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A igualdade como premissa

Meninos e meninas que recebem orientação
adequada têm mais chance de se tornarem
homens e mulheres civilizados,
tolerantes e fraternos.

O Dia Internacional da Mulher é mais uma oportunidade para o debate sobre a discriminação histórica de gênero, que está na origem da opressão, dos maus-tratos e do feminicídio. A luta das mulheres pela igualdade tem um aspecto inadiável, que é o combate à violência, mas inclui vários outros pontos, que vão das brincadeiras infantis segregacionistas à distinção de tratamento na escola e no mercado de trabalho.

Por isso, tão importante quanto denunciar preconceitos e agressões – e não pode haver transigência quanto a isso – é planejar políticas educacionais centradas na igualdade de gênero, tanto no âmbito familiar quanto no educacional. Meninos e meninas que recebem orientação adequada têm mais chance de se tornarem homens e mulheres civilizados, tolerantes e fraternos.

Nesse sentido, impõe-se uma imediata ampliação da participação das mulheres na política, na economia e em todos os setores da sociedade, para que seus pontos de vista sejam considerados no momento da tomada de decisões. As mudanças culturais não ocorrem da noite para o dia, mas só começam efetivamente a acontecer quando a sociedade elege e valoriza lideranças diversificadas, acatando o diálogo democrático como caminho para a solução de conflitos.

De acordo com pesquisa apresentada pela UNICAMP, a participação de mulheres como professoras nas Universidades cresceu 1% entre 2006 e 2016. Nesta edição, o Conexão busca entender os motivos para este fenômeno.




A igualdade de gênero não pode ser encarada como um modismo ou uma conquista de movimentos feministas. Tem que ser vista por todos como uma premissa indispensável para a construção de um mundo mais humano e mais justo.


Professoras de Porto Alegre ensinam
sobre valorização da mulher.
Veja mais aqui.

Se você afirma que não utiliza o SUS você está enganado

Existem muitos brasileiros não se importam com o SUS, porque acreditam que não são seus usuários. Pensam que pagar por um plano de saúde e não se consultar no posto do bairro significa não utilizar o SUS. Para esses, eu tenho uma novidade: todos os brasileiros fazem uso e se beneficiam do SUS.

Se você pode se dar ao luxo de morrer aos 80 anos em decorrência das complicações do Alzheimer, é porque não morreu de diarréia antes de um ano de idade, de sarampo aos cinco, de tétano aos nove, de surto de meningite aos 13, de cólera aos 20, em decorrência de HIV ou sífilis aos 25, de acidente de trabalho aos 30, de picada de cobra ou escorpião aos 35, de tuberculose aos 40, de câncer de boca ou pulmão aos 45, de sequela de tênia aos 50, de infecção alimentar aos 55, de dengue aos 60, de câncer de colo de útero aos 65 ou de gripe aos 70.

Todas essas doenças precisam ser tratadas no campo do que chamamos de “saúde coletiva”, coisa que nenhum plano de saúde seria capaz de fazer, simplesmente porque estes só atendem os seus clientes e, geralmente, com medicina preponderantemente curativa. Ou seja, nenhum plano de saúde, por mais caro que você possa pagar, teria como cuidar de uma epidemia de tuberculose, por exemplo. O controle ou a erradicação seriam a única medida eficaz para combater, de fato, a doença — que é altamente contagiosa. Para isso, os que podem ou que não podem pagar deveriam ser igualmente vacinados ou mantidos sob cuidado para não transmitirem o bacilo.

A dengue também é boa para entender a importância do SUS. Não adianta você cuidar da água parada do seu quintal e nem se isolar no seu maravilhoso condomínio com porteiro 24 horas se não houver o trabalho coletivo feito pelo SUS e seus agentes sanitários e de saúde. A doença vai chegar até você e sua família. Duvido que um plano de saúde se dispusesse a vigiar a limpeza da casa do seu vizinho, que não paga o plano como você.

O SUS regula nosso sistema de água potável e esgoto por causa das verminoses, regula a qualidade da carne que você come, a higiene do restaurante que você frequenta e os medicamentos que você usa (a Anvisa faz parte do SUS). Nosso sistema de saúde está sempre atento à “chegada” ou avanço de novas doenças, evitando que elas se alastrem; exige sistemas de proteção e legislações que reduzam acidentes, epidemias e riscos à saúde e cria campanhas de massa para educação e prevenção de doenças e agravos.

Só para dar outros exemplos: o SUS conseguiu, em poucos anos, mudar completamente a cultura do tabaco no Brasil. Apenas com campanhas educativas e legislações restritivas para propaganda e locais de uso, o número de fumantes passou de cerca de 35% em 1989 para menos de 15% em 2013. Tal mudança de cultura, que se reflete nas gerações seguintes, só foi possível organizada por um sistema público, forte e universalizado.

A Farmácia Popular, também do SUS, não beneficia apenas os que têm acesso à medicação gratuita. Ao impulsionar a expansão do mercado, promove também a queda dos preços para os demais consumidores, além de quebrar as patentes das indústrias farmacêuticas e movimentar pesquisas e a produção de medicamentos com custo mais baixo. O Samu atende acidentes de trânsito, domésticos, urgências e emergências cardíacas ou quaisquer outras que ofereçam risco de morte. Tendo plano ou não, recursos ou não, o atendimento é universal.

O SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, tem um programa de imunização de doenças que é um sucesso, sendo o responsável pela erradicação de várias delas. O impacto do SUS na redução da mortalidade infantil no país é indiscutível. O Brasil tem um sistema de tratamento e prevenção de HIV/aids exemplar e é o sistema público que mais faz transplantes e hemodiálises no mundo todo, incluindo a manutenção de uma rede de doadores de sangue e órgãos, com excelência em tecnologia. Todas essas e outras intervenções de alta complexidade ficam a cargo do SUS, pelo fato de serem muito dispendiosas e inviáveis para o sistema privado, que obviamente, tem como interesse primeiro, lucrar

A idealização do SUS tem raízes numa concepção de saúde integral, solidária, humanitária, democrática e que não seja objeto das leis do mercado. Saúde não tem preço e não pode estar à venda. Esse diferencial já seria suficiente para defendermos o SUS como patrimônio nacional, estabelecendo com ele uma noção maior de pertencimento e agregando-lhe o valor que realmente merece. Entender que o SUS é nosso é fundamental para militarmos em sua defesa, a fim de lhe garantir mais recursos e financiamentos e não o seu desmonte, como vem acontecendo. As deficiências do SUS são decorrentes do que não se investe nele e não pelo que é. O SUS é um sistema para o Brasil e não uma espécie de caridade para os pobres. O SUS está em toda parte; está literalmente no ar que respiramos e na água que bebemos. O SUS é nosso! Defenda o SUS!



