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Filosofia: como pronunciá-la?

“Filosofar é uma viagem em que cada um está só.
Mas isso não impede encontros. Ao contrário é o
que os torna ao mesmo tempo possíveis e preciosos”.
(Sponville & Luc-Ferry)


Para começar a contornar conceitos que incidam sobre o que é Filosofia devemos nos valer daquilo que se destaca no universo humano, que se torna fundamental, a ideia de partilha, cujo substrato ético é a philia. A amizade é um registro peculiar no fazer filosófico, que pode conduzir à felicidade. Seria essa uma meta da filosofia, sermos amigos e sermos felizes.

A exortação ouvida por Sócrates do oráculo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo”, leva-nos a não descuidarmos desse amparo investigativo, inspirado na racionalidade do sujeito. Articula-se, mais uma vez, a pergunta: quem sou eu?

Para sistematizar o conjunto de possibilidades, que emerge a partir dessa questão, temos que tomar um indicador que permita começar uma resposta – a ratio.

Eu sou um sujeito do logos, eu sou alguém que fala, porque pensa e, ao pensar, constrói significados e interações lingüísticas baseadas na ratio, no logos. Então somos sujeitos da razão e da palavra; essa é a identidade do mesmo, do que pergunta por si, pelo seu sentido, pelo seu destino.

A Filosofia se envolve com essas questões – compreender o humano no seu processo de humanização e de diferença com os demais seres da natureza. A condição humana é a do uso da razão e do pronunciamento da palavra.

A tarefa filosófica, o que fazer filosófico é um dos traços mais genuínos do humano, que permite a postulação das questões paradigmáticas: – Quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou?

Encontra-se na História da Filosofia, no nascedouro do pensamento como experiência reflexiva, o registro de que os que se ocuparam da filosofia se envolveram com a pergunta acerca do ser. Esse marco inicial do espanto e da admiração do homem, que formula a pergunta pelo ser, configura sua capacidade de ratio, de logos e permite, como autor da pergunta sobre o ser, formular a pergunta sobre si mesmo, sobre sua condição, sobre sua história. Ele investe filosoficamente nesse pronunciamento elucidativo – o ser é uma articulação de sentido, dada pelo homem.

Sobre a inteligibilidade do mundo e da vida, o homem traça seu percurso de sujeito de saber e de poder, sujeito que inaugura a história do humano como a história da razão. É, pois, a filosofia o evento da razão no cosmos, evento que aproxima os humanos numa aventura comum, a da linguagem como expressão do pensamento.

Quando trabalhamos conceitos, por exemplo, de ciência e filosofia temos de considerar, desde logo a compreensão do conteúdo desses conceitos. Ou seja: o que há de específico no conceito de ciência, que não aparece no conceito de filosofia e o é que próprio do fazer filosófico, que não integra o fazer científico. Não se trata de supremacias, trata-se de especificidades, de movimentos conceituais diferenciados, com propriedades explicativas e sistêmicas. Esses pressupostos exigem precisões que possam conduzir às categorias de singularidade e universalidade, sem estarem freados por determinismos absolutos.

Ao falarmos da ciência, pensamos num corpo teórico inserido em interesses específicos de investigação, embora, alinhados a um eixo metódico necessário para ordenar as investigações e descobertas. Daí a construção de paradigmas.

Ao tratarmos da filosofia, pensamos na condição de um saber ordenado, cujo regramento metódico vincula-se às províncias mapeadas pelo sujeito epistêmico.

Esse sujeito pronuncia discursos acerca do cosmos, da história, da religião, da psiquê, do direito, da ética, como discursos articulados, a partir das reflexões de caráter metafísico, dialético, analítico, hermenêutico, conforme sua intencionalidade investigativa, no âmbito do saber filosófico. É a filosofia, pois, um saber, que prescinde do comprovável e do verificável, uma vez que sua inclinação conceitual não está voltada para a calculabilidade do mundo, nem para as mensurações quantificadoras da verdade.

É evidente que os conceitos, sendo os resultados das reflexões e criações dos homens, sofrem como eles estágios, evoluções, superações, negações, eliminações. Assim, permanecem na sua vida epistemológica o tempo necessário para o seu uso, ou seja, o critério de sua validez tem o caráter contingente da vida e história humanas.

Daí o falarmos em revoluções científicas e tecnológicas, como a experiência do conhecimento humano que troca de eixo, uma vez identificadas novas encruzilhadas no caminho investigativo, as quais possibilitam mudanças de ponto de partida e de ponto de chegada. A revolução copernicana identificada por Kant no seu fazer filosófico demonstra isso. A descoberta do genoma humano pela engenharia genética revela a paciência e a disciplina necessárias da ciência que constrói seu objeto, numa atitude relacional com diferentes áreas de pesquisa, para chegar ao conhecimento desejado.

A unicidade conceitual não ocorre o tempo todo, nem no âmbito da filosofia, nem na esfera da ciência. Um tema filosófico fundante, como o tema da verdade, já não reúne um consenso teórico em torno de si, como no tempo dos gregos.

As investigações científicas das diferentes áreas, antes ancoradas nos critérios de exatidão e verificabilidade de fenômenos, hoje necessitam de outros aportes para desenvolverem o procedimento científico de forma não-determinista. Deparamo-nos com uma tensão necessária entre o sujeito do processo e o resultado das investigações. Nem tudo é previsível e a imponderabilidade integra o mundo da filosofia como o mundo da ciência, na expressão mais eloqüente de que o fazer humano passa por vicissitudes não controláveis na totalidade.

Conceitos científicos e saberes filosóficos são construções humanas necessárias, como balizas teoréticas do mundo, ainda que tomadas pela característica da falibilidade. Isso revela nossas limitações e pode aproximar-nos em todo processo investigativo, sem construir inimizades e sem perturbar as emoções.

Esse exercício da nossa racionalidade permite a perspectiva da sabedoria dos simples e dos serenos. Não há necessidade de guerrear devido às descobertas e inovações. Basta a inteligência, cuja ousadia aprimora o bom senso e afasta a prepotência daqueles que tudo sabem.

Ao nos reportarmos ao “Conhece-te a ti mesmo”, enfrentamos questões aproximativas, que decorrem da exortação apresentada a Sócrates: Quem somos? Quem nos atrevemos a ser? Qual coragem comanda nosso discurso e nossa ação investigativa?




Conheça vídeo “Os sofistas e Sócrates”.

O sujeito histórico que somos, pode buscar o perfil de Caim, da dissimulação pela inveja, negando a fraternidade, ou, seguir os passos de Prometeu, de cumplicidade com os humanos, contra os deuses, ou, ainda, pode repensar sua práxis, na encruzilhada de um destino cujos comandos não estão tão distantes de seu imaginário como possa parecer.

Basta que se torne menor a fala da soberania individualista e heroica e se apresente mais simples o discurso de partilha e de compromisso, para que se efetive uma ação cujas luzes não sejam apenas as do esclarecimento, mas as da cultura da paz.




Conheça um pouco mais da história de Sócrates.

Autora: Cecília Pires

***

Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática: Política, conhecimento e estética, Objetos de Conhecimento: Possibilidade de conhecer as coisas a partir de Sócrates.  Habilidades: Entender o processo de conhecimento e as diferentes formas de conhecer desenvolvido pelo ser humano de modo a utilizá-las, respeitá-las e valorizá-las.

Questões para pensar:

  1. Após ler este texto, resumo com palavras próprias o que você entendeu sobre esta reflexão “Filosofia: como pronunciá-la”?
  • Como você pronunciaria a filosofia a partir das ideias do texto?
  • A autora Cecília Pires utiliza em seu texto as ideias de Sócrates, utilizando a frase “Conhece-te a ti mesmo”. O que você já sabe de Sócrates?
  • Assista ao vídeo (https://youtu.be/48YutxLmG_E?t=149 ) sobre Sócrates e os sofistas. Faça um breve resumo do que você entendeu sobre a vida, os fundamentos e o método de Sócrates.

Função do ensino religioso na perspectiva da laicidade

O ensino religioso é mais uma oportunidade
que a escola tem de estudar a cultura local.  
A valorização dos aspectos culturais e religiosos
da sociedade na qual a escola está inserida é fundamental.


É possível ensino religioso nas escolas públicas e privadas no contexto da laicidade brasileira? Qual a função do ensino religioso na perspectiva da laicidade?

Quem não se lembra das aulas de ensino religioso no ensino fundamental? Acredito que a maioria dos brasileiros tiveram aulas com padres, freires, pastores ou pessoas muito engajada em suas atividades religiosas.

Os conteúdos ensinados provavelmente eram ensinamentos sobre a Bíblia, Deus, Maria, Santos, Orações, Campanha da Fraternidade, Círio de Nazaré, Natal, e outros feriados religiosos. O intuito do ensino religioso era a catequização, proselitismo religioso e as igrejas terem espaços nas escolas públicas e privadas para ministrarem temas ligados as suas confessionalidades.

Historicamente, o modelo confessional (ensino dos dogmas religiosos) foi o escolhido pelas escolas públicas e privadas para a identidade do componente curricular ensino religioso. Isto deve-se a influência da Igreja Católica na política brasileira. Acredita-se que o ensinamento do credo, dogmas e princípios morais cristãos eram necessários para a formação humanística do aluno.

A partir da década de 1980, o Brasil avança para o crescimento de outros grupos religiosos cristãos. Os evangélicos tem aumento substancial em número de adeptos e influência na sociedade.

Há quem diga que nas próximas décadas o Brasil será de maioria evangélica. Evangélicos conquistam espaço nas escolas e naturalmente o modelo interconfessional acaba sendo assumindo por alguns sistemas de ensino. Interconfessionalidade consiste no ensino confessional de vários credos religiosos nas aulas de ensino religioso. A diferença que os conteúdos não apenas de inspiração católica, temos a presença de elementos de outras religiões, sobretudo as evangélicas pentecostais e neopentecostais.

Tanto o modelo confessional quanto o modelo interconfessional são problemáticos para o contexto da laicidade em que vivemos. Entendemos a laicidade a separação da Igreja e do Estado.

Assuntos relacionados a religião são fé fórum íntimo, ou seja, a vivência da religião, religiosidade ou outro aspecto de fé é algo particular de cada um. O espaço público é o espaço de todos.  Cabe ao Estado não ter uma religião. A função do estado é garantir a liberdade de culto e religiosa, tratar todas as religiões de forma igualitária, vetar intolerância religiosa e racismo religioso ou qualquer forma de proselitismo religioso nas escolas (isto é constitucional).

O que vem ocorrendo diariamente nas escolas públicas nas escolas brasileiras? Muitos professores de ensino religioso impõe sua religião aos alunos dentro das aulas. Demonizam expressões religiosas diferente da teologia católica ou protestante, a exemplo das religiões de matriz africana. Satanizam as questões de gênero e sexualidade, investem em oração do pai nosso, Ave Maria, recitação da Bíblia, cultos, missas, palestras ecumênicas, dentre outras práticas proselitistas.

Como falamos, o Brasil não é mais um país de maioria católica. Nas últimas décadas, percebemos queda significativa do número de católicos e aumento dos evangélicos e dos sem religião. O perfil religioso do brasileiro mudou radicalmente. O Brasil não é mais uma nação católica e sim de maioria de católicos.

A pluralidade é o retrato da prática religiosa do brasileiro. As pessoas podem optar por serem católicas, evangélicas, espiritas, candomblecistas, islâmicas, umbandistas, vinculadas a alguma filosofia religiosa oriental, uso o chá da Ayahuasca, ou simplesmente não terem religião.

As religiões, religiosidades, filosofias de vidas, crenças, espiritualidades ou o nome que queira sempre influenciaram e sempre continuaram a influenciar a vida particular dos brasileiros e as decisões nos espaços públicos. Isto é, a religião dialoga com as questões de educação, saúde, segurança pública, direitos humanos, turismo, patrimônio, violência, cultura, juventude, e dentre outras áreas.

Acreditamos que a função do ensino religioso na escola pública e laica é outra. É levar o aluno a compreender a religião enquanto fenômeno social. A religião pode e deve ser estudada a partir de uma perspectiva cientifica. As aulas podem ser espaços riquíssimos de levar o nosso alunado a refletir como a religião pode incluir ou excluir as pessoas na sociedade. Isto é, não seria o ensino teológico e sim fenomenológico.

As aulas de ensino religioso precisa estar vinculado a proposta de educação em direitos humanos nas escolas. Os conteúdos relacionados a valores de liberdade, justiça social, tolerância a religião e cultura do outro, solidariedade e promoção da cultura da paz. Caberia ao professor de ensino religioso discutir questões de gênero, raça, etnia, migração, política, cultura, sexualidade, mulheres, indígena, ambiental, na conscientização do respeito as pessoas, a sociedade e a pluralidade religiosa e cultural.

O ensino religioso é mais uma oportunidade que a escola tem de estudar a cultura local.  A valorização dos aspectos culturais e religiosos da sociedade na qual a escola está inserida é fundamental.

Podemos citar o exemplo da Amazônia. Alguns estados reformularam seus conteúdos de ensino religioso e priorizaram as características da cultura e religiosidade local. Os temas trabalhados são as tradições indígenas, as práticas e saberes africanos, religiosidade popular, festas tradicionais, cultura religiosa do ribeirinho e das comunidades quilombolas, turismo religioso, espaços sagrados, dentre outras opções. O objetivo maior é combater a intolerância religiosa e o racismo religioso.



Numa experiência inédita na cidade de Passo Fundo, pelo quarto ano consecutivo, alunos e alunas do nono ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi (ZDC), organizados por seu professor de Ensino Religioso, realizam visitas de conhecimento à Catedral (referência dos cristãos católicos), Sinagoga (referência dos irmãos judeus), Mesquita (referência dos irmãos muçulmanos) e Centro Espírita Dias da Cruz (referência dos irmãos espíritas).

Acreditamos que a ciência referência para o docente em ensino religioso é a Ciência da Religião. Necessitamos de uma política pública que esteja em consonância com os referencias teóricos e metodológicos de pensar a religião enquanto ciência e não dogmatismo. Para isso, as universidade públicas e privadas necessitam oferecer cursos de graduação e de pós-graduação em ciência da religião. Uma pena que a realidade é o contrário. Há resistência de reitores, secretários de educação no comprometimento desta agenda de ensino e de pesquisa.



Acreditamos que o Ensino Religioso tem a possibilidade de educar para a espiritualidade como CUIDADO: de si mesmo, dos outros, da natureza e do Transcendente. Como afirma Frei Betto, “são inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados. Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco”.

Autor: Marcos Vinicius



Propostas de uma atividade pedagógica Ensino Religioso

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida, Objetos de Conhecimento: Princípios e valores éticos. Habilidades: Reconhecer-se como parte integrante de uma sociedade pautada em princípios e valores morais, éticos e religiosos.

Questões de aprofundamento:

  1. Comente com seus familiares algumas ideias do texto, sobretudo sobre a forma como eram as aulas de Ensino Religioso no seu tempo de escola (as aulas eram confessionais, interconfessionais ou interreligiosas)? Anote algumas ideias.
  • A maioria dos professores de Ensino Religioso trabalham com o diálogo inter-religioso, ou seja, respeitando todas as religiões e abordando o conhecimento das mesmas, sem fazer proselitismo. Pesquise na internet o que é proselitismo.
  • Segundo o autor do texto, o que mudou na cultuara e na religiosidade do povo brasileiro nos últimos tempos?
  • Qual é a função do Estado, ou da Escola Pública, no que diz respeito às diferentes religiões?
  • Segundo o autor, como devem ser as aulas de Ensino Religioso?

Cenários do futuro pós-pandemia

Já pensou em quais aspectos serão
predominantes ao final da pandemia?
Quais irão morrer?
Cada um terá sua resposta,
mas outras deveremos
construir na coletividade.


Projetar cenários pós-pandemia é um exercício que todos fazem em conversas informais. A frase que mais ouço ou leio no meu cotidiano é: o mundo será diferente. Mas qual mundo diferente poderíamos concatenar?

Há métodos científicos para projetar esse novo mundo. Os cenários futuros são tema do design estratégico e comuns a arquitetura. A partir de enquetes, coleta de dados, opiniões, hábitos de consumo, jogos e inúmeros instrumentos cujos nomes técnicos são inúmeros e variados é possível depreender o que mudará.

Por ora, apliquei nenhuma dessas metodologias, mesmo crendo estar habilitado para realizar esse esforço científico como parte de uma rede comunitária para buscar interpretar o futuro. Entretanto é possível, mesmo sem a pesquisa, obter pistas. Por isso, é apenas um rascunho de projeção de cenários.

Deleuze e Guattari afirmam que o capitalismo territorializa comunidades, oferecendo axiomas (benefícios, hábitos de consumo, bens) para domar os seres. Esses axiomas, no momento, são fique em casa e use máscara. Entretanto, o capitalismo precisa sobreviver como gerador de lucro, senão morre em si.

Como o capitalismo encontra-se periodicamente em falência, necessita inventar novas necessidades ou benefícios, ou seja, axiomas, para continuar existindo.

Dentre esses novos axiomas que a pandemia nos oferecer é possível depreender a ascensão inevitável do online como método de comunicação e vida. É como se buscássemos uma matrix onde apresentamos o melhor de nós nas redes sociais e assim o mundo analógico a nossa volta se curvasse diante do digital. Assim sendo buscamos amores, perfeições, risos e tudo o mais nos ecrãs, nas telas, e fornecer aos demais um pouco desse conteúdo no formato que cada rede social permite que o façamos.

Nos hábitos profissionais, há uma divisão clara entre os que podem ficar em casa em teletrabalho e os que necessitam estar presentes no universo analógico, realizando transporte de indivíduos, alimentos, bens de consumo, produzindo e viabilizando a realidade física. Todavia, há ainda uma busca – que sempre existiu ao longo da história – de reduzir ao máximo a necessidade dos seres utilizarem seus corpos como máquinas e, em alguns casos, a mente sendo substituída pela Inteligência Artificial (IA).

Na agricultura, pecuária, fabricação de máquinas, veículos e equipamentos já há uma mecanização milenar. O escritor Aldous Huxley, nos anos 1950, projetou o que acreditava ser o século XXI.

Em meados do século XX, a humanidade precisava de corpos saudáveis e consumir grande carga calórica para realizar as tarefas que viabilizassem a vida em comunidade. A mecanização, há muito existente, ainda era insuficiente para evitar que todos trabalhassem arduamente de oito a doze horas por dia.

Naqueles anos 1950, imaginou que o século XXI seria da preguiça, do consumo da arte e de que a mecanização supriria todas as necessidades. Os humanos trabalhariam cada vez menos e as artes seriam essenciais para o entretenimento. Em uma parcela da humanidade isso se tornou realidade. Há países que adotaram renda básica de valores consideráveis e períodos de trabalho de 30 horas semanais ou menos.

Para muitos, ainda há o medo da escravidão, os salários baixos e o trabalho extenuante e o medo de não ter possibilidade de sobreviver. Todavia, o capitalismo está fragilizado e, por isso, mesmo os ultraliberais já defendem programas de renda mínima e produção de dinheiro para manter ativa a roda do capitalismo. Há, inclusive, a defesa da manutenção desses programas na pós-pandemia. Somente no Brasil, cerca de 50 milhões necessitam dessa verba para conseguir se manter vivos, consumindo o mínimo necessário de calorias e tendo um teto sobre as cabeças.

Uma outra tendência é que apenas o que está online se torna digno de consulta. Portanto, os conteúdos analógicos perdem cada vez mais espaço. Há, sim, consumo de livros, revistas, long plays e outros bens culturais analógicos. Todavia os precários serviços de correios e os preços tornam, cada vez mais, o online como principal fonte de cultura.

Ao mesmo tempo, ao invés de priorizar os clássicos, em qualquer plataforma, há a busca de uma produção constante de conteúdo, demonstrando que existem sociedade vivas que buscam solucionar suas angústias e expectativas se utilizando da linguagem e formatos contemporâneos para se comunicar.

O próprio dinheiro em papel, portanto analógico, começa a deixar definitivamente de ser utilizado como veículo de troca e, assim como já acontece na China, as moedas online se consolidam, inclusive com programas de descontos e pagamentos. Os bancos possibilitam, inclusive, a transferência de pontos do cartão de crédito para alimentação.

Há meses não há produção comunitária de filmes, séries, novelas e outros produtos que demandam o convívio e a troca pessoal. Todavia explodem produtos feitos a distância – lives, comédias individuais, debates online e outros. No universo dos jogos há esse convívio comunitário. Jogadores de locais diferentes lutam, constroem, disputam em milhares de jogos eletrônicos que surgem diariamente em diversos pontos do mundo.

Há, também, o consumo dentro do jogo. Ao invés do indivíduo adquirir uma camiseta de marca, por vezes prefere gastar dinheiro real em um avatar online transitório.

Tempo é dinheiro, diz a frase capitalista. Se assim o for, nosso tempo está sendo aplicado cada vez mais nesse universo em que se prega o distanciamento social, o fim do contato físico com exceção do familiar. É como se cada vez mais nos tornássemos unidades autônomas em direção a solidão.

O axioma do “Fique em casa” também faz com que pensemos sobre nossas residências. São grandes, pequenas, mal localizadas, bem localizadas? Uma tendência imobiliária em capitais é a de valorizar primeiro a localização e por último o tamanho das casas. Os prédios construídos nas últimas décadas são cada vez menores e as casas ínfimas da China, Coréia e Japão surgem, por vezes, nas linhas do tempo para lembrar que o espaço se tornou cada vez menor e opressivo em nome do lugar.

A pandemia faz lembrar que viver próximo potencializa doenças e que ficar preso em espaços mínimos faz com que sonhemos cada vez mais em locais amplos. Mas onde está essa amplidão?

Na periferia, nas cidades do interior, nas proximidades do campo, em inúmeros locais onde a imaginação dos indivíduos possam almejar. Entretanto esses grandes espaços não são supridos pelas construtoras contemporâneas. Porém, o trânsito, o tempo de deslocamento até o trabalho e aos centros de consumo fazem com que os pequenos espaços sejam aceitos e vividos em nome do conforto comunitário.

Por último e, por óbvio, a forma como convivemos e passamos pela pandemia depende da ciência e da adequada interpretação e transmissão dos conhecimentos necessários para sobreviver enquanto o vírus está ativo no ambiente. Portanto, os que são afeitos a notícias falsas são inimigos da sobrevivência da humanidade.

Todavia, há um movimento de extrema-direita que ganhou o poder em inúmeros países que se mantém graças a propagação de notícias falsas em profusão. Nesses países, em especial nos EUA de Trump, há muito mais casos do que onde o cenário político tem, como característica, o respeito pela ciência e ao conhecimento.

Qual será o futuro?

Acima fiz um pequeno recorte, comentários sobre o que percebo nesses tempos. A partir dessas considerações é possível que eu desenhe um cenário particular, que não se trata de ciência, mas de percepção e opinião.

A partir das percepções acima citadas, é possível depreender alguns elementos que possam estar presentes nos próximos anos. Algumas pistas já apresentei.

Dentre elas, estão:

– Redução drástica do consumo da cultura analógica (livros, revistas, cd, long plays);

– Consolidação das moedas digitais, sejam por aplicativos, jogos ou cartão;

– Aumento exponencial do teletrabalho;

– Redução do deslocamento em vias urbanos;

– Revalorização do bairro como local de convívio;

– Busca de espaços maiores para viver, em detrimento a localização;

– Revalorização da ciência como fonte de bem estar;

– Rejeição dos propagadores de notícias falsas;

– Nova onda de mecanização da produção dos bens de consumo;

– Convívio online aumentado via jogos online e redes sociais;

– Revalorização do núcleo familiar;

– Aumento da solidão nas grandes cidades;

– Internet sendo valorizada como mídia dominante;

– Inteligência artificial e nova onda de mecanização para reduzir o uso da mão de obra;

– Redução do tempo dedicado ao trabalho;

– Entretenimento como sentido para a vida ao invés do trabalho extenuante.

Quais outros aspectos serão predominantes ao final da pandemia? Quais irão morrer? Cada um tem uma resposta particular. Mas também necessitamos de uma pesquisa científica avalizada em métodos para que possamos ter uma abalizada interpretação do porvir.




