Início Site Página 167

Um hóspede inquietante

Quem é nosso “hóspede inquietante”?
O coronavírus ou o governo de plantão?

A expressão foi usada pelo filósofo alemão Nietzsche: “O niilismo está às portas: de onde vem ele, o mais inquietante entre os hóspedes”? (Cfr. Fragmentos íntimos, 1885-87). Logo depois, foi retomada por outro filósofo alemão: “A ausência de pensamento é um hospede inquietante que se insinua por toda parte no mundo de hoje” (Cfr. Heidegger, 1959).

Mais recentemente, o também filósofo italiano Umberto Galimberti, por sua vez, publicou um livro com o seguinte título: “O hóspede inquietante – o niilismo e os jovens”. De acordo com a Wikipédia, “niilismo é uma doutrina filosófica que atinge as mais variadas esferas do mundo contemporâneo (literatura, ciências humanas, teorias sociais, ética e moral) cuja principal característica é uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. É a desvalorização e a morte do sentido”.

O negacionismo proclamado por alguns chefes de Estado, de alguma forma, mergulha suas raízes nesse processo cínico, cético e desconstrutivo, seja no que diz respeito aos valores e referências tradicionais, seja no que se refere ao trabalho da pesquisa científica.

Neste caso, o ato de minar e desqualificar expressões culturais consolidadas ou descobertas inovadoras da ciência é uma maneira de ocultar a própria ignorância. Não possuindo argumentos válidos e racionais para um diálogo aberto e responsável, apelam para o bordão autoritário. O mesmo ocorre, por exemplo, com aquele marido que, incapaz de se contrapor às observações razoáveis da esposa, impõe-se pelo grito, pelo punho, quando não pela faca ou o revólver. Ou seja, a violência costuma ser a arma favorita de quem não dispõe de razão.

Sem poder contar com uma autoridade natural, baseada no bom senso e num relacionamento digno, respeitoso e igualitário, predomina o autoritarismo. A falta de cérebro leva ao uso da força bruta.

Em tempos de pandemia e de quarentena, a postura fundamentada no niilismo negacionista tende a desmontar pela raiz qualquer planejamento sério para o combate do Covid-19. A batalha contra o vírus se converte em um cego tiroteio, onde cada um atira por conta própria e a esmo, com o risco de atingir outros soldados que deveriam estar do mesmo lado do front. Além disso, as opiniões pessoais, partidárias, políticas, corporativistas ou ideológicas acabam sobrepondo-se às orientações dos estudiosos especialistas em infectologia.

Mais grave ainda! Autoridades que nunca frequentaram uma faculdade de medicina passam a ditar as regras e as medidas, tanto no sentido de fazer apologia de medicamentos sem eficácia assegurada, quanto no sentido de apontar de forma obsessiva e irresponsável um receituário com comprovados efeitos colaterais de risco.

No Brasil do governo Bolsonaro, quando a tragédia registra o maior número de mortes, chega-se ao ponto de transformar o Ministério da Saúde em um verdadeiro quartel do Exército, onde os militares substituem a experiência dos técnicos.

Em semelhante cenário, quem é nosso “hóspede inquietante”? O coronavírus ou o governo de plantão? Talvez a perversa combinação de ambos! No momento de juntar as forças contra o “inimigo comum e invisível”, Jair Bolsonaro, seu clã familiar e seus fanáticos seguidores põem-se a brigar com as instituições democráticas: os poderes judiciário e legislativo, por um lado e, por outro, os governadores e prefeitos.

Ademais, em lugar de corrigir declarações e atitudes indignas de um mandatário, e que depois são amplamente disseminadas pela mídia, termina por se indispor contra os representantes do jornal, do rádio, da televisão, etc.

Em termos figurados, é como tentar apagar o fogo soprando na fumaça. Os meios de comunicação social, na verdade, são a caixa de ressonância do que vem da fonte, que são os fatos e imagens. E estes, por sua vez, há tempo refletem uma realidade de polarização.

Se a polarização se revela como uma usina de intrigas, ódio, mentiras e ataques; se ela insiste em desconhecer o diálogo e parte sempre para o confronto; e se busca obsessivamente um inimigo para consolidar a própria natureza – o que mais pode transmitir a imprensa, seja ela falada, escrita ou televisionada!?…




“Se, ao patrimonialismo privado, acrescentamos a militarização do poder, forja-se um casamento de consequências imprevistas e imprevisíveis. Esse estranho binômio, a força da influência familiar associada à pressão dos militares, por mais iluminados que ambos se revelem, corre o perigo de produzir filhos abortivos em série”.

A liberdade em questão

O silêncio desses
espaços infinitos
me apavora
(Pascal)

“Liberdade,
essa palavra que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda”
(Cecília Meireles)

A liberdade como problema filosófico

A frase acima de Cecília Meireles nos transporta para a história. Não é de hoje que a liberdade é almejada, seja no ideário da Liberdade Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa de 1789, seja na Liberdade ainda que tardia da Inconfidência Mineira. A expressão liberdade, grafada em tantos monumentos e pichada em tantos muros parece indicar o caminho da felicidade humana. Por que, então, a liberdade precisa ser colocada em questão? Afinal de contas, somos seres livres ou somos determinados por condições alheias às nossas vontades?

Partimos da premissa de que o homem é um ser livre porque age e organiza o mundo bio-físico de acordo com a sua vontade. Marx dizia que “uma aranha executa operações que se assemelham às manipulações do tecelão, e a construção das colmeias pelas abelhas poderia envergonhar, por sua perfeição, mais de um mestre-de-obras. Mas há algo em que o pior mestre-de-obras é superior à melhor abelha, e é o fato de que, antes de executar a construção, ele a projeta em seu cérebro”. Com esta afirmação Marx identifica a atividade humana como uma atividade livre e autônoma, motivada por uma escolha e por uma vontade. Nesta perspectiva o homem é um ser diferente das outras coisas por ser livre.

A pobreza é um dos grandes limitadores da liberdade humana. Questionar sobre o sentido da existência humana é perguntar-se sobre o que é a liberdade. Se somos um ser que age livremente e esta ação produz consequências não somente para mim, mas para toda a humanidade, precisamos questionar os fundamentos da liberdade humana para visualizar perspectivas e caminhos para a realização humana.

Refletir sobre a liberdade humana é refletir sobre a própria condição humana, pois o homem vive em comunidade e a sua ação produz consequências nos seus semelhantes. Portanto, a liberdade é uma dimensão constituinte do ser humano na medida em que projeta a convivência social do homem e o seu fazer no mundo da vida. A liberdade é sempre em relação com o outro, pois o modo de vida que o homem adota irá influenciar diretamente a liberdade do outro, da felicidade depende de um depende, necessariamente, da felicidade do outro.

No entanto, vivemos em um mundo marcado pela violência. Filhos matam os próprios pais, psicopatas e matadores em série fazem da morte o objetivo central das suas vidas, homens estupram crianças.

Cabe, então, a pergunta: até onde vai a minha liberdade? Como não fazer do outro um simples meio para minha felicidade? Como assegurar que o meu desejo de liberdade e felicidade preserve o desejo de liberdade do outro? Será que a liberdade que torna o ser humano em criatura especial na natureza, não é a sua própria prisão, como disse o filósofo francês Jean Paul Sartre “O homem está condenado a ser livre”? Não seria a liberdade a causadora dos conflitos sociais e da violência? Até que ponto a nossa sociedade nega a liberdade humana, sendo que negar a liberdade é, também, negar a felicidade?



Karnal: afinal, o que vem a ser o conceito de liberdade? Historiador explica as diferentes concepções sobre esse conceito, muito debatido desde a antiguidade.



