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A crise

Economia é parte indissociável
da vida que levamos, como seres humanos.
Proteção à vida pressupõe ações econômicas.


Vivemos uma crise de enormes proporções, que está afetando a saúde, a economia e a vida de cada um de nós.

Ninguém tem a solução definitiva para o que está acontecendo, não há uma fórmula porque nunca passamos por isso antes. Vamos observando, tentando entender, e ajustando a nossa conduta como sociedade à medida que as coisas vão acontecendo.

É preciso responsabilidade, solidariedade e empatia nesse momento de crise. E isso significa muito mais do que ficar em casa para não espalhar o vírus.

Para empresas e empregadores, ser responsável e empático também significa evitar demissões, para não criar mais pânico e insegurança na sociedade. Vale lembrar que, em geral, empresas têm mais acesso a crédito e conseguem aguentar um pouco mais a crise do que uma família.

Para consumidores, agir de forma responsável é comprar apenas o necessário dos itens essenciais, permitindo que outras pessoas também tenham acesso a eles. Ser solidário é pagar suas contas em dia, sem usar como desculpa a crise, lembrando que dos seus pagamentos pode depender o emprego de outras pessoas.

Para cada um de nós, ser responsável é pensar antes de compartilhar notícias nas redes sociais, evitando criar pânico e confusão com informações falsas.  É seguir as regras e tentar não atrapalhar o combate à epidemia.

Para todos nós, empatia e solidariedade também significam tratar com respeito e consideração os profissionais da saúde e da segurança e os gestores públicos que estão trabalhando sob uma pressão imensa, tentando fazer o melhor para proteger a sociedade.

Assim como a propagação do vírus, a crise econômica é inevitável. O que depende da nossa atitude é a rapidez e a gravidade com que isso vai ocorrer. Depende de nós reduzir os danos, proteger os mais frágeis e nos preparar para um recomeço, mais responsável, solidário e empático.

A vida ou a economia?

Entre tantos assuntos e polêmicas levantados nesses tempos de pandemia, um me chamou bastante a atenção. A pretensa dicotomia e até contraposição entre vida e economia. Entendo o contexto em que surgiu esse questionamento, sobre a importância relativa da proteção à vida comparada à proteção à economia, mas me parece que há um entendimento completamente distorcido na raiz dessa discussão.

Economia é parte indissociável da vida que levamos, como seres humanos. Proteção à vida pressupõe ações econômicas.

Acho que a confusão começa no entendimento do que seja economia. Como se economia fosse apenas geração de renda, ou incentivos fiscais, ou crédito para empresas, auxílio emergencial. Não é. Decidir por exemplo quantos respiradores artificiais comprar, de quem, como transportá-los, para quais cidades enviá-los, é economia, e disso depende justamente a vida de muitas pessoas.

Decisões econômicas permeiam toda a gestão de uma epidemia, ou outra catástrofe dessas proporções, e podem significar o sucesso ou fracasso do seu combate.

Gerir recursos escassos em situações de necessidades quase ilimitadas e urgentes, isso é o que a economia faz.

Alocar equipamentos, hospitais, profissionais da saúde, medicamentos e equipamentos de proteção de forma que o maior número de pessoas possa ser beneficiado, isso é economia.

Definir quando a interrupção das atividades produtivas é necessária e de que forma proteger a população da escassez (de alimento, de educação, de trabalho) isso é economia. Definir como devem ser organizadas as prioridades, para obter o melhor resultado para a sociedade, ou o resultado menos trágico, isso é economia.

Lembrando que a finalidade da economia é a vida, a melhor vida possível.




Papa Francisco defende uma economia que coloque a vida em primeiro lugar e que se esforce, ao máximo, para garantir a todos maiores oportunidades.

Ética e ciência: elementos para subsidiar reflexões

Há uma disparada tecnológica terrível. Hoje te matam com o controle remoto, sem sequer colocar a cara, você não tem como reagir. Mataram a poesia. Morreu o espírito, morreu a alma. A ciência contemporânea está condenando o que chamamos de liberdade. Ou melhor: se por liberdade entende-se seguir seu desejo e suas inclinações, a liberdade existe; se por liberdade entende-se poder criar seus desejos e suas inclinações, a liberdade não existe. Este mundo tecnológico e de avanços científicos é pavoroso. Nos deixou sem religião, nos deixou sem alma, nos deixou sem espírito.
Pepe Mujica[2]



De um ponto de vista filosófico, percebo que a pandemia impõe, ao mesmo tempo e sobre todos, um impulso reflexivo que, até agora, era da área de especialistas: precisamos agir com o saber explícito de nosso não-saber. Hoje, todos os cidadãos estão aprendendo como seus governos devem tomar decisões com uma nítida consciência dos limites do saber dos virologistas que os aconselham. A cena em que a ação política se desenrola mergulhada na incerteza raramente foi posta sob uma luz tão forte. Talvez essa experiência incomum, para dizer o mínimo, deixará suas marcas na consciência pública.
Jürgen Habermas[3]



En cuanto a la Ciencia, que iba a dar solución a todos los problemas del cielo y de la tierra, había servido para facilitar la concentración estatal y mientras por un lado la crisis epistemológica atenuaba su arrogancia, por el otro se mostraba al servicio de la destrucción y de la muerte. Y así aprendimos brutalmente una verdade que debíamos haber previsto, dada la esencia amoral del conocimiento científico: que la ciencia no es por sí misma garantía de nada, porque a sus realizaciones les son ajenas las preocupaciones éticas.
Ernesto Sábato, Hombres y Engranajes (1951)




A relação entre ética e ciência retorna com ênfase no contexto da Covid-19. Isto tanto no debate acadêmico quanto nos meios sociais e políticos. No segundo se digladiam o positivismo crasso e o fundamentalismo religioso apegado a crendices. No acadêmico, o cientificismo positivista de um lado, e, de outro, o eticismo precário, in extremis.

As implicações do debate levam, entre outras, à defesa de que a ética fique em quarentena para que a ciência possa agir de modo livre, afinal se a ética só consegue chegar depois, porque meter-se agora, no meio da travessia? Outros entendem que há uma ética, ainda quando dela se abstém de tratar. Há também o debate bioético no sentido estrito que diz respeito aos parâmetros éticos para a investigação e para os atos dos profissionais de saúde no contexto da pandemia. No fundo está a questão de retomar um certo conceito/concepção de ciência e pensar o que significa a tecnologia e sua aplicação aos processos de saúde/doença, parâmetros bioéticos e de direitos humanos. Tentaremos levar adiante alguns aspectos deste debate nos limites do possível. 

O que vai pela cabeça…

A pesquisa “Wellcome Global Monitor 2018”,[4] feita com 140 mil pessoas de 144 países, divulgada pela revista Science, mostrou que 35% dos brasileiros desconfiam da ciência (65% confiam) e que um em cada quatro acredita que a produção científica não contribui para o país. No mundo a maioria confia na ciência: 72% das pessoas acreditam nos cientistas. Quase metade dos brasileiros afirmaram que “a ciência discorda da minha religião” e, desses, 75% disseram que “quando ciência e religião discordam, escolho a religião”. Apenas 13% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter “muita confiança” na produção científica. Entre as 144 nações, o Brasil fica em 111º lugar dos que têm “muita confiança” na produção científica. Tomando em conta dados do mundo todo, no caso da saúde a pesquisa revela uma questão forte: 73% das pessoas confiam mais em um médico ou enfermeiro do que qualquer outra fonte de aconselhamento sobre saúde. Ou seja, há pouco espaço para o Dr. Google, apesar de ultimamente ter crescido o Dr. Whatsapp. O estudo mostra também que as pessoas com menor renda familiar têm menos confiança nos hospitais e nos sistemas de saúde.Sobre a confiança nas vacinas: 79% das pessoas concordam que as vacinas são seguras e 84% concordam que são eficazes.

