A utilidade é a máscara favorita da mediocridade. Quem não possui talento, seja por questões inatas ou, simplesmente, por não cultivá-lo, deseja, a todo custo, ser “útil”. Alguém assim não se presta à Arte, Filosofia ou mesmo à apreciação contemplativa da Ciência.
A imbecilidade nunca se dá bem com o ócio. Não fazer nada revela a cada um sua própria estupidez. Como vivemos em um mundo extremamente estúpido, estamos quase sempre fazendo alguma coisa. Jogos, novelas, fala-se sobre o tempo ou acerca de outra banalidade qualquer.
O importante é não ficar só, não pensar, não notar-se. Somos, em grande parte, ruins: não devemos deixar o inconsciente “subir”, assomar à consciência. Somos, em grande parte, fracos: pressentimos não ter forças para enfrentá-lo.
Somos como um rei destronado em seu castelo, um apátrida em seu próprio país.
É preciso ser razoavelmente “bom” para ficar só, caso contrário, cai-se vítima de seus próprios demônios. Esses seres poderiam, aliás, ser controlados, ter sua força incorporada à dimensão consciente. Mas não; temos de falar sobre o tempo, se chove ou se faz sol…
O furor do mundo contemporâneo pela utilidade é uma prova de como nosso tempo (talvez sempre tenha sido assim…) é medíocre.
O típico cidadão de hoje é incapaz de perceber que o cultivo da cultura, a princípio sem nenhum outro objetivo, é fonte incrível de novos conhecimentos, origem de descobertas extraordinárias. Trata-se do encontro com o veio aurífero, da procura da fonte, da descoberta da raiz.
A aplicação prática do conhecimento é o final de um processo iniciado muito antes. A utilidade é quando o rio encontra o mar, mas, para haver um rio, é preciso haver uma fonte. Essa fonte existe na atmosfera da inutilidade, onde a água não tem outro objetivo se não o de, simplesmente, jorrar.
Qual a utilidade da poesia? Nenhuma. A Arte, em si, é inútil. O que é útil é o que se espalha a partir dessa fonte.
Isso também é verdade, inclusive, para a Ciência. Ao prospectar sobre a natureza da luz, um estudo à primeira vista inútil, Einstein ajudou a criar todo um novo paradigma científico, com desdobramentos práticos, influenciando todo o século XX.
Um filósofo, ao ponderar sobre a conceituação da justiça, pode inspirar os juristas a forjarem leis mais adequadas a sua época. Essas leis, por sua vez, irão orientar a vida de inúmeras pessoas e também o trabalho de juízes e advogados.
Um artista, ao usar as cores de um modo diferente, ao compor uma música em um novo estilo, pode influenciar os pensamentos e as ações de toda uma geração futura.
A vida começa onde ela não é útil, mas prazerosa, encantadora, transcendente. É ali que inicia aquilo que chamamos de “humanidade”, na falta de uma palavra melhor.
Veja também o comentário sobre o texto, exclusivo para esta publicação.
Sugestões de uma atividade pedagógica- Disciplina Filosofia
Esta sugestão de atividade foi elaborada para Nonos Anos do Ensino Fundamental, Unidade temática: Política, conhecimento e estética. Objeto de conhecimento: O conhecimento (as diferentes explicações da realidade: senso comum, religião, ciência, filosofia e arte). Habilidades: Reconhecer que as verdades podem ser relativas, formular e resolver problemas a partir do conceito de verdades dadas.
QUESTÕES PARA PENSAR
O que é útil?
Segundo o texto, tudo que é “inútil” é ruim?
De acordo com o texto, o “furor do mundo contemporâneo pela utilidade é uma prova de como nosso tempo (talvez sempre tenha sido assim…) é medíocre”. Explique com suas palavras.
Ainda de acordo com o texto, a arte é útil ou inútil? Isso é bom ou ruim? Por quê?
Faça uma lista de coisas úteis e inúteis. Quais você considera mais valiosas? Por quê?
PARA SABER MAIS
Sobre o livro “A utilidade do inútil”, do filósofo Nuccio Ordine:
Autor do textoe sugestões de atividades: Aleixo da Rosa
Doutor Júlio César Stobbe é médico especialista em Clínica Médica com área de atuação em Medicina de Urgência e Emergência, formado pela UPF com experiência em Gestão Hospitalar e, atualmente, na Direção do Campus de Medicina na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), de Passo Fundo, RS.
Em nossa cidade e região, teve seu trabalho conhecido e reconhecido quando do enfrentamento da crise do H1N1 no ano de 2009. Na época, coordenou importante trabalho no HSVP (Hospital São Vicente de Paulo), o qual foi determinante para salvar muitas vidas.
Durante todo o evento da pandemia do COVID 19, Doutor Júlio tem se destacado na discussão sobre o tema. É membro do COE (comitê criado pela Prefeitura Municipal de Passo Fundo para orientação técnica das ações de combate à pandemia). Participa também de debates sobre o tema, faz esclarecimentos à comunidade através das rádios e TVs locais.
Nesta entrevista, Stobbe vai nos falar de sua experiência pessoal, de seu trabalho no “front da H1N1” e dos desafios da medicina e da sociedade no enfrentamento ao COVID 19.
SITE NEIPIES:Doutor Júlio, gostaria que o Senhor falasse um pouco sobre sua profissão, o que mais lhe realiza e o que mais lhe desafia na medicina?
JULIO STOBBE: A medicina surgiu em minha vida por opção. Já estava trabalhando como professor, quando decidi fazer medicina. Fiz todo meu curso trabalhando para pagar as mensalidades em IES privada, foi uma dura batalha mas, conclusa dentro do prazo normal. A medicina, apesar dos inúmeros problemas enfrentados em relação ao seu financiamento no Brasil, é muito compensadora. O maior desafio é conseguir exercê-la de forma ética levando em consideração todas as suas múltiplas dimensões para então oferecer um real benefício à população.
SITE NEIPIES: O senhor foi uma liderança médica importante quando do enfrentando da H1N1. Quais são as diferenças e quais são as semelhanças entre H1N1 e a COVID 19?
JULIO STOBBE: A COVID-19 tem uma letalidade e transmissibilidade maior do que o H1N1. A COVID-19 tem uma taxa de letalidade média em torno de 2-3%, o H1N1 era em torno de 0,02-0,4%, o SARS-CoV 9,5%, o MERS –CoV 34,4% e outros como o EBOLA 63%. Portanto, sua letalidade não é das maiores. Porém, num país com mais de 200 milhões de habitantes, tem um alto impacto. Em relação à capacidade de transmissão uma pessoa doente com o COVID-19 transmite o vírus à outras 2,74 pessoas em média. A taxa é maior que a observada na pandemia de influenza H1N1 em 2009 onde 1 pessoa transmitia à outras 1,5 pessoas, em média.
SITE NEIPIES: Passo Fundo se destaca pelos altos números de pessoas oficialmente infectadas e, principalmente, pelo alto número de mortes -somos a cidade do RS que, hoje, tem o maior número de mortes, inclusive em maior número do que Porto Alegre. Por quê?
JULIO STOBBE: O elevado número de infecções tem vários fatores: por ser polo regional o elevado número de pessoas que circulam, ser centro de referência médica (maior precisão diagnóstica e maior coleta de exames) e, aliado à isso tudo, um surto ocasional em determinado frigorífico que, sem dúvida, colaborou sobremaneira para espalhar o vírus.
A taxa de mortalidade ocorre em função de dois fatores principais: muitos idosos com múltiplas comorbidades contaminados pelo vírus e por muitos deles serem testados para COVID-19 com sintomas atípicos (precisão diagnóstica).
A previsão é de que esses números irão se igualar, proporcionalmente, em todos os locais, porém em tempos diferentes.
SITE NEIPIES:O combate à pandemia do COVID 19 passa somente pelos MÉDICOS – HOSPITAIS –LEITOS DE UTI – NÚMERO DE RESPIRADORES? Que outras estratégias são necessárias para maior êxito neste combate?
JULIO STOBBE: Certamente, o mundo não presenciou uma situação pandêmica tão rápida quanto essa e com resultados tão avassaladores quanto nessa ocasião. Isto impactou na saúde, e de forma certeira, na economia mundial, fazendo com que a própria ordem econômica de alguns países seja alterada.
Na saúde, de forma muito ampla, o cuidado na assistência adequada de grande número de casos é primordial. Esse cuidado vai desde as medidas preventivas, perpassando pela atenção básica (onde serão atendidos 80% dos casos) culminando com a alta complexidade das unidades de terapia intensiva. Funciona como uma grande corrente circular onde todos os elos têm igual importância e funcionamento sincrônico.
SITE NEIPIES: No Brasil e no mundo, cidades estão testando e experimentando Planos de Contingenciamento, que incluem saber quem são os infectados, suas condições reais de isolamento e monitoramento “in loco” da situação dos afetados pelos sintomas ou pelo próprio COVID. Em nossa cidade, pacientes com suspeitas da COVID são atendidos por médicos e aconselhados a ficar em casa, aguardando a melhora ou a piora do seu quadro de saúde. Por que iniciativas como estas, de Contingenciamento, não estão sendo aplicadas em Passo Fundo?
JULIO STOBBE: São modelos diferentes, a China optou por esse exemplo de isolamento in loco. No Brasil não foi essa a opção escolhida por inúmeros problemas estruturais e até por dificuldades legais. Outro grande entrave é que não dispúnhamos de testes em larga escala para fazer os diagnósticos dos possíveis casos para o isolamento.
SITE NEIPIES: O isolamento social tem sido adotado no mundo inteiro como estratégia para conter o rápido avanço da doença. O que o Senhor pensa disso?
JULIO STOBBE: O isolamento social é um aliado antigo, porém eficaz. Ele retarda a velocidade de propagação da doença evitando, dessa forma, o surgimento de uma catástrofe em nossa assistência à saúde (quando se suplanta à capacidade instalada). Não irá, possivelmente, impedir a evolução da doença permitindo que todos tenham acesso ao cuidado, quando necessário.
SITE NEIPIES: O Conselho Municipal de Saúde e o COE (Comitê de Emergência), do qual o Senhor é membro, tem conseguido ajudar e influenciar positivamente nas definições das estratégias de combate ao COVID 19?
JULIO STOBBE: O COE do município de Passo Fundo, felizmente, tem um grupo técnico muito atuante e coeso. Reúne as três Universidades com Cursos de Medicina e os três maiores hospitais. Essas entidades, pelos seus representantes, conseguem dar um suporte técnico importante na tomada de decisões pela gestão do município.
SITE NEIPIES: Como o senhor avalia a criação do Comitê Popular por Saúde, Democracia e Direitos (com participação de mais de 40 entidades), criado na cidade com a intenção de levantar, propor demandas e cobrar atendimento de necessidades sociais decorrentes desta pandemia?
