Essas são as nossas mãos:
Mãos que ensinam,
mãos que protegem,
mãos que aprendem,
mãos que protestam,
mãos que vibram, que gritam!
Mãos que acolhem,
mãos machucadas, feridas!
Mãos que doam,
mãos que ajudam,
mãos que perdoam, que choram!
Mãos que defendem,
mãos que lutam, que suam!
Mãos que abraçam, consolam!
Mãos que escrevem, que acreditam!
Mãos que dão as mãos!
Mãos que trabalham e que não desistem!
Mãos exemplos e mãos de caminhos!
Mãos para construir, esperançar, professorar, amar!
Dando e recebendo!
Mãos, nossas mãos! Mãos que são bençãos!
Amém.
Texto em homenagem ao dia do professor. Professora Adriana Severo dos Santos. 15.10.2019
Ao
invés de muros, construamos pontes. Pontes de professores para professores. Pontes
comunicam e interligam. Muros separam e nos dividem.
Necessitamos
acreditar mais na gente, nas nossas possibilidades, nas nossas energias e nas
nossas forças.
Em
tempos em que tudo conspira para que a gente se divida, se enfraqueça, fazemos
um modesto esforço, através desta publicação, de reunir diferentes desejos e
pontos de vista de professores e professoras do Rio Grande do Sul.
Somamos
na diversidade. Cada um se faz professor a partir de suas experiências e de
suas trajetórias profissionais. Mas, juntos, construímos identidade e irmanamos
lutas em defesa da dignidade de nossa profissão e da escola pública, de
qualidade social.
Convidamos alguns professores para afirmar e renovar seus desejos para 2020. Além de desejos, professores apontam desafios da organização e resistência dos professores e professoras neste ano que recém inicia.
“Este foi um ano maravilhoso para nós, da New Life Educação! Fica aqui a gratidão a todos vocês!!! Esperamos que seus dias tenham sido tão bons quanto foram os nossos. Se você pensar e não encontrar motivos tão claros, lembre-se; se está lendo este post, é porque ainda há muito a ser grato. Desejamos que os dias do próximo ano sejam maravilhosos para você, que consiga conhecer e se conectar a pessoas que só te retribuam sentimentos bons, bem como os que estão dentro de você. Além disso, desejamos ainda, que consiga se conectar consigo mesmo, com sua melhor versão, para que atinja um grau satisfatório de plenitude”.
Jairo e Danieli Oliveira, Escola New Life
O que eu gostaria de renovar junto a meus colegas professores em 2020? Uma pergunta difícil, de múltiplas respostas. Mas o primeiro desejo de renovação que me chegou durante o questionamento foi aquele sentimento de quando ainda me preparava, como aluna, para ser professora. O sentimento de ser e ver renovação diária em sala de aula. De fazer a diferença, de acreditar e lutar por uma educação mais humana, compartilhada, inclusiva e plural. A rotina, a desvalorização e o descaso com o professor e com o sistema educacional não podem apagar esse sentimento na prática da docência. Colegas, em 2020, que nosso desejo de ser e ver a renovação na educação sejam renovados, de mãos dadas, diariamente!
Lígia Dalchiavon, professora Universidade Federal do Rio Grande, Campus de Santa Vitória do Palmar, RS
O desejo mobiliza. Sem desejo não há propósito de renovação e nem a própria renovação. Assim, meu desejo é que 2020 seja de qualificação da resistência ao modo de “reExistência”. O desafio é recompor as bases de um projeto de vida em abundância para todas e todos. A educação pode ajudar nisso, pois pode enfrentar as subjugacões totalizantes e fortalecer processos de subjetivação abertos, alteritários, alternativos e alterativos. Renovo o compromisso com a responsabilidade que há de se fazer organizando e luta popular por meio da educação popular qua formação para a transgressão. Educadores-educandos e educandos-educadores seguiremos nos fortalecendo na solidariedade que promove e potencializa alegrias.
Paulo César Carbonari, professor universitário e militante de direitos humanos desde Passo Fundo
Eu desejo para 2020 fortalecer minha luta pela retomada da Democracia de Estado de Direito no meu País, denunciando e me somando aos movimentos de combate à intolerância e perseguição à diversidade. Os brasileiros correm sérios riscos por conta do ódio reprimido da elite econômica e “religiosa” conservadora contra os pobres, negros, estrangeiros, mulheres LGTBs e minorias. Dedicarei minha humanidade e espiritualidade à luta incessante pela justiça e respeito ao que é mais sagrado – a humanidade. Assim como disse Nelson Mandela, eu creio também que quem aprende a odiar, pode aprender a amar. Creio no meu desejo de ter às liberdades de volta. O ano de 2020 será o tempo de continuar a ponte da travessia em busca da felicidade roubada. Um dia ela vai voltar com um largo sorriso nos lábios. Então, direi que este sorriso fui eu e os que amam liberdade que o colocamos lá.
Francisco Machado, professor da rede estadual e pastor da Igreja Anglicana
“Não tem como falar em perspectivas para 2020 sem avaliar o retrocesso histórico, pelo qual nosso País vem passando, onde os direitos já conquistados da classe trabalhadora, serviços públicos e as políticas sociais sofrem mudanças avassaladoras que precarizam ainda mais as condições de vida do povo brasileiro, onde ataques institucionais foram protagonizados (congelamentos dos gastos, privatizações, decretos, reforma da CLT, reforma da previdência, sucateamento, corte de verbas para serviços básicos…) e muitos outros estão arquitetados.
O ano de 2019 teve muita luta, várias mobilizações da classe trabalhadora, fechando greve dos professores da rede Estadual do Rio Grande do Sul, que lutam permanentemente pela manutenção de seus direitos conquistados, pela profissão docente e educação de qualidade.
Final do ano foi marcado pelo desrespeito dos nossos governantes que desconsideram as vozes das ruas e as reivindicações do povo que os elegeram. O que esperar para 2020? Não será um ano fácil, teremos muitos desafios, onde nossa única alternativa é manter a esperança viva, pois é uma forma de resistir diante de tantos ataques e descaso com a classe trabalhadora.
Que o exemplo dos professores do Estado, seja alimento para organização dos demais Trabalhadores(as) e que possamos somar forças da luta em defesa de condições dignas de vida e de trabalho para todos(as). Por ser um ano eleitoral espero que todos(as) utilizem da melhor forma seu direito de voto e que tenhamos mais representatividade dos(as) trabalhadores(as).
Como professora Municipal espero que a Educação Pública seja pautada como prioridade e que nossos professores(as) sejam ouvidos, respeitados e que suas reivindicações sejam atendidas. Que nossa luta seja abraçada pela sociedade, onde possamos estar lado a lado na defesa da educação pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade. Obrigada a tod@s que estiveram ao nosso lado e que 2020 nossas energias se renovem e que a nossa Esperança se mantenha viva!
Regina Costa dos Santos, professora de educação infantil e dirigente CMP Sindicato
“Renovo minha esperança na escola pública universal, de qualidade e laica,no respeito e dignidade que merecemos e principalmente, na consciência de classe dos trabalhadores em educação, que sem ela não é possível empreendermos as mudanças tão necessárias em nossa sociedade”.
Marli Schaule, professora aposentada e dirigente CPERS
2020, o ano que nuca será.
2020 se encerra em primeiro de Janeiro de 2020. Este será um ano que nunca terá existido para a educação. Desta forma, desde já desejo um venturoso 2021 a todos e todas.
A tradição de desejar um belo e próspero ano novo vem da simples e ilusória perspectiva de mudança que o final de um ano e o início do seguinte, proporciona às pessoas. A tradição também está calcada no fato de que o limiar de um novo ano, é uma porta de entrada para mudanças de cunho pessoal, profissional, afetivo e de que tudo realmente é possível, uma vez que o futuro de fato sempre é uma incógnita e absolutamente tudo, ou quase tudo, pode acontecer. Pois, nossas variáveis para uma previsão, são quase que ilimitadas.
Infelizmente isso não ocorre com a educação. Não precisa ser um astrólogo, tarólogo, quiromante, bruxo ou até mesmo cientista político para prever que nada de novo acontecerá na educação além daquilo que já presenciamos nos últimos anos e além daquilo que temos de variáveis presentes e que nos apontam para o nada, o vazio absoluto.
Nossas variáveis atuais mostram um ministro da educação que ainda está na pré-adolescência, um presidente e seus seguidores que abominam a ciência, a cultura, o estudo e a pesquisa e que tem como referência intelectual um astrólogo. Temos também um projeto maior de desmonte da educação patrocinado por grandes grupos econômicos nacionais e internacionais, além é claro, de não termos, passado um ano de governo, uma página, quiçá uma linha de uma proposta a curto, médio, longo ou bem longo prazo de algo que se pareça com educação de qualidade.
A educação pública se tornou a barca de Caronte, o ser mitológico Grego e filho de Hades, que carregava as almas para o mundo dos mortos. Cabe lembrar que Caronte era filho de Nix (a Noite) e Érebo (a Escuridão). Era também irmão de Hipnos (o Sono) e Tânatos (a Morte), algo tão funesto e muito parecido com a educação do Brasil de hoje no que diz respeito ao barqueiro e suas relações familiares e ao destino que nos aguarda.
Eduardo de Albuquerque, professor rede municipal de Passo Fundo e dirigente CMP Sindicato
“Meu compromisso absoluto com a recuperação da dignidade da profissão de professor, de professora, de sua valorização e autonomia pedagógica, de seu salário e condições de trabalho. Renovo a convocação para fazermos uma escola cidadã, que construa homens e mulheres democráticos, igualitários e justos!”
Sofia Cavedon, professora municipal de Porto Alegre e deputada estadual
Os professores e professoras da rede estadual do RS fizeram uma greve histórica porque cansaram de tantos ataques à dignidade de sua profissão e ataques à escola pública.
Carregaram,
com orgulho, a bandeira do seu Sindicato: CPERS. Receberam apoio de milhares de
cidadãos e cidadãs gaúchos, que se somaram nesta dura e desafiadora caminhada
de mais de um mês de aulas paralisadas.