A Liberdade entre o determinismo e o livre-arbítrio

Se é verdade que somos seres que agem livremente, de acordo com a vontade, também é verdade que somos um seres de necessidades espirituais e materiais, e estas necessidades nos impedem de exercer nossa liberdade, uma vez que a sua falta nos impossibilita a própria existência. Como posso, então, ser livre? A partir deste questionamento surge a teria do Determinismo que “parte do princípio de que tudo que existe tem uma causa. O mundo explicado pelo determinismo é o mundo da necessidade, e não da liberdade. Necessário significa tudo aquilo que tem de ser e não pode deixar de ser”[1]. Esta teoria argumenta que o homem é determinado pelas circunstâncias que o rodeiam e que toda a decisão é fruto de um conjunto de “pressões externas” que o impelem a agir desta ou daquela maneira.

Em contraponto a esta teoria surge a ideia do livre-arbítrio que considera a ação humana livre em plenitude, sendo que a ação humana é livre a ponto de agir a partir da escolha, independente das condições externas que atuam sobre ele.

Para esta teoria “ser livre é agir como se quer, sem qualquer determinação casual, quer seja exterior (ambiente em que se vive), quer seja interior (desejos, caráter).”[2]Esta concepção considera o homem isoladamente enquanto agente.

Estamos diante de duas concepções bastante diferentes. Qual o conceito que mais se identifica com a natureza humana? Afinal de contas, o homem é livre ou determinado. Entretanto, se analisarmos a questão da liberdade de uma forma mais abrangente poderemos fazer uma espécie de síntese entre os conceitos do Determinismo e do Livre-Arbítrio afirmando que o homem é livre e determinado na medida em que se conscientiza de tudo aquilo que o determina e escolhe agir de acordo com a sua consciência, podendo, inclusive, livrar-se de alguns determinismos que tolhem a sua liberdade. Desta forma, a consciência irá orientar escolhas e estas escolhas traduzirão ações que por sua vez serão livres e autônomas. No entanto, cabe a consciência orientar estas ações na perspectiva da responsabilidade moral, comprometendo o agente com a felicidade e liberdade do outro.

“Ai de nós, a tragédia é que não sabemos ser livres – pedimos para nós mesmo, em detrimento dos outros, e não queremos renunciar a nada de nós mesmos em prol do outro: isso significa usurpar nossos direitos e liberdade pessoais. Hoje, todos nós estamos contaminados por um egoísmo extraordinário e isso não é liberdade: liberdade significa aprender a exigir apenas de si mesmo, na da vida dos outros, e saber como doar: significa sacrifício em nome do amor”
Tarkovski.



Concepções de liberdade

Durante a história da filosofia não faltaram pensadores que se debruçaram sobre a questão da liberdade humana. O resultado deste esforço são concepções distintas que certamente são fruto do contexto historio de cada homem e mulher que problematizaram a liberdade humana. Aqui apresentaremos as três principais concepções filosóficas de liberdade humana:

  1. 1) Fundada por Aristóteles na obra Ética a Nicômaco retomada por Sartre no século XX. Segundo esta concepção, a liberdade é fruto da escolha deliberada, rechaçando qualquer determinismo externo e contingência da ação humana. “A liberdade é compreendida como poder pleno e incondicional da vontade para determinar a si mesma ou para ser autoderteminada”[3]. Para esta concepção a liberdade consiste em escolher entre várias alternativas possíveis. Esta escolha é motivada pela razão consciente. Sartre dirá que a liberdade é uma escolha incondicional que o homem faz na sua ação. Mesmo quando afirma que o homem é um ser condenado a ser livre, Sartre parte do pressuposto que somos livres tanto para termos liberdade, quanto para perde-la.
  2. A segunda concepção tem sua expressão em Spinoza, Hegel e Marx e aceita a ideia de que a liberdade é fruto da vontade e da livre escolha da consciência. No entanto, o indivíduo, como parte de um todo, deverá agir, conscientemente segundo as leis da totalidade que é livre em si mesma na medida em que não é determinada. É a totalidade que estabelece a leis e normas que devem ser seguidas por livre adesão pelos que fazem parte dela. Nesta perspectiva “liberdade não é escolher nem deliberar, mas agir ou fazer alguma coisa em conformidade com a natureza do agente que, no caso, é a totalidade.”[4]
  3. A terceira noção de liberdade considera livre toda ação que carrega consigo a possibilidade objetiva para sua consecução. O possível é o que é fruto da nossa própria ação. “A liberdade é a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova.”[5] A partir desta concepção, a liberdade não tem sentido se só estiver em uma perspectiva formal ou no campo dos valores do bem, da justiça e da solidariedade. A liberdade passa a ter sentido na medida em que o ser humano concretiza as condições materiais e espirituais fundamentais para o exercício desta liberdade. E para concretizar o que é possível, primeiro é preciso dar-se conta da contradição existente entre o real e o ideal, depois é preciso identificar espaços na sociedade para aproximar o real do ideal. Um terceiro momento desta escalada para a liberdade é a decisão de fazer algo e escolher os meios adequado para concretizar a decisão. Por último é preciso realizar a ação, lutar para transformar um possível em realidade.



Nessa aula vou sintetizar em poucos minutos a relação entre as seguintes expressões muito comentadas de Jean-Paul Sartre: “A existência precede a essência”, “o homem está condenado a ser livre”, as quais constituem pilares de sua filosofia e de sua antropologia.


Autor do texto: Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.




Sugestões para uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou em turmas de Ensino Médio.

No Oitavo Ano, Unidade temática: Ética: Objetos de Conhecimento: Refletindo sobre temas éticos e morais/ Liberdade. Habilidades: examinar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente, reconhecendo a possibilidade de fazer escolhas e justifica-las.

Questões para pensar:

1) Pra você, o que significa ser livre?

2) Como o homem se diferencia dos animais pela liberdade?

3) Faça um paralelo entre o determinismo e o livre-arbítrio.

4) Cite um exemplo de cada uma das três concepções filosóficas de liberdade humana em nossa sociedade.

5) Observando a realidade de sua cidade, você considera que as pessoas que caminham pela rua são livres?

6) Quais são as ações que ameaçam a liberdade individual e coletiva?

7) Por que a liberdade deve ser uma conquista construída a partir da consciência?

8) Assista ao vídeo do historiador Leandro Karnal e faça um breve resumo sobre como a concepção de liberdade vem mudando desde a Antiguidade até os dias atuais.


* Estas questões foram elaboradas pelo professor Alex Rosset, professor de filosofia e ensino religioso na rede municipal de Passo Fundo, RS)




[1] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986. p. 316.

[2] Idem. p 316.

[3] CHAUI, Marilena, Filosofia: novo Ensino Médio. São Paulo: Ática, 2001, p.182.

[4] Idem, p. 183.

[5] Idem, p. 185.

O Ser Humano, a Educação e a Inteligência Artificial

Nesta nova época,
marcada em 2020 pela revolução virtual,
a educação precisa reconhecer e preparar o
ser humano para se adaptar e sobrevier como
ser humano e não como instrumento da
inteligência artificial.

A história da humanidade é acompanhada de explicações, teorias ou narrativas para realidade, nas dimensões materiais e espirituais, bem como para o comportamento da natureza, social e individual.

Os exercícios para descrever a realidade como um todo foram aglutinadas pela mitologia, pela filosofia e pela ciência. Até a inicio da época identificada como Idade Moderna este três modos de explicação estavam interligados.

Os movimentos históricos identificados com o renascimento e as teorias como iluminismo atribuíram centralidade para o sujeito humano que conhece, transmite e acumula conhecimento, consolidando o conceito de antropocentrismo, que contribui para caracterizar uma mudança de época.

Os conceitos sínteses que diferenciam duas épocas diferentes da história humana, a medieval e a moderna, são o teocentrismo e o antropocentrismo. Com esta mudança de época, a centralidade foi deslocada do teológico, para o cientifico, do espiritual para o material.  Esta mudança que caracteriza a modernidade, impactou significativamente as relações entre ser humano e natureza.

A natureza deixou de ser identificada como algo divino sagrado, com valor espiritual e passou a ser entendido como instrumento para atender as necessidades materiais do ser humano.