JULIO STOBBE: A criação desse Comitê é de grande valia no apoio social à população que sofre os maiores pesos da crise: desemprego, doença, insegurança alimentar, violência em todo seu espectro.
Essas ações não são discutidas nessa amplitude pelo COE. A parte Social é muito mais vasta que simplesmente as decisões de saúde no apoio à gestão.
SITE NEIPIES: Qual será, na sua avaliação de médico e especialista em epidemias, fator determinante para uma volta segura das aulas em todas as redes de ensino, em especial, na rede pública?
JULIO STOBBE: O retorno às atividades escolares, possivelmente, seja um dos últimos grupos a serem implementados. Teremos, antes disso, grandes oscilações de abertura e fechamento de outras entidades.
O retorno às aulas dependerá do grau de imunização da população e a segurança de que não estarão ocorrendo grandes surtos de doença. Pois, são conhecidas as dificuldades de controlar uma grande número de crianças e adolescentes em relação à medidas de distanciamento. Até mesmo, pela quantidade de pessoas em espaços que acabam ficando pequenos por essa alta densidade de estudantes.
SITE NEIPIES: Como o senhor vê a relação da medicina praticada no Brasil, considerando as diferentes realidades sociais e econômicas de nossa sociedade?
JULIO STOBBE: O Brasil penou muito tempo com um modelo hospitalocêntrico de medicina. Desde o senso comum da população, até a formação médica esteve nesses moldes. Nos últimos anos, com a criação das novas escolas médicas esse foco está mudando e isso possibilitará uma maior capilaridade dos profissionais nas comunidades. Outro grande desafio que deverá ser ajustado é a capacidade de trabalhar em conjunto, em equipe com os demais profissionais. Isso irá promover um grande crescimento no cuidado à pessoa.
SITE NEIPIES: Apesar dos pesares, na sua opinião, como o Brasil sairá destas grandes crises do atual momento histórico (crises sanitária, econômica e política)?
JULIO STOBBE: O Brasil sairá, não há dúvida. No entanto, se o governo federal trabalhar em conjunto com os estados e municípios, isso seria mais fácil de ser enfrentado. Temos de entender que há uma epidemia mundial e não é um complô contra o governo. Mas talvez isso seja difícil de ser alcançado pelos fatos vistos dia pós dia. Penso que serão as ações locais e estaduais que ajudarão de maneira macro a população.
SITE NEIPIES: Quais são suas perspectivas, como médico e como cidadão, para o futuro pós pandemia?
JULIO STOBBE: Deveria ser otimista. Mas será muito difícil termos grandes mudanças comportamentais. As medidas serão lembradas por um período muito curto porque não fazem parte dos costumes dos indivíduos. Caberia aos grandes gestores entenderem a importância de um Estado forte para poder dar sustentação à população em momentos como esse. Mas, possivelmente, não seja essa a política que trabalha com o viés de Estado Mínimo.
Em 13 de abril, Júlio Stobbe teve participação em programa importante Hora Atividade do CMP Sindicato. Assista:
Em 12 de maio, Paulo César Carbonari, Coordenador do Comitê Popular por Saúde, Democracia e Direitos participou de importante entrevista sobre ações e cobranças das entidades da sociedade civil organizada em Passo Fundo, RS.
Iura Kurtz é uma jovem liderança da região Norte do RS, eleito prefeito com o propósito de dar ao município de Marau maior protagonismo na região e com a ideia de modernizar a gestão pública, através do diálogo com todos os setores da sociedade, valorizando o espírito empreendedor e a pujança deste lugar e investindo os recursos públicos onde eles são mais necessários.
Marau é uma cidade do norte do RS, vizinha à cidade de Passo Fundo, com 44.161 pessoas (dados 2019). IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) de 0,774 (dados 2010). Média salarial de 2,4 salários mínimos. Esses dados demonstram uma cidade próspera e pujante, com forte presença de agroindústrias e setor metal mecânico.
Kurtz, no último ano do seu primeiro mandato, enfrenta grande desafio de governança: administrar o município com a turbulência, pressão e urgência de uma pandemia da COVID 19. Esta situação não é exclusiva do prefeito de Marau, mas um desafio de todos os gestores municipais de todo Brasil e em todo o mundo.
No RS, Marau foi uma das primeiras cidades onde apareceram casos da COVID e o número de infectados é alto, se comparado, proporcionalmente, com o número da população de outras cidades. Em 26 de março, foi notificado, oficialmente, o primeiro caso do COVID 19. O número de casos segue aumentando. O município já tem dois óbitos, o que coloca o gestor municipal numa atitude de extrema vigilância, zelo e cuidado, tendo de tomar as medidas cabíveis necessárias.
Na entrevista que segue, Iura Kurtz falará de suas realizações como gestor do município e dos desafios enormes de um prefeito no enfrentamento e combate à pandemia.
SITE NEIPIES: Tú és uma jovem liderança política na região Norte do RS. Vieste da comunicação (rádio e TV), já exerceste a função de Secretário de Esportes, Cultura e Lazer e mandato de vereador na cidade de Marau. Optaste por viver e morar sempre ali. O que mais te realiza como gestor desta cidade, nestes últimos 3 anos e cinco meses de mandato?
IURA KURTZ: A maior realização é poder proporcionar melhor qualidade de vida aos marauenses, através de ações, serviços e obras. Estar como Prefeito de uma cidade do porte de Marau, com um povo empreendedor e pujante, é sem dúvida um agradável desafio. Poder contribuir com o teu município, trabalhando dia e noite, é uma satisfação e faço sempre com alegria e disposição.
SITE NEIPIES: Com base no teu plano de Governo, conseguiste promover mudanças ou aperfeiçoar a gestão pública neste seu mandato, para que a administração estivesse mais atualizada com as necessidades da população?
IURA KURTZ: Com certeza. Durante todo o mandato realizamos e estamos realizando obras em praticamente todos os bairros e também no interior. A principal mudança que promovemos, no entanto, foi no diálogo com todos, com as entidades e associações. A população definitivamente faz parte do Governo. As portas da Prefeitura estão sempre abertas. Nós governamos sempre muito próximo das pessoas. E isso faz com que a gestão pública seja mais eficaz, pois ouvindo as necessidades e ideias do povo a construção de projetos se torna mais precisa e proporciona melhorias na vida dos marauenses.
SITE NEIPIES: As características empreendedoras e a pujança dos cidadãos marauenses continuam os alicerces da economia e da política hoje, no município?
IURA KURTZ: Eu costumo sempre falar que Marau é diferenciada especialmente pela pujança de sua gente, suas entidades e associações. Aqui temos um povo trabalhador e empreendedor que auxiliam no progresso dessa terra. Esse conjunto de fatores, aliado a uma gestão sempre próxima de todos, com inúmeras obras e realizações, faz com que nosso Município seja destaque em todo o Estado, em índices na saúde e na educação, por exemplo.
SITE NEIPIES: Quais foram ou são as realizações da tua administração que te deixam mais feliz e realizado?
IURA KURTZ: Em todas as áreas tivemos e estamos tendo importantes avanços. Na saúde, dobramos o número de atendimentos no mês, abrimos pela primeira vez na história de Marau uma unidade no período noturno, estamos construindo mais dois postos nos bairros. Na educação, reformamos escolas e creches, nos tornamos uma Cidade Educadora. Na infraestrutura, construímos novas praças nos bairros, asfaltamos centenas de ruas, estamos construindo uma nova Delegacia de Polícia e um Centro de Assistência Social. No interior, levamos de forma inédita internet de qualidade, instalamos câmeras de segurança e estamos duplicando um importante viaduto em Laranjeira. São inúmeras as realizações e todas elas, quando melhoram a vida das pessoas, nos satisfaz.
SITE NEIPIES: Qual está sendo seu maior aprendizado como gestor público municipal?
IURA KURTZ: Todo dia é um aprendizado diferente. Eu trabalho dia e noite como Prefeito de Marau e sei da responsabilidade que é administrar uma cidade desse porte. A questão de saber que algumas vezes a tua decisão vai interferir diretamente na vida das pessoas é o maior desafio como gestor público. É por isso que sempre trabalhamos de forma planejada e com responsabilidade.
SITE NEIPIES: Qual foi a primeira atitude que tomaste como gestor municipal quando apareceram os primeiros casos do COVID 19?
IURA KURTZ: Nós investimos na contratação de mais leitos hospitalares aqui em Marau. Hoje temos 36 leitos disponíveis exclusivamente para o tratamento da COVID-19. Também estaremos repassando recursos para as entidades hospitalares de Passo Fundo, que é a referência na região, essencialmente na questão de UTI.
Entre outras ações está a contratação de uma UTI Móvel, que já está à disposição da população, exclusiva para COVID-19. Também vacinamos em casa mais de 5 mil idosos em Marau, evitando assim que os mesmos saíssem de casa. Aprovamos projeto para contratar até 30 novos profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros. Criamos uma estrutura junto a uma Unidade de Saúde para receber os pacientes que apresentem sintomas. São muitas ações em andamento.
SITE NEIPIES: Como administras a tensão entre a proteção da saúde e a manutenção dos serviços e a rotina que giram a economia?
IURA KURTZ: A pandemia é recheada de incertezas em todo o Mundo. A principal meta é proteger a vida das pessoas, mas ao mesmo tempo é necessário encontrar caminhos para a questão econômica. E isso não se faz apenas em um município. É essencial a união entre todas as cidades, especialmente em cada região. Por isso estamos sempre dialogando com outros Prefeitos e com o Governador do Estado. Assim se constrói medidas para serem colocadas em prática.
SITE NEIPIES:A que se deve o aumento de casos de COVID 19 no município de Marau? São os testes? Qual é a estratégia mais adequada para o controle da pandemia?
IURA KURTZ: Desde o início da Pandemia e antes da confirmação do primeiro caso em Marau, já estava em funcionamento a Unidade de Saúde exclusiva para sintomáticos respiratórios. O fácil acesso à atenção básica possibilitou também a identificação dos pacientes que posteriormente foram confirmados com a doença.
Também em Marau muitos pacientes que não se enquadravam nas regras básicas de testagem do Estado, procuraram a rede privada, sendo que os dois laboratórios particulares que realizam testes, são licenciados pelo Governo do Estado e, dessa forma, os resultados positivos são considerados nos cálculos do Estado. Em uma pandemia, é sempre difícil encontrar um resultado final da causa de incidência.
SITE NEIPIES: Como é divisão dos entes federados (União, Estados e municípios) no efetivo combate à esta pandemia?
IURA KURTZ: É importante esclarecer que hierarquicamente os municípios são obrigados a seguir as determinações do Estado. Quanto à questão de responsabilização, cada um tem a sua, desde o Presidente, o Governador e o Prefeito. O que o governo estadual precisaria auxiliar é na questão da fiscalização das medidas. Nesse ponto, acredito que necessite haver avanços.
SITE NEIPIES: As prefeituras tem sido assistidas como deveriam no combate à pandemia (recursos financeiros, testes, orientações)? Afinal, são elas que realmente executam as medidas junto à população.
IURA KURTZ: A Prefeitura de Marau projeta uma perda de R$ 13 milhões em seu orçamento de 2020 devido a pandemia, segundo cálculo da Secretaria de Fazenda. É um dado preocupante e por isso já estamos tomando medidas e readequando a questão orçamentária. O Congresso Nacional aprovou um repasse ao Município de R$ 5,7 milhões. Esse recurso ainda não chegou, mas auxilia um pouco a perda financeira que teremos.
SITE NEIPIES: Que mensagens deixas para os cidadãos marauenses e para os demais prefeitos neste momento tão difícil em que passa o Brasil e os municípios?
IURA KURTZ: Quero dizer ao povo de Marau que isso tudo vai passar. Neste momento o que cada um precisa fazer é ter conscientização, usar máscaras, lavar as mãos, evitar aglomerações e seguir as normas estabelecidas pelos especialistas em saúde. Mais do que nunca precisamos estar unidos para vencermos esse desafio. E espero que, em pouco tempo, a gente possa retomar a normalidade. É isso que todos queremos.
Frei Carlos Raimundo Rockenbach não lembra, mas o conheci participando, de forma ativa, alegre e humorada, das Santas Missões Populares e de preparação para ordenações de padres na minha cidade natal, Campina das Missões. O que me marcou, na época de adolescente, era sua altura, sua voz pujante e seu jeito de cantar e animar.
Rockenbach nasceu em 14/07/1958, em Alecrim. Entrou no Seminário em 1979. Fez Filosofia na UPF em Passo Fundo. Depois de 3 anos junto aos Missionários da Sagrada Família, em 1982, passou a integrar a Ordem dos Freis Capuchinhos. É Frei Capuchinho há 37 anos e presbítero (padre) há 32 anos.
Trabalhou 11 anos como missionário, integrando a equipe das Santas Missões Populares. De 1998 a 2001, morou na França, Lyon e Paris, onde fez mestrado em Liturgia e Sacramentos. Foi professor por alguns anos em Porto Alegre, pároco em vários lugares, e de 2007 a 2011, Secretário do Departamento de Missão e Espiritualidade no CELAM, residindo em Bogotá.
Atualmente, Frei Carlos é pároco da Paróquia Santo Antônio, em Lagoa Vermelha, RS.
Uma alegria imensa poder entrevistá-lo, nestes tempos em que o Papa Francisco propõe “uma igreja em saída” e nestes tempos de pandemia, onde a igreja precisa refletir também sobre as formas de sua ação evangelizadora.
SITE NEIPIES: Quando, como e porquê nasceu em você o desejo de servir a Cristo e à sua igreja?
Frei Carlos: Eu venho de uma família muito humilde, bastante religiosa e engajada na vida da comunidade. Desde pequeno, junto com meus pais, primeiros e grandes catequistas, mais pelo exemplo do que por palavras, fui criando gosto pelas coisas de Deus. Entrando na fase da juventude, comecei a participar do Grupo de Jovens da paróquia. Um grupo muito ativo, assessorado por uma religiosa muito animada, criativa e dinâmica, Irmã Neófita.
Depois de muitos anos sem uma ordenação sacerdotal na Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho, de Campina das Missões, no dia 31 de dezembro de 1977, foi ordenado o saudoso Padre Gervásio Backes. E o Grupo de Jovens se envolveu de coração na preparação desta ordenação com uma peça teatral chamada: “O mártir do dever”, apresentada em todas as comunidades da paróquia.
A partir desta ordenação, já no último ano do 2° Grau, cogitei a possibilidade de fazer uma experiência no Seminário dos Missionários da Sagrada Família, em Passo Fundo. Em fevereiro de 1979, ingressei, cursando Filosofia, na UPF. Como trabalho pastoral, além da liturgia na paróquia, comecei a participar da JUFRA (Juventude Franciscana), pela qual fui tendo contato com os Freis Capuchinhos e me encantando com a mística e espiritualidade Franciscana, tanto que ao concluir o Bacharelado em Filosofia, no ano de 1982, ingressei no noviciado do Freis Capuchinhos em Marau.
SITE NEIPIES: Nasceste missioneiro, da região das Missões do RS. Quais são as características que destacarias do povo desta região e que carregas na tua vida pessoal e na tua atuação religiosa?
Frei Carlos: A região missioneira tem uma bela história, com a presença dos padres Jesuítas, e as sete Reduções dos povos guaranis, que buscavam resgatar e viver os valores das primeiras comunidades cristãs. Mas a região onde nasci e me criei é predominantemente de imigrantes alemães católicos, fervorosos, tradicionais, unidos e solidários. Chegaram à região no início do séc. XIX, tendo como primeira preocupação, a sobrevivência e a construção de um espaço religioso, onde se encontrar, cultivar e celebrar sua fé.
Este cultivo da fé, tinha como acento forte a piedade popular. A comunidade sempre foi a referência do povo. Foi neste ambiente, que foram cimentadas as bases da minha fé.
A participação na pastoral da juventude me ampliou os conhecimentos sobre a pessoa de Jesus Cristo, horizontes de uma fé mais engajada e comprometida com a vida e a história.
SITE NEIPIES: Quais suas maiores realizações como padre capuchinho?
Frei Carlos: O Carisma Franciscano Capuchinho é encantador, quando encarnado com paixão, parece que facilita o seguimento a Jesus Cristo. É difícil destacar algumas realizações, pois na simplicidade franciscana, as coisas que parecem ser as mais insignificantes se tornam grandes, reveladoras do mistério do amor incondicional de Deus. Destaco algumas grandes surpresas de Deus.
Eu nunca escolhi o que fazer e onde trabalhar, e disso nunca me arrependi. Desta forma, Deus me conduziu a lugares que eu nunca imaginava.
Nas missões populares, ao encontro da diversidade de povos e culturas com suas incontáveis riquezas, a convivência e partilha de vida com os mais pobres, o contato com as raízes da nossa história na velha Europa, o trabalho desafiante junto às 22 Conferências Episcopais da América Latina e Caribe.
Mas quero destacar, três experiências que para mim foram especiais: a) a Rota de Assis. Em julho do ano 2000, acompanhei 40 jovens franceses, conhecendo, a pé, com uma mochila de 15 kg nas costas, dormindo a céu aberto, os lugares onde viveu e por onde passou São Francisco de Assis. Além de conhecer, in loco, mais profundamente São Francisco, Santa Clara e outros santos e santas da Família Franciscana, durante a caminhada celebramos o mistério da vida de Jesus Cristo, deste o nascimento, ressaltando que Natal de 1223, em Greccio, onde iniciamos a caminhada, São Francisco com o desejo de contemplar o mistério da encarnação, inventou o presépio, até a ressurreição e o envio dos discípulos que celebramos no Monte Alverne, onde São Francisco recebeu as cinco chagas de Cristo; b) A graça de passar uns dias no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, onde em julho de 2010, fui assessorar dois encontros sobre a catequese inculturada no mundo indígena e um curso de Missiologia; c) Peregrinação na Terra Santa. Em maio de 2009, junto com um grupo de padres e leigos de diversos países da América Latina, tive a graça de trilhar os caminhos por onde Jesus passou e viveu. Foi uma experiência emocionante, que ajudou e ajuda e ler o Evangelho com outros olhos, a segui-lo com mais realismo e paixão.
SITE NEIPIES: Quais os grandes desafios da vida religiosa hoje, neste momento histórico em que o Papa Francisco pede uma Igreja em saída?
Frei Carlos: O Papa Francisco, inspirando-se em São Francisco de Assis, está resgatando o Jesus histórico, o Jesus que assumiu nossa condição humana em tudo, menos no pecado. Um Papa, que eu tive a oportunidade de conhecer ainda como Cardeal Bergoglio, que se despojou das heranças imperiais mundanas, recusando o “berço esplêndido” de um palácio, saindo e indo para junto do povo, principalmente dos excluídos do banquete da vida. Um Papa que busca seguir e testemunhar um Jesus Cristo concreto, humano, histórico e não abstrato e distante. Por coragem profética, por seus sábios ensinamentos, exortações e encíclicas, mas sobretudo, pelo seu exemplo e sua empatia com o povo, ele nos indica o grande desafio da vida religiosa: o seguimento fiel a Jesus Cristo, configurando-nos com ele em seu ser, seu agir e seu estilo de vida.
A missão, ou seja, a Igreja em saída, encontra sua razão maior no próprio Deus, que não se fecha em si mesmo, mas pela encarnação de Jesus Cristo e pelo dom do Espírito Santo, vem ao encontro da humanidade. Portanto, é da essência da Igreja e particularmente da vida religiosa, estar em saída, ser peregrina, itinerante, indo ao encontro do povo, sobretudo dos mais sofridos, abandonados e excluídos. A Igreja, e dentro dela, a vida religiosa “é”, ao sentir-se enviada em missão.
SITE NEIPIES: Durante 11 anos foste parte de uma equipe que percorria cidades do RS e do Brasil promovendo as Santas Missões Populares. Que experiência foi esta? De onde tiravas tanta motivação e entusiasmo para as pregações, as escutas e as visitas às famílias e comunidades?
Frei Carlos: A primeira inspiração é o próprio Jesus Cristo, o missionário do Pai. Depois, São Francisco no processo de sua conversão, ainda não tendo claro o que Deus queria dele, um dia ao escutar o evangelho do envio dos dose apóstolos à missão, entusiasmadamente exclamou: “É isso que eu quero, é isso que eu procuro”.
A mística Franciscana Capuchinha é essencialmente contemplativa e missionária. Em 1982, quando estava fazendo o noviciado em Marau, RS, aconteceram naquela paróquia as Missões Populares Capuchinhas. Como noviços, nos envolvemos muito, me encantei, e disse: se Deus me conceder a graça, eu um dia quero fazer parte dessa equipe. E por 11 anos, tive esta graça de percorrer várias regiões do Brasil, atuando nas três etapas da missão:
a) Pré-missão, período de encaminhamento, motivação, preparação;
b) a Missão, que consiste em vários dias de pregação, celebrações, encenações, visitas, escuta, atendimentos;
c) Pós-missão, que acontece por meio de cursos de formação e aprofundamento para as lideranças das paróquias, continuadores da missão. Por 9 anos eu fui o responsável por esta terceira etapa, realizando cursos de formação bíblica, catequética, litúrgica e Pastoral. É importante ressaltar, que a missão não é um momento estanque na caminhada da Igreja, mas em todas as atividades pastorais deve perpassar o espírito, a mística missionaria.
SITE NEIPIES: Fale-nos um pouco da espiritualidade franciscana e de como ela foi fazendo parte de sua vida e de sua atuação pastoral.
Frei Carlos: Já nos tempos da Pastoral da Juventude, na militância ecológica, e por influência de maus pais, São Francisco começou a ter uma crescente simpatia na minha vida, mas um conhecimento maior da espiritualidade franciscana eu fui adquirindo por meio da participação na JUFRA (Juventude franciscana). O mergulho mais intenso nesta espiritualidade se deu durante o ano do noviciado.
O despojamento total, a simplicidade, a opção pela pobreza e pelos últimos do seu tempo, especialmente os leprosos, a sensibilidade sacramental que levava Francisco a reconhecer a presença de Deus em todas as criaturas, chamando-as de “irmãos e irmãs”, dizendo: “tudo me fala de Deus”, a radicalidade no seguimento a Jesus Cristo, humilde e pobre, fazendo do Evangelho sua regra de vida, me cativou e continua me cativando e sendo para mim uma contínua inspiração, mas também um grande desafio.
Hoje temos à frente da Igreja, como sucessor de Pedro, provavelmente um dos mais fiéis discípulos de São Francisco: o Papa Francisco. Ele leva a mística franciscana a ultrapassar as fronteiras do próprio cristianismo, através de um profundo diálogo com todos os povos e culturas, através do protagonismo na luta pela preservação e a salvação da Mãe Terra e o resgate valor inalienável de toda vida humana.
SITE NEIPIES: Qual foi sua atuação junto ao CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano). Que aprendizagens tirastes desta rica experiência junto aos bispos e religiosos da América Latina?
Frei Carlos: O convite a assumir a secretaria do Departamento de Missão e Espiritualidade no CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), feito pelo então presidente, Cardeal Raimundo Damasceno Assis, ex-arcebispo de Aparecida do Norte, foi uma das grandes surpresas da minha vida. Não me achava à altura de tal responsabilidade. Aceitei a missão. A sede do CELAM fica em Bogotá – Colômbia. E o Departamento de Missão e Espiritualidade compreende quatro dimensões da vida da Igreja, com as quais me ocupava: Liturgia, Catequese, Missão e Piedade popular.
O principal instrumento de trabalho, era o Documento de Aparecida, fruto da 5ª Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho, que aconteceu no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, de 13 a 31 de maio de 2007. Este Documento resgata e incentiva fortemente a dimensão missionária da Igreja. A partir deste Documento, dentro das quatro dimensões do Departamento e das dimensões dos outros seis Departamentos do CELAM, tínhamos um Plano de projetos para quatro anos, 2007 -2011.
O meu trabalho e o dos demais seis secretários era viabilizar estes projetos junto às 22 Conferências Episcopais da América Latina e Caribe. Foi um trabalho intenso, internamente na sede do CELAM, e também com muitos cursos, encontros por praticamente todos os países latino-americanos e caribenhos. A diversidade e a dinamicidade da Igreja, a riqueza cultural, o testemunho abnegado de incontáveis cristãos engajados nos diversos serviços e ministérios, foi um grande aprendizado, uma grande bênção de Deus.
SITE NEIPIES: Escreveste e publicaste, em 2019, junto com colega, um Livro chamado “Introdução à Liturgia”. Qual é relação entre liturgia e vida cristã em comunidade?
Frei Carlos: Na verdade eu havia elaborado este livrinho no ano de 2006, quando atuava como pároco da paróquia Santo Antônio do Partenon em Porto Alegre e era o referencial da Liturgia no Vicariato de Porto Alegre. Esta edição que saiu pela ESTEF (Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana), é uma versão revisada e um pouco ampliada da primeira versão. É um livro destinado principalmente para a formação de lideranças das comunidades, por isso, é de um linguajar simples, facilmente assimilável, do essencial que precisamos conhecer para celebrar melhor o mistério de Jesus Cristo e alimentar nossa fé.
SITE NEIPIES: Na sua visão, o que identifica e o que caracteriza o jeito de ser e viver do cristão católico?
O jeito de ser e viver do cristão católico, em todos os tempos, e mais intensamente hoje, nesta névoa de incertezas, nesta pulverização de expressões religiosas, nesta onda polarizante de fanatismos e intolerância, se caracteriza pelo seguimento e pela configuração com Jesus Cristo, no assemelhar-se a ele em seu ser, agir e estilo de vida.
Jesus, deixa bem claro quando nos convida: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz todos os dias, e siga-me”. Também quando fala da identidade do cristão católico, logo após o gesto do lava-pés nos diz: “É pelo amor que tiverdes uns pelos outros que todos saberão que sois meus discípulos”.
É indispensável ter a sensibilidade e a fé de reconhece-lo presente na sua Palavra, na Eucaristia, na Igreja, seu Corpo, e nos outros, especialmente no mais necessitados, vivendo com eles a misericórdia, a compaixão, a solidariedade: “Tudo o que fizestes a um desses menores, meus irmãos, foi a mim que o fizeste”.
SITE NEIPIES: Qual é a mensagem do Cristianismo para este momento histórico?
Frei Carlos: A razão da fé cristã, é a ressurreição de Jesus Cristo. Por mais difícil que possa parecer, por mais que as forças do mal parecem agigantar-se, por mais que um sistema de morte parecer perpetuar-se, por mais que a idolatria do mercado multiplica os sacrifícios humanos no altar da humanidade, a força da vida que vem do Deus da vida, e que remove a pedra pesada do túmulo, vence o último inimigo: a morte, com todas as suas formas de expressão. Esta fé que moveu os apóstolos e os incontáveis santos e santas na história, deve ser também a nossa razão de viver.
Nós somos membros do corpo de Cristo que venceu a morte, se formos dóceis ao mesmo Espírito que o moveu a fazer somente o bem, com ele haveremos de ser vencedores.
SITE NEIPIES: Qual é a importância do diálogo inter-religioso, frequentemente praticado e difundido pelo Papa Francisco, neste momento histórico?
Frei Carlos: Todos, independente de nacionalidade, raça, religião, somos inquilinos temporários na mesma Casa Comum, a Mãe Terra. Apesar de toda esta rica diversidade, com suas contradições, os mesmos problemas nos afetam, os mesmos sonhos nos movem, por isso o entendimento a partir do que temos de comum, é de fundamental importância, ter como meio e caminho, o diálogo. E existem muitas pessoas que tem responsabilidades sobre os povos, e são movidos pelo bom senso, estão abertos a este diálogo. Por isso, mais do que competir, guerrear, é preciso unir, dar as mãos.
Neste aspecto, o Papa Francisco, é uma pessoa iluminada, carismática, que vai ao encontro das lideranças das nações, dos Movimentos Populares, e de todas as forças influentes, buscando proximidade, entendimento e soma de forças no empenho de salvar nossa Casa Comum e tudo o que ela contém. Somos um grande organismo vivo, e o diálogo inter-religioso, é o caminho para superarmos divisões, darmo-nos as mãos, superarmos adversidades e construirmos a unidade.
SITE NEIPIES: Que aprendizados a Igreja Católica Apostólica Romana está fazendo a partir da necessidade do “isolamento social” em função da Pandemia do Covid-19, nas suas formas de comunicar e levar a mensagem de Cristo a quem queira ouví-la?
Frei Carlos: É uma experiência ímpar, um aprendizado, sobretudo, um momento de refletir sobre o sentido e a fragilidade de nossa vida. refletir sobre os valores que cultivamos, e o que verdadeiramente importa.
O isolamento social, associado a todas as recomendações das pessoas sensatas, por ser comprovadamente o meio mais seguro de proteção e evitar o contágio, é a grande insistência do Papa Francisco, da presidência da CNBB, como expressão dos que amam a vida. Com o isolamento social, evitando aglomerações, também nos ambientes celebrativos, despertou-se para a importância das formas virtuais de comunicação e de celebração da fé, e a valorização da família como “Igreja Doméstica”, lugar por excelência do cultivo da fé, da oração, da escuta e da convivência.
As celebrações sem a presença física dos fiéis, soa um pouco estranho, mas por outro lado, nos bancos vazios, a gente tem presente todas as pessoas, a humanidade e vai criando a percepção do templo global, com a presença de toda a humanidade, com quem e por quem a gente celebra. Toda esta mudança, requer docilidade ao Espírito Santo que desperta em nós o senso da criatividade, para poder chegar ao coração dos que rezam conosco de forma virtual.
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos que leem esta entrevista agora, principalmente aos jovens e professores?
Frei Carlos: Num mundo marcado pela cultura do ódio, da indiferença e da intolerância, somos chamados a resgatar e viver a solidariedade, a misericórdia, a compaixão, que se expressam pela ternura que é parte fundamental do ser humano como oferta e como demanda. Está inscrita no mais profundo de cada ser humano.
A ternura é super-abundância do amor compartido. A ternura é o amor que abraça, envolve, protege e salva. Esta ternura abraçadora, envolvente, protetora e salvífica é da essência de Deus. Em Maria e em Jesus a ternura divina se manifesta em toda sua plenitude. Viver a ternura não é possível sem a graça de Deus.
Ser compassivos para com os outros, parte da experiência da própria necessidade da ternura de Deus, em quem a misericórdia e a fidelidade, a compaixão e a solidariedade se entrelaçam num abraço que abarca toda a humanidade, e toda a criação.
A ternura é a mais formidável, universal e misteriosa das forças divinas inscritas no coração do homem capaz de transformar o mundo. A ternura é a chave que abre os corações fechados e transforma os corações empedernidos em corações de carne.
SITE NEIPIES: Algo a mais que gostarias de dizer.
Frei Carlos: Sou muito grato a Deus que não se deixa vencer em generosidade e misericórdia. Seu amor é incondicional. Sou grato às incontáveis pessoas que no anonimato colocam seus dons a serviço da vida e de um outro mundo possível, mais justo, fraterno igualitário, um mundo sem senhores e escravos, mas um mundo de irmãos.
Sugestões de uma prática pedagógica
Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do sétimo ano, segundo trimestre, Unidade temática “Manifestações religiosas/crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento: “Lideranças religiosas” e “Habilidades”: reconhecer papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições religiosas/identificar lideranças religiosas presentes no espaço municipal e suas contribuições à formação espiritual/exemplificar líderes religiosos que se destacam por contribuições à sociedade.
Questões para aprofundamento conhecimentos da Igreja Católica, Apostólica e Romana.
Uma das formas de seguir a Jesus Cristo, na Igreja Católica, é a ordenação presbiteral (ser padre). Você leu a história e a atuação do Frei Carlos Raimundo Rockembach. O que mais lhe chamou atenção?
O Papa Francisco pede uma Igreja em saída. O que significa uma Igreja em saída? (aprofundar o assunto com pesquisas na internet)
Segundo Frei Carlos, o que identifica e o que caracteriza o jeito de ser e viver do cristão católico?
Quais são os esforços do Papa Francisco na promoção do diálogo inter-religioso?
Frei Carlos segue a espiritualidade franciscana (de Francisco de Assis). Faça uma pesquisa na internet sobre a vida e as ideias de Francisco de Assis.
O que são as Santas Missões Populares? (Pesquise na internet, ou nesta matéria, e faça um resumo). Se você tem familiares católicos, pode também conversar com eles para ver se já participaram de eventos de Santas Missões Populares e pode registrar esta conversa, em forma de memória.
A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.
O ciclo da história humana que sucedeu o período medieval é conhecido como modernidade. A modernidade passou por várias etapas, tendo como um dos marcos iniciais, as grandes navegações e a chegada dos europeus na América.
A revolução industrial e a revolução francesa, são dois marcos sinalizadores de uma nova etapa da modernidade. Nó século XX, as disputas entre os modelos sociais capitalistas e socialistas e os confrontos pelo poder, simbolizadas nas duas guerra mundiais, no fim das grandes ditaduras e na ampliação das democracias, sugere a caracterização de uma nova etapa para a modernidade.
A partir das últimas décadas do século XX, evolução tecnológica impulsionada pela internet, que revolucionou a comunicação, simbolizou mudanças profundas nas relações humanas que, em nome da progresso, elevaram a instrumentalização da natureza, provocando um aumento no distanciamento dos seres humanos entre si e na desumanização.
O desenvolvimento da inteligência artificial possibilitou a produção muito além do que seria o necessário para a sobrevivência digna de todos os seres humanos existentes no planeta terra. Paradoxalmente ao excesso de produção, de circulação facilitada e rápida das mercadorias, das pessoas e das informações, a humanidade passou a conviver com a falta do básico para a maioria das pessoas.
Para uma leitura e interpretação adequada da crise vivida pela humanidade nas últimas décadas, e frequentemente escondida, duas contradições devem ser evidenciadas. Uma entre a produção de bens materiais, mais do que o necessário para todos e a realidade social na qual a maioria das pessoas estão vivendo sem alimentação e sem habitação adequadas. Outra contradição está simbolizada na rapidez das informações, com a ampliação dos meios de comunicação e o aumento das dúvidas, desinformações, incertezas e desorientações. Estas duas contradições sugerem que o modo de organizar a vida, pautado pelo progresso visando o crescimento econômico e o lucro ilimitado se esgotou, chegou no limite e perdeu o sentido.
A exaltação do individualismo ilimitado, subordinado ao consumismo, e a produtividade está sendo abalado pelas mortes causadas pelo Covid 19, que não foram prevenidas por um modelo de desenvolvimento que destruiu e distanciou o ser humano da natureza.
A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.
A construção de uma transformação profunda que pode possibilitar a evolução da humanidade, está vinculada com a substituição dos valores individualistas, egocêntricos e antropocêntricos por valores alicerçados na solidariedade, na imaterialidade, na evolução espiritual, na reconexão dos seres humanos entre si e com a natureza.
“Mujica emite seu pensamento em frases como: “Não podemos ser fanáticos. Temos que ter a ousadia política de inovar. Devemos ter a honra intelectual de reformular o caminho”. Tais compreensões permitem uma visão alargada do conceito de política, além de uma única determinação da atividade política, como gerenciamento de conflitos ou como gestão da economia. (Cecília Pires)
Fica claro quem morrerá: poucos ricos e muitos pobres. “E daí”, dirá o presidente, cuja política econômica é voltada para os interesses da elite.
Eu não sei se meu prezado leitor já percebeu, mas o Covid-19 é uma doença de risco, no sentido de que ela atingiu primeiramente os privilegiados, os viajados, os globalizados. Foram eles os primeiros infectados e foram eles os transmissores para o resto da população.
Este fato foi decisivo para o surgimento de opositores enfáticos ao governo, diante da inépcia de Bolsonaro. As barbaridades contra a soberania nacional, assalariados, a educação, cultura e democracia, embora graves, não pareciam sensibilizar grande parte da elite.
Agora não. A própria elite que o elegeu percebe que, em poucos meses, Bolsonaro transformou o país em uma República da Esculhambação.
Quem age com base no cálculo eleitoral e deixa de lado tudo mais, conviria que tivesse presente as lições da história – quando quis enfrentar a ciência, nunca a política ganhou. Ao contrário, sempre perdeu.
Estamos chegando com a pandemia a um patamar desesperador em algumas regiões do país. Com o insuficiente e precário sistema público de saúde, não é difícil de adivinhar quais serão as principais vítimas: os pobres e humildes.
Como pedir a uma parcela de 35 milhões de brasileiros que não têm água potável nem sequer para lavar as mãos que se proteja do vírus? Como exigir que 13 milhões que vivem abaixo da extrema pobreza que mantenham padrões de higiene para se prevenir do covid-19? Beira ao deboche.
Fica claro quem morrerá: poucos ricos e muitos pobres. E daí, dirá o presidente, cuja política econômica é voltada para os interesses da elite.
Aqui aparece a chaga histórica do Brasil, a desigualdade. A abolição tardia da escravidão fez com que milhões ficassem disponíveis para trabalhar com um mínimo de dignidade. Na esfera política, o poder sempre esteve nas mãos das classes abastadas.
O Brasil se transformou em um dos campeões de desigualdade social no mundo. A soma da riqueza de todas as famílias brasileiras é de cerca de 16 trilhões de reais, mas a metade, 8 trilhões, encontra-se nas mãos de 1% de abastados. Agora, alguns bilionários estão fazendo benemerência.
Não vale, entretanto, fazer benemerência com dinheiro público. A filantropia no Brasil, sempre foi feita para granjear aprovação da opinião pública, mas as despesas são abatidas do Imposto de Renda. No fim das contas, nós é que pagamos.
Quem sabe, diante desta tragédia, a sociedade brasileira coloque em pauta a redução desta criminosa desigualdade, vencendo as barreiras criadas pela mentalidade elitista e escravocrata das classes dominantes, taxando as grandes fortunas.
Mais. Está na hora dos cidadãos que reclamam do tamanho do Estado, de sua suposta corrupção e ineficiência, que comecem a revisar suas opiniões. É hora de debater sobre o aumento do papel do Estado, dos serviços públicos e em especial da saúde.
É preciso rever o egoísmo, o anti-igualitarismo, a ganância extremada, a incultura, o irracionalismo dos chamados “homens de bem”; dar lugar aos sentimentos de fraternidade, igualdade, equidade e aos verdadeiros princípios humanitários e cristãos.
Cabe aqui lembrar do que disse o personagem Dr. Rieux, do romance A Peste (1947), de Albert Camus. “Pode parecer uma ideia ridícula mas a única forma de combater a praga é através da decência”.
Ao falarmos das religiões de matriz africana precisamos, em primeiro lugar, deixarmos em “alguma gaveta” a nossa visão ocidental de mundo e isso deverá ser um exercício bem abrangente.
Nossas vivências e nosso entendimento de religiosidades está profundamente marcada pela visão judaico-cristã. Ainda que não sejamos praticantes de nenhuma religião, temos conhecimentos sobre santos, bíblia, igrejas, papas, etc… Isto está na midia, nos livros de história, nas conversas entre famílias, nos livros e imagens de arte, na literatura, na música, na arquitetura e no nosso vocabulário.
Quantas vezes dizemos “Meu Deus” ou “vai com Deus”; quantas vezes desenhamos em nossa infância um presépio; quantas vezes rezamos um Pai Nosso na escola; quem nunca cantou Noite Feliz? Os exemplos da força do cristianismo na vida de todos nós poderia encher páginas e isso marca profundamente a nossa compreensão e aceitação de práticas religiosas.
Precisamos entender que a visão de mundo trazida pelos escravizados para o nosso país era totalmente diferente da visão dos colonizadores. Tudo que era sagrado para os Africanos, foi demonizado.
Todo a cultura trazida por eles foi desqualificada, esvaziada de sentido e proibida. Nossa visão estética está turva, pois não conseguimos ver beleza em outros padrões que não sejam eurocentrados. Não entendemos uma conexão com o sagrado que não seja através do silêncio ou de canções “respeitosas”; o tambor e a dança são considerados profanos.
Os praticantes das religiões de matriz africanas aqui no Brasil, ultrapassaram essa barreira estética e cultural. Conseguem ver a beleza na dança, no som do tambor, nas guias coloridas que adornam e protegem seus corpos, no canto, na voz, no axé que é a energia divina construída e mantida através dos rituais sagrados.
Quando conseguirmos abrir uma gaveta para colocarmos toda uma nova visão de cultura e religiosidade dentro, um arquivo de novas referências em nossas mentes; quando soubermos enxergar a beleza em outros padrões, em outras práticas, estaremos dando passos largos e seguros em direção a um futuro de harmonia e respeito.
Tânia Mara Duda Nome religioso: Tânia de Obá Iniciada na Umbanda e Batuque Coordenadora da Escola de Teologia Umbandista da Associação de Umbanda Caxias – Caxias do Sul.
Cosmovisão
E de repente nos damos conta de que estamos aqui.
E diante da imensidão, do todo e de tudo que nos cerca, descobrimos que não sabemos nada.
Nasce então dentro de nós, um conjunto de interrogações: Quem somos? De onde viemos e por quê estamos aqui? Para onde vamos?
Respostas inconclusivas, baseadas em suposições, teorias e admissão de possibilidades; apresentadas por alguém , aceitas, defendidas e sustentadas por civilizações ao longo dos tempos.
Cosmovisão africana
Diante da imensidão do cosmos e cientes de nossa fragilidade, impotência e medo ante determinadas situações, num pensamento coletivo, projetamos para fora de nós, para o além, alguém ou algo detentor de todos os poderes imagináveis e de toda a sabedoria possível; em quem buscaríamos forças e respostas nos momentos de dificuldades e incertezas.
E assim o humano criou o Ser supremo e deu à ele os mais diversos nomes ao longo dos tempos, em todas as civilizações. Mas, tudo começou na Àfrica, berço da humanidade.
Os povos africanos criaram um complexo sistema de crenças que explica e justifica tudo; e esse tudo, está o tempo todo na vida dos africanos; e essa relação cotidiana com o sagrado, é o que chamamos de espiritualidade e que nada tem a ver com religiosidade ou religião. Esse é um outro conceito, um outro entendimento.
Autor: Ipácio Carolino Pinto
Segue entrevista com Ipácio Carolino Pinto ( Orùkó – Èsú Abimbade (Nome africano) Duplo pertencimento: Bàbálorixá (Sacerdote do Batuque-RS) e Cacique de Umbanda (religião brasileira).
SITE NEIPIES: Como, quando e porquê fez sua iniciação à religião?
Ipácio: A tendência é sempre sermos iniciados na religião de nossos pais, pois, não fazemos escolhas quando recém nascidos. Quando dei por mim, já estava dentro da Umbanda; ou a Umbanda já estava dentro de mim. Fui batizado num terreiro e cresci acompanhando minha mãe nesses espaços; embora por força de um contexto histórico, herança da escravização, tenha vivenciado também, ensinamentos da visão judaico-cristã como: primeira eucaristia etc…Mas, o coração bateu mais forte, nos ritmos afro – indígena, Saravá Umbanda!
A iniciação no culto aos Orixás (Batuque do Rio Grande do Sul) se deu bem mais tarde, já na fase adulta e de forma espontânea: foi conhecer, se reconhecer como pertencente à esse espaço; e começar a caminhada.
SITE NEIPIES Quais as diferenças entre entidades e Orixás?
Ipácio: Seguem as diferenças:
Entidades trabalham(incorporam), na Umbanda; são espíritos que já tiveram uma experiência no corpo físico, passaram pela vida, tal qual a conhecemos; e após a morte, conectam-se com os vivos, interagem com quem ainda permanece nesse plano.
Orixás – termo africano yorubá, que define seres invisíveis que estão acima dos vivos e dos mortos e com poderes para nos ligar, nos aproximar de Òlódumàré, Òlórúm ou N’zambi (o Ser supremo).
SITE NEIPIES:O que significa axé?
Ipácio:Quando uso a expressão “yorubá”, me refiro aos homens e mulheres que foram capturados no continente africano, onde hoje ficam o Benin e a Nigéria, para serem escravizados no Brasil. Pois bem; Axé é um termo yorubá que significa: ‘Força Vital’. Mas também pode ser entendido como “tudo que é bom”.
SITE NEIPIES: Qual o sentido e o significado das oferendas?
Ipácio: Oferendas (na Umbanda) ou Ebós(no Batuque), são formas de interagir com as entidades ou com os Orixás; é uma forma de comunicação(agradecimento ou compartilhamento) com o sagrado.
SITE NEIPIES: O que é um terreiro? Como ele se forma e se articula com a comunidade?
Ipácio:O terreiro está para a Umbanda e o Batuque, assim como a igreja está para o cristão, a sinagoga para o judeu ou a mesquita para o muçulmano; é um local de culto ou práticas litúrgicas. Esse espaço é integrado por um sacerdote ou uma sacerdotiza, pela corrente mediúnica ou filhos de santo e pelo público simpatizante.
A um terreiro, pode-se fazer uma série de analogias, mas é essencialmente um lugar de acolhimento e cuidados; e o ideal é que promova ações e atividades que envolvam a comunidade onde se localiza.
SITE NEIPIES: Qual foi seu caminho para se tornar um pai de santo?
Ipácio:Tornar-se um bàbá, uma iyá do Batuque ou cacique de Umbanda, demanda tempo, estudo, vivência, dedicação e vocação.
SITE NEIPIES Quais são suas maiores realizações como liderança religiosa?
Ipácio: Religião é um enquadramento; espiritualidade é a busca pelo autoconhecimento e a descoberta do potencial que há dentro de cada um. Eu me realizo quando o(a) consulente entende a diferença entre uma coisa e outra; e opta pela elevação.
SITE NEIPIES: Que tipo de atendimentos normalmente são oferecidos num terreiro?
As pessoas trazem para o terreiro, queixas, necessidades, fragilidades, sonhos…Cabe às entidades ou divindades trabalhar essas questões, dando respostas ou soluções, quando possível.
SITE NEIPIES: Quais são os maiores desafios de resistência e existência das religiões de matriz africana:(desconfiança, preconceito ou marginalização)?
Ipácio: Tudo junto e misturado. Lutamos desde sempre contra esse combo de perseguição instalado inicialmente pelo “estado” em parceria com a igreja católica e aceito e reproduzido pela “sociedade” racista e intolerante.
SITE NEIPIES: Qual sua mensagem aos professores e estudantes?
Ipácio:A forma mais eficaz de se combater qualquer forma de preconceito, discriminação ou intolerância, é com informação e conhecimentos (corretos) e educação de qualidade.
Saravá!
Axé!
Religiões Afro-brasileiras: as religiões afro-brasileiras são aquelas que têm origem nas tradições dos negros africanos trazidos para o Brasil como escravos. Essas crenças possuem maior ou menor grau de influência europeia e indígena e nascem da cultura de diversas etnias africanas, como iorubás, lundas e ashantis. As mais conhecidas são o Candomblé e a Umbanda. Esta edição do Unidiversidade mergulha nesse universo para conhecer um pouco mais sobre essas religiões.
Em comemoração à Década Internacional de Afrodescendentes, documentário produzido pelo Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio) aborda as causas da intolerância religiosa e a riqueza da cultura afrodescendente no país.
7 Diferenças entre Umbanda e Candomblé
Sugestões de uma prática pedagógica
Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do sétimo ano, segundo trimestre, Unidade temática “Manifestações religiosas/crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento: “Lideranças religiosas” e “Habilidades”: reconhecer papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições religiosas/identificar lideranças religiosas presentes no espaço municipal e suas contribuições à formação espiritual/exemplificar líderes religiosos que se destacam por contribuições à sociedade.
Questões para aprofundamento conhecimentos de religiões de matriz africana.
Cosmovisão é visão de mundo. Que aspectos da cosmovisão africana você destacaria?
Discuta com colegas (em grupo) sobre a dificuldade que a maioria dos brasileiros ainda tem de reconhecer e respeitar a cultura negra que vem resistindo no Brasil para não acabar?
Na entrevista do Ipácio Carolino, aparecem vários conceitos que são importantes na Umbanda e no Batuque. Quais destacaria?
Assista ao segundo vídeo (https://youtu.be/tSbl2LwFB1s?t=18) e descubra quais ainda são as razões da intolerância contra as religiões de matriz africana no Brasil.
A isso podemos chamar de crise. Na verdade, uma porção delas: crise econômica, crise social, crise médica. E como nós, cidadãos comuns que estamos impacientes na espera de respostas, podemos lidar com essa angústia?
– Discorde-se quem puder!
Espera, não entendeu? Então, vem comigo! Mas, antes de tudo, devemos lembrar-nos de aceitar racionalmente a incerteza e tomar cuidado com possíveis consequências `non gratas’ do nosso desejo instintivo de ver padrões no que pode ser uma mera casualidade. Calma. Leia de novo, com todas as pausas que julgar necessárias, pois é exatamente disso que vamos tratar de refletir neste texto. A frase pode não parecer atrativa em primeiro momento, mas tem fundamental importância para entender nosso comportamento diante do mal-estar na sociedade.
Sob condições de sobrecarga de informações e ansiedade relacionada à incerteza – e estamos em um período demasiadamente incerto -, temos a tendência crescente de favorecer inadequadamente as informações adquiridas recentemente, devido à sua facilidade do que podemos chamar de recall – uma heurística conhecida como viés de disponibilidade. Calma, eu vou facilitar, eu prometo, vem comigo.
O período que estamos passando – a pandemia de 2020 – nos traz uma série com abundantes episódios de incertezas sobre, basicamente, tudo. Quanto tempo vai durar? Quando vamos encontrar um tratamento ou vacina? Que medicamento profissionais da saúde devem dar aos pacientes? Quando todos voltarão ao trabalho?
Provavelmente todos nós, seres mortais, já nos deparamos com alguma dessas perguntas flutuando em nossas mentes enxugadas de vieses cognitivos, aqueles, que contornam nossas incertezas. Ora pois, mas é claro. Isso é natural do ser humano, né.
Pensar, ideologizar, problematizar, reinventar. Mas vem aqui comigo só um pouquinho. Quantas respostas nós temos para cada uma dessas perguntas? Tantas. Parece que o mundo é incerto e o fim está sempre perto, como diria um certo artista que não vem ao caso.
Enfim, onde está a solução? A isso podemos chamar de crise. Na verdade, uma porção delas: crise econômica, crise social, crise médica. E como nós, cidadãos comuns que estamos impacientes na espera de respostas, podemos lidar com essa angústia? As pessoas estão morrendo! “Edaí?” – Como diria… não lembro quem.
Muitos observam essa enfermidade deslocando seus traumas mais impetuosos e mal resolvidos para o jogo do conflito, em meio a cruzadas: o ódio colossal. Aqui no Brasil, parece que somos uma referência forte nesse quesito. Mas acredito que não somos exclusivos, não. Nas situações emergentes, o que prevalece é a cegueira ao padrão de desejo instintivo, o qual pode ser uma mera casualidade. A isso, não podemos chamar de razão. Conquanto, outros são otimistas, outros negam (ah, lembrei!), outros são pessimistas, outros querem a revolução, assim como fez nosso mais prestigiado sanitarista brasileiro, que sim, você sabe quem é, né? Claro que sabe, quem não gostaria de uma mente brilhante como a de Oswaldo Cruz neste momento… ah, dele não posso me esquecer.
Pois bem. Alguém nos diz, em tom gritante e destemperado: Cloroquina é a salvação! – Outrora, um novo componente – Hidroxicloroquina é eficaz! – Ou, por bem, vejamos, o Ritonavir? Azitromicina? Remdesivir? Mas que tal fazer como Waldick? Tome Anemokol!
É, é. Dentre essas e outras, pairamos nas `soluções’ regadas de incertezas em nome da emergente situação que nos espanta. E discutimos, debatemos, brigamos, cortamos relações nas nossas telas virtuais. Isso assola o bem-estar social, que já não está nos seus melhores picos desde… anos. Contudo, não podemos negar o caos.
Mas, perceba a necessidade que por vezes temos – e aqui devo me colocar como réu confesso -, de compactuar com o caos. “Se você não acredita na Cloroquina, é simples, não tome quando estiver morrendo”, ou “AH, MAS ESSE BANDO DE IRRESPONSÁVEIS, QUERENDO EMPURRAR CLOROQUINA GUELA ABAIXO! ASSASSINOS!”, é, porque é, porque é. Por vezes a gente caí nos precipícios. Tem gente, que vive por lá…
Compactos ao caos. Triste loucura. Loucura essa que não passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e “demasiado certo”. A isso, não podemos chamar de razão. Pensamos nisso juntos, e assim, posso me colocar. Um lembrete para raciocinar. Contribuir construindo, a medida que vivemos uma crise biopsicossocial, raciocinando criticamente e refletindo sobre os vieses que podem influenciar nossos processos de pensamento. Ah, isso é trabalhoso, com certeza. Mas é um trabalho digno, que fazemos para o nosso bem e que esta diretamente ligado a uma raiz – uma guerreira raiz -, do nosso bem-estar social.
Como eu poderia contribuir em meio ao caos? Atacando o argumento que não me convém ou construindo uma união racional? O primeiro meio é o mais fácil, mais atraente, pelo fato de instigar a mediocridade, que tanto conforta, que tanto almeja as incertezas casuais. O segundo é trabalhoso, pouco atraente por este fato – é verdade -, mas, instigador da veracidade. Envolve vários processos, dentre eles, o autoconhecimento. Este, procura aceitar racionalmente as incertezas. Porém, os caminhos estão à beira da loucura.
Então eu digo: SALVE-SE QUEM PUDER! – Ou melhor – DISCORDE-SE QUEM PUDER! Pois assim percebemos o poder e a importância dela… da dolorida e tão construtiva autocrítica. Mas, lembre-se de ter cautela, cautela para não cair nela, na triste loucura, ou melhor… na balela.
Reflexão inspirada nas seguintes referências:
1.Mal- estar na Civilização – Sigmund Freud
2. PerspectiveCovid-19 – A RemindertoReasonIvry Zagury-Orly, B.Sc., and Richard M. Schwartzstein, M.D. – NEJM
3.Nietzsche, Vida e Obra – Editora Nova Cultural Ltda.
Arnaldo Porto, 68 anos, nascido na cidade e Erechim-RS, formou-se médico em 1977 pela UCS (Universidade de Caxias do Sul). Atua em Passo Fundo, RS, desde o ano de 1988, especialmente nas especialidades de alergista e imunologista.
Porto é um estudioso da medicina e da sociedade, um ser humano preocupado com seus pacientes e com os destinos da humanidade. Atua em sua clínica e em hospitais de nossa cidade, fazendo acompanhamento de médicos residentes e que estão buscando formação em especialidades.
Na entrevista que segue, Arnaldo Porto falará sobre as suas realizações como médico, sobre o papel da medicina e sobre as pandemias, bem como suas consequências na saúde e na vida das pessoas e na organização da sociedade.
SITE NEIPIES: Doutor Arnaldo, fale-nos como, quando e porquê o Senhor decidiu empreender sua vida na medicina.
ARNALDO PORTO: Decidi ser médico ainda no antigo ginásio/oitava série. Foi uma vontade pessoal, pois tinha que decidir entre ser das humanas ou ser da área técnica. Estudava em Erechim, no Colégio Marista Conceição e tive de decidir. A decisão foi pela área de Humanas, pois medicina trabalha com gente. Esta decisão me custou sair de Erechim e morar e estudar fora da minha cidade.
SITE NEIPIES: O que mais lhe realiza e o que mais lhe intriga como médico?
ARNALDO PORTO: Me realizo, me sinto bem, quando consigo ajudar a resolver ou aliviar o problema da doença, do sofrimento dos pacientes. Gosto muito desta relação médico-paciente. O que me intriga, incomoda, deve ser assim com todo médico, quando não conseguimos ajudar ou dar soluções para aqueles que muito esperam da gente como médico.
SITE NEIPIES: Além de médico, atuas como professor. Nos diga um pouco mais sobre esta experiência. Qual é o papel da educação hoje?
ARNALDO PORTO: Acompanho médicos que fazem pós-graduação/especialidades no Hospital de Clínicas e na Faculdade de Medicina da UPF com residentes. É importante poder repassar a nossa prática, dar a segurança a eles que estão querendo conhecer e consolidar sua atuação médica. Quanto à educação, modo geral, é a base para a formação e cultura de um país, de uma nação. Com pouca educação ou má educação, não conseguimos obter progressos, não conseguimos evoluir. Precisaríamos priorizar muito mais a educação para sermos um país com mais progresso e autonomia.
SITE NEIPIES: Qual foi e qual é, hoje, o papel da medicina e dos conhecimentos científicos no enfrentamento às diferentes pandemiasao longo da história?
ARNALDO PORTO: Em todos os momentos de pandemia, de dificuldades, de pestes, a medicina se superou, ultrapassou limites e soube dar sua contribuição para a resolução dos problemas humanitários e de saúde. A medicina sempre ousou mais e fez processos de superação, dispondo de todo conhecimento acumulado e das tecnologias para fazer o melhor, como faz hoje, na pandemia do COVID 19. Sem os conhecimentos da medicina, morreríamos todos.
SITE NEIPIES: Como profissional da medicina, como vês a Pandemia do Covid 19?
ARNALDO PORTO: Um verdadeiro caos que se apresenta a todos, em todo mundo. Um desconhecido vírus que veio nos desconcertar na nossa forma de ver o mundo, ver a vida e os conhecimentos que já imaginávamos dominar. Um vírus que veio para mudar nossas concepções de vida, de mundo e de saúde.
SITE NEIPIES: Modo geral, os diferentes países do mundo e o Brasil tem acertado nas estratégias de enfrentamento ao novo vírus?
ARNALDO PORTO: Apesar do inusitado, do temor e do medo que causa o vírus, os países do mundo, incluindo o Brasil, têm se superado muito. Têm aprendido rapidamente com a experiência dos outros. Os países tem se unido para compartilhar informações e tecnologia para enfrentar a pandemia.
O isolamento ou distanciamento social ainda é a melhor forma de conter o avanço do vírus e dar capacidade aos Sistemas de Saúde atenderem os que precisam de cuidados mais especializados. Afinal, ainda não temos cura e nem temos vacina.
SITE NEIPIES: Como vê o papel da mídia no combate à pandemia?
ARNALDO PORTO: Hannah Arendt, já disse, a partir dos horrores da segunda guerra mundial, sobre os efeitos da “banalização do mal”, de que uma sociedade massificada gera uma multidão de incapazes de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar.
Também agora, quando a grande imprensa trata o tempo todo, todos os dias, os números e a complexidade da doença, passamos a ter ideia de que é natural a morte pelo Covid, de que não nos sobra muito senão morrer, se não tivermos cuidado, médicos…. Ainda vejo a grande mídia investindo no medo e não na informação e na educação sobre a pandemia.
SITE NEIPIES: Quais as consequências do distanciamento social, nas relações familiares, a convivência conjugal, o cuidado com os filhos, a sanidade mental?
ARNALDO PORTO: Muito difícil saber, mas as leituras do mundo científico e das notícias e da realidade que faço é que a população, modo geral, está sofrendo muito. Aumentou a venda de bebidas alcóolicas, aumentou a violência, os conflitos interpessoais, a violência contra as mulheres, o desentendimento entre as pessoas. Vivemos um momento com falta de paciência, ansiedade e ausência de perspectivas claras sobre o futuro próximo.
SITE NEIPIES: Como o senhor acha que sairemos desta pandemia?
ARNALDO PORTO: Gostaria que saíssemos melhores, mas temo que não aprendamos muito. Que no futuro próximo esqueçamos tudo o que estamos vivendo hoje. O exemplo das ruas cheias, logo após a abertura do comércio nas cidades, comprova que, talvez, não aprendamos a conviver de um jeito novo, aproveitando os aprendizados que estamos tendo com a pandemia.
SITE NEIPIES: Quem mais sofre com as consequências e implicâncias do isolamento neste momento da pandemia?
ARNALDO PORTO: Quem sofre mais são os adolescentes e jovens e os mais velhos. As crianças não sofrem tanto porque não tem a noção exata e nem a dimensão do problema, administram melhor as situações. Já os jovens sofrem com ansiedade, com a dificuldade de encarar e pensar a morte que rodeia a todos. Os jovens precisam, neste momento, de muito amparo de suas famílias. Imaginemos a situação destes jovens quando não têm apoio das famílias. E os mais velhos, pelo isolamento, pela depressão, pela dificuldade de entender a mudança de comportamento tão grande que a maioria dos que os rodeiam passou a ter.
SITE NEIPIES: Por que, mais do que nunca, é preciso pensar nos outros, viver a coletividade?
ARNALDO PORTO: Na pandemia do COVID 19, para sobreviver, precisamos também dos outros. Precisamos exercer a solidariedade e a fraternidade, que andavam esquecidas. Precisamos pensar em saídas que não implicam só a vida da gente, mas a vida de todos. Mudou tudo o que vínhamos aprendendo, sobretudo o egoísmo que havíamos incorporado na rotina da gente.
SITE NEIPIES: A verticalização das cidades, até o presente momento, era apontada no mundo como uma das saídas para organização urbana. Depois da pandemia, esta teoria ainda se sustenta?
ARNALDO PORTO: Esta é uma questão que precisa ser levantada, ser refletida. Era um modelo de cidade no Brasil e no mundo, porque economicamente era mais viável oferecer as condições de vida. É mais caro levar esgoto, agua, ruas, quando a cidade é horizontal. Mas o que me preocupa mesmo é a aglomeração, a multidão, a concentração das pessoas e dos serviços tudo no Centro das cidades. Talvez fosse o caso de levarmos alguns serviços dos centros urbanos para os bairros, ou para outras regiões das cidades. Outro fator que preocupa é que concentramos tudo no centro durante o dia e a noite o centro fica deserto, abandonado, sem gente. São reflexões que precisamos levantar, para pensar saídas para melhor convivência nas cidades.
SITE NEIPIES: Quais são as suas esperanças na humanidade, a partir das grandes experiências que o início deste século 21 nos apresenta?
ARNALDO PORTO: Sou um pessimista realista, mas tenho esperanças. Percebo que, ao longo dos últimos séculos, a humanidade vem evoluindo. Estamos nos tornando melhores seres humanos. Mas, no Brasil, um pouco diferente de demais países do mundo, ainda temos a alta concentração de renda. As elites políticas e econômicas ainda não aprenderam que é necessário distribuir melhor a riqueza, para melhorar a vida de todos.
SITE NEIPIES: Como médico imunologista, que cuidados o senhor aconselha nesta época de pandemia?
ARNALDO PORTO: Há muitos alimentos que ajudam a termos uma boa imunidade. Mas o que importa é termos uma alimentação muito equilibrada, com vitaminas e sais minerais. Alimentos como Ômega 3, alimentos ricos em Zinco. Evitar, quando se pode, os alimentos processados e industrializados.
SITE NEIPIES: O que mais o Senhor gostaria de dizer sobre este momento histórico da vida no Brasil e no mundo?
ARNALDO PORTO: Que tenhamos Esperança. Que valorizemos os valores humanistas, que cultivemos valores mais solidários e menos egoístas. Mas não posso deixar de lembrar todos os profissionais da saúde, os verdadeiros heróis, estes que estão no “front” do combate à pandemia. Estes profissionais que, muitas vezes, arriscam suas vidas, trabalhando as vezes sem as condições mínimas de proteção, precisam ser valorizados e reconhecidos pela função única e essencial que cumprem para proteger a vida de todos nós.
Quatro jovens, de diferentes lugares do RS, aceitaram o convite para falar sobre sua escolha pelo magistério.
Apesar de saberem que esta profissão, na atualidade, é exigente, mal remunerada e pouco valorizada, as jovens declaram o seu amor à profissão docente e o desafio de realização pessoal e profissional através da educação. Em comum, ambas estudaram e se certificaram no Ensino Fundamental em escolas públicas.
O fato de conhecerem a realidade das escolas públicas e de seus grandes desafios, é algo super importante neste contexto. Em suas escolas, com certeza, encontraram professores e professoras inspiradores/as, mas também se deparam com profissionais desmotivados e doentes e que, por vezes, devem até ter desestimulado as mesmas para não escolherem a profissão docente. Por isso mesmo, seus depoimentos são muito importantes para aqueles e aquelas que ainda acreditam nos potenciais da educação, embora esta (a educação) não seja a salvação ou a única saída para um país.
Juntamente com a educação, as gerações mais jovens deveriam ter oportunidades mais igualitárias de estudo, de profissionalização e de geração de renda; deveriam ter mais estímulos quando a condição de suas famílias não permite; deveriam ter escolas mais e melhor equipadas para o desenvolvimento de suas habilidades neste momento histórico.
A produção desta matéria ocorreu a partir de um roteiro de perguntas que foram respondidas pelas jovens estudantes. Seguem as perguntas feitas a elas: a) O que fez você decidir pela profissão docente (ser professora)? b) Como vês hoje a situação dos professores e professoras, sobretudo os que atuam em escolas públicas? c) O que respondes aqueles que te desestimulam a ser professora? d)Como esperas realizar-te pessoal e profissionalmente, sendo professora num futuro próximo? e) Que boas lembranças ou ensinamentos guardas dos teus professores e professoras? f) O que os professores e a sociedade deveriam fazer para resgatar o valor da profissão professor?
Bárbara Vizini, estudante da Faculdade de História na UPF (Universidade de Passo Fundo) no quinto semestre, tem 20 anos, nascida no interior de Sarandi, RS. Bárbara declara-se otimista e aposta na mudança do mundo através dos jovens e a partir da educação.
Bárbara começou dizendo: “eu não perdi esperança no futuro, e o futuro virá pelos jovens que, para poderem fazer um bom futuro, precisam de boa instrução.
A situação dos docentes hoje, sem dúvida, é de descaso. O salário não é digno para a profissão, o respeito se torna cada vez mais escasso, o professor cada fez mais não é reconhecido dignamente.
Quando contava para pessoas que ia fazer a faculdade de História e ser professora, muitos olhavam nos meus olhos e diziam: “não dá dinheiro, vai morrer pobre, bah, tem certeza?” As respostas eram várias, mas quase num total de negativas. E eu respondia para essas pessoas que não era pelo dinheiro e perguntava se elas tiveram, tem ou terão tempo para ensinar aos filhos, netos, sobrinhos, enfim … E a resposta era somente o silêncio.
Sobre seu futuro como professora, Vizini espera se realizar sendo uma professora comprometida com o aprendizado efetivo do educando, que não passe somente conteúdos, mas também consiga fazer alguma diferença social com o seu trabalho.
Sobre seus professores, afirma que “de cada professor (a) tenho recordações diferentes mas, sem dúvida, a que mais me marcou foi a professora que me ensinou a ler e escrever. Ela sempre dizia que repetir era necessário para aprender, que é persistindo que se alcança o que quer.
Acredito que os professores formam as bases de uma sociedade, ” o professor é a profissão que forma todas as profissões ” mas para resgatar o valor da profissão docente, acredito que a sociedade precise ainda reconhecer e respeitar os docentes, assim como entender que são efetivamente necessários para se ter uma sociedade”.
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Outra jovem, Gabriela Helis Scherer, 16 anos, moradora da cidade de Dois Irmãos, RS, já no segundo ano do Magistério no Instituto Estadual de Educação Sapiranga, em Sapiranga, RS.
Assim escreveu:
“Acredito que meu interesse pelo magistério começou com experiências que tive com meus antigos professores dentro de sala de aula e fora, por sempre ter a vontade de ensinar e sendo muito mais do que só a matéria”.
Sobre a situação dos professores e escolas diz que “está bem complicado, pois vem pouca verba para as escolas (para a compra de materiais) e também pelos salários dos professores que não é valorizado”.
Sobre a percepção dos outros sobre sua escolha, a de ser professora, disse que “a maioria das pessoas comentam sobre o dinheiro, e eu responderia que dinheiro não é tudo (sei que é ele que paga minhas contas), mas a gratificação que tenho de ensinar e aprender todos os dias com os alunos não tem preço”.
Sobre a realização pessoal e profissional que espera no futuro da profissão: “Amar o que eu faço, e passando todo o meu conhecimento para os alunos”.
Quando perguntada sobre a lembrança de professores e o que precisamos fazer para dar mais dignidade à profissão docente, Gabriela afirma que lembra que “o olhar que eles têm além do aluno, mas como um ser humano, que todos têm dias difíceis. E querem sempre levar um outro ensinamentos, muitas vezes envolvendo a sociedade e nos fazendo abrir os olhos para tudo que está acontecendo nesse meio.
Além dos professores serem importantes para o crescimento de crianças e adolescentes, também são fundamentais na construção do país. A sociedade, ou seja, os pais dos alunos devem se mostrar disponíveis para a escola, participando dos eventos e atividades.
A valorização tem a ver também com a parte monetária mas não somente a financeira, o investimento nas escolas, em cursos superiores, em geral, na educação é de extrema importância para o aperfeiçoamento dos professores e também para motivar novas pessoas para a profissão”.
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Júlia Lengert, 15 anos, moradora da cidade de Passo Fundo, RS, aluna de escola da rede municipal. Durante o ano de 2019, no seu nono ano, revelou desejo de seguir carreira no magistério. Estuda na Escola EENAV (Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro), uma referência na formação de professores na cidade e na região, através do Curso Normal, antigo Magistério.
A jovem estudante começa sua participação nesta matéria dizendo:
“Sempre admirei boa parte de meus professores, e esse sentimento só foi crescendo ao passar dos anos. Ser professor é passar todo o seu conhecimento, não só em determinada matéria, mas também sobre a vida e suas dificuldades, para assim tornar seus alunos pessoas preparadas para o futuro, e é isso que me encanta”.
A jovem acredita que “os professores, não recebem seu devido valor, não só pelo salário precário que ganham, mas também pelo desrespeito de alunos em sala de aula, onde muitas vezes são ameaçados ou até mesmo agredidos por exercerem sua profissão.
Sou nova ainda, e não sei exatamente em que área quero trabalhar, mas escolhi a profissão por amor e esperança. Amor ao próximo, em passar meu aprendizado a várias crianças e adolescentes, e esperança de que um dia as pessoas não escolham suas profissões por dinheiro, mas porque realmente gostam do que fazem. Sei que são muitas as dificuldades, mas acredito que vale a pena.
Meus professores são minhas inspirações, aqueles que trabalham com amor tem minha total admiração, pois mesmo quando não estão em um bom dia, ou passando por uma fase difícil, deixam os problemas de lado para dar uma boa aula, planejar uma boa prova, ou muitas vezes nos ajudar com nossos próprios problemas.
Lutar por remunerações melhores, receberem formações mais qualificadas e melhor pensadas para melhorar a prática de ensino, e serem mais respeitados em salas de aula. Afinal, professor é a base de todas as profissões.
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Maria Gevana Lorca Casassola, 15 anos, moradora de Passo Fundo, estudante de escola p no primeiro semestre do Curso Normal, antigo Magistério, também participa com entusiasmo e empolgação, depois de recente ingresso no Curso.
A jovem estudante afirma que: “o magistério é uma das atividades profissionais mais lindas e gratificantes que existem, desde pequena sempre gostei de ensinar meus primos (já que eu sou a mais velha, tudo que eu aprendia na escola passava para eles). Passar para outra pessoa algo significativo, dá uma sensação de dever cumprido e é interessante que parece ter haver com nascer com esse dom, pois é algo que a gente se apaixona apenas por se identificar com aqueles que nos cuidaram desde pequenos”.
Afirma também que “vê a situação dos professores e das escolas bastante complicada, algo difícil e até desafiador ao mesmo tempo, porque a violência nas escolas têm sido algo constante e vemos que a tecnologia trouxe muitas coisas boas mas, também, coisas que levou o ser humano não respeitar mais o outro, passando por cima de regras. Tem sido isso diariamente na vida dos professores de escola pública. Então realizar um trabalho de qualidade fica difícil porque as condições muitas vezes são precárias, não tendo recursos por parte do governo ou até mesmo pela direção não tão direcionada ao verdadeiro desejo de ensinar como deveria ser”>
Como é bastante determinada, Casassola diz que nunca se preocupou com a opinião dos outros, principalmente em relação aos meus estudos, e pelo fato de optar pelo magistério.
Quer ser uma professora para “fazer a diferença, estudando com bastante determinação e inovando sempre”.
Disse ainda que sempre teve “ótimos professores que me desafiaram a pensar diferente mas sempre tive muita convicção com tudo aquilo que minha família me passa. Então tudo para mim é aproveitável quando se trata de aprender”.
Finaliza participação dizendo que os governantes e a sociedade “deveriam rever as leis, os salários e dar mais oportunidades de capacitação na formação dos mesmos”.
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Encerrando nossa matéria, registramos breve avaliação da professora Sandra dos Santos, que há anos vem acompanhando a formação de jovens professores, numa escola da rede estadual de Passo Fundo.
“Meu nome é Sandra dos Santos, trabalhei por 14 anos na EENAV como professora de didática geral e algumas disciplinas específicas no antigo magistério. Na conjuntura atual, vejo menos jovens motivados a seguir essa profissão. Muitos iniciam o curso e, quando percebem a realidade dos seus professores fazendo greve, por exemplo, e devido a todos os motivos que conhecemos, muitos acabam abandonando o Curso. Já fazem alguns anos que saí do curso, mas vejo que cada vez tem menos jovens buscando essa formação. Prova disso é que Curso Normal fechou turmas da noite e sempre tínhamos de 2 a 3 turmas iniciantes do primeiro ano e agora a escola só tem uma. Os que procuram, são estudantes de cidades menores, perto de Passo Fundo, e que realmente tem aquele dom especial para assumir a profissão, que seria por amor e vocação”.
Por fim, cabe-nos lembrar que a esperança se chama JUVENTUDE. Apesar da realidade apontar menor interesse dos jovens na profissão docente, aqueles e aquelas que fazem a escolha pelo magistério hoje estão mais conscientes e mais vocacionados para a missão de educar e mais críticos com relação às mudanças que a sociedade precisa fazer para mudar a educação, a começar pela formação, apoio e valorização profissional dos professores e professoras.
Quanto a nós, professores e professoras, devemos estar atentos para incentivar e estimular os jovens que demonstram interesse na nossa profissão. Devemos encorajá-los, para que no futuro próximo, sejam ainda melhores do que a gente. As gerações futuras tem o dever de ser melhores do que a geração atual.
Segue vídeo com entrevistas com jovens estudantes e as suas motivações para escolher a profissão docente, produzido pelo Canal Futura.