancellotti, com 71 anos, é um grande defensor do povo de rua em São Paulo. Conheça entrevista que o mesmo já concedeu à jornalista Márcia Machado, em nosso site.



Um casal carioca, sem máscara, foi abordado por um fiscal que os alertou de forma  educada como “cidadãos”. “Cidadão não!” foi a resposta, “engenheiro civil formado. Melhor do que você”.

Estes episódios não causam espanto para quem conhece  nossa  elite. É sobejamente  conhecida a sua insensibilidade. Seus genes  egoístas  são bem poderosos. A educação e a cultura  travam, há séculos, um combate  duro  contra eles.

Para Jessé Souza “o desprezo secular e escravocrata pelas  classes  populares  ganha  um autoridade  inaudita  e passa  a ser usado  com  pose  de quem  sabe  muito.  Juntas, a demonização da política e do Estado e a estigmatização das classes  populares constituem  o alfa e o ômega  do conservadorismo  da sociedade  brasileira  cevado midiaticamente  todos  os dias  desde então”.

Estes  dois  revoltantes  episódios  revelam  a  opressão  que permeia  as relações  sociais  entre nós. É o mesmo descaso devotado aos escravos  no espaço  de 300 anos. O desprezo e a humilhação  que  essa  classe sofre  desde o berço, unindo socialização precária, que é o essencial  do seu aspecto de  classe, com o preconceito covarde e secular  contra  o escravo, que é  o seu aspecto de  raça, a levam  a fantasiar  sua realidade intolerável.

E aí surge o indivíduo que cai nas  drogas, especialmente no álcool. Para se transformar  em morador de rua  e  sem-teto,  é um passo. Seria porque “gostam” de  tal situação ??

“A elite do dinheiro tende a perceber seu privilégio como decorrente de uma superioridade inata. Já a classe média  tende  a imitar a elite  endinheirada  na sua  autopercepção  de classe como sensível e de bom gosto, mostrando  que  essa  forma  é essencial  para  toda a separação das classes  do  privilégio em relação  às  classes populares”, segundo Jessé Souza.

A elite, do alto de sua superioridade, acha razoável negar comida a  quem vive  debaixo de um viaduto.  Já a classe média, vê como correto humilhar alguém por não ter um diploma superior.

É o Brasil mantendo sua tradição de desigualdade, onde  a barbárie  foi incorporado  ao cotidiano.

Em outra publicação neste site, já escrevemos que “nossa sociedade é fruto de um pacto dos donos poder para perpetuar um modelo social cruel forjado na escravidão. A brutal desigualdade de renda continua a ser o traço que nos caracteriza. O atual governo veio para manter e consolidar esta infâmia”.

Memórias de uma terra alagada

Gostamos de contar histórias e memórias de vida no site. Histórias verdadeiras, vividas com intensidade, recheadas de desafios e realizações. Algumas histórias mantém cicatrizes de realidades que foram impostas e que resistem ao tempo.

Contaremos a história da professora Elaine Jovita Busch e de sua família, que teve de deixar, ainda criança, às pressas, o lugar onde nasceu e onde viveu parte de sua infância.

Sua família, como a de outros tantos, teve de sair de suas terras para dar lugar a um grande lago no ano de 1970: a Barragem do Passo Real, Salto do Jacuí, RS.

Muitas destas famílias, como a de Elaine, foram reassentadas no município de Pontão-RS, o qual tem uma relação muito forte com os reassentados do Passo Real, conforme apuramos com moradores que conhecem bem esta história.

No ano de 1972, 54 famílias foram reassentadas, estabelecendo-se na Comunidade Sagrisa. Em 1974 e 1975, mais 57 famílias foram reassentadas em em terras da Fazenda Anonni. Em 1985-1986, com a ocupação da Fazenda Anonni, mais 57 famílias se incorporaram na luta por terra e conquistaram seu lote, fixando-se por aqui.

Muitos destes moradores, forçados a sair de sua terra, tiveram muitas dificuldades de adaptação neste novo lugar. Muitos mantiveram desejos de voltar, o que nunca mais se concretizou. Com a enorme seca que assolou o RS em 2020, o grande lago da Barragem do Passo Real quase secou e muitos deles puderam novamente pisar a terra sagrada de onde vieram e matar um pouco de saudades e religar-se às suas origens.

Segue o depoimento de Elaine Jovita Busch.