O desenvolvimento do conhecimento, da indústria e a urbanização provocaram um distanciamento da natureza, aumentando a capacidade de manipular e instrumentalizar recursos como a terra, os minerais e a água. O acúmulo de bens materiais, conhecido como riqueza, pode ser identificado com a capacidade de controle e uso dos recursos naturais. A produção de bens materiais, para a satisfação pessoal, advém da capacidade de explorar a natureza instrumentalizando os seres humanos e demais seres vivos, além das ferramentas disponibilizadas pela indústria.

A posse, o controle e a exploração dos recursos naturais está diretamente relacionada com os níveis de produção. O ser humano, com seu conhecimento e sua criatividade, foi um instrumento determinante na produção de bens materiais, resistiu, se adaptou e não foi substituído pelas máquinas da revolução industrial.

Para além das explicações por meio de teorias ou narrativas a educação foi determinante na instrumentalização do ser humano para aumentar a produção no contexto da revolução industrial. 

Nesta nova época, marcada em 2020 pela revolução virtual, a educação precisa reconhecer e preparar o ser humano para se adaptar e sobrevier como ser humano e não como instrumento da inteligência artificial.



“O homem”, curta que reflete o poder de destruição da sociedade de consumo.

Como Cuidar da Espiritualidade em tempos de Pandemia?

O contato místico com Deus pode ajudar o sujeito a não contrair doenças, manter a saúde mental equilibrada, ajudar no discernimento sobre as finanças, ajuda para que as relações interpessoais com os membros da família não desgaste e outros benefícios mais.

Temos acompanhado, diariamente, nos meios de comunicação, o aumento substancial do número de infectados e de mortes no Brasil por COVID-19. O referido vírus, desde o início do ano, provocou mudanças significativas nas relações interpessoais e na relação com a sociedade.

O isolamento social passo a ser critério obrigatório de cuidado com a vida. Muitas pessoas foram obrigadas a mudarem radicalmente seus estilos de vida.

Com o confinamento social, novos hábitos passaram a fazer parte da vida dos brasileiros. Muitas pessoas tiveram que se reinventar para passar o tempo e cumprirem suas competências no campo do trabalho.

Consequência do isolamento, tivemos aumento da violência doméstica, aumento da depressão e da ansiedade. Por outro lado, as famílias estão mais juntas e convivendo, algo que não poderiam fazer com tanto tempo em situações normais.




Leo Fraiman fala sobre vivência da espiritualidade como lição em tempos do novo Coronavirus.



A espiritualidade modifica também em tempo de Pandemia. O impedimento de ir ao tempo religioso, por exemplo, obrigou as pessoas a desenvolver novas estratégias para manter o contato com o sagrado.  O usos das redes sociais e de outros meios pela internet, tem sido a solução.

Manter as práticas religiosas e de religiosidade é fundamental para aqueles que acreditam em uma entidade com capacidades mágicas. O contato místico com Deus, ou outro nome que queiramos dar, pode ajudar o sujeito a não contrair doenças, manter a saúde mental equilibrada, ajudar no discernimento sobre as finanças, ajuda para que as relações interpessoais com os membros da família não desgaste e outros benefícios. A espiritualidade, quando usada de forma positiva, ajuda, e muito, no equilibro das pessoas.

Por meio da internet podemos realizar aprofundamento dos estudos da nossa espiritualidade, podemos virtualmente ter contato com outras pessoas e desenvolver orações coletivas, discussões sobre temas religiosos, fazer atividades solidárias para ajudar os mais necessitados e ter assistência dos serviços religiosos para atender alguma demanda particular.

Temos muito preconceito em assumir uma espiritualidade. Aprendemos, nas nossas universidades ou núcleos próximos, que a pessoa que prática alguma forma de religiosidade é vista como antissocial ou careta. Por outro lado, as pessoas que tem contato diário com as práticas religiosas conseguem ter mais centralidade em suas decisões e na condução equilibrada neste momento de pandemia.



“Espiritualidade é, segundo estudiosos da área, “uma forma das pessoas encontrarem significados e propósitos de suas vidas, conectando consigo mesmas, com os outros e com o que lhes é significativo e sagrado”, logo inclui ter um propósito e significado de vida, encontrar bem estar; não é preciso necessariamente uma figura divina como representação desde sagrado”. (Bárbara Galardino)



“São inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados. Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco”. (Frei Betto)

Ricardo Pacheco: artista na música e na vida

Pacheco é um artista raiz, apaixonado por boa música e engajado culturalmente. É um artista da resistência, que teima em interpretar, na sua robusta voz, letras e canções libertárias de irmãos e irmãs hermanos e brasileiros/as que falam das vivências mais puras e singelas de sua gente.

Como nunca, a arte, a poesia e a boa música estão servindo de suporte para curar as dores da alma, em tempos de pandemia, de isolamento físico e social. Os artistas e as artistas vivem, de forma mais intensa e emblemática, as consequências do isolamento, pois se movem pelo público, por gente que os aplauda, que os abraça e que estimula a viverem de arte.

“O artista não vive de vento”. O artista precisa sobreviver, por pão e comida à sua mesa. Neste contexto de crise sanitária, política, econômica e social, reconhecer e valorizar os artistas de nossa cidade, da região, do estado e do país significa também apontar os rumos que nossa nação tomará na pós pandemia.

Acreditamos que a boa arte, seja através da música, do teatro, da novela, da poesia, aliadas à convivência harmoniosa com a natureza, poderão ajudar-nos na superação de traumas, devolver-nos a felicidade e a liberdade das boas convivências e dos significativos encontros porque, afinal, somos seres sociais.

Conheçamos agora Ricardo Pacheco, da forma mais autêntica, por ele mesmo.

SITE NEIPIES: Donde veio esta sua vontade de fazer arte através da música? Como, quando e porquê decidiste empenhar tua vida como cantor e músico?

PACHECO: Acho que a vontade de fazer arte através da música veio pela vontade de mudar o mundo, de achar que existia alguma coisa errada com a forma do ser humano. A forma de enxergar seu semelhante estava cada vez mais distorcida e que eu poderia fazer alguma coisa e os “FESTIVAIS DE MÚSICA” me davam a impressão de que esse poderia ser um caminho, achava que seria “CAMINHANDO E CANTANDO E SEGUINDO A CANÇÃO” que eu poderia deixa de ser um “SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO” e que só poderia mudar a “RODA VIVA” se eu não “ME ENTREGASSE PROS HOME DE JEITO NENHUM AMIGO E COMPANHEIRO”, foi o que “desde piá fui aprendendo, a ser valente, não ter medo e ter coragem”!

Uma frase que ouvi recentemente de um grande mestre e compositor, pouco antes de ele nos deixar, e mesmo assim em seu leito convalescido Sr. JOÃO CASTANHO (autor de PICASSO VELHO), recordando suas inúmeras aventuras do passado ao lado do meu também saudoso pai AURÉLIO PACHECO que devem estar juntos, como sempre estiveram fazendo as suas em outras paragens, deu uma pequena pausa e disse: “é Pachequinho, as coisas boas acabam…mas as ruins também”!

SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que ainda te desafia nesta vida de artista?

PACHECO: O que mais me realiza, encoraja e desafia é poder lutar contra o “RACISMO, O NEGACIONISMO E O EGOÍSMO” em um período como esse.

Tenho uma filha negra, sou pobre e creio na ciência… isso me dá muita força.

Colocar o dedo nas feridas dos hipócritas que bradam por “Tradição, Família e Propriedade” de dentro de seus “templos religiosos” e saindo dali vão correndo para o “ponto de travestis” ou em exitosos “prostíbulos”, invariavelmente, lotados de grandes carrões e camionetas de último modelo e fazerem “sexo na pista” sem prevenção alguma e voltando para seus felizes lares. Dos “falsos moralistas” que batem nas suas esposas, ao feminicídio e à triste realidade de que, nos últimos dez desses crimes ocorridos no RS “NÃO” existia sequer um registro de queixas crime nas delegacias contra o autor.

A vergonha de ter representantes políticos que “espancam” suas companheiras no meio da rua, vendem mandatos, apoiam genocidas e doentes mentais e fazem “sessão solene no puteiro” e falam em “moral e bons costumes”.