Uma ideia arcaica de ciência

Autoridades de saúde brasileiras em entrevistas ou nos pronunciamentos sobre a Covid-19 tem posições em coincidência com a compreensão média de ciência, aquela que ainda considera meras curiosidades o que está no âmbito da física da relatividade ou da quântica e se apega ao conceito de ciência setecentista. Ou seja, a ideia de que a ciência fornece a explicação das leis de funcionamento da natureza para que se possa, conhecendo-as, produzir mecanismos para subjugá-la. Junto com esta noção está a percepção de que a ciência produz certezas e de que estas certezas, por coincidirem com as leis da natureza, são imutáveis, eternas.

Ora, se a ciência não for capaz de produzir este “consenso”, deixa de fazer sentido e facilmente se substituirá importância por aquilo que pode oferecer algum consolo seguro (alguns tipos de religião). Há uma certa “fetichização” da ciência. Mas, já faz algum tempo que o que menos há na comunidade científica é “consenso” ou mesmo “maioria”. Ainda que “Uma breve história do tempo” (1988),[5] de Stephen Howking, tenha sido lido por milhões de pessoas no mundo todo (vendeu 9 milhões de exemplares em 2002), parece que sua leitura não surtiu efeito. Aliás, ironicamente, em se tratando de Covid-19, a maior certeza “científica” para enfrenta-la é o isolamento ou distanciamento social, a mais antiga prática da humanidade na história da “ciência”, inclusive anterior a toda ciência em sentido estrito, mais uma prática própria do “bom senso”, ainda que hoje em dia se tenha invocado sua natureza científica, talvez porque o que esteja bastante mal distribuído, contrariando a Descartes, seja exatamente o “bom senso”! O consolo vem da ideia de que “logo logo os cientistas descobrirão uma vacina”.

A incerteza…

A expectativa de pensar e conviver com uma concepção de ciência não prepotente parece ficar para traz no afã de “salvar vidas”. O que a quântica mostrou é que não há certeza na ciência e que sua melhor contribuição é sugerir hipóteses explicativas que são razoáveis para dar conta da realidade, mas que nunca são certezas e menos ainda absolutas. Elas são aquelas que melhor sugerem responder aos problemas levantados.

A medicina, aliás, é uma das ciências que mais sabe disso, ainda que nos últimos tempos se tenha visto uma busca desenfreada por “apoios” para diagnóstico e resolutividade, nada desprezíveis, nem por isso absolutos. O prêmio Nobel de química (1977), Ilya Prigogine[6], defende exatamente o “princípio da incerteza” na ciência, de modo que “o elemento novo é colocar a ideia da instabilidade no centro da ciência moderna”. Foi outro Nobel (1932), Werner Heisemberg, em 1927, que enunciou o Princípio da Incerteza ou da Indeterminação, segundo o qual é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula[7]. Num momento de pandemia parece ser muito difícil aceitar esta possibilidade de ciência.

A ciência a serviço da morte

A história está farta de exemplos de uso da ciência e da tecnologia para a morte. O que produzido no contexto do totalitarismo nazista, quando milhões foram mortos com a mais sofisticada aplicação da ciência e da tecnologia (Ziklon B é fruto da pesquisa apurada para matar com o menor custo econômico e de sofrimento), é bom exemplo. Há exemplos também nas supostas sociedades comunistas. Ali também milhares foram submetidos a pesquisas cientificas que nunca foram contestadas, muito pelo contrário, têm sido usadas largamente como base para o “avanço científico” que se lhe seguiu. Mas isso não é obra somente dos estados totalitários: vide o que se tem feito na África em pesquisas para combater HIV/Aids e tantas outras doenças por democracias nos últimos anos. Há uma necrociência que é tão poderosa e que não se dissocia da biociência… aliás ambas se beneficiam mutuamente. Objetivamente: o positivismo mata!

Progresso

A ciência moderna nasceu, cresceu e se espalhou casada com a noção de progresso.[8] Ambas juntas deram guarida ao desenvolvimento do capitalismo e também do socialismo real. Está muito bem casada com o comunismo chinês atual, inclusive. A ideia básica é que o domínio da natureza pela ciência e a sua aplicação pela técnica permitem que se afastem os mitos[9] e se possa progredir para dias melhores. O fato é que o que temos visto é uma destruição dos recursos naturais e a exclusão da maior parte da humanidade dos benefícios do “progresso”. Na prática, o progresso tem significado muito de regressão, como aliás denunciam filósofos da Escola de Frankfurt, particularmente W. Benjamin (“Sobre o conceito de história”, 1940)[10] ainda antes da guerra, mas também Adorno e Horkheimer depois dela (“Dialética do Esclarecimento”, 1947)[11]: o ângelus novus que o diga…

Protocolos discutíveis

A ideia de que frameworks seriam suficientes para dar conta da objetividade e, dessa forma, da impossibilidade dos aspectos ideológicos e éticos entrarem no laboratório da pesquisa cientifica, tem se mostrado insuficiente. Os melhores protocolos são sempre procedimentais e dificilmente se propõe a discutir a questão de fundo. Cometem um erro lógico básico: dão por pressuposto o que efetivamente precisa ser demonstrado. Ou seja, não se ocupam das condições e dos condicionantes vitais que constituem objetivamente (não subjetivamente) a pesquisa e os procedimentos científicos.

Não basta garantir a boa informação, que esta informação seja transparente, que haja consentimento livre e desimpedido, para que seres humanos participem em escala das pesquisas científicas. É preciso muito mais, sobretudo é preciso discutir, por exemplo, em que medida financiadores poderosos não são determinantes do direcionamento, inclusive dos protocolos, na execução da ciência, ou, em que medida a possibilidade de uma “patente” ou sua existência não se constituem em meta para o empenho de investigação (e todo o esforço colaborativo resulte no final no registro por quem mais facilmente pode fazê-lo – e se sabe que isso é sempre “mais fácil” para um europeu ou um norteamericano do que para um/a brasileiro/a). Os protocolos bioéticos emitidos pela OMS/OPAS para a pandemia da Covid-19 são o mínimo do que se pode esperar (e inclusive flexibilizam, sem ser tão expressos, uma série de medidas éticas para supostamente “viabilizar” e “facilitar” a pesquisa).[12]

Distanciamento social e cientifico

Tem-se construído uma tese “científica”, portanto não passível de questionamentos reflexivos, dado que a “ciência descreve as leis da natureza”, de que o isolamento social ou distanciamento social é científico, como já indicamos acima. Qualquer outra forma de tratar o modo de lidar com os seres humanos em termos biopolíticos neste momento seria anti-científico. Isso não pode ser uma verdade absoluta, nem mesmo uma lei da natureza. Até porque esta proposta vem carregada de muitas perspectivas necrocientificas e necropoliticas[13] como as que se expressam nos mecanismos de controle populacional pelos smartfones e que agora usados e “testados em escala” certamente serão herdados como mecanismos para o futuro.

As tecnologias da informação e comunicação são outros aspectos a considerar. Será que vão dispensar professores e escolas em nome da EAD como a mais maravilhosa das soluções…. Homeschoolling talvez não seja uma boa, pais e mães estão fartos de ter que ensinar filhos a fazer tarefas encaminhadas pelas escolas…. Enfim, o problema ético é saber “quando entrar nele” e “quando e em que condições sair dele”[14], afinal esta decisão implica um volume maior ou menor de afetados ou de mortos em consequência. Um é o aspecto biopolítico ali implicado, mas outro é o aspecto subjetivo, pessoal, de responsabilidade pessoal.

Princípio da precaução

A precaução tem sido invocada como elemento para pensar e agir. Afirmada com ênfase a partir das lutas ambientalistas, a precaução se constitui em orientação para a responsabilidade como elemento chave para dirigir a prática ética e científica[15]. No contexto da pandemia, parece estar em suspenso, ainda que seja desejada por quem pensa que qualquer possibilidade de futuro dependeria em muito do modo como se trataria o tema no seu desenvolvimento presente. Por outro lado, as urgências podem ser exatamente portadoras de perspectivas pouco animadoras no sentido de sua efetivação.

