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Espiritualidade na vida dos professores e em suas práticas docentes

Nestes mais 100 dias de pandemia,
o nosso rosto humano de professores e professoras
se transformou em cara de tela de celular ou de computador.
Não saímos mais da frente das telas e
entramos no mundo onde vale a imagem.


Há mais de três meses vivemos sob muita tensão, vulnerabilidade, incertezas, medo e insegurança devido a doença da COVID-19. A vida da humanidade mudou. A vida dos professores e das professoras mudou!

A necessidade de ter que se reinventar em sua prática de uma hora para outra, a exigência e urgência de aprender novas metodologias através do uso da tecnologia, o isolamento social que não permite compartilhar planejamentos e dialogar com colegas na escola, a expectativa de ser esteio para estudantes e famílias são algumas das mudanças que vieram sem pedir licença e para as quais precisam ser dadas respostas!

Essas mudanças trouxeram consigo sentimentos talvez nunca sentidos, como ansiedade, stress, exaustão, insônia… estão afetando a saúde socioemocional de docentes.

Buscar um suporte para enfrentar a crise pessoal e social é fundamental! Aí entra a espiritualidade, como uma estratégia de enfrentamento da crise.

A espiritualidade é a busca inerente de cada pessoa por sentido e propósitos para a vida, conectando-se consigo mesma, com os outros e com o que lhe é significativo e sagrado. Esse significado pode ser encontrado na religião, na relação com uma figura divina ou com a transcendência, pode ser encontrado nas relações com as outras pessoas, mas também pode ser encontrada na natureza, na arte e no pensamento racional.

André Droogers – professor de Antropologia da Religião na Universidade Livre de Amsterdam, diz que definir “espiritualidade é como comer sopa com garfo: a gente nunca termina e fica o tempo todo com fome”.

Para Droogers, espiritualidade tem a ver com experiência, atitude, comportamento, e não tem como ser estudada através de métodos e teorias. Espiritualidade é maior que religião, pois religião é cultural, enquanto que a espiritualidade é algo humano.

Há uma grande oferta de espiritualidade fora do campo religioso, como na mídia, ambiente empresarial, movimentos ecológicos, movimentos exotéricos, autoajuda… Isso surgiu com a chamada modernidade líquida, da qual fala muito bem o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Bauman descreve o líquido como algo fluido, que não mantem a sua forma, que se move facilmente, escorre, transborda, vaza. Bauman usa “fluidez” ou “liquidez” como metáforas adequadas para falar da história da modernidade, tanto da vida das pessoas como da vida das instituições. E Bauman explica que a modernidade líquida é o oposto à modernidade sólida.

A modernidade sólida está associada aos conceitos de comunidade e laços de identificação entre as pessoas, dando a ideia de perenidade e sensação de segurança. Na era sólida, os valores se transformavam em ritmo lento e previsível. Isso possibilitava algumas certezas e a sensação de controle sobre o mundo – sobre a natureza, a tecnologia, a economia, por exemplo.

Mas acontecimentos da segunda metade do século XX, como a instabilidade econômica mundial, o surgimento de novas tecnologias e a globalização, contribuíram para a modernidade líquida. A perda da ideia de controle sobre os processos do mundo e a mudanças constantes, trouxeram incertezas quanto a capacidade do ser humano se adequar aos novos padrões sociais, criando relações sociais, econômicas e de produção frágeis, fugazes, líquidas.

Se Bauman vivesse hoje, é provável que acrescentaria a pandemia como mais uma das razões para tornar a sociedade líquida! Pois, com a pandemia, parece que nosso mundo ficou menor, ficou mais conhecido, países ficaram “despidos” em suas realidades humanas, as relações ficaram mais instáveis e voláteis.

Apesar de toda evolução tecnológica e científica, temos dificuldade em nos entendermos, não temos certezas de nada, não conseguimos descobrir uma vacina mais rápido que a doença se modifica e evolui. Continuamos sendo individualistas (cada um reza pedindo que Deus cuide de si e de sua família), sempre temos respostas melhores que o outro, temos uma dificuldade de ouvir, admitir e sentir empatia pela outra pessoa!

Nestes mais 100 dias de pandemia, o nosso rosto humano de professores e professoras se transformou em cara de tela de celular ou de computador. Não saímos mais da frente das telas e entramos no mundo onde vale a imagem.

As aulas precisam ser sempre mais criativas, os noticiários precisam trazer sempre mais imagens sensacionalistas, as pessoas fotografam catástrofes ao invés de ajudar as pessoas que estão nelas. Um exemplo recente é George Floyd – várias pessoas ficaram assistindo e fotografando os policiais ajoelhados sobre o pescoço de George, enquanto este implorava por respirar. Enfim, a imagem é a maior experiência.

E a espiritualidade??? Ela pode nos auxiliar no equilíbrio da nossa vida? Ainda há espaço para a espiritualidade?

Se a espiritualidade significa DAR SENTIDO À VIDA, ela pode ser a aquisição do celular mais caro, do curso de tecnologia que vou fazer, do carro do ano, do guarda roupa repleto das roupas da moda, das viagens para os lugares mais extraordinários do mundo. Que sentido de vida é esse?  Um sentido banalizado, de aparência, líquido! Que se pode perder a qualquer instante, como a fumaça se desvanece no ar!

Mas a espiritualidade, como SENTIDO PARA A VIDA, também pode estar presente na simbologia e nos ritos do cotidiano, onde os dois mundos, o espiritual e o material, andam juntos, como por exemplo a formatura em um curso, o casamento, a crisma do filho, o batismo da filha, a gravação de um CD ou participação em um trabalho voluntário.

Nestes exemplos acima citados, os dois mundos, o espiritual e o material, tentam se complementar. Mas também podem entrar em choque, pois os ritos podem significar somente uma catarse, se tornando uma espiritualidade ingênua, efêmera. Pensando nos ritos cristãos, se estes não estabelecerem compromissos, se tornam somente uma fé infantilizada, uma religião mais de direitos do que de deveres.

Na medida em que a nossa vida, no sentido se estar VIVO, entra em crise, como a que estamos passando com esta pandemia, é possível entrarmos num profundo processo de crise espiritual. Por quê? Porque as concepções de espiritualidade que serviam de orientação não servem mais! As certezas se tornaram pó! De nada adianta ter o melhor carro do mundo, estar conectado com o mais potente celular, ter planejado a maior festa de casamento já vista, se nada disso podemos realizar!!!! Estamos confinados! Precisamos cuidar da nossa saúde e da saúde de quem está próximo.

Em qual espiritualidade então devemos nos agarrar?

A teóloga, filósofa e religiosa Agostiniana Ivone Gebara sugere que não há só uma única solução para a crise. Há várias. Tudo depende de quais deuses seguimos, a quais deuses prestamos obediência. Neste tempo da pandemia, a concorrência e a “luta dos deuses” aumentou! Cabe refletir a que Deus queremos seguir. Em que queremos colocar nosso sentido de vida.

A chave da virada, que dá sentido à vida – sua, minha, de nossos estudantes, é a CHAVE das competências, habilidades, atitudes, valores e espiritualidade. É hora de olhar para dentro de si mesmo e rever as principais competências necessárias para este momento, as habilidades que precisa para enfrentar as crises, as atitudes que precisa tomar perante a pandemia, os valores que lhe são fundamentais e a espiritualidade que vai nutrir e dar sentido à sua vida. Para isso, é bom observar algumas dimensões:

  • Dimensão da Alegria – alegrar-se com as pequenas coisas do dia a dia, com os resultados, com os sorrisos…
  • Dimensão do Tempo – dar um tempo para si, para refletir, para desenvolver-se como pessoa e profissional.
  • Dimensão do Cuidado – cuidar de sua saúde, cuidar e amar as pessoas com as quais convivemos, cuidar da natureza, fazer boas ações.
  • Dimensão da Esperança – o/a professor/a é um ser da esperança, do verbo esperançar, por isso, não deixa de semear.

Milhares de pessoas estão morrendo de COVID-19, mas as que ficam tem a oportunidade de refletir sobre a intensidade com que querem viver enquanto estão aqui! Por isso, conforme as palavras de Martin Lutero, “Se o mundo acabasse amanhã, ainda hoje eu plantaria uma macieira”.


Esta reflexão é fruto de participação em Painel Virtual “Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia” realizado pelo CONER Passo Fundo, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo e Sétima Coordenadoria Regional de Educação. Este painel fez parte também da Semana de Formação dos professores da rede municipal de Passo Fundo.

Autora: Profª Ma. Joni Roloff Schneider
Licenciatura em Teologia – Educação Cristã (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo); Licenciatura em Artes (FEEVALE); Pós-Graduação em Psicopedagogia (FEEVALE), Mestrado em Educação e Religião (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo).

Carta Pedagógica: Por uma Pedagogia da Solidariedade

Permita-se rir e conhecer outros corações.
Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade,
aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros,
aprenda a viver sua própria vida.
(Mário Quintana)


Meus Caros, escrever é uma terapia extraordinária. Dispensa terapeuta, e faz bem a todos, de modo especial aos orientados a ficar em casa. Enquanto escrevemos, nos mantemos focados na construção da palavra e do pensamento que se quer comunicar às pessoas, ainda desconhecidas. Quando intercalamos a escrita com outras tarefas do cotidiano, continuamos a pensar qual a palavra adequada para formular o próximo parágrafo.

Vejam bem, nestes estágios de elaboração, as preocupações, angústias, medos, inseguranças não tem espaços, ou são minimizadas porque estamos ocupados com o ato de pensar, criar, bordar as páginas com as letras. Desta forma, ficamos bem ocupados, e intencionalmente focados. Para quem deve e pode manter-se no isolamento, eis uma sugestão, experimentada no exercício da disciplina consciente.

Se esta carta, for útil para os militantes do Movimentos Sociais, cuja tarefa, neste momento, é de organizar a prática de uma solidariedade capaz de tornar-se uma Pedagogia da Solidariedade,que venha configurar o modo humano de ser, movendo-se ao encontro das pessoas que aguardam os alimentos para saciar a fome de pão e de beleza, tanto melhor.

Pleno de sabedoria pedagógica, Paulo Freire prestava muita atenção às intuições. Quando se via movido por elas, escrevia, sem parar, com o próprio punho. Elas são o início do conhecimento que liberta, do pensar certo, dizia ele, porque inspiradas na prática. Neste momento, em que me encontro também “em casa”, sinto o dever de manter-me conectada com os que sofrem, lendo o que ocorre no mundo, construindo arte, ouvindo pessoas, preparando meu próprio alimento, orgânico, recebido dos assentamentos. Por isso também tenho tempo para vos escrever, com o propósito de dar força àqueles que buscam sair de si, da sua zona de conforto, indo ao encontro solidário do outro, porque a fome não espera.