Elencaremos
algumas lições e aprendizagens sob o nosso ponto de vista, de professor,
escritor, ativista de direitos humanos e editor do site www.neipies.com
Professores e funcionários grevistas assumem um
compromisso ético e político muito sério: a greve não é em causa própria, mas
em nome de todos os seus colegas. Por isso mesmo, a greve sempre é sustentada
pelos mais coerentes, mais conscientes e mais seguros de sua tarefa e missão.
Críticas sempre são bem-vindas ao
movimento, mas somente serão aceitas aquelas que vierem de quem luta. É muita
covardia esconder-se atrás de certas críticas para não vir somar-se com a luta.
Além de ser um compromisso sério que tem horas e
horários definidos, a greve também se faz de alegrias, de encontros, de
convivências, de muitas trocas. Uma greve guarda certa espiritualidade e se faz
com compromissos de quem se soma para lutar. Por isso mesmo, grevistas tem todo
direito de rir, de tomar chimarrão, de sentar em rodas, de ouvir músicas, de
exibir-se em fotos. Uma luta boa se faz com alegria!
Quem luta também educa. Quem educa verdadeiramente,
desestabiliza os acomodados. Ao nos organizarmos pacificamente, estamos
ensinando ao conjunto da sociedade que é preciso organização quando os direitos
são atacados.
Jornalistas e parte da imprensa que tentam nos
jogar contra a população precisam nos respeitar primeiro para entender nossas
causas. Nossas causas sempre são a defesa da dignidade de nossa profissão
docente e a defesa da escola pública, de qualidade social (que seja boa para
todos os que se envolvem nela).
Os números de grevistas não são o principal
parâmetro para sustentar uma greve. O que sustenta uma greve é sua legitimidade
e a certeza de que mais avanços são possíveis nas negociações, maior objetivo
das greves.
Mentes tranquilas, serenas e convictas incomodam
quem é adepto ao terrorismo das ameaças, das punições e das simulações que
tentam desestabilizar os manifestantes para desmerecer o mérito das lutas.
Greve de servidores públicos sempre busca aperfeiçoar e aprimorar a qualidade dos serviços públicos. Servidor valorizado cumpre função pública com maior interesse e motivação.
O desejo maior de quem está em greve é voltar ao
trabalho, pois o local de trabalho é seu lugar de realização. A escola pública
é o lugar de nossa realização pessoal e profissional.
Todos os que ousam participar de uma greve, voltam
transformados e revigorados para seus locais de trabalho. Aprendem, como
ninguém, que não é bom ser escravo e que ser sujeito da sua história também tem
preço, que sempre vale a pena pagar. Aprendem também que o ombro a ombro, o
cara a cara e a solidariedade nos humanizam, transformando-nos em seres humanos
melhores.
Tenho certeza que se estivesse vivo, fatalmente estaria ainda envolvido com a causa da paz e escrevendo grandes e inspiradas canções para a gente ouvir, como a antológica Imagine.
Há 39 anos, em dezembro de 1980,
morria aos 40 anos de idade John Lennon, deixando um dos mais extraordinários
legados que a cultura moderna já recebeu.
Não há notícia de que outro
compositor, ou outro conjunto musical, tenha sido mais universal que John
Lennon e os Beatles, ou que tenha encantado tanta gente, durante tanto tempo,
em tantos lugares, que tenha influenciado de maneira tão completa a época em
que viveu.
Em 1970 os Beatles se dissolveram,
para jamais cantar ou gravar juntos. Mesmo assim, passados 49 anos, suas
canções, seus discos e sua imagem continuam tão atuais e presentes como se o
conjunto continuasse atuando.
Sem existir mais, os Beatles
permanecem tão vivos como sempre. John Lennon é a alma e o cérebro desse
admirável fenômeno. O único a contestá-los é o guru do bolsonarismo, o
terraplanista Olavo de Carvalho, que descobriu ter sido Theodor Adorno o autor
das músicas do quarteto. Uau!!
Lennon é
o que se pode chamar de o primeiro grande fenômeno de massas produzido pelo
marketing moderno, e o único que ainda em termos de mídia, sobrepujou o rótulo
que veio daí. Na verdade, mais do que produto de marketing ou gênio, ele foi um
produto de sua época.
Época conturbada, rica em mudanças e
em estremecimentos sociais – Guerra do Vietnã, Watergate – da qual ele foi, ao
mesmo tempo, causa e efeito.
Em 1966, provocou a ira dos
católicos, no auge do ardor planetário da beatlemania, ao dizer que os “Beatles
eram mais populares do que Cristo”, alimentando uma controvérsia que levou o
Vaticano a declarar satânico o rock ‘n’ roll.
Esta pecha durou até o Papa João
Paulo II convidar Bob Dylan para cantar na Santa Sé, em 1997. E o popstar
americano descascou “Knockin’ on heaven’s door” ( “Batendo na porta do céu” ).
Mesmo
antes do desfazimento dos Beatles Lennon passou a desempenhar um papel
fundamental na luta pela paz. Foi um dos mais duros críticos da intervenção
americana no Vietnã, o que lhe rendeu a proibição de entrar nos EUA.
Sua canção “Give Peace a Chance”, se
transformou no verdadeiro hino das grandes manifestações populares contra a
guerra no Sudeste Asiático.
Promoveu, igualmente, intervenções
mais ousadas, como a que ocorreu em Amsterdã, quando ele e Yoko permaneceram
por uma semana na cama de um quarto de hotel, à frente das câmeras – e do mundo
–, pedindo: “Deem uma chance à paz”.
Lennon foi um rebelde, um
revolucionário e saiu de cena para cuidar do filho em 1975 quando a geração à
qual fornecia a trilha sonora crescera e começava a perceber que o mundo,
afinal de contas não havia mudado tanto assim, e que ninguém era muito
diferente dos seus pais – o que significava encarar o mundo e ter que ganhar a
vida, ou seja, entrar no establishement daquele mesmo jeitinho tão criticado.
Lennon tinha plena consciência que a
música pop não passava de indústria e que havia sido definitivamente alicerçada
por eles, Beatles.
Seu
último disco, que hoje ouvi com emoção e nostalgia, enquanto escrevia este
texto, Double Fantasy, foi uma espécie de crônica de sua vida. Um disco
romântico, sem as letras revolucionárias dos anos 60 e 70.
Um disco que parecia antever a
chegada da era Reagan, do neoliberalismo. Um mundo apático, desiludido que
passou a assistir as guerras como se elas fossem meros jogos de vídeo game.
Passados
39 anos de sua morte percebemos quanta falta está fazendo um talento como o de
Lennon. Tenho certeza que se estivesse vivo, fatalmente estaria ainda envolvido
com a causa da paz e escrevendo grandes e inspiradas canções para a gente
ouvir, como a antológica Imagine.
Para que/quem você educa? Para qual modelo de sociedade?
Como nasce um
professor?
14 anos que me encontrei com essa profissão.
Em 2004 comecei como professor, contrato emergencial no Estado do
Rio Grande do Sul. Tinha 22 anos, estava no quinto semestre da graduação
(Ciências Sociais UFRGS). No meu primeiro dia fui barrado por não estar com o
uniforme da escola pública. Ou seja, fui confundido com aluno.
Minhas primeiras turmas foram
incríveis, me senti em casa. O Colégio Estadual Padre Rambo de Porto Alegre foi
minha casa até 2009, quando abri mão do contrato para entrar no mestrado na
PUCRS com bolsa.
Porém, essas primeiras turmas
ecoaram em todas as demais turmas que vieram na minha trajetória e que tive a honra
de ser professor.
NUNCA fui tão
valorizado como professor em sala nas escolas públicas, nunca fui tão
reconhecido por ser mais que professor na instituição que trabalho atualmente
(Universidade de Passo Fundo) e me acolheu desde 2013.
Entre minha primeira experiência e
a que estou atualmente, conheci o mundo (Timor-Leste em 2012), vivi a realidade
das periferias e escolas públicas de diferentes cidades e regiões do Brasil
(como palestrante, assessor pedagógico e formador de professores), botei o
pé-no-barro em ocupações, comunidades e periferias que me moldaram como um
educador.
Não existe caminho fixo,
dicas, ou receitas de bolo. Existem caminhos, eu trilhei experiências que não
cabem no peito. E foram elas que me fizeram nascer e me tornar quem sou. Mas
principalmente, foram meus alunos e alunas que me fizeram o professor que sou.
Minha mãe e meus irmãos professores que me deram exemplos e experiências
compartilhadas.
Em um dia como hoje eu digo: todos vocês que lembram dos seus professores, mais
que nos enviar mensagens, que são importantes, lutem e apoiem eles nas suas
lutas.
Nos sentimos sozinhos nas lutas, sejam gratos lutando ao nosso lado. Nossa
bandeira é a construção de educação que o Brasil merece.
Professor Universitário
Como professor, que
jamais pode imaginar que seria professor universitário algum dia na vida, todos
os dias tento tornar consciente onde cheguei e onde ainda quero chegar.
Forço a
mente para não naturalizar minhas experiências e conquistas. Torno consciente todas
as vezes que alguém me chama de professor. Essa prática me faz JAMAIS esquecer
da luta que travei comigo e com o mundo (interno e externo) do que abri mão
para chegar até aqui, e das inúmeras conquistas
cotidianas que recebo hoje por ter escolhido e conquistado esse espaço
profissional.
Ao mesmo tempo não me furto da responsabilidade de JAMAIS
perder minhas raízes. Lembrar de onde vim e que foi exatamente a simplicidade,
a humildade e a amizade com o mundo, que tornou quem sou. E essas
características eu não posso jamais perder e abandonar.
Não sou melhor que ninguém, não sei
mais do que ninguém, optei desde que me entendo por gente, pelo lado dos
oprimidos. E essa posição jamais mudarei. Sou assim, essa posição torna tudo
que faço recheado de sentido. São linhas raízes. E você? Quais são suas raízes?
Mas… quando somos apenas
fruto das experiências que a vida te permitiu ter?
Somos mais resultado do meio
que protagonistas da nossa própria existência. Deveríamos aproveitar o tempo de
vida que nos resta, já que nunca saberemos o quanto marcamos os que ficam.