Por uma nova ciência, não neutra

A neutralidade da ciência reduziu as finalidades humanas e suas necessidades vitais a interesses compatíveis em processos parciais de modo a permitir que a distinção entre a orientação a valores e a orientação a fatos fosse formalmente estabelecida como parâmetro de toda ciência. Assim quis Max Weber[16], dando efetividade aos desejos modernos mais profundos. Dessa forma, produziu um modo de ciência bem funcional ao capitalismo. Ou seja, a ciência definitivamente não pode se ocupar de questões amplas (das totalidades: não há necessidades comuns, o que há são interesses gerais ou interesses comuns, preferências) por serem impossíveis de serem submetidas à dinâmica instrumental da razão meio-fim. Não seria factível submeter à investigação científica as necessidades humanas, melhor lidar com os interesses e preferências (como já sugeria Adam Smith em “A riqueza das nações”). As necessidades são por demais subjetivas para serem escrutinadas pela ciência. A teoria da ação racional só pode lidar com fins específicos, as necessidades são gerais e comuns, nunca específicas.

Para ser objetiva, a racionalidade precisa poder fazer o cálculo de eficiência e, para isso, precisa lidar com fins específicos para os quais calcula meios também específicos. Ao fazer isso, institui a eficiência e a competição como valores absolutos que se sobrepõem a todos os demais valores que dialogam com a vida e suas necessidades. Note-se que a vida e suas necessidades não é um fim para a qual se podem calcular meios eficazes. Ela é condição de todo fim, e a possibilidade de ter fins específicos. E isto é tão objetivo quanto qualquer fim especifico. Daí que reduzir a racionalidade científica ao que pode ser submetido ao cálculo meio-fim como sendo objetivo é incorrer na “falácia abstrativa” e desconsiderar que a condição de todo fim é tão objetiva quanto qualquer fim especifico. Mas isto remete para ter que superar a distinção entre uma racionalidade voltada a valores e outra voltada a fatos. Toda a racionalidade lida com fatos e valores, ainda que não os explicite e, por vezes, os eleja como absolutos sem que assim o admita (é o que faz a racionalidade meio-fim ao eleger a eficiência e a competição como valores absolutos, por exemplo, ainda que não o admita).

Há uma racionalidade fundamental que se ocupa deste “sujeito necessitado” e não do ator que ele pode representar numa das finalidades específicas. Em suma, somente uma ciência sem sujeito e somente ocupada por um ator (com papeis e personagens pontuais) será possível pensar na objetividade ao modo de neutralidade que tem sido tão cara ao positivismo mortífero e necrófilo. Ele assim se caracteriza pois, como ilustra Hinkelammert[17] com o exemplo dos competidores sentados sobre o galho que estão cortando, a competição resultará em morte, que não é suicídio (em sentido estrito), mas consequência não intencional (da competição). A necrociência daí resultante se combina e é um bom apoio para a necropolítica e a necroética que vão defender que a morte é parte da vida e que, por isso, “muitos morrerão” com a pandemia e não há muito o que fazer, aliás, entre morrer de peste e morrer de fome não há muita diferença, vai-se morrer, muitos morrerão, então que morram trabalhando e com isso seguirão “colaborando” competitivamente com a acumulação capitalista. O que não pode ser questionado, por ser sempre eivado de ideologia são as totalidades mortíferas. Fiquemos com os fins específicos e os meios que os viabilizam!

Por uma racionalidade ética

A questão de fundo que se coloca é a possibilidade de uma racionalidade ética na qual caibam as mais diversas e todas as formas de conhecimento, de ciência, de vida. Esta racionalidade ética haverá que emergir da necessidade de superação da racionalidade vitimária que é exatamente esta racionalidade que admite a morte como parte “naturalizada” do processo (ainda que não seja “natural”) e que trabalha com o “cálculo do suportável”.[18] Não há suportável possível quando se trata da vida, do sujeito necessitado (que é o humano, mas um humano natural, um humano-natureza).

Submeter a ética ao cálculo meio-fim é exatamente eliminá-la do contexto da ciência e autorizar a “ciência dos fatos” a seguir acreditando que está trabalhando sem valores, quando, na verdade, está orientada por valores absolutos como a eficiência e a competição, além de outros. Problematizar estas questões é abrir-se para possibilidades outras de ciência com ética. Enfim, a possibilidade de uma racionalidade ética se coloca como questão fundamental também neste momento, não como um “post factum” ou “post festum”, mas como processo presente e constitutivo da travessia em curso.

O momento exige a mobilização das diversas racionalidades e das diversas sensibilidades humanas, sobretudo aquelas críticas e reflexivas. Sem elas dificilmente faremos a travessia, ainda que considerando a grande incerteza que a caracteriza. Não é momento para privilegiar uma ou outra expressão da criatividade humana. Abrir mão da crítica reflexiva poderia comprometer a humanidade senão mais, ao menos tanto quanto qualquer pandemia física.



[1] Documento base para a intervenção em “Diálogos Direitos Humanos em Travessia” promovidos pela CDHPF e realizado no dia 11/04/2020, às 9 hs, pelo Hangouts Google. Completado com elementos de referências em 12/04/2020. Versão audiovisual em https://youtu.be/tdE8h5YT_gI 
[2] Entrevista ao Canal Filo News. Disponível em https://youtu.be/o3dtGp4t66w. Traduzido por “Socialista Morena” e publicado em 06/04/2020. Disponível em www.socialistamorena.com.br/as-previsoes-de-mujica-sobre-a-pandemia-nao-sei-se-chegamos-aos-limites-do-homem/.
[3] Entrevista de Jürgen Habermas a Nicolas Truong. Le Monde, 11/04/2020. Trad. Frédéric Joly. No Brasil publicada por Fios do tempo, em 12/04/2020. Disponível em https://ateliedehumanidades.com/ 2020/04/12/fios-do-tempo-precisamos-agir-com-o-saber-explicito-de-nosso-nao-saber-entrevista-com-jurgen-habermas/
[4] Matéria de O Globo “Um terço dos brasileiros desconfia da ciência” publicada em 21/08/2019. Disponível em https://oglobo.globo.com/sociedade/um-terco-dos-brasileiros-desconfia-da-ciencia-23754327.
[5] HAWKING, Stephen W. Uma breve história do tempo. Do big bang aos buracos negros. Trad. Maria H. Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
[6] PRIGOGINE, Ilya O Fim das Certezas. Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996.
[7] Trata-se do artigo “Sobre o conteúdo descritivo da cinemática e da mecânica teórica quântica” (1927). Para uma exposição do princípio ver “The uncertainty principle” (In: Standford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/qt-uncertainty/). Em português, entre outras ver HEISENBERG, W.A. Imagem da Natureza na Física Moderna. Lisboa: Editora do Brasil,1980.
[8] Publicamos em nossa conta no Facebook com o título “Momento para parar: breves reflexões (anti)progresso”. Disponível em www.facebook.com/paulocesar.carbonari/posts/3246059255404898, em 09/04/2020.
[9] Francis Bacon foi enfático nesta percepção ao mapear os “idola” (da tribo, da caverna, do foro e do teatro), em “Novum Organum” (Trad. J. A. Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Os Pensadores).
[10] BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito de História. In. LÖWY, Michael. Aviso de Incêndio: uma leitura das teses “Sobre o Conceito de História”. Trad. W.N.C Brandt [Trad. das Teses por Jeanne M. Gagnebin e M. L Müller]. São Paulo: Boitempo, 2005.
[11] ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
[12] Nos referimos ao documento da OMS e OPAS. “Orientación ética sobre cuestiones planteadas por la pandemia del nuevo coronavirus (COVID-19)”, disponível em www.paho.org/es/documentos/orientacion-etica-sobre-cuestiones-planteadas-por-pandemia-nuevo-coronavirus-covid-19.
[13] Como, aliás foi questionado por Achile Mbembe, em entrevista à Gaúcha ZH do Rio Grande do Sul publicada com o título “Pandemia democratizou o poder de matar”, em 31 de março de 2020. Disponível em https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/ 2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica-ck8fpqew2000e01ob8utoadx0.html
[14] Jürgen Habermas, em entrevista a Nicolas Truong do Le Monde diz que “Com a decisão relativa ao momento apropriado para pôr fim ao confinamento, a proteção da vida, que se impõe não apenas no plano moral, mas também no plano jurídico, podemos nos deparar com, digamos, as lógicas utilitaristas de cálculo. Quando é necessário arbitrar entre, de um lado, os danos econômicos ou sociais e, de outro lado, as mortes evitáveis, os homens e as mulheres políticos devem resistir à “tentação utilitária”: devemos estar prontos para arriscar uma “saturação” do sistema de saúde e, portanto, maiores taxas de mortalidade, a fim de impulsionar a economia e, assim, mitigar o desastre social de uma crise econômica? Os direitos fundamentais proíbem que as instituições estatais tomem qualquer decisão que se acomode com a morte de pessoas físicas”. Ver “Precisamos agir com o saber explícito de nosso não-saber”. Entrevista com Jürgen Habermas. Le Monde, 11/04/2020já referida.
[15] Discutimos este tema em nossa tese de doutorado à luz das contribuições de Enrique Dussel em Ética da Libertação na idade da globalização e da exclusão (1998) (tradução Vozes, 2000). Para acesso à tese “A potencialidade da vítima para ser sujeito ético: construção de uma proposta de ética a partir da condição da vítima” ver www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/4517. Um interessante estudo poderia ser feito no que diz respeito à “heurística do medo” e com este princípio se apresenta no pensamento de Hans Jonas.
[16] Ver WEBER, Max. Economia e Sociedade. Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Trad. Regis Barbosa e Karen E. Barbosa. Brasília: UnB, 1991. Vol. I. Ver também WEBER, Max. O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e econômicas. In: Metodologia das Ciências Sociais 2. Trad. Augustin Wernet. Campinas: Unicamp; São Paulo: Cortez, 1995.
[17] Em todo este item seguimos muito de perto a exposição de Franz Hinkelammert em El sujeto y la ley. El retorno del sujeto reprimido (Heredia: Euna, 2003).
[18] Trabalhamos as características da racionalidade vitimaria e da racionalidade ética em nossa tese já referida.