SITE NEIPIES: Cantas e tocas porquê? Quais são tuas fontes na escolha do repertório?

PACHECO: Minha família sempre foi muito musical, via que a música exercia um poder extremamente agregador dentro da nossa casa fosse quando nosso pai pegava o acordeom e ficávamos a sua volta ou quando todos os domingos na casa da nossa avó “EDI” sagradamente aquela gaita passava de mão em mão com nosso pai, Tio Sadi Silveira, (meu padrinho abençoado que nos deixou a pouco também), Tio Romeu Ribeiro, que voltara de um tempo morando no Nordeste e nos trazia modas de viola com temas lindos falando do sertão ou quando recebíamos a visita do amigo da família Miguel Pereira o nosso querido “TIATA’, grande músico do grupo “Os Tropeiros de  Passo Fundo” o que nos lisonjeava muito, Tio Ião e Tio Joãozinho no “chocalho” e na ‘caipirinha’ unidos por um amor e uma amizade sem explicação aos meus inocentes olhos.

Então resolvi que queria aquilo para mim (AMOR E MÚSICA), meu irmão Juarez começou a tocar e estudar violão e consegui me aproximar das cordas e não nos separamos até hoje!

SITE NEIPIES: Vivestes por alguns anos na nossa capital Porto Alegre. Como descreverias o ambiente cultural de nossa capital? Que lembranças e boas vivências de arte e de música guardas nas tuas doces lembranças?

PACHECO: Cheguei em Porto Alegre na metade dos anos 80 onde existia um acaloramento na cena cultural e musical, começava naquele momento um movimento de amor pela cidade onde se adquiriam “hábitos saudáveis” com relação à “ECOSISTEMA E DIREITOS HUMANOS’ e isso me fascinava.

Ainda existiam muitos costumes acorrentados aos grilhões do individualismo e do conservadorismo e isso me dava mais “gana” de viver naquele lugar de pessoas tão diferentes e me parecia ter um “PROJETO COLETIVO E DE CULTURA DO OUTRO” do qual eu queria muito me aliar e ajudar a escrever aquela história, como creio humildemente que contribui.

Busquei ajuda com um amigo de meu pai: “Algacir Costa” grande músico passofundense e pai do hoje fenomenal Yamandú Costa que já estavam na capital com seu grupo “Os Fronteiriços” e de carreira consolidada nos palcos portoalegrenses.

Algacir me apresentou à “PULPERIA”, Casa de shows e gastronomia campeira onde tocavam: Os Fronteiriços, José Cláudio Machado, Lucio Yanel, João de Almeida Neto e todos os grandes nomes do “nativismo” do RS e passei a fazer a abertura das noites da “PULPERIA”. Recém chegado do interior fui “adotado” por uma família que até hoje tenho uma relação de “IRMÃE”: Ilce Borges da Silva, figura maior nas questões de vida que Deus me presenteou e que moravam na “Cidade Baixa” bairro boêmio da capital onde existia um circuito de casas noturnas onde eu poderia exercer minha profissão de opção e dividir “GUITARRA, AMOR E VERSOS”!

Vieram os festivais, que são uma emoção ímpar: CANTO DA LAGOA, FESTIVAL DE MÚSICA DE PORTO ALEGRE, FESTIVAL DO TRABALHADOR, MUSICANTO LATINOAMERICANO DE NATIVISMO, TERTÚLIA… aí um novo caminho como compositor e intérprete de trabalhos inéditos que me renderam muitas experiências e alegrias. Tocar e conviver com YAMANDÚ COSTA…até hoje é uma dádiva!

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL – UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL, produções e emoções, fazer parte do CD do FÓRUM com Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Tom Zé, Zé Caradípia, Leonardo Ribeiro, Raul Elwanguer, Pery Souza, Serginho Moah… foi inesquecível…

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 10 ANOS foi outro movimento. Agora fazendo parte da equipe da MSDOIS PRODUTORA com minha abençoada amiga Sandra Narciso, onde pude estar com Eliades Uchoa (BUENA VISTA SOCIAL CLUB), Vicente Feliú (Cuba) e Daniel Viglietti, Agarrate Catalina, Daniel Drexler (UY)….

SITE NEIPIES: Como avalias o ambiente cultural de nossa cidade, Passo Fundo, para artistas que, como tu, vivem, resistem e fazem boa arte? Nossa cidade reconhece e valoriza seus talentos locais?

PACHECO: Nosso ambiente Cultural local ainda é jovem e volátil, nos últimos anos temos tido alguns avanços nas Políticas Públicas de Cultura, mas ainda estamos longe de termos uma efetividade nos compromissos sociais que a CULTURA tem que ter com seu povo.

Temos um legislativo apático nas questões culturais que ao invés de valorizar a cultura local fez recentemente uma “Moção de Repúdio” contra um programa de televisão porque falou mal do “Teixeirinha” que sequer nasceu próximo a Passo Fundo.

Quanto ao reconhecimento, não tenho o que me queixar particularmente porque tenho, graças à DEUS, o reconhecimento das pessoas que eu gostaria de ter e ao mesmo tempo o desprezo daquelas que também gostaria.

Temos alguns veículos de comunicação comprometidos com as administrações públicas, porque são divulgadores patrocinados pelos poderes e são pagos para não falarem mal dos seus patrões. Poderiam fazer um papel fiscalizador e denunciador. Existem na cidade alguns comunicadores preconceituosos e homofóbicos e que fazem o andamento do processo civilizatório retroagir a “TEMPOS MEDIEVAIS” com seus comentários, conceitos e pensamentos ignorantes. A humanidade teve avanços nos últimos 100 anos que não eram sequer falados a milhares de anos e que não tem mais como retroceder.

Essas coisas acabam atravancando as possibilidades de um MOVIMENTO CULTURAL, onde cultura gaúcha é valorizada e a cultura nacional como o carnaval que deveria ser em um plano mais amplo não é reconhecida e como diria o maestro TAU GOLIN: “E os cavalos cagando pela cidade’.

Existem outros veículos de comunicação diferenciados, peleando para esclarecer a população com informações contra o achismo e a personalização das ideias e posicionamentos equivocados.

SITE NEIPIES: Nasceste no contexto da ditadura militar. Quais são suas lembranças daquele período da história do Brasil? Alguma comparação com os tempos de agora?

PACHECO: Nasci no ano de 1968, 62 dias antes do Ato Institucional nº 5, ano em que morreu “Martin Luther King”, acho que recebi uma descarga de energia e isso me povoou de forças para lutar contra tudo que essas duas situações representam.

Sou “FILHO DO COVEIRO”, meu pai Aurélio e minha mãe Sueli se aposentaram como “zeladores do Cemitério Municipal da Vila Petrópolis”, ali aprendi a ter outra relação com a vida e com a morte, enterrei e desenterrei muita gente. Me criei na graxa e sempre quis mudar essa realidade.

Fui forjado por grandes guerreiros e intelectuais da nossa terra Emerson Brotto, Marco Aurélio Weissheimer, Marcos Mussolini, meu abençoadíssimo hermanito Luís Carlos de Cesaro que nesse dia de Corpus Christi em que respondo essa entrevista faz nove anos de sua passagem.

Quanto as semelhanças da época com a atualidade acho que tem uma diferença muito grande que é o “falso moralismo dos falsos profetas e a ignorância”, as mesmas pessoas que querem o retrocesso. “se ele viesse”, seriam os protagonistas dessas mesmas atrocidades que elas defendem, pois, acham que se feitas por eles não é errado! Sonegam impostos, falsificam atestados e documentos, estacionam o carro em vaga de deficiente, falsificam álcool gel em tempos de pandemia ….e  são cidadãos de bem!

Então creio que a “burrice e o mau caratismo”, ainda é o problema maior.

SITE NEIPIES: Qual é o papel da arte e dos artistas no Brasil no atual momento histórico?

PACHECO: O papel da arte e da cultura hoje está se mostrando tão vital e essencial para a humanidade nesse momento quanto o “SUS”, tenho certeza de que se não fossem os dois hoje o nível de mortes e atrocidades seria escandalosamente maior! VIVA A ARTE E O SUS!

