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A faceta autoritária do neoliberalismo

Até quando o país vai tolerar esta
série de ameaças à ordem constitucional?
É preciso entender que não se constrói o futuro
com experiências fracassadas do passado.


Completaram-se 51 anos da outorga do famigerado e ignóbil AI-5 por Costa e Silva, medida que permitiu a ditadura fechar o Congresso, cassar parlamentares e juízes do STF e abolir garantias individuais, entre elas o habeas corpus.

O AI-5 que vigorou até 1978, abriu uma temporada obscura de perseguições, torturas e mortes e permitiu ao governo militar implementar, sem sustos, uma política econômica impopular e concentradora de renda.

Mais de meio século depois, eis que as viúvas da ditadura reaparecem defendendo a possibilidade de um novo AI-5. A obsessão da família Bolsonaro por saídas autoritárias é por demais conhecida. Um dos rebentos do clã, Eduardo, foi o primeiro a acenar com tal insanidade.

O pai presidente, ao saber do fato, comentou que era apenas um “sonho” do filho. Na verdade, um pesadelo. O AI-5 é incompatível com a democracia. “Sonho” só se for para o clã Bolsonaro e seus alucinados seguidores da extrema-direita.

Agora, extrapolando todos os limites aceitáveis, o “liberal” ministro Paulo Guedes trouxe novamente à pauta a possibilidade de um novo AI-5. O inusitado é que tais liberais acham isto perfeitamente normal, num deboche a Locke e Adam Smith.

É bem verdade que Guedes serviu a um dos mais violentos regimes ditatoriais do continente, o de Pinochet no Chile.

Em 2018, em entrevista à revista Piauí, o nosso Chicago Boy afirmou que o fato de a ditadura chilena ter deixado 40 mil vítimas, entre torturados, assassinados, e desaparecidos, era “irrelevante do ponto de vista intelectual”. Uau!!

Delírios como os de Guedes fazem parte da fase autoritária que vive o neoliberalismo no mundo atualmente, a exigir líderes linha-dura para seguir o receituário que há 40 anos deixa rico mais rico e pobre sem futuro.

Guedes, segundo renomados economistas, seria a expressão dessa fase, por ser dono de um autoritarismo econômico e de mercado. Na sua visão, é preciso autoritarismo político: sem repressão o mercado não funciona.

Assim, não surpreende a ameaça do ministro que tem uma evidente identificação com o presidente a quem serve, notadamente, na veia autoritária. Não é à toa que ambos se inspiram em Augusto Pinochet.

Meus assustados botões indagaram: até quando o país vai tolerar esta série de ameaças à ordem constitucional? É preciso entender que não se constrói o futuro com experiências fracassadas do passado.



“O neoliberalismo já não necessita fazer concessões ao Estado de bem-estar social, pois desapareceu a ameaça comunista. Já não precisa posar de democrata. Agora, a imposição de um único modelo econômico deve se coadunar com a imposição de um único modelo político, o autoritário, de modo a favorecer a acumulação do capital e conter a insatisfação de amplos setores da população sem direito aos bens essenciais à vida digna”. (Frei Betto)
http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/2019/09/14/frei-betto-face-autoritaria-do-neoliberalismo/

Solidariedade aos professores e professoras do RS

Os profissionais da educação precisam
comer, vestir, morar e pagar seus
encargos financeiros.
Precisam viver com dignidade.

A educação é importante e os professores também. 

Acompanhamos a reação da sociedade ao projeto publicado pelo Governo do Estado em relação aos funcionários públicos, atingindo de forma mais direta os profissionais da educação.

Neste caso, tomemos o cuidado de não analisar a questão de forma isolada ou a partir de interesses particulares.

O Brasil tem se caracterizado pelo desleixo em relação à educação, sobretudo de parte do Governo Federal. Algumas iniciativas pontuais não têm sido suficientes para suprir o déficit histórico.

Para agravar a situação, no ano de 2016 foi aprovada a PEC 95 que autorizou o limite de gastos do governo e esta lei também atingiu os gastos com educação.

O atual chefe do Ministério da Educação tem se protagonizado mais por revelar disparates e preconceitos divulgados em redes sociais do que por apresentar projetos consistentes voltados ao ensino. É o cenário atual da educação no Brasil.



Para a ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), a fim de justificar a diminuição dos gastos com as Humanidades, o ministro fez uma fala inconsistente e desrespeitosa, que demonstra inaceitável desconhecimento da área.

Estas dissonâncias repercutem nos níveis de aprendizado dos alunos do ensino fundamental e médio e interferem também na qualidade do trabalho nas universidades.

Os governantes ainda não estão convencidos da necessidade de investimento na educação. Seria um investimento que abriria caminhos promissores para o Brasil. Um jovem bem formado em todas as dimensões é riqueza imensurável.

O investimento favorece não só o jovem, mas a nação. Não é um gasto sem sentido, que não dá retorno. O investimento abre caminhos, sugere outros processos, dá retorno. Os valores não se perdem, mas se transformam em oportunidades. 

No caso do nosso estado (RS), vê-se a continuidade do parcelamento salarial que também atinge os profissionais da educação. É muito difícil um profissional trabalhar com zelo e equilíbrio emocional, ganhando pouco ou com salário atrasado.



É um grito de socorro para salvar a escola pública e os sonhos de milhões de gaúchos que dependem de uma educação gratuita e de qualidade. Resistimos para não deixar de existir. (Helenir Oliveira, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato)

Os profissionais da educação precisam comer, vestir, morar e pagar seus encargos financeiros. Precisam viver com dignidade. Quem é assalariado sabe o que significa a falta de dinheiro no final do mês. 

Sejamos solidários aos professores nas suas ações para salvaguardar direitos. Compreendamos a importância da educação para o futuro de um país. Uma boa educação se estrutura com profissionais respeitados e valorizados pelo que fazem. 



Programa Educação e Debate, do CMP SINDICATO, entrevista dirigente do CPERS Passo Fundo, Ricardo Germani, sobre motivações da greve estadual do magistério.


Comissão de Direitos Humanos Celebra 35 anos

A Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF) celebrou os 35 anos de sua criação, no dia 30 de novembro, com um jantar por adesão. O encontro foi realizado no salão da Comunidade da Lucas Araújo, em Passo Fundo, RS. Participaram lideranças de organizações populares com as quais a CDHPF mantém relação, além de lideranças sociais e políticas.


A CDHPF foi fundada em 05 de junho de 1984 por um grupo de cidadãos e cidadãs passo-fundenses. Na Ata de Fundação se encontram os objetivos que orientam a entidade ao longo de seus anos de atuação. São os seguintes: “promover e defender os direitos de pessoas, famílias e organizações e assessorar a organização popular na defesa de seus direitos”.

A memória dos 35 anos de atuação resultou na construção de um mosaico com reportagens, fotos, publicações, bandeiras e símbolos que marcaram a caminhada.

Na abertura do encontro foi realizada uma celebração na qual se afirmou que “A Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo é obra com muitas marcas e que marcou vidas e demarcou posições ao longo de 35 anos. Foram dias de engajamento e de responsabilidade com a promoção dos direitos humanos que exigiram a denúncia de situações de violação e de sujeitos/as violados/as e violentados/as, a presença na organização e luta de grupos, movimentos, organizações, a formação de alianças e parcerias, a realização de diálogos e construções conjuntas, mas também o enfrentamento, a pressão e a recusa a aceitar práticas e políticas desumanizantes”.

“Os anos que se foram só fazem sentido porque nos reunimos para dizer que seguiremos juntos em novos anos, para novas empreitadas, para novos passos. Este cenário que montamos juntos é uma pequena representação do que foram as ações, os processos e as pessoas que fizeram e fazem a CDHPF”.

Cada participante levou para casa sementes de girassol, significando o compromisso com a luta pelos direitos humanos. O compromisso em multiplicar e ampliar esta luta. Esta simbologia diz que, como o girassol, “No chão (terra) fincam-se as raízes, daí vem o alimento, dele a sustentação. Conhecer a fundo a realidade e imergir nela é fundamental para atuação em direitos humanos. Ninguém luta por direitos humanos se não estiver profundamente enraizado e bem nutrido pela Mãe Terra natural, dela vêm o sustento para “ficar de pé”, erguer a cabeça, sustentar o corpo, para fitar o horizonte (sol).

Temos projeto, temos causas. O desejo do infinito, do impossível, nos faz enfrentar todas as situações de morte, de violência e de vitimização, de violação de direitos e desumanização de sujeitos/as. A utopia serve para isso, dizia Iturri, para seguir caminhando, já que se um passo dou em direção a ela, um passo ela se distancia de mim. E se é para caminhar, então o caminho (girar), exige método, construção coletiva, compromisso, para manter vivas as organizações e as pessoas para dar-se as mãos e não soltá-las, para saber-se singular na pluralidade, para fazer-se mais com os outros e as outras, para direitoshumanizar a tudo e a todas e todos”.


A coordenação geral da CDHPF agradece a cada uma e a cada um dos associados e das associadas que juntos, ao longo destes 35 anos, vêm fazendo realidade a luta por direitos humanos. Também agradeceu às alianças e parcerias e a todos que apoiam a atuação. Também agradeceu pelas críticas daqueles que dizem não gostar dos direitos humanos, pois também desafiam a seguir construindo.



Paulo César Carbonari, atual Coordenador Geral da Comissão, é militante de atuação conhecida e reconhecida em todo Brasil. Desde muito jovem, ainda cursando filosofia, engajou-se na Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF) e nunca mais parou de atuar na defesa e promoção dos direitos humanos. Além de sua atuação local, assessora movimentos populares, cooperativas de crédito, ONGs em diferentes estados brasileiros.

Economia circular

O desafio maior, num mundo marcado pela
escassez de matérias e energia, é popularizar a ideia
de que nada precisa ser descartado;
afinal, tudo pode ser reaproveitado.

Jamais deixar resíduos durante a fabricação de um produto ou mesmo depois de fabricado. Se não for possível reciclar, faz-se necessário inventar um modo de reutilizá-lo ou transformá-lo em algo útil, de tal maneira que, na medida do possível, e usando toda a criatividade imaginável, nada se perde, tudo se aproveita, nada se descarta, tudo vira algo útil.

Esse é o objetivo da “economia circular”, modelo pelo qual, essencialmente e num breve resumo, tenta aproveitar todos os insumos utilizados na fabricação de um produto, sem produzir lixo.

A ideia nasceu da percepção de Ellen MacArthur. Por esse método, não existe desperdício – diferente, portanto, do método de reciclagem. Para difundir sua ideia junto à empresas, universidades, governos e ONGs, Ellen MacArthur criou uma Fundação que leva seu nome.

O exemplo da Renault

            A fabricante de carros francesa Renault, em parceira com a Fundação Ellen MacArthur criou uma fórmula pela qual reaproveita 85% da estrutura de automóveis velhos ou danificados na fabricação de novos modelos, segundo reportagem publicada por Veja (ed. 2462 – 27/jan/2016, p.86).

            O exemplo da Renault está dividido em três etapas: 1) Descontaminação – Nessa etapa, são preservadas 10% da estrutura do carro, após peças como baterias e catalisadores, além de acionadores de air bags passarem por todo o processo de descontaminação, uma vez que determinadas peças contém elementos tóxicos; 2) Remoção – espumas das poltronas, vidros e revestimentos de metal do painel – num total estimado de 5% – são reaproveitados em outros componentes; 3) Britagem – cerca de 70% das peças de metal, como a lataria, após processo de separação e fragmentação, são reprocessadas, transformando-se em novas peças.

O ganho financeiro

            Ainda de acordo com a citada reportagem, os ganhos financeiros com a adoção da “economia circular” são significativos. Relatório produzido pela consultoria McKinsey & Company, em parceria com o FEM (Fórum Econômico Mundial), apontam que a adoção desse estilo de “desperdício zero” pode gerar economia de 380 bilhões de dólares para a iniciativa privada no momento inicial da transição da economia linear (a atual, baseada no descarte) para a economia circular.

Uma vez adotada de forma ampla, os cortes chegariam a 600 bilhões de dólares. Fora isso, a demanda por mão de obra para as fábricas que adotarem o princípio da “economia circular” faria com que surgissem, somente na Europa, 1 milhão de empregos.

            O desafio maior, diante da necessidade suprema de implantação da “economia circular”, num mundo marcado pela escassez de matérias e energia, é popularizar a ideia de que nada precisa ser descartado; afinal, tudo pode ser reaproveitado.

Em outra publicação, também afirmamos que: “… é preciso dizer algo mais: transformar a economia dos homens significa, sem fazer uso de palavras vazias, propor a radical mudança do ritmo frenético de produção e consumo globais e, a partir disso, reconstruir o metabolismo ser humano-natureza, buscando igualmente reconstruir a própria economia de produção”.

O pivô da separação

Em tempos tão obscuros como o que vivemos,
sorrir é uma afronta, uma negação e um ato revolucionário
contra um mundo que convida à tristeza a todo tempo.
Vamos resistir sorrindo.

Se o assunto for samba, meu oráculo é a Ilona. A garota sabe as letras de todas as músicas, quem as gravou e, quase sempre, o nome do disco. Quando não conhecia um samba entoado numa roda – coisa rara – era capaz até de adivinhar o compositor:

– Com essa linha melódica só pode ser do Wilson Moreira – dizia ela e quando conferíamos era batata.

Ilona respirava samba. Segunda-feira se revezava entre o samba do trabalhador e a Pedra do Sal. Na terça-feira ia para o Beco do Rato, quarta esforçava-se na oficina de percussão de que tanto gostava, a quinta terminava nos sambas da Praça Tiradentes. Sexta a laje do Santa Luzia era templo a ser visitado. Sábado e domingo não tinham destino certo. Os sambas do Chapéu, Cabeça Branca, Terreiro de Crioula, Buraco do Galo, Serrinha, ou o da feira da Glória podiam ser visitados.

Tudo isso para chegar ao fato e ao lugar que realmente interessam. Estávamos ali na Praça Tiradentes, quando o Fernando Procópio mandou uma letra dele e do Tinho Brito sobre as diversas formas de amar:

“Eu vos declaro marido e marido
Eu vos declaro mulher e mulher
Hoje a união tem um novo sentido
Tudo é permitido, casar quem quiser…”

Do outro lado da roda, um desconhecido – nem tão desconhecido assim, já que encontrávamos com ele em vários lugares na boemia carioca – entoava toda a canção com uma emoção comovente. Ilona, feminista e defensora de todas as formas de amor, que já tinha uma paixão platônica pelo desconhecido, não conseguiu tirar os olhos dele e logo decretou com toda a segurança de uma mulher:

– Hoje eu já sei quem eu vou levar para casa!

Dito e feito. Hidelgardo não teve nem chances para resistir aos encantos dela. Em pouco tempo, eles já haviam trocado vários beijos e a determinada levou-o para casa.

O romance foi engrenando. As ficadas aleatórias com encontros fortuitos foram ganhando caminho para combinações cada vez mais frequentes. Cinemas, praias, jantares eram vividos com a força que a paixão merece, porém o samba, elo fundamental entre ambos, continuava sendo o programa favorito.


Lembro-me bem da cara de apaixonada de Ilona no Beco do Rato ao ver Daniel Rozadas cantando e seu novo amor utilizando-se da letra para se declarar:

” Pra que a gente aproveite ainda mais
E mais desse sabor
Pra que a gente aceite que a paz
Enfim nos encontrou
E quem acha que é cedo demais
Nunca se apaixonou
Chame de loucura ou do que quiser
Eu prefiro amor…”.

O romance parecia descambar para um namoro e eu fazia gosto, porém percebi que algo não estava bem, quando Ilona apareceu lá em casa de surpresa. Insisti para saber o motivo do rosto fechado e ela cedeu:

– É que ontem aconteceu um acidente.

Explicou que, no meio de um beijo maravilhoso, um implante dentário, vulgo pivô, de Hildegardo se soltou e ela acabou engolindo:

– Fiquei entalada! Quase sufoco. Pior que foi um dente da frente. O coitado nem vai poder sair de casa.

Falou do constrangimento do rapaz, que logo pediu para ir embora da casa dela, ainda que minha amiga tentasse tranquilizá-lo. Argumentava que a cena, apesar de bizarra, não mudara nada o que sentia, mas que Hidelgardo passou o dia sem nem mandar um oi.

– Deve estar com vergonha. Deixa correr um tempinho – emendei.

Mal fechei a boca e o telefone Ilona começou a tocar. Ao ver quem ligava, ela abriu um largo sorriso e mudou completamente o humor, pedindo licença para falar com sua paixão. Foi para o quarto e lá demorou poucos minutos antes de voltar enfezada.

– O que houve? – perguntei.

– O Hildinho telefonou perguntando se eu tinha achado o pivô dele.

Ilona contou que respondeu que aquela pergunta era sem propósito, pois jamais havia pensando em tentar procurar o tal pivô nos excrementos por razões óbvias.

Segundo minha amiga, o rapaz ficou indignado, ensaiando dizer que não tinha dinheiro para reparar o estrago feito pelo beijo lascivo da noite anterior e que ela havia sido inconsequente em não procurar seu implante. A coisa foi de mal a pior e nem ela sabia quem havia batido o telefone primeiro.

O encanto morrera ali, assim como se morre o amor em cada esquina, com ou sem motivo, para que um novo possa nascer. Nas semanas seguintes, eles tentaram alguns encontros, todavia a química intensa de outrora se perdeu.

Não demorou muito para que voltássemos às rodas de samba com todo o vigor, mas agora com uma diferença. Quando o cantor puxava “aquela boca sem dente que eu beijava/ já está com dentadura…” minha amiga fingia que algo acontecia e saía de perto da roda.

(Esta publicação faz parte do livro A VIDA AMOROSA DOS MEUS AMIGOS, escrito pelo autor)

“Não existiria sentido em literatura se a gente não pudesse se mostrar assim: escondido nos outros. A VIDA AMOROSA DOS MEUS AMIGOS é o livro mais particular e, paradoxalmente, o mais universal de Fernando Tenório.

Ele é particular, pois recolhe histórias e delas aproveita-se para construir a sua trajetória, que começou em Maribondo, passou por Maceió até chegar ao Rio de Janeiro. No entanto, essa ode à amizade torna-se universal, justo quando os personagens ganham humanidade, brilho, cor e sonoridade. Entre heróis pouco convencionais e vilões desprovidos de vilania, eles ficam maiores que as páginas do livro, saltando delas e saindo pelas ruas para incorporarem-se em várias figuras humanas familiares, as quais trombam com cada um de nós ao longo da vida. As idiossincrasias dos personagens encontram-se, portanto, com as de muitas pessoas conhecidas pelo leitor, inclusive ele próprio. E é aí que a magia acontece. Apesar de presunçosa, uma vez que cada um ri e goza de modo único, a proposta inicial desse livro foi a de trazer a alegria e os sorrisos. Em tempos tão obscuros como o que vivemos, sorrir é uma afronta, uma negação e um ato revolucionário contra um mundo que convida à tristeza a todo tempo. Vamos resistir sorrindo. Vamos à leitura. Isbn: 9788599396094 Autor: Fernando Tenório
Acesse aqui.

Greve: um grito de socorro para salvar a escola pública

Mais de 10 mil educadores abandonaram a rede estadual desde 2014. São profissionais que não se aposentaram. Saíram do chão da escola por óbito, dispensa ou opção. Os dados são da Secretaria da Fazenda, compilados pelo Dieese. Não é de se surpreender.

Sobrevivemos há cinco anos de massacre. Nosso poder de compra foi reduzido em mais de 1/3 desde o último reajuste, corroído pelo inflação. Estamos há 47 meses com os salários parcelados e atrasados, sem dinheiro para ir trabalhar, acumulando empréstimos e escolhendo entre comer e pagar as contas.

Enquanto padecemos, bancos registram lucros recordes, grandes empresas recebem o benefício da sonegação premiada e obtêm isenções fiscais bilionárias. Fecham-se escolas para abrir prisões.

Neste cenário, o governador nos oferece o mesmo remédio amargo, testado e reprovado múltiplas vezes. Mais arrocho, extermínio de direitos, congelamento salarial por tempo indeterminado e confisco de dinheiro dos aposentados. Quem tem menos paga cada vez mais para sustentar a injustiça.

Não há qualquer novidade na tentativa de reforma, se não a dimensão da crueldade. Ao incorporar vantagens ao salário básico, o governo mascara o pagamento do piso nacional. Trata-se de uma farsa contábil. Se os projetos passarem, quem pagará o piso no Rio Grande do Sul será o próprio trabalhador da educação, sem receber um centavo a mais.

Eduardo Leite prometeu tornar a carreira mais atrativa. Na prática, projeta uma diferença salarial de 7% entre o profissional com Ensino Médio e o educador com Doutorado. No plano atual, o crescimento é de 100% no básico. Quem, em sã consciência, vai ingressar no magistério ou buscar qualificação com esse descalabro? Não somos escravos.

Enviamos, no prazo determinado pelo governo, documento elencando as razões para a rejeição do pacote. Não tivemos respostas ou convite para dialogar. O mesmo já havia ocorrido neste ano, quando, após iniciar uma mesa de negociações para tratar da pauta salarial, o Piratini abandonou o diálogo e passou a ignorar ofícios do CPERS solicitando a retomada.

A greve é o último recurso de qualquer categoria, única alternativa ao esgotamento da negociação. É um grito de socorro para salvar a escola pública e os sonhos de milhões de gaúchos que dependem de uma educação gratuita e de qualidade. Resistimos para não deixar de existir.

Helenir Aguiar Schürer, professora da rede estadual e presidente do CPERS/Sindicato


Oligarquias assassinas

Antes da descoberta do Brasil (1444), em Portugal registrava-se o primeiro leilão de africanos escravizados, na vila de Lagos, Algarve. O início oficial do tráfico negreiro para a América veio pelo decreto de janeiro de 1510, emitido pelo rei Fernando, da Espanha, segundo Laurentino Gomes.

Em 1535 começam a chegar os primeiros escravos para os canaviais brasileiros. Em 1672, a cidade do Rio de Janeiro, com uma população de quatro mil moradores brancos, acumulava 20 mil escravos africanos. No ano de 1687 São Paulo tinha dez mil escravos para uma população branca de 1.500. O resto, sabemos como foi.

O poeta abolicionista, Castro Alves, descreve em versos condoreiros a cena funeral, infame e vil: “Era um sonho dantesco…o tombadilho/ que das luzernas avermelha o brilho,/ em sangue a se banhar”. Narra como os filhos de Agar foram tolhidos do ventre da mata, dos montes e cascatas, do vento livre que ondulava savanas. Eram cidadãos que viviam em tribos, nutridos pela pesca nos rios canoros, caça e favos de mel. Guerreiros, príncipes tragados de suas habitações com suas mulheres, filhos, crianças e donzelas lindas, logo acorrentadas. Muitos morriam no caminho ou nos porões lúgubres dos navios negreiros.


Quilombo

O Quilombo dos Palmares, depois de quase cem anos de resistência, foi destroçado pelas forças oficiais. A cabeça de Zumbi dos Palmares foi exibida no Recife em 1695. Todos tinham a natureza e Deus, mas os escravizadores negavam-lhes a alma e o corpo.

Sangue e liberdade

Foram 300 anos da maior injustiça social, em que os braços vigorosos dos escravos produziam riquezas para os brancos dolentes. Índios, que remanesciam das doenças que os dizimavam eram também assassinados ou subjugados. As forças oficiais garantiam o ritmo impudente dos grandes senhores que tripudiavam sobre filhos de Deus, açoitando, estuprando mulheres negras, mutilando homens, ao menor sinal de rebeldia.

E foi assim

Começava o debate no parlamento, mais acalorado no século XIX. A exemplo de tantos escravocratas, o celebrado escritor José de Alencar pregava a superioridade da raça branca e denunciava como sedição o crescente movimento de liberdade. Grande canalha! Para as oligarquias organizadas os escravos deveriam agradecer por produzirem as riquezas do país cujas leis os excluíam da condição humana. Joaquim Nabuco, José do Patrocínio (o Tigre da Abolição), Luiz Gama, André Rebouças, Rui Barbosa, Souza Dantas e tantos outros intelectuais sustentaram da tribuna, ou nos jornais a luta pela abolição.

Nas fazendas ou usinas de cana de açúcar ocorriam as fugas das senzalas. Era preciso muita coragem para fugir. O Tigre da abolição rugia perigosamente afrontando os escravocratas. Morreu pobre e abandonado, pagando o preço de uma luta libertária.

Consciência Negra

O sangue derramado pelo herói Zumbi dos Palmares simboliza a mais legítima causa emancipadora de nossa história. O valor de tantos bravos guerreiros fecundou a semente da libertação.


Justo e divino

A escravidão foi a maior e mais longa catástrofe de nossa história. Mas é impressionante como ainda hoje ouvimos vozes reducionistas e covardes tentando explicar as violações infames. A liberdade formal, pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, foi apenas um flerte circunstancial com o justo e divino, após séculos de imoralidade e covardia no estado brasileiro.

Valores
O ator e escritor Lázaro Ramos, no livro Na Minha Pele, trabalha a ideia do empoderamento e afeto. Destaca a importância de pronunciar os pendores, que são muitos, presentes na cultura negra.



O autor Lázaro Ramos fala sobre sua trajetória, racismo, ser um artista de destaque no país e as tensões do lugar que ocupa.



A religiosidade, que sempre acompanhou a humanidade em todos os lugares do planeta, a arte e a cultura formam esteira virtuosa de cooperação. E não nos surpreende a praticidade e objetividade na missão de crescimento humano. Menciona como instrumento de construção coletiva o curso pré-vestibular para a população de baixa renda no Instituto Cultural Beneficente Steve Biko. O nome é homenagem ao herói sul-africano mártir na luta contra o apartheid. É cidadão negro que agarra o próprio destino. 

Esta coluna foi publicada no dia 21/11/2019, no jornal impresso O Nacional.

Celestino Meneghini, um jornalista reconhecido pelo seu talento de comunicar e escrever, também foi entrevistado neste site por outra jornalista, Márcia Machado. Confira a entrevista:

Autoria: Celestino Meneghini, jornalista

Violência contra a mulher

Florbela Espanca, poetisa portuguesa,
disse com muita propriedade: “é pensando
nos homens que eu perdoo aos tigres
as garras que dilaceram”.

De 25  de novembro  a  10  de  dezembro  são 16  dias  de  ativismo  contra  a  violência  sobre  as  mulheres. Período para que façamos uma necessária  reflexão sobre  sua  luta  ao longo da história.

O sistema patriarcal, através de construções ideológicas misóginas e machistas, sedimentou a ideia de inferioridade da mulher em relação ao homem.  Por muito tempo a mulher ficou restringida a uma imagem limitada e distorcida de si mesma. 

Ela foi silenciada; suas aptidões desprezadas, sua capacidade intelectual subestimada; suas ideias, desdenhadas, seus talentos ignorados e desperdiçados.

Ao longo dos tempos do patriarcado, a mulher deveria corresponder, incondicionalmente, às expectativas masculinas e em troca  receber  proteção e sustento. Seus desejos e sonhos foram ignorados. Não eram ouvidas, ou melhor, nem sequer se manifestavam, pois  eram educadas  para o silencio, a resignação e a obediência.

A sociedade brasileira, extremamente conservadora, viu na mulher  ideal  aquela  que  deveria  ser dócil, obediente, fragilizada – bela , recatada e do lar –,para pertencer a um homem.

O nosso patriarcado determinou que as  mulheres  fossem inferiores e, portanto, submissas aos homens  e, estes, superiores, dominadores.

Em pleno século 21, a realidade de crimes sexuais, feminicídios, preconceitos, ameaças e  assédios seguem  fazendo parte do atormentado cotidiano  das mulheres  brasileiras.

Se tudo isto não bastasse  a ministra Mulher, pastora  Damares, promove palestras  contra  o feminismo  e  declara que sua missão  é ensinar meninos  a serem gentis  com as meninas;  os primeiros de  azul, as  últimas de rosa.

Uma das absurdas fixações dos novos cavaleiros da  “moral e  dos  bons costumes” é a tentativa  de disciplina sobre  os corpos  femininos  e  o enquadramento heteronormativo da  sexualidade, no melhor modelo fascista.

Assim, a cultura  da violência  contra a mulher se acentua.  Ela ainda  é vista como mero objeto por boa parte  de nossa sociedade.  E é fácil de encontrar explicações  para tal fenômeno.

A violência pode  ser atribuída  a uma interpretação histórica  tendenciosa  e preconceituosa que a  colocou  na  condição de  mera  servidora  à  sociedade,  ao marido  e aos  filhos.

A violência, portanto, não é casual. Em sociedades estruturadas , como a nossa, sobre a desigualdade e a discriminação contra  as mulheres, as vítimas  são escolhidas precisamente por seu gênero.  É a permissividade social da dominação masculina que conduz  a práticas cotidianas de violência sistemática.

Florbela Espanca, poetisa portuguesa, disse certa vez, com muita propriedade: “É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres  as garras que dilaceram”.



Na cidade onde você mora mais da metade da população é formada por mulheres. Engraçado, todas as representações são homens. A única mulher que aparece é a que serve o cafezinho. E, atrás do cafezinho, e apenas ali, está Ela. Única guerreira no meio de tantos. Parece que as coisas mudaram mas nem tanto nos últimos séculos. (Ingra Costa e Silva, jornalista)

A caixa de Pandora

A Esperança. Hoje também, parece ser o que nos resta.
Talvez a única arma que teremos para lutar contra
o mal desatinado que foge ao controle de todos.

Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher da terra, criada por ordem de Zeus. Ela teve em seu poder um jarro contendo todos os males do mundo.

Conhecido como a Caixa de Pandora, esse recipiente não deveria jamais ser aberto. Pandora, no entanto, não resiste à curiosidade (talvez maldade ou ingenuidade) e abre a caixa. Uma vez aberta, não é mais possível impedir que o horror se espalhe pelo mundo.

A expressão “abrir a caixa de Pandora” costuma ser utilizada para se referir a uma ação que iniciamos, no sentido de pôr em movimento forças destrutivas, e que não somos capazes de interromper.

Ao longo de séculos, talvez milênios, a humanidade tem evoluído no sentido de inibir os seus instintos nocivos e incentivar a cooperação e a convivência em grupo. A civilização só é viável porque conseguimos manter sob controle a nossa tendência para o individualismo e para a aniquilação do outro.

Vivemos pacificamente e trabalhamos juntos de forma produtiva na medida em que somos capazes de conter nossa pulsão destrutiva. De tempos em tempos, algo escapa da caixa. São as guerras, genocídios, tragédias humanas de grandes proporções, e também as violências do nosso dia a dia.

Sem querer ser apocalíptica, observo os fatos dos últimos meses, no Brasil e no exterior, e sinto como se a terrível caixa estivesse novamente se abrindo. Agressões, apologia à violência, a situação dramática dos imigrantes, destruição, ataques motivados pela intolerância, parece que uma terrível energia negativa está entre nós.

E é cada vez mais comum ouvirmos aqueles que ocupam posições de liderança sugerindo que deixemos aflorar nossos instintos mais terríveis, ou relativizando o mal. Eles o libertam sem perceber que não serão capazes de conte-lo. Palavras não são só palavras, expressam pensamentos e motivam ações.

Diz a lenda que Pandora, ao perceber o equívoco de seu ato, consegue fechar a caixa. Porém o mal já havia sido libertado, estava fora de controle. Permaneceu na caixa apenas um de seus conteúdos: a Esperança. Hoje também, parece ser o que nos resta. Talvez a única arma que teremos para lutar contra o mal desatinado que foge ao controle de todos.



Em outra publicação no site, já afirmamos: Não basta seguirmos em frente cumprindo nossas tarefas. Sim, precisamos nos envolver. Precisamos denunciar a corrupção, enfrentar a violência, combater a intolerância, cuidar de todas as crianças, restaurar os prédios, recolher o lixo”.

Onda de indignação: greve tem novas adesões e chega a mais de 1500 escolas

A onda de indignação dos educadores(as) não para de crescer.

Em todo o estado, já são 1556 escolas envolvidas na greve da educação. Destas, 788 seguem totalmente paradas. A apuração foi atualizada junto aos 42 núcleos do CPERS nesta quarta-feira (27).

A contagem representa um novo crescimento em relação à última contabilidade, que apontava 1544 instituições afetadas na segunda.

A greve extrapolou os muros das escolas e tomou as ruas do estado, com amplo apoio social e institucional.

Ao corte de ponto dos grevistas e ao continuado desrespeito com a categoria, educadores(as) responderam um com uma das maiores Assembleias das últimas décadas e cerraram fileiras no movimento paredista.

O CPERS ingressou com mandado de segurança na última segunda para sustar os efeitos da medida e o TJ deve julgar o pedido liminar até esta quinta (28).

Com a mobilização histórica da categoria e da sociedade gaúcha, o castelo do governador começou a ruir.

Nesta quarta (27), a maior bancada da base governista (MDB) divulgou nota conjunta posicionando-se contrariamente à proposta que prevê alterações na carreira.

A Famurs, entidade que congrega prefeitos e gestores de todos os 497 municípios gaúchos, enviou uma moção de apoio aos educadores(as). Outro acontecimento inédito. Nas Câmaras de Vereadores, representantes de mais de 250 cidades já aprovaram moções semelhantes.

O movimento conquista a sociedade, com adesão crescente de comerciantes, que afixam cartazes de apoio junto às vitrines. A economia local sente o peso do arrocho sobre os professores(as) e funcionários(as) de escola.

Atos de rua se espalham pelo Rio Grande do Sul. É impossível acompanhar a densidade e a quantidade do que está ocorrendo.

Eduardo Leite está acuado e já fala em “atenuar” as medidas. Mas não há remendo para o que não tem conserto.

Comando de Greve ratifica que qualquer perspectiva de negociação com Eduardo Leite depende da retirada dos projetos da pauta da Assembleia Legislativa.

Nenhum diálogo é possível sem, antes, tratar das reivindicações urgentes da categoria: salário em dia, reajuste já e nenhum direito a menos. A educação merece respeito.



Nesta última quinta-feira, (28) houveram caminhadas luminosas em muitas cidades do RS, com o objetivo de dialogar com as comunidades e pedir apoio delas para as demandas do magistério que incluem o fim do parcelamento dos salários, o reconhecimento da dignidade da profissão e a retirada do pacote de reestruturação da Carreira do Magistério que precariza ainda mais a vida dos professores e professoras.

Caminhada luminosa em Passo Fundo, RS.
Caminhadas luminosas inspiraram a luta e a greve dos professores estaduais. Quem luta, também educa! Greves ensinam a todo mundo.

Docentes e decentes!

Fica bem mais complicado
Quando aquilo que é sagrado
Precisa agora ser exigido, mendigado.

O respeito ao professor
A dignidade do seu trabalho
A valorização de sua função social.

Quem enfrenta o magistério
Com cacetetes e força brutal
Já esqueceu a humanização.

Só os conhecimentos, da vida e da escola
Podem nos humanizar
Nos tornar seres humanos melhores.

O que nos torna brutos e estúpidos
Insensíveis e covardes
É a ausência de educação.

A ignorância gera a violência,
Gera a estupidez
Que só o conhecimento e convivência conseguem superar.

Como diz bela música
“Só o amor muda o que já se fez
E a força da paz junta todos outra vez”.

Avante, educadores de fé,
Unidos pela educação.
Somos docentes e decentes, leais aos propósitos mais nobres da educação.

(Nei Alberto Pies, professor e escritor).

Fonte: Cpers

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