O reinado de Cronos: um tempo para construir sentido

De fato, a passagem dos anos corrói a existência,
cada amanhecer é um dia a menos,
cada palavra mal dita, escolha mal feita corrobora
com a insuficiência do tempo.


Cronos, filho de Urano e Gaia, é a principal divindade da primeira geração de titãs, reconhecido como o deus do tempo. De acordo com o mito, Cronos roubou o poder de seu pai, casou-se com a irmã Réia e governou por longos anos.

Atento a profecia, segundo a qual seria tirado do poder por um de seus filhos, Cronos matava e devorava todos os herdeiros assim que nascessem. Discordando desse filicídio Reia enganou Cronos, conseguiu salvar Zeus e escondê-lo na ilha de Creta.  De temperamento forte, pouco dado ao amor, esse titã nos ajuda pensar o tempo e a vida, seria ele um mostro “filicida” que dia após dia nos devora? Como sua experiência, neste tempo de quarentena, tem te ajudado a descobri, corrigir, ressignificar o sentido da vida no tempo que tens?

Desde que fui tomado pela consciência do tempo, vivo com ele uma relação de ambiguidade, momentos de louvor misturam-se a instantes de pavor. Louvo pela vida que passa, pelo aprendizado construído, pelos projetos em construção, pelas amizades em cultivo e pelas alegrias nascidas e nascentes dentro do solo arado no peito da gente.

Contudo, tenho pavor diante de projetos não realizados; de discursos inumanos; de textos que ainda não foram lidos; de pessoas que a muito não abraço. Olho para meus sobrinhos e vejo como estão crescidos; contemplo meus pais vivendo na “terceira idade”, seus passos e raciocínios ganhando lentidão, emoções ficam à flor da pele. De fato, a passagem dos anos corrói a existência, cada amanhecer é um dia a menos, cada palavra mal dita, escolha mal feita corrobora com a insuficiência do tempo. O tempo nos leva da vida!  Cronos continua reinando, como fugir dele?

Olhando para o vivido aprendo que o passado fala sobre a importância do agora. Concordo com Agostinho de Hipona, só existe o presente, visto que o futuro é plano e o passado memória. Ciente disso, que sentido estamos ofertando a nossa vida? Em que projetos se fundam as nossas escolhas? O que faremos ao final desta pandemia com e nos abismos sociais profusamente expostos e vividos? As imagens de corpos “conservados” em caminhões frigoríferos, de valas comuns e sepultamentos coletivos deixarão de compor nossos mosaicos de memórias ou se apagarão com o tempo!?

Esse olhar e essas perguntas lembram da busca por sentido, latente no ser humano, somos os únicos que têm consciência e habilidade para significar a vida. Penso que buscar incessantemente a compreensão da existência, em uma emaranhada teia de relações é uma atitude lógica e revolucionária, pois, um significativo número de humanos prefere a superficialidade e o dogmatismo; infelizmente a ignorância tem ganhando palcos, púlpitos e discípulos que insistem em prestar culto à “burrice” institucionalizada e legalizada, contribuindo com o reinado de Cronos, com o devorador de sentidos. É revolucionário optar e defender a humanidade, neste tempo de paixões ideologizadas, de políticas privativas, opressivas e negligentes.

Ambígua é a compreensão que tenho sobre o tempo, ou melhor, a aceitação do mistério que o envolve.  No entanto, se no contexto atual Cronos nos devora, há situações em que Kairós (o tempo da Graça) nos envolve, nos devolve a instantes plenos, repletos de paz, carregados de benevolência, o tempo em que a fé na vida é realimentada, que a esperança é cultivada e semeada na forma de atitudes, de encontros mesmo que online.  Aproveite deste tempo de quarentena, faça dele presente dentro do seu coração, para viver a intensidade merecida pela vida.

Aproveitemos destes dias para pensar e alimentar a dimensão transcendente da existência, se este período servir para nos fazer mais humanos, empáticos e solidários, se despertar em nós a consciência de classe e um novo modo de entender justiça então, Cronos não terá a vitória final. Onde existe preocupação com o humano, crítica permanente e eficaz não nascem e nem sobrevivem titãs. O tempo feito Kairós, é o presente significado, o agora com sentido. Mesmo que esse sentido seja a necessidade urgente de renovação das estruturas injustas que aplaudem e alimentam Cronos.



Sugestões de uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser trabalhada no Ensino Médio. Outros objetos de conhecimento como Sentido da vida (existencialismo) – neste caso o Filme o “Preço do amanhã” é bem adequado para gerar reflexão, pensar no sentido da existência, nas desigualdades e injustiças sociais.

No oitavo ano, Ensino Fundamental, Unidade temática “Ética”, Objetos do Conhecimento: “Refletindo sobre temas éticos e morais”, Habilidade: “Refletindo sobre o homem moderno, seu individualismo e consequências para si e para gerações futuras”.

Atividade prévia.

Contar novamente a história de Cronos, agora com mais detalhes.

Onde for possível pode-se usar vídeos do Yotube com a história de Cronos:

Questões que fazem pensar:

1) O que você entende por tempo?

2) Os tempos são todos iguais? (Quando você está feliz não tem a sensação de que passou mais rápido? A passagem do tempo depende também do que estamos sentindo no momento?

3) O tempo é esse titã que nos devora. O que você pensa sobre essa afirmação?