SITE NEIPIES: Como tens suportado, durante a pandemia, viver o isolamento físico e social, sem público para apreciar, apoiar e aplaudir a tua música?

PACHECO: Isolamento social e Home office são rotinas diárias que essa sociedade medíocre está conhecendo agora, junto de seus filhos e familiares que praticamente não sabiam que eram.

Para nós, artistas, isso é uma condição imposta desde sempre. Ficamos trancados em quartos horas e dias a fio, tirando música, estudando, ensaiando, decorando textos, fazendo contatos para agendamentos de trabalhos por sermos gestores de nós mesmos.

Amamos o que fazemos e não vamos para o trabalho de mau humor porque nosso chefe é um FDP, vamos com tesão e capacidade de resiliência para começar tudo de novo.

Quero ver esses incompetentes C de cachorro que ganham tudo de mão-beijada dos papaizinhos sobreviverem nessa situação.

SITE NEIPIES: Como os artistas como tu tem sobrevivido financeiramente nestes tempos de isolamento?

PACHECO: A dificuldade sempre existiu e nunca foi fácil sobreviver de arte em um país que é líder mundial em ignorância, onde a “pasteurização” da cultura se transformou em um mercado tão forte e aniquilador onde as “gordinhas gueludas” passaram a dar tanto valor a realidade terrível do papel das mulheres em nosso mundo, onde a “MIGA” barraqueira e sem amor próprio e que bebe e sobe na mesa assume seu lugar ridículo!

Hoje uma nova realidade se apresenta nas possibilidades de “LIVES”, mesmo tendo que concorrer com os sucessos de “BULLINGS” das músicas “Caneta Azul” e o ridículo “baitaquismo” sustentados mais uma vez pela ignorância e pelo preconceito!

Graças a DIOS tenho algumas outras fontes de renda, mesmo sendo na área da cultura e entretenimento, como Produção Cultural, o teatro através do GRUPO RITORNELO, a gastronomia onde faço um pacote de “BÓIA E MÚSICA”, mas que ficam prejudicadas com o afastamento social exigido no momento”.

SITE NEIPIES: Avalias que a pandemia do Covid 19 está mais para uma guerra ou para uma crise?

PACHECO: Sem dúvidas “uma guerra”, a guerra da “ignorância, da ganância, da falta de empatia e do negacionismo” contra a “ciência”. A crise política e corrupção existem no nosso histórico desde o governo de “César” porque o ser humano é “corruptível”.

SITE NEIPIES: Na tua trajetória pessoal e social, trabalhastes também na política, através da militância e da assessoria parlamentar. Que lições tiras destas experiências?

PACHECO: Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes guerreiros, assessorando-os ou simplesmente lutando ao lado deles em batalhas a favor da “DEMOCRACIA” e que aprendi muito: Beto Albuquerque, Jauri Oliveira, Jussara Cony, Juliano Roso, Flávio Lammel, Edegar Pretto…

As lições são duras diante da realidade da política, o “sistema” é uma engrenagem que se tiver uma peça que não esteja funcionando dentro da sua “dinâmica” essa peça é imediatamente substituída e a “roda continua a girar”.

Penso que o “bom político para a sociedade” é o político “sem cargo”, aquele que faz o “corre para resolver as coisas na comunidade” a partir do momento que ele é agraciado com um “cargo” se faz qualquer coisa para mantê-lo, aí se vai o boi com a corda.

SITE NEIPIES: Donde vem tua paixão pela cozinha? Fala-nos do teu projeto Feijoada com Pacheco?

PACHECO: Minha paixão pela cozinha mais profissionalmente começou durante o governo Tarso Genro onde foi criado um Grupo de Trabalho de Gastronomia Regional e tive oportunidade de conviver com “CHEF’S” de cozinha maravilhosos com o intuito de criar uma identidade local para nossas “bóias campeiras” com insumos e produtos do nosso RS e meu compadre Edegar Pretto me pediu para que fizesse uma “FEIJOADA PACHECÔNICA” para seus convidados em comemoração ao seu aniversário, respondi que sim e perguntei-lhe para quantas pessoas seria e ele respondeu que seriam umas 40, topei na hora e quando chegou no dia tinham mais de 120 pessoas, daí prá frente virou festa e participei de vários FESTIVAIS DE GASTRONOMIA” chegando a servir mais de 400 pessoas em um evento e hoje a “PACHECÔNICA” é um sucesso que já foi até para Montevidéo – UY.

SITE NEIPIES: Quais são seus desejos e expectativas para o pós pandemia? Seremos melhores?

PACHECO: As máscaras caem nas crises e desumanidades e esse elemento “máscara” está fazendo com que as pessoas voltem a um hábito fora de moda e que muitas pessoas tinham deixado de lado que é: “olhar nos olhos dos outros”, como disse o grande poeta argentino “PIERO”:

“HABLAR MIRANDOSE A LOS OJOS, SACAR LO QUE SE PUEDE AFUERA,

 PARA QUE ADENTRO NAZCAN COSAS NUEVAS, NUEVAS, NUEVAS”.

E nesse contesto só podemos ser melhores com avanços e coisas novas e não retrocedermos à costumes velhos e retrógados que temos milhares de provas na história de que “não” deram certo. O hábito da generosidade e da solidariedade que sejam ‘MUI BIÉN VENIDOS’.

SITE NEIPIES: Que mensagens gostarias de deixar a teus amigos artistas?

PACHECO: Que não queiram transformar seu filhos em médicos e doutores, façam-nos ser “ARTISTAS”! PRECISAMOS DE MAIS E MAIS ARTISTAS!!!

SITE NEIPIES: Uma frase que defina Ricardo Pacheco.

PACHECO: “Se as armas e os homens calassem seus gritos de morte e ao som de um violão adoçassem seus temporais, um sonho parceiro seria bem mais do que um sonho: seria um beijo do mundo na boca da paz”! (Carlos Omar Vilella Gomes)

SITE NEIPIES: Uma música que cante o mundo como ele deveria ser.

PACHECO: Música “Alma e na voz” – Pirisca Grecco e Carlos Omar Vilella Gomes.

SITE NEIPIES: Uma receita de boa comida ou de um bom programa para estes tempos difíceis de isolamento físico e social?

PACHECO: A receita de boa comida para esse tempos de pandemia que recomendo é nossa feijoada pachecônica e outras bóias que temos feito para levar para casa e o programa é assistir as nossas lives e dos nossos artistas locais e se possível contribuir para a nossa subsistência nesse período!

Agradeço de coração a oportunidade e SEGUIMOS A LUTA!



Matéria produzida por jornalista Gerson Costa Lopes aborda outros aspectos da vida e da música de Ricardo Pacheco, em 2018. Veja mais aqui.




Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal

Relato de uma família na Pandemia, crise e homeschooling

Neste momento delicado pelo qual passamos, ou falamos demais, ou ficamos sem palavras. O planeta já vem gritando sofridamente há décadas juntamente com os fragilizados. Contudo, a cada amanhecer, a cada olhada rápida nas manchetes dos jornais, mais e mais nos chocamos. O medo e a incerteza do amanhã crescem mundialmente. Em meio a isso tudo, fomos instigados a repensarmos nossas vidas, rotinas, escolas fechadas, perda de emprego, de esperança e de vidas humanas.

Aqui abordaremos um retrato de uma família americana de mãe brasileira e imigrante – a minha própria família. Como sou trabalhadora essencial em pesquisas genéticas, meu marido – Brian é quem fica em casa com as nossas três filhas aqui no estado de Washington, EUA.

Antes da pandemia, as duas meninas mais velhas, Anna e Abby (primeiro ano e pré-escolar) acordavam as 6 e meia da manhã e embarcavam no ônibus escolar às 7 horas. Ficavam na escola regular integral até as 15 horas, depois disso teriam aula de espanhol, piano ou natação até as 17 horas. 

A Amy, ainda bebê, frequentava a baby-sitters de 4 a 5 dias por semana. Nos finais de semana, quase sempre, viajávamos em família. A mãe trabalhando fora e o pai em casa, mas seguindo com projetos ambientais e editoria acadêmica. Desde a metade de março, tudo mudou drasticamente.

Resolvi entrevistar meu marido, que tem Ph.D. em Engenharia dos Sistemas Biológicos, mas está 100% em casa cuidando das filhas há dois anos.

Optamos por ter um de nós ficar em casa com elas porque babás não são comuns nos EUA. Nos revezamos desde 2013 com a primeira filha Anna que ele cuidou por 1 ano, com a segunda filha Abby que eu cuidei por outro ano. Na terceira filha Amy, foi a vez dele novamente e, então, inesperadamente, veio a pandemia, seguida de recessão e crise. Situação posta: não posso parar meu trabalho e ele não pode recomeçar.

Como profissional da área ambiental, como você está vendo o Covid-19?

Brian – Ao longo dos anos, as pessoas foram destruindo habitats naturais e foram se alimentando de animais selvagens para sua sobrevivência, devido a pobreza econômica. É surpreendente a rapidez com que a pandemia cresceu, circulando pelo globo em poucos meses e está em quase todos os países do mundo. A velocidade é assustadora, não sabemos para onde estamos indo. Uma recessão econômica se seguiu.

A razão que a velocidade de contágio pelo Covid-19 é alta porque vivemos numa sociedade globalizada, os vôos são de fácil acesso. Quando o patógeno passou para o ser humano, se achou em novo hospedeiro. Quanto mais animais e pessoas interagem como nos mercados de carne, maiores as chances de novas doenças zoonóticas.

Quando o Covid-19 chega em algum novo lugar, em vez das pessoas se unirem contra o vírus, elas são xenofóbicas culpando outras etnias, os governantes brigando entre si, escondendo dados científicos e não compartilhando equipamento de proteção individual como máscaras, luvas e visores.

A OMS tem cientistas unidos para desenvolver uma vacina, mas os políticos brigam entre si. Até que o governante dos EUA anunciou a saída da organização, infelizmente tudo vira política.

E como pai, o que mudou na sua vida com o Covid-19 aqui nos EUA?

Brian – Na metade de março, começou o isolamento aqui. Nosso estado de Washington foi o primeiro a aparecer casos. Aqui ainda há contagio diário, mas tem outros estados em situação mais grave. Tem um presídio a 30 minutos daqui, com o maior número de casos ainda. O problema é que nem todos levam a sério, as máscaras são recomendadas, porém não são obrigatórias.

Desde a metade de março, não conseguimos encontrar mais desinfetantes no mercado. O papel higiênico que temos foi presente de diferentes amigos. As pessoas aqui ainda estão comprando no modo pânico, o álcool gel sumiu das prateleiras desde janeiro. Semanas de confinamento e isolamento. É desafiador que as crianças queiram sair, mas não é seguro lá fora. As crianças estão entediadas em casa.

Qual a situação educativa das crianças no momento?

Brian – As escolas estão fechadas. Embora eu tenha sido um educador no passado, eu não sou professor de ensino fundamental e eu também tenho que cuidar da bebê. Especialmente porque há 10 anos, neste país, eles mudaram a forma como a matemática tem sido ensinada, ficou mais difícil para quem aprendeu de outro jeito. A metodologia de como você aprende é diferente. Eu posso ensiná-las do jeito que aprendi, mas esse não é o sistema nas escolas atuais, então quando elas retornarem as aulas, isso será um problema.

Uma vez por semana, o distrito escolar envia um pacote com atividades de matemática e inglês para os alunos. Também recebo um e-mail uma vez por semana com um vídeo de ciências. Quase todas as tarefas enviadas para casa pela escola exigem atenção dos pais ou responsável. Não temos um faxineiro ou uma babá no momento porque não é seguro, devemos manter o distanciamento social.

No ensino em casa (homeschooling), o pai ou responsável toma a iniciação de escolher um currículo online e ensinar diferentes assuntos por 6 horas ou mais diariamente. Porém, na pandemia, o ensino regular tornou-se a distância, um ensino de casa. Os professores não fornecem mais do que 30 por criança por dia de atividades.

Neste país, cada Estado tem poder sobre a educação, não o governo federal. No nosso estado, fica a critério de distritos escolares regionais, sendo que o distrito dá poder a cada escola. Assim não há uniformidade. Então usamos pacotes de duas escolas, sendo que uma escola é mais avançada.

As escolas acabam por decidir por conta própria. Quando os pais reclamam, eles passam a culpa para gestores ou professores. Uma quantidade relevante dos pais nesse distrito escolar é considerada essenciais, têm que trabalhar o dia todo e não podem acompanhar seus filhos. Alguns não têm wi-fi em casa e a biblioteca está fechada. Então, basicamente, para algumas crianças, aqui a educação parou em março.

O maior desafio para mim é que as crianças iam à escola 6 horas por dia, e agora a escola fornece materiais que duram de 5 a 10 minutos por dia para minhas filhas sem completar ou dar maiores instruções.

Não há perspectiva de retorno de aulas presenciais. As aulas iniciariam no final de agosto aqui, mas já não há mais como saber. Infelizmente, 99% das crianças nesse distrito serão prejudicadas porque não estão aprendendo em todo seu potencial. Num total de 80-90% das crianças americanas correm esse risco. A menos que você tenha dinheiro para transferir a escolas particulares com tutores disponíveis (mas tutores presenciais também não são permitidos no momento).

Minhas esperanças são de que isso não durará pra sempre. A esperança de uma vacina que está em estudos de campo avançado. A pergunta aqui e quem irá utilizar e quanto custará essa vacina. Tem um movimento anti-vacina aqui e também existem algumas religiões que proíbem. Então, mesmo assim, haverá incertezas. Quando se alega princípios religiosos você não precisa se vacinar aqui.

Existe um número grande de pais que desistiram de ensinar os filhos nessa pandemia e eu entendo porque, realmente, não e fácil. O Covid-19 vai estar com a gente por um grande tempo, mas a vacina é uma proteção. O ponto positivo é que aqui entramos em férias agora e os pais podem descansar.

Você pode descrever sua nova rotina com o covid-19?

Brian – No começo, estávamos perdidos, tanto pais como professores. A minha rotina demorou quatro dias para ser elaborada, mas quando nos encontramos, ficou mais fácil.

Acordamos e como cada criança recebeu emprestado um computador laptop da escola, elas entram em jogos educacionais, tomam café da manhã e retornam aos jogos. Na metade da manhã elas trabalham nos pacotes escolares por 30 min. Então fizemos um intervalo e almoçamos. Depois do almoço é brincadeira livre, elas podem ir no pátio, brincar, ver TV até a mãe delas chegar do trabalho para, então, jantarmos juntos.

A bebê, nesse tempo, assiste as irmãs jogarem e durante as atividades escolares eu a carrego no colo enquanto oriento as outras duas meninas (uma em casa série). Depois do almoço, a bebê dorme por uma ou duas horas e daí eu tenho que limpar a casa, cozinhar e juntar os brinquedos. Durante meu dia há choro do bebê e rivalidade entre as irmãs, mas não o tempo todo. Depois que as crianças vão dormir, eu finalmente tenho algumas horas para ver um filme, editar artigos acadêmicos ou simplesmente aproveitar momentos de calma e paz.

A única diferença no final de semana é que não precisamos ter 30 minutos de instrução. Eu ou a mãe delas vai fazer compras, as crianças ficam com o outro adulto. Porém, até mesmo ir ao mercado, tornou-se estressante com covid-19. Há falta de produtos, as pessoas estão super estressadas ou não tomam precauções. Longas filas com espera de 30 a 40 minutos para entrar no supermercado. Isso tudo soma-se ao stress de ter que tentar conseguir comprar tudo o que está na lista para evitar voltas desnecessárias.

Pode mencionar algo sobre os protestos recentes no seu país?

Brian – Há um “bias racial” comprovado nesse país, em que as pessoas negras são vistas como ameaça a ordem (o que é absolutamente falso). No caso de George Floyd, houve uma reação inaceitável e “bias” dos policiais envolvidos, um por assassinato cruel e os outros por omissão de socorro colaborando com o crime. Outra pessoa foi morta simplesmente por estar correndo na rua. Isso vem acontecendo há décadas e nós atingimos o limite.

Eu apoio os protestos, mas não apoio violência e destruição. Também acho que deveriam utilizar máscaras porque estamos enfrentando uma pandemia.

Para encerrar, estamos entrando numa crise econômica jamais vista na história e caminhamos incertos quanto ao futuro. Aqui esperaremos as eleições em novembro e, talvez, alguma mudança se apresente.


Notas conclusivas

Encerro a entrevista com meu marido e confesso que estou um pouco anciosa sobre o futuro. Porém quero dizer que nós, pais e mães, devemos continuar a ser fortes e criativos. Por exemplo, nossa filha do meio, Abby, fez aniversário dia 18 de maio e sempre celebramos com uma festinha, o que é proibido devido a aglomerações e risco de contágio pelo covid-19.

As crianças estavam muito tristes com a situação e então tivemos a ideia de fazer uma drive-thru para comemorar. Montamos um pacote festa individualizado e personalizado para cada uma das famílias que são nossas amigas. Decoramos uma mesa e colocamos os pacotes na entrada da garagem. As famílias dirigiam em horários separados e pegavam seu pacote sem descer do carro e deixavam seus cartões ou presentes em outra mesa. As crianças assistiam à distância e vibravam a cada carro de convidados! A alegria durou até o outro dia no qual elas abriram os cartões e presentes. Gestos simbolizando abraços e carinho a distância foram expressos. Enfim, creio que devemos tentar encontrar a felicidade nas pequenas coisas em tempos de pandemia para que nossa saúde mental e física seja mantida.

O medo é legitimo, mas é como o paradoxo do copo com 50% de água. Alguns vão reclamar que o copo está incompleto e enxergar somente o 50% que faltam, afirmando que o copo está 50% vazio. Outros vão receber o copo alegremente e enxergar que há ainda água no copo e está assim 50% cheio.

Temos que agradecer pelo que temos e contar as nossas bênçãos, pois sempre haverá alguém enfrentando, ou que já enfrentou, dificuldades maiores que as nossas. Ter fé é preciso para superarmos nossos problemas, mas ter empatia é preciso para um mundo melhor. Quando eu puder ajudar outro ser humano (ou outra espécie), me torno um ser humano melhor.




“O que se pode esperar de uma criança da vila? Uma das possíveis respostas para essa pergunta é: “pode-se esperar o que essa criança quiser – o céu é o limite”.  Apenas, mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês pois essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e, acima de tudo, ela possui a humildade e a alegria que devemos celebrar cotidianamente para a harmonia planetária”.




Fotos: Arquivo pessoal

O desafio do bom convívio familiar em tempos de pandemia

Professora da UPF conta o que
as famílias podem fazer para terem
uma convivência harmoniosa
durante a quarentena.


A pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) tem provocado mudanças em alguns hábitos e costumes de grande parte da população. Um deles está relacionado ao convívio familiar: pais, mães e filhos que antes realizavam atividades a partir de suas próprias rotinas, agora precisam se adaptar com a aproximação imposta pelo isolamento social. Mas o que essa proximidade da quarentena pode estar ocasionando?

De acordo com a professora do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Dra. Suzana König Luz, o impacto nas famílias vai além do conviver por mais tempo juntos. “Há famílias tendo que se reorganizar financeiramente, perdendo empregos, não sabendo se vão tê-los novamente. Tudo isso traz uma avalanche de emoções e pensamentos desastrosos nos indivíduos e, consequentemente, nas famílias. A saúde familiar está ameaçada em seu cerne, em sua sobrevivência”, relata.

A docente menciona algumas configurações familiares envolvidas neste contexto que, de certa forma, vivenciam tais mudanças. “Uma minoria da população tem acesso aos meios de comunicação e aos espaços virtuais. Uma minoria das famílias pode fazer o isolamento social, pois tem que trabalhar (se ainda tiver emprego) para garantir o sustento da sua família. Em outro cenário, temos as famílias que sim, conseguem trabalhar em casa, não tiveram redução de salário e estão aproveitando para se aproximar, viver momentos que antes, por conta de uma rotina exaustiva, não era permitido. E temos ainda as famílias hospedeiras, que tinham o lar somente para dormir. Esse momento é desafiador para elas, pois não estão acostumadas a conviver. Como podemos observar, temos vários impactos acontecendo e vários cenários. Não podemos falar somente de um impacto, pois eles são diversos”, destaca Suzana, lembrando que o isolamento social ainda é fundamental para a contenção da pandemia da Covid-19.

Mais respeito, diálogo e organização

Uma dica que a professora dá para as famílias terem uma convivência saudável e harmônica é manter o diálogo e o respeito. “Este é o grande desafio. Os conflitos familiares já existentes tendem a tornar-se maiores. O que antes era ‘apenas a toalha em cima da cama’ ou o ‘tênis fora do lugar’, hoje pode ganhar dimensões e discussões exacerbadas. O ritmo dos membros da família não é o mesmo. O que deve ser feito é tentar manter o diálogo e o respeito. Talvez a harmonia seja algo utópico, pois sabemos que os índices de violência doméstica aumentaram, bem como os índices de alcoolismo, por exemplo. Então, dizer o que fazer para ter uma convivência saudável e harmoniosa vai além de palavras. Precisa de gestos, respeito, tolerância e, acima de tudo, vontade de permanecer juntos”, afirma Suzana.

A organização também é uma aliada para o bom convívio familiar. “É preciso manter a mesma rotina de antes, estabelecendo horários e, principalmente, respeitando-os. Se a família, antes da pandemia, não tinha o hábito de jantar todos juntos por exemplo, não é agora, no isolamento, que isso vai começar a acontecer. Procurar respeitar os horários de trabalho em casa, os horários de conversas em família, os horários para ficar com os filhos. O ficar junto não é o problema, a questão é o excesso e ou o distanciamento”, conta.

Além das atividades ligadas ao trabalho e ao estudo, é importante ter momentos de lazer e diversão neste período de quarentena. “Segundo o que temos escutado, a Netflix tem sido a verdadeira salvação nestes tempos de isolamento. Mas nem todos tem acesso ao serviço de streaming. É inevitável que em alguns momentos as pessoas queiram ficar sozinhas, mesmo estando juntas. Assim, pode ser muito útil um trabalho manual, uma leitura, uma comida diferente. Chamar a família para a cozinha tem sido uma ótima opção. Jogos com os filhos pequenos, conversas sobre as aulas dos filhos que estão tendo que estudar remotamente também. Estamos falando de uma infinidade de possibilidades, mas novamente destaco que a família deve querer esta aproximação. Tem famílias que não querem, que não tinham uma aproximação antes da pandemia e que não querem começar agora, e está tudo bem. O importante é respeitar o momento de cada um”, pontua Suzana, complementando que se tem falado muito na saúde da família, mas que há ainda pessoas sozinhas passando pelo quarentena. “Como elas estão? Será que alguma coisa mudou?”, questiona.

Saiba mais sobre esse assunto acessando o vídeo do minicurso on-line “A saúde familiar em tempo de confinamento”, ministrado pela professora Dra. Suzana König Luz.



Foto: Divulgação/Internet

Racismo

A sociedade racista desenvolve
mecanismos diversos –
uns mais sutis, outros nem tanto –
de restrição, limitação e exclusão social.


Em 1863, entrava em vigor nos Estados Unidos o Ato de Emancipação, assinado pelo presidente A. Lincoln, libertando cerca de 4 milhões de escravos negros.

Entretanto, as desigualdades econômicas, sociais e de saúde continuaram a marcar a vida dos negros norte-americanos. O racismo continuou latente. Assim, após anos de ressentimento, a morte de G.Floyd foi a gota d’água para a explosão do movimento civil – muitos outros já se registraram na história americana –, que hoje se espalha por vários estados.