***



O lugar afetivo deu lugar a um grande empreendimento

Por ocasião da estiagem que assolou nosso Estado, uma das mais longas, em 2020, segundo moradores mais antigos do atual município de Quinze de Novembro, pude visitar o lugar onde nasci e vivi os primeiros anos da minha infância. 

Sentados em tocos das árvores que permaneceram no local, após mais de 50 anos de inundação nos perguntávamos: era mesmo tão necessário o deslocamento de tantas vidas, tamanha destruição ambiental, a perda de grande área de plantio de alimentos para a geração de energia elétrica?

Em 1968, iniciava a construção do maior lago artificial do Estado do Rio Grande do Sul, fazia parte do plano de desenvolvimento econômico dos governos da época. Parte das metas, a construção de hidrelétricas para o fornecimento de energia.  Era o progresso? Mas que progresso é esse que destrói o ambiente, desloca milhares de pessoas? Acaba com sonhos das pessoas? É preciso considerar benefícios da eletricidade, mas são possíveis alternativas de produzir energia.

A construção de hidrelétricas foi incentivada pelos governos brasileiros em toda a história do país, pelo aproveitamento das abundantes águas dos rios.

Nos governos décadas de 60 e 70, pois segundo segundo Martins (2009, p.61), “o caráter centralizador e autoritário assumido pelo Estado, contribuiu para que a expansão do sistema elétrico assumisse uma forma particular, caracterizada pela construção de grandes barragens que pouco considerava questões sociais ligadas às comunidades rurais e aos impactos ambientais associados. Portanto, na maioria dos casos, a construção das usinas e as consequentes inundações acabavam atingindo um significativo número de pessoas que tinham de deixar suas terras sem muita escolha, recebendo pequenas indenizações em dinheiro ou ficando à mercê da incerteza de serem reassentados. (Stefanelo)

Um vídeo que demonstra a
grandiosidade do lago do Passo Real, 2016.



A identidade e os hábitos de quem foi forçado a sair

Dentre as consequências para as pessoas que tiveram de deixar este lugar, destacam-se as mudanças que ocorreram nos hábitos e a perda de identidade. 

Sobre a perda de identidade, reporto-me à minha infância, pois na época não estavam preocupados com os sentimentos, com os sonhos das pessoas, principalmente das crianças. Mas, eu estava lá e posso afirmar que apesar de ter tido uma infância humilde, devido às precárias condições econômicas de minha família, foi repleta de brincadeiras e de boas convivências com a família, parentes e amigos.

As lembranças que tenho são como feedbacks de acontecimentos, que me vem à memória desde o chiqueirinho, onde ficava dentro de casa para a mãe fazer o trabalho de casa, do trabalho na terra da minha mãe e irmão, do porquinho que eu tinha ganhado de meu pai e que virou carne frita, dos coelhos do meu irmão, que soltei sem querer, porque queria tratá-los, o longo trajeto a pé que fazia para ir à escola. Os Cultos nos domingos de manhã. Ir à igreja era especial, colocar a melhor roupa. 

O que mais lembro eram os passeios nas casas das primas, das brincadeiras de casinha e de bonecas.

Os passeios e brincadeiras se estendiam, com as amigas, geralmente filhas das “comadres”, tinha várias madrinhas e padrinhos, como era o costume da época. Debaixo dos pés de mandioca, era nosso lugar preferido, confeccionando cadeirinhas e outros objetos com as folhas e galhos dos pés de mandioca. O nosso mundo imaginário feito com (hoje chamamos de material não estruturado), pedaços de madeira, sabugos de milho e outras coisas, montamos nossas casinhas. Não tínhamos brinquedos comprados.

Tempos bons, nos Natais e Páscoas, não ganhávamos chocolates como hoje, eram pacotinhos de bolacha pintada e pés de moleque de amendoim e no máximo casquinhas de ovos também com amendoim. Tínhamos o costume de ir na casa das madrinhas e padrinhos buscar o nosso “pacotinho”.

Lembro que numa Páscoa minha mãe fez o ninho com barba de pau e colocou nele uma varinha, sinal de que não havia me comportado durante o ano. Nossa aquilo soou muito mal e passei a noite aos prantos. Mas, a surpresa é que no outro dia o ninho de páscoa estava cheio. Teve um natal memorável que passamos na casa de uma madrinha, pela primeira vez vi um papai-noel. (Depois achei a roupa do Papai Noel em casa, era o meu irmão). 

Nos sábados pela manhã, era costume do meu pai ir até a venda, que ficava a uns três quilômetros de casa comprar alguns suprimentos, eu não via a hora, imagino como se fosse hoje vê-lo de longe, com uma mala de pano que colocava nos ombros, esperar os caramelos que trazia. Éramos felizes.