Leia o trecho que segue:

“Mas o que agora parece claro e manifesto é que nem o futuro, nem o passado existem, e nem se pode dizer com propriedade, que há três tempos: o passado, o presente e o futuro. Talvez fosse mais certo dizer-se: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, porque essas três espécies de tempos existem em nosso espírito e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança”. (AGOSTINHO, Santo. As confissões. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Edameris, 1964, XI, 20,1).

1) Localize no texto elementos da linguagem mítica?

2). Como tem se dado conta do tempo presente? O que tem feito com seu tempo?

3) Localize no texto concepções positivas e negativas de tempo? De acordo com o autor é possível superar a ambiguidade do tempo?

4) Desenhe uma linha do tempo com fatos marcantes de sua história e com planos que você tem para o futuro.

Avaliação.

Elabore um parágrafo sobre a aula de hoje, mencione que atitudes essa reflexão te motiva a tomar?

Sobre meninos e sobre Lobas

Atrás das telas de celulares é fácil de
nos julgarmos sem o olho no olho,
mas quando a quarentena da loba
acabar e o corpo a corpo voltar,
como serão as atitudes dos guris?


Nesta última segunda, decidimos que seria a última vez que seríamos as segundas. A partir de agora, seremos primeiras, pioneiras, o que quisermos e pudermos ser.

Na semana em que comemoramos o dia da Educação no Brasil e o dia Nacional da Mulher, lembramos, refletimos e discutimos sobre o ser humano Mulher. Que pode ser visto e descrito sobre vários aspectos: físico, psíquico, social, emocional, religioso…

Pelo viés religioso (cristão), feita da costela, do lado para ser igual, nem inferior nem superior, depois dando seu SIM, mais tarde como bruxas, nas fogueiras, até chegar as sufragistas, relatos das tão temidas aulas de história na atualidade.

Como podem perceber, a sociedade muda de acordo com as voltas que a terra, que não é plana, dá, e com o acesso à educação e a informação. Que muitas vezes não chega, não basta, pois nós mulheres temos maior escolaridade e menor reconhecimento.

Vivemos em um mundo heterogêneo em sua composição, mas que deve ser homogêneo na representatividade de ideias, divergindo no mesmo campo e proporcionando mais que igualdade: a justiça social.

Somos Anas, Bárbaras, Marias, Rosas, muitas vezes vistas apenas como números nas estatísticas, cálculos, dados, medidas. Somos 51% da população.

Esta nova geração de mulheres precisa ser levada a sério, porque vamos nos multiplicar, apoiar, fortalecer, não vamos nos calar.

Podemos continuar criando nossos filhos, cozinhando, trabalhando fora e até passando pano, mas não para o machismo ou a desigualdade de gêneros ou desigualdades sociais. Mulheres dedicam mais tempo aos afazeres domésticos e tem apenas cerca de 10% de representatividade política e 37% de cargos gerenciais e ainda assim, com todo o possível fardo, vivem mais do que os homens.



Música que fala de meninos, com respeito às mulheres.



Meninos podem vestir azul, rosa, verde, a cor que quiser, mas podem e devem também vestir a camisa da defesa e proteção das mulheres, conforme a ONU recomenda através de campanhas como “Eles por elas”, para diminuir as desigualdades. Dados apontam que no Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência e que aqui em nosso país não há lugar totalmente seguro, às mulheres negras e pobres então…

As primeiras a serem julgadas e condenadas à fogueira ou ao fogo: as mulheres, mas como quem tem poder (a caneta na mão) não é mulher, não se importam. Depois vem os negros, os indígenas, jovens e idosos e todas as outras pautas e causas, mas como ninguém se importa, como ninguém toma parte…

E ainda assim, mais de 5 milhões e meio de filhos não tem o registro paterno.

Podemos nós mesmas nos descrever ou escrever sobre nós, como quisermos, mas enquanto a mentalidade não mudar, talvez isso pouco importe, pois cada um poderá nos enxergar como quiser: a defensora, a novata, a estressada, a sabida, uma deusa, uma louca, uma feiticeira…

Atrás das telas de celulares é fácil de nos julgarmos sem o olho no olho, mas quando a quarentena da loba acabar e o corpo a corpo voltar, como serão as atitudes dos guris? Seremos mais positivas e menos apontadas como setas. Porque garotos perto de uma Mulher, são só garotos!



“Brincar é coisa séria! As brincadeiras consistem numa representação e experimentação da vida adulta e no momento que limitamos a criança a determinados brinquedos fazendo diferenciação de acordo com seu gênero, nas entrelinhas estamos limitando suas perspectivas de futuro em carreiras pré-estabelecidas e minando talentos que fogem do padrão “de menino” e “de menina”. (Ingra Costa e Silva)

Autora: Ana Paula de Oliveira Spannenberg





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Sugestões para uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do oitavo ano, disciplina Filosofia, Unidade temática Ética, Objeto de Conhecimento Refletindo sobre “Temas éticos e morais”, Habilidade: Refletir filosoficamente algumas situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas para os problemas cotidianos”.

Esta atividade também pode ser aplicada a estudantes do Ensino Médio.

Questões que fazem pensar: (elaboradas pelo professor Nei Alberto Pies)

  • O que a autora deste texto quer destacar sobre a mulher na sociedade?
  • O que é mesmo a Campanha da ONU “Eles por elas”? (pesquisar vídeos e matérias e trazer resumo para próxima aula)
  • Violência contra a mulher: a) Por que as mulheres ainda sofrem tanto com a violência doméstica? b) Você conhece os dados da violência contra a mulher no Brasil, no RS e na sua cidade? (pesquisar na internet)

Conhecendo Islamismo pelos testemunhos de um religioso

Radwan Mohamad Jehani,
nascido em Trípoli, Líbia, em 1960,
é uma referência importante na difusão
dos conhecimentos e das práticas
do islamismo no Brasil.


Atualmente, mora em Passo Fundo, RS, onde, quando pode, a convite dos professores e professoras, recebe estudantes na única mesquita da cidade, como também vai à escolas para falar e esclarecer dúvidas dos mesmos sobre a cultura e a religião muçulmana.

Radwan já exerceu o ofício de professor, tendo Licenciatura da letra árabe e estudos alcoranicos da faculdade de Educação da Universidade de Trípoli, em 1984. Também já trabalhou como Corregedor do Jornal bilíngue Makka, de São Bernardo do Campo e do Jornal A Liga. É também representante do Centro de Divulgação do Islam na América Latina, em Passo Fundo, desde 1997.

Coordenador do abate islâmico na Frangosul, por 14 anos. Presidente, por 5 mandatos, da Sociedade Beneficiente Muçulmana de Passo Fundo, a mesma que mantém e organiza a Mesquita. Também é diretor regional do ILAEI (Instituto Latino Americano de Estudos Islâmicos) desde 2013. Representa o Islamismo no CONER (Conselho do Ensino Religioso) em Passo Fundo.

Mora no Brasil desde o ano de 1989 e em Passo Fundo, RS, desde 1997. Brasileiro, casado. Constituiu família aqui, sendo pai de um filho (que foi um abençoado estudante meu no Ensino Médio).

Conheçamos Radwan Mohamad Jehani, por ele mesmo e por seus testemunhos da prática islâmica.

SITE NEIPIES: Irmão Radwan, descreva-nos, de forma breve, como iniciaste a sua caminhada na difusão dos conhecimentos do Islamismo?

RADWAN: Desde ano 1985 fui contratado pela Secretaria do Ensino do Tripoli para Ensino Religioso do Alcorão nas escolas da rede do sul de Tripoli e fiquei até outubro do ano 1987. No ano 1988, já estava no Brasil, fui contratado pelo Centro de Divulgação do Islam para America Latina – CDIAL de São Bernardo do Campo SP para ensinar o Alcorão e os princípios para muçulmanos brasileiros em alguns cidade do grande ABC paulista e revistar a redação da parte árabe do jornal Makka .

No ano 1994, fui contratado pela Liga Cultural Arabe Brasileira – LICAB de Guarulhos –SP para revisar a parte árabe do jornal árabe português A LIGA e promover curso de idioma árabe que a LICAB oferecia particularmente à população daquela cidade.