Tenho saudade de tudo que já
vivi, anseio por viver na saudade do que ainda vou viver, aí tudo terá sentido.
Quem somos?
Somos a única espécime
que é definido por um verbo. Não existe ser cachorro, ser cavalo, mas o humano
é definido por ser humano. Nunca seremos 100% humanos, uns possuem trajetórias
mais e outros menos humanizadoras.
A pobreza, miséria e falta de acesso á saúde,
educação e moradia, são exemplos de condições desumanizadoras. A ação de se
humanizar não depende das escolhas do indivíduo, mas das condições dadas pelo contexto social de vida e trajetória.
Qual o tipo de ser humano que você seria se todas as condições
mínimas de humanização te tivessem sido garantidas? E se o mesmo ocorresse com
toda a população de um país? Em quanto tempo teríamos um Brasil melhor e mais
justo?
Qual o papel do
professor? Qual o compromisso ético envolvido na educação da próxima geração?
Tenho certeza que o
ensino de conteúdo não pode mais ser considerado um fim da educação.
Conhecimento e reflexões são meios, para a construção de novas formas de
pensar, ver e entender o mundo. Se nesse processo oferecermos direitos a aprendizagem
e desenvolvimento de habilidades e competências, teremos feito nosso papel com maestria.
Para que/quem você educa? Para qual modelo de sociedade?
Acompanhe no canal no yotube Canal Senso Comuna, um canal de vídeos que faça frente ao senso-comum simplificador, preconceituoso e burro. Que motive a criticidade, autonomia de pensamento e, porque não, posicionamento político? Em um contexto em que se tenta criminalizar uma posição ideológica, o canal com nome provocativa de SensoComuna objetiva oferecer conteúdo crítico e reflexivo, além de dicas de leitura, de filmes, documentários e séries que possam provocar novas percepções da realidade. Senso comuna
De que vale estimular o aumento quantitativo (essência do crescimento) quando não raras vezes se secundariza o fator qualitativo (essência do desenvolvimento)?
O comentário a seguir feito pelo notável José Goldemberg,
uma década e meia atrás, além de oferecer uma analogia sugestiva que facilita o
entendimento de como chegamos a esse atual modelo de civilização insustentável
do ponto de vista ecológico, ainda permite questionar a ideologia do crescimento econômico como um todo: “Economias vibrantes significam mais ´progresso`, empregos, melhores
salários e as amenidades que o dinheiro pode comprar. Apesar de centenas de
milhões de pessoas ao redor do mundo continuarem abaixo da linha de pobreza,
outras centenas de milhões progrediram, sob muitos pontos de vista, no último
século. Este progresso tem um custo ambiental, porque à medida que o consumo
aumenta é preciso ampliar a área dedicada à agricultura, construir novas
indústrias, estradas e outros meios de comunicação. É impossível ter isso tudo
sem interferir no meio ambiente em que vivemos”. (1)
Pois bem, sem tirar os olhos do
que se passa na conturbada província da economia – notadamente quanto ao fato
de o crescimento econômico pautar o estilo de vida dominante nas modernas
sociedades industriais – é possível afirmar, sem exagerar na dose de otimismo,
que tem diminuído o número daqueles que colocam em dúvida que o alcance de “progresso”
promove sérios e impactantes “custos ambientais”, cabendo citar, entre outros,
a exaustão crescente dos recursos naturais, a avassaladora perda de
biodiversidade, o aumento da poluição do ar e da água, a degradação dos solos, o
aumento do desmatamento (desflorestamento) facilitando tanto a expansão do
agronegócio como a especulação fundiária e o comprometimento dos ecossistemas.
Situações que aumentam, grosso modo, o peso e as complexidades
que cercam o modo de viver da comunidade humana; principalmente das populações
mais vulneráveis, vítimas em potencial dos “custos sociais” da sociedade
industrial de crescimento.
Até onde pode nos levar a estupidez da dominação do ser humano sobre a natureza?
Cabe reforçar: esse progresso
orientado pelo crescimento econômico definido pelo aumento do PNB per capita, desde há muito tem sido colocado
pelas forças produtivas como a única possibilidade de fazer avançar a vida
social moderna, fortalecendo
a ideia-corrente (peça-chave) de que, se a economia global se tornar cada vez
maior, a sociedade contemporânea estará melhor.
Ao consolidar a busca de crescimento
econômico ininterrupto como algo extremamente relevante – não importa o que
cresça, como cresça e para quem cresça, desde que cresça de forma acelerada, assim
opinam seus proponentes – a economia convencional, de imediato, coloca em curso
a lógica do mercado, ou seja, “transforma” a vida social numa experiência de
duas ordens, a produtivista e a consumista; como “se a sociedade não fosse nada além de uma grande
linha de produção”, como escreve o historiador holandês Rutger Bregman. (2).
Obviamente tudo isso é feito sem
que se leve em conta – e aí está um primeiro erro crasso – um pressuposto
básico, a existência de limites dada pela natureza (matriz de tudo) à expansão
da atividade humana. Como a expansão econômica, a rigor, não ocorre com a justa
finalidade de atender exclusivamente as ilimitadas necessidades da comunidade
humana (algo impossível, dada a finitude de recursos), mas sim para continuar
“alimentando” a lógica capitalista – acúmulo de capital e do consumo,
privilégio para que poucos acessem à riqueza, mais lucros, e muito mais
resultados econômicos -, a partir daí se
constrói com relativa habilidade a falsa promessa de que a conquista material, per si, cumpre o papel de facilitar a
ascensão social de cada indíviduo; como se a demanda da humanidade por coisas materiais não ultrapassasse
a capacidade de reposição do planeta.
Ora, aceitar que é possível crescer materialmente (de
forma ilimitada) sem afetar ou comprometer a base de recursos da natureza é ignorar
a assertiva de que a atividade econômica – observando-se
o processo linear, isto é, extrai-produz-descarta-polui – é apenas um subsistema de algo maior, o meio
ambiente. Insistir na crença de que é plenamente possível um crescimento econômico
contínuo (ideologia dominante) é menosprezar, em partes e no todo, a causa
ecológica, principalmente a necessidade cada vez mais premente do equilíbrio
planetário e o consequente respeito aos limites ecológicos.
Desnecessário dizer que isso
dificulta converter o desenvolvimento (condição almejada por todos porque responde
pela melhoria dos padrões de vida social) em três fundamentais esferas: numa
tarefa economicamente eficiente; num padrão socialmente includente e, por fim;
numa visão ecologicamente equilibrada.
Assim, cabe deixar em evidência
que o problema se agrava um pouco mais porque, uma vez obcecados pela busca de
crescimento econômico (ponto medular da macroeconomia convencional), os
proponentes do modelo
econômico dominante não hesitam em tratar a Terra (e tudo o que nela contém) de
duas maneiras bastante grotescas. Primeiro, como um gigantesco reservatório (espécie
de fonte) de recursos naturais para “alimentar” a fome voraz de mais crescimento; e, em segundo, como um
depósito (espécie de fossa) para descarregar os resíduos tóxicos do processo de
industrialização.
O crescimento econômico frente a limitação de recursos naturais.
Falando às claras, é dado perceber
que tudo acontece como se de fato vivêssemos num Reino da Fantasia, onde o meio
ambiente (environment) (3) fosse um imenso “banco” de recursos
naturais em que se pode ir lá e fazer frequentes e exaustivas retiradas (recursos,
energia) para abastecer a industrialização gananciosa do mundo atual; como se o
processo econômico pudesse mesmo “funcionar” livre, leve e solto, sem troca
contínua com o meio ambiente. Note-se que isso pressupõe ignorar (mais um erro
crasso) que as atividades econômicas estão limitadas pela capacidade de carga
dos diferentes ecossistemas da Terra.
Não considerar os limitados recursos
ecossistêmicos como uma restrição à expansão econômica, ouso acreditar, equivale
a ignorar que a desejável qualidade de vida (o bem viver) depende sobretudo da
diminuição da pegada ecológica.
Uma vez
alcançado esse ponto, é bom que se esclareça algo central: o fluxo de
benefícios produzidos por um ecossistema inclui funções essenciais para a
sobrevivência dos humanos e de outras espécies, o que implica dizer, sem
delongas, e para contragosto das forças dominantes, que o “que” realmente sustenta
a vida na Terra são os ecossistemas.
Sem os serviços
ecossistêmicos, isto é, sem a disponibilidade de água potável, a regulação do
clima, a biodiversidade, a fertilidade do solo etc, não há produção de
absolutamente nada; tampouco há alguma maneira possível de a vida (como a
conhecemos) prosperar com alguma qualidade ou ainda de a economia existir, no
que toca à sua tarefa principal, crescer transformando recursos em produtos.
E para que não mais
se fira à inteligência com o tosco argumento corrente de que a melhoria do
padrão de vida passa indubitavelmente pelo aumento da capacidade de produção
econômica, insisto num argumento bastante simples de ser entendido: não é
possível (nem mesmo imaginável) conceber uma economia dissociada da natureza,
visto que não há (eis outra impossibilidade) atividade econômica e humana sem
uso de água, energia, matéria, fotossíntese ou uso de solos e pradarias, por
exemplo.
De tal modo, não
deixa, assim, de ser curioso senão paradoxal, ouvir o argumento em voga dos economistas do crescimento (apóstolos do
expansionismo industrial e êmulos à ideia de prosperity without growth) de que o principal fundamento da
macroeconomia pode sim, a bel-prazer, se esparramar por aí sem, no entanto, implicar
em significativos custos ambientais. Ora, é preciso convir que isso violenta de
tal maneira a realidade que chega a causar indignação.
É difícil
imaginar que a ideia de crescimento (verdadeiro dogma da modernidade) não
compromete da pior forma possível a natureza, quando se sabe que o ato de
produzir, na verdade, é uma ação de transformação, como foi dito acima. Assim
como é igualmente difícil imaginar que o crescimento, sozinho, é capaz de assegurar
tanto a prosperidade quanto a manutenção do mundo vivo, quando “amparado” sob a
perspectiva do conhecido e propagado termo sustentável.
Vem daí uma primeira pergunta básica: como sustentar (no sentido direto de manter o
equilíbrio, a resistência) um constante crescimento (verdadeiro oximoro, registre-se)
da produção econômica que ocorre “dentro” de um sistema complexo, a Terra, que,
além de ser dotada de recursos limitados, jamais irá aumentar de tamanho?
Dito isso, é
oportuno lembrar (desejando ressaltar) que a economia é um sistema aberto inserido
num sistema finito e materialmente fechado (a Terra) que somente se “abre” para
a energia solar. Falando de forma simples, assim é a Terra, um “corpo” finito e
não crescente que recebe um fluxo de energia (luz solar) e devolve calor
dissipado.
Portanto, quero
crer que está muito claro que o crescimento ininterrupto de um subsistema (a
economia) dentro de um “corpo finito” é, pois, uma impossibilidade. E cada vez
que se aproxima dos limites planetários, esse “crescimento” se converte – vale
enfatizar essa passagem – num fator gerador de desequilíbrio e custo. O custo
advém do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo
metabólico, como escrevem José Eli da Veiga e Andrei Cechin. (4)
Vale o esforço da explicação: metabolismo
social (ou metabolismo socioambiental) deve ser descrito como a troca
energética e de material entre os seres humanos e seu meio ambiente natural,
aproximando-se do nível de esgotamento do capital natural e devolvendo ao mundo
vivo todas as formas de poluição, sem que levante preocupações acerca da
possibilidade de regenerar o ambiente natural. Ocorre que todo esse processo de
fluxo metabólico se inicia com a utilização e consequente escasseamento dos
recursos naturais e, como é fácil presumir, termina com a devolução à natureza
de mais poluição.
Mas não estranhe: tudo isso, de
certa forma, ainda é um assunto nevrálgico que permanece quase que ignorado
pela economia convencional (neoclássica, no uso rigoroso do termo) que insiste
em observar o meio ambiente, a biosfera, apenas como “partes” da macroeconomia;
daí a relutância em responder, por exemplo, algumas outras perguntas básicas,
tais como: i) que ritmo de crescimento é possível?; ii) quanto se pode tirar de recursos da natureza e
quanto se pode devolver de resíduos ao ambiente natural via atividade econômico-produtiva, ou seja, mais produção, mais transformação
de recursos e muito mais energia
dissipada (maior entropia)?; iii) como conciliar a voracidade da produção econômica num mundo ecológico
limitado e como combinar a verdadeira prosperidade (desenvolvimento, e não
crescimento) almejada por todos sem destruição ecológica provocada justamente pela política de
crescimento?
Detalhe importante: como reconhecidamente
estamos num sistema de economia que
se especializou em desarranjar os processos naturais essenciais para a
manutenção da vida no planeta, e dado o claro predomínio da “ditadura do PIB/PNB”
(indicadores associados ao desempenho econômico e ao sucesso das nações) que
até mesmo visa orientar o destino humano, cada vez fica mais difícil em nossas
relações cotidianas assimilar a orientação deixada pelo pensador austríaco Ivan
Illich (1926-2002) de que precisamos nos desacostumar ao crescimento.
De um tipo de crescimento, reitera-se,
inclinado a aumentar o tamanho da economia, e nem tanto em melhorar essa
economia; por isso a pergunta lançada recentemente pelo venerável Joseph Stiglitz
merece todo o destaque possível: de que vale o PIB estar crescendo, se a maior
parte dos cidadãos está pior? (5)
Para aumentar a dose de provocação convém levantar
outra indagação: de que vale estimular o aumento quantitativo (essência do
crescimento) quando não raras vezes se secundariza o fator qualitativo
(essência do desenvolvimento)?
Aos fervorosos devotos da política
de crescimento, convém lembrá-los, nesse meio-tempo, que foi o próprio Simon
Kuznets (1901-1985), criador do PIB, no começo dos anos 1960, que taxativamente
afirmou que é (…) preciso levar em conta distinções entre quantidade e
qualidade de crescimento, entre custos e rendimentos, entre curto e longo
prazo. Foi Kuznets que didaticamente assim escreveu: “metas de crescimento
devem especificar o que deve crescer e para qual fim”. (6)
De certo modo, isso é uma agressão
ao modo de pensar dos arautos do crescimento, haja vista que “a ideia de uma
economia que não cresça é anátema para o economista”, como escreve o britânico
Tim Jackson; assim como, continua ele escrevendo, “uma economia de crescimento
contínuo é anátema para o ecologista”. (7)
Polêmicas à parte, importa dizer
que essa tensão retórica (tornando válido esse termo) se deve ao fato (ao menos
assim se supõe) de o crescimento da economia ser visto como a pedra angular da
ideia de progresso social, o que ajuda a consolidar o sentimento defendido
pelos economistas com visão de mundo utilitarista – herdeiros de J. Bentham
(1748-1832) – de que não há nada mais além da expectativa do crescimento
econômico; como se isso fosse, note-se bem a abrangência do assunto, a razão de
tudo.
Como conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental?
Dado o que já foi colocado aqui, à luz de razoável bom senso parece
mesmo que o jornalista econômico David Pilling tem toda a razão quando provocativamente
afirma que “só na economia a expansão interminável é vista como virtude. Em
biologia, isso se chama câncer”. (8)
No entanto, o problema e a tensão persistem. Como tudo é mercantilizável (por isso o PIB mede somente a parte da economia que é mercantilizada), e enquanto se avança no erro de confiar ao mercado o cuidado da sociedade e da vida das populações, um tanto mais se consolida o erro (outro) acintoso de sempre exigir crescimento infinito num planeta finito, como se realmente isso fosse possível e realizável.
Objetivamente falando, acreditar nessa possibilidade (que não faz sentido) é cair na estupidez de conjecturar que a economia acontece no vazio, sem fazer uso de matéria e energia vindas da natureza. E mais: é ignorar a possibilidade de que, em alguns casos, pode ocorrer aquilo que Herman Daly chama de “crescimento antieconômico”; isto é, quando os custos costumam ser maiores que os benefícios.
Assim, para o bom entendimento, é válido ter em conta que o crescimento econômico vai só até certo “ponto” (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse “ponto” não há melhorias, mas sim perdas significativas, começando pela qualidade do ar que respiramos e pela devastação ambiental, afetando sobretudo a qualidade de vida nas cidades.
Se há
então algum edificante conselho a ser seguido, esse certamente deve ser o de
parar (dar um stop) a atividade
econômica no momento exato em que os custos novos se igualam aos novos
benefícios; nesse caso, abusando do “economês”, se diz que o custo marginal é
igual ao benefício marginal.
Exposto isso, a conclusão de imediato soa
assim: crescimento além dos limites do planeta é sinônimo de desequilíbrio imposto
ao meio ambiente. Mais economia
(produção de qualquer coisa) significa menos
meio ambiente; mais crescimento
implica em menos natureza, uma vez
que, goste-se ou não, “todo crescimento sempre é uma depleção”, nos ensina José
Eli da Veiga.
Aliás, é bom que se diga que qualquer crescimento que ultrapassa “limites” (seja
qual for a delimitação em questão) tende a gerar problemas. Isso acontece até
mesmo com o corpo humano (a acromegalia é um exemplo disso, principalmente
quando ocorre na infância ou na adolescência). Na economia não é diferente; na
natureza também não o é. A propósito, escreveu Nicholas Georgescu-Rogen
(1906-1994): não há nada na natureza que cresça continuamente de forma
saudável. (9)
Por
fim, fica aqui o profícuo recado deixado tempos atrás por dois dos nomes mais
representativos da militância ecológica brasileira, Antonio Lago e José Augusto
Pádua. Escreveram eles: “A ecologia nos mostra a dimensão dos riscos que
estamos correndo, cabe a nós construir as oportunidades” (10).
Construir as oportunidades, ouso opinar,
implica imaginar meios de reorientar os rumos do planeta, procurando construir
o quanto antes uma nova economia devidamente combinada à conscientização
ecológica. Talvez assim consigamos preparar as bases de uma civilização
verdadeiramente humana.
Em programa de TV, professor Nei Alberto Pies aborda a forma como a humanidade tem se relacionado com a diversidade e as riquezas naturais: por ética ou por etiqueta?
Notas:
(1) J. GOLDEMBERG. “Progresso e meio ambiente”, artigo
publicado em O Estado de S. Paulo, 18 de abril de 2006
(2) R. BREGMAN.
“Utopia para realistas – Como construir
um mundo melhor”. São Paulo: Sextante, 2018, (p.101)
(3) Usando a definição empregada pelas Nações Unidas, MEIO AMBIENTE é o
conjunto de componentes físicos, químicos, biológicos e sociais capazes de
causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres
vivos e as atividades humanas.
(4)
A. CECHIN & J. E. VEIGA. “O fundamento central da Economia
Ecológica”, in PETER H. MAY (Org.), “Economia do Meio Ambiente: Teoria e
Prática”, 2° edição, Ed. Elsevier, 2010
(5)
J. STIGLITZ. “People, Power and Profits – Progressive Capitalism
for an Age of Discontent”. Nova York: W. W. Norton & Company, 2019
(6) S. KUZNETS. “How to Judge Quality”,
The New Republic, (October 1962)
(7) T. JACKSON. “Prosperity
without growth: economics for a finite planet”. London: Earthscan, 2009, (p.4)
(8) D. PILLING. “A ilusão do crescimento”, São Paulo: Alta Books Editora, 2019,
(p.14)
(9) N.
GEORGESCU-ROGEN. “The entropy law and the
economic process”. Cambridge: Harvard Univesity Press, 1971
(10) A.
LAGO & J. A. PÁDUA. “O que é
ecologia”. Coleção Primeiros Passos, ed. Brasiliense, 18° reimpressão,
2017, (p. 43)
Atuando de forma voluntária e com poder deliberativo sobre as ações e os recursos da saúde pública no Brasil, milhares de brasileiros cumprem com uma das grandes diretrizes do SUS: Sistema Único de Saúde, o controle social.
Em nossa cidade, Passo Fundo, temos um Conselho Municipal de Saúde bem
atuante, que se organiza de forma autônoma e independente frente ao gestor
público, a Prefeitura Municipal de Passo Fundo/Secretaria Municipal de Saúde.
Em 2005, este Conselho Municipal foi reconhecido no Brasil como um modelo de
gestão e controle social.
Entrevistamos Neri Gomes, um militante da área da Saúde e de políticas
públicas desde o ano 1986. Atualmente, Gomes é presidente do Conselho Municipal
de Saúde de Passo Fundo.
Nesta entrevista, ele relatará como surgiu seu envolvimento com as
políticas de saúde, qual é o papel e a função de um Conselheiro Municipal de
Saúde, qual é a realidade da Saúde em nosso município, no Estado e no país e,
em que medida, o SUS corre riscos de ser extinto ou ser desidratado na sua
principal função que é garantir a universalidade e o acesso à saúde a todos os
brasileiros e brasileiras.
NEI ALBERTO PIES: Começaste teu ativismo ou militância política como
comerciário em 1984. Entraste na vida política partidária, elegendo-se vereador
por dois mandatos. Ocupaste funções de governo estadual e, mais recentemente, a
função de assessoria parlamentar. Por que a política é uma atividade tão
importante para ti e para todos nós?
GOMES: Penso que são os
políticos que decidem as nossas vidas, eles decidem onde vamos morar, se vamos
ter condições de ter formação superior, se vamos ter saúde pública e de
qualidade e universal. Neste sentido, entendemos que não é só nos sindicatos
que se faz a defesa dos trabalhadores e da população em geral; é no parlamento
que são aprovadas as leis e é o executivo que implementa as ações elaboradas
discutidas e a aprovadas
NEI ALBERTO PIES:Como, quando e porque o Senhor passou a atuar em
defesa de políticas públicas, mas em especial, o SUS, a partir de 1986?
GOMES: Antes de 1988
quando foi aprovada a CF e nela aprovado as artigos 196 ao 200 que garantem uma
saúde pública de qualidade e universal, e quando da aprovação da lei federal
8080/90 que é a Lei orgânica da saúde. Antes disso tudo só tinha acesso ao
atendimento na saúde quem tinha a carteira de trabalho assinada e tinha a carteira
amarelinha do antigo INAMPS, os demais eram atendidos com indigentes nos posto
1 do HSVP e do HC, ou tinha que ser particular, sendo obrigado a vender moves casa
terrenos, a vaquinha, etc.
NEI ALBERTO PIES: Foste eleito presidente do Conselho Municipal de
Saúde recentemente. Qual é a principal função
do Conselho Municipal de Saúde? Como ele é composto? O que significa seu poder
deliberativo?
GOMES: Eu tive por várias
vezes na coordenação do conselho e por último foi de janeiro de 2019 a dezembro
de 2019. O conselho cumpre uma tarefa importante no controle social,
fiscalizando as ações do gestor municipal de saúde,
NEI ALBERTO PIES: O que faz um Conselheiro Municipal de Saúde? Qual é o
seu compromisso diante de sua comunidade?
GOMES: Os conselhos de
saúde no Brasil são regidos pela lei federal 8142 /90 e lei municipal 2840 / 92.Os
Conselhos Municipais de Saúde têm poder deliberativo na aprovação do orçamento
da saúde, nos planos de aplicação com recursos estadual e federal, fiscalização
das ações na saúde do gestor municipal e dos hospitais pactuados com o SUS,
fiscalização em toda a rede municipal na atenção básica, e nas cobranças
indevidas no atendimentos em hospitais.
NEI ALBERTO PIES: Todo município tem a obrigação legal de investir 15%
do seu orçamento em Saúde Pública? Como o nosso município organizou seu Plano
Municipal (de 4 anos) e o Plano Anual de Saúde em período recente? Há
estatísticas que justificam os programas e os investimentos em saúde?
GOMES: A lei obriga os
municípios a investirem no mínimo 15% do seu orçamento, os estados 12% e a
união 10%. A maneira como esses valores serão utilizados é o que prevê o plano
municipal de saúde, cujo processo de elaboração inclui a discussão nas
conferências e sua aprovação no Conselho
de Saúde em cada esfera de governo.
O plano é elaborado a cada 4 anos
e, anualmente, se traduz no Plano Anual de Saúde – PAS, tendo como base as
ações que constam do Plano Municipal. É no PAS que se discute onde, como e
quais as prioridades e as ações terão mais ou menos recursos. Essa construção e
definição deve ser orientada por um diagnóstico produzido nos distritos
sanitários de saúde do município. Em geral, as secretarias de saúde trabalham
com dados, estatísticas que fundamentam a construção do plano, embora seja
ainda muito insuficiente. Eu diria que um dos problemas do exercício do
controle social hoje tem a ver com a fragilidade das análises e estatísticas de
saúde produzidos pelas prefeituras.
NEI ALBERTO PIES:Passo Fundo é uma referência regional e nacional na
área da Saúde, sobretudo com estruturas médicas e hospitalares de média e
grande complexidade. Mas como anda a Saúde dos nossos 200 mil habitantes?
GOMES: Passo Fundo é referência na média e alta complexidade nos dois hospitais que são pactuados pra estes atendimentos, mas na atenção básica, que é responsabilidade do gestor municipal, estamos com problemas de mal atendimento e falta de profissionais médicos e equipes multiprofissionais pra que a população tenha atendimento completo e de qualidade. Fazer a prevenção à saúde e deixar de trabalhar só o curativo. Penso que esta ação é o maior desafio.
NEI ALBERTO PIES: Sempre defendeste muito os CAIS (Centros de Atenção
Integrada à Saúde) como uma forma de descentralizar o atendimento à saúde e
atender especialidades. Os quatro CAIS de nossa cidade atendem, hoje, às
finalidades pelas quais foram criados?
GOMES: Na verdade são 5
CAIS em nossa cidade, infelizmente não estão cumprindo sua função para a qual
foram criados e os motivos são vários. A estrutura é defasada e mal conservada.
Os profissionais não têm formação continuada porque o gestor não tem interesse
em fazê-lo. Os atendimentos são realizados por fichas e não por demanda e os
agendamentos de consultas médicas chegam a demorar até 120 dias para o primeiro
atendimento.
Os médicos são contratados por
hora de trabalho e atendem por ficha e temos o agravante de alguns destes
profissionais não cumprirem o seu horário para a qual foram contratados. Com isso, hoje nos CAIS são feitas os
atendimentos que deveriam ser nas UBS ou ESF.
Aliás, temos só 15 equipes da
estratégia de saúde da família regularizadas. Essa quantidade é a mesma de 1997.
Com poucas equipes, o município deixa de receber recursos do MS e do estado,
NEI ALBERTO PIES:Por que, na sua visão, o SUS ainda não conseguiu
atingir, como deveria, a promoção da saúde e ainda atua e demanda mais recursos
para cura de doenças?
GOMES: Na minha opinião,
são vários os motivos e um deles é a falta de gestão qualificada, além da
histórica falta de recursos para investir na prevenção. Esta, em particular, é
fundamental e é uma opção política que precisa ser tomada, pois se a prevenção
funcionar como prevê o SUS, os hospitais, laboratórios, farmácias e os médicos
que defendem o Estado mínimo não vão ganhar dinheiro com a doença.
NEI ALBERTO PIES:O governo federal propôs acabar com pequenos
municípios que não tenham população ou renda compatíveis com sua autogestão.
Não é também uma forma de diminuir os recursos investidos em saúde ou
democratizar o acesso aos mesmos?
GOMES: São várias as MP do
governo Bolsonaro. Entre elas está uma que prevê a privatização do SUS que
iniciou com a nova Política Nacional de Atenção Básica – PNAB que reformula
toda a estratégia de atenção básica no pais, excluindo o conceito de território.
Nesta nova proposta, os agentes de saúde e os profissionais que integram a
equipe não terão mais vínculos com suas unidades, podendo ser deslocados em
todas as áreas. Por exemplo: agentes de
saúde podem ser chamados para fazerem trabalhos de agentes de endemias. O
governo disse, recentemente, que vai
investir mais nos municípios que são agrícolas mas tem MP quer o fim dos
pequenos municípios. Se isso se confirmar, onde serão atendidas as pessoas que
precisam de atendimento?
NEI ALBERTO PIES:Na sua visão, está em curso a privatização da Saúde no
Brasil? Nos dê exemplos de ações que apontam nesta perspectiva.
GOMES: O 1ª exemplo foi
aprovação EC 95 que congelou o orçamenta da União por 30 anos. Em 2018 e 2019,
o SUS já perdeu 9 bilhões e no orçamento do 2020 são 10 bilhões a menos para Saúde
pública. Agora a portaria ministerial que altera o repasse dos recursos para os
municípios investir na Atenção Básica que até hoje Passo Fundo recebe R$ 23,00
por habitante ano e a partir de 2020 será criada carteira social e o repasse
será pelo número de pessoas cadastradas no sistema. Com esta mudança, o nosso município
terá redução de mais de 1 milhões por ano, de um recurso que já é pouco.
NEI ALBERTO PIES:Qual é o interesse ou de quem o interesse de extinguir
ou colocar o SUS em colapso/sufoco?
GOMES: O governo tem
compromisso com os banqueiros e vai fazer o que fez com a Previdência Social: repassar
para os bancos ou para iniciativa privada, através dos Planos particulares de
Saúde.
NEI ALBERTO PIES: Por que o “SUS é LEGAL”?
GOMES: Você já foi no posto tomar vacina e não pagou? SUS. Come em restaurante onde há vigilância sanitária? É Responsabilidade do SUS. Já levou alguém no CAIS ou na UBS é não pagou nada? É o SUS. Tem acesso a alimentos fiscalizados pelo SUS, já reportou um acidente e recebeu ambulância? SUS. Hemodiálise? É exclusivo do SUS. Transplante de órgãos? Exclusivo do SUS.
NEI ALBERTO PIES: Por que, nos dias atuais, é tão importante a defesa e
o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde)?
GOMES: Hoje defender o SUS
é defender a democracia brasileira onde todos e todas tem acesso gratuito e
universal à saúde.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a sua
maior realização como ativista ou militante da Saúde Pública?
GOMES: Comecei minha
militância em defesa da saúde publica e de qualidade antes do SUS existir 1986
na organização da 8ª Conferencia Nacional de Saúde de onde saíram todas as
propostas de construção do SUS. Em 1994, no primeiro mandato de vereador,
consegui aprovar emenda no orçamento municipal garantindo no mínimo 10% para
investir na saúde do município. Foi o primeiro município que teve esta
conquista e que contribuiu muito na melhoria da saúde na rede da atenção
básica,
Alberi Nascimento Grando é médico há 45 anos. Especialista em Cirurgia Geral, Pediatria, Saúde Pública, Homeopatia e Auditoria Médica.
Médico por vocação, chama atenção pela atuação profundamente humana na relação com seus pacientes.
Grando
começou sua vida profissional numa pequena cidade do RS, Santa Bárbara do Sul.
Envolveu-se, intensamente, na defesa do SUS (Sistema Único de Saúde). Também exerceu
funções como secretário municipal de saúde, delegado e coordenador regional de
saúde e vereador por dois mandatos em nossa cidade Passo Fundo.
Doutor
Alberi leva uma vida simples, com intenso contato com a natureza, valorizando a
família e amizades.
Nesta
entrevista, Alberi Nascimento Grando fala da sua trajetória pessoal e
profissional, da sua atuação política e em defesa do SUS, num momento em que este
SISTEMA está correndo riscos de colapso ou extinção.
NEI
ALBERTO PIES: Como surgiu seu desejo de atuar na medicina?
GRANDO:
No
tempo de estudante no Instituto Educacional fiz parte do Grupo Escoteiro
Botucaris. Nas atividades de campo,
gostava de “socorrer” quem precisasse de um curativo, uma atadura ou tinha um
desmaio. Dentro do sistema escoteiro, me especializei em Primeiros Socorros.
Acho que foi por aí. E não perdi mais o
gosto de socorrer.
NEI
ALBERTO PIES: O que mais o realiza na profissão, neste 45
anos de atuação como médico?
GRANDO: No
“Organon de Medicina” Samuel Hahnemann diz que a única e mais alta missão do
médico é restabelecer a saúde de quem está doente. Ver um paciente recuperado,
seja após uma cirurgia ou tratamento clínico, é muito gratificante. Embora, nem
sempre seja possível. O agradecimento é despretensioso e realizador.
NEI
ALBERTO PIES: Criaste cinco filhos (dois por adoção): Uma
professora, outra arquiteta, um filho advogado, outro comerciante e um
funcionário público. Como foi conciliar a exigente profissão de médico com o
acompanhamento da sua família?
GRANDO:
Penso
que eles é quem sofreram com isso. No início, o tempo era todo dedicado ao
consultório e ao hospital. Mesmo hospital sendo perto de casa, várias vezes
dormi lá, pois tinha uma gestante em trabalho de parto ou um paciente mal. Sabia que a Luiza, minha esposa, comandava
tudo em casa.
Hoje penso que poderia ter
dedicado mais tempo à família. Quem sabe isso foi bom? Eles aprenderam a
decidir por conta própria, ter autonomia, não ter uma proteção paterna em
excesso. Tenho orgulho de como hoje são meus filhos: autônomos, independentes,
seguem seu caminho, com ética e muito trabalho, são profissionais competentes.
NEI
ALBERTO PIES: Decidiste levar uma vida simples, morando numa
chácara, no interior do município. Por que?
GRANDO:
Penso
que um pouco está na minha origem, nasci e passei parte da infância no
interior. Além disso, a Luiza também gosta de viver lá. Longe do atropelo, do
barulho, da multidão. Plantas, animais também chamam.
NEI
ALBERTO PIES: Começaste sua vida profissional, como médico,
numa pequena cidade do RS, ainda no período em que se discutia a criação do
SUS. Conte-nos sua trajetória profissional em paralelo à trajetória do SUS.
GRANDO:
Podemos
dividir a assistência à saúde em antes e depois de 1990. Por influência da 8ª
Conferência Nacional da Saúde, de 1986, se sacramentou cinco artigos na
Constituição Federal de 1988. Dois anos depois, 1990, esses artigos foram
regulamentados pela Lei Orgânica da Saúde. Era o SUS legal!
Então, na era pré SUS, isto é,
INAMPS (Instituto Nacional da Assistência Médica da Previdência Social), a assistência
à saúde se resumia em atendimento médico hospitalar, e dar remédio aos
pacientes. Tinha sua importância. Mas também tinha consequências. Entre as consequências estava que apenas se
buscava a cura da doença, pouco se investindo na prevenção. Isso levava a uma
alta mortalidade infantil e baixa expectativa de vida. E não existia um
planejamento de saúde.
Cada um no seu canto, atendia
seus pacientes, fazia cirurgia, fazia partos e atendia quando o paciente ficava
doente. Essa situação fez com que, alguns que trabalhavam na saúde pública, resolvessem
brigar pela reforma sanitária. Isto é, havia necessidade de reformar.
O
horizonte era: “Queremos um planejamento com base em dados epidemiológicos para
resolver essa mortalidade infantil alta, essa baixa expectativa de vida. Vamos
investir num bom pré natal, num bom atendimento da gestante durante o parto, de
preferência normal, e depois acompanhar essa criança até 1 ano, com leite
materno e fazendo vacinas e acompanhando o seu desenvolvimento físico e mental.
Esse planejamento tem que prever também controle das doenças crônicas, como
diabetes, pressão alta, doenças da tireoide, asma brônquica, etc. E, claro,
vamos continuar e aperfeiçoar o tratamento das doenças agudas, como infecções,
cirurgias, etc”.
Assumi a Secretaria Municipal
da Saúde de Santa Bárbara do Sul, em 1985. Depois, aqui em Passo Fundo, em 1989
e 2005. Então, vivenciamos essa caminhada toda, antes, transição e pós SUS!
Ajudamos na elaboração da Lei Orgânica do SUS. É um arcabouço legal perfeito,
atende as necessidades de uma saúde preventiva e curativa. Mas, infelizmente
existem ainda falhas, digamos, mais de ordem humana de que legal.
NEI
ALBERTO PIES: Em que momento surgiu seu interesse pela
Homeopatia? Qual é o princípio norteador?
GRANDO:
Após
10 anos atendendo crianças, e a norma, o protocolo, era usar muitos medicamentos,
principalmente em algumas doenças crônicas. Comecei a questionar a necessidade
disso.
Algumas patologias era normal
usar medicamentos como antibióticos e corticoides. Como pode interferir no
desenvolvimento físico e mental da criança, pois a mesma ainda está em
formação, busquei alternativas, além da medicina tradicional. Estudei medicina
chinesa, acupuntura e homeopatia. Troquei algumas ideias com um famoso Pediatra
Homeopata, Dr. Valtencir Linhares, de São Paulo, hoje falecido. E me
entusiasmei pela medicina homeopática. Durante 3 anos frequentei, em finais de
semana, a cada 15 dias, o curso da Associação Médica Homeopática, em Curitiba.
Hoje sou especialista em
Homeopatia pela Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina,
como qualquer outro especialista. Em 1987 iniciei medicar com medicamentos
homeopáticos, como experiência, por livre opção minha e, claro, com a
concordância dos pais. E o resultado foi excelente. Não que homeopatia resolva
tudo, muitas vezes a medicina tradicional tem melhores resultados.
Hipócrates,
considerado o pai da medicina, há 2.500 anos mudou o conceito da medicina,
transformando-a em ciência, até então exercida como magia ou ação divina. Para
tanto, postulou duas maneiras de curar o doente: a cura pelo contrário e a cura
pelo semelhante. Vamos exemplificar, de maneira bem simplista: uma infecção
pode ser curada pelo antibiótico, que destrói a bactéria, ou estimulando que o
próprio organismo ganhe forças para debelar essa bactéria.
A primeira postulação é a base
da medicina tradicional e a segunda é a base da medicina homeopática. Outro exemplo:
dor de estômago por excesso de acidez. A medicina tradicional usa um anti-ácido
e a medicina homeopática usa um medicamento, em doses ínfimas, que em doses
ponderais provoca acidez. Existe outros princípios da homeopatia, mas este é o
principal.
NEI ALBERTO PIES: Participaste, na década de 1990, de muitas discussões sobre a implantação do SUS, ainda no tempo do agora extinta ASEDISA (Associação dos Dirigentes e Secretários Municipais de Saúde), entidade substituída pelo COSEMS. Qual era a discussão sobre Saúde naquela época?
GRANDO:
Naquela
época, a grande maioria dos colegas não desejavam mudanças. Afinal, o exercício
da medicina era muito lucrativo. Porque mudar? Mas, um grupo, e não só médicos, queria um
sistema que atendesse muito mais do que apenas curar. Mas, antes promovesse a
saúde.
Digamos, na era pré SUS, o que
exista era o INAMPS, órgão então ligado à Previdência Social, que ofertava
atendimento médico-hospitalar para quem pagasse o INPS (hoje INSS).
O Ministério da Saúde
praticamente não existia, era a Previdência que tratava da saúde.
Existia uma carteirinha
amarela. Quem não tivesse a carteirinha amarela, não tinha esse direito. Era
atendido nos postos de saúde do Estado, e de alguns Municípios, normalmente
como “indigente”. Por outro, lado, quem tinha recursos próprios, pagava
atendimento privado.
A crítica que se fazia, além
de ser excludente, era que a assistência ofertava apenas consulta médica e
medicamentos, além de cirurgias e hospitalizações, isto é, se buscava apenas
curar quem estivesse doente. Claro, isso também era e é importante. Mas, não
existiam programas que buscasse a prevenção da doença, e que se envolvesse
outros profissionais da saúde, não apenas o médico. O resultado disso era uma
estagnação na Expectativa de Vida e no Índice de Mortalidade Infantil,
parâmetros fundamentais na avalição da saúde de um povo.
Quem trabalhava com saúde
pública (os ditos sanitaristas) pedia mudanças, pedia uma reforma sanitária. E
esse reforma veio com a Constituição Federal de 1988 e foi solidificada com a
Lei Orgânica da Saúde, em 1990. A Assedisa (Associação dos Secretários e
Dirigentes Municipais da Saúde), hoje Cosems/rs (Conselhos de Secretarias de
Saúde), teve papel fundamental nessa discussão e na aprovação dos artigos 196 a
200 da Constituição Federal e da Lei Orgânica da Saúde.
Hoje, na era SUS temos outro
sistema, que oferece ações de cura mas também se preocupa com ações
preventivas. Tanto que a EV (Expectativa de Vida) e o IMI (Índice de Mortalidade
Infantil) melhoraram muito após 1990. A expectativa de vida aumentou de 65 anos
em 1990 para 75 anos em 2010. E a mortalidade infantil caiu mais de 60% nesse
período. Com certeza, apesar de ainda ter falhas, o SUS tem muito a ver com
isso.
NEI
ALBERTO PIES: Qual foi a importância do SUS incorporar a
prevenção, como fator de promoção da saúde pública?
GRANDO:
Fundamental.
Quando a abordagem do paciente enxerga apenas a cura da doença, perde-se a
oportunidade de orientar no sentido usar de meios para controlar a doença.
Importante, por exemplo, ensinar ao paciente hipertenso que deve controlar a
ingesta do sal, da perda de peso, da nutrição adequada, para evitar as
complicações da hipertensão, como o acidente vascular cerebral (derrame) ou o
infarto do miocárdio.
Após o SUS, foram
sistematizados, entre outros, os programas de assistência de gestantes, crianças,
doenças sexualmente transmissíveis, doenças mentais, idosos, etc. Isso trouxa mais qualidade de vida às
pessoas. O advento do programa Estratégia da Saúde da Família, com a
participação de vários profissionais da saúde, não apenas o médico, sem dúvida,
melhorou em muito as condições da saúde da população.
NEI
ALBERTO PIES: Por que é tão complicado promover a efetiva
Municipalização da Saúde?
GRANDO:
A
descentralização, uma das diretrizes do SUS, tem como meta principal a
municipalização da saúde. Isto é, o município é que deve ser o gestor a nível
local: planeja, de acordo com suas necessidades, sua realidade epidemiológica,
e executa todas as ações e serviços da saúde. Não tem sentido o Estado ou a
União estar executando ações nos município. É aqui que as coisas acontecem.
Ficam para o Estado e União questões que são nacionais, como vacinação,
vigilância nas fronteiras, etc.
A
municipalização é difícil porque houve a descentralização de algumas ações e serviços
mas não se descentralizaram os recursos. A União não tem interesse em repassar
recursos para que os municípios façam de fato a gestão da saúde. Passa parte do
orçamento, e assim mesmo, mediante a prestação de contas. Então o município é
um prestador de serviços, não um gestor. O poder está em quem tem o recurso.
Além disso, também é entrave
para a municipalização, a indicação puramente política dos secretários da
saúde, e a alta rotatividade dos gestores municipais. É difícil gerenciar
questões complexas como as da saúde, quando o gestor não conhece o assunto, ou,
assim que aprende, é trocado por uma questão de mudança de governo.
NEI
ALBERTO PIES: Como foi a sua experiência como gestor da
Saúde (secretário municipal por mais de 10 anos e Delegado/Coordenador Regional
da Saúde por duas vezes)?
GRANDO:
Foi
um grande aprendizado, pois vivenciei, como Secretário Municipal da Saúde
quando ainda era INAMPS, no período de transição e depois quando era SUS.
Gerenciar uma secretaria com mais ou menos 20 servidores e depois uma
secretaria com mais de 1.000, com certeza ensina muito. Além disso, no SUS tudo
era novo, tínhamos que aprender juntos. E as exigências eram cada vez maiores.
Na época de Delegado Regional,
abrangendo 62 municípios, nos mostrou a visão do gestor estadual, com todas as
dificuldades e pouco recursos. Ajudou muito ter estado antes como secretário
municipal.
NEI
ALBERTO PIES: Conte-nos como foi coordenar a primeira
Conferência Estadual de Saúde, no ano de 1991? Que desafios estavam postos para
aquela primeira Conferência Estadual de Saúde?
GRANDO:
Também
foi uma grande experiência. E, importante, em 1991 vivíamos o auge de uma
disputa política no Estado. Isso refletia na saúde. E, no SUS, tudo era
novidade, a lei Orgânica tenha recém sido promulgada. Como Presidente da
Assedisa e Coordenador da conferência, tinha que coordenar a conferência e
mediar as disputas políticas.
A Conferência, seja municipal,
estadual ou nacional, conforme a lei 8142/90 reúne a população para discutir e
estabelecer diretrizes sobre a saúde. Não delibera, apenas opina por maioria.
Depois, os conselhos deliberam, em cada nível.
Então, sendo matéria nova,
foram centenas de propostas, que depois foram sistematizadas e encaminhadas às
autoridades competentes. Lembro que a abertura foi no antigo Cine Pampa, tendo
a palestra magna do Dr. Wilson Fadul, que havia sido Ministro da Saúde em 1963,
quando se falou pela primeira vez em descentralizar para os municípios a
execução das ações e serviços de saúde. A partir do 2º dia, centenas de
representantes dos municípios foram divididos em grupos, trabalhando no campus
da UPF. Penso que saiu um relatório muito bom, definindo o que a população e os
profissionais da saúde desejavam para a saúde do nosso Estado.
NEI
ALBERTO PIES: Qual é a importância do controle social no SUS?
GRANDO:
Prefiro
o termo participação da comunidade, assim está na Constituição Federal de 1988.
Sempre defendi a participação das
pessoas na gestão da saúde. É ter os olhos da população dentro da gestão. São
as pessoas que sabem das suas necessidades.
Nós, técnicos, trazemos essas
necessidades para o planejamento e execução.
Essa participação se faz essencialmente nas
Conferências e nos Conselhos de Saúde.
A Conferência se reúne a cada
2 ou 4 anos, dependendo do nível e necessidade, avalia as questões da saúde e
sugere mudanças. O Conselho, órgão permanente, composto em 50% pela população
organizada, tem poder deliberativo. Isso é a essência da democracia dentro da
gestão da saúde. Por exemplo. Se o
Conselho deliberar que o orçamento da saúde está mais voltado para ações mais
curativas e menos preventivas, discute a questão e leva ao Prefeito. Da mesma
maneira se existe falta de profissionais, exames, medicamentos ou estrutura
física.
NEI
ALBERTO PIES: Que promessas o SUS ainda não conseguiu
concretizar plenamente?
GRANDO:
O
SUS prometeu que a gestão da saúde deve ser descentralizada, ter integralidade,
ter participação da comunidade, ser universal.
Hoje,
ainda se investe três vezes mais na saúde curativa que na saúde preventiva. Aí
falha a descentralização e a integralidade, que é atender as necessidades desde
as mais simples até as mais complexas.
A participação da comunidade,
seja nas conferências ou nos conselhos, é tímida, ou porque as pessoas
desconhecem seus papel ou são dominadas por grupos ou pelo próprio Prefeito. O
acesso aos serviços tem falhas: consegue a consulta, mas não efetiva a cirurgia
necessária. E muitas vezes tem cobrança “por fora”. Issomostra falha no sistema, na gestão do sistema.
NEI
ALBERTO PIES: Sabemos que quase 50% dos recursos do SUS são
gastos em hospital. Pouco menos de 20% com Atenção Básica e os restantes 30 e
poucos por cento com a máquina administrativa e campanhas de prevenção à Saúde.
Estes percentuais dão conta de promover Saúde Pública de qualidade no Brasil?
GRANDO:
Não,
com esses percentuais vamos continuar pagando a doença, não fazendo saúde. No
orçamento para 2019, 129 bilhões de reais, foi previsto investir perto de 59,9 bilhões (46,5%) na
assistência hospitalar e ambulatorial e 25,1 bilhões (19,5%) na assistência
básica. Sabe-se que, nos países desenvolvidos, a atenção básica resolve 80% das
questões de saúde. Então, não tem sentido alocar menos de 20% do orçamento na
atenção básica.
NEI
ALBERTO PIES: Na visão de médico e gestor de saúde por vários
anos, porque é tão importante defendermos e fortalecermos o SUS?
GRANDO:
Primeiro,
porque o sistema anterior demonstrou que não atendia às necessidades de uma
verdadeira saúde para um país como o Brasil
Segundo, porque a proposta do
SUS saiu de amplo debate da população, profissionais da saúde, prestadores de
serviço e gestores. Desde a 8ª Conferência Nacional da Saúde de 1986, passando
CF de 1988 culminado com a Lei Orgânica da Saúde, de 1990. Foram mais de 5 anos
nessa discussão vendo o que melhor. E tem uma legislação muito boa.
Terceiro, porque acertos e
bons resultados já são uma realidade. Devem ser melhorados e aperfeiçoados.
NEI
ALBERTO PIES: Como avalias a Saúde pública no Brasil de hoje,
ano 2019? O Brasil corre o risco de extinguir ou colocar o SUS em colapso?
GRANDO:
A
saúde pública, entendido aqui como a saúde ofertada pelo gestor municipal,
pelas três esferas de governo, podia estar melhor. Faltam profissionais que se
disponham a atender o SUS, principalmente médicos, nas várias especialidades, faltam
cirurgias, faltam medicamentos, faltam consultas e também faltam bons gestores.
A classe médica reclama do baixo ganho. Isso entrava.
Um paciente com uma fratura de
fêmur, por exemplo, fica meses numa fila para fazer a cirurgia. Porque não
operar logo? Porque faltam profissionais que se propõe a fazer a cirurgia! Não
tem profissionais? Tem, basta verificar o número de médicos que trabalham nos
nossos hospitais, mas não querem operar pelo SUS.
Aqui
em Passo Fundo, onde se realizam os procedimentos mais complexos, e muito bem
por sinal, temos falta de médico que opere uma hérnia ou uma fimose numa
criança, retirar um útero, operar uma unha encravada! Tem absurdo maior que
isso?
Quero aqui deixar claro que
existem muitos abnegados que se prontificam e estão fazendo inúmeros
procedimentos pelo SUS. Mas são poucos.
Ou como se explica uma fila que um ano para retirar um útero de uma mulher com
constante sangramento? Ou alguém esperar em cima de uma cama para operar uma
perna quebrada?
A solução? Criar a carreira de
médico do SUS, que recebe um salário de acordo com aquilo que a classe acredita
ser o adequado, pela responsabilidade da profissão. E, fundamental, tal como um
promotor ou um juiz, o médico de carreira, só atende pacientes da saúde
pública. Outros, médicos privados, atendem pacientes privados, internam e são
operados em hospitais privados. E podem
cobrar de acordo com o acerto com o seu paciente.
Embora o SUS tenha uma
legislação perfeita, a sua execução apresenta falhas. Uma falha é na falta de
bons gestores, de quem conheçam o assunto e desenvolvam plano de saúde
adequado.
A CF de 1988, em cinco
artigos, de 196 a 200, definiu como seria a saúde no Brasil. E já estabeleceu
as diretrizes: descentralização, integralidade e participação da comunidade.
Descentralização é cada esfera
de governo ser o gestor da saúde: elaborar um plano de saúde, tomar decisões,
ter o recurso à sua disposição, enfim, gerenciar a saúde. Isso não acontece. Os
municípios não são gestores. Eles são prestadores de serviços à União.
Por exemplo, atendem uma consulta e mandam a fatura para a União pagar. Ou o
hospital realiza em procedimento e recebe direto da União, não do município.
Porque? Porque o recurso está com o governo central.
Integralidade é atender todas
as necessidades das pessoas, desde as ações mais simples até as mais complexas.
É fazer a cura mas também a prevenção. É fazer transplante mas também operar
uma unha encravada ou retirar um berne. É tratar uma infecção pulmonar ou um
acidente vascular, mas também ensinar com controlar a asma brônquica ou a
hipertensão arterial.
A
participação da comunidade, através das conferências e dos conselhos de saúde,
caíram no desuso, ou foram usados para fazer proselitismo político. Onde tem
hoje um conselho municipal com atuação resolutiva, com enfrentamento ao gestor
municipal, quando necessário?
Outra falha é no orçamento da
saúde, que desde há muito tempo, 15 ou 20 anos, cada ano vem diminuindo. Em
2019, a proposta foi de em torno de 129 bilhões de reais, para atender tudo que
o SUS propõe: universalidade, gratuidade, integralidade.
É
preciso corrigir e aperfeiçoar o Sistema Único de Saúde, não extinguir e nem
deixá-lo minguando por falta de recursos e problemas na sua gestão.
NEI
ALBERTO PIES: O que a sua atuação parlamentar (vereador por 6
anos) lhe ensinou? Neste período, a Saúde também foi o foco de sua atuação
política?
GRANDO:
Como
parlamentar aprendi a importância do diálogo, da discussão. Vi também que um
dos grandes problemas no sistema político é a reeleição, em qualquer nível,
pois desperta o desejo da perpetuação no poder, o que não é bom e possibilita a
corrupção. Mas também constatei como muitos parlamentares ainda não tem noção
do papel de cada poder. Alguns pensam que o Legislativo é um apêndice do
Executivo…
NEI
ALBERTO PIES: Uma frase que defina sua filosofia de vida.
GRANDO:
Não
é uma frase, mas uma conduta que sempre tentei seguir: sempre tentar conciliar
o que pensa, com o que diz e com o que faz, mas com ética, independente de
estar ou não na lei.
NEI
ALBERTO PIES: Uma frase pela qual, na sua visão, vale a pena
viver.
GRANDO:
É
bom viver porque viver é sempre recomeçar, a cada instante, a cada hora, a cada
dia. E ainda podemos ajustar nossa rota.
Meu
vizinho disse que estrela
lembra um partido comunista.
Eu pedi o que colocar e ele
me emprestou um revólver.
Está na Bíblia, ele me disse.
Que não lhe estranhe o
rubor em meu rosto, nem minha vergonha contida. Aqui estou para confessar o
maior segredo de meus trinta e dois natais.Vou contá-lo com medo de
apedrejamento público. Falarei com um temor adulto de ser tido como louco.
Aos cinquenta, a vida
me convenceu de que Papai Noel existe. Verdade que aceitei resignado, notícia
transparente como seu olhar que me lê. Papai Noel existe e a chuva nos molha os
cabelos. Papai Noel existe e a terra gira ao redor do sol.
Contam às crianças que
os bebês nascem da barriga da mãe de uma sementinha de papai. Mentem aos
pequenos que Jesus é de gesso e defende armas.
Ninguém conta a elas
que os adultos se matam sem motivo, que há uns comendo peru na noite do dia 24
e outros lambendo os ossos no amanhecer.
Minha confissão tardia
torna-se um pedido de perdão. Não a você ou ao mundo. Não é, muito menos,
espera de clemência ou piedade. Quero é que Papai Noel continue me presenteando
na vida.
Oportuno dizer, também,
que não é apenas em dezembro que recebo regalias. Há, ainda, abril e junho,
fevereiro e setembro, enfim, nos meses de 28, 30 e31 dias.
Perdoe-me,
Noel, pela ingratidão de anos! Minha confissão, quase pública, é uma pena
alternativa por meus desatinos, por minha infidelidade ao bom velhinho, por
minha ignorância e vergonha, por achar que os presentes ganhos eram só os
compráveis no comércio.
Quanta ilusão alimentei
de que era o dinheiro que me proporcionava os presentes da vida! Papai Noel
sempre aqui ao meu lado, alentando-me quando aborrecido, orientando-me em
silêncio, fortalecendo-me com sabedoria, abraçando-me nos amigos, amando-me na
esposa, sorrindo-me nas crianças, ensinando-me nos mestres ou alunos,
ajudando-me nos caminhos cotidianos, surpreendendo-me em tantos momentos
singulares.
Papai Noel é parceiro
desde aquela noite, há cinquenta dezembros atrás, quando, sobrevoando o mundo
pendurado no bico da cegonha, eu sonhava. Comigo esteve mesmo nos tempos
céticos, quando se apagava em mim a límpida verdade do Natal.
Eu acredito em Papai
Noel mas, por favor, será que seria possível o bom velhinho explicar aos pais
dos meninos de Paraisópolis alguma razão sensata para seus filhos morrerem
pisoteados?
Eu acredito em Papai
Noel, mas seria possível envenenar menos os alimentos e derrubar menos árvores
na Amazônia?
Será que o Papai Noel
poderia levar para a Lapônia essa gente ignorante que cuida do Ministério da
Educação, essa gente racista que cuida da Fundação Palmares, essa gente
assassina que cuida da Secretaria de Direitos Humanos, esses religiosos
endemoniados que exploram os pobres nas igrejas?
Eu
acredito em Papai Noel. Mas, será que eu poderia pedir de Natal que ele
cuidasse mais da educação e dos professores no Rio Grande do Sul?
Meu vizinho mandou eu
tirar a estrela da ponta do pinheirinho. Disse que estrela lembra um partido
comunista. Eu pedi o que colocar e ele me emprestou um revólver. Está na
Bíblia, ele me disse.
“Aproveitemos o Natal para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho e desafio como ser humano. Viver sozinho e só não vale a pena! Que o Natal tenha a força para nos inspirar para a vida que se faz sempre solidária”. (Nei Alberto Pies)
Retirada dos projetos da Assembleia e realização
de um verdadeiro diálogo com a sociedade e
comunidades escolares para vermos qual o
melhor caminho para a educação.
Este que aí está nos coloca num
impasse sem saída!
Uma profunda tristeza paira sobre o ambiente escolar. Quando se pensava que mais não seria possível perder, “vem a
enxurrada e leva tudo”.
Pode-se fazer essa analogia com as enchentes quando
atingem pobres que já tem tão pouco, pois vínhamos mostrando nos dados do
Observatório da Educação, publicado pela Comissão de Educação da AL este ano,
que o processo de desinvestimento era grave e que impactava a educação pública
do Rio Grande do Sul desde os espaços físicos até a condição de qualificação e
sobrevivência dos profissionais; que empobrecia a experiência pedagógica
resultando em maior abandono e reprovação escolares, em maior distância da
educação de qualidade que nossos estudantes merecem.
Apontávamos que as primeiras medidas do novo governo aprofundavam esse
sentido ao fechar bibliotecas escolares, ao deixar de fazer concurso para
professores, funcionários e especialistas, bem como de profissionais para
realizar as obras necessárias e urgentes – a ponto de perder recursos por conta
disso!
Sem
responder à necessidade de qualificar a educação, sem sequer cumprir a promessa
de colocar em dia os salários, agora o governo apresenta projetos propondo um
achatamento profundo na carreira, desestimulando a formação e experiência,
descontando mais dos aposentados e fragmentando mais ainda o cumprimento da
carga horária dos professores. Com isso, desencadeou uma greve sem precedentes, tamanho o apoio dos e
das estudantes, das comunidades escolares e da solidariedade de toda a
sociedade!
Sem proposta pedagógica para a educação pública, o governador defende
sua entrega à iniciativa privada.
Ele que foi aos Estados Unidos conhecer as Escolas Charters,
precisa ler o balanço que faz Diane Ravitch, da Universidade de Nova York,
ex-secretária assistente de Educação de Bush e apontada por Clinton para a
Junta Nacional que supervisiona as testagens federais, no livro Vida e
morte do grande sistema Escolar Americano, para saber como fracassam essas
experiências e como os Testes Padronizados e o modelo de mercado empobrecem a
educação.
Recente publicação da nova matriz curricular para nosso Estado, dando
ênfase ao Português e à Matemática – medidos por testes – direciona para esse
caminho que colocou os EUA atrás dos seus paralelos no ranqueamento mundial da
educação.
É urgente a retirada dos projetos da Assembleia e a
realização de um verdadeiro diálogo com a sociedade e comunidades escolares
para vermos qual o melhor caminho para a educação. Este que aí está nos coloca
num impasse sem saída!