A vizinhança entorno do lugar era algo especial, uma grande família, onde a ajuda mútua era considerável, expressando-se por exemplo na forma dos “puxirão” realizados em épocas de plantações e colheitas, feitas manualmente, que às vezes ocorriam também à noite sob a luz da lua. Também nas construções das casas e galpões, nas trocas do pedaço de carne no abate de um animal para o consumo, nas celebrações e muitos tantas outras ocasiões. 



O dia da mudança

Até que um dia, alguma coisa estranha acontecia, que eu não conseguia entender. Porque naquela época, criança não participava de conversa de adulto.

Percebi, pela reação dos meus pais, que tínhamos que sair de lá, mas hoje entendo o meu pai, assim como demais moradores.

Eu não acreditava que realmente uma imensidão de água iria inundar tudo. Só fui entender anos depois. Lembro que um dia, fomos num lugar que tinha um prédio enorme, praticamente dentro de um grande buraco e lá dentro tinha umas máquinas que faziam um barulho estarrecedor, não se ouvia o que as pessoas falavam. Eram as turbinas da barragem. Acho que os adultos foram até lá para acreditar no que estava para acontecer.

Dias depois, às pressas carregamos a mudança num caminhão. Morava conosco minha avó paterna, lembro claramente ela subindo no caminhão de mudanças, estava doente, foi a última vez que a vi e logo após veio a falecer.

Foi muito triste. E, da próxima vez que lá voltamos, o inacreditável havia acontecido: estava tudo submerso, as árvores, os pinheiros. 



Revendo o lugar onde nasci e vivi parte da minha infância

A impossibilidade de visitar o lugar em que nasci me inquietou por todos esses anos. Frequentes pesadelos com água, a causa pela qual tivemos que deixar o lugar. É literalmente uma perda de identidade.

Mas ao voltar lá, naquele lugar onde nasci e cresci nos primeiros anos de minha vida, o sentimento de vazio não diminuiu e a tristeza tomou conta. Talvez tivesse ainda esperança de encontrar algo a mais do que restou, apenas os tijolos do alicerce da casa, troncos de árvores secos, alguns restos de ferramentas de trabalho, consumidos pela ferrugem. Buscamos em cada objeto um pouco da história das pessoas queridas que já não estão mais entre nós, o pai, a mãe, a avó.

As relações que tínhamos construído com parentes, amigos e vizinhos que não podem ser devolvidos e colados de volta. Veio-me à mente cada pessoa que neste lugar também vivia, pois não se trata só da memória pessoal porque nossa vida não é construída individualmente, a nossa memória é ligada a outras pessoas, somos por natureza seres sociais e vivemos em comunidade, cultuando tradição e costumes que são coletivos. 

Não considero somente as saudades das pessoas queridas, mas a falta desta convivência nestes anos. Esta constituição enquanto sujeitos, que é de certa forma quebrada ao termos que mudar de lugar. A falta que faz esses anos de convivência sequestrados à força, é algo doído.

Claro que se constroem novas relações, mas é um processo bem lento, que até mesmo para os adultos é difícil (meus pais por exemplo, nunca se acostumaram no novo local onde residiram, tanto que pediram para serem sepultados no lugar de origem). Não são as mesmas da infância. Porque ser criança é algo especial. Para a criança, o seu mundo é aquele, o qual não cabem muitas coisas, a não ser as do “lugar” onde mora.

Sem dúvida, a energia elétrica trouxe o progresso, mas a um custo social alto, que não pode ser reversível. Fico pensando que hoje deveríamos evitar estes custos e este sofrimento de tanta gente com formas alternativas de geração de energia, que sejam menos agressivas ao meio ambiente e que mantenham relações equilibradas entre as pessoas, suas relações, a flora e a fauna.



Fotos: Arquivo pessoal/dia da visita ao local de moradia da família.

Organização, disciplina e bons hábitos: aspectos centrais para a evolução humana

Numa época de mudanças profundas,
desafiados a desenvolver nossa resiliência,
devemos pensar e ajustar nossa organização
em todos os níveis, com disciplina, para que se transforme,
a médio prazo, em hábitos sustentáveis.


Ao analisarmos o comportamento individual exigido pelas instituições que administram o sistema social em vigor, identificaremos mentes brilhantes sendo escravizadas pelas imposições do consumismo e do produtivismo ilimitado.

Nesse ativismo exagerado, existem poucos espaços para o autocuidado em todas as suas formas. Numa época de mudanças profundas, desafiados a desenvolver nossa resiliência, devemos pensar e ajustar nossa organização em todos os níveis, com disciplina, para que se transforme, a médio prazo, em hábitos sustentáveis.

A organização, visando a evolução e a sustentabilidade individual, no interior de um grupo familiar ou sistema social geral, é de grande relevância. O ponto de partida é a condição atual de cada pessoa, que consiste, além de outros fatores, da reconstrução da soma de aspectos conscientes, inconscientes, do seu grupo, do sistema social, do sistema familiar atual, bem como do comportamento das gerações familiares passadas.

A partir dessa complexidade de variáveis, na qual cada indivíduo vai se organizar, se faz necessário ressaltar que os espaços na organização pessoal para os procedimentos de autocuidado são atravessados pela lógica social do consumo, da produtividade e do reconhecimento.

A disciplina se apresenta com um histórico de fragilização, em um contexto de desorientação generalizada, de flexibilização das normas, de permissividade, de criatividade e pluralidade de comportamentos.

Existem aspectos positivos na flexibilização para a evolução e sustentabilidade pessoal e social, decorrentes da superação de comportamentos padronizados, uniformizados e repetitivos, dos modelos autoritários e ditatoriais. No entanto, esses aspectos não devem impedir que as relações mais sólidas, com vínculos, entre organização pessoal e a disciplina para a manutenção da mesma, visando o bem estar individual e geral, sejam desenvolvidos.

Ao reconhecer o valor da disciplina, um comportamento consciente substituirá a não realização do autocuidado corporal ou intelectual. Nesta trilogia de aspectos centrais para ampliar os comportamentos conscientes e sustentáveis, os hábitos simbolizam a explicação e o estágio culminante, possibilitando que tarefas especificas deixem de representar um enorme esforço e se tornem prazerosas.

A satisfação em realizar tarefas específicas, como ler, escrever, preparar o próprio alimento, caminhar, andar de bicicleta, correr, levantar da cama para participar de um encontro em uma sala de aula virtual, está estritamente relacionada com a cultura da organização pessoal, a disciplina e os bons hábitos.

A distância entre a necessidade de um grande esforço e a realização confortável ou satisfatória de uma atividade está na opção consciente por rotinas que associem organização pessoal, disciplina e bons hábitos.

Em outra publicação neste site, já escrevemos: “numa sociedade baseada na competição, na exploração implacável de um ser humano por outro, no ato de lucrar com as necessidades alheias e na criação de problemas com o propósito de obter lucro, as referências para o comportamento devem sair das sombras, pois tem suas origens ideologicamente ofuscadas”.

Solidariedade e abundância: dois aspectos centrais para a evolução humana

O conjunto dos bens indispensáveis para a vida humana
são perfeitamente suficientes para toda a humanidade,
mas o egoísmo e a ganância ou falta de consciência solidária,
impõem sofrimento e abreviação de vidas.


Pensar e desejar a materialização de uma condição social de abundância, no contexto da pandemia, parece ser contraditório, mas é uma imposição para quem está comprometido com a evolução humana.

A estagnação do comércio, as restrições na circulação de pessoas, as vidas abreviadas e o desemprego, estão aumentado o nível de insegurança, que leva inúmeras pessoas ao desespero e ao adoecimento. Neste contexto, que pode ser descrito como a “culminância de uma transformação profunda”, é valido, ainda, registrar que o ser humano, por meio de uma relação inteligente com a natureza produz muito além do que é necessário para viver em abundância material.


A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.

A solidariedade é um tema relevante para a vida social humana. Um dos pensadores contemporâneos, considerados como um clássico da sociologia, Emile Durkheim, esmiuçou o tema, partindo de uma divisão geral, que ele caracteriza com mecânica e orgânica. O ponto de partida da sua teoria é que não existe vida social sem solidariedade, que pode ser mecânica, a exemplo das abelhas e das formigas. Mas o ser humano por meio da inteligência, pode assumir comportamentos conscientes, percebendo que os outros seres vivos dependem dele, do mesmo modo que ele, individualmente, não existiria sem os outros.

Nenhum de nós existiria, como ser vivo, sem nossos antecessores que nos geraram e nos cuidaram. Do mesmo modo, no aspecto da identidade individual, não existira, por exemplo, a figura do professor sem a existência do estudante.

Os tempos de escassez e as ausências momentâneas de bens indispensáveis se apresentam como uma oportunidade para ampliar a consciência humana a respeito da importância dos mesmos para a continuidade da vida.  Uma situação fácil de perceber é a seguinte:  a natureza disponibiliza, o ser humano com sua criatividade e com os recursos tecnológicos produz e armazena em abundância bens materiais indispensáveis para a vida, como a água, alimentação e a energia, que poderiam ser disponibilizados de forma universal, mas que não são.

Neste sentido, a pandemia de 2020 está sendo uma oportunidade para percebermos que existe água, energia elétrica e toda sorte de recursos financeiros básicos para todos e que comportamentos solidários que possibilitam a universalização do acesso a estes bens abundantes são possíveis e indispensáveis.

Estas condições mínimas de universalização incondicional do acesso a bens indispensáveis para a vida, devem ser acompanhadas de um planejamento institucional, com a adição de condições mínimas de moradia educação e cultura.

É válido registrar que o conjunto dos bens indispensáveis para a vida humana são perfeitamente suficientes para toda a humanidade, mas o egoísmo e a ganância ou falta de consciência solidária, impõem sofrimento e abreviação de vidas. No tema da habitação, por exemplo, é válido registar e refletir que em decorrência da ganância e da especulação imobiliária, na maioria das cidades, temos vazios urbanos e inúmeros imóveis ociosos, ao mesmo tempo existem seres humanos habitando locais insalubres e precários.

Nesse momento de combate ao novo coronavírus, a expansão da consciência solidária que reconhece a abundância de bens indispensáveis, pode se apresentar como um propulsor para evolução humana.

O que marcará 2020 na educação?

A grande lição que podemos tirar neste
momento de pandemia é a de que o professor
é de fato insubstituível, seja em sala de aula,
seja para um olhar ou palavra que acalenta
quando tudo é incerto.


O ano de 2020, sem dúvidas, já deixou sua marca no mundo com o surgimento de um vírus que nos obrigou a repensar a própria existência. Nos colocou diante das mais diversas interrogações em relação à vida e ao nosso modo de viver em sociedade.

O SARS COV 2, também conhecido como Novo Coronavírus, teve suas primeiras notificações na China e tornou o país um vilão mundial, despertando as mais cruéis e irracionais reações diante do desconhecido.

As informações acerca desse vírus ganharam atenção em todos os locais e nos vimos diante de uma realidade jamais pensada outrora: a de ficarmos isolados em nossas casas, cumprindo as determinações de especialistas da área da saúde, bem como voltar nossa atenção aos pesquisadores e à ciência, tão desvalorizada por governantes inaptos ao cargo.

Nesse contexto, a educação e o ensino também precisaram ser repensados de maneira muito rápida para que a aprendizagem continuasse acontecendo, ainda que de uma maneira pouco comum nas escolas brasileiras, o Ensino a distância (EAD).

As diferenças que assolam o ensino público no Brasil ficaram ainda mais evidentes e, especificamente no RS, evidenciaram o descaso que a escola pública está imersa. Enquanto professora da rede estadual de Passo Fundo, me vi tendo que reinventar o modo de dar aula com as ferramentas tecnológicas disponíveis e compartilhar uma angústia coletiva de uma categoria que não tem o devido reconhecimento de grande parte da sociedade e muito menos dos governantes.

Os abismos e a desigualdade acompanham o nosso país e, neste momento, não é diferente, grande parte dos alunos não têm condições de acompanhar o ensino EAD e ficam ainda mais isolados das oportunidades que deveriam ser para todos.

O que gostaríamos que um chefe de estado fizesse num contexto de pandemia é o que gostaríamos que fizessem sempre: consultar quem está na linha de frente das escolas, para que assim as decisões fossem mais condizentes com a realidade dos educandos.

Nós professores queremos sempre o melhor para cada estudante que passa pelas nossas vidas e não é uma tarefa fácil lidar com diferentes tipos de realidades de uma sala de aula, ao mesmo tempo em que é exatamente a singularidade de cada um que torna o ensino um desafio especial e único.

O mundo digital certamente é indispensável para que a aprendizagem aconteça de forma ainda mais completa e democrática, mas sem dúvida, a grande lição que podemos tirar neste momento de pandemia é a de que o professor é de fato insubstituível, seja em sala de aula, seja para um olhar ou palavra que acalenta quando tudo é incerto.

Sérgio Vaz diz que ‘é necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras’’. Nossa missão, em busca de uma educação pública justa e igualitária, passa pelas fogueiras que acendemos em cada aluno que consegue além de aprender, sonhar.

Autora: Eduarda Dal Pozzo, professora de Língua Portuguesa e Literatura, Graduada em Letras na UPF (Universidade de Passo Fundo).

A grande ilusão

Criamos uma sociedade extremamente consumista,
de um materialismo sem nenhuma ética,
para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.


O sucesso é a sereia do mundo moderno. Com seu canto repleto de promessas, nos atrai para as rochas da ansiedade e da depressão, afunda nosso barco de esperanças e observa enquanto nos afogamos em mágoas. Em seguida, nos devora aos poucos. Engolidos pelo desespero, lamentamos nossos fracassos, o quanto foram em vão os esforços.

O sucesso é um mendigo sonhando ser milionário.

É o pai de família remoendo o fato de não ser rico, ao mesmo tempo em que perde a oportunidade de dar atenção aos filhos. É a dona de casa reclamando por não poder comprar aquele aspirador de pó de última geração, deixando de lado a satisfação por ter uma casa.

É o milionário ressentido por perder alguns milhares, como se já não tivesse milhões – afinal, pouco importa o quanto se tenha, é preciso ter sempre mais.

A felicidade é fruto da aceitação, não de exigências. Não existe felicidade futura. Na verdade, tão pouco o futuro existe. Permanecemos imersos à dimensão absoluta do presente.

No entanto, o mundo nos incentiva, todos os dias, a querer mais, sempre mais. Devemos ser bons em tudo, caso contrário, ninguém nos amará e não seremos felizes.

Para os homens, não basta não ser obeso, é preciso ser musculoso. Ter um emprego do qual se goste é insuficiente, irrisório, a não ser que o salário seja muito bom.

Já as mulheres devem ser magras, sem estrias, celulite ou rugas.

Para a obesidade, há centenas de dietas, produtos milagrosos e academia. As gorduras localizadas podem ser resolvidas com lipoaspiração. Para as estrias, há laser e peeling. A celulite se resolve com cremes e massagens. As rugas, com botox.

Teremos, assim, o ideal “humano” deste tempo: um homem forte e financeiramente bem-sucedido, ao lado de uma mulher atraente. Com um pouco de sorte, eles poderão se casar, ter filhos e formar uma família “tradicional”. 

Seria até interessante, se tudo não terminasse por aí. Mas, como já foi dito, o processo nunca tem fim. Depois de entrarmos na dança, somos proibidos de parar.

Não basta ter um veículo, é preciso comprar o carro do ano. Uma casa? Melhor uma mansão, de preferência com piscina. Pouco importa se a família quase nunca usa e o filho, nos fins de semana, cheira cocaína, para fugir do tédio.

Os pobres tão pouco escapam. Como enunciou o filósofo Epicuro, para ser feliz não é preciso muito: amigos, liberdade, reflexão, casa, comida e roupas.

Em todas as classes sociais somos incitados a lutar para ficarmos ricos, ou mais ricos, com o objetivo de consumir, não importando se, para tanto, percamos amigos, vendamos nossa liberdade ou, até, paremos de pensar.

Quanto mais perseguimos o ideal de riqueza da sociedade, mais ficamos pobres. A aparência talvez até vá bem, com suas lipoaspirações e afins. Os músculos talvez até pareçam fortes, talvez a carteira esteja cheia.

A alma, porém, muitas vezes agoniza.

Em seus outdoors gigantescos, o mundo não nos diz: cuide de sua alma, seja feliz, estude para a vida, seja criativo, experimente coisas novas, sorva arte, não tenha preconceitos, respeite as diferenças, seja humano.

Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.

Autor: Aleixo da Rosa









Proposta de atividade pedagógica

Esta sugestão de atividade foi elaborada para Oitavos Anos do Ensino Fundamental e para Ensino Médio.

No Ensino Fundamental, Oitavo Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de conhecimento: Ética utilitarista (Maximização da felicidade/benefícios). Habilidades: Refletir filosoficamente situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas aos problemas cotidianos.

Questões para pensar:

  1. Defina, em poucas palavras, o que é “sucesso”.
  • Defina, em poucas palavras, o que é “felicidade”.
  • Cite três principais diferenças entre “sucesso” e “felicidade”.
  • O texto apresenta uma definição para “sucesso” e uma definição para “felicidade”. Identifique-as e compare-as com as suas definições.
  • Para ter sucesso, alguém depende unicamente de seu próprio esforço ou há outros fatores envolvidos?
  • A felicidade depende ou independe do sucesso? Justifique.


Sobre o livro “Desejo de status”, do filósofo Alain de Botton.

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