No ano 1997, o CDIAL me enviou a Passo Fundo por dois motivos: representar o CDIAL no RS e acompanhar os procedimentos da produção e exportação de aves mercado islâmico.

No ano 2006, ajudei a fundar a Sociedade Beneficente Muçulmana de Passo Fundo SBMPF.

SITE NEIPIES: Como é estar e viver no Brasil há tantos anos, um país que se proclama laico e que respeita os diferentes credos e crenças?

RADWAN: Desde a minha chegada ao Brasil, sempre procuro fazer e manter amizades sinceras e duradouras. O povo brasileiro é laico pela natureza. Ele gosta de respeitar os outros e seus credos. Isto me fez que amar o Brasil e permanecer no Brasil todo este tempo e adotar o Brasil minha pátria amada.

SITE NEIPIES: Ainda manténs laços de família e de amizade com Trípoli, Líbia, sua terra natal?

RADWAN: Sim, estou com contatos diretos com meus familiares e com meus amigos na Libia, através das redes sociais.

SITE NEIPIES: Um brasileiro pode ser muçulmano? O que significa a palavra muçulmano?

RADWAN: Qualquer pessoa do mundo pode ser um muçulmano e a palavra muçulmano quer dizer “quem adota e segue a doutrina da religião do Islam”.

SITE NEIPIES: Poderias apresentar algumas palavras ou expressões da língua árabe para satisfazer um pouco as nossas curiosidades linguísticas?

RADWAN: Assalamo alaikom: A Paz esteja convosco/ Chukran: Obrigado/ Ma assalama: tchau!

SITE NEIPIES: Tiveste breve experiência como professor. Conte-nos. Na sua visão, qual é a importância da educação na formação dos jovens do Brasil e do mundo?

RADWAN: O papel da educação tem grande importância na formação de jovens e pela inclusão dos jovens no sistema social, pois o Brasil está em desenvolvimento e necessita de pessoas preparadas para um bom Brasil. É preciso que a sociedade compreenda a importância para vencer problemas como discriminação, vergonha, preconceito e intolerância religiosa.

SITE NEIPIES: Como, quando e porquê surgiu a Sociedade Beneficiente Muçulmana de Passo Fundo e a construção da Mesquita?

RADWAN: No ano 1999, quando cheguei a Passo Fundo e muçulmanos passaram a trabalhar nos abates de aves nos frigoríficos da cidade. Esses muçulmanos começaram praticar as orações junto nas suas residências; depois acharam que era uma grande necessidade de ter um lugar comum que podem se encontrar para praticar suas orações, encontros e ter um endereço para receber os curiosos e amigos dos muçulmanos que buscam o conhecimento sobre a religião muçulmana. Em 2003, foi alugado um espaço para esses fins e, em 2006, inauguramos oficialmente esta como uma entidade religiosa, a SBMPF. Em 2011, foi inaugurada a sede permanente, a SBMPF, no atual endereço.

SITE NEIPIES: Participas há muitos anos do CONER Seccional Passo Fundo, o Conselho do Ensino Religioso. O que aprendeste, nestes anos, no convívio das diferentes crenças e denominações religiosas?

RADWAN: Aprendi como a conviver bem com todos os seres humanos de diversos credos com respeito, paz e harmonia. Aprendi que as diferentes crenças podem contribuir em favor de uma sociedade saudável de paz e amor, sociedade de sucesso. Através do CONER, aprendi que é possível criar gerações educadas, respeitosas através das suas crenças. Vi como é importante papel das denominações religiosas em orientar e conscientizar as sociedade para o bem comum.

SITE NEIPIES: Como o Islamismo e a difusão dos conhecimentos islâmicos é organizada no Brasil? Tem alguma hierarquia de poder?

RADWAN: Os muçulmanos obedecem em primeiro lugar as ordens e mandamentos de Allah que é o Criador e depois seguem as orientações do Profeta Muhammad que são explicações da Palavra de Deus no Alcorão Sagrado, mas não existe uma hierarquia de poder. Cada muçulmano ou uma comunidade devem seguir as ordens de Allah e os ensinamentos do Profeta Muhammad e somente obedecem a quem seguir este caminho.

SITE NEIPIES: Quais foram as maiores curiosidades que estudantes já lhe perguntaram em suas palestras em escolas ou em visitas à mesquita?

RADWAN: A crença do muçulmano, a visão do muçulmano a Jesus Cristo, o casamento islâmico, a relação do Islam com o terrorismo, comer a carne de porco.

SITE NEIPIES: Estamos no mês do Ramadan. O que significa o Ramadan para os muçulmanos?

RADWAN: Ramadan é o nono mês do calendário lunar islâmico. É um mês de jejum obrigatório para cada uma muçulmano e muçulmana. O jejum no Islam é uma forma de adoração a Allah por meio da abstenção da comida e bebida, assim como das relações sexuais e outras coisas que anulam o jejum, do começo da alvorada até que o sol se ponha. O jejum é experimentar a dificuldade que é não ter o que comer, é uma recordação da situação difícil em que os pobres vivem, diariamente

SITE NEIPIES: Por que muçulmano precisa sempre explicar-se quando é apresentado em um lugar novo? Qual é a maior desconfiança que se tem no mundo e no Brasil?

RADWAN: É um resultado de ódio, preconceito e discriminação que os muçulmanos sofrem também pelas acusações infundadas sobre a ligação o Islam com o terrorismo. Ao invés de acusar e culpar os verdadeiros terroristas bem conhecidos, a religião muçulmana é acusada pelo terror, a religião que contribuiu nas ciências, conhecimento e sabedoria em vários partes tipo Álgebra, Química, Matemática, medicina e etc.

SITE NEIPIES: Quais são pilares da fé islâmica?

RADWAN: Crer em Allah como único criador de tudo, crer no anjos, livros sagrados revelados aos mensageiros, crer em profetas e mensageiros de Deus, crer no dia de Juizo Final e crer na predestinação.

SITE NEIPIES: Quais são os pilares da prática islâmica?

RADWAN: Testemunhar que não há divindade real a não ser Allah e que Muhammad é seu servo e mensageiro, praticar cinco orações diárias, pagar o Zakat (contribuição anual), jejuar no mês de Ramadan e peregrinação a Meca.

SITE NEIPIES: Como o Islamismo vê as mulheres e os jovens nas vivências e práticas religiosas?

RADWAN: Os deveres no Islam são direcionados para qualquer um muçulmano e muçulmana jovem ou idoso, desde o momento que atingir a idade de puberdade e ter consciência e ser responsável pelo seus próprios atos, mas as mulheres tem algumas facilidades conforme da sua natureza física.

SITE NEIPIES: Como o Senhor vê os esforços de líderes religiosos mundiais em promover o diálogo e a paz entre as diferentes religiões no mundo?

RADWAN: Positivo, mas precisa que esses esforços consigam apoio, confiança e credibilidade das comunidades e governantes justos. O diálogo é um recurso mais eficaz do que as guerras e sem custos e sem vítimas. Através dos diálogos religiosos podemos manter a paz na planeta.

SITE NEIPIES: Como o Islamismo trabalha com os imigrantes islâmicos de outros países do mundo, mas que se reúnem na mesma Mesquita?

RADWAN: Todos os muçulmanos, imigrantes ou brasileiros, frequentam a mesquita e participam nas atividades da comunidade. Além disso nós recebemos na mesquita qualquer uma pessoa que para lá se dirige em busca de qualquer tipo de ajuda e tentamos fazer o máximo para ajudá-lo. Nessa época da pandemia, transformamos a mesquita como um ponto de arrecadações para todos os imigrantes, independente da sua crença. A nossa campanha de doação atendeu os imigrantes que moram em Passo Fundo.

SITE NEIPIES: Uma frase que defina os seus sonhos

RADWAN: Que a paz de deus ilumine os corações dos seres humanos e os una para o bem de nosso planeta.

