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A pandemia e as lições educacionais

Não podemos negar que os
meios tecnológicos ajudam na
interação do conteúdo com o ser humano,
porém, eles negam as relações inter-humanas.


“A mãe não é igual a você, você tem as manias de [professora], a minha mãe não tem, ela trabalha num restaurante, ela só tem as manias de fazer comida. Me desculpa incomodar agora, só que eu queria falar para a senhora isso.” Veja mais aqui.

Essa mensagem foi enviada por um menininho à Professora Noilza Lopes e viralizou em todas as redes sociais, revela muitas reflexões e lições que podemos elencar, sem sombra de dúvida, a respeito da educação.

Um dos aspectos revelados nesse depoimento é a humanidade, ou a falta dela no sentimento evocado. Sabemos que as palavras não vêm sozinhas: elas trazem valores, sentimentos e emoções. “A mãe não é igual a você, você tem as manias de [professora]”, deixa claro que ser professor é muito mais que trazer conteúdo “seco” e puro. Esta fala transcende o papel da educação que é da socialização e da humanização, pois a escola não existe para memorização, para cumprir lista de conteúdos apenas.



Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos propõe mudanças substantivas para atingirmos a humanização.



Neste momento crítico vivenciado experimentamos a tecnologia que nos permite a construção do conhecimento e aproximação com nosso estudante, porém ela não é o fim para educar, mas sim o meio.

A tecnologia pode muito bem servir como ferramenta para o ensino, porém ela sozinha é fria, é ineficaz, tanto do lado do professor quanto do estudante. Não podemos negar que os meios tecnológicos ajudam na interação do conteúdo com o ser humano, porém nega as relações inter-humanas.

A palavra dessa criança traz o mundo, o mundo que a educação ajuda construir a humanidade. Percebemos que a fala da criança demonstra um mundo de aflições, de sofrimento por não ter contato físico com a professora. A tecnologia pode amenizar a distância, mas jamais trará o afeto, o olhar sensível que tem o ser humano.

O menininho deixa claro que pensar em educação à distância como a única forma de ensino é negar a inter-relação eu-aluno x tu-professor, ou vice e versa tu-aluno x eu-professor, ou seja, a relação eu-outo. Isso porque as relações intersubjetivas estão sempre presentes.

O linguista que estudamos no Mestrado diz: “bem antes de servir para comunicar, a linguagem serve para viver. Se nós colocamos à falta de linguagem não haveria nem possibilidade de sociedade”. (BENVENISTE, 1989, p.222). Isso porque uma das faculdades da educação é a linguagem e o que nos torna humanos. A linguagem é fator fundamental para o professor trabalhar com o outro.

O áudio enviado para a professora Noilza deixa claro de forma angustiante o papel que tem o professor na vida do estudante, que necessita de um toque, de um olhar amigo, de uma visão diferenciada, do reconhecer-se como humano.

Porém, há que se ressaltar que essa angústia é vivenciada também por parte do professor, pois ele está angustiado, insatisfeito, porque sente falta dessa essência que a profissão lhe dá em ver seus alunos aprendendo. Ele está angustiado porque, por mais que manda as atividades, pensadas e refletidas para atender de fato o objetivo, fica no “escuro”, não têm retorno e ao professor esse retorno é seu combustível, a realização, o estímulo a seguir.

Outra reflexão que quero dividir é que o momento exige do professor uma certa obrigação em trabalhar com a tecnologia. Eu, em particular, fui sempre apaixonado e admirador no potencial em poder usar a tecnologia a favor do ensino.

Ao longo de minha carreira fui me reciclando e procurei sempre introduzir nos projetos para que os alunos pudessem usar aliada ao ensino-aprendizagem. Neste mês de junho, inclusive, lecionei uma disciplina de pós-graduação que, em virtude da situação, foi totalmente ministrada com o auxílio tecnológico do Programa Teams.  

Confesso que realmente o contato físico-visual é necessário, nada substitui o professor-físico em sala de aula, sem contar que cansa bem mais e a gente não tem a visão do todo, da atmosfera educacional. Essa questão também afeta o psicológico do professor, uma porque nem sempre todo mundo domina a tecnologia e isso acarreta uma insegurança e ansiedade.

Percebemos que a tecnologia faz parte da sociedade pós-moderna e dias menos dias ela entraria no mundo educacional, porém ela foi introduzida de forma abrupta. O que fica é que educação se faz com gente para gente. As relações intersubjetivas do eu-aluno, tu-professor x tu-aluno, eu-professor jamais serão substituídas pela máquina.

A educação é muito mais que conteúdos decorados. Ela transcende a humanidade que vive em cada um de nós. Isso é inegável. “Me desculpa incomodar agora, só que eu queria falar para a senhora isso”, “você tem as manias de [professora], a minha mãe não tem”.



“O que eu espero, quando as crianças voltem para as escolas, é que tenha uma semana “sem aula”, que elas fiquem correndo e gritando nos pátios como os hamsters do capiroto até perderem a voz! Que as escolas mandem na agenda o seguinte bilhete: venham com roupa que possa ser rasgada, para que elas possam ralar os joelhos e cotovelos de tanto rolar na terra; que comam tatu-bolinha; que tomem banho de mangueira e muito, muito sol; que façam penteados malucos; que dancem muito e joguem bola até caírem exaustas no chão”. (Tatiana Lebedeff, professora universitária UFPEL)

Senhores pais ou responsáveis…

Se cada um de nós assumir nossa parcela de responsabilidade na educação das futuras gerações, realmente construiremos uma sociedade mais justa e solidária, bem como contribuiremos para fazer de nosso planeta um lugar equilibrado e sustentável.

Senhores pais ou responsáveis … é título de tradicional bilhete que nós professores mandamos para os pais (ou responsáveis) na tentativa de unir forças na resolução de problemas cotidianos de ensino-aprendizagem ou para a correção de comportamento e indisciplina.

Entretanto, a participação dos pais na escola vem decrescendo com o passar dos anos, fato esse, que preocupa-nos enquanto educadores. Muitos falam em desestrutura familiar e social outros ainda dizem que passamos por um período de instabilidade pós-moderna.

Enquanto educadores, quem algum dia não foi (ou ainda será) surpreendido com as seguintes reconceituações do conceito de família: “a namorada do meu pai é dois anos mais velha que eu e tá esperando nenê” ou “moro com meu avô porque o namorado da minha mãe bebe e pode me bater”. Pode se listar ainda afirmações como “meu pai não paga pensão porque ele tem mais filhos e tá desempregado” ou “prô acho que a minha menstruação tá atrasada, é verdade que existe um chazinho pra fazer descer?”

Nesse novo contexto, precisamos re-avaliar nossas atitudes e estratégias enquanto educadores para trazer a família de volta na escola. A família de hoje, de qualquer maneira que se entenda: a mãe ou o pai solteiro, pais casados, biológicos, de coração, avós, irmãos, tios… enfim os responsáveis!



Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.



Projetos comunitários parecem ser mais atrativos que as tradicionais reuniões de pais e devemos usar a oportunidade para enfatizar o quanto a família é importante no desenvolvimento das crianças e adolescentes, principalmente porque os mesmos tendem a refletir a realidade na qual estão inseridos.

Através de uma atividade com a família, deve-se aproveitar a oportunidade para frisar que a educação pode se dar de três maneiras: formal (nas instituições oficiais, como por exemplo, na escola), não-formal (através da socialização com a família, comunidade e sociedade) e informal (informação recebida através dos meios de comunicação, como por exemplo, programas de rádio e TV).

Nesse sentido, mesmo que a escola através de seus professores e gestores façam tudo que está ao seu alcance, isso representará apenas um terço da educação do aluno. O apoio da família no processo de ensino-aprendizagem é fundamental. Por exemplo, toda vez que eu pronunciava uma palavra errada em quanto criança, o responsável ao meu redor a corrigia.

Sabemos que é uma tendência dos pais se equiparar ao nível de desenvolvimento dos filhos. Assim, quando a criança diz “cuco” ao invés de suco, os pais numa tentativa de atingir a linguagem da criança acabam por oferecer “cuco” a criança, sem pensar nas consequências que isso poderia acarretar no desenvolvimento cognitivo. Quando a criança deixa a família para entrar na escola e diz “cuco” para seus colegas, pode ser que seja exposta à uma situação negativa de aprendizado.

Ao longo da vida escolar do aluno, o ideal é que os pais continuem acompanhando seus filhos, olhando os cadernos e temas de casa. Alguns pais se intimidam nessa trajetória, dizendo que não podem fazer nada pois não aprenderem esse conteúdo. Um outro extremo nessa questão, refere-se geralmente a mãe que acaba por “fazer”as tarefas da criança numa tentativa de ajudá-la.

Nenhum desses extremos acaba por realmente ajudar a criança em seu desenvolvimento. Os pais ou responsáveis não necessitam saber o conteúdo para fazer com que a criança aprenda. O que realmente importa é que a criança sinta a presença e acompanhamento dos pais, ou seja, sinta-se valorizada.

Essa conexão se transfere ao longo da vida, fortalecendo os laços afetivos. Disciplina é fundamental nesse processo e mesmo que escola e família desempenhem suas funções de uma maneira eficaz, ainda devemos levar em consideração o papel da mídia no desenvolvimento das nossas crianças.

Se cada um de nós assumir nossa parcela de responsabilidade na educação das futuras gerações, realmente construiremos uma sociedade mais justa e solidária, bem como contribuiremos para fazer de nosso planeta um lugar equilibrado e sustentável.



Este artigo foi publicado no Livro “Conversas entre educadoras: do dia a dia à utopia”, da autora Eliane Thaines Bodah e Jaira Thaines, Editora IFIBE, 2010.


Um olhar da pediatria sobre a pandemia do Covid 19


Wania Eloisa Ebert Cechin é médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo há 33 anos (desde 1986) com especialização em pediatria e neonatologia realizada no Hospital da Criança Conceição em POA (desde 1989).

Mestre em Ciências da Saéde (2003) e Doutora em Cardiologia e Ciências Cardiovaculares (2013) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Exerce atividades profissionais como Preceptora da Residência Medica de Pediatria do HSVP – UFFS, como professora do Internato Médico de Pediatria da UPF e nos atendimentos em consultório médico.

Ama o que faz! Acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças dentro de um contexto familiar assim como trabalhar com acadêmicos de medicina e residentes de pediatria é muito gratificante para Doutora Wania. Wania se sente muito feliz e realizada na profissão, atuando com muito zelo e dedicação.

Tem 56 anos, casada com o médico psiquiatra Edson Machado Cechin e tem dois filhos: Igor, também médico e ortopedista em formação e Gabriel estudante de medicina. Preza muito pela nossa família e bem-estar de todos. Declara-se apaixonada por atividades físicas, dentre elas, a corrida de rua e o ciclismo. Aprecia muito uma alimentação saudável e a preservação da natureza.

Em entrevista ao site, expõe toda sua paixão e realização na profissão, bem como seus esforços para estudar e estar sempre atualizada na medicina, também em tempos da Pandemia do Covid 19.


SITE NEIPIES: Por que escolheste ser médica e qual a razão de ter escolhido a pediatria como especialidade?

DOUTORA WANIA: A escolha pela profissão surgiu na adolescência acredito que por influência familiar já que meus dois irmãos mais velhos também são médicos.  A decisão por ser pediatra veio durante a faculdade ao cursar a disciplina de pediatria e o internato medico, vendo o exemplo dos professores como pessoas carismáticas, responsáveis e com valores éticos.

Senti-me atraída por “cuidar de crianças” e principalmente por me tornar uma médica que seria responsável pelo bem-estar da criança, desde a fase da concepção até à adolescência e que poderia acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento durante essa fase da vida.


SITE NEIPIES: Quais são os impactos da Pandemia do Covid 19 na sua rotina como pediatra e professora universitária?

DOUTORA WANIA: Em função das medidas de contenção da pandemia, estamos nos adaptando a um novo modelo de atendimento com o intuito de diminuir a velocidade de transmissão e sobrecarga nos sistemas de saúde.

As atividades acadêmicas de forma presencial e o internato médico foram suspensas. As aulas e discussões de casos passaram a ser de forma não presencial.

Continuamos estudando muito sobre essa nova doença e elaborando  protocolos próprios para atendimento  de crianças  no HSVP (Hospital São Vicente de Paulo) com fluxo diferenciado, quando apresentam sintomas respiratórios.

Os atendimentos em consultório diminuíram consideralvelmente e a procura são aqueles casos estritamente necessários. Houve liberação pelo Conselho Federal de Medicina para uma nova modalidade de atendimento não presencial: a telemedicina, focada mais em protocolos e sistemas. E estamos todos nos adaptando a essa nova situação.


SITE NEIPIES: Quais são os maiores riscos a que estão expostos nossas crianças e adolescentes?

DOUTORA WANIA: A grande maioria as crianças e adolescentes apresentam formas assintomáticas, leves ou moderadas da doença.

No entanto, no final do mês de abril, a Sociedade de Pediatria do Reino Unido emitiu um alerta reportando a identificação de uma nova apresentação clínica em crianças e adolescentes, possivelmente associada com a COVID-19. 

Os pacientes apresentaram uma síndrome inflamatória multissistêmica com manifestações clínicas e alterações dos exames  similares às observadas a síndrome de Kawasaki e/ou síndrome do choque tóxico.  

Nos Estados Unidos, até o dia 17 de maio, já haviam sido descritos mais de 100 crianças e adolescentes (entre 1 e 21 anos de idade, sendo mais de 50% deles entre 5 e 14 anos), hospitalizados por manifestações clinicas e alterações laboratoriais compatíveis com síndrome de Kawasaki .

Todos apresentaram febre, mais da metade apresentou lesões de pele, dor abdominal e diarréia, sendo que as manifestações respiratórias foram raras. Foram registrados três óbitos. Em 90% dos casos foi possível confirmar a infecção pelo vírus. (COVID 19) Os casos ocorreram dias ou semanas após, sugerindo que esta síndrome inflamatória pode ser uma complicação tardia da infecção.

Embora esses casos descritos tragam preocupação em relação a uma característica nova, aguda e grave da COVID-19 em crianças e adolescentes, vale ressaltar que tais ocorrências foram raras até o momento. Na nossa cidade não ocorreram casos de doença grave nas criancas até o momento.


SITE NEIPIES: Quais são os riscos da volta às aulas em nosso Estado e, especialmente, em nossa cidade, (considerados o alto número de infectados e a alta taxa de letalidade de pessoas pelo Covid) para as crianças e adolescentes, bem como para toda a população? Que cuidados devemos tomar para proteger nossas crianças e adolescentes, bem como a população de modo geral?

DOUTORA WANIA: Como as crianças e adolescentes estão sendo  poupadas das formas graves da doença, vários estudos têm demonstrado que elas também são infectadas. Tossem, espirram, compartilham brinquedos e alimentos sem maiores cuidados.

Apesar de até o momento não termos acumulado evidências que demonstrem o real papel das crianças na transmissão da doença, devemos reconhecer que a suspensão das atividades escolares, implementadas em nossa cidade e estado e também em quase todos os países do mundo, acabaram limitando a possibilidade de que se conhecesse  esse papel das crianças na cadeia de transmissão da doença.

Com o retorno das atividades escolares, é importante que cada escola adote medidas para  prevenir a infecção em alunos, pais, professores e funcionários. Os pais devem ser orientados a não levarem seus filhos à escola ao menor indício de quadro infeccioso, seja febre, manifestações respiratórias, diarreia, entre outras.

 As medidas de distanciamento social devem ser mantidas na escola, com o objetivo de diminuir o grande número de pessoas no mesmo espaço, reduzindo, assim a possibilidade de contágio.

Em um primeiro momento, o número de alunos por sala, sempre que possível, deverá ser reduzido e os alunos podem ser divididos em grupos que se alternem entre a atividade presencial e à distância, de acordo com as disciplinas curriculares.

O estabelecimento de ensino deve se organizar para que cada turma tenha o intervalo entre as aulas em horário diferente de outras turmas, assim como estabelecer horários de entrada e saída escalonados, evitando aglomerações.

Em relação ao transporte escolar, é necessário avaliar o número de usuários, para que se preserve a distância recomendável entre as pessoas também no veículo.

As medidas de higiene devem ser postas em prática na escola bem como o uso obrigatorio de máscaras. Cada estudante deve trazer sua própria garrafa de água, utilizando os bebedouros comuns apenas para enchê-las novamente.

A escola deve proceder a limpeza de seus ambientes pelo menos uma vez ao dia e, mais frequentemente, das áreas de maior circulação de pessoas, assim como dos objetos mais tocados (maçanetas, interruptores, teclados, etc.).

E, por fim, a escola é um espaço de formação e de exercício de cidadania e, neste momento, deve buscar cumprir seu papel, inclusive como promotora da saúde, com segurança e responsabilidade.


SITE NEIPIES: Que orientações a Senhora, como pediatra, daria a familia de crianças e adolescentes para atravessar esse momento critico?

DOUTORA WANIA: Nesse momento, cabe a família manter um ambiente equilibrado com redobrada atenção para higiene e distanciamento social. A família deve se organizar para a continuidade das aprendizagens escolares, atentando para as necessárias adaptações de suas rotinas.

O trabalho dos professores e o esforço das escolas não devem ser criticados negativamente.

O eventual amadorismo dos materiais produzidos e apresentados no ambiente virtual pelos professores e professoras durante essa pandemia e a falta de planejamento são esperados na situação atual. Isso está acontecendo com praticamente qualquer outro setor da sociedade e representa uma vitória sobre a inércia, o pânico e o desânimo.


SITE NEIPIES: Como a Senhora vê o mundo no pós pandemia?

DOUTORA WANIA: O mundo está aprendendo uma nova maneira de aprender. E devemos nos fortalecer com isso.




Fontes

  1. COVID – 19 e a volta às aulas: Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Imunizações em 13/05/2020.
  2. Ano Letivo de 2020 e a COVID-19 : Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Saúde Escolar  em 13/05/2020.
  3. Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças e Adolescentes provavelmente associada a COVID-19 : uma apresentação aguda, grave e potencialmente fatal – Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Infectologia  em 20/05/2020.


O universo da cultura

 “O homem não é o que é,
mas é o que não é” (Gusdorf)


Não são poucas as vezes que nos deparamos diante de questões de ordem cultural em nosso dia-a-dia. Com frequência ouvimos que conflitos sociais surgem devido às diferenças culturais.

Mas, o que é mesmo cultura? A palavra cultura tem origem latina, vinda do verbo Colere, que significa Cultivar. Isto é, o cuidado que o homem tem com aquilo que a terra lhe produz. Daí o conceito de Agri-cultura como cultura dos campos. Além disto, cultura significa o cuidado e a relação dos homens com os deuses; daí Culto A palavra cultura também adquiriu um significado de cuidado com a própria alma e com a Formação Humana. Por isto que para muitos, cultura significa o grau de conhecimento das ciências e das artes que determinada pessoa possui.

No entanto, antes de adentrarmos na problemática da cultura, retomemos a pergunta originária da reflexão filosófica: o que caracteriza o ser humano? Nesta nossa busca por entender quem é o homem não podemos negar também seu aspecto cultural. Identificar a cultura como aspecto constitutivo da natureza humana é aceitar que o homem se faz organizando uma cultura, ele se torna ser humano na medida que constrói uma “ponte” entre a sua humanidade e a própria natureza.

Muitos historiadores e antropólogos compreendem que o que nos torna verdadeiramente humanos e nos diferencia do mundo natural é a cultura. Segundo esta perspectiva a cultura foi a forma mais primitiva, a primeira manifestação do espírito humano uma vez que ela se constitui fundamentalmente em algo que “conforta” o homem diante da realidade (natureza) que se apresenta a ele de forma assustadora.

Em sentido antropológico, não falamos de cultura, no singular, mas em culturas, no plural, pois a lei, os valores, as crenças, as práticas e instituições variam de formação social para formação social. [1]

Em geral, os ritos, as danças, as festas e crenças revelam que o homem se relaciona com o mundo em que vive criando manifestações artísticas a partir das características geográficas que circundam. Desta forma, veremos que as manifestações culturais de uma comunidade de esquimós é bastante diferentes de uma aldeia de nativos australianos. Seus ritmos, sua culinária, suas festas e crenças se diferenciam na medida em que são resultado do meio em que habitam.

No entanto, há uma profunda identificação entre uma comunidade de esquimós e a aldeia dos nativos australianos, entre índios americanos e comunidades hindus, entre as pessoas que vivem nos aglomerados urbanos das grandes metrópoles e os agricultores da comunidades rurais: cada grupo social cria a cultura como forma de relação com a natureza.

O que é, então, a cultura?

Como resposta a esta questão podemos afirmar que a cultura é um “processo de autoliberação progressiva do homem, o que o caracteriza como um ser de mutação, um ser de projeto, que se faz a medida que transcende a própria existência”[2] ou como “processo pelo qual o homem acumula as experiências que vai sendo capaz de realizar, discerne entre elas, fixa as de efeito favorável e, como resultado da ação exercida, converte em ideias as imagens e lembranças, a princípio coladas às realidades sensíveis, e depois generalizadas, desse contato inventivo com o mundo natural”[3]

Cultura: o conjunto dos modos de vida criados e transmitidos de uma geração para outra, entre membros de determinada sociedade; englo­ba o que pensamos, fazemos e temos enquanto membros de um grupo social; a resposta oferecida pelos grupos humanos ao desafio da existên­cia, resposta que se manifesta em termos de comportamento, conheci­mento e paixão.

A cultura é o que nos faz diferentes do mundo natural. O homem encontra a natureza, estabelece leis e organiza as relações. Este distanciamento da natureza, de certa forma, fragiliza o homem na medida em que passa a perder a harmonia que ele tinha com o mundo natural quando nada mais se apresenta como certo e inquestionável.

No entanto, o que inicialmente parece uma fragilidade, torna-se a capacidade homem produzir a sua própria história, estabelecendo seus valores. Neste sentido, a cultura pode ser compreendida como a “maneira pela qual os seres humanos se humanizam por meio de práticas que criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística.”[4]

Cultura enquanto Relação

O que constitui uma cultura é a relação que o homem estabelece com o outro: Quem é, então, este Outro.

Primeiramente, este outro é a própria 1) natureza. O homem ao nascer depara-se com leis naturais fixas e imutáveis. Diante da sua incapacidade de modificar estas leis ele estabelece uma cultura que o tranquiliza diante do determinismo no qual está envolto. Em seguida, o outro passa a ser os 2) Deuses que podem significar a “ponte” entre o homem e o universo cósmico e expressam o desejo de transcendência do ser humano. Por fim, o outro pode ser o próprio 3) homem, isto é, seu semelhante.

Na medida em que nos relacionamos com os nossos semelhantes, estabelecemos uma cultura, uma relação que pode variar, conforme o contexto onde esta relação vai acontecer. Karl Marx, filósofo do século XIX, considera a cultura como fruto das relações sociais e de produção entre os homens. Assim, o Império Romano produziu um tipo de cultura, o sistema feudal e o capitalismo produziram um tipo de cultura. Segundo ele, assim surgem as classes sociais e a exploração de uns sobre os outros.

Cultura superior x cultura inferior:

“(…)as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.” (Boaventura de Souza Santos)

Se observarmos a nossa realidade, veremos que existem cientistas com um considerável conhecimento sobre questões bastante específicas e pessoas que sequer sabem escrever seu próprio nome.

Veremos, também, que existem pessoas que apreciam ópera e conhecem a estrutura musical das composições de Bach e outras que se contentam em ouvir sons eletrônicos onde a harmonia e o compasso nem sempre são características fundamentais. Além disto, se observarmos a história do Brasil perceberemos que houve um choque cultural no encontro entre os europeus que dominavam a ciência e os nativos que aqui viviam de maneira rudimentar.

Diante do exposto acima, podemos afirmar que existe cultura superior e cultura inferior?

Esta pergunta é importante porque não foram poucas as vezes em que este conceito foi utilizado no decorrer da nossa história. Podemos perceber o “emprego” desta compreensão de cultura na antiguidade, onde os gregos realizaram a chamada Helenização do Ocidente, através da difusão do ideal humano com valores definidos, quem não fosse helênico era considerado um ser culturalmente inferior.

No império Romano os cristãos foram perseguidos e mortos por expressarem valores culturais adversos aos do império. Da mesma maneira, a igreja católica, na idade média, combateu todas as formas diferentes de manifestação cultural que fugissem do esquema teológico-cristão.

Já no mundo moderno, a cultura procurou superar esta compreensão teológica da natureza e passa a acreditar na capacidade humana de compreender a realidade. Desenvolvem-se as artes, a política e as ciências naturais e a idéia de cultura passa a ser a “Cultura da Racionalidade” . Quem estivesse fora da racionalidade moderna era considerado inculto.

Não foram poucos os pensadores que acreditavam que os nativos “descobertos” na América não passavam de animais com características físicas semelhantes a dos humanos, mas sem nenhum traço cultural. Até mesmo o conceito de catequização dos índios, difundido pela igreja, era uma maneira de “inserir os selvagens no mundo ocidental”.

Por fim, em nosso cotidiano com freqüência constatamos o uso do conceito de superioridade cultural, seja nas disputas e conflitos étnicos que eclodiram em várias regiões do planeta no século XX, seja nas relações sociais que acontecem no mundo do trabalho e da nossa convivência.




Entenda como se configurou a identidade étnica no Brasil.

A partir da segunda guerra mundial percebemos como esta questão ainda está bastante presente nos nossos dias. A perseguição e o extermínio de milhares de judeus, fundamentado no conceito de superioridade da raça ariana; o antissemitismo na Europa e nos EUA, os atentados terroristas de 11 de setembro e a guerra entre Israel e Palestina são, além de exemplos alarmantes, um indicativo de que a paz mundial passa, necessariamente pela redefinição do conceito de cultura.

Existem dois tipos de cultura: da sociedade e da comunidade. A cultura da sociedade se impõe sobre a cultura da comunidade. A sociedade pela ideologia fragiliza a cultura das comunidades.

Sobre a charge: Autoria Laerte Coutinho (São Paulo, 1951]. Uma das principais cartunistas brasileiras, Laerte sempre conciliou arte com posicionamento político e crítica social, desenhou para diversos periódicos, criou revistas, publicou livros e escreveu para a televisão. Fonte: Memorial da Democracia


Autor do texto: Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.



Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio. No Nono Ano, Unidade temática Política: Conhecimento e Estética, Objetos de Conhecimento: Temas relacionados à filosofia política (A construção do conceito de cidadania e cultura), Habilidades: analisar e compreender as mudanças de concepções socioculturais e políticas no tempo e no espaço.

Questões para pensar:

1) O que significa cultura de um modo geral?

2) O que a cultura, na sua forma primitiva, trouxe ao homem? Isso lhe fez bem?

3) A cultura faz o homem ser diferente do mundo natural. Essa afirmação é verdadeira ou falsa segundo o texto? Explique.

4) O homem estabelece sua cultura em relação ao “outro”. Quem são os três “outros” personagens que se relacionam com o homem pela cultura?

5) Como podemos perceber a questão da superioridade e inferioridade cultural em nosso cotidiano?

6) Por que você acha que o autor do texto resolveu publicar aquela charge no final da publicação? Como relacionar esta charge com a construção cultural da sociedade brasileira?

7) Escreva alguns exemplos de expressões culturais que você conhece em sua cidade.

8) Monte um quadro comparativo de duas regiões diferentes do Brasil e de um país estrangeiro. Use elementos culturais da música, dança, culinária e outros que descobrir.

9) No vídeo “Diversidade étnica brasileira” (https://youtu.be/Cd8wWgrnjSc?t=3 ), é apresentado um roteiro da história do Brasil. Quais são as características da formação e da identidade étnica brasileira?

[1] CHAUI, Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo, Ática. 1998.

[2] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986, p.5-6

[3] Op. cit. Vieira Pinto, Ciência e Existência, pg. 123 em ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986, p.5

[4] CHAUI, Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo, Ática. 1998.

Indústria cultural e cultura de massa

A modernidade terminou um processo que a Filosofia começara desde a Grécia: o desencantamento do mundo. Isso é, a passagem do mito à razão, da magia à ciência e à lógica. Esse processo liberou as artes da função e finalidade religiosas, dando-lhes autonomia.

No entanto, a partir da segunda revolução industrial no século XIX e prosseguindo no que se denomina agora sociedade pós-industrial ou pós-moderna (iniciada nos anos 70), as artes foram submetidas a uma nova servidão: as regras do mercado capitalista e a ideologia da indústria cultural, baseada na ideia e na prática do consumo de “produtos culturais” fabricados em série. As obras de arte são mercadorias, como tudo o que existe no capitalismo.

Perdida a aura, a arte não se democratizou, massificou-se para consumo rápido no mercado da moda e nos meios de comunicação de massa, transformando-se em propaganda e publicidade, sinal de status social, prestígio político e controle cultural.

Sob os efeitos da massificação da indústria e consumo culturais, as artes correm o risco de perder três de suas principais características:

  1.  de expressivas, tornarem-se reprodutivas e repetitivas;
  2. de trabalho da criação, tornarem-se eventos para consumo;
  3. de experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo consumo.

A arte possui intrinsecamente valor de exposição ou exponibilidade, isto é, existe para ser contemplada e fruída. E essencialmente espetáculo, palavra que vem do latim e significa: dado à visibilidade.

No entanto, sob o controle econômico e ideológico das empresas de produção artística, a arte se transformou em seu oposto: é um evento para tornar invisível a realidade e o próprio trabalho criador das obras. E algo para ser consumido e não para ser conhecido, fruído e superado por novas obras.

As obras de arte e de pensamento poderiam democratizar-se com os novos meios de comunicação, pois todos poderiam, em princípio, ter acesso a elas, conhecê-las, incorporá-las em suas vidas, criticá-las, e os artistas e pensadores poderiam superá-las em outras, novas.




Aprenda o que é cultura, como se manifestam as diversidades culturais e quais são os tipos de cultura mais comuns. Veja ainda como a cultura é estudada pela Antropologia, ciência específica que estuda o ser humano. Quer saber mais sobre o assunto? Brasil Escola Sociologia



A democratização da cultura tem como precondição a ideia de que os bens culturais (no sentido restrito de obras de arte e de pensamento e não no sentido antropológico amplo, que apresentamos no estudo sobre a ideia de Cultura) são direito de todos e não privilégio de alguns. Democracia cultural significa direito de acesso e de fruição das obras culturais, direito à informação e à formação culturais, direito à produção cultural.

Ora, a indústria cultural acarreta o resultado oposto, ao massificar a Cultura. Por quê’?

Em primeiro lugar, porque separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado: há obras “caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas, formando uma elite cultural; e há obras “baratas” e “comuns”, destinadas à massa. Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da produção cultural, a indústria cultural introduz a divisão social entre elite “culta” e massa Inculta”.

O que é a massa? É um agregado sem forma, sem rosto, sem identidade e sem pleno direito à Cultura.

Em segundo lugar, porque cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como o consumidor num supermercado. No entanto, basta darmos atenção aos horários dos programas de rádio e televisão ou ao que é vendido nas bancas de jornais e revistas para vermos que, através dos preços, as empresas de divulgação cultural já selecionaram de antemão o que cada grupo social pode e deve ouvir, ver ou ler.

No caso dos jornais e revistas, por exemplo, a qualidade do papel, a qualidade gráfica de letras e imagens, o tipo de manchete e de matéria publicada definem o consumidor e determinam o conteúdo daquilo a que terá acesso e tipo de informação que poderá receber. Se compararmos, numa manhã, cinco ou seis jornais, perceberemos que o mesmo mundo este no qual todos vivemos transforma-se em cinco ou seis mundos diferentes ou mesmo opostos, pois um mesmo acontecimento recebe cinco ou seis tratamentos diversos, em função do leitor que a empresa jornalística pretende atingir.

Em terceiro lugar, porque inventa uma figura chamada “espectador médio”, “ouvinte médio” e leitor médio”, aos quais são atribuídas certas capacidades mentais “médias”, certos conhecimentos “médios” e certos “gostos médios”, oferecendo-lhes produtos culturais “médios”. Que significa isso?

A indústria cultural vende Cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A “média” é o senso-comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova.

Em quarto lugar, porque define a Cultura como lazer e entretenimento, diversão e distração, de modo que tudo o que nas obras de arte e de pensamento significa trabalho da sensibilidade, da imaginação, da inteligência, da reflexão e da crítica não tem interesse, não “vende”. Massificar é, assim, banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a Cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos.[1]

Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.






Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática Política: Conhecimento e Estética, Objetos de Conhecimento: Temas relacionados à Estética (A indústria cultural e a cultura de massas), Habilidades: debater sobre a importância, possibilidades e limites no envolvimento com ações sociais e políticas.

Questões para pensar:

1) Que tipo de transformação aconteceu com a arte na pós-modernidade?

2) Escreva duas características que podem ser perdidas, pelas artes, com o processo de massificação.

3) O que significa a democratização da cultura?

4) Quais os grandes problemas produzidos pela indústria cultural?

5) Explique o que quer dizer a expressão: “expectador médio”.

6) Como a indústria cultural vende cultura?

7) Você concorda que a cultura deve ser vendida conforme a capacidade econômica de cada classe social? Explique.

8) Assista ao vídeo “O que é Cultura”, do Brasil Escola (https://youtu.be/o2XKjnxYMxk?t=170). Descreva o que você entendeu por cultura a partir deste vídeo.


[1] CHAUI, Marilena. Filosofia: novo Ensino Médio. São Paulo: Ática, 2001, p. 329-330.

Homem e o mundo: duas realidades em confronto

É por meio da linguagem e do trabalho que o Homem dá sentido, conhece e modifica o mundo. Ao falarmos de mundo, pensamos num ambiente ou circunstância na qual o Homem se move, existe e vive, ou seja um lugar que propicia uma vivência.

Mas o que é realmente “mundo”?

Falamos de um “mundo interior do Homem”, referimo-nos ao “mundo das ciências”, ao “mundo físico”, ao “mundo da fantasia”. Costumamos chamar ‘mundo’ o planeta em que habitamos encontramos até a expressão jocosa “no mundo da lua”, aplicada, sobretudo, às pessoas que vivem desligadas da realidade.

O termo ‘mundo’ reveste-se de inúmeras significações.

Na verdade, ao nos referirmos à relação Homem-mundo, podemos fazê-lo em termos de oposição: temos em mente a presença do Homem diante de uma realidade que de uma certa maneira lhe é exterior. Mas importa acrescentar logo que, em vez de se opor, o Homem entra imediatamente em contato com ela. Ao viver, o ser humano se descobre cercado por algo diferente dele, uma realidade independente. Ele encontra a resistência e a opacidade dessa realidade externa, incógnita, plena de provocações à sua inteligência, sua sensibilidade, sua curiosidade, sua capacidade física.

Mundo: realidade exterior ao Homem. Desperta sua curiosidade e provoca suas capacidades.

O mundo com que entramos em contato apresenta-nos duas dimensões determinadas. A primeira delas é a natureza. O Homem enfrenta o mundo natural, que lhe é dado. O mundo natural desenvolve-se segundo leis fixas, independente de uma intervenção humana. O mundo vai, aos poucos, se humanizando ao contato com o homem e então achamo-nos em face de uma segunda dimensão, que merece de nós um estudo mais pormenorizado: o mundo da cultura.




O ser humano destaca-se dos outros animais. Em sua existência, não se limita a aceitar o mundo natural que o rodeia, mas o modifica, construindo a civilização. Diferenças entre seres humanos e animais.



Duas dimensões do mundo: natureza e cultura.

Entre outras coisas, a cultura pode ser considerada como resultado do esforço do homem frente à resistência que ele encontra no mundo exterior. É a resposta que o homem oferece ao desafio daquela realidade (o mundo) à primeira vista estranha e até mesma hostil. Não é nossa intenção, entretanto, apresentar natureza e cultura como elementos contrários.

A cultura se apresenta, pelo menos em um certo momento, como uma expansão da natureza, uma acréscimo a aquilo que existe em estado natural. Análoga à “cultura dos campos” ao ato de “cultivar” a terra, e toda atividade cultural do homem em outras áreas. O agricultor, por exemplo, a contribuir com seu trabalho para o desenvolvimento e aprimoramento dos solos e das plantas, está fazendo cultura.

Natureza e cultura não se opõe, apenas se distinguem. A cultura é expansão, aprimoramento do aspecto natural do mundo.

Quando falamos em cultura, queremos mostrar que o homem, esta criatura que se caracteriza por um afã de conhecimento e de perfeição, não se contenta com o mundo em seu aspecto natural. Respondendo a um apelo interior de criatividade, ele se organizava no sentido de transformar o mundo. A fisionomia do mundo (=cosmos) vai se modificando à medida que nele se imprimem a marca da atividade humana, os traços de uma nova ordem, uma nova harmonia. Veja mais aqui.

Autor do texto: Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.





Sugestão de uma atividade pedagógica – Disciplina Filosofia

Questões para pensar:

1) Como o homem conhece e modifica o mundo?

2) Explique o que entende pela expressão “mundo”.

3) O mundo natural e o cultural são elementos contrários? Explique.

4) Faça uma pesquisa sobre elementos da cultura da violência e democracia cultural.

5)No vídeo que segue, também publicado no texto, (https://youtu.be/P7bYpdgtvfU?t=142 ), o autor trabalha as diferenças entre os seres humanos e os demais animais. O ser humano desenvolve linguagem, trabalho e arte. Faça um breve resumo do que você entendeu do vídeo.

O Brasil é um país laico?

Em um contexto de país laico, as instituições públicas
e democráticas não devem privilegiar uma
instituição religiosa em detrimento da outra.


A pergunta no título desta coluna é muito sugestivo e polêmico ao mesmo tempo. Alguns pesquisadores dizem que o Brasil pouco avançou no debate sobre a liberdade religiosa, outros estudiosos dizem que o Brasil nunca foi uma nação que respeitasse a escolha de ter ou não uma religião. O tema carece de explicações para entendermos este fenômeno atual e importante na vida do brasileiro.

A laicidade consiste no respeito a escolha de ter ou não uma religião. As escolhas da relação com o sagrado são de fórum íntimo. Ou seja, cabe as pessoas a decisão de quererem ou não praticarem alguma religião ou religiosidade em seu âmbito privado. O particular é o local do exercício da fé. Fé esta que ajuda o sujeito a enfrentar as adversidades da vida cotidiana. Fé que auxilia no conforto emocional nos momentos de tristeza e também em outras áreas da vida humana.

O ser humano é um ser que tem necessidades do contato com o sagrado.

O contato com o sobrenatural não é feito de uma única forma. São inúmeras expressões religiosas que coexistem atualmente: Igreja Católica, Igrejas Evangélicas, Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Adventistas, Santo Daime, União do Vegetal, Judaísmo, Vale do Amanhecer, Racionalismo Cristão, Paganismo, Budismo, Igreja Messiânica, Seicho-No-Ie, Fé Bahai, dentre outras propostas. Por serem diversas não podem ser hierarquizadas. Obrigatoriamente, devem ser tratadas de forma igual por parte da sociedade.

Em um contexto de país laico, as instituições públicas e democráticas não devem privilegiar uma instituição religiosa em detrimento da outra. O Estado obrigatoriamente deve ser neutro em matéria de religiosidade. As autoridades públicas não devem impor e nem bloquear o exercício de culto. Isto é constitucional.




Conheça as diferentes formas do Estado se relacionar com a religião no Brasil e no mundo.



Repito: O Brasil não tem uma religião oficial. As decisões políticas e administrativas dos serviços públicos devem ser baseadas nos princípios constitucionais e dos regimento dos seus órgãos e não a partir dos fundamentos religiosos de alguma instituição religiosa, crença ou filosofia de vida.

Em um país democrático como o Brasil, a laicidade precisa ser pauta de políticas públicas. São necessárias ações para o combate as formas de intolerância religiosa e racismo religioso. Promover a boa harmonia de convivência entre os grupos religiosos. Estimular a criação de comitês nos estados, municípios e no distrito federal com o tema pela preservação e defesa da diversidade religiosa. Acionar o Ministério Público quando ocorrer proselitismo religioso ou intolerância religiosa ou racismo religioso nas repartições públicas. A defesa da laicidade deve ser uma das pautas prioritárias.

Esta realidade que apresentamos acima não condiz com a realidade em que vivemos. Há aumento do número de casos de intolerância religiosa no Brasil.

De uma forma ou de outra todas as confissões religiosas, espiritualidades, crenças, filosofias de vida e ateus sofrem por suas escolhas ou não ter escolha no exercício na relação com o sagrado.

Não raros os momentos, lemos nos jornais que Igrejas Católicas são invadidas e seus santos são quebrados. Igrejas Evangélicas possui bíblias queimadas e são criticados pela sua postura rígida sobre pautas de costumes. Maçons são acusados de terem pacto com o Diabo. O espiritismo e as religiões de matriz africanas são associados com demônios. Os adeptos do uso da substância da ayahuasca são acusados de estimulares o uso das drogas. Curandeiros e benzedeiros são vistos como feiticeiros ou charlatões. Adeptos do paganismo são vistos como bruxos com pacto com o diabo, e os ateus, por não terem religião, é comum dizer que são pessoas ruins por não acreditarem em Deus.

Sem sombra de dúvidas, o grupo religioso que mais sofre intolerância religiosa são as religiões de matriz africana. A situação mais dramática é no Rio de Janeiro. Os terreiros são invadidos por outros segmentos cristãos e suas imagens são quebradas, outros acessórios são queimados e alguns líderes até mortos ou espancados. Andar na rua de branco as sextas pode acontecer de algum radical religioso promover alguma forma de violência contra o afro religioso.

O fenômeno dos traficantes evangélicos é algo assustador. Como sabemos os evangélicos cresceram muito nos últimos anos. Há quem diga que daqui no máximo 30 anos seremos maioria de adeptos evangélicos.

A maioria da população pobre do Estado do Rio de Janeiro mora nas favelas ou outros locais de baixo saneamento básico e são identificados com os valores evangélicos. Nestes locais moram traficantes que diariamente praticam o tráfico de drogas. Os terreiros de umbanda e candomblé a mando dos traficantes invadem os templo das religiões de matriz africana e quebram tudo o que tem por lá e ainda matam o pai ou mãe de santo. Alegação que as religiões de inspiração na cosmovisão africana são demoníacas, patológicas, desviantes e erradas. Na visão destes traficantes, é vontade de Deus que os umbandistas e candomblés sejam convertidos ou combatidos.

No Estado do Amapá, as práticas de intolerância religiosa tem crescido. Nos últimos anos, tivemos situações vexatórias. Em julho de 2019 em terreiro de Pai Salvino, as atividades religiosas e sociais são desenvolvidas no bairro das Pedrinhas, durante a festa do glorioso São João um grupo de religiosos iniciaram atitudes que podem ser caracterizadas como intolerantes. Quem estava no local disserta que religiosos jogavam pedras no telhado do templo, faziam orações efusivas para que os demônios saíssem de lá, usavam caixas de som e cânticos altíssimos para atrapalhar as atividades. Tentativa clara de proselitismo religioso e desrespeito ao exercício religioso em culto privado do outro.

O Brasil historicamente avançou, em parte, na liberdade religiosa. Não temos mais uma religião oficial. As pessoas em suas casas possuem certa autonomia para praticarem ou não uma religião ou espiritualidade. Mas, ao olharmos as questões públicas não é bem assim. As decisões políticas beneficiam católicos e evangélicos. Exemplos: partidos confessionais, bancadas religiosas, concessão de rádio e tv, feriados religiosos, financiamento público em projetos religiosos, dentre outras situações. Esperamos que a situação supracitada modifique, com a atuação de todos nós, a favor da liberdade religiosa.

Conheça este material audiovisual sobre Intolerância e fé no Brasil.

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Líder do Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade (CEPRES-UNIFAP/CNPq).


Publicado originalmente em Jornal GGN




Sugestões de uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a turmas de Nono Ano do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Nos Nonos Anos do Ensino Fundamental, Unidade Temática: Crenças e filosofias de vida, Objeto de Conhecimento: Princípios e valores éticos, Habilidades: Reconhecer e apropriar-se de valores éticos, morais e religiosos que contribuem para a erradicação de discursos de ódio e práticas de violência.

Questões para aprofundar conhecimentos:

  1. Você entendeu a importância do Estado Brasileiro ser laico? Escreva sua justificativa.
  • O autor do texto fala da diversidade religiosa e de algumas dificuldades na convivência harmoniosa entre as religiões. Recupere os principais conflitos entre diferentes religiões no Brasil.
  • Neste vídeo, cujo link é https://youtu.be/Nexa8DtttnE?t=3 são apresentadas as diferentes formas dos Estados/Nações na relação com as religiões. Apresente um breve resumo dos conteúdos do vídeo.
  • Que valores éticos e morais deveríamos viver mais no Brasil para alcançarmos um ambiente mais respeitoso e fraterno entre as diferentes religiões?

Perdoe-nos, PALAVRA!

Como nos falta consciência do poder das palavras!
Entramos no terceiro milênio sob o poder,
mesmo que debilitado, da palavra.


Lá em casa ninguém adormecia sem a bênção dos pais. Também pedíamos a bênção para tios, avós e padrinhos. Todos acreditávamos no poder da palavra do outro, principalmente de alguém mais velho ou ligado a nós por laços afetivos ou sanguíneos para bendizer ou amaldiçoar. Esta tradição, hoje um pouco esquecida, deságua no caudal humano do poder da fala chamando à existência as coisas que diz.       

O povo judeu do Antigo Testamento tinha tal reverência pela palavra, que o nome de Deus praticamente não era verbalizado e, como se escrevia sem vogais, não se sabe exatamente como se o pronunciava. O dizer humano era limitado para expressar aquele nome, enquanto a Palavra de YHWH realizava exatamente o seu conteúdo. Lembra, “…então Deus disse: – Faça-se a luz, e a luz foi feita.”?     

Para os gregos, o “logos” (palavra) era o princípio ordenador do “caos”.  

O Evangelho de João começa anunciando que a Palavra – aquela proclamada como verdade pelos profetas – se fez homem e armou sua tenda entre nós. A palavra “tenda”, usada pelo evangelista, evoca o caráter dinâmico, itinerante e nômade da verdade, sempre esguia ao cárcere avassalador das formas.

Esta reverência é sublinhada além do mundo judaico-cristão. Entre os maias havia um deus especial para as palavras.    

Entramos no terceiro milênio sob o poder, mesmo que debilitado, da palavra. O endeusamento da imagem ainda não conseguiu sobrepor-se a ela, felizmente.           

Nunca houve no mundo tantos dizeres, tantos discursos, tantas coisas ditas como salvação ou como ameaça. Maltratada ou respeitada, profanada ou sacralizada, amada ou estuprada, a Palavra, misteriosa e miserável, na forma de larva e pá que lavra ou abre a vala à semente, sobrevive enlouquecida na ascendente Babel da atualidade.

Mentiras e verdades na imprensa, livros descartáveis, publicidade e disfarces, falas e letras de músicas no rádio, na televisão, no cinema, ao telefone, na internet… Palavras gritadas nos protestos à luz do sol ou sussurradas nas penumbras do amor, pichadas em letras monstruosas nos muros da cidade ou ínfimas e desajeitadas nas garatujas das crianças, ei-las entre nós.

Como disse Gabriel Garcia Marques, a quem parafraseio, o grande derrotado é o silêncio, nunca a Palavra.

O maior problema é que “as coisas têm agora tantos nomes em tantas línguas que já não é fácil saber como se chamam em nenhuma. Sem madrinha, os idiomas se dispersam, se misturam, se confundem, disparados ao destino inevitável de uma linguagem global”, continua o escritor.




“Diz-se que a boca fala daquilo que o coração está cheio. Humanizamos pela palavra e, por meio dela, defendemos o direito do ser humano na sua integralidade, a fim de que o espaço da dignidade não seja extorquido de nenhum cidadão. Em uma de suas composições, Renato Russo registrou, de forma contundente: “palavras cortam mais do que as facas. Elas não perfuram a pele, rasgam a alma”. (Acedriana Vicente Vogel)
Veja mais aqui.



Como nos falta consciência do poder das palavras! Se o respeitássemos, jamais amaldiçoaríamos, mas secaríamos a boca de tanto abençoar; falaríamos mais do amor e menos da vingança; pronunciaríamos mais vocábulos dos sonhos e menos das saudades; escreveríamos mais poemas e menos declarações de guerra; teríamos mais listas de alimentos e menos de armamentos.            

Ah, se os políticos soubessem o poder das palavras,     se os jornalistas acreditassem na força do que escrevem, se os escritores imaginassem como cortam sua carne ao escrevê-las!

Engasgado com tantas profanações da Palavra, de silogismos sofistas, depois de um dia inteiro testemunhando seu desacato em tão inimagináveis e indeclaráveis modos, como eu gostaria de ouvir uma palavra de bênção do pai para o filho, do avô para o neto, do tio para o sobrinho, do padrinho para o afilhado! Quem sabe isto apaziguaria a ira do Deus das Palavras.

Nestes tempos, parafraseando João, o evangelista, eu escreveria: “O caos no princípio havido, antes de Deus colocar ordem nas coisas, se fez homem e construiu uma casa de concreto entre nós.” Vestida em pele de cordeiro, a palavra-lobo conseguiu seduzir os senhores do dito e do não dito. Acreditando neles, esquecemos o poder ordenador da Palavra quando pronunciada com reverência.            

Alguém por aí vive falando “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, mas defende os sites de fake news como liberdade de expressão. Tempos falaciosos.

Perdoe-nos, Palavra!




“Acredito muito nas palavras como forma de humanização”. (Nei Alberto Pies)

Os ataques à dignidade da educação estadual têm que cessar

Esse momento de suspensão das aulas vai ampliar o abismo da educação pública em relação às condições privadas por si só, imaginem numa situação de degradação e desinvestimento em curso que atinge as condições, os insumos e a vida dos e das trabalhadoras da educação estadual.


Nunca ficou tão evidente a importância da escola, dos e das educadoras, do cotidiano escolar, de suas aulas, da socialização que proporcionam e da alimentação que alivia a demanda nas famílias, como no isolamento determinado pela pandemia do coronavírus. São milhões de crianças, adolescentes e jovens sem rotina escolar e muitas vezes sem condições materiais de estudos em casa, desafiando todos nós a repensar a educação, seu papel e sua implantação.

A pandemia também desnuda a precariedade das estruturas escolares, pois que, para responder ao desafio de um apoio de educação complementar domiciliar, descobre-se desconectada virtualmente, sem profissionais de biblioteca para fomentar leituras,  sem livros didáticos suficientes para cada aluno, sem professores que pessoalmente estejam dotados de bons computadores e boa conexão, e sofrem muito para fazer chegar às famílias das suas e seus estudantes, muitas com menos condições ainda, programas de aula, apoios didático-pedagógicos.

O governo do Rio Grande do Sul tateia no planejamento desse momento, na proposição de suportes, no rápido suprimento dessas lacunas, nas alternativas que possam mobilizar os meios para isso acontecer. Mas, de outro lado, dedica-se às duras medidas para a implantação do novo plano de carreira, das novas alíquotas de previdência e novo estatuto do funcionalismo público estadual. Não tinha ainda terminado de descontar todos os dias de greve dos profissionais da educação, mesmo eles tendo recuperado cada dia em janeiro desse ano – e como foram preciosos!- e já emendou novos descontos provenientes daquelas novas leis.

Esse momento de suspensão das aulas vai ampliar o abismo da educação pública em relação às condições privadas por si só, imaginem numa situação de degradação e desinvestimento em curso que atinge as condições, os insumos e a vida dos e das trabalhadoras da educação estadual!

“Incrivelmente cruel” é a exclamação de uma diretora de escola, ao verificar seu contracheque desse abril. Dessa professora absolutamente dedicada, que testemunho a luta e trabalho qualificado, faço minhas as palavras, acrescentando a dimensão política dessa expressão: o modelo de gestão do governo Leite que propugna e realiza a redução do estado, a diminuição do investimento em educação, é cruel com o direito a ela. Nega esse direito.

Não podemos ser coniventes com isso. É ilegal, é imoral, é desumano.

A inteligência artificial e as políticas públicas

A instrumentalização da
inteligência artificial, não é algo
privado ou individual, envolve a
coletividade e por isso supõe
políticas públicas de renda básica,
com interações justas, dos seres humanos
entre si e com a natureza.


O desenvolvimento humano, marcado pela evolução tecnológica, tem a seu dispor a inteligência artificial, uma ferramenta que está com seu uso em expansão.

Trata-se de um conjunto de recursos sofisticados, com níveis diferenciados em suas potencialidades e em seus usos.  Para um entendimento introdutório, podemos identificar três esferas de atuação que são a filosófica/moral, a científica/tecnológica e a social/política. Na esfera social estão incluídas as políticas públicas, na científica se inclui a construção de alternativas para o bem estar humano e na filosófica estão os questionamentos sobre o moralidade e o justo uso da mesma.

Nas definições do que incluem políticas públicas podem ser destacadas as intervenções institucionais, que visam assegurar o bem estar físico e mental para a totalidade das pessoas. Esta caracterização preliminar se apresenta como objeto de disputas conceituais diante do caracterização destas instituições como públicas ou privadas, incluindo um aspecto elementar condicionante ao bem estar das pessoas, que é uma renda básica universal.




O que são políticas públicas?




Considerando a realidade em que nos encontramos,  evidencia-se a inexistência de trabalho que gere renda para a totalidade das pessoas, as políticas públicas para solucionar este problema, se apresentam como indispensáveis.

Na história recente da humanidade, o bem estar foi impactado pela industrialização e pela urbanização. A industrialização aumentou a produtividade substituindo o trabalho humano e a urbanização gerou novos serviços. Nas últimas décadas, o impacto está vinculado com a expansão e automação dos processos produtivos, sejam eles de bens materiais para o consumo ou serviços como o comércio e o lazer.

As responsabilidades sociais de manutenção dos trabalhos remunerados podem ser elencadas como uma das razões no retardamento da automação de alguns processos, como por exemplo, o trabalho dos/as cobradores/as pelo serviço de transporte urbano. Paralelamente ao contexto de mudança na configuração dos trabalhos decorrentes da expansão na automação e na inteligência artificial, as pessoas são individualmente responsabilizadas pela geração da renda necessária para a própria sobrevivência.

Diante do contexto, a inteligência artificial dotou a humanidade de condições para produzir o básico para todos e a maioria não tem acesso, emerge a necessidade moral de normatizar meios para a sua universalização.

As narrativas centradas na responsabilidade privada e individualista perdem força, na medida que um problema que envolve a coletividade das pessoas.

Neste caso as alternativas incluem uma mudança de narrativa, incluindo, instrumentalização da inteligência artificial, não como algo privado ou individual, mas que supõem, políticas públicas de renda básica, com interações justas, dos seres humanos entre si e com a natureza.




“A construção de uma transformação profunda que pode possibilitar a evolução da humanidade, está vinculada com a substituição dos valores individualistas, egocêntricos e antropocêntricos por valores alicerçados na solidariedade, na imaterialidade, na evolução espiritual, na reconexão dos seres humanos entre si e com a natureza”.

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