A pandemia de coronavírus escancara para toda a sociedade as imensas desigualdades brasileiras e evidencia a necessidade se criar no país um pacto social que inclua toda a população. Além disso, temos que enfrentar a concentração de renda e riqueza no país, e garantir direitos e acesso a políticas sociais. Essa foi a tônica da live realizada nesta quinta-feira (23/4) pela Oxfam Brasil em seu canal no Youtube.

Imposições da pandemia em 2020: vida material e reconexão intencional e consciente

O funcionamento das mentes consciente e subconsciente, os hábitos, construídos pela repetição de comportamentos e as crenças representam a base, o fundamento ou essência de cada ser humano, está sendo desafiado para se repensar e se adaptar, diante das imposições de uma nova época.

Um vírus disseminado em 2020 está sendo responsabilizado pela abreviação da trajetória material de milhares de pessoas. Entre as características das vítimas, pode estar incluídos um histórico de auto cuidado precário com o corpo e com a mente. Estes cuidados são de auto responsabilidade, contudo o modelo de produção material e de satisfação psicológica é um aspecto central para uma descrição apropriada do que estamos vivendo.

A relação entre modelo educacional, o produtivismo e consumismo ilimitados, para atender necessidades secundárias ou artificiais precisa ser detectado e ressignificado para que a vida seja priorizada.

A relação entre mente e comportamento é complexa e sua conexão é, em grande medida, desconsiderada pelos modelos educacionais. Trata-se de uma relação tematizada insuficientemente, pela ciência hegemônica de base cartesiana materialista, que considera a mente algo imaterial e separado do corpo material.

No entanto, o funcionamento das mentes consciente e subconsciente, os hábitos, construídos pela repetição de comportamentos e as crenças representam a base, o fundamento ou essência de cada ser humano, que está sendo desafiado para se repensar e se adaptar, diante das imposições de uma nova época.

A crise dos modelos educacionais lineares, sejam eles escolares ou familiares, focados da transmissão padronizada de conhecimentos pré-estabelecidos, já estava sendo substituída por modelos que consolidam comportamentos ativos de todos os sujeitos envolvidos.

Com a ampliação no uso da tecnologia para acessar informações, os educadores, sejam eles pais ou professores, definitivamente, devem assumir a função de mediadores e não detentores da informação ou do conhecimento.

Mais do que um mero desafio se trata de uma revolução, pois atinge e um aspecto central, constituidor da própria identidade, impondo uma mudança no comportamento, no sistema de crenças, no funcionamento do aparelho psíquico e no modo de pensar.

O desenvolvimento da capacidade de se adaptar e sobreviver, diante das novas imposições, será uma referência relevante para o sucesso individual e coletivo. A construção de novos hábitos é o fator decisivo e possibilitará que algumas pessoas alcancem seus objetivos, enquanto outras permanecem presos ao comportamento distópico, diante da nova época que está em curso.

Esta mudança de hábitos exige que as decisões feitas “no piloto automático”, baseadas em ideias já estabelecidas em nosso inconsciente, sejam substituídas por decisões refletidas, criativas, inovadoras e intencionais.

As mudanças impostas em 2020, sugerem um espaço maior para reflexões, a respeito das conexões entre necessidades básicas e secundárias ou artificiais, entre o ser humano e a natureza, bem como dos seres humanos entre si. Nisto deve estar incluído uma atenção privilegiada para obsolescência do acúmulo material e para as conexões entre as dimensões físicas e imateriais ou mentais da existência.

Para quem deseja êxito diante das imposições, uma das alternativas é aumentar a atenção e os cuidados com as conexões entre a mente consciente, que constrói as intenções, os hábitos e comportamento.

A pandemia sob o olhar de um psiquiatra

Jorge Alberto Salton é médico, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (1975). Especialista em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1978). Mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1984). Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (1986) Professor Titular III Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo: (a) psiquiatria (b) semiologia e relação médico-paciente (c) educação e ética médica.

Diretor de filmes voltados para a área médica: 1. Diga Três: os bastidores da medicina (2008); 2. Mirante Strzelecki (2009); 3. Feedback positivo (2010); 4. Ambulatório das falsas crenças (2011). 5. Encontros em Berlim. Um filme sobre a compaixão (2013). Cursos online no site: www.salton.med.br. Palestras e cursos sobre: Como gostar da medicina hoje e evitar as síndromes emocionais ocupacionais da profissão.

Conhecemos também Jorge Alberto Salton, em nossa cidade Passo Fundo, por sua dedicação à literatura. Escreveu, dentre outros livros, “O maniqueísmo em nossas vidas” e “Convivendo com pessoas difíceis”.

Salton divide sua vida profissional atuando como professor, escritor e atendimento em consultório como psiquiatra. Mais recentemente, começou a produzir pequenos vídeos onde aborda parte de sua história e temas de suas reflexões.

***

SITE NEIPIES: Por que escolheste ser médico e qual a razão de ter escolhido a psiquiatria?

SALTON: A decisão foi de última hora. Mas, provavelmente, dentro de mim havia essa motivação. Tive um pediatra, Dr. Telmo Ilha, que atendia a mim e a meus irmãos em casa. Éramos quatro, então era mais fácil vir a nossa casa e atender a todos. Era alguém que escutava o que sentíamos e transmitia uma calma muito grande. Quando ele chegava, os medos todos passavam.

SITE NEIPIES: O que mais lhe realiza e o que mais lhe desafia como médico psiquiatra?

SALTON: Vou completar 45 anos de profissão. Naturalmente, venho diminuindo meu trabalho. Os anos pesam, mas quero continuar trabalhando enquanto tiver saúde. O que mais me faz continuar é a sensação impagável de aliviar o sofrimento de uma pessoa.

SITE NEIPIES: Por que também escreves, te envolves com literatura? Qual é o papel da literatura na tua vida de médico psiquiatra?

SALTON: Fui estimulado a ler por meu avô materno, Armando Annes. Também a escrever. Bem pequeno eu escrevia um jornal “O Informador” que tinha um único leitor: meu avô. Era uma folha amarela dobrada no meio fazendo com que o jornal tivesse quatro páginas. Copiava de revistas, de livros, recortava fotos de jornais e colava. Creio que escrever, de certa forma, é me reunir com ele. Ainda hoje é.

SITE NEIPIES: Que conhecimentos dos seus livros “O maniqueísmo em nossas vidas” e “Convivendo com pessoas difíceis” podemos aplicar, diante dos desafios do atual momento histórico do Brasil?

SALTON: Tenho feito vídeos curtos de três minutos sobre esses temas. A princípio destinados a meus alunos nas faculdades de medicina que leciono (UPF e IMED), mas estão liberados para todos. Convido-os a entrar no canal do Youtube Jorge Salton. Em alguns deles, explico o pensamento maniqueísta que está dentro de todos nós. Atualmente, tem dominado nosso cenário político. Inclusive, a pandemia virou “caso de política”, infelizmente.

O maniqueísmo gera muito sofrimento: provoca conflitos de relacionamento e impede que se encontre soluções construtivas para as mazelas desta vida. Atualmente está presente de forma mais acentuada. Sempre foi endêmico, agora se mostra epidêmico.

Veja vídeo “Gandhi e Mandella não eram maniqueístas”

SITE NEIPIES: Por que também fazes e diriges filmes voltados à medicina e aos grandes dramas humanos?

SALTON: Encontrei um grupo de pessoas que se dispuseram a fazer gratuitamente obras cinematográficas: atores, alunos, colegas, profissionais de vídeo. E, em consequência, fizemos alguns filmes de longa metragem que circulam no meio acadêmico, em congressos, em faculdades. Um deles está no canal do Youtube que referi antes. Chama-se Meu lugar para Anne.

SITE NEIPIES: O que a psiquiatria tem a dizer sobre as consequências do isolamento ou distanciamento social e as reais ameaças à vida de todos nós pelo Covid 19?

SALTON: Uma situação inusitada. Dependendo das condições de vida, a pessoa poderá “crescer emocionalmente” nessa crise. Dependendo, fica muito difícil. O mais importante é manter a esperança: mais dia menos dia conseguiremos superar. Até lá, temos de procurar encontrar alternativas.

SITE NEIPIES: Qual é a função da educação e das escolas, diante de um fenômeno da Pandemia, agora em tempos remotos e precários, e quando voltarmos às atividades presenciais?

SALTON: Nós estamos lecionando via aplicativo. Na medicina da UPF o aplicativo usado é o MEET. Na medicina da IMED temos usado o ZOOM. É muito interessante essa modalidade de ensino. Os alunos estão esparramados pelo Brasil. Um participa de São Joaquim, outro de Rondonópolis, para citar exemplos. Eu penso que essa tecnologia veio para ficar. Teremos sempre aulas presencias, mas muitas continuarão, creio, via aplicativos.

SITE NEIPIES: Na sua opinião, o que estamos aprendendo, como indivíduos e como sociedade, com esta pandemia? Sairemos melhores desta crise?

SALTON: Esperamos que sim, mas só o tempo dirá. Talvez, a sociedade como um todo, valorize mais a pesquisa científica. Pois estamos na dependência dela para encontrar medicamentos e vacinas. Só assim conseguiremos retornar a vida anterior.

SITE NEIPIES: O que dirias aos professores e professoras que se veem diante de tantos desafios educacionais e de humanização?

SALTON: Eu sou professor há mais de quarenta anos. Gosto muito da atividade. Com certeza, o professor precisa de mais condições para exercer seu trabalho e para viver.

 No ano que passou, estive em dez escolas de ensino médio fazendo palestras e interagindo com alunos e professores. Me impressionou o desembaraço dos jovens de hoje e de sua facilidade para se expressar, para usar a tecnologia e sua vontade de viver. A partir de temas de literatura, acabávamos refletindo sobre o comportamento humano. Uma atividade muito gratificante, aprendi muito sobre a realidade dos jovens de hoje.

SITE NEIPIES: Uma frase, um pensamento, que lhe defina.

SALTON: Não tenho uma frase que me defina. Pois a definição de nós mesmos vai sofrendo modificações ao longo da vida. Creio que o dinamismo da vida de todos nós dificulta essa definição. Inclusive, eu lembro sempre da crônica de Euclides da Cunha “A vida das estátuas”. Até elas, objetos estacionados, parados, estão em “movimento”: representam toda a ação de uma geração em dado momento histórico.

SITE NEIPIES: Uma frase, um pensamento, que traduza como, na sua visão, o mundo deveria ser.

SALTON: Algo de muito bom aconteceu: há um quase consenso de que a vida deve ser justa, igualitária, que todos tenham as mesmas oportunidades. E assim temos um parâmetro para julgar a atuação daqueles que nos comandam. Estão correspondendo a esse consenso?

Penso que o estado democrático de direito é o menos pior de todos os regimes. Que a existência de vários poderes – executivo, judiciário, legislativo, imprensa, sindicatos, religiões, organizações civis as mais variadas – é o melhor caminho. Pois quando um poder se afasta desse quase consenso de que falei, sempre haverá a reação dos outros poderes.



O professor do curso de Medicina da IMED, Psiquiatra, Cineasta e Autor de Livros, Jorge Alberto Salton, comenta o que é necessário fazer para sentir-se feliz e realizado na profissão que escolheu. Assista ao vídeo que gravamos com o professor no Hospital Escola da IMED.



Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Conselho Estadual de Saúde e sua atuação em tempos de Pandemia

O papel de um Conselho Estadual de Saúde é a formulação de estratégias e o controle da execução da política de saúde, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros. O conselho analisa e aprova o Plano Estadual de saúde. Analisa e aprova o relatório de gestão. Informa a sociedade sobre a sua atuação. Sua atuação é colegiada.

A composição de um Conselho Estadual de Saúde é paritária – 50% de representantes de usuários do SUS, 25% de profissionais de saúde e 25% de gestores e prestadores de serviços de saúde. Ele é composto por representantes do governo, profissionais de saúde, usuários e prestadores de serviços.

Em tempos de Pandemia do Covid 19, onde a Saúde cumpre papel fundamental para garantir a vida e os tratamentos dos infectados, sem termos uma vacina e nem tratamentos previamente definidos, como atua e como se posiciona um Conselho Estadual de Saúde?

Mesmo atuando de forma virtual, o Conselho Estadual de Saúde no RS faz enfrentamentos duros e difíceis com a questão do Covid. Mas também continua fazendo suas atividades Plenárias nas diferentes regiões do estado, discutindo o Plano Estadual da Saúde e as demandas do conjunto da população de todo nosso estado. E, no futuro, pautará também o acesso às vacinas, quando elas estiverem disponíveis. Serão disponibilizadas a todos? A que custo?

Com a intenção de entender a interlocução, o papel e a importância do Conselho Estadual do RS, entrevistamos seu presidente, Senhor Cláudio Augustin, que representa a CUT (Central única dos trabalhadores), no segmento Usuários.

***

SITE NEIPIES: O Conselho Estadual da Saúde no RS, tem, historicamente, atuação com bastante incidência na condução das políticas de saúde. O que mudou na sua atuação com o evento Pandemia da Covid 19?

CLAUDIO AUGUSTIN: A nossa mudança de postura foi bastante forte porque a nossa avaliação preliminar é que para enfrentarmos o Covid teríamos que ter uma política nacional de enfrentamento unitária. Nós não estamos fazendo isso porque o presidente da República resolveu que a pandemia é uma gripezinha e que não acontece nada. Estamos com quase 50 mil mortos e ele continua dizendo “e daí”? .

O quadro que temos é a falta de uma política nacional de enfrentamento ao Covid. A falta desta política está sendo criticada pelo Conselho Estadual de Saúde. Desde o primeiro momento, apontamos que haveria a necessidade do isolamento social, em primeiro lugar, segundo, as atividades essenciais que não podem fechar no caso como este, vou dar um exemplo da área da saúde, os supermercados, transporte coletivo, indústria de alimentação, a produção de alimentos agrícolas e alguns outros tem de funcionar. Mas para poder funcionar tem que ter segurança para aqueles trabalhadores. Temos de ter EPIs e segurança no trabalho. Nós achamos que não há uma política efetiva nesta linha.

Segunda questão: haveria a necessidade do Estado brasileiro garantir aos setores mais frágeis da sociedade. Deveria ter uma política de garantia de renda para amplos setores da sociedade brasileira e gaúcha, não só do trabalho informal, mas também pequenas e médias empresas. Trabalho mais vulnerável: quem trabalha de dia para comer de noite e que não tem como garantir sua renda não trabalhando desta forma. Não houve esta proposta, houve uma proposta inicial de 200 reais por família que o Congresso Nacional conseguiu elevar para 600 reais e muitos setores ainda não receberam ou receberam muito tempo depois. Isto tudo elevou a pressão para as pessoas voltarem ao trabalho.

Assim como deveria ter, já que estamos numa situação de guerra, uma reestruturação produtiva no Brasil. O que é isso? A indústria brasileira que é potente, com um dos maiores parques industriais do mundo, produzir equipamentos e insumos para a pandemia.  Nós poderíamos estar produzindo Kits de vacinas, insumos e EPIs necessários para uma série de áreas onde está faltando hoje para o tratamento das pessoas. Teria que fazer uma reconversão industrial que garantisse respiradores, uma série de atividades que agora, neste último momento, só agora, começa ser pensado. Perdemos um tempo muito grande.

O Conselho Estadual de Saúde apontou para a necessidade destas políticas, só que estas questões não foram efetivamente levadas a cabo, nem pelo governo do Estado, muito menos pelo Governo Federal. Perdemos tempo precioso, que será caro que será pago com destruição de muitas vida e com muita destruição da economia quanto da capacidade de resgatar o processo histórico no segundo momento.

SITE NEIPIES: Qual é a importância do SUS e do Controle Social no enfrentamento à crise do Covid 19?

CLAUDIO AUGUSTIN: Se não tivéssemos o SUS, teríamos um grau de mortes muito mais elevado. Mesmo com o SUS tendo uma política de desfinanciamento histórico, depois da Emenda 95 e da política de mudança da atenção básica e desestruturação do Sistema Único de Saúde pós golpe de Estado com impeachment sem crime de responsabilidade da presidenta Dilma. Com Temer, houve uma mudança na política de Atenção Básica, com a Emenda 95 e teve mudança agora, já no governo de Bolsonaro a mudança de vários critérios de financiamento da Atenção Básica e que desestabilizou a estrutura básica do SUS. Além disso não está sendo seguido o conhecimento técnico e científico para o enfrentamento do Covid.

Nós temos no Brasil técnicos, temos conhecimento, temos a FIOCRUZ que poderia estar produzindo muito mais respiradores, muito mais insumos necessários e não está fazendo mais por falta de incentivo e de dinheiro federal que deveria ser colocado.

O SUS garante o atendimento, mas poderia ter sido muito melhor se houvesse uma política efetiva de controle da epidemia. Se nós tivéssemos segurança nos locais de trabalho, se tivéssemos uma política de equipamentos necessários para proteção dos trabalhadores da saúde, se tivéssemos o desempenho e a política de garantia à atenção básica, nós poderíamos estar fazendo busca ativa e fazendo com que aquela pessoa que fosse contaminada fosse identificada e isolada para evitarmos maior transmissão.

Mas isso não acontece, algumas cidades estão fazendo isso como São Leopoldo, no RS. No Nordeste, o Consórcio dos governadores está fazendo muitas coisas nesse sentido, mas não há uma política nacional e aqui no Estado do RS, quando ocorre uma política efetiva, ela é localizada por um município ou por um grupo de pessoas que está fazendo, não por uma política pública estadual ou nacional.

SITE NEIPIES: De quem é a responsabilidade por eventuais falhas de atendimento do Sistema? (profissionais: médicos e equipe multidisciplinar ou dos gestores?)

CLAUDIO AUGUSTIN: Cada falha do atendimento, tem uma responsabilidades. Muitas vezes o usuário do Sistema pode achar que é o profissional. Muitas vezes é o profissional que não atende como deveria atender. Mas muitas vezes não é o profissional e, sim, a falta de estrutura e condições daquele profissional exercer o seu trabalho e garantir o atendimento adequado.

Nós podemos dizer com certeza que o SUS, apesar da falta de recursos e alguns problemas, é o maior sistema de saúde público do mundo, e boa parte deste trabalho e desta construção é fruto da dedicação dos profissionais da área de saúde do SUS. A esmagadora maioria dos profissionais é séria, competente e que atuam para garantir a eficácia do sistema.

SITE NEIPIES: Qual deve ser a centralidade no enfrentamento à crise do Covid 19? Atenção Básica?

CLAUDIO AUGUSTIN: Eu entendo que sim. É a prevenção. Nós temos que fazer testes, temos que identificar quem está com o Covid, temos de evitar que o vírus se alastre. Para isso é isolamento e distanciamento social. É evitar que quando identifica-se alguém contaminado, esta pessoa tem de ser isolada das demais.

Se não tem condições de isolar-se em sua residência, o Estado tem que garantir o seu isolamento num hotel ou num acampamento ou alojamentos. O Estado tem de fazer isso. Se nós fizéssemos isso teríamos uma redução drástica da contaminação.

Além de evitar o contágio que estamos assistindo de forma assustadora dos profissionais da saúde. Nós temos que ter a garantia de que todo sistema de saúde está seguro. Segundo, e para isso, temos de ter várias questões: testar os profissionais da saúde, ter os EPIs adequados, temos de ter câmeras de descontaminação nos locais de serviço de saúde. O que está acontecendo é que muitas pessoas chegam ao local de trabalho, por exemplo num hospital, e que estão contaminadas e não sabem, contaminando os demais. Assim como tem pessoas que são obrigadas a baixar o hospital para procedimentos de urgência ou emergência e podem se contaminar através destes procedimentos.

Temos de garantir a segurança. Por não ter esta segurança, estamos vivendo neste momento no Brasil e no RS, estamos negligenciando diversas doenças com o não atendimento. Hoje, a estrutura hospitalar se voltou quase toda ao Covid e a atenção básica deixou de atender várias enfermidades. Várias doenças que são adquiridas pelas pessoas ou agravadas pela falta de atendimento, exames ou consultas. Esse processo de agravamento está tendo uma demanda reprimida, as filas que existiam para cirurgias ou vários procedimentos estão represadas e irão agravar no segundo momento em que estamos entrando no período mais crítico que é o inverno.

Estamos chegando num ponto bastante difícil, até por uso de UTIs para enfermidades decorrentes do inverno. A previsão que estamos fazendo é de um possível colapso no Sistema de Saúde no RS.

SITE NEIPIES: De que maneiras a disputa ideológica compromete os rumos do enfrentamento ao Covid 19 no Brasil? Qual é o papel da ciência e dos conhecimentos técnicos?

CLAUDIO AUGUSTIN: O enfrentamento ao Covid tem de ser baseado no conhecimento técnico, na ciência. É a única alternativa que nós temos. O Brasil optou por brigar com a ciência, brigar com o conhecimento técnico. Quem faz isso é o presidente da República. Ele já teve 2 ministros de Saúde durante a pandemia que foram demitidos e agora estamos há mais de um mês sem ministro da Saúde.

A questão é que não são discutidas alternativas políticas de evitar a pandemia. O entendimento do governo federal é que a pandemia é uma gripezinha, e que algumas pessoas vão morrer, e daí. Esta é a fala do Presidente da República.

Nós temos conhecimento técnico, temos profissionais na área da saúde que são espetaculares. Está havendo um Convênio do Instituto Butantan com empresa privada que vai produzir em pouco tempo testes rápidos de PCR que pega o vírus em atividade. Não só como os testes rápidos que dão positivo ou negativo. É produção brasileira, pesquisa brasileira. Assim como foram desenvolvidos diversos respiradores brasileiros, pelas universidades, sem nenhum apoio governamental.

A saída da pandemia passa pela ciência, pelo conhecimento técnico, pela produção de vacinas que o Brasil está fazendo um processo com grupos de pesquisa para fazer a vacina. Nós temos uma estrutura de vacina invejável no mundo, a maioria produzidas no Brasil pela FIOCRUZ. Então nós temos estrutura, temos conhecimento. O que está faltando é recursos para apoiar todas as iniciativas.

O Brasil optou por aprovar a Emenda 95 que retirou dinheiro da Saúde, retirou dinheiro da educação, retirou dinheiro da pesquisa para dar aos bancos.  Está na hora de acabar com a Emenda 95 e colocar dinheiro na pesquisa, na ciência, na saúde, na educação. Temos todas as condições estruturais de enfrentar a pandemia e sairmos fortalecidos deste processo, como um todo. Para isso, é preciso revogar a Emenda 95e tirar estes governantes que simplesmente querem a destruição de nosso país.

SITE NEIPIES: Por que o Conselho Estadual da Saúde não confia no Isolamento físico controlado, uma das maiores estratégias já apresentadas pelo Governo do Estado do RS?

CLAUDIO AUGUSTIN: O Conselho Estadual de Saúde tem uma posição extremamente contrária a isso. O Conselho fez um documento se posicionando contra o distanciamento social proposto pelo governador Leite.

Por que é que somos contra? Embora ele diga estar embasado na ciência e na técnica, não é conhecimento cientifico e nem ciência. O conhecimento que traz ali é simplesmente interesse econômico.

Vou dizer porque. O decreto que cria as bandeiras estabelece que o critério para a cor da bandeira e a cor da bandeira define o que abre e o que não abre, de que forma abre cada estabelecimento e tipo de atividade econômica está baseado em dois fatores. Primeiro, a velocidade da contaminação do Covid e o segundo fator a capacidade de atendimento da saúde. A velocidade da contaminação no RS está completamente subnotificada por falta de testes. Sem testagens, não tem como precisar. Mas ele deve ter no mínimo 20 vezes mais pessoas contaminadas do que mostram os dados oficiais.

Por outro lado, a capacidade de atendimento das pessoas é medida pelas UTIs, como se o Covid fosse somente UTI. E se nós olharmos as UTIs que temos no Estado e as UTIs que estão sendo credenciadas pelo Ministério da Saúde, muitas delas não estão sendo abertas. Estão credenciadas e não estão sendo abertas por um dado muito simples: estão tendo os equipamentos, inclusive o respirador, mas não se tem os profissionais para trabalharem com elas pela alta contaminação dos profissionais da saúde. É assustador o número de pessoas que estão contaminadas e as pessoas que já morreram na área da saúde no mundo todo.

O Brasil está batendo recordes em todos os sentidos. Nosso problema é sério: estamos nos baseando sem testes e com UTIs. As duas informações são temerárias. Além disso, o outro critério que define abertura ou não, de qual atividade econômica pode abrir ou não e de que forma é, é o risco daquela atividade econômica em relação à sua participação no PIB. O risco da atividade econômica foi feito através de um cálculo absolutamente temerário porque foi usado como base de cálculo as ocupações americanas feitas pelo Departamento do Trabalho dos EUA.

O conceito de ocupação feito nesta pesquisa é diferente do conceito de ocupação que temos no Brasil. Além disso, eles fazem uma média dessas ocupações por atividade econômica. Igual na atividade econômica, o mesmo risco.

Pergunto a vocês, de forma singela: vocês acham que o trabalhador rural, aquele que trabalha com a soja, o risco dele é o mesmo daquele que trabalha com agropecuária? Ou na pecuária de leite? Ou na produção de frango ou de porco? São atividades totalmente diferentes e todas são atividades econômicas da área agropecuária. E nós temos também dentro da atividade agropecuária o trabalho do peão da fazenda, tem o que faz o trabalho daquele que trabalha culturas com alta tecnologia e as culturas que utilizam a mão de obra direta, como a produção do feijão, por exemplo.  O problema é que iguala todo mundo.

Eu não posso considerar que uma indústria metalúrgica de alta tecnologia que utiliza robô é a mesma coisa que a indústria de implementos agrícolas ou uma serralheria de fundo de quintal. Portanto, iguala coisas distintas como se fossem a mesma coisa.

E mais, para saber o que pode ou não pode abrir é feito um cálculo e este cálculo tem um componente político dito pelo próprio decreto: que quem define o alfa desta equação, do que pesa mais o risco da atividade econômica é o gestor da crise. Portanto, é um cálculo político que não tem nada de técnico e muito menos científico. É uma enganação que está sendo feita ao povo gaúcho.

As consequências disso estão aparecendo. Ao fazer as bandeiras, percebemos agora que temos uma inclinação positiva da curva de contágio do Covid. Estamos num processo de ascensão da curva, e não declínio.

Todos os países e todos estudos mostram que só abrir atividade econômica quando tivermos uma taxa de transmissão abaixo de 1. A taxa de transmissão no RS, segundo próprio governo, é de 1,5.

O RS está indo contra todo o conhecimento técnico e científico produzido pela humanidade. É mais uma enganação do governador Eduardo Leite. Ele tem a mesma posição do presidente da República Bolsonaro, só que ele apresenta ela de uma forma diferente.

SITE NEIPIES: Volta segura às aulas presenciais no RS. O que podemos prever?

CLAUDIO AUGUSTIN: Somos absolutamente contrários à volta às aulas. Inclusive nesta tarde (19/06/2020), teve uma reunião do COE da área da Saúde no qual o Conselho da Saúde faz parte e houve essa discussão. Nós deixamos claro que somos contra as bandeiras e não temos que discutir abertura de salas de aula. Todos os estudos mostram que a abertura de aulas neste período vai levar a uma elevação assustadora da contaminação.  Somos contrários. É uma irresponsabilidade.  Quando tu começou a abrir a atividade econômica, mais pessoas e famílias voltam obrigadas para atividade econômica. Ao voltar para o trabalho, os filhos vão ser tensionados para a abertura de escolas. Abrindo as escolas vamos ampliar muito a contaminação. Seria uma loucura e tentaremos evitar para que não seja implementada no RS.

Nós estamos chamando esta política do governador de política genocida. Inclusive, vários prefeitos fazem o mesmo. O prefeito de Porto Alegre, por exemplo, abriu além do Decreto do Governador e depois teve de recuar pela grau assustador de contaminação na cidade.

Chegou o ponto de que os dois principais hospitais do RS, o GHC e o Clínicas, que sozinhos somam em torno de 60% ou mais de todo atendimento do RS, os dois hospitais e direções técnicas tem informado que só terão leitos pelos próximos quinze dias, se não mudar o crescimento e velocidade da quantidade de pessoas contaminadas em estado grave, o RS não terá mais leitos de UTI para atender as pessoas infectadas em quadro grave e poderemos, infelizmente, chegar ao ponto de empilhar mortos.

Voltar às aulas em curto espaço de tempo é um quadro inaceitável que só piorará a nossa situação de saúde no RS.

SITE NEIPIES: Como avalias a criação do Comitê Popular por Saúde, Democracia e Direitos, na cidade de Passo Fundo, RS?

CLAUDIO AUGUSTIN: Eu quero cumprimentar Passo Fundo. Quero cumprimentar os lutadores de Passo Fundo. Tenho acompanhado o Comitê quase desde o início, acho que é uma grande saída. Ele surge para que? Para fazer o enfrentamento contra a política suicida e genocida de vários governantes. Portanto, a resistência popular é a saída que nós temos para enfrentar isso.

Nós podemos contar com alguns governantes, mas boa parte deles não são aliados.  Eles estão absolutamente na dependência dos interesses econômicos e nós teremos eleições municipais este ano. Muitos prefeitos querem ser financiados pelo poder econômico e portanto farão a sua política. Mas cabe ao conjunto da sociedade, ao conjunto dos trabalhadores a se organizarem e dizer: “Nós queremos a defesa da vida”. Nisso, o Comitê de Passo Fundo é um exemplo e eu tenho citado este Comitê, como os de outras cidades, que são parecidos. O Conselho Estadual tem incentivado e está chamando em todas as Plenárias que a gente faz das Macrorregiões que cada cidade tenha um Comitê como este. Um Comitê de resistência, em defesa da vida, fundamental para este enfrentamento.

SITE NEIPIES: Na sua avaliação pessoal, e como presidente do Conselho Estadual de Saúde do RS, como sairemos desta pandemia enquanto sociedade?

CLAUDIO AUGUSTIN: Para mim, esta é a pergunta mais importante. Eu não tenho como dizer como nós vamos sair desta pandemia, mas eu posso dizer, com toda certeza, o que tenho falado há bastante tempo: nós estamos numa profunda crise do capitalismo internacional. É uma crise econômica, financeira, ambiental, de representação política, ética, moral, etc. A última grande crise desta natureza foi no início do século passado e ela só foi superada depois de duas guerras mundiais e com a destruição da metade da Europa, com o Estado do Bem Estar Social europeu.

Esta crise é maior, mais profunda do que a anterior. Como vamos sair desta crise, vai depender muito de como o conjunto das sociedades enfrentar a própria crise. Se nós tivermos uma resistência popular, se nós organizarmos as bases, se fizermos formação política, se enfrentarmos os desmandos dos governantes e enfrentarmos a desigualdade social, se nós enfrentarmos toda a proposta genocida, nós seremos fortalecidos, muito mais fortalecidos do que estamos hoje.

Agora, se não fizermos isso, nós vamos caminhar para a barbárie.

Portanto, a saída da crise depende de cada um de nós, depende se nós queremos construir uma sociedade justa e igualitária e aí temos que fazer o enfrentamento. Temos que dizer “Não” às políticas genocidas, dizer não à abertura das atividades econômicas, dizer não à falta de recursos para garantir a sobrevivência econômica e de alimentação de amplas camadas da sociedade. Temos de dizer não ao fechamento de empregos.

A Argentina, por exemplo, o que é que fez? Ela tinha uma profunda crise econômica, mudou o presidente e hoje Argentina está bancando todo mundo em casa, os níveis de contaminação são muito menores que os brasileiros, o número de mortes é muito menor.

O dia em que 25 pessoas morreram na Argentina as principais lideranças governamentais foram para a TV e rádio para apresentar seus sentimentos. Aqui no Brasil está morrendo mais ou menos uma pessoa por minuto e o presidente nada faz. E lá o que fizeram? Estão sustentando financeiramente, embora sem recursos. Como vão resolver isso? Vão aplicar um imposto, uma taxação sobre as grandes fortunas e com isso pagar todo o enfrentamento da crise. Nós poderíamos fazer coisas parecidas. Portanto, a saída da crise depende de nós, da nossa organização, da nossa união e da nossa luta. Vamos à luta para construirmos uma vida mais digna e solidária para todos nós.

Um grande abraço a todos!

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Foto capa da matéria: (Foto 1): Juarez Junior, Agência ALRS
Foto 2: Membros do Conselho Estadual Saúde: Divulgação
Foto 3: Ramiro Furquim/ Sul 21
Foto 4: Foto divulgação twiter

O surgimento e a utilidade da filosofia

Filósofo é o homem
que desperta e fala
(Merleau-Ponty)

A verdadeira filosofia
é reaprender a ver o mundo
(Merleau-Ponty)



PARA QUE FILOSOFIA?

O mundo atual é caracterizado pela informação e pela técnica. A cada dia, novos e sofisticados instrumentos são inventados para melhorar nosso bem viver. As telecomunicações nos interligam virtualmente em tempo real e equipamentos, cada vez mais compactos, garantem nosso conforto e interação com o meio em que vivemos.

Nesta perspectiva, a escola geralmente se apresenta como um espaço de formação que busca uma adaptação dos alunos a esta realidade, oferecendo-lhes conhecimento para domínio de técnicas que lhes permitam manusear e transformar o meio em que vivem, isto é, a realidade. Por estes motivos, não é difícil encontrar escolas que se voltem para uma qualificação prioritariamente técnica dos alunos, concentrando suas atenções nas ciências técnicas, conhecidas, também, como ciências naturais.

Então, surgem algumas perguntas: Será que a Filosofia tem alguma “utilidade”? Será que ela pode ser “útil” na formação de “cientistas”? Será que ela não passa de uma mera abstração da realidade? Será que ela é realmente necessária?

Enfim, para que serve a Filosofia? Esta pergunta é importante porque não é estranho ouvir das pessoas que a Filosofia é algo abstrato que não tem nada a ver com a nossa realidade. Segundo estas pessoas, a filosofia não passa de uma divagação sobre assuntos que em nada contribuem com o nosso “bem estar”. Ela não “contribui” para as provas de vestibular, os concursos geralmente não exigem conhecimento na área de filosofia e tampouco existe a profissão de Filósofo.

Ainda, diante do mundo da técnica e da informação, por que discutir o que é a razão, a liberdade, a ética? Por que perguntar-se pelos rumos da nossa sociedade e do planeta? Por que questionar os rumos da ciência e do conhecimento humano?




Quem está no controle: O Pensador ou Pensamento?

Quantas vezes paramos pra observar como está nossa mente? Quase nunca, né?

O mundo está cada vez mais acelerado e tudo pede pressa pra alcançar algo muito valioso no futuro. Estamos correndo para não ficar pra trás, para não sermos engolidos pela concorrência, pelas informações e não correr o risco de ter alguém melhor do que nós.

Estar acelerado não dá a garantia de que as coisas aconteçam na mesma rapidez que supomos. O que de fato acontece é que deixamos de apreciar momentos e pessoas que amamos, deixamos de observar paisagens e provocamos o desequilíbrio emocional, o que nos leva, muitas vezes a comportamentos egoísticos.

Com o ego no comando, entramos em conflito com as pessoas, e isso pode gerar muitos comportamentos reativos capazes e liquidar muitos relacionamentos. É válido, portanto, se questionar: Isto é você ou seu ego?

Quando nos dermos conta de que é preciso fazer autoanalise, questionando inúmeras e todas as vezes que estamos perdendo o auto controle muita coisa pode ser evitada, muitos atritos podem nem chegar a ser gerado. Por isso questione-se: Sou somente isso? Só tenho esse sentimento? Isto está me fazendo bem?  

Desacelerar é preciso e fazer uma autoanálise faz com que tenhamos consciência do quanto estamos nos punindo por algo que não podemos mudar: o outro.

Desacelere e ouça o que o pensador quer e não o que o pensamento está determinando. O pensamento só vai fazer algo benéfico quando estiver doutrinado a excluir automaticamente o ego e deixar que o bem prevaleça.

É no silenciar da mente que ouvimos e percebemos tudo que sentimos e se aquilo está fazendo sentido ou não, é quando o pensador retoma o comando do pensamento.

A busca pelo equilíbrio é árdua e necessita que seja permanente e vigilante, pois um simples vacilo poderá provocar o desequilíbrio. Portanto, vale se questionar se aquilo que está sentindo é real e como seria se pensasse diferente.

Tendo posse do domínio do pensamento poderemos perceber se estamos projetando coisas boas ou se estamos vivendo nas águas ansiosas do futuro. O futuro gera dor invisível quando deixamos ser dominados pelo amanhã, pelo daqui a pouco, pelo “será que vai ser assim?” ou até mesmo “se isso acontecer eu vou ficar na pior!”.

Pare agora e observe por onde anda o pensamento. Tenha certeza de que quem manda é o pensador, de que tens o livre arbítrio e pode mudar sua realidade e seu futuro a partir de agora.

Não estou dizendo com isso que o futuro não deva ser pensado ou planejado, mas que o plano ou objetivo deve ser traçado e através de metas diárias ser posto em pratica, sem dor, sem auto cobrança. Tendo a consciência de cada conquista e assim perceber que dia após dia está mais perto do futuro planejado.

Muitas decisões e planos para o futuro são norteados pelos nossos valores. A conquista valerá a pena se tiver com quem celebrar.

Pessoas sempre serão mais importantes que coisas, mesmo neste mundo acelerado, mesmo com planos para o futuro. Não vale a pena repetir as crenças consumistas que “quando eu tiver ou for algo, serei feliz”.

O tempo não espera, o tempo te presenteia com o presente. Não é à toa que o presente é chamado de presente, somos agraciados com a dadiva da vida a cada milésimo de segundo que podemos respirar que podemos reencontrar, que podemos pedir perdão, que podemos perdoar e nos arrepender de deixar que o ego tenha tomado o controle do pensador e dominar os pensamentos, nos fazendo marionetes emocionalmente fracas e sensíveis, contaminando relações e relacionamentos.

Portanto, está na hora de parar e refletir sobre quem está no controle: O Pensador ou o Pensamento?

Autora: Kátia Nogueira





UTILIDADE DA FILOSOFIA

Sobre a utilidade da Filosofia, Marilena Chaui afirma:

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes. [1]

Por outro lado, é importante registrar um crescente movimento da valorização da Filosofia, tanto nas escolas de ensino médio, quanto no ensino superior, justamente por que o mais importante não é somente formar técnicos que manipulem as realidade e a natureza, mas que a manipulem a serviço do bem estar e da humanização da natureza.

Tomemos um exemplo: é importante perguntar-se sobre as finalidades da clonagem humana? Para muitos não, pois acreditam que os propósitos da ciência são sólidos e comprometidos com o bem viver de toda a sociedade. No entanto, a filosofia questiona a clonagem porque sabemos que ela pode ser usada para fins mercadológicos, como por exemplo o transplante de órgãos e a destruição em massa de fetos humanos. Este questionamento não é uma tentativa de impedir as pesquisas científicas, mas de perguntar a serviço de quem está a ciência e sob que parâmetros ela se justifica.

Em resumo, podemos dizer que a filosofia se propõe a fazer uma crítica a tudo que circunda o ser humano; suas relações, seu comportamento e a finalidade das suas ações.

Ela nos permite o distanciamento para avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam. É ela que reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade. É ela que retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreende-la. Portanto, a filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de superar a sua imanência (que significa a situação dada e não escolhida). Pela transcendência, o homem surge como um ser de projeto, capaz de construir o seu destino, capaz de liberdade.[2]

No entanto, a filosofia não é uma ciência para dar “conselhos” sobre os acontecimentos que envolvem o ser humano. É um questionamento que vai além das evidências do cotidiano, tentando encontrar a verdadeira origem dos fatos. Ela “é uma reflexão fruto da necessidade racional de explicar o meio em que vive o homem, de conhecer a si mesmo e as coisas que o cercam, pode surgir toda vez em que o homem se encontra em face de um obstáculo de natureza abstrata e transcendente.”[3]

Os primeiros filósofos chamavam a filosofia de ciência das causas primeiras, isto é, a ciência que se pergunta sobre o porquê dos fatos. A pergunta que estes pensadores faziam era pela origem e pelas causa da realidade.

As mesmas perguntas ainda valem hoje: Por que a nossa realidade é assim? De onde vem a violência? Por que não conseguimos conviver com as nossas diferenças sociais? Por que existe racismo? Quais os motivos da intolerância religiosa? Como devo agir diante de tudo isto?

A filosofia faz estas perguntas por entender que é encontrando as verdadeiras causas da realidade é que se pode chegar à compreensão desta realidade e contribuir na solução dos problemas. Daí porque se diz que a atitude filosófica é uma atitude radical, isto é, tomar os problemas pela raiz. Para tanto é preciso distanciar-se da realidade. E distanciamento da realidade acontece quando nos livramos dos pré-conceitos e dos pré-juízos que temos sobre os fatos, isto é, analisar os fatos de forma imparcial, permitindo até mesmo que deixemos nos questionar na medida em que questionamos a realidade. Afinal de contas, em que eu contribuo para que as coisas sejam melhores. Como eu posso ser um profissional (um cientista) que leve em considerações as preocupações de contribuir para o bem estar de toda a humanidade?

Quem é filósofo ou filósofa?

Ser filósofo é romper com o que está estabelecido “dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber”[4].

O filósofo não é, então, nem o sábio nem o ignorante. Ele é, na verdade, aquele que busca a sabedoria, ou que procura ser amigo da sabedoria.

Ele não é também o homem das respostas, mas das perguntas. Por exemplo: diante do problema da atitude justa ou não de um governante, o filósofo deve destacar que o que está em jogo é, antes de tudo o conceito de justiça. Somente a partir de uma ideia clara desse conceito é que se pode caracterizar a atitude do governante como justa ou não.

 Nesse sentido, o filósofo se diz estar preocupado não tanto com a concretização da sua ideia mas com a ideia em si, isto é, não com o ato específico do governante mas com a definição clara de justiça.



A filosofia e o filósofo (professor Marcos Antonio Dimas Machado )

Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, porque é preciso existir para se criar tudo, e existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, e ser possível haver ser é maior que todos os deuses”. Fernando Pessoa



Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.






Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática Política: O conhecimento, Objetos de Conhecimento: O conhecimento como forma de representação da realidade Habilidades: entender o processo do conhecimento e as diferentes formas de conhecer desenvolvidas pelo ser humano, de modo a saber utilizá-las, respeitá-las e valorizá-las

Questões para pensar:

  1. Na sua opinião, o que é Filosofia e qual a sua utilidade?
  2. O que você entendeu lendo o texto de aprofundamento: “Quem está no controle: o pensador ou o pensamento”? Faça um breve resumo dos seus entendimentos.
  3. Que atitudes e características definem um filósofo ou uma filósofa?
  4. Faça uma pesquisa de opinião junto a seus professores de classe para perguntar-lhes o que entendem ser Filosofia.
  5. Descreva o conteúdo apresentado pelo professor Marcos Antonio Dimas Machado, em seu vídeo A filosofia e o filósofo. Breve resenha.

[1] CHAUI, Marilena, Filosofia: novo Ensino Médio. São Paulo: Ática, 2001, p 15.

[2] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986, p. 47-48.

[3][3] TELES, Antônio Xavier, Introdução ao Estudo de Filosofia. São Paulo: Ática, 1972, p. 17.

[4][4] CHAUI, Marilena, Filosofia: novo Ensino Médio. São Paulo: Ática, 2001, p.10.

Vivências e compromissos com educação e sociedade: educadora Solange Schmidt

Lourdes Solange Schmidt, mais conhecida por Solange ou, simplesmente, SOL,  professora aposentada há 25 anos, 72 anos, é uma educadora sempre ativa nas lutas do magistério. Convicta em seus ideais e propósitos, mas sensata na hora de dialogar, esta educadora ensina muito porque sabe muito e tem orgulho em compartilhar vida, histórias e conhecimentos.

Em tempos de isolamento físico e social, de crise da Pandemia do Covid 19, conhecer a história desta professora nos permite adquirir um pouco de segurança e sabedoria para compreender e entender o mundo e a educação.

Acreditamos em histórias verdadeiras e fartas de sabedoria e conhecimento. Por isso destacamos e reconhecemos, por entrevistas neste site, os protagonismos e os protagonistas da educação.

Como professora, como cidadã e como dirigente sindical, Solange Schmidt acumulou muita experiência de vida, fez muitas e boas amizades e carrega grandes sabedorias de quem nunca se conformou com a apatia e com as injustiças sociais.

SITE NEIPIES: Quando, como e porquê decidiste ser professora?

SOLANGE SCHMIDT: Acredito, sinceramente, que nasci para ser professora. Minha tia-avó, Isaura, por quem fui criada, tinha uma escola de datilografia em casa. Quanto tinha uns 10 anos de idade eu sabia todo o manual e a ajudava a dar aulas.

Sempre fui incentivada a ler, interpretar, declamar poesias, com ênfase e emoção. Com um pouco mais de tempo, passei a ler obras importantes e vou te contar uma coisa intrigante: – li a Bíblia inteira, minha família era católica conservadora e tinha essa exigência.

Na mesma época, eu ficava curiosa, quando me diziam que os sindicatos, via de regra, eram comunistas, segundo a mesma interpretação da direita de hoje, então, decidi ler Karl Marx. Eu tinha já 13 anos, mas entendi que enquanto a igreja pregava sua dedicação aos pobres, mas abria os templos para os ricos que buscavam o poder, Marx dava a mesma versão, quanto aos pobres “proletários”, porém alertava e apontava a exploração da mão de obra dos mesmos, para o enriquecimento do capital dos patrões.

À medida que fui crescendo, fui acompanhando o pensamento e a prática da minha tia-avó, que era atuante na política e no sindicato dos bancários, nessa época conheci Olívio Dutra. Percebendo que havia muitos equívocos sociais, ideológicos, e partidários, entendi, por fim, que minha função na sociedade seria ensinar, para a libertação dos “esquemas mentais” como diz Althusser.

Escolhi Letras, Português/Inglês e, aos 16 anos entrei na Faculdade de Letras, da UNICRUZ, que na época era uma extensão de Santa Maria e tive excelentes professores. Na grade curricular, além das disciplinas específicas da área, inclusive Latim, havia as cadeiras de Filosofia e Sociologia.

SITE NEIPIES: Atuaste 30 anos no magistério até sua aposentadoria, em 1995. Que lembranças boas carregas contigo deste período em que integravas o magistério público estadual (das salas de aula/desafios de ser professora nesta época)?

SOLANGE SCHMIDT: São muitas as boas lembranças. Comecei a dar aulas, antes de me formar, substituindo professores de 1º e 2º grau, o que hoje se denomina Ensino Fundamental, na Escola Normal Santíssima Trindade, em Cruz Alta. Os colegas eram solidários, amigos e os alunos perfaziam um perfil diferente destes novos tempos. Eram educados, atenciosos e respeitosos, sem deixarem de ser crianças e adolescentes.

O desafio mais importante era ter conhecimento profundo sobre as temáticas desenvolvidas e uma didática estrutural condizente com as idades e com os diferentes ritmos dos alunos. A compreensão e a paciência ganhavam minha atenção, tão necessária para o transcurso das aulas.

SITE NEIPIES: Como era ser professora de língua portuguesa há 35 anos atrás?

SOLANGE SCHMIDT: Entrei no magistério estadual concursada, no final nos anos 70, em plena ditadura. Eu, cheia de ideias e inovações que me alimentavam a vontade de saber mais, de ensinar com qualidade, afinal, segundo Jakobson (1976), “a língua era um código através do qual se enviavam mensagens de emissores para receptores, com funções variadas, conforme a ênfase dada a um dos elementos do circuito da comunicação” (BEZERRA, 2005)[1].

Sendo um código que envolve os emissores e receptores e livre para ênfases, faladas ou escritas, muitas vezes fui questionada, por libertar o aluno da salivação repetitiva, dos departamentos e esquemas mentais. Por exemplo, a cada conteúdo fazia, com os alunos, letras de músicas, brincadeiras e dramatizações. Isto os incentivava a usar os verbos corretamente, a buscarem sinônimos, a usarem o dicionário, na formulação e criação da oração e da frase e assim, quando chegava ao final do ano, o livro de gramática era apenas um apoio, caso tivessem alguma dúvida.

Faço questão de dizer que nunca fiz ou incentivei a caligrafia, pois a natureza, a naturalidade da letra é obtida num processo complexo da formação do indivíduo. A letra bonita nem sempre corresponde a um texto bem escrito. Além disso, tem uma relação estreita com o sentido de submissão.

Dali para cá houve outras reformas no Ensino de LP, a primeira, em 1970, que:

Voltando ao contexto dos anos 70, vemos que o ensino do Português sofreu mais uma radical mudança, em virtude da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 5692/71). Resultante da intervenção feita nesse momento histórico pelo movimento militar de 1964, a nova lei punha a educação a serviço dos objetivos e ideologia do governo vigente, passando a língua a ser considerada instrumento 7 para esse desenvolvimento, com seu foco voltado para o uso (MALFACINI, 2015)[2].

Houve muitas reformas da Língua Portuguesa, para aproximar-se ou corrigir seu uso em acordo com os demais países que se comunicam nessa língua. Vou apenas citar as datas por considerar um tema amplo, mas que trouxeram um processo complexo, que merece maior atenção. Reformas: em 1943 e 1971, (ao passo que, em Portugal as mudanças já vinham desde 1911, 1920, 1931, 1945 e 1973). A partir de 1990, Portugal e Brasil acordaram novas regras – Acordo Ortográfico de 1990.

SITE NEIPIES: Como manténs rotina de vida diária e ocupação psicossocial nestes 25 anos de aposentadoria?

SOLANGE SCHMIDT: Acreditas que não vi passar tanto tempo? Tenho um roteiro sempre pronto para o dia seguinte, não é o mesmo que rotina.

Tenho muitas atividades: gosto de ler, ouvir música, vejo documentários, passeio, vejo amigos, paro para tomar um cafezinho e bater papo, com a família e com amigos, por celular, pelo menos três vezes por semana, escrevo, me exercito todos os dias, acompanho meus netos, ajudo-os nos estudos, se eles precisarem, converso com minhas filhas, dou aulas de Metodologia para alunos de especialização, mestrado e doutorado leio as notícias diárias, assisto as lives que me interessam, uso o notebook ou o celular para todas as necessidades possíveis. Participo de grupos que cuidam da sobrevivência humana. Sou apaixonada por gatos e cães, tenho vários.

 SITE NEIPIES: Quando, como e por que entrastes para a luta sindical (CPERS Sindicato)?

SOLANGE SCHMIDT: Comecei a trabalhar em Passo Fundo, em janeiro de 1976, inicialmente na UPF, em cursos de férias e em seguida, nos cursos regulares. Naquela época, o ensino de Língua Portuguesa existia em quase todos os cursos. Em 1979, fui fazer o Mestrado em João Pessoa – PB. Como ainda vivíamos sob o bastão da Ditadura, eram poucos os professores brasileiros, grande parcela deles estavam no exílio, por isso, tive aulas com professores de vários países como França, Portugal, Espanha, Inglaterra e Alemanha.

Foram anos difíceis, mas produtivos na questão do conhecimento. Voltando para o Rio Grande do Sul, assumi minha profissão em Passo Fundo, na Escola Estadual De Ensino Fundamental Coronel Gervásio Lucas Annes, no Bairro Petrópolis.

O magistério estadual passava por grandes dificuldades, pois entendíamos que havia questões inadiáveis na busca de soluções. A mobilização precisava ser ativada no conjunto da categoria. Foi então que me filiei ao CPERS, Centro dos Professores do Rio Grande do Sul, passando a participar ativamente do 7º Núcleo e mais tarde da Direção Central. Quando terminou o mandato, fui designada para trabalhar na Escola Estadual de Educação Básica Nicolau de Araújo Vergueiro, onde fiquei até a aposentadoria.

No dia seguinte à aposentadoria, recebi a notícia de que meu curriculum vitae havia sido avaliado e aprovado em 1º lugar, pela Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, para coordenar, como Assessora Técnica, o Projeto de criação da Universidade Estadual do RS.

Foi um trabalho intenso, uma experiência única e uma grande aprendizagem, pois essa atividade envolvia deputados de todas as bancadas e funcionários ativos e competentes, de todos os partidos, portanto, um grupo heterogêneo. Mas não lembro de nenhuma discussão, que não tivesse o sentido de contraposição benéfica ao plano que estava sendo construído. Essa também é uma história longa.

Considero importante dizer, que após a aceitação do projeto, por todas a bancadas, os responsáveis se dirigiram ao Governador da época, Alceu Collares, que teceu elogios, mas não assumiu sua implantação. Assim foi, também, com Antônio Brito.

Finalmente, no Governo Olívio Dutra, cumpriu-se a criação da UERGS. Apesar de muitas modificações no projeto inicial, iniciou-se a implantação de mais um espaço de conhecimento dedicado as jovens que clamavam por essa oportunidade. A ideia inicial deste projeto, partiu de um político passo-fundense, Beto Albuquerque, na época, deputado estadual.

SITE NEIPIES: Ainda estás ativa nas lutas do magistério estadual. Qual foi e qual continua sendo o maior desafio dos sindicatos de professores?

SOLANGE SCHMIDT: Uma das questões, que sempre está em pauta nas nossas discussões é a qualidade do ensino. É uma luta incansável e poucos são os resultados desde a época em comecei a trabalhar até agora. Isto inclui a estrutura das escolas, a manutenção das mesmas, laboratórios, bibliotecas atualizadas, cursos adequados a cada área do conhecimento.

A pandemia trouxe a necessidade de dar aulas pela internet, isso também trouxe grandes dificuldades aos professores, que nunca haviam trabalhado com plataformas tecnológicas, assim como aos alunos, principalmente aqueles que são deficitários em questões de sobrevivência e não têm condições para adquirir as ferramentas indispensáveis para esses métodos.

Por esses fatos, aliado à desvalorização contínua, dos salários dos professores e dos funcionários estaduais, ainda temos muitos desafios a enfrentar. A luta dos trabalhadores em educação, era muitas vezes criticada por causa das greves, mas nas últimas, observa-se que pais e alunos já tiveram maior compreensão da realidade.

 Passamos todo governo Sartori sem pagamento em dia, sem reajuste e tendo o salário parcelado. No governo de Eduardo Leite é ainda pior, todos os benefícios, como triênio, por exemplo, foram retirados, e acrescido da cobrança da previdência dos aposentados.

Quando na ativa pagamos a nossa aposentadoria, descontada na folha mensal, agora estamos obrigados por lei aprovada no início deste ano, a pagar novamente. O subsídio que o governo nos paga, não chega perto do que nos foi tirado, as perdas salariais foram tão expressivas, que o CPERS/Sindicato, organizou uma campanha de arrecadação de mantimentos, remédios e outras necessidades urgentes dos colegas mais afetados por essas novas medidas.

Vivenciei, como profissional, a postura de vários governos, tivemos algumas vitórias importantes que não duraram dois meses, como o aumento do salário, depois de uma greve de 64 dias, para 2 e 1/2 Salários Mínimos, no Governo de Jair Soares, que fez o primeiro e único pagamento no final de seu mandato e, no mês seguinte, já com o governador Pedro Simon, imediatamente pediu a sua inconsticionalidade. Esse jogo nos pareceu como produto de conchavismo, entre o que saía e o que entrava. Esse é apenas um caso dos tantas que vivenciei, e vivencio, mas, com outros requintes, é a mesma tragédia que hoje acontece.  

SITE NEIPIES: És uma “pessoa de resistência”, que fez história junto com muitos e muitas lutadores e lutadoras. O que gostaria de dizer a estes?

SOLANGE SCHMIDT: Sim, foram muitos companheiros e companheiras que lutaram e lutam, buscando melhorias. Minha geração foi sempre muito ativa e muitas e muitos assim continuam. Endereço aos professores da ativa, a necessidade de focarem suas lutas no coletivo da sua categoria. A unidade será mais fortalecida e muitas queixas deixarão de existir, estudem junto ao CPERS/sindicato as estratégias mais adequadas e formem a resistência mais poderosa. Sejam observadores dos encaminhamentos de pautas e das reações do patrão, que na maioria das vezes, não conhece a nossa causa. Conheço muitos colegas, que não participam das lutas, não se associam ao sindicato, e, nas vitórias, recebem os frutos conquistados por colegas que abandonaram o conforto, mínimo que possa ter, os filhos, e que diferencia situação socioeconômica de cada um. Isto não é justo. Quem assim se individualiza não pode ser professor, pois erra na essência da união dos diferentes pensamentos.

SITE NEIPIES: Qual foi e qual ainda é o papel da educação pública, de qualidade, na sociedade?

SOLANGE SCHMIDT: Sou freiriana convicta. É preciso dizer, de início, que Paulo Freire não fez uma teoria educacional, mas um método, um processo de aprendizagem. Freire, que prega a educação libertadora, em contraponto ao que denominou “educação bancária” que focaliza uma a atuação de bancos, onde são “depositados” os conteúdos, de forma unilateral, como se fosse dinheiro.

A educação bancária faz o educador pensar, versejar, como se só ele tivesse uma conta recheada de capital, o qual só ele, soberbamente, detém o saber e o seu uso. O aluno, nesse caso, é o passivo, que nada sabe. Passa-se a multiplicar seres submissos e acomodados, a quem ele suprime a capacidade crítica ao mundo, tão necessária para o desenvolvimento sócio educacional.

Outra questão desassociada, mas intrometida num projeto educacional é a política, na sua forma mais atual de acomodação dos interesses de algumas pessoas ou grupos partidários. A cada eleição para qualquer dos cargos executivos, uma das primeiras ações é fazer mudanças na educação, desconsiderando procedimentos possíveis e passiveis de continuação.

A Educação não pode ser alterada, por qualquer governo que se elege, nem gerenciada por quem a desconhece. Um plano educacional dever ser bem elaborado, contemplando as questões sociais e regionais, históricas e outras características, como a diversidade, o meio-ambiente, entre outras ditadas ou contemporizadas pela sociedade.

É preciso conhecer o país e suas necessidades, como por exemplo o caos do saneamento básico, a fome, o desemprego, que implicam gravemente na vida de todos. Isto posto, em exercícios matemáticos, é uma ameaça aos governantes. Mas não tem nada a ver com posições ideológicas, como o bolsonarismo quer que acreditemos. É a realidade, afinal, a Matemática é uma ciência exata.

SITE NEIPIES: Conte-nos uma pequena história de professora que marcou sua trajetória?

SOLANGE SCHMIDT: Quando estava trabalhando na Escola Gervásio Annes, observei que alguns alunos tinham muitas dificuldades em escrever e falar. Solicitei à escola um espaço para estudar essas dificuldades separadamente, o que foi acolhido. Falei com os pais e montei um pequeno laboratório de ensino e aprendizagem. Tendo a colaboração de outros colegas, fiz um plano que envolvia a fonologia, a morfologia e o pensamento. Em menos de 2 anos consegui alcançar o objetivo. Relatei o trabalho e, fui convidada a expô-lo num congresso internacional de Língua Portuguesa, realizado em Campinas – SP. Foi algo tão gratificante que me fez redobrar meus estudos e me inteirar, cada vez mais, das amplas possibilidades que existem na educação e no ensino da língua.

SITE NEIPIES: Sobre a pandemia: o que já aprendeste com esta pandemia e com o necessário isolamento físico? Achas que sairemos melhores como pessoas e nas nossas relações interpessoais?

SOLANGE SCHMIDT: Estou em quarentena desde o dia 06 de março, me organizei para ter atividades em casa e não abandonei meus amigos. Sinto saudade da liberdade, da rua, da cidade toda, mas minha maior responsabilidade, agora, é tomar todos os cuidados por mim e pelos outros.

Tenho filhos e netos e os quero perto de mim. Entendo que é possível sairmos bem melhores desta crise, apesar de ver nos noticiários que muitas pessoas se entregam, desistem ou não acreditam que a paciência é necessária. Temo que o mundo retorne dividido, mais uma vez, entre os conscientes e aqueles que continuarem confiando nos destruidores da Cultura, da Educação, da História de das ciências.

SITE NEIPIES: Consegues imaginar o desafio da educação em tempos de educação precária ou remota do ponto de vista dos professores e professoras (trabalhos à distância, novas aprendizagens com tecnologias, stress pelo isolamento, medo de voltar às aulas por ser parte do grupo de risco)? O que pensas disso?