A frustração é potencializada pelo contexto criado pela pandemia – no qual 40 milhões de americanos se registraram como desempregados para obter benefícios – e que afeta de forma desproporcional as minorias negras e latinas.

Aqui, 132 após a abolição da escravidão o quadro não é muito diferente. Na última semana um garoto de 14 anos, João Pedro, foi vítima de uma “bala perdida”, em função de uma desastrada operação da Polícia Federal.

Você já percebeu que as “balas perdidas” sempre encontram de preferência negros!! Isto é o resultado de uma sociedade que convive histórica e estruturalmente com o racismo, que perpassa as relações sociais e inscreve no país uma forma particular de convivência entre desiguais.

O racismo molda uma sociedade que se assenta na existência e naturalização da desigualdade e dela faz uma base específica de apoio e funcionamento.

Sob a ideologia racista, o fenômeno da pobreza, miséria e violência e, mais grave, sua persistência, não se impõem como um problema social. Pelo contrário, apresenta-se normalizado, parte da paisagem social.

Durante sua campanha à presidência, Bolsonaro em um discurso, comparou um negro a um bovino, afirmando que o mesmo deveria pesar mais de 80 arroubas e sequer como reprodutor teria utilidade.

“A desigualdade que se naturaliza no seio da nossa sociedade forja uma estrutura racialmente hierarquizada sob a égide do racismo. O racismo transforma diversidade em desigualdade”, segundo o Doutor em Economia pela Universidade Paris I – Sorbonne, Mário Theodoro.

A sociedade racista desenvolve mecanismos diversos – uns mais sutis, outros nem tanto – de restrição, limitação e exclusão social. Sujeita o indivíduo negro a barreiras que limitam ou bloqueiam suas condições de mobilidade social.

Associa-o à pobreza e à miséria, banaliza situações graves de constrangimento e violação de direitos que levam à alienação e no limite, à morte.

É o que demonstram os indicadores sobre os assassinatos de jovens negros e sobre as mortes acidentais por “balas perdidas”.

Em trajetória crescente, essas mortes explicitam não apenas a banalidade da desigualdade, mas a ação não constrangida da violência contra população negra.




Em entrevista a emissora alemã, Angela Merkel lamenta a morte de George Floyd e reprova o racismo nos EUA, mas alerta para sua existência também na Alemanha. A chanceler federal cita ainda a polarização na sociedade americana e classifica como “muito controverso” o estilo político de Donald Trump.

A inteligência artificial e renda básica: combinação necessária para uma nova época

O acesso universal da internet,
o uso da automação e da inteligência artificial,
subordinadas ao interesse público, são
decisões necessárias para que todos tenham
acesso ao básico e a humanidade passe a
vivenciar uma fase mais favorável.


O desenvolvimento humano é marcado pela evolução tecnológica e tem a inteligência artificial a seu dispor. Trata-se de uma ferramenta com múltiplas possibilidades, que ainda tem seus usos pouco conhecidos e restritos, mas que será impulsionada com a pandemia de 2020.

A mudança de época que caracteriza a transição entre os século XX e XXI, será acelerada e terá a culminância com as imposições do COVID 19. Entre as mudanças, está o aumentando as demandas pelo uso da internet, que recebem comandos humanos, mas tem seu funcionamento por meio da automação e da inteligência artificial, diminuindo o esforço com deslocamento físico.  

O isolamento físico é uma oportunidade para repensar e transformar os comportamentos produtivistas, consumistas e materialistas, calcificados na cultura e na subjetividade, abrindo os caminhos para uma época em que a vida seja mais valorizada.

 As evoluções tecnológicas em geral e a inteligência artificial, em específico, contribuíram para a que a humanidade produzisse mais do que o necessário para atender dimensão material. Não entanto, dois aspectos foram negligenciados e precisam ter centralidade.  

Um aspecto é que esta produção com muitas sobras, não é acessada pela maior parte da população mundial que sofre por falta de alimentação e habitação adequadas.

Outro aspecto é que a dimensão material da existência humana, apesar de ser importante e básica, representa a menor parte na totalidade da existência. A parte mais abrangente da vida humana está situada na dimensão imaterial, cultural, do pensamento e da espiritualidade.

Em grande parte do tempo da vida, os seres humanos não estão conscientes dos cuidados com o próprio corpo e terceirizam o que deve ser aprendido e assumido como responsabilidade individual. Perguntas em relação aos critérios necessários para a desenvolvimento humano devem incluir os cuidados básicos, com alimentação, habitação e educação para o bom funcionamento do corpo.

As definições a respeito do que seria o básico para uma vida, estão subordinas ao contexto individual e de época, por isto não são exatas e nem universais. No entanto, o conjunto das instituições, especialmente as públicas, devem ter seu funcionamento orientadas e seguindo um planejamento que vise a universalização do acesso a uma alimentação saudável, habitação adequada e uma educação que capacite cada ser humano para cuidar de si e dos outros.

O acesso universal da internet, o uso da automação e da inteligência artificial, subordinadas ao interesse público, são decisões necessárias para que todos tenham acesso ao básico e a humanidade passe a vivenciar uma fase mais favorável.




“A construção de uma transformação profunda que pode possibilitar a evolução da humanidade, está vinculada com a substituição dos valores individualistas, egocêntricos e antropocêntricos por valores alicerçados na solidariedade, na imaterialidade, na evolução espiritual, na reconexão dos seres humanos entre si e com a natureza”.

O corpo do outro é um território afetivo

Com essa loucura toda de uma pandemia
que se propaga pela proximidade, pela troca,
pelo corpo estranho e pelo corpo tão conhecido;
o corpo do outro tornou-se prioritariamente uma ameaça.



O corpo do outro é um território afetivo. É destino dos nossos desejos ou apenas lugar para satisfazer desejos. Também nos vale como filtro, sendo capaz de examinar o que se passa dentro de nós de modo inconsciente. Não há mentiras diante do corpo. Ele é capaz mudar de desejos, afetos e destinos.

O corpo do outro é um lugar de reconhecimento do nosso próprio corpo. Da nossa própria existência. Os afetos também podem ser capazes de destinar coisas ruins. A raiva, o ódio, o preconceito estão ali. O corpo pode ser símbolo narcísico. Pode ser ostentado. Pode ser invejado. Pode ter valor. Pode ser uma ameaça.

Com essa loucura toda de uma pandemia que se propaga pela proximidade, pela troca, pelo corpo estranho e pelo corpo tão conhecido; o corpo do outro tornou-se prioritariamente uma ameaça. Ele exige uma distância ainda maior do que a usual. O corpo é um perigo, vetor do caos, da morte, tornando-se o significante do medo.

O corpo do outro é algo a ser evitado – não que isso já não existisse numa sociedade tão desigual e cada vez mais apartada por escolha própria. Mas agora já não há escolha. Até o corpo dos que se acham iguais também é um território proibido.

Os corpos dos que amamos também nos causam terror: eles são capazes de tombar por um vírus desconhecido e são capazes de nos fazer tombar num encontro desafortunado.

O corpo dos amantes ainda buscavam ser decifrados quando isso tudo começou. Os encontros tiveram de ser pausados e coube a imaginação terminar aquilo que dois pedaços de carne começaram.

Os corpos ainda eram caminhos desconhecidos, passagens a serem percorridas, mas tiveram que encontrar a distância como uma diretriz. Um hiato. E um hiato pode pode mudar tudo. Os corpos dos que há anos se conhecem e se tocam sem tantos pudores, agora mostram que guardam outros segredos que só o silêncio e o tempo são capazes de revelar.

O corpo todo furado. Não de balas como antes. Por ora, ele é vazado pela dualidade, pelo risco, pela noção de que algo concreto pode acontecer a partir de encontros e esbarrões tão fluídos. O corpo todo inteiro. Não com as certezas de antes. Por ora, ele é inteiro por puro instinto de sobrevivência.

O corpo não mudou. Ou talvez até tenha mudado. O que não mudou é que o medo e o desejo continuam a duelar quando dois corpos se encontram.

Veja também