Vamos precisar de todo mundo

Então, nossa intenção aqui é pensar sobre o grande desafio a que somos chamados a dar resposta, neste momento de Pandemia, cuja rapidez alcança 64 mil óbitos no Brasil, fora os subnotificados, deixando rastros de miséria, desemprego, fome e muita dor no mundo inteiro. Precisamos estranhar, mas procurar entender a descrença de pessoas que não entenderam ou negam a gravidade deste momento, e por isso se desobrigam de cuidar de si e dos outros.  Lamentamos, no entanto, os maus exemplos vindos de autoridades que autorizam pessoas a mergulhar na descrença, negando a gravidade gerada pela Pandemia.

As pesquisas científicas são evidentes É uma doença, cuja face é desconhecida, porque avança rapidamente para todas as direções, ceifando vidas, nos dando avisos para que repensemos os erros cometidos nas últimas décadas, tais como: Desrespeito total ao meio ambiente, agressão aos diferentes ecossistemas, desmatamento das florestas, envenenamento das águas, dos animais, e especialmente da Mãe Terra. E no meio urbano, admitindo a criação de grandes conglomerados de pessoas, sem as condições mínimas de acesso e vida digna.

Meus caros, temos ouvido falar muito de solidariedade desde que a Pandemia alcançou o mundo, levando vidas de todas as condições sociais, raças e idades, sem nos dar o direito ao menos de nos despedirmos de seus corpos. É tudo muito triste. Contudo, não podemos focar na tristeza e na desesperança. Tudo vai passar.

A vida humana clama por justiça, por solidariedade, por amor ao próximo, valores esquecidos, camuflados pelo capitalismo explorador. Mas de qual solidariedade estamos nos referindo? Obviamente, da solidariedade que brota dos pobres, tanto na capacidade de dar quanto de recebe. Da solidariedade que rompe as cercas e os muros, que abre as portas e supera divisórios entre os que tem e os que não tem.

Vejamos bem, não tratamos aqui das ações feitas por entidades e/ou pessoas físicas, que por décadas, acumularam e exploraram vidas humanas. Ou porque alcançaram profissões e cargos, cujos salários ultrapassam os limites da ética e da justa partilha. Chama nossa atenção como os Meios de Comunicação, anunciam diariamente estes feitos, omitindo ao mesmo tempo belíssimos e verdadeiros exemplos de solidariedade, cuja visibilidade multiplicaria ações semelhantes.

Sabemos, no entanto, o lado dos canais televisivos, por isso, esperam credibilidade e audiência pública, porque comprometidos com a classe dominante à qual servem. Por isso o conceito de solidariedade disputada por eles, se fundamenta na doação que pacifica, levando o outro a dependência, a acomodação, à espera da pura espera vã. Uma solidariedade que desautoriza organizar a luta coletiva, e a construir práticas sociais, conscientes e organizadas. Uma solidariedade que cega as pessoas, sem ver alguma possibilidade de libertação. Sendo assim, os MC são impelidos a dar maior divulgação, a doações e a doadores, cujo interesse subjacente deseja que a mão direita saiba o que faz a esquerda.

Exemplos temos de sobra

A Solidariedade como imensurável valor humano, é recorrente na história da humanidade. Os quatro evangelistas guardam narrativas acerca de milagres feitos por Jesus. Como exemplo trazemos a multiplicação dos pães e peixes, porque ali havia fome entre as pessoas. Assim que atenderam ao apelo de Jesus para que se organizassem em pequenos grupos, tudo mudou. O milagre realizado por Jesus não foi a magia da multiplicação, mas o ter sensibilizado as pessoas a se importarem com a fome do outro e ter desafiado as mesmas a partilhar o pouco que tinham, abençoando esse gesto e fazendo compreender a importância de organizar-se em pequenos grupos para distribuir a todos o pão e o peixe colocados em comum.  

A solidariedade humana por excelência encontramos em São Francisco de Assis/Itália, no século XIII. Ainda muito jovem, Francisco, contesta e deixa o conforto, a riqueza da casa paterna, e vai morar/viver, solidariamente com os leprosos, condenados a viver fora dos muros de Assis, porque portadores de uma doença contagiosa e incurável.

Francisco foi solidário com os mais frágeis, sabendo que o “horizonte mais próximo do leproso é a morte”, porque ela se aproxima à medida que assiste a morte do outro. Francisco lhes fazia companhia, tratava suas feridas, conversava, escutava. E de vez em quando voltava rapidamente para casa paterna, ocupando-se de buscar alimentos para levar aos leprosos. Ele mesmo diz em seu Testamento que fez misericórdia com eles, o que pode ser traduzido atualmente por praticar a solidariedade. Para Francisco de Assis, esse gesto solidário trouxe não só conforto e alivio aos leprosos, mas modificou a vida dele. Ele mesmo se tornou mais humano. Olhando hoje para a ações de partilha que os Movimentos Socias estão fazendo, é visível que a solidariedade humaniza quem a pratica e quem a recebe.

Outro exemplo de verdadeira solidariedade encontramos em Che Guevara, argentino de origem, médico de formação, que por um tempo escolheu Cuba para pensar as estratégias da revolução. Colocou sua vida a serviço da luta por justiça e liberdade, alimentou a mística e amor a humanidade de qualquer parte do mundo. Estimulou e deu exemplos de solidariedade, na construção de casas, nas colheitas, em mutirões de limpeza, prestando atenção e medicando os feridos na luta. Seus gestos foram tão fortes, que brigadas de solidariedade são organizadas até hoje no mundo inteiro. Era convicto de que se vive com mais dignidade quando se tem em mente a solidariedade.

É de Che esta frase: “Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário”.  E a isto eu acrescento: haverá maior injustiça cometida contra um ser humano, do que negar-lhe solidariedade na partilha do pão e no cuidado da vida?

Neste sentido, destacamos a solidariedade dos mais de mil e duzentos médicos cubanos prestando serviço em vinte e um países, buscando salvar vidas alcançadas pela Pandemia. A solidariedade destes médicos permanece ao longo dos anos, porque sua formação leva em conta a vida das pessoas. Não está ligada ao mercado, mas a sentimentos humanos. Se estivessem hoje, no Brasil, quantas vidas poderiam salvar!

Não há formas de mensurar a solidariedade encarnada na missão de Madre Tereza de Calcutá/Indiana, também chamada de Santa das Sarjetas; em Santa Dulce dos Pobres/brasileira, entre outros.

Quanta solidariedade se concretiza no encontro cotidiano de Frei David, do Pe. Júlio Lancellotti com os moradores de rua de São Paulo e Rio de Janeiro, assistindo aos donos dos hotéis se recusarem a acolher este povo em plena Pandemia. E ainda tendo que ouvir Bia Doria, esposa do governador dizer: “não se pode levar marmitas e cobertores aos moradores de rua. Eles precisam assumir alguma responsabilidade, e sair da rua. A vida para eles é cômoda, e sempre querem mais”. Sem dúvida, estas palavras revelam uma mulher de postura perversa, maldosa, que não guarda um fio sequer de compaixão pela humanidade. Pessoas que pensam deste modo, porque sua alma é corrupta, ignoram que os leprosos do século XIII estão de volta às ruas de São Paulo.

Para o capital, o valor está no lucro, como diz Guedes, Ministro da Economia, que ridiculariza a solidariedade e compaixão em suas falácias. Para estes e estas, os pobres podem morrer na rua, de fome, de frio, sem medicamentos, sem poder respirar. Sabem estes homens e mulheres que a partilha é um gesto obrigatório do ser humano e do ser cristão?

Com um olhar focado na atualidade, temos o Papa Francisco, cuja prática evangélica de solidariedade é viva e profundamente coerente, capaz de ser admirado também por alguns poderosos. Um Francisco, que reza sozinho na Basílica de Roma, emocionado, solidário com as famílias dos entes queridos do mundo inteiro, ceifados pela Pandemia.

Com coração solidário e partido de dor, se importa com as famílias amazonenses, em luto, com as vítimas de São Paulo, territórios onde a Pandemia chegou para ceifar muitas vidas, incluindo os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, pescadores. Estas são pessoas humanas que vivem do que a floresta e as águas lhes oferecem, sem explorar e envenenar a natureza. Obviamente, é notável que nestes territórios as políticas públicas de saúde e saneamento básico estão ausentes. Por isto também se percebe o avanço rápido da contaminação da doença.  

Outra referência neste sentido para nós, é o educador Paulo Freire. Um homem sensível, aberto para o mudo, desde cedo cultivou a solidariedade, distanciada e desatrelada do assistencialismo.

Ao escrever Pedagogia do Oprimido, nos deixou um legado, regado de solidariedade para com os oprimidos, cuja miséria, machuca, fere a dignidade humana. Solidário com dor e humilhação geradas pela opressão, nos alertou para não nos iludirmos de que para sair da condição de opressão basta mover-se para o lugar do opressor. Grande engano. Trocando de papéis, nada muda, ninguém se liberta. Somente a conscientização e a consequente mudança de práxis, sem vingança, nos libertará do vírus do ódio que habita, tanto o opressor quanto o oprimido. Paulo Freire fazia tudo imbuído de amor e teimosa luta pela solidariedade. Há indícios de que a cura e o perdão vêm pelos atos solidários.

Obviamente, exemplos de solidariedade não nos faltam no decorrer de séculos da história. A Pandemia veio para nos fazer lembrar do que nossa memória deixou no esquecimento. E que não pode ser assim entre os humanos. Por isso aqui o desafio é construirmos uma Pedagogia da Solidariedade, que nos liberte da opressão, geradora de outras opressões, fome, desemprego, miséria, preconceito. Sabemos que a fome da pandemia não espera, não deixa dormir aqueles que se importam com as vidas humanas.

Sem dúvida, o medo da Pandemia vivido nos últimos meses, sem alguma certeza do tempo e espaço que vai tomar em nossas vidas, nos provoca a uma solidariedade mais radical, organizada, consciente e responsável. Para fazer frente a esta realidade, vamos precisar de todo mundo, para organizarmos uma Solidariedade fortalecedora, transformadora, de compromisso e empatia com o outro. E que não seja passageira, vulnerável, vivida apenas nestes momentos de desesperos.

Concretamente as partilhas, precisam ser transformadas em práticas sociais permanentes, de forma a evitar as relações de dependência e assistencialismo. Ou seja, uma Solidariedade que venha configurar o modo humano de ser, tal qual a relação de Francisco de Assis com os leprosos do seu tempo histórico.

Já é sabido entre nós, de que o clamor de quem sequer tem sabão para lavar as mãos para evitar o contágio, também não terá comida para saciar a fome, 3 vezes ao dia. E nem água para banhar-se e lavar suas roupas. Acredito que o sábio pensamento pode nos ajudar a avançar na reflexão: “Ninguém é tão pobre que não tenha nada a doar, e ninguém é tão rico que não tenha nada a receber”.