SOLANGE SCHMIDT: Estamos vivendo numa nova realidade, infelizmente imposta por um vírus de grande resistência, para o qual não se encontra medicamentos nem vacinas, como todos sabem. A interferência política, nesta fase, no Brasil, tem demonstrado que traz turbulência no trato de situação tão complexa. Isto influi na comunicação com o povo, que fica perturbado, pelas dicotomias expostas pelos políticos incrédulos, em contraposição aos cientistas, que se esmeram nas pesquisas e estudos aprofundados.

Encontro muita gente com medo. Isto vai prevalecer, se não tomarmos cuidado com nossa mente, conforme os psicólogos têm alertado.

Quanto à atividade educacional, vejo que sua retomada será bastante complicada, por motivos acima revelados e por outros que a comunidade educacional tem indicado. As escolas estaduais precisam de uma urgente reforma, nos seus espaços físicos, a preparação da volta as aulas, no meu entendimento, prescindem de uma estrutura de desinfecção para a entrada e a saída dos alunos e dos trabalhadores em educação, assim como outras pessoas, como pais e responsáveis que ali transitam. Isso se chama PREVENÇÃO.

Se pensarmos somente do conteúdo a ser ensinado, o que é de enorme importância, e, se deixarmos de tratar da prevenção, continuaremos expondo todos a doenças.

É preciso TRATAR a escola como um ser vivo, pois os alunos são nosso maior tesouro e a vida da escola. O Estado tem o dever de investir nessa questão, o que já deveria estar realizando, neste tempo de afastamento.

Quanto às aulas, espero que se deem conta da necessidade de recuperação dos conteúdos, mesmo dos alunos que conseguiram acompanhar aulas on line, pois a inexperiência de grande contingente de professores que ainda não desenvolveram as temáticas dos planos nas plataformas oferecidas, assim como de alunos e seus pais e responsáveis.

Não podemos fechar os olhos para esta realidade, muito menos, para os agentes da educação que não têm condições financeiras para ter um notebook, ou pelo menos um smartfone que abarque todas as necessidades para dar uma aula.

Quando o sinal verde permitir que os alunos voltem, as escolas deverão estar prontas para uma retomada renovada, alegre como um jardim florido, que os professores regam todos os dias com a água do conhecimento.

Por fim, entendo que este ano, foi tão diferente, que é muito difícil prever o mundo pós-pandemia. Por isso, deveria ser suspenso, como outros educadores já têm sugerido; dar continuidade, on line, para os que estão encerrando o ensino médio, facilitando sua participação nas provas do ENEM ou vestibulares. Os demais, ao voltarem, devem ter um tempo para recuperações e uma comprovação de aptidão para continuarem o ano letivo seguinte. Após isso é que se deve reiniciar as aulas regulares. Lembrando Bill Gates, reforço esse pensamento: “A tecnologia é somente uma ferramenta no que se refere a motivar as crianças e conseguir que trabalhem juntas, um professor é o recurso mais importante. ”

SITE NEIPIES: Uma mensagem de encorajamento e esperança aos professores e professoras, neste momento histórico?

SOLANGE SCHMIDT: Colegas: minha trajetória como professora me ensinou mais do ensinei, pois encontrei nas salas de aula tamanha heterogeneidade de culturas, vivências e sobrevivências, que me fez rica em aprendizagem, paciência, em coragem e esperança. Isto é o que desejo para todos e todas.

Como disse Paulo Freire: “Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar”. Ou ainda, na palavra de Confúcio, “A educação alimenta a confiança. A confiança alimenta a esperança. A esperança alimenta a paz”.

SITE NEIPIES: Uma frase que defina a senhora?

SOLANGE SCHMIDT: Sou uma pessoa simples, humilde, estudiosa, e bem-humorada, mas reajo forte às injustiças sociais como a desigualdade, às discriminações de gênero, de etnia ou qualquer outra que queira sufocar os pensamentos, os desejos e a vontade de crescer desenvolvendo a sua tarefa profissional. Ideologicamente, sou adepta do Socialismo, mas não sou filiada a nenhum partido. Ser socialista, para mim, é um estado de espírito, que me permite liberdade e igualdade.

SITE NEIPIES: Uma mensagem, música ou frase que defina “o mundo como ele deveria ser”.

SOLANGE SCHMIDT: O mundo deveria ser composto de mais humanidade, solidariedade e humildade, reconhecendo no outro sua própria igualdade, sem esquecer jamais da maior lição que nos foi passada pelo amor de quem nos criou.

Fotos: Arquivo pessoal/ 4 fotos de manifestações de professores e professoras/ 1 foto de perfil atual e uma foto com cachorros da família.


[1] BEZERRA, M.A (Org.). O livro didático de português: múltiplos olhares. 3. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

[2] MALFACINI, Ana Cristina dos Santos. Breve histórico do ensino de Língua Portuguesa no Brasil: da Reforma Pombalina ao uso de materiais didáticos apostilados. Rio de Janeiro, Idioma, nº. 28, p. 45-59, 2015.

Comportamento humano, escolhas e etiquetas

As pessoas não deveriam ser
comparadas com um produto,
pois não estão limitadas a
uma descrição simplificada.


As etiquetas são usadas para identificar um produto. As pessoas não deveriam ser comparadas com um produto, pois não estão limitadas a uma descrição simplificada. No entanto, para efeitos de facilitar a identificação e descrever o comportamento de cada pessoa as etiquetamentos são usados. 



Vídeo produzido a partir de texto de Carlos Drummond de Andrade, “Eu, etiqueta”.



Uma das abordagens teóricas que tematizou e problematizou o etiquetamento foi a Psicanálise, demonstrando com profundida as relações entre construção e funcionamento do aparelho psíquico e o comportamento humano. No entanto, apesar de descrever e comprovar a relação singularizada entre mente e comportamento, a psicanálise foi minimizada pela epistemologia cartesiana positivista, que se impôs e consolidou o reducionismo simplificado e funcional, por meio das etiquetas que aglutinam envolvimento profissional, grupo social e visão política.

No campo profissional, o etiquetamento descreve a divisão entre diversas profissões, impulsionada pelo desmembramento da filosofia em várias ciências e pela evolução do sistema produtivo.

Da filosofia foram desmembrados vários campos do conhecimento, como a medicina, a física, a química, a biologia, a sociologia, a psicologia, entre outras. Com a revolução industrial e tecnológica, deixou de ser um número pequeno de profissões com funções restritas na agricultura, na indústria e nos serviços domésticos e urbanos/sociais.

De modo semelhante ao ocorrido com as profissões, a caracterização dos grupos sociais deixou de ser descrita em poucas etiquetas, que no seu modo mais reducionista se apresentava como patrão/empregador/capitalista e trabalhador/empregado/operário.

Os debates, embates e disputas a respeito da organização produtiva, dos serviços, da gestão e funcionamento das instituições foi historicamente atravessada pela mobilidade dos papeis sociais. Os etiquetamentos sociais que já eram amplos, se pulverizaram com o processo de informatização iniciado no século XX, estão sendo acelerados com o uso da internet e com a imposição do isolamento social, em 2020.

No contexto social de 2020, as visões politicas divididas, de modo simplificado, entre direita, esquerda e centro são insuficientes. O reducionismo deve ser substituído por debates, com a construção de um entendimento a respeito do planejamento para a produção e distribuição de bens materiais e culturais básicos para todas as pessoas, em sintonia com cada contexto.

Nesta tarefa, a gestão das instituições estatais deve ser assumida por pessoas com histórico humanista, que transite e dialogue com desenvoltura edificante, em todos os grupos humanos, independentemente da visão política, da condição racial ou de gênero.  



Por vezes, ao invés de ética, somos impelidos a agir mais por etiqueta do que por ética. Agimos mais por aparência ou imposição das conveniências. (Paulo César Carbonari)



“Como escreveu Leonardo Boff, ao falar de ethos, palavra que dá origem à ética: “Na casa cada coisa tem seu lugar e os que nela habitam devem ordenar seus comportamentos para que todos possam se sentir bem. Hoje a casa não é apenas a casa individual de cada pessoa, é também a cidade, o estado e o planeta Terra como casa comum”. Sejamos, pois, responsáveis pela vida que compartilhamos juntos. Se não há compromisso com a vida, só há etiqueta”. (Nei Alberto Pies)




Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Oitavo, Unidade temática Política: Ética, Objetos de Conhecimento: Moral e ética (ação ética e moral). Habilidades: refletir sobre o homem moderno, seu individualismo e as consequências para si e para gerações futuras.

Questões para pensar:

A partir da leitura do texto, dos vídeos e da matéria Meio Ambiente: cuidados por ética ou por etiqueta, responda as questões a seguir.

  1. Por que as pessoas nunca deveriam ser reduzidas ou comparadas a um produto?
  • Qual é a mensagem do texto “Eu, etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade, apresentado em vídeo, no corpo do texto. O que o autor queria demonstrar?
  • Assista ao vídeo de Paulo César Carbonari, “Por que ser ético”. Explique porque muitas vezes agimos mais por etiqueta do que por ética. Mais por aparências ou conveniências?
  • No texto “Meio Ambiente: cuidados por ética ou etiqueta”, o autor Nei Alberto Pies utiliza o pensamento de Leonardo Boff para definir o que é Ética. Descreva aqui qual é a ideia de Leonardo Boff sobre ética. Quais são os 4 princípios que embasam a ética do cuidado?

Mansos demais com os fascistas

Não podemos ficar omissos,
nos limitando a abaixo-assinados
e ações institucionais que são importantes
na luta democrática, mas não suficientes.


“A ideologia fascista rejeita o pluralismo e a tolerância. Na política fascista, todos, na nação escolhida, compartilham uma religião e um modo de vida, um conjunto de costumes.

A diversidade dos grandes centros urbanos, com sua concomitante tolerância em relação à diferença, é, portanto, uma ameaça à ideologia fascista”, é o que ensina o professor de filosofia da Universidade de Yale, Jason Stanley, no livro Como Funciona o Fascismo.




O Intercept Brasil conversou com o autor de ‘Como funciona o fascismo’, Jason Stanley. O filósofo explica como Bolsonaro e Trump se enquadram em sua definição de forças fascistas – e como a crise do coronavírus pode ser usada por eles.

No Brasil de Bolsonaro, é o que estamos assistindo ao um ritmo alucinante. Há uma clara relação entre a eleição de 2018 e o crescimento do discurso do ódio, que incluí uma gama de manifestações de racismo, xenofobia, crimes contra a vida e intolerância religiosa – além de apologia ao nazi-fascismo.

A atuação do grupo dos 300 do Brasil e de sua líder – atualmente presa – Sara Winter que, não por acaso, usa o nome de uma espiã nazista, é a face mais visível, mas não a única, do aumento preocupante de manifestações de cunho autoritário, paramilitar e claramente fascista. Um dos alvos deste grupelho xiita é o STF, contra o qual disparou fogos de artifício.

A aglutinação desta direita extremada, que flerta com o neonazismo foi atiçada pela eleição de Bolsonaro. O que antes era considerado imoral, hoje vai se tornando palatável para uma camada social que se sente reprimida em seus direitos. Tudo em nome da Pátria, da Família e de Deus, claro.

Estes grupelhos não podem ser vistos como inofensivos. Na verdade, são criminosos que desrespeitam as leis ao exaltar ideologias banidas legalmente e que pregam uma ruptura institucional.

Seus discursos mostram indícios contundentes de nenhuma afeição nutrida pelo saudável sistema de freios e contrapesos da democracia e onde o STF, alvo de seus ataques, exerce um papel preponderante.

A História tem esses momentos de encruzilhada, em que um fato pode mudar o destino da nação. Não podemos ficar omissos, nos limitando a abaixo-assinados e ações institucionais que são importantes na luta democrática, mas não suficientes.

A disputa nas ruas que já começou a acontecer não é secundária. Define o clima social e ajuda a alterar a correlação das forças políticas. É preciso dar um basta às agressões covardes e sinalizar que há resistência aos desmandos bolsonaristas.

“A democracia brasileira precisa impedir que os jagunços da Pátria, a família da Casa Grande e o deus Füher se encontrem; antes que seja tarde”, assevera o doutor em sociologia Marcos Rolim.

Hoje estamos divididos entre quem defende a democracia e é antirracista, de um lado, e os fascistas de outro. O protesto é fundamental. Nas janelas, nas redes ou nas ruas.

Veja também