Texto de Rita Almeida, psicóloga e psicanalista, professora de pós-graduação em Saúde pública e Saúde Mental. Conselheira pelo CRP/MG, é militante do SUS e da Reforma Psiquiátrica Brasileira

Publicação original Revista Radis.

Conhecendo Jesus pela arte

Quando a Escola retrata as diferentes realidades
do povo pobre nos dias atuais e diz que Jesus está ali
o faz a partir de uma hermenêutica dos evangelhos,
dialogante com os nossos dias.


Assistimos no final de semana passado, por ocasião do carnaval, o desfile de algumas Escolas de Samba que, nos seus diferentes sambas-enredo, nos provocaram à reflexão. Em todo o Brasil outras formas de diversão carnavalesca não deixaram de sugerir uma leitura crítica do atual contexto brasileiro. 

As diferentes manifestações do carnaval são produções artísticas. E a arte tem a capacidade de fazer uma leitura de mundo de um jeito original, mas não menos comprometido. Neste sentido a arte é orientação, quando aponta para um caminho possível. É profecia quando denuncia situações de ameaça à vida e a dignidade humana e ao mundo criado. A arte também faz refletir, provoca a pessoa a sair do senso comum e ler os fatos da vida de uma forma mais aprofundada.

Dá visibilidade a temas que nem sempre a sociedade acolhe como importantes. Foi significativo o enredo vencedor tematizando a trajetória das mulheres negras no Brasil apresentado pela Escola de Samba Viradouro.

Destaco aqui a apresentação da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. A Escola se dispôs a apresentar para o público a história de Jesus de Nazaré. Sem dúvida, o resultado do trabalho foi fruto de pesquisa e também de uma hermenêutica original. Apresentou-se uma interpretação dos fatos da vida de Jesus. Não é novidade.



Na opinião do Teólogo Leonardo Boff, o enredo da escola “atualiza a figura de Jesus para a nossa situação, que é muito semelhante à situação da Galileia, da Palestina, na qual vivia o Jesus histórico”. Veja mais aqui.



Ao longo da história do cristianismo sugeriu-se tantas outras interpretações da vida e missão de Jesus. Algumas próximas dos evangelhos que são o testemunho mais fiel da vida do homem de Nazaré e outras muito distantes.

A Escola de samba falou de Jesus através da arte em suas diferentes dimensões. Certamente surgirão críticas. Muitas críticas. Alguém já opinava que a imagem de Jesus crucificado como um jovem negro favelado era muito feia. Mas podemos nos voltar à imagem de Jesus chagado, crucificado, agonizando na cruz que está em nossas casas e igrejas. Esteticamente não é das mais atrativas. Mas ali está o filho de Deus, aquele que nos amou até o fim. E está também na imagem do jovem negro favelado. 

Os organizadores do desfile procuram retratar Jesus no corpo do negro, do indígena, da mulher e tantas outras pessoas com a vida e a integridade física ameaçadas. É possível que tenha escandalizado os puristas que viram nisso grande pecado.

 Contudo vale a pena retomarmos o evangelho de João, primeiro capítulo. Ali o evangelista afirma que Jesus é o verbo encarnado morando no meio da humanidade. E o verbo se fez carne e veio morar entre nós (Jo 1, 1). Significa que Jesus assumiu a condição humana nas suas grandezas e limitações. Esteve presente na história da humanidade nas condições que esta história permitia. Fez isso para conduzir a humanidade à salvação. Cabe reforçar: assumiu a condição de todos os humanos e não apenas de grupo. Fez isso para salvar a todos. 

O evangelista Mateus descreve as consequências da opção de Jesus de se encarnar. Em Mateus, 25, 31-46 o Filho de Deus afirma os critérios de salvação para os homens e mulheres, a capacidade de reconhecê-lo no faminto, sedento, estrangeiro, na pessoa nua, no doente e no preso. Ver Jesus nestas pessoas e agir para o seu bem, matando a fome e a sede, vestindo, visitando, ou seja, dando uma atenção samaritana e misericordiosa é o grande critério de salvação. Jesus, o Filho de Deus, se fez presente nestas pessoas, porque se encarnou para salvar a todos.

Quando a Escola retrata as diferentes realidades do povo pobre nos dias atuais e diz que Jesus está ali o faz a partir de uma hermenêutica dos evangelhos, dialogante com os nossos dias. Provoca-nos a rever as nossas concepções de Jesus e como consequência, a nossa experiência de fé cristã.



Teólogo e pastor batista Henrique Vieira defende que a Escola levou para a Avenida um Jesus dos evangelhos: amigo, amoroso e parceiro dos oprimidos. Veja mais aqui.



Que Jesus acolhemos em nossa vida e procuramos seguir?


A volta do Index?

Livros ajudam as pessoas a entender seu tempo
e tenham seu espaço na sociedade, questionando-se
e observando a si mesmos e aos outros de forma crítica,
pontua Ann Lee, escritora que teve seus livros
listados no Index.


Desde a posse de Jair Bolsonaro o desapego à lógica e à razão, o impulso emocional manipulador surgiram por trás da onda obscurantista. A negligência à ciência, o incentivo à violência e ao ódio, citações nazistas, o culto ostensivo da ignorância se tornaram corriqueiros.

O retrocesso civilizatório é assustador notadamente no campo da cultura. Não à toa, o Ministério dedicado ao setor foi extinto.

O ataque se dá em várias frentes. Na História, por exemplo. Como História, segundo a direita bolsominia, é coisa de comunista, maconheiro, esquerdopata e professor doutrinador, para que aprender com ela? Assim, repete-se estupidamente o passado.

A palavra “cultura” na direita tem uma recepção bem específica, se tomada positivamente. “Festas em que não se respeita a vida animal, aí sim, é cultura. Cantores populares que gravam mensagem de ódio também podem ser louvados. O mundo sertanejo é amado pelos bolsonaritas”, assevera o filósofo Paulo Ghiraldelli.



Em artigo no site, Paulo Ghiraldelli escreve: “esse projeto nos fez duplamente dominado: a dominação do homem pelo homem e a dominação do fetiche, do fantasma, sobre o homem. Dominação não em pensamento que passa, para nos dominar, pela cabeça, mas dominação que nos torna súdito por vivermos realmente numa situação de súditos. Súditos do homem pela técnica, súditos do homem pelo fantasma”.



Agora, em Rondônia, surgiu uma lista de livros proibidos, abrindo mais um capítulo na guerra à cultura. Foi ideia do governo Marcos Rocha, aliado de Bolsonaro.

Para o governo daquele estado – que negou a medida –, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Rubem Alves, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e Euclides da Cunha, não servem para os alunos do Ensino médio de Rondônia. Ulala!!

Autores que têm em comum além da reconhecida qualidade de seus livros o fato de serem nomes estabelecido na literatura.

Já em São Paulo, o governo estadual vetou uma lista de livros doados à penitenciárias. Ora, são apenas livros com “um amontoado de montão de palavras”, na lúcida definição do ocupante do Palácio do Planalto.

É a volta triunfal do Index Librorum Prohibitorum? É a ignorância acima de tudo. Obviamente, em nome da Escola Sem Partido. Convenhamos, trata-se de um despautério imaginar, em pleno século XXI, a retomada de um índice de livros proibidos.

Nenhum livro merece ser proibido, ter seu conteúdo cortado ou alterado, mesmo em polêmicas, pois a atitude configura censura e cerceamento da liberdade de expressão.

Livros são parte fundamental na formação de qualquer indivíduo. Eles ajudam as pessoas a entender seu tempo e tenham seu espaço na sociedade, questionando-se e observando a si mesmos e aos outros de forma crítica, pontua Ann Lee, escritora que teve seus livros listados no Index.

E por aí vai nossa cultura atacada de forma terrivelmente obscurantista, com a negação da evidência empírica, onde Copérnico é contestado, Darwin execrado.

Tribos da direita, prisioneira de preconceitos identitários e religiosos herdados da Idade Média, avançam como hordas bárbaras sobre o que ainda resta da cultura nacional.

O próximo passo será a queima de obras literárias em praça pública?

“Desconectados” em rede

Podemos estar em rede,
mas desconectados uns dos outros,
desprovidos do nó que amarra e junta
um ser humano a outros seres humanos.


 Vivemos conectados, estamos em rede. A internet, através das redes sociais, possibilita interação em escala global. Essa partilha de informações traz em seu bojo algumas revelações que precisam ser refletidas e consideradas pela filosofia pedagogia, sociologia, psicologia, isso para citar algumas áreas do conhecimento, pois ninguém está isento dos efeitos positivos e negativos desta “onda” que se constitui para muitas pessoas em um “modus vivendi”. 



Papa Francisco sobre as redes sociais.



Se leste até aqui, deve estar se perguntando onde desejo chegar: se és um crítico, suspeito que a essa altura já se questionou: qual é o problema? Onde se encontra a hipótese? Que argumentos já foram introduzidos?

Não prometo uma resposta que satisfaça sua curiosidade e seu espírito investigativo, mas me empenharei em oferecer justificativas para a validade deste escrito.

Sou usuário das “redes sociais”, acompanho o que pessoas próximas e distantes publicam em seus perfis, interajo com alguns post, “curto”, “comento” “compartilho”, mas também fico irritado, perplexo indignado diante de outros. Pensado sobre essas duas atitudes, surgiu a necessidade deste texto que, mesmo que pessoal, nasceu para permitir reflexão.

O acontecimento gerador deste texto se deu quando acessei um grupo criado para troca, compra e venda de mercadorias, onde um anúncio diferente chamou minha atenção. Tratava-se de um pedido de ajuda.

Uma pessoa que ainda possui capacidade de sentir com o outro pedia: roupas, calçados, alimentos para uma mulher e seu filho. Abaixo do pedido estava a foto de uma mulher segurando a mão de uma criança, ao fundo uma barraca de lona preta. A mulher com expressões tristes, de poucas esperanças, como muitas imagens disponíveis na “rede”, traz presente uma sensação de desarmonia e uma certeza: a humanidade tem enveredado por caminhos tortos, pois a exuberância de grifes, o excesso de luxo esnobado por famosos, a concentração da renda nas mãos de poucos, a “despolitização” do nosso país contrasta com a pobreza, o descuido e as carências de muitos.

O pedido de ajuda foi feito, alguns se solidarizaram nos mostrando que o ser humano é bom, que o ser é junto com os outros, mas outras manifestações revelaram o que há de pior na humanidade, o preconceito, a indiferença, a atitude de Pilatos.

As manifestações contrárias ao amor, desvinculadas do sentido do humano, no mínimo, expõem que a educação tem falhado na sua tarefa de educar de acordo com os pilares sugeridos por Jacques Delors no livro intitulado “Educação: um tesouro a se descobrir” (1998). Conforme o pensador citado, educar significa formar humanos comprometidos com a justiça social, solidários com os outros, abertos para a perspectiva de cuidado com o planeta, é tarefa política que não pode ficar alheia as evoluções técnicas e as realidades sociais.

Analisar o conteúdo dos “post”, a repercussão das mensagens e dos comentários desperta para a necessidade da crítica constante.

Se por um lado existem iniciativas e conteúdos que precisam ser potencializados, por outro cresce o número daqueles que dão vazão a suas concepções egoístas, individualistas, preconceituosas e por isso desvinculada dos direitos humanos, assegurados pela constituição de 1988.

Exemplos de violações cometidas na rede não faltam, o preconceito de gênero, de etnia, os rótulos colocados em pessoas que cometem erros, o preconceito circula na rede, pulsa em muitas veias e precisa ser combatido com urgência.

Enfim, mas sem a pretensão de esgotar o assunto, enquanto a técnica se desvincular da ciência humana. estaremos em um mundo que evolui caminhando a passos largos para a desumanização.

Essa “rede de relações”, esse emaranhado de nós e fios que formam a sociedade complexa, precisa se converter em ferramenta para a educação dos afetos, para a potencialização da compaixão, para a vivência da solidariedade.

Tecnologia desprovida de uma educação adequada resulta na evolução dos projetos que fortalecem a desumanização, porque crescimento tecnológico e interação virtual nem sempre significam evolução da humanidade. Podemos estar em rede, mas desconectados uns dos outros, desprovidos do nó que amarra e junta um ser humano a outros seres humanos.

Por dias melhores na educação

Esperamos que o governador abandone a intransigência
e demonstre disposição para construir pontes.
A educação não pode mais esperar.

Após um ano letivo tumultuado, marcado pela falta crônica de recursos humanos, desorganização pedagógica, embates constantes com os educadores e o desgaste de uma greve histórica, Eduardo Leite tem a chance de recomeçar.

Pacificar este ambiente conflagrado está ao seu alcance. Basta um gesto de boa vontade: pagar os mais de 27 mil educadores grevistas cujos salários foram cortados, apesar dos serviços prestados e dos períodos recuperados.

O mérito legal do desconto imposto pelo Executivo ainda está em litígio no Tribunal de Justiça, mas as graves consequências na vida da categoria urgem por uma solução célere e compatível com a dimensão do problema.

Trata-se, neste momento, de uma questão humanitária. Os relatos de quem trabalha no chão da escola são angustiantes. Faltam recursos para suprir necessidades básicas, alimentar a família e honrar toda sorte de compromisso financeiro.

Como enfrentar uma sala de aula abaixo de dívidas sufocantes, acumulando empréstimos e escolhendo entre comer ou pagar as contas? O desânimo e a falta de motivação grassam.

Vale lembrar: esta é uma categoria já severamente castigada por 50 meses de salários atrasados e parcelados, e mais de cinco anos sem reposição. Nosso poder de compra foi reduzido em mais de 1/3 desde o último reajuste, corroído pelo inflação.

A despeito da conjuntura terrível, os grevistas honraram seu compromisso com os mais de 800 mil alunos que dependem da escola pública e concluíram o ano letivo, recuperando as aulas devidas.

Apesar disso, veem-se em uma situação calamitosa e sem perspectivas de iniciar o ano com um mínimo de tranquilidade para desenvolver o processo educacional e garantir a qualidade do ensino.

Como demonstraram os deputados durante a votação dos projetos em janeiro, diálogo pressupõe troca, deslocamento, negociação. Esperamos que o governador abandone a intransigência e demonstre disposição para construir pontes. A educação não pode mais esperar.


Autora: Helenir Aguiar Schürer, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato

Iniciar aulas encorajando esperanças

As professoras, os professores são portadores
da esperança porque são mobilizadores da
constituição de cada estudante em sujeito, em ser humano.


Um ano letivo em que a rede estadual começa com apenas pouco mais de dez por cento das escolas ter lutado bravamente contra os projetos que humilham a educação ao tratar seus profissionais no sentido contrário que determina o Plano Nacional da Educação: no mesmo nível que os demais profissionais com a mesma formação.

Um ano escolar em que o governo federal anuncia canal para denunciar os e as professoras, quando a vivência democrática, o aprendizado da tolerância, do diálogo, da liberdade para discutir temas da formação humana e societária são tão urgentes diante da violência, da mutilação e suicídio dos jovens, do feminicídio que recrudesce, do abandono escolar.

Um ano em que o financiamento da educação está em risco porque fecham 20 anos de orçamento vinculado a fundos – FUNDEF E FUNDEB – e que o governo federal pressiona por desvinculação, quando sabemos que ainda temos muito a investir em educação para universalizar e qualificar, para construir um Brasil soberano e que inclua sua gente no trabalho e na renda, na cultura e na cidadania.



O FNDE revela que em 2019 foram repassados a prefeituras de todo o país 307,8 milhões de reais para a construção de creches e pré-escolas e melhoria da infraestrutura da rede de educação infantil. Trata-se do mais baixo repasse em 10 anos. (José Ernani Almeida)

Recomeça seu trabalho a educação enfrentando o discurso econômico que hoje explica a política, que impõe austeridade como a única saída, a renúncia a direitos, quando a política é que precisa explicar suas opções: porque abre mão da soberania e desvia da educação a riqueza do petróleo, dos nossos bens naturais e se submete ao rentismo do capital improdutivo que nenhum compromisso tem com empregos e a formação da juventude.


Começa novo ano letivo para reanimar a esperança. Sem aula, sem educação, ela fenece. As professoras, os professores são portadores da esperança porque são mobilizadores da constituição de cada estudante em sujeito, em ser humano.



É incrível que quando a sociedade se mostra disposta a debater qualidade na educação, os professores/as são atacados e apontados como responsáveis pelo insucesso escolar. E o que é mais grave: as peculiaridades de seu ofício começam a ser entendidas como privilégios, não como direitos. Professores e artistas passam a ser tratados como inimigos da família e da sociedade. (Nei Alberto Pies)

“Eu sou esperançoso porque não posso deixar de ser esperançoso como ser humano. Esse ser que é finito e que se sabe finito, e porque é inacabado sabendo que é inacabado, necessariamente é um ser que procura. Eu não posso desistir da esperança porque eu sei, primeiro, que ela é ontológica. Eu sei que não posso continuar sendo humano se eu faço desaparecer de mim a esperança e a briga por ela. A esperança não é uma doação. Ela faz parte de mim como o ar que respiro. Se não houver ar, eu morro. Se não houver esperança, não tem por que continuar o histórico. A esperança é a história, entende?” Nos perguntava Paulo Freire.


Respondamos: sim. Somos sujeitos, fazemos a história.


Feliz ano letivo novo!



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Dívida ecológica

O estilo de vida – ocidentalizado e centrado no consumo ostensivo –
que pauta a realidade do mundo moderno é altamente
insustentável porque afeta a capacidade de carga da Terra
e força o planeta a uma crise ambiental cada vez mais hostil.


No tempo atual, parece não haver nada mais urgente que a afirmação seguinte, ainda que possamos dela discordar: nossa manifestada presença na Terra tem sido caracterizada, de um lado, por uma humanidade esclarecida (com um grau elevado de conscientização), mas, de outro, por uma humanidade obscurecida; tão obscurecida que, de todo modo, é capaz de ignorar que a biosfera não dá conta de suportar as crescentes e insaciáveis demandas humanas.

E tudo indica que ao menos uma boa parte do problema, não é demais frisar, está justamente aí: em prol de atender essas ilimitadas demandas humanas, não nos damos conta dos contratempos decorrentes, haja vista que já chegamos num momento – não me esquivo a afirmar que nos aproximamos de um perigoso ponto de conflito – em que as forças dominantes conseguiram colocar o “consumo” no lugar da “cidadania”. Na figura de cidadão do mundo (sustentado pela Terra), cada vez mais o homem moderno se encontra, pois, diante de desafios ambientais que atinge a todos, seja a parte da humanidade esclarecida ou a obscurecida.

Dada a gravidade da situação em curso que, é presumível assim imaginar, contribui para aumentar as preocupações sobre o futuro do planeta, é esperado que o sujeito humano se esforce e aperfeiçoe seu poder transformativo. Conquanto, não tenhamos dúvida que isso requer dose de coragem o suficiente para virar a página da história da abundância material que vem marcando esses últimos tumultuados e trevosos tempos.

De toda sorte, é bom que se diga às claras que há sim boas razões para acreditar nessa confortável possibilidade, principalmente se houver interesse em aprofundar o processo de conquista de consciência planetária, seja dito, condição de estar atento e ser cuidadoso com os destinos do planeta que nos acolhe, e não se esquivar de condenar o conteúdo antiecológico do capitalismo.

Para quem deseja apostar nesse horizonte, há suficiente razão (i.e., a faculdade da síntese) para imaginar que o desenvolvimento (em toda a sua vertente, social, humano, econômico, ecológico) poderá substituir, no breve tempo futuro, a política de expansão das economias modernas, superando de vez esse monstrengo chamado de “crescimento”, movimento capaz de tornar a economia maior, mas não necessariamente em uma condição melhor.

Não é o crescimento da economia, esclareça-se em definitivo, que deixará a vida de cada indivíduo mais ou menos vibrante. O crescimento econômico correlacionado ao aumento do PIB, dizem os especialistas, é algo naturalmente desigual que apresenta certa facilidade para gerar desequilíbrios, sejam eles intersetoriais ou inter-regionais. Isso ocorre porque sempre haverá uma parte (ou mesmo algum setor) crescendo mais e em velocidade maior que as outras; daí a afirmação, polêmica, dirão alguns, de que o crescimento não apenas gera como também aprofunda desigualdades, e não necessariamente a reduz.

Dito isso, interessa então falar aqui de uma desigualdade econômica que, à luz de esclarecimentos, está completamente fora de controle. Serve de exemplo: i) dados compilados em 2019 deixam em evidência que os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões (60% da população mundial); ii) caso se separe os 22 homens mais ricos do mundo notar-se-á que eles têm mais riqueza do que todas as mulheres de África.

Entretanto, seria injusto e impreciso não citar algumas das vantagens e/ou benefícios gerados pelo crescimento. Eles existem e precisam ser devidamente anunciados.



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Mas para não tornar o assunto demasiado enfadonho, limitar-nos-emos a citar, por exemplo, que uma das vantagens que o crescimento traz consigo – e jamais se deve negar isso – é a possibilidade da criação de políticas sociais. Algo que no Brasil representa 20% do PIB e contribui em duas frentes para incentivar o próprio crescimento, a partir do fortalecimento do mercado interno de consumo de massas, e da ampliação dos investimentos na expansão da infraestrutura, enfrentando as muitas deficiências estruturais na oferta de serviços públicos.

Nessa direção, ouso assinalar que o crescimento terá considerável contribuição na redução de desigualdades – embora não seja o suficiente – caso proporcione igualdade de oportunidades, o que objetivamente inclui pontos-chave como educação, acesso ao crédito, salários iguais, e assim por diante. A igualdade de oportunidadesé tão importante para o desempenho econômico que o relatório “Situação da População Mundial 2017”, lançado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), mostra que empresas que promovem a igualdade tem uma probabilidade 32% maior de serem mais lucrativas, se projetando à frente das demais concorrentes. O que é preciso levar em conta, nesse caso, é a existência de uma associação positiva entre igualdade de gênero, PIB per capita e níveis de desenvolvimento humano.



Terra chega à sua sobrecarga de recursos naturais.



Ademais, a imediata redução das desigualdades de gênero, frise-se, é bem entendida como fator determinante para que o mundo consiga atingir em 2030 os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Não por acaso, lê-se nesse mencionado relatório que os homens ocupam 76% da força de trabalho global, enquanto as mulheres representam 50%. O valor pago às mulheres – apenas metade delas em todo o mundo possui emprego remunerado – corresponde a 77% aos dos homens.

Indo direto ao ponto, depreende-se o seguinte: enquanto persistir diferenças de gênero (corriqueira atitude que, a meu ver, margeia a ignorância), muito mais complicado será levantar um bom e eficaz sistema de amparo e proteção social capaz de promover a prosperidade humana.

II

O estilo de vida – ocidentalizado e centrado no consumo ostensivo – que pauta a realidade do mundo moderno é altamente insustentável porque afeta a capacidade de carga da Terra e força o planeta a uma crise ambiental cada vez mais hostil. Desde há muito já está claro que esse ponto, expresso no dinamismo do mercado econômico, não levará a comunidade humana para um porto seguro.

Acredito, todavia, que não é preciso levantar e aprofundar a discussão do que é entendido por dinamismo do mercado econômico, salvo para destacar o fato – relevante, segundo suponho – de que é desse modo que o planeta vai sendo literalmente devorado, ajudado pelos múltiplos interesses em torno do extrativismo. Aqui fala-se abertamente de interesses que guiaram muitas das escolhas feitas em diferentes períodos da história humana; especificamente em relação aos interesses que comandam as políticas extrativistas.

O ponto de partida, se observado apenas pelo âmbito da América Latina, é reconhecer, como o faz o economista equatoriano Alberto Acosta, que os governos neoliberais e os governos progressistas, em diferentes momentos, colocaram suas expectativas de desenvolvimento em uma expansão acelerada do extrativismo.

O problema a ser devidamente acentuado, assim confirma Acosta, é que em nenhum caso ocorreu a transformação da matriz produtiva. Tudo se mantém como sempre foi; e sequer se tenta afetar a lógica de acumulação do capital. A rigor, é justamente isso o que leva Acosta, estudioso do assunto, a afirmar taxativamente que se trata “apenas de modernizar o capitalismo. É por isso que, embora tenham reduzido a pobreza, graças ao enorme rendimento das exportações de matérias-primas, os ricos enriqueceram ainda mais”. (1)

O que vale anotar aqui, eliminando dúvidas, é que pouco importa às forças dominantes quais são as contraindicações de todo esse específico dinamismo. Uma vez pautado sistematicamente pela incontrolável ideia (obsessão macroeconômica) de aumentar a produção material, o interesse que se sobressai é o de fazer o PIB crescer, indicando com isso o nível de sucesso de nações e governos. Entrementes, isso permite dizer que, enquanto aumenta-se o fanatismo no princípio do crescimento, de um lado, exacerbam-se os muitos contratempos (ecológico e ambiental, em destaque) do mundo social, de outro. Daí a argumentação corrente de que nos últimos 150 anos, à medida em que o crescimento econômico avançava em diferentes períodos, as indústrias do mundo moderno seguiam poluindo o ar e modificando severamente o meio ambiente.

Ora, sem que se transgrida os fatos verdadeiros, é dado observar que isso configura, ao fim e ao cabo, uma situação na qual a categoria humana é severamente empurrada à convivência com um desconfortante desequilíbrio ecológico-ambiental, cujos exemplos, cada vez mais perceptíveis, pululam diante de cada um de nós. Basta atentar que “(…) mais da metade do carbono dissipado na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas três décadas. E mais: apenas nos últimos quarenta anos, diz o World Wildlife Fund (WWF), mais da metade dos vertebrados do mundo morreu. É cada vez mais óbvio, portanto, que estamos no olho do furacão, em meio a uma crise ecológica produzida por nós mesmos, tal como escreve David Wells.

Essa crise, podendo ser vista por vários ângulos, mas abusando de ilustrativos exemplos, mostra que teremos vagando por aí nada menos que 200 milhões de refugiados do clima até 2050 – assim projeta as Nações Unidas (UN). Detalhe importante: essa crise mostra ainda que “é impossível pensar em recuperar o equilíbrio do sistema da Terra sem abandonar a lógica do capital, que tudo converte em mercadoria e faz da crise uma oportunidade para novos lucros”, escreve Pablo Solón, ativista ambiental boliviano.

Trata-se, então, sistematicamente de uma crise que tem suas raízes no modelo de economia que prega o expansionismo como “salvação” do mundo moderno, colocando o avanço econômico como o responsável direto pela boa vida das populações. E como não mais se pode pensar os problemas ambientais como meras ocorrências isoladas, insista-se aqui para dizer em tom de esclarecimento que, se desde os últimos 150 anos as economias globais (umas mais outras menos), têm ajudado a desequilibrar ecologicamente o planeta, tão somente nos últimos 60 anos os humanos sobrecarregaram exaustivamente os mais importantes ecossistemas conhecidos, afetando sobretudo as macroestruturas do sistema Terra.

Veja-se, a priori, que o sistema de águas, principalmente quando percebido o nível de esgotamento dos oceanos, o maior dos ecossistemas existentes e, de longe, o grande “sistema de suporte à vida”, nos dizeres de Sylvia Earle, (2) talvez seja o mais ilustrativo dos exemplos. Afora isso, já se sabe que até 2048, caso não haja radical mudança de postura, os oceanos atingirão um ápice em que não mais será permitido a retirada de recursos alimentares, uma vez que a excessiva atividade de pesca não respeita o tempo de reposição dos cardumes.

É curioso e bastante assombroso constatar que o gênero humano não dá importância aos oceanos; e sequer percebem com alguma clareza que são os oceanos que controlam o clima planetário, uma vez que absorvem grande parte de dióxido de carbono da atmosfera, retêm 97% da água da Terra e abriga 97% de sua biosfera. Logo, é imprescindível levantar esforços para colocar um fim à degradação dos oceanos que, como se sabe, segue prejudicado porque um terço do CO2 produzido pela atividade econômica acaba sendo absorvido pelas águas oceânicas, tornando-as imediatamente mais ácidas.

Mas repare no que segue: quando foi explicitado linhas acima que a atualmente excessiva atividade de pesca não permite tempo de reposição dos cardumes, em tom de acusação se quer anunciar, clara e abertamente, a existência de um déficit ecológico que a humanidade vem provocando no mundo biofísico. Um déficit que ocorre a cada ano num período de tempo cada vez mais curto. Por conseguinte, isso exige um oportuno esclarecimento: calculado pela Global Footprint Network, considerando quatro fatores principais, quanto os ecossistemas são capazes de produzir; quantas pessoas existem no planeta; quanto essas pessoas consomem; e, com que eficiência os produtos são feitos, foi observado que em 2019, por exemplo, o planeta Terra entrou no “cheque especial” no dia 29 de julho.

Para ser objetivo, significa dizer que os 7,6 bilhões de habitantes do planeta consumiram todos os recursos naturais que o planeta consegue regenerar em um período de um ano em apenas 210 dias. Por isso a velocidade de consumo, nesse caso, é 74% maior do que a capacidade de a Terra se regenerar. Desnecessário enfatizar, quero crer, que aí está um “drama” (tornando aceitável esse termo) que contribui para alterar o sistema de funcionamento da Terra.

Pois bem, uma vez mais olhando com relativa atenção o uso excessivo de recursos da natureza, e misturando aqui, para efeito de boa compreensão, uma linguagem econômica com a ecológica, a metáfora a seguir esclarece o real perigo que representa essa última passagem: quando a Terra “entra” nesse mencionado cheque especial, a humanidade imediatamente contrai uma “dívida ecológica” que, a olhos vistos, tem sido cada vez mais difícil de pagar.

Uma dívida que vem expressa na forma de esgotamento ecológico, escassez de água potável, criminosa perda de biodiversidade, erosão do sistema solo, acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera, acidificação dos oceanos, empobrecimento biológico. Ou seja, por toda essa série de agudos descompassos ambientais, acentuam-se consideráveis prejuízos que de imediato comprometem a qualidade de vida.

Essa dívida ecológica, é certo afirmar, atesta o quão insustentável tem sido o estilo de vida moderno, uma vez que cria condição de manter boa parte da comunidade humana (principalmente a população que não encontra mecanismo de defesa, dado o estado de vulnerabilidade do qual padece) bem mais próxima das dores de um mundo que aumenta e muda rápido demais face a existência de um relacionamento marcadamente hostil entre o homem, a economia e a natureza.

Diante de receitas e diretrizes econômicas impetuosamente impostas para fazer avançar o produto monetizado, é chegada a hora de chamar a atenção para algo relevante: se cada vez mais a biosfera – i.e., “a esfera da vida”, como escreve Carl Folke – tem apresentado evidências de estar no limite de sua resiliência ecossistêmica, dir-se-á com notoriedade que a partir de certo tamanho da economia os custos socioambientais advindos de um patamar extra de crescimento ultrapassam eventuais benefícios de bem-estar material.

Feita mais essa advertência, e para voltar agora ao ponto inicial deste artigo, eleve-se as esperanças para o que a economista britânica Kate Raworth – a partir de sua já célebre abordagem da “economia donut” – espera que aconteça em breve, isto é, que os economistas se tornem de certo modo “agnósticos” e não “viciados” em crescimento econômico; até mesmo porque, no lugar de se conceber atividades econômicas à serviço da vida, o que se tem hoje, fato concreto, é o sujeito humano aprendendo com invejável rapidez a desvirtuar as chamadas boas condições conhecidas, entre essas a de colocar a vida à serviço da economia de produção, contrariando desse modo o papel social de uma ciência que nasceu para dar respostas afirmativas em torno da vida humana.



Notas:
https://diplomatique.org.br/alberto-acosta-governos-progressistas-apostaram-na-expansao-do-extrativismo/
S. EARLE, A Terra é Azul. São Paulo: SESI, 2018

Carnaval: alegria e forma de protesto

A força do carnaval.
Todos se integram de maneira incrivelmente democrática,
quebrando, quase sem  perceber, cadeias de preconceitos,
rompendo formalidades, denunciando e derrubando máscaras.


Hoje  vamos deixar de  lado o circo  existente  em Brasília  para falar de coisa  séria, o carnaval. Sim, com o que se  vê hoje de parte do governo, carnaval passou a ser  coisa  séria, até  porque tem objetivo – a alegria – e organização. Coisas inexistentes em um governo, marcado pela vulgaridade e o mau humor.

O carnaval é considerado  reminiscência das festas pagãs Greco-romanas que ocorriam entre  dezembro e fevereiro – saturnais  e lupercais, respectivamente.

No Brasil chegou  com os lusos, na comemoração do entrudo, que festejava  a  entrada da primavera e  abria  as solenidades litúrgicas  da Quaresma, período da abstinência  de carne – palavra  que designa  o nome carnaval.



Entenda mais sobre a festa do Carnaval.


O entrudo era  uma festa barulhenta, suja, e por vezes, violenta. Foi  a  partir da segunda metade  do  séc. XIX,  que o entrudo passou a conviver com  bailes  de máscara em teatros e clubes, à moda europeia.

A primeira música  carnavalesca  foi  Ô Abre-alas, composta por  Chiquinha  Gonzaga em 1899. Sinhô, compositor  da época, também é considerado  o pioneiro da mistura de classes sociais no carnaval. Primeiro  passo  rumo  à concepção  atual dos desfiles  das grandes escolas  de samba.

Lentamente, o carnaval  foi se transformando na expressão que mais sintetiza  as  características do que se chama  brasilidade, ou seja, a identidade  cultural do brasileiro, reflexo de sua formação, de sua história, de suas venturas e desventuras.

Samba, frevo, festa de rua, com muita gente suada, corpos bronzeados. A beleza, o erotismo (para desespero da Damaris ) , o riso acima de tudo e, principalmente, a alegria. No carnaval há uma mescla de culturas e gentes.

Hoje, através  dos seus enredos, as  grandes  escolas  aproveitam para fazer denúncias  sociais  e marcar  sua  presença  na política. O samba  da Mangueira é exemplar:

“Nasci de peito aberto, de punho cerrado/ Meu pai carpinteiro, desempregado/Minha mãe é  Maria das Dores Brasil./Favela, pega  visão/Não tem futuro sem partilha/ Nem messias de arma na mão”.

Já  Zeca Baleiro compôs  marchinhas contundentes:

“Escória, escória/Nem fodendo  vocês  vão conseguir  entrar pra história/Vou lhes dizer  o que é política/O vagão de lixo passa e o trem da história fica/Vou lhes dizer  o que é arte e cultura/Não vai crescer  nem capim sobre vossa  sepultura”.

Outra, dedicada  ao ex-secretário de  Cultura Roberto ‘Goebbels’ Alvim: “Respeita Fernanda Montenegro, babaca/Tu saiu de que cloaca?/Respeita Martinho da  Vila, sem mané/Você não vale nem a sola do seu pé”.

Eis a  força do carnaval. É onde todos  se integram de maneira incrivelmente democrática, quebrando, quase  sem  perceber, cadeias de preconceitos, rompendo formalidades, denunciando e derrubando máscaras.

Todos passam a ser protagonistas de um mesmo espetáculo. Todos em uma só festa, cuja tônica é a alegria, a criatividade e a ampla liberdade de expressão. A direita bolsonarista  vai à histeria!!!



O carnaval é uma das festas populares mais lucrativas do Brasi. Para conversar sobre as oportunidades de negócios em torno da festa, o Sem Censura conversa com o promoter Diógenes Queiroz, organizador do camarote “Allegria”, na Marquês de Sapucaí, e com Gebran Smera, estilista, cenógrafo e carnavalesco.
Veja mais aqui.

Vocalização do texto poético escrito: relato de um curso no exterior

O intuito foi apresentar uma possibilidade de vivência significativa na linguagem por meio do trabalho com o texto poético em turmas de Educação Básica, contemplando a experiência singular do sujeito que, via vocalizações, mobiliza significações na particularidade do discurso poético.


No mês de novembro de 2019, estive ministrando um curso na II Jornada Mundial sobre o Ensino e Aprendizado do Português em Lima, Peru. O tema do meu curso foi “O trabalho com a poética da língua”, voltado para professores que ensinam português no mundo. Nesse evento, estavam presentes professores dos Estados Unidos, Perú, Argentina, Venezuela e Brasil.

A Jornada foi promovida pela Asociación  de Profesores de Portugués como lengua Extranjera en Perú e aconteceu na Pontificia Universidad Católica del Perú.

O tema que eu levei para a explanação faz parte do eixo temático de minha Dissertação de Mestrado em Linguística, na Universidade de Passo Fundo, que tem como Orientadora a Professora Dra. em Linguística, Marlete Sandra Diedrich. Na pesquisa trabalhamos à luz de princípios do linguista francês Émile Benveniste e de Roman Jakobson.

O intuito no Perú foi apresentar uma possibilidade de vivência significativa na linguagem por meio do trabalho com o texto poético em turmas de Educação Básica, contemplando a experiência singular do sujeito que, via vocalizações, mobiliza significações na particularidade do discurso poético.

Apresentei um trabalho com a poeticidade via vocalizações arranjos linguísticos e seu potencial alcance de significação no ensino de língua. Neste estudo, voltamos nossa atenção para a abordagem teórico-metodológica do ensino da língua portuguesa, à luz de princípios advindos das reflexões de Roman Jakobson (2007), em especial, daqueles apresentados no texto Linguística e Poética. Apresentamos uma proposta de minicurso no escopo da temática “As metodologias e abordagens de sucesso no ensino de português”.



“A literatura, como arte, consiste em um grande trampolim para o ensino e para despertar no educando o interesse em aprimorar a linguagem e a leitura, por consequência, uma mudança de atitude e de competência linguística em todas as áreas do conhecimento e da formação humana do cidadão”.



Em Benveniste buscamos suporte no artigo Significância e experiência, que encontramos em Últimas aulas no Collège de France. Nesse texto, aparece “a noção de “enunciação” compreendida como uma “experiência”.

Percebemos, por esse viés, que a experiência na linguagem coloca em destaque a propriedade da significância, pois é nela e por ela que o sujeito se reconhece. Dá a entender que uma poética está ligada a experiência humana na linguagem, salientando que isso é um ato individual, tendo a atividade linguística como eixo central.

Não obstante, os autores chamam atenção de que a linguagem em que se apresenta essa modalidade que é a escrita, porque é através dela que encontramos o discurso do poeta, por exemplo, “, impunha-se uma reflexão sobre a experiência específica da escrita representada pela linguagem poética” (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 53), notamos que o linguista salienta a “experiência específica” que é a linguagem poética, quer dizer que devemos olhar com diferenciados à esta linguagem.

Observamos que Benveniste conceitua a linguagem poética, chamando-a de “linguagem interior”, pois a linguagem poética exige que o analista “mude de instrumentos”, (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 54), Em seguida ele define:“Essa “língua diferente” que seria a poesia necessita, portanto, de uma “translinguística”: pois a “significância da arte” é não convencional”.

Podemos entender que o linguista dá ênfase a essa linguagem e define que devemos ter um olhar diferente, pois se trata de uma linguagem e trata como “significância da arte”. E segue definindo quais pontos merecem destaques nessa “translinguística” presente na poética, “a mensagem poética, “ao contrário das propriedades da comunicação”, fala uma emoção que a linguagem “transmite”. (BENVENISTE, 1968 e 1969/ 2014, p. 54). Com essa definição do autor, acreditamos que estamos lidando com uma linguagem “interior”, “diferente”, “não convencional” e que transmite “emoção”.

Assim, continuamos nosso olhar teórico com Jakobson, para o ensino de língua a partir da concepção da sua manifestação poética. Nessa concepção, entendemos que a linguística não pode ser vista separada da literatura, pelo contrário, “[…] a Linguística é a ciência global da estrutura verbal, a Poética pode ser encarada como parte integrante da Linguística” (JAKOBSON, 2007, p. 119). Para Jakobson (2007, p.119), “A poética trata dos problemas da estrutura verbal, […]”.  O autor (p. 128) afirma que “[…] A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão-somente a função dominante, determinante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.”

Com essa motivação, entendemos a função poética como um investimento nos arranjos verbais, os quais se pautam nas relações entre as unidades linguísticas. Tais unidades comunicam para além de si mesmas, num jogo de relações entre formas e sentidos que são mobilizadas no discurso.

Em Lima, tive a oportunidade de sentir que o trabalho que venho realizando há muitos anos no que tange a materialização no discurso da experiência de vocalização do texto poético vivenciada em sala de aula na relação enunciativa de emissão e recepção entre eu/tu, foi muito bem aceito, por dar atenção a uma abordagem teórico-metodológica do ensino da língua portuguesa e demonstrar algumas possibilidades de ensino alicerçadas na teoria e prática. Inclusive, muitos professores que lá estavam parabenizaram-me, dizendo que a partir da minha fala se sentiram motivados enxergando novas possibilidades para o ensino da língua.



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