Quem não partilha, não aprendeu a ser cristão

Desde uma prática concreta de partilha dos frutos da terra que plantamos e colhemos em nossos assentamentos da Reforma Agrária, em todas as estações, nos desafiamos a construir uma Pedagogia da Solidariedade, que venha agregar todos aqueles e aquelas que respeitam a vida como valor a ser cuidado. Neste momento precisamos compreender que são os belos gestos de solidariedade que Deus abençoará generosamente. Contudo, o desafio é atual e urgente. De forma alguma podemos esperar para fazer amanhã, tudo aquilo que podemos fazer hoje.   

Dado o apelo da realidade emergencial, assustadora, vivenciada por todos nós a cada dia, por conta da Pandemia, é notável os gestos de solidariedade grandiosos. Estes se multiplicam, interligando pessoas que tem para doar e as que tem necessidades de receber.

Por conta da fome que se instala entre as famílias pobres, desprovidas de direitos, sem acesso a  políticas públicas, nas comunidades periféricas urbanas, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, criado em 1984, presente em 24 estados do Brasil, com 2 milhões e quinhentos mil pessoas assentadas, está empenhado em ações de solidariedade. De forma organizada, elas incluem a elaboração teórica desta experiência prática que ser quer alimentar e forjar multidões a se engajar neste grande mutirão. Tendo presente esta realidade, alimentos colhidos nos assentamentos, como: feijão, arroz, batata, mandioca, abóbora, banana, café, açúcar, e outras, são levadas às famílias que passam fome, porque não podem sair de casa para trabalhar. Junto levam livros, porque a falta de cultura também provoca fome entre essas pessoas.

O registro em vídeo tem sido um meio de comunicação ao alcance de nossas mãos, embora ainda não ao alcance das famílias carentes. Estes circulam rapidamente, dando visibilidade a diferentes práticas coletivas, ações de solidariedade, que podem ser traduzidas como um curto filme. Um filme colorido, onde podemos ver a quantidade de alimentos coloridos, as casas, a igreja, o pavilhão, a escola, e as pessoas em movimento, colhendo, organizando e entregando as cestas básicas nas periferias. Podemos ouvir ali sua palavra e captamos sua emoção, ao dizer: nós fomos acampados, nós conquistamos a terra, plantamos, e hoje colhemos. E assim temos alimentos para doar.

Num vídeo recente – O que é solidariedade para você, ouvido por mim várias vezes, sintetizei o seguinte:  A solidariedade está nos fundamentos da nossa vida social, ela é popular. Nossas ações organizam as doações de alimentos, por isso, em poucos dias, 25 mil litros de leite, 50 mil marmitas e 22 mil cestas básicas foram partilhadas em diferentes estados do Brasil. Nestas cestas também vão livros.

Para quem viveu a morte, o luto e a dor mais profunda, vendo tantos assassinatos no campo, aprendeu a transformar o luto em luta, e fará assim quantos anos forem necessários. Mas não só isso, a luta pela Reforma Agrária Popular, emergencial, incentivando a plantação de alimentos em torno das grandes cidades, é um projeto de curto e médio prazo que o MST está propondo. Pela sua experiência de cultivar a terra para o bem de todos, o Movimento tem método, braços e força humana para fazer acontecer.

Em outro vídeo, revelador da prática da solidariedade, no Paraná, uma assentada nos diz:

Há dois anos atrás, nós fomos despejados do assentamento, perdemos tudo, ficamos sem nada. Fomos morar na casa dos outros. Hoje estamos de volta, reconstruímos nossa casinha, e toda a plantação. Temos o pão de cada dia na mesa. Temos nossa igreja, pavilhão. Por isso eu sempre digo para as autoridades: o agricultor tem que ficar na terra, e daqui tirar o alimento. Não pode ir para a cidade. Tem que ter fé e paciência, agora nós podemos ajudar a quem não tem. 

Estes assentados entenderam o valor daquele ato na presença de Jesus, que apelou para a solidariedade da partilha dos pães e peixes. Entenderam como é importante organizar a partilha, para que todos possam se alimentar.

Nesta perspectiva, partindo do pressuposto de que a Partilha vence a avareza daqueles que tem apego excessivo ao dinheiro e a riqueza, com esta experiência de partilha, os assentados abraçaram o leproso, sem medo, com todos protocolos da saúde, porque a solidariedade é maior, e as vidas precisam ser preservadas.

Sou testemunha de que diariamente, os sem-terra, se alimentam bem, com alimentos saudáveis. Muitas vezes sentei à mesa, com famílias assentadas. E tudo ali era farto. E hoje, atendendo ao apelo da fome gerada pela exclusão social, agravada com a Pandemia, seu excedente se transforma em partilha para outras pessoas que não tem. Assim exercitam a fé engajada, concretizada na solidariedade. Exercitam a paciência com os ciclos da natureza, com o tempo para preparar a terra, semear, regar, cultivar e colher. E exercitando a paciência impaciente, no dizer de Freire, pressionando as autoridades, eles reconquistaram o assentamento do qual foram despejados há dois anos atrás. Que lição de vida nos dão estes assentados! Portanto, não surpreende que venha deles estes gestos de solidariedade, porque a doação sempre vem de quem conhece o sofrimento e o valor da partilha. Esta é a matriz da solidariedade humana de que tratamos, solidariedade como princípio, como valor humano e espiritual.

Com certeza, a mulher assentada do depoimento acima, tem plena consciência da solidariedade que vai junto com os alimentos entregues às famílias, e que gestos de partilha como estes mudam o rosto de uma mãe que recebe uma sexta básica para alimentar seus filhos. Quanta alegria no rosto de uma mãe, que pode colocar alguns alimentos na sua dispensa, mesmo depois de ter ficado 24 horas na fila da CAIXA para receber 600,00? 

Naturalmente, há uma boniteza implícita nas ações pedagógicas de solidariedade de entrega de alimentos as pessoas das periferias urbanas. Quem dá, dá com alegria, com gratidão de ter colhido aquele alimento da terra conquistada. Ao saciar a fome de pão de tantas pessoas, recuperam a fome de beleza, a dignidade humana, roubada pelo capitalismo. A quem recebe, alimenta um fôlego para enfrentar esse redemoinho de horror e de perversidade governamental, pelo qual passamos neste momento. Atitudes desumanas, sem uma palavra de solidariedade a tantas famílias alcançadas pele luto e pela dor da Pandemia.

Solidariedade faz brotar valores, que o capitalismo não cultiva

Neste sentido, é da natureza dos Movimentos Sociais perceber às injustiças e as desigualdades crescentes que assolam os povos do campo e da cidade, movendo-se em direção deles. Neste caso concreto de Pandemia, a falta das mínimas condições de vida digna, incluindo a ausência de políticas públicas de saúde, educação, moradia e saneamento básico, afetam diretamente as periferias urbanas, porque as pessoas ali são obrigadas a viver em barracos que não comportam vida digna. Por isso, desde o início da Pandemia estes Movimentos Socais do campo organizaram a Campanha PERIFERIA VIVA, que inclui diferentes demandas de atenção a esta periferia dos grandes centros urbanos. Uma iniciativa que vem organizar a solidariedade tão necessária neste momento, e que ser quer consolidar e permanecer como um valor humano entre nós. 

Engajados neste projeto solidário, grupos de jovens militantes de vários Movimentos Sociais do Brasil, estão sendo preparados, formados para esta tarefa de solidariedade. Dispostos a colocar-se a caminho, sem grandes pretensões, a não ser, ir conversar com o outro, preparam sua mochila com palavras, comida, livros, expectativas, esperança, solidariedade, sensibilidade para escutar o outro. Estão indo ao encontro, provavelmente de muitas pessoas contaminadas, leprosas de Assis, século XIII, cujo rosto é visto em pleno século XXI, nas vítimas da Pandemia aqui no Brasil.

São estes acontecimentos que voltam a questionar o comportamento do capital, gerador de exclusão social. Tomando todos os cuidados e protocolos de saúde, estes jovens militantes partem ao encontro do outro, porque a vida deste outro, importa.  Saber Cuidar de si e dos outros, no aspecto físico e emocional, é condição humana para vivermos longo tempo.

Vejam o desafio desta juventude não é pequeno. Ao final de cada cotidiano, se desafiam ao registro fiel, sem julgamento, acerca do que viram, ouviram e sentiram, identificando os apelos para o dia seguinte. Ressalto aqui com veemência.

Este registro lhes guarda um viável e primoroso processo de sistematização desta experiência, germe de uma Solidariedade que se faz Pedagogia. Portanto, uma solidariedade que vem acompanhada de razões para permanecer, tornando-se uma prática social recorrente. Estas práticas concretizam a ideia de que a terra, se cultivada e cuidada, produzirá os frutos necessários para alimentar as pessoas do campo e da cidade. Por isso a terra, de forma alguma, poderia ser objetivo de comércio e de especulação pelo latifúndio. Se a terra é mãe, mãe não se troca, não se vende. Ela é mãe. Se respeitada, bem cuidada, cultivada, nos dará o alimento de que precisamos para viver.

Queridos jovens militantes. Não temos dúvidas de que vocês farão um trabalho pedagógico, formador, extraordinário. Será uma experiência singular, de aprender a amar as pessoas com solidariedade, colocando-se frente a frente, sentindo o seu cheiro, olhando nos seus olhos, já que a máscara impede de ver o rosto inteiro. Procurem ler o que os olhos deste povo vos dizem.

Escrevam no diário de campo como é olhar para o outro, e como ele olha para vocês. E qual o sentimento brota em vocês pelo fato de estar ali, com o negro, pobre, LGBT, faminto, doente, em nome de uma Organização Social. Podendo, ao final do dia, voltar para casa, sentar-se à mesa, e alimentar-se.

Sem a pretensão de me alongar, esta ida à periferia, ao encontro do outro, será para vocês uma oportunidade de formação humana, não encontrada em nenhuma escola formal, nenhum curso, muito menos a quem alcança a Universidade, ainda tão longe da vida real das pessoas. Estas instituições, viciadas e controladas, se prestam muito mais para a educação e ensino, comprometido com a hegemonia do capital.

O espaço, o lugar em que vocês irão atuar, está livre das cercas, dos muros, do controle, dos preconceitos, de cor, de gênero, de classe social. Deixem-se encharcar de vida humana, de princípios e valores que nenhum vendaval leva. E que a lama de Mariana e de Brumadinho, não enterra.   

Cora Coralina, na sua simplicidade e sabedoria nos disse certa vez:

“O saber a gente aprende com os livros. A sabedoria se aprende é com a vida, e com os humildes”.


Grande e fraterno abraço,
Porto Alegre, 07 de julho, 2020



Creditos fotos: Fotos 1 e 2, MST/divulgação. Foto 3: Diangela Menegazzi

Conhecendo o Catolicismo e sua doutrina social

Conhecemos religiosos católicos por sua atuação pastoral, com engajamento social. Este engajamento social, que permeia a atuação em temas da sociedade, não significa uma atuação política vinculada a partidos ou organizações da sociedade. A Igreja Católica tem a Doutrina Social, que é fruto de vários documentos e registros que a mesma vem fazendo ao longo da sua história, em especial, em recente período histórico.

Ari Antonio Reis é sacerdote diocesano; já prestou vários serviços de assessoria e acompanhamento de pastorais sociais. Em sua entrevista exclusiva ao site, poderemos conhecer um pouco melhor a concepção e a orientação que a Igreja Católica Apostólica Romana tem para os temas sociais da atualidade.

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SITE NEIPIES: Quando e como surgiu seu desejo de servir a Cristo e a sua Igreja?

PADRE ARI: Sou de uma família católica de profunda vivencia comunitária. Acostumei-me, quando criança e adolescente, a acompanhar minha mãe e irmãos nas missas e atividades comunitárias. Também fui motivado a participar do Grupo de Jovens, muito incentivado na época.

Acredito que estes elementos contribuíram para o nascimento da vocação à vida presbiteral. Outro fato que ajudou foi a existência, na comunidade (São Sebastião – Vila Rica – Carazinho), de um grupo de apoio às vocações chamado “os pescadores”. Ali crianças e adolescentes eram orientados de diferentes maneiras sobre as diversas possibilidades de seguimento de Jesus Cristo.

Naquela época esta atividade comunitária favorecia muito o amadurecimento da fé e também outras possibilidades de serviço à comunidade. Muitas catequistas e lideranças que contribuem na missão evangelizadora foram formadas neste grupo. Minha vocação nasceu do ambiente familiar e também deste apoio comunitário, completado pela atuação no Grupo de Jovens. 

SITE NEIPIES: O que mais realiza e desafia como padre, como religioso?

PADRE ARI: Nossa missão é muito bonita. Diria que é o encontro da vontade humana com a graça divina. Somos frágeis e limitados, mas Deus conta conosco na sua obra. Me realizo no acompanhamento da vida da comunidade nos diferentes momentos, ao perceber os passos que são dados.

Gosto muito de dar aulas e esta vocação nasceu junto com o ministério presbiteral. Cada aula, palestra ou assessoria que você prepara, está se enriquecendo antes de partilhar conhecimento com as outras pessoas. Isto é muito bom porque vai abrindo os horizontes. Vivo esta graça de ser responsável por uma comunidade católica de contribuir na Faculdade de Teologia.

Os tempos atuais são desafiadores, mas cada época apresenta ao ser humano desafios próprios do contexto. É importante interpretar estes desafios e trabalhar com eles. Vejo três desafios nestes tempos: o primeiro está no senso comunitário que hoje está tremendamente influenciado pela cultura do individualismo exacerbado; o segundo desafio está na formação de pessoas em nível eclesial com extensão para a sociedade para uma cultura da solidariedade e busca do bem comum; o terceiro está no trabalho com a juventude o que exige que os compreendamos como protagonistas de suas vidas e agir social.

SITE NEIPIES: Padre Zezinho, em suas redes sociais, afirma que a Igreja Católica atua com base em documentos e posicionamentos de sua Doutrina Social, que algumas pessoas confundem com posicionamentos políticos. Qual é a importância da Doutrina Social da Igreja e quais são seus fundamentos?

PADRE ARI:  A Doutrina Social explicita o agir político da Igreja. Contudo, a Igreja não é partidária. O seu agir no mundo se dá em vista do bem comum.

Quando a Igreja se manifesta a partir das suas diferentes esferas, o faz pensando no bem da humanidade e em comunhão com a sua auto compreensão como Igreja de Jesus Cristo, aquele que passou no mundo fazendo o bem e quer que façamos o bem.

Partilho aqui alguns princípios que embasam o pensamento social da Igreja: a) a pessoa humana como fim de todo o agir político, econômico e social; b) a solidariedade como marca necessária do agir humano; c) o trabalho como caminho para a realização humana no agir transformador do mundo; e) a economia não é um fim em si mesma, é uma ciência voltada para o cuidado do ser humano; e) a verdadeira política está voltada para o bem comum.

SITE NEIPIES: Já tiveste atuação direta na assessoria e na concepção de algumas ações de pastoral social, como assessor da CNBB. Como a igreja católica organiza suas reflexões e quais ações propõe para abordar as questões sociais mais importantes de cada momento histórico?

PADRE ARI: A Igreja sempre se preocupou com as questões sociais, especialmente no cuidado para com os pobres. No documento de Aparecida está uma expressão que sintetiza o agir da Igreja no aspecto social. Ela compreende-se como advogada a justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis situações de desigualdade (DAp 395). Este compromisso é histórico e pautou, em primeiro lugar, a vida e missão de Jesus. Cuidar dos empobrecidos e fragilizados é essencial na Igreja que se diz seguidora de Jesus.

Na mesma conferência, acima mencionada, o Papa Bento XVI afirmou que a opção pelos pobres é intrínseca a fé cristã. Portanto, não é ação partidária deste ou daquele viés ideológico. É o exercício do essencial da fé cristã. Nesta perspectiva, a Igreja no Brasil tem, através das suas diferentes pastorais sociais, uma forma de agir estando atenta aos grupos mais fragilizados e ameaçados na sua existência e nos seus direitos. Ela é solidária e apoiadora nas suas reinvindicações por vida digna e plena.  

SITE NEIPIES: Papa Francisco está afirmando um modo bem diferente de ser e de agir da Igreja, colocando desafios novos para todos os cristãos católicos no mundo. Qual é a importância de seu pontificado, neste momento da história da humanidade?

PADRE ARI: Logo que assumiu o pontificado, dizia-se que estava iniciando a primavera da Igreja. Realmente, viu-se a Igreja sair de uma posição defensiva para uma dimensão propositiva. Compreendo que o Papa Francisco tem mostrado que a Igreja tem algo propor para a humanidade. Faz isso embasada no seu amor pela humanidade.

Temos a graça de ver o Papa afirmando este princípio de diferentes formas e para diferentes públicos. Também lembro que o Papa Francisco tem exercido uma liderança incontestável em um momento em que o mundo está carente de líderes com propostas significativas para o bem da humanidade

Alegra-nos que o Papa é um líder Cristão e que convida a todos se encontrarem com Jesus, mas que acolhe outras experiências religiosas e as considera importantes. Esta tranquilidade em acolher o diferente, sem abrir mão a sua identidade e do que considera importante para a humanidade, é muito importante.

SITE NEIPIES: O que significa “uma Igreja em saída”?

PADRE ARI: A expressão “Igreja em saída” é profunda e têm consequências amplas no agir eclesial. Mas existe o risco de ser interpretada em uma forma muito simplista. Nas diversas vezes que o Papa usa a expressão, o faz no sentido da Igreja superar a auto referencialidade e se abrir para o mundo, na perspectiva do serviço, porque ficando fechada em si mesma corre o risco de adoecer. Na Exortação Evangellii Gaudium, fala em uma Igreja em saída da própria comodidade em direção às periferias que precisam da luz do Evangelho. A atitude de sair é desafiadora, contudo abre novos horizontes e permite olhar o mundo de um jeito diferenciado. Na saída, a Igreja se enriquece porque dá do que tem de melhor, a fé em Jesus Cristo.

SITE NEIPIES: Quais são hoje os maiores desafios da evangelização cristã?

PADRE ARI: A evangelização hoje tem como grande desafio o diálogo com a cultura urbana sem medo e na perspectiva propositiva. Neste sentido, a proposta das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, propostas até o ano 2023, sugerem uma série de iniciativas de encontro dialogando e evangelizadora com a cultura urbana.

Temos outro desafio em nível local, na cidade de Passo Fundo, que é uma presença mais qualificada e intensa nas periferias. Estamos dialogando com os colegas padres e agentes de pastoral sobre este desafio.

Outro desafio mais amplo é a superação de uma cultura de intolerância que nos leva a ver o outro que é diferente e pensa diferente como inimigo. Precisamos como sociedade avançar neste passo.

Lembro ainda, como consequência desta pandemia, a situação social que tende a se agravar. E, diante disso, está o compromisso de assumirmos a solidariedade organizada.

SITE NEIPIES: A Igreja materializa sua ação social por meio de Obras Sociais. Como elas são concebidas e qual é a sua importância para fortalecer os vínculos entre fé, vida e sociedade?

PADRE ARI: O cuidado com os necessitados é compromisso humano. A Igreja se esmera também neste compromisso porque é a sua identidade. A grande questão é como fazer. Tem a ver com o método, o caminho para superar as situações de ameaça a vida. Em alguns casos, precisa realmente assistir. Contudo, não é possível ficar neste nível porque não estaremos realmente contribuindo para que a pessoa necessitada dê um passo significativo na superação da sua condição. Neste caso, entra a dimensão transformadora. Mas não podemos deixar de questionar o fato de vivermos em uma sociedade historicamente injusta e desigual.

SITE NEIPIES: Como ser cristão engajado em causas sociais? Qual a relação entre Fé e Política?

PADRE ARI: Somos naturalmente pessoas políticas. O que fazemos, ou deixamos de fazer, é uma opção política. Contudo, existem diferentes níveis do agir político, que vão desde a articulação em associações até a militância em partidos. Tudo isto é legal e necessário quando se tem como finalidade o bem comum.

O Papa Francisco, replicando o Papa Pio XI, afirma que a política é a forma mais sublime de viver a caridade porque visa o bem comum. Então, o agir político nas diferentes esferas de participação, está em perfeita consonância com a fé cristã. E os cristãos são convidados ao engajamento social com espirito profético, com a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas, como afirma Jesus no evangelho de Mateus. 

SITE NEIPIES: O Senhor já trabalhou na Pastoral Afro da CNBB. Como a Igreja Católica aborda as questões das minorias étnicas e sociais?

PADRE ARI: Estas questões sempre foram muito caras a CNBB. No tempo que estive trabalhando lá, éramos seguidamente procurados pelos diferentes grupos. Sempre procurou-se trabalhar as mediações segundo as orientações da Doutrina Social da Igreja e em fidelidade ao evangelho. Cito, como exemplo atual, a proposta da 6ª Semana Social Brasileira que vai tratar dos temas: terra, teto e trabalho e como lema: mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho. São dimensões estruturantes de uma vida digna e que a Igreja propõe para reflexão.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos que lêem esta entrevista.

PADRE ARI: Que possamos continuar buscando um mundo melhor. Nunca deixemos de ter esperança e nos processos de diálogo. Sejamos ousados na proposição, humildes no diálogo e persistentes no processo. Conjuguemos intensamente o verbo esperançar.



Fotos: divulgação/arquivo pessoal

Os desafios das tecnologias como suportes da educação

Maria Augusta D’Arienzo é professora de educação básica que há vários anos atua e trabalha com o uso de tecnologias na educação, dentro da universidade (UPF –Universidade de Passo Fundo) por meio da pesquisa como aluna do Curso de Doutorado em Educação e no Curso de Pedagogia como formadora de educadores, e na coordenação do PRISMA: Estação Cultural da Gare, espaço que trabalhará com a comunidade de Passo Fundo e região, e, especificamente, com  professores e estudantes dos distintos níveis de ensino, promovendo o diálogo entre as distintas áreas do conhecimento, na perspectiva da interdisciplinaridade, ludicidade e do entretenimento, desenvolvendo um conceito amplo de cultura digital sustentado pelo trinômio educação-cultura-tecnologia. 

O Brasil, na última década, vem discutindo a importância das redes de ensino fazer maior uso das tecnologias no processo de aprendizagem dos estudantes. O fato é que nem todas as redes de ensino, nem todos os professores e nem todos os estudantes estão vinculados a estas ferramentas ainda. Por que demoramos tanto? Por que ainda não incorporamos, de forma mais efetiva, as ferramentas tecnológicas nas práticas docentes como aliadas ao aprendizado no século XXI?

Maria Augusta é entusiasta da utilização das tecnologias nas salas de sala, sem desconsiderar o papel essencial de professores e educadores. Entende que as tecnologias são importantes ferramentas para facilitar, engajar e motivar nossos estudantes na construção de conhecimentos; tecnologias não são fim em si mesmas. Pela sua experiência e por suas convicções, esperamos que nos ajude a dar pistas para avançarmos, de forma consistente e qualificada, na utilização de tecnologias digitais no processo de ensino e de aprendizagem nas distintas redes de ensino.

***

SITE NEIPIES: O que te realiza na profissão docente? O que te fez seguir a profissão professora?

MARIA AUGUSTA: Essa pergunta em final de semestre, certamente me remete a responder de forma emotiva. Final de semestre e de ano letivo é o momento de realização do educador, pois recebemos por parte de nossos estudantes o reconhecimento pelo compartilhamento de conhecimentos, pelos ensinamentos para além do currículo e pela transformação, a partir de nossa ação, em sujeitos capazes de ver o mundo pelos olhos da ciência, mas, também, com um olhar mais humano.

Quando estava na graduação, pasme, mas não sabia que seria professora, pensei que continuaria fazendo o que eu mais amava – jogando vôlei. Logo que me formei, passei no concurso para a rede municipal de ensino de Passo Fundo. Nesse momento, começa a minha transformação como pessoa e a minha construção como educadora. Foi na convivência com os meus estudantes que constitui a educadora que sou hoje, quantas aprendizagens…

A cada brilho nos olhos dos meus alunos, recebo a energia para continuar seguindo a profissão docente e transformando a experiência individual em uma experiência coletiva. 

SITE NEIPIES: És uma estudiosa e uma entusiasta do uso de ferramentas tecnológicas na educação. Por quê?

MARIA AUGUSTA: Procuro desempenhar o meu papel como educadora a partir do olhar do educando, por isso sempre procurei acompanhar as transformações pelas quais as gerações foram passando. Estamos vivendo o século XXI, se quero preparar o sujeito para os desafios do futuro, preciso compreender que estamos em tempos de conexão permanente, imersos no mundo digital.

Nesse contexto, é função do educador não apenas utilizar equipamentos tecnológicos para tornar a aula mais atrativa e para esclarecer as exposições orais, mas sim, por meio de recursos digitais, tornar a aprendizagem mais significativa, desenvolvendo competências para a contemporaneidade, permitindo a interatividade, o papel ativo do estudante na construção de conhecimento. Dessa forma, não só inovar, mas criar propostas verdadeiramente relevantes para a aprendizagem e, consequentemente, para a melhoria da sociedade.

SITE NEIPIES: Qual é a importância dos jogos cooperativos e dos games para a aprendizagem nos dias atuais?

MARIA AUGUSTA: Para entender que os jogos tanto analógicos como digitais são importantes para a aprendizagem, é preciso reconhecer, primeiramente, que os jogos podem oferecer uma realidade melhor e mais imersiva, assim como possibilitam a solução real para problemas, além de serem fontes de diversão.

Aprender com os desenvolvedores de games acerca da otimização da experiência humana e da organização de comunidades colaborativas, e trazer esses benefícios para o sistema educacional. Para tanto, é imprescindível superar o preconceito cultural contra os jogos. A partir do reconhecimento do potencial dos jogos, tanto para tornar as pessoas mais felizes quanto para promover mudanças na realidade, o educador estará pronto para usufruir do jogo, do bom jogo para fazer da atividade difícil, que é o aprender, algo mais gratificante. 

Os jogos são importantes para a aprendizagem porque aumentam a automotivação, despertam o interesse e a criatividade, trabalham o limite das habilidade, ativa emoções positivas, tornam o trabalho mais gratificante, possibilitam a visão de sucesso, a conectividade social, além de possibilitarem a transformação dos esforços para o aprendizado terem um significado verdadeiro.

SITE NEIPIES: Como explicar a afirmação: “jogos são longos, difíceis e complexos, mas ainda assim divertem”?

MARIA AUGUSTA: Para responder essa questão vou utilizar o que Steven Johnson afirma ao falar sobre o porquê os games cativam. Para compreender essa afirmação é preciso olhar para a cultura dos jogos pela lente da neurociência. Então, o poder dessa assertiva está relacionado à capacidade que os jogos têm de estimular os circuitos naturais do cérebro associados às recompensas. Os jogos oferecem ao jogador uma associação entre recompensa e exploração.

Deve-se observar não o que o jogador está pensando quando joga, mas de que maneira ele pensa. Fazendo um paralelo com a educação, é um engodo pensar que o sujeito aprende alguma coisa em específico em um momento determinado, mais significativo é o aprendizado colateral, isto é, a formação de comportamentos e atitudes constantes, de escolhas e de oposição, que são mais significativas do que um conteúdo de história, geografia, por exemplo. O jogo exige que o sujeito tome decisões, comparar indícios, analisar situações, consultar objetivos de longo prazo e assim decidir.

SITE NEIPIES: Quais são os princípios da aprendizagem que embasam o uso dos jogos e dos games na educação?

MARIA AUGUSTA: O que embasa o uso de jogos na educação é o método científico. Segundo, o pesquisador James Paul Gee, o jogador passa por um ciclo de “sondar, criar hipóteses, sondar de novo, repensar”.  Ao explorar o ambiente e clicar em um comando ou executar determinada ação o jogador faz a sondagem do mundo virtual.

Quando o jogador analisa o significado de um texto, objeto, ação ele cria hipóteses. A partir do resultado obtido o jogador realiza a sondagem novamente considerando as hipóteses. Com base no efeito alcançado, o jogador aceita ou repensa sua hipóteses iniciais. Ao interagir com esses ambientes e executar o ciclo, o jogador estará aprendendo o conjunto de regras para desenvolver uma experiência, com o propósito de construir um novo conhecimento, entrando em contato com elementos básicos do método científico.

SITE NEIPIES: Qual é a diferença entre jogos e gamificação?

MARIA AUGUSTA: Os jogos são objetos lúdicos por natureza. A grande diferença entre jogos e gamificação está no local em que eles acontecem. Enquanto os jogos exigem do jogador o cumprimento de metas no mundo virtual, sem relação com o mundo real, a gamificação surge para estimular o engajamento e a motivação de estudantes em atividades escolares, ou seja, em um contexto de não jogo.

Gamificação significa trazer para a atividade da aprendizagem elementos que fazem parte do jogo, tais como: abstrações de conceitos e da realidade; objetivos; regras; conflito; competição e colaboração; tempo; estrutura de recompensa; feedback; níveis; narrativa. A gamificação surge como apropriação dos elementos do jogo, em contextos de não jogo, mas com o objetivo de promover a motivação e estimular o estudante para a resolução de problemas.

SITE NEIPIES: Na sua opinião, por que este momento da pandemia é propício para implantarmos, de vez, o uso das diferentes ferramentas tecnológicas na educação? Por que demoramos tanto no Brasil a assimilarmos esta ideia?

MARIA AUGUSTA: As discussões acerca da inserção da educação na cultura digital acontecem há mais de uma década, porém necessitou-se de um apagão no modelo tradicional de educação para que os profissionais gestores, professores, e, também, pais e alunos vivenciassem experiências educacionais por meio de tecnologias e ferramentas digitais.

Percebe-se que há um equívoco no pensamento quanto ao uso de tecnologias digitais na educação, pois o professor não será substituído por elas, pelo contrário terá elas como aliadas ao trabalho pedagógico para facilitar o desenvolvimento do processo de ensino e de aprendizagem dos sujeitos do século XXI.

 Que esse momento de descobrimento e experimentação sirva para mostrar a sociedade que a tecnologia digital pode despertar o interesse e prender a atenção dos estudantes, além de auxiliar na percepção e na solução de problemas reais, inserindo crianças e jovens no debate social contribuindo para a formação do pensamento crítico, por meio do uso responsável da internet e dos recursos digitais. Também, democratiza o acesso ao ensino, oferecendo feedback imediato e constante entre educadores, estudantes e responsáveis, e, por fim, permite personalizar o ensino de acordo com as especificidades da turma e de cada sujeito.

SITE NEIPIES: Percebemos dificuldades dos nossos adolescentes e jovens no acesso aplicado das tecnologias para seus estudos. Por quê? Não foram ensinados? São apenas navegadores digitais?

MARIA AUGUSTA: As tecnologias digitais estão presentes nas vidas dos estudantes desde muito cedo. Tablets e smartphones são utilizados por crianças em idade pré-escolar. Porém, a inserção no contexto escolar propicia o estabelecimento de regras de convivência e segurança nos ambientes virtuais. Também é uma ótima oportunidade para mostrar o potencial educativo das ferramentas digitais, tanto para as tarefas educacionais como para o exercício da cidadania.

SITE NEIPIES: Que orientações daria a professores que nunca utilizaram ferramentas tecnológicas em suas aulas? Devem começar como e por onde?

MARIA AUGUSTA: Acredito que o professor vai precisar cada vez mais se reinventar. Não basta apenas colocar o estudante como protagonista do processo de aprendizagem, o papel do professor é mais importante, mas não mais como um transmissor de conteúdo, porque o estudante pode acessar informações de qualquer lugar.

Porém, o professor precisa ser mediador, facilitador para desenvolver no aluno habilidades para estudar, aprender melhor, buscar informação, como realizar pesquisa, desenvolver o pensamento crítico. Neste aspecto, o professor vai precisar ter ferramentas digitais para desempenhar tais funções em sala de aula. Portanto, comece pelo uso para si, para criar as atividades e, posteriormente, para realizar práticas com os alunos. Dessa forma, apropriado das ferramentas digitais terá mais segurança e aproveitamento funcional e educativo das mesmas.

SITE NEIPIES: Você acha que o uso mais massivo da tecnologia na educação básica pode ajudar a melhorar a aprendizagem de nossos estudantes?

MARIA AUGUSTA: Sou profissional de educação física, então compreendo que fazer exercícios físicos de forma massiva é prejudicial para saúde. Tudo que em excesso traz prejuízos às pessoas e aos processos. Então, é inevitável inserir a educação na cultura digital, mas é importante fazer uma análise crítica quanto ao uso das tecnologias digitais de informação e comunicação para saber o que usar, como usar e quando usar.

SITE NEIPIES: Achas que sairemos melhores a partir da crise e pandemia do Covid 19?

MARIA AUGUSTA: Entendo que o Covid é um momento para refletirmos sobre o “ser” humano, e, por isso, sairemos diferentes, espero que para melhor.

Quanto às questões educacionais, entendo que retornaremos educadores diferentes, reinventados, pois descobrimos outras formas de fazer educação. Não estamos juntos, mas estamos presentes. Nosso futuro, bem próximo, será a inserção do que conhecemos com Ensino Híbrido.

Que nosso distanciamento social sirva para repensarmos novas formas de atuação, planejamento e uso integrado de tecnologias digitais na sala de aula. Descobrindo como desenvolver o processo de ensino e de aprendizagem oferecendo mais de algo sem exigir menos de outro.

SITE NEIPIES: Uma motivação aos professores e estudantes que estão lendo esta entrevista.

MARIA AUGUSTA: “Em uma época de mudanças drásticas, são os que têm capacidade de aprender que herdam o futuro. Quanto aos que já aprenderam, estes descobrem-se equipados para viver em um mundo que não existe mais.”( Eric Hoffer).

As instituições de ensino estão chegando num momento crítico, em uma transformação digital que está mudando a forma como o mundo aprende. Se a sua instituição ainda não foi sacudida, logo será.

Maria Augusta D’Arienzo é Profissional de Educação Física. Professora das redes municipal e estadual de Passo Fundo. Professora do Curso de Pedagogia, da Faculdade de Educação da UPF. Doutoranda em Educação – UPF. Mestre em Educação – UPF. Especialista em Desportos Coletivos – UPF. Especialista em Leitura e Animação Cultural – UPF. Especialista em Gestão Escolar – UFRGS. Especialista em Mídias na Educação – IFSul. Especialista em PROEJA – IFSul. Profissional de Educação Física – UPF

Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes

Estamos postos na sala de aula para servir. Como servimos?
Para além das técnicas, e orientações metodológicas,
educamos pelo exemplo, pelo altruísmo, pelo amor.
Isso só acontece pela espiritualidade.


A espiritualidade é uma dimensão muito importante na vida e no bem-estar dos professores e professoras. Mas, para início de conversa, é importante apresentar qual o entendimento que temos de espiritualidade.

Espiritualidade é a necessidade intrínseca que todos temos de continuarmos ligados ao Plano Sagrado. Espiritualidade é como a água que impregna a relva. Espiritualidade está no nosso modo de ser, de viver, de falar e de agir. A espiritualidade contempla, ainda, a busca de sentido para a nossa existência, para dar significado à vida individual e ao relacionamento de abertura para os outros.

Fé sempre é uma experiência pessoal, de relação intima com o Transcendente. A religião sempre é uma experiência de uma comunidade, que reúne e organiza as vivências coletivas das práticas religiosas. Já a espiritualidade está para o Cuidado: de si, dos outros, da natureza e, para quem tem fé religiosa, do Transcendente.

Como já ensinou Fowler (1992): “ao nascer, somos dotados de capacidades inatas para a fé. Ou seja, potencializamos as condições necessárias para construir nossa fé durante o nosso processo de desenvolvimento psicológico.

Os professores e professoras vivem a sua espiritualidade, que sempre está além de suas religiões. A dimensão espiritual/religiosa do educador manifesta-se no seu fazer pedagógico. É a sua motivação que impregna os projetos e o sentido de vida dos professores.

A espiritualidade se manifesta como reconhecimento multidimensional do ser humano. Os professores e professoras demonstram que a sua espiritualidade independe da prática de uma religião.

Leonardo Boff (1994), enfatiza como é necessário refletir sobre o sentido de vida como algo totalmente integrado à realidade humana e, de maneira especial, à prática educativa. Nas práticas docentes, ocorre uma relação de pertença (professor – aluno), visto que ambos são seres humanos em busca de seus próprios objetivos e de sua realização pessoal.

O professor, com autênticos sentimentos religiosos, mesmo que nunca fale de religião com seus estudantes, deixa transparecer naturalmente sua espiritualidade. Esta é uma característica inerente ao ser humano e, quando o estudante percebe a espiritualidade do professor, sente-se encorajado a viver e manifestar também a sua (espiritualidade).

É por meio das práticas pedagógicas empregadas em seu trabalho, o professor pode contribuir para afirmar e reconhecer a sua espiritualidade, inspiradas nas seguintes perspectivas:

  1. Criar! A criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana.
    É isso que nos distingue dos DEMAIS SERES VIVOS;
  2. Mudar! Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo;
  3. Adaptar-se! Mudanças geram sentimentos de sofrimento e frustração para alcançarmos metas e objetivos. Ostra feliz não faz pérola. Disse Octávio Paz: “coisas e palavras sangram”;
  4. Pensar! O sofrimento nos faz pensar. Pensamento não é uma coisa. O pensamento se faz com algo que não existe: ideias. Ideias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem.

Afirmamos, por fim, que a espiritualidade está precisamente no desejo e no trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas dentro da gente se transforme numa coisa, que pode ser gozada por muitos. De acordo com Rubem Alves, o caminho do espírito é esse: da espiritualidade pura e individual, para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e uso de muitos. Uma canção só existe quando cantada. Um quadro só existe quando visto. Uma comida só existe quando saboreada. Um brinquedo só existe quando brincado. Um filho só existe quando parido. Um aprendente só se constitui quando tem um efetivo ensinante.

Sem um professor, a mente é muito astuta e muito íntima também. Assim, sempre que houver um momento doloroso, ela tende a se afastar.

Eis o papel do professor: guiar; avaliar o quão receptivo é o aluno(a); a sua presença e seus ensinamentos reverbam no(a) aluno(a); é preciso reaprender o sentido da espiritualidade que tem a ver sim com fé, com Deus, mas sobretudo tem relação com altruísmo

Nossa profissão professor e nossa missão educador exige a prática amorosa como fundamento das práticas docentes. Quando decidimos ser professores, havia em nós o desejo de ajudar o outro, amar o outro.

Estamos postos na sala de aula para servir. Como servimos? Para além das técnicas, e orientações metodológicas, educamos pelo exemplo, pelo altruísmo, pelo amor. Isso só acontece pela espiritualidade. Formamos alunos/pessoas para cuidar do mundo no qual nós também vamos viver.

Não podemos abrir mão de nossos valores, trazer o amor, o afeto, a atenção e o cuidado. Trazer o exemplo de uma relação respeitosa, da troca de afeto. Estar completamente disponível aos alunos, para que eles possam se servir. O aluno não pode se levantar e ir embora quando não servimos o amor. Isso, sim é espiritualidade.

Educar é um ato de persistir com delicadeza.



Esta reflexão é fruto de participação em Painel Virtual “Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia” realizado pelo CONER Passo Fundo, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo e Sétima Coordenadoria Regional de Educação. Este painel fez parte também da Semana de Formação dos professores da rede municipal de Passo Fundo.




Autor: Vilson Francisco Selch
Bacharel em Filosofia, Licenciatura em Filosofia. Pós-Graduado em Metodologia de Ensino (Feevale). Pós-Graduado em Orientação Educacional (UFRGS). Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas (UNISINOS); Doutorando em Processos e Manifestações Culturais (FEEVALE). Professor da rede municipal de Dois Irmãos, RS.

Inteligência artificial e sala de aula virtual: no passado uma possibilidade, no presente uma imposição e uma realidade

Precisamos estar atentos para que os
aspectos negativos do distanciamento e da destruição
da natureza não sejam sucedidos pela destruição
do afeto e do ser humano, com expansão da
substituição do contato humano.


Os recursos da internet para interação de grupo, como as plataformas de salas de aula e reuniões virtuais, existe desde muito antes de 2020. Nos últimos anos foram expandidos, acompanhando o aperfeiçoamento e a ampliação no uso da internet, bem como o debate social sobre a implementação da Educação à Distância (EAD) e do Ambiente Virtual de Aprendizado (AVA).

A partir do advento da pandemia, o que era uma possiblidade para os segmentos educacionais privados e do ensino superior, como uma opção adicional ao ensino definido como presencial, se tornou uma imposição.

As relações entre os seres humanos e a tecnologia não são de mão única, são contraditórias, pois trazem muitos benefícios, mas já trouxeram muitos prejuízos e destruições, com o uso das armas e a destruição da natureza. Podemos mencionar os impactos das ferramentas primitivas, criadas na pré-história, passando pela revolução industrial, para chegarmos nas atuais transformações, vinculadas com a expansão da inteligência artificial.

A construção e o uso de ferramentas parecem estar imbricadas com a expansão daquilo que se concebe como inteligência.

No histórico primitivo das ferramentas construídas pelo ser humano, ainda presentes em nossa cultura, podemos mencionar a faca, o facão, a foice, o machado e o serrote. Essas ferramentas contribuíram significativamente para as transformações no modo de vida dos seres humanos.

Nesta trajetória se evidencia a diminuição do esforço, substituindo a energia humana, aumentando a proteção, das ameaças de outros seres vivos e da natureza, além de buscar melhorar a segurança alimentar e facilitar o deslocamento.

Nesta relação benéfica e ambígua, associada com a construção e uso de novas ferramentas tecnológicas, a substituição do trabalho humano pela máquina decorrente da revolução industrial, transformou radicalmente as relações dos seres humanos entre si e com a natureza.

A produção em larga escala, com a disponibilização de alimentos e bens materiais, além do necessário, trouxe um direcionamento para a diminuição da durabilidade dos produtos, incentivando o consumismo e o produtivismo. Desse modo, entre as consequências dramáticas de usar as ferramentas produzidas pela revolução industrial indiscriminadamente, está a destruição da natureza centrada na renda.

Antes do isolamento social, imposto pelo Covid 19, já se falava da extinção de muitas profissões. A possibilidade de automatizar alguns postos de trabalho como, por exemplo, cobradores de alguns meios de transporte coletivo, ainda não se concretizou com o argumento da necessidade de distribuir renda, por meio do trabalho. Mas, também, os argumentos contrários na implantação das salas de aulas virtuais estão sendo quebrados com a imposição do isolamento social.

Nesta ambiguidade, que continua permeando a história humana, devemos comemorar as facilidades como o acesso às informações sem o esforço do deslocamento físico. No entanto, precisamos estar atentos para que os aspectos negativos do distanciamento e da destruição da natureza não sejam sucedidos pela destruição do afeto e do ser humano, com expansão da substituição do contato humano.



Esta é a vigésima quarta publicação no site. Em recentes reflexões, pensei as relações e os impactos da tecnologia, da pandemia, dos comportamentos e dos processos educacionais que estão em curso. Convite é para que conheçam demais reflexões:

Governo sem educação

Quem está no poder neste momento
quer fazer da educação e da ciência
as principais plataformas de ataques e de
afirmações de uma visão restrita, não humanista.

Enquanto países como Alemanha, China, EUA, Japão investem bilhões de dólares em educação, cultura, tecnologia, aqui o governo Bolsonaro vai  para o quarto ministro  de  educação.

Ricardo Rodríguez, um colombiano olavista, foi o primeiro titular da pasta. Por ser estrangeiro judiava o português. Queria implantar Moral e Cívica nas escolas, achando que se tratava de Sociologia.

Weintraub, foi o segundo olavista no cargo. Acusou as universidades de  locais  de “balbúrdia”, de manterem plantações de  maconha, professores de proselitismo marxista, de doutrinação dos seus alunos, coisas nunca provadas.

 Por completa incompetência, maltratava a língua pátria. Acabou defenestrado e fugiu para os Estados Unidos, sem antes derrubar uma portaria que garantia cotas  para negros, índio e deficientes físicos em cursos  de pós-graduação de universidades públicas.

O terceiro, Carlos Alberto Decotelli, não esquentou a cadeira de ministro. Curiosamente, fez pós-doutorado (negado por universidade alemã) sem ter doutorado. Doutorado por universidade argentina sem ter defendido a tese. Acusado de plágio em trechos de sua dissertação de mestrado.  Um verdadeiro exemplo para o meio acadêmico do país. Ulala!!!

Na verdade, temos um governo que não dá importância para a  educação pública, dentro de um  claro plano de  seu enfraquecimento  e fortalecimento  da ideia  de privatização  do setor  educacional.

É assustador e trágico assistir a destruição do presente e, consequentemente, do futuro das novas gerações. Sem educação, sem cultura, sem ciência e tecnologia, como passaremos do nosso histórico atraso para o desenvolvimento?

Neste governo sem educação, o que vemos é o fortalecimento  do aparelho ideológico do  Estado. Quem está no poder neste momento quer fazer da  educação e da  ciência  as principais  plataformas  de  ataques  e de afirmações  de uma visão  restrita, não  humanista. Nesta lógica, a universidade, os professores, a educação em si, são vistos como inimigos, como um obstáculo.

O projeto de Bolsonaro ameaça levar o Brasil para um abismo de indigência e ignorância. O entra-e-sai de ministros na educação é uma prova eloquente do que está em jogo. O cidadão apolítico que desejam educar é o idiota.

Estamos diante da imposição do conservadorismo moralista, atuando soberano sobre as mentes, convertendo-as em simulacros miméticos  de ignorância, do anti-intelectualismos e da alienação.



Este é o texto de número 68 no site. Fica o convite para visita a outras tantas reflexões que venho fazendo em período recente, sempre abordando temáticas de atualidade e realidade política no Brasil.

Por que o povo não tem medo da Covid?

Gostamos de contar histórias no site. Histórias verdadeiras, vividas com intensidade, responsabilidade e compaixão. Queremos contar a história de Raphael Souza Alves, nascido em Mato Grosso. Ele morou recentemente em Moçambique, na África. Conviveu com a gente também por alguns anos no Estado do RS, cidade Passo Fundo.

Através das redes sociais, acompanhamos a sua angústia e o seu sofrimento por estar contaminado pelo vírus Covid e hospitalizado, junto com sua mãe. Queremos também registrar a alegria por ter vencido a doença, como também suas preocupações com a situação dos povos indígenas e as precárias e insuficientes condições da rede de saúde do seu Estado.

Alves também demonstra preocupação com a falta de sensibilidade e compaixão de muitas pessoas que ainda não acreditam no poder letal do Covid 19.


Convivendo com a Covid

Meu nome é Raphael, escrevo da cidade de Pontal do Araguaia – MT. Sou um jovem negro, filho de uma mulher preta e de um homem caboclo, que no dia do meu aniversário, 17 de junho, fui internado com a minha mãe na UPA de Barra do Garças com Covid-19.

Os sintomas dos dias anteriores já indicavam a contaminação. O que começou com uma forte dor no corpo, na noite de segunda-feira, 08 de junho, se espalhou pelas articulações, por cima dos olhos e irritação na garganta no dia seguinte. As dores no corpo eram parecidas com as da malária, sei bem disso, pois estive em missão nos últimos três anos no norte de Moçambique, onde essa doença deixa homens, mulheres e crianças de cama, por no mínimo três dias. Essa hipótese foi descartada uma semana depois, quando chegaram os resultados dos exames.

Nessa altura, minha mãe e eu, já não sentíamos os cheiros e os sabores dos alimentos, nem apetite para comer aquilo que com esforço se preparava. E uma irritação, agonia, misturado com “coisa ruim”, como se diz por aqui, sem motivo nem razão premeditada, importunava ainda mais nossa rotina.

Meu pai, sem ter para onde ir, ficou conosco se arriscando ser contaminado. Felizmente, ele traz consigo a sabedoria dos ancestrais e da cultura local: beber uma dose de cachaça com alguma erva, raiz ou semente por dia, depois que chega do trabalho, antes da sua cerveja. Não sei se isso se efetiva na imunidade, mas ele não chegou a manifestar os sintomas.

Até que chega a quarta-feira, dia da minha natalidade. Quem me conhece, sabe bem que não gosto de aniversários e muito menos de quartas-feiras: um mau-humor me toma conta, impedindo tudo aquilo que poderia ser aproveitado. Como que tudo que é de ruim acontece para mim nas quartas-feiras, foi neste fatídico dia que fomos internados, com manchas e estrias nos pulmões, reduzindo sua capacidade de funcionamento.


Como foi o atendimento no hospital

Chegamos por volta da meia-noite, passamos pela triagem e depois pela consulta médica, antes de sermos literalmente internados. Tudo muito demorado, até porque não éramos os únicos ali.

Ao nosso lado quatro pessoas, duas delas indígenas, também esperavam atendimento, apresentando os mesmos sintomas. Depois de 4 horas entre consultas, novos exames, injeções, mais picadas, soros e comprimidos, fomos conduzidos aos leitos: um quarto gelado, sem lençóis, travesseiros e mantas, com mais quatro pacientes e um barulho infernal dos respiradores.

Não tínhamos levado nada além de roupas e produtos de higiene pessoal. E, ali, naquela situação, senti na pele a precarização do SUS, fruto de um governo que não está preocupado em combater a pandemia; que não se importa com a vida dos pobres e das minorias étnicas. A única coisa que nos consolava é a atenção, o cuidado e o profissionalismo das enfermeiras, que trabalhavam, diante de tanta dor e excesso de carga horária, com bom-humor e carinho.  

No dia seguinte já recebi alta, minha mãe passaria mais quatro dias internada. Ela foi transferida para outro quarto, maior e com mais leitos, eu segui como acompanhante. Não deixaria ela sozinha com a incerteza de se voltaria ou não para casa. Nesse novo quarto, entre os pacientes, doze indígenas, a maioria deles idosos, também recebiam o tratamento contra o novo corona-vírus.

No hospital, convivendo com outros infectados.

Tive oportunidade de conversar um pouco com uma liderança da etnia Xavante que acompanhava sua esposa, e ele me relatou que na aldeia dele muitos outros irmãos também estavam contaminados e não paravam de chegar ali à procura de atendimento; alguns outros, com medo de morrer no hospital, seguiam o tratamento na aldeia com chás e ervas e sem o isolamento necessário.

Fiquei pensando: como exigir que os povos indígenas, tradições milenares que vivem em comunidade, se isolem por causa de mais uma doença dos brancos?

Sabemos também que há denúncias de que grupos religiosos neopentecostais que ignoraram a quarentena com a falsa intenção de evangelizar nas aldeias, algumas delas tão isoladas, que usaram helicópteros para terem acesso.

Sabemos também que o mesmo se passou um tempo atrás com o plano etnocida de contaminação em massa dos povos indígenas com Varíola, que diminuiu drasticamente suas populações. Não sabemos se situações semelhantes fizeram essa doença chegar às aldeias daqui. Mas conhecemos o plano do governo Bolsonaro em “passar a boiada”, exterminar os povos indígenas para acessar a riqueza das terras, derrubar a floresta e traçar estradas em benefício do agronegócio.


Depois da internação

Hoje, com a graça do Criador, a energia quântica de pessoas amigas e os medicamentos que tomamos nos encontramos bem, curados do Covid-19 e seguindo em isolamento social.

O Brasil, infelizmente, segue na contra-mão das orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), com mais de 60.000 motos e mais de 1,5 milhões de infectados comprovados (sabemos que esse número é muitas vezes maior, pois não testamos pessoas assintomáticas).

Para mim, o pior de tudo é perceber a incapacidade de pessoas em não se sensibilizarem com a dor das famílias que perderam seus entes queridos, continuando saindo às ruas sem necessidade, ignorantes de Deus e de humanidade. Mas o que esperar dessa gente, estes 30% que seguem fielmente o genocida, amante da ditadura militar, que tem pulsão de morte nas veias, que temos como presidente?




Fotos: Arquivo pessoal/Rede social. Registros durante o período da pandemia e convívio com o Covid 19
Raphael Souza Alves, educador e ativista

Reconstrução de vínculos e sentido às atividades escolares remotas

Quem estuda educação e relações de aprendizagem,
sabe como é importante conceber sentido nas atividades
e nos processos que envolvem as relações de aprendizagem
entre os sujeitos aprendentes: professores e estudantes.


O retorno às atividades escolares, de forma remota e precária, depois de um longo período sem aulas, sem relação e comunicação com os estudantes, coloca um grande desafio aos professores/as e equipes diretivas das redes municipais de ensino: a reconstrução dos vínculos afetivos e de aprendizagem com seus estudantes.

Quem estuda educação e relações de aprendizagem, sabe como é preciso conceber sentido nas atividades e nos processos que envolvem as relações de aprendizagem entre os sujeitos aprendentes: professores e estudantes.

A aprendizagem ocorre de maneira mais fluída quando há sentido e motivação para todos os envolvidos nela. Por isso mesmo, a mediação possível, agora feita por plataformas educacionais ou redes sociais, não pode abdicar de um pacto sobre o sentido desta aprendizagem que se quer promover, de forma remota e precária.

Há pais e mães que entendem que o ano escolar já está perdido. Outros, não têm e nem terão condições de monitorar e acompanhar o recebimento, execução e entrega das atividades enviadas a seus filhos de forma digital. Outros, de forma ingênua e prematura, já trocaram aparelhos celulares e adquiram noteboocks na esperança de que a tecnologia, por si mesma, fará a maior diferença. Outros, apelam por socorro porque não sabem como ajudar seus filhos. Outros, não sabemos quantos, farão todos os esforços para colaborar com seus filhos, acreditando que, mesmo tardiamente, ainda temos a oportunidade de organizar o ano escolar com condições de aprendizagens significativas.

A educação, como dizia o educador brasileiro Paulo Freire, “não muda o mundo. Ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo”. Esta ideia de Freire relativiza o poder da educação; por um lado, permite compreensão do seu verdadeiro alcance. A educação não acontece sem intencionalidades e sem motivações bem elaboradas e pactuadas entre os professores, estudantes e famílias.

Para não permanecermos na inércia e na inação, para não perdermos o rumo da educação e as possibilidades que ainda existem de dar sentido ao ano letivo de 2020, precisamos organizar as atividades de casa e pactuar com os estudantes e famílias a rotina de estudos que se perdeu nestes últimos 3 meses. Precisamos planejar, com sensibilidade e empatia, o desenvolvimento de atividades que apontem o sentido verdadeiro da escola e da educação que é a de nos tornarmos melhores seres humanos, através do conhecimento. Precisamos entender que a tecnologia não é um fim em si mesmo mas uma ferramenta importante para mediar a construção do conhecimento.



O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade.



Papel dos pais na educação

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil, afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos. Lembra que os pais e mães sempre tiveram responsabilidades de organizar a rotina, acompanhar os estudos, os combinados e a evolução do conhecimento dos mesmos na escola.

Neste contexto, também colaborando com reflexões sobre a necessidade de proximidade das escolas com as famílias, a professora Adriana Marcondes, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) avalia que “todos estão se esforçando para dar conta de um jeito de fazer Educação que é remoto e cheio de imprevistos”. Além disso, a professora aponta que esse é o momento de reforçar os vínculos dentro entre professores, pais e alunos. Por isso, é importante entender a sua comunidade escolar para atendê-la bem.



O lugar do outro

A situação é nova para todo mundo, por isso, tenha em mente que todos estão tentando entender como agir. Agora, mais do que nunca, é essencial fazer o exercício de se colocar no lugar do outro não depositar cobranças excessivas de produtividade para esse período.


Considere:

– A relação professor-aluno é muito diferente da relação pai-filho. Além disso, os responsáveis não estão preparados para dar conta do conteúdo escolar. Eles também estão angustiados e pressionados pela quarentena em si;

 – O tempo que a criança tem disponível para o ensino remoto é diferente do tempo na escola. Não apenas por questões de estrutura, mas porque o ambiente e nível de atenção também mudam;

 – Pensar em ações mediadas pela tecnologia que levem ao aprendizado, considerando todas as circunstâncias, é um exercício difícil. Os professores têm se desdobrado para aprender a trabalhar com novas ferramentas. Mas não só eles: estudantes, pais e familiares também estão se adequando às novas dinâmicas.

O momento é o de dar as mãos simbolicamente, testar coisas novas e repensar se a Educação e a dinâmica escolar que estávamos exercendo é a que faz mais sentido ou não para o momento atual. Não existe resposta pronta. Mas existe uma grande oportunidade de construir novos caminhos para a escola.

Leia matéria completa clique aqui.

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Papel dos professores na educação

Paulo César Carbonari (2018), muito antes desta pandemia do Covid 19, nos alertava sobre os desafios da educação em tempos onde a tecnologia já está presente no cotidiano de todos nós, principalmente, no mundo dos adolescentes e jovens:

“Talvez o principal desafio dos pais e dos educadores para educar hoje seja voltar a aprender. Aprender como cada vez menos acumular continuidades e ensinar como cada vez menos mostrar continuidades; aprender como cada vez mais lidar com descontinuidades, continuamente; e ensinar como cada vez mais conectar e mobilizar descontinuidades, continuamente. Quem vai ensinar isso aos pais e aos educadores? Certamente serão aqueles que, desde há muito, são entendidos por pais e educadores como os que nada teriam para tal, aqueles para quem se insiste em destinar o que se sabe, sem se perguntar se lhes interessa a isso aprender. Talvez nunca antes, como em nosso tempo, ensinar e aprender sejam verbos a serem conjugados na extensividade e na intensividade múltipla da transitividade, continuamente, na descontinuidade”.
Leia mais aqui.

Queremos também afirmar desafio contemporâneo de eleger boas estratégias para que ocorram aprendizagens significativas, seja em tempos de pandemia ou não. Estas estratégias passam pela proximidade, pelas relações de parceria e entendimento do papel das famílias, dos estudantes e dos próprios professores.

Um dos maiores desafios na educação que temos nos dias de hoje, imersos em muitas “quinquilharias pedagógicas”, é reencontrar o caminho da relação. Não se trata de não tomar em conta as boas coisas que auxiliam esta relação, mas se trata de escolher somente aquelas coisas que se prestam a oportunizar boas relações de aprendizagem.

Os seres humanos nascem relação e se fazem na relação. Fora dela, não existe vida humana. Relação existe quando o outro aparece na relação como outro, não como o mesmo, como qualquer um, como um comum, um “lugar comum”. É da diferença que brota a possibilidade de relação. É do reconhecimento que brota a qualidade da relação.

O professor e a professora são seres em relação. Mediador/a da construção de aprendizagens. É ele/a um colaborador/a para construir condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponíveis, para a orientação do estudo, para a promoção do diálogo e da convivência que transformam informações em conhecimento e conhecimento em práticas vitais.

A educação é, acima de tudo, uma mediação para a humanização das pessoas através das relações educativas. Afinal, a educação é, acima de tudo, a construção da diferença, é fazer a diferença. Nela não há lugar para a mesmice, a repetição, o “lugar comum”.


Estratégias de proximidade com as famílias

Para promover a proximidade e os vínculos perdidos das escolas com as famílias, dos professores com os estudantes, é necessário pensar estratégias que dialoguem com as dificuldades de toda comunidade escolar. Podem ser realizadas atividades como reuniões virtuais, elaboração de cartilhas, grupos de watsap, páginas no Faceboock, dentre outros.

As equipes diretivas devem manter postura de diálogo e compreensão das dificuldades que as famílias, os estudantes e os próprios professores enfrentam neste tempo de excepcionalidade, em função da crise e da pandemia do Covid 19.

“A orientação às famílias sobre como melhor apoiar os filhos em seu processo de aprendizagem é, portanto, uma dimensão essencial na estratégia das redes. No contato com os pais, porém, podem surgir demandas mais básicas, especialmente em famílias mais vulneráveis.  A Unesco chama a atenção para esses e outros efeitos adversos do fechamento das escolas, como a questão do acesso à alimentação”. Veja mais aqui.

Elencamos algumas estratégias, intituladas “Dicas para os gestores nas orientações às famílias”, em versão resumida.

  1. Comunicar-se com os professores: propiciar aos pais que tenham contatos com os professores. Mais comunicação, maior o êxito de aprendizagem
  2. Ter uma rotina: orientar os pais para que seus filhos tenham rotina e autonomia para não perder o foco.
  3. Planejar intervalos: tempo demais no computador ou no celular, sem pausas para arejar a mente e exercitar o corpo, pode ser muito prejudicial à aprendizagem. O lazer, exercícios físicos e intervalos de descanso são fundamentais;
  4. Participar de grupos de apoio: um grupo de watsap pode ser extremamente importante para tirar dúvidas e compartilhar experiências entre pais e mães;
  5. Acionar as escolas: Mostrar aos pais que as escolas continuam abertas à comunidade para orientações de serviços de assistência social. As famílias mais vulneráveis podem estar precisando de auxílio e apoio para resolver suas maiores necessidades.

Demora a passar, tenhamos paciência!

“Não foi a pandemia
que nos adoeceu,
já estávamos doentes”.
(Papa Francisco)

Em meados do mês de março, quando fomos assolados pela chegada do COVID 19, ingenuamente pensávamos que não demoraria muito, no máximo um mês. Logo retomaríamos ao “ritmo normal”. Contudo, este infortúnio está demorando a passar e estamos preocupados.

Não temos como delimitar os processos futuros devido à disseminação do vírus, sobretudo em um território amplo e um povo diverso culturalmente, como o brasileiro. É uma demora inquietante que desafiará a nossa resistência, capacidade de solidariedade e esperança. Mas também deve provocar a uma revisão séria da nossa forma de conduta no mundo, o caminho que percorremos até aqui.

A pandemia é um alerta sobre as diversas realidades estruturantes da nossa vida, que pensávamos corretas. O clamor da terra, maltratada e doente, devido ao agir humano, denunciado por Francisco na Encíclica Laudato Si (LS 2), foi acentuado pelo clamor de toda a humanidade, ameaçada pelo vírus.

Então percebemos que todos estávamos doentes e alimentávamos a enfermidade cotidianamente, orientados por uma conduta considerada equivocadamente certa. Não era.

Foi explicitada a vulnerabilidade humana. Descobrimos que não somos tudo e não podemos tudo. Junto ao clamor da terra doente fomos forçados a ouvir o clamor da humanidade doente. Como a doença foi “democrática” no avanço, atingindo todos os continentes, tornou-se mais visível e preocupante.

O que era o grito de alguns grupos sociais, historicamente excluídos e tornados invisíveis pela globalização da indiferença, tornou-se agora o grito de toda a humanidade.

No caso do Brasil, a pandemia também revelou o quanto somos um país pobre, injusto e desigual e também o pouco que foi feito para superar estas características históricas. Agrava a situação o fato da condução do país ter sido entregue, via eleitoral, a um grupo reacionário politicamente, despreparado tecnicamente e duvidoso eticamente.

Lembrem-se da famosa reunião ministerial recentemente divulgada. O que foi dito naquele dia é o que realmente o grupo governamental pensa do Brasil. Eles, ou outros, que pensam igual, estarão conduzindo o Brasil pelos próximos anos. Optaram por um modelo de ação governamental orientado pelo descompromisso com a nação e o desejo de agradar alguns grupos isolados.

A enfermidade segue fazendo seus estragos porque não é uma “gripezinha”. A ausência de um projeto amplo de enfrentamento torna a situação mais grave. Temos um sistema de saúde sucateado, que já não respondia às demandas anteriores; um modelo econômico que privilegia o mercado financeiro e não a vida; e um governante mais preocupado com seu “quintal” do que com o povo brasileiro. É o nosso contexto. Não nos iludamos pensando que seja diferente.

É verdade que a enfermidade está demorando a passar. Tenhamos paciência. Mas paciência não significa acomodação. A doença aflorou e exige o tratamento das suas causas. A busca da cura será o objetivo de todos. Estejamos atentos para não seguir os conselhos que se revelaram equivocados.

Segundo o Cardeal Michael Czerny: as certezas que construíram nossa existência parecem, agora, cambalear. É possível dizer que elas nos levaram a enfermidade. A cura exigirá outros caminhos, outras possibilidades. Sejamos criativos. Sejamos solidários.

Recuperemos o sentido do divino presente no humano que nos leva a ser misericordiosos e vamos agir com profecia e esperança, sabendo que o caminho anterior não será o bom caminho. Será preciso descobrir outros caminhos.




Em março deste ano, já publicamos outra reflexo sobre a pandemia no site: “Estamos em uma travessia. Temos muitas preocupações, dúvidas, medos e incertezas. São sentimentos próprios destas situações. Contudo, não percamos a esperança, a vontade de ajudar, a coragem de coletivamente superar esta travessia”.

 

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