SITE NEIPIES: Uma frase sobre o mundo, na atualidade.

RADWAN: O mundo precisa de fortalecer seus laços com Allah nosso criador e distanciar de fanatismo, desconfianças, conflitos e guerras e usar a arma de conhecimento e sabedoria para construir um mundo melhor e viver em paz.

SITE NEIPIES: Qual é a grande mensagem do Islamismo para o mundo e para toda humanidade?

RADWAN: Uma declaração de Allah para tudo mundo: “13.Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado.



Conheça também, neste vídeo do Educa Brasil, as origens e a história do Islamismo no mundo e no Brasil.

Foto: Zheng Huansong/Xinhua


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Sugestões para uma prática pedagógica

Questões para aprofundar conhecimentos da cultura e da história dos muçulmanos no mundo e no Brasil.

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do sétimo ano, segundo trimestre, Unidade temática “Manifestações religiosas/crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento: “Lideranças religiosas” e “Habilidades”: reconhecer papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições religiosas/identificar lideranças religiosas presentes no espaço municipal e suas contribuições à formação espiritual/exemplificar líderes religiosos que se destacam por contribuições à sociedade.

  1. Conheça este material sobre a origem e história do Islamismo no Mundo e no Brasil (https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/religiao/islamismo). Faça um resumo desta matéria.
  • O que marcou você na trajetória deste líder Radwan Mohamad Jehani da religião muçulmana em Passo Fundo, RS?
  • Se Islam significa paz, porque o Islamismo ainda é visto com desconfiança e preconceito no mundo e por algumas pessoas no Brasil?
  • O Ramadan é uma das celebrações ou festas mais importantes no Islamismo. Pesquisar na internet e fazer um breve resumo deste acontecimento tão importante na vida dos muçulmanos.
  • Você gostaria de conhecer uma mesquita? Como você imagina a mesquita dos muçulmanos? Faça pesquisa e traga informações e fotografias.
  • Você conhece a história de algum imigrante, que siga o Islamismo na cidade onde você mora? Se sim, que tal fazer uma entrevista com esta pessoa ou a gente marcar um papo com a turma toda.
  • Você acha que o Brasil é realmente um país com vocação laica e que respeita as diferentes crenças trazidas pelos imigrantes de vários países do mundo? Justifique sua resposta.



Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Amazônia Tupã

O que podemos fazer para acabar com o fogo
que mata nosso povo e elimina nossas matas?
– Nada, por enquanto, meus filhos, mas mandarei
uma praga que irá eliminar muita gente das cidades,
sem se importar se são culpados ou inocentes.


Potira corre enquanto as lágrimas evaporam e os olhos ardem sob a fumaça preta. A luz do fogo envolve a aldeia e as árvores cujas folhas voam flamejantes. Capivaras e pássaros passam à sua frente. Onde está Tauanê, a mãe? Onde não tem fogo? Aiyra, Cauê, Tuane, onde estão? Os macacos sufocam e caem das árvores em barulho seco e sonoro. Blaum.

O suor evapora e a pele resseca. As pernas continuam a se mover, mas nada enxerga e o ar parece ser apenas fumaça. Aspira e uma tontura a faz cair. O sabor da terra a consola. Ao menos o solo ainda está úmido. Só há fogo a sua volta. Um galho de árvore flamejante cai sobre si. Potira grita, mas o fogo queima suas coxas e sua pele enruga e avermelha. Olha para o céu e ainda tem fôlego de gritar:

– Tupã, onde você está, Tupã?

Potira sente o cheiro de carne queimada, que de seu próprio corpo. Antes de desmaiar, ouve um trovão. Porém não há nuvens no céu e ainda consegue pensar: “Deus Tupã, vem nos salvar”.

Os dentes de Nelson são pressionados com os fiapos de carne. O cheiro de gordura ainda esta em seus lábios e os intestinos preparam um acúmulo de gases que ardem ao sair.

– Peidou de novo Nelson? – ri alto Dejair, exibindo os buracos entre os dentes e balançando a barriga roseada que aparenta ser de um porco pouco antes de virar linguiça.

Nelson pouco presta atenção. Olha para as mãos que estão ainda chamuscadas. O odor de mato queimado ainda está em sua camiseta e bermuda. Pensa em tomar um banho, mas quer tomar um último copo de chope. No céu há fumaça que deixa a noite mais escuro.

– Semana que vem termina esse fogo e a gente bota gado, boi, vaca, nesta merda aqui – grita Dejair, agitando seu chapéu de vaqueiro ao ar. Os tonéis de gasolina vazios estão ainda dentro das caminhonetes. O gosto de gasolina ficou também na carne do churrasco.

Jaci agita seus cabelos negros que lhe cobrem os seios e caminha sobre as cinzas do que um dia foi mata. Sua pele azulada está empapada de lágrimas que grudam as cinzas das folhas e árvores. Observa o nascimento do dia e da coroa solar surge Guaraci, seu esposo irmão. Está com olhos arregalados, observando criaturas carbonizadas aos seus pés. O cheiro forte lhe queima as narinas. Jaci o abraça:

– Foram os homens do gado. Eles atearam fogo em nossa mata.

Guaraci a abraça e tenta esconder as lágrimas, enquanto observa uma jibóia que mais parece um galho queimado. Tentou saber se conhecia aquele réptil, mas já estava sem forma e cores definidas. Sua alma já estava com Tupã, que enviava raios mesmo com o céu azul.

– Somos deuses, Jaci, como sequer percebemos isso acontecer?

A coroa de penas de Tupã estava envolvida em faíscas azuladas. Seu corpo reluzia e as árvores a sua volta absorviam os raios que emitia. Jaci e Guaraci abraçaram-no.

– Pai – disse Jaci. – Os homens do gado estão destruindo nossas matas há dias. O fogo mata todos os seres.

– Eu sei, minha filha – retumbou Tupã, com uma voz que parecia ser uma descarga elétrica interminável. – Ontem, Potira, filha de Tauanê, chamou-me antes de morrer. Ela foi lambida pelas chamas provocadas pelo homem branco. Há muitas luas o fogo consome nossas matas e continuará a ser assim.

– Mas, pai – sussura Guaraci, erguendo seus braços torneados e ainda suados do calor. – O que podemos fazer para acabar com o fogo que mata nosso povo e elimina nossas matas?

– Nada, por enquanto, meus filhos, mas mandarei uma praga que irá eliminar muita gente das cidades, sem se importar se são culpados ou inocentes. Sem escolher ricos ou pobres. Essa praga irá vingar um pouco do que já sofremos e irá cobrir os campos de corpos e lágrimas.

Opressão dos vulneráveis e covardia diante dos poderosos podem custar caro

Se uma pandemia da dimensão dessas que estamos vivendo,
não for razão suficiente para cessarmos essa sangria do
recurso público e passarmos a financiar a vida e a economia
que a garanta, podemos nos preparar para mais mortes,
mais miséria e a violência de nossos profissionais da saúde
terem que escolher quem terá chances de sobreviver
por terem menos equipamentos que os necessários!


Que diz o dito popular daquele que bate nos pequenos e “pia miudinho” quando se remete aos grandes? Covarde! Infelizmente essa é a postura do Governador Eduardo Leite e do Prefeito Marchezan.

Diante da pandemia, estão aplicados na retirada de direitos dos trabalhadores, dos terceirizados, das instituições parceiras, em vez de exigirem do Governo Federal que atue e que dê suporte a Estados e Municípios para terem compensação da redução de impostos decorrente do indispensável isolamento social.

 Alguém dirá que apenas seguem sua cartilha neoliberal eleita. Se fosse isso, era questionável, uma vez que proteção da vida está exigindo mais Estado, mais investimento público, mais proteção social. Mas é mais que isto: são covardes e cruéis! O governador não abre mão de seguir descontando de seus professores os dias de greve, ainda que tenham recuperado todos eles, estejam estudando e coordenando aulas à distância, com todas as dificuldades financeiras já acumuladas por anos de políticas de arrocho salarial e parcelamentos.

Como se não houvesse suspensão dos trabalhos e isolamento, segue implantando seu projeto de mudança de carreira, de gratificações, com necessidade de estudos, de recadastramento, sem critérios debatidos, sem simulações transparentes, sem preocupação com o baque nos rendimentos de suas trabalhadoras e trabalhadores que enfrentam toda a sorte de impactos, também devido ao Coronavírus.

Em vez de reorientar todo o trabalho da sua Secretaria de Educação para atender a necessidade das aulas remotas diante das enormes dificuldades dos estudantes e mesmo professores acessarem a tecnologia, dedica-se à implantação do novo e rebaixado plano de carreira. Em vez de estar organizando formas de a alimentação escolar chegar às famílias das e dos estudantes, dedica sua equipe a oprimir ainda mais seus trabalhadores da educação.  

 A prefeitura de Porto Alegre prepara-se para as consequências da crise econômica que se agudiza com o enfrentamento do coronavírus livrando-se de compromissos com seus contratos e convênios, inclusive os que atuam na assistência social e comunitária, retirando os parcos ganhos de estagiárias e estagiários, retirando salário de servidores e servidoras terceirizadas, desempregando, portanto, a partir da sua acovardada e desrespeitosa atuação.

Escolhe oprimir os mais frágeis, dispensa a parceria dos que seguram serviços essenciais como a Educação Infantil, e se acovarda na luta para que o Governo Federal supra as necessidades de Estados e Municípios.

Alguém irá dizer: o Brasil não tem dinheiro, já estava quebrado antes da pandemia.

Podemos demonstrar com dados que não, e com fatos: há poucos dias foi aprovado mais de um trilhão para aos bancos manterem seus compromissos com o rentismo e agora o governo quer autorizar o Banco Central a adquirir os papéis ditos “podres”, assumindo o risco dos investidores.

Para a ajuda a Estados e Municípios, o governo trava quebra de braço com o Senado para que não aprove o que a Câmara já fez, suprindo os entes federados dos impostos que lhes faltarão. Há recursos, mas a escolha é seletiva e é para manter os lucros dos mais ricos.

Somente em 2019, 366 bilhões de juros foram pagos pelo orçamento federal ao sistema financeiro, afirma Arno Augustin, ex-chefe do Tesouro Nacional dos governos Lula e Dilma. Esse é o momento dos juros zero ou até negativo, sustenta ele. Até mesmo economistas de outra linha como Meirelles defendem a impressão de dinheiro pelo Governo Federal, pois não há riscos de inflação pela demanda baixa. É hora dos grandes lucros dos bancos sustentarem o isolamento social para diminuirmos as mortes e recuperarmos mais rapidamente a economia.

A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo lançaram a campanha nesse sentido: #TaxarFortunas para salvar vidas.



Aumento de impostos deve financiar ajuda aos mais pobres e fortalecer a saúde pública durante a pandemia, segundo as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Veja mais aqui.



Saiba-se, estude-se e divulgue-se: as grandes fortunas do Brasil são formadas pela especulação no sistema financeiro que desde a criação da taxa Selic em 1996 quando pagou “espantosos 25% pelos juros da dívida pública, isso já com inflação baixa. No resto do mundo a dívida pública pagava 1% ao ano”. As afirmações são do economista Ladislau Dowbor que explica em seu livro A Era do Capital Improdutivo (2017) como as grandes fortunas se constituem e se beneficiam dela, e não pagam impostos por esse lucro desde dezembro de 1995. Mecanismos de apropriação privada de recursos públicos que comprometeram em 2019, 38,27% do orçamento realizado da União, enquanto apenas 4,21% foram para a saúde e 3,48% para a educação!

Se uma pandemia da dimensão dessas que estamos vivendo, não for razão suficiente para cessarmos essa sangria do recurso público e passarmos a financiar a vida e a economia que a garanta, podemos nos preparar para mais mortes, mais miséria e a violência de nossos profissionais da saúde terem que escolher quem terá chances de sobreviver por terem menos equipamentos que os necessários!

Então, governador Leite, portanto, senhor prefeito Marchezan, parem de massacrar quem está trabalhando na promoção da vida e enfrentem o presidente Bolsonaro na defesa de seu Estado e de sua gente. Usem a coragem que demonstram ter para tirar direitos e desmontar uma rede de Educação Infantil Comunitária que atende mais de 20 mil crianças em turno integral, para, ao invés disso, obter da União os recursos necessários para honrar seus compromissos e investir na saúde dos gaúchos e das gaúchas!

Publicado originalmente em Brasil de Fato

Bolsonaro encolheu

Sua preocupação é com a economia, o que é legítimo. Mas e as vidas, são secundárias?

Já é sobejamente conhecido que Bolsonaro gosta do caos, da guerra ideológica e da confusão. A demissão do ministro Mandetta foi uma comprovação da existência de um presidente e de um governo que passam longe dos padrões tradicionais e politicamente civilizados.

Nela ficaram plasmados o ciúme claro da delirante visão ditatorial e a insensatez oriunda de um verdadeira paranoia. A demissão do competente e correto ministro quando a pandemia faz dezenas de vítimas diárias entre nós, beira à insanidade e um verdadeiro crime de responsabilidade.

Mais. Saiu um médico e entrou um empresário no Ministério da Saúde. Me chamou a atenção o tempo verbal escolhido pelo novo ministro para descrever sua profissão: “Fui médico”.

Ao contrário do que pensa o presidente, não há economia sem pessoas que busquem os bens produzidos. Para o fanatismo, em primeiro lugar vem a economia. Mas ao contrário, primeiro é a vida.

O fanatismo gerou monstros como Nero, Hitler, Stalin .Também gerou os generais das ditaduras sul-americanas, que palparam suas atitudes no terror. Bolsonaro se encaminha a figurar entre estes líderes do horror, como alerta o jornalista Flávio Tavares.

Bolsonaro precisa entender que tem poderes para demitir ministros, mas não para ser genocida. Na verdade, não se esperava de Bolsonaro nenhum governo. Seu modo de governar é o puro desgoverno. Bolsonaro vive numa realidade paralela, em que fatos são negados o tempo todo.

Dias atrás, ele alardeou que “ o vírus começa a ir embora”. De lá pra cá o número de mortos só aumentou. Isto é, o contágio estava em plena expansão e como se esperava, poderia bater a marca de 2 mil mortes.

A verdade é que a saída do ministro Mandetta reduziu o tamanho de Bolsonaro. Como aquele garoto do conto de Hans Christian Andersen que, vendo o rei nu, criou um problema ao apontar o delírio em que todos estavam lançados.

 Mandetta, na cerimônia de troca de ministros, mostrou que o rei está nú, apesar da cena ridícula bem armada em que cada pessoa fingia acreditar na confecção da poderosa vestimenta do soberano.

A pesquisa DataFolha mostrou que 64% da população condenou a saída do ministro. Entre os estudantes, o índice foi de 80%. Uma derrota contundente de Bolsonaro.

Agora é torcer para que o novo ministro tenha o bom senso de manter o isolamento social e que Bolsonaro não aposte na ideia de usar a arminha para acabar com o coronavírus.´


Desumanidade

Tosco, grosso, chinelão, burro, machista, racista, fanfarrão e irresponsável, eis o perfil de Jair Bolsonaro, sobejamente conhecido de todos já de algum tempo.

Agora, a pandemia do coronavírus tem revelado o pior de um homem que não costuma ter do melhor. No momento em que o país busca soluções e priorizar o combate ao terrível inimigo, se vê constantemente ameaçado e sobressaltado por palavras e ações do presidente.

Exatamente aquele que deveria dar o exemplo e estar à frente das ações que conduzem o país a buscar soluções para esta etapa difícil, ao contrário, cria crises através de posturas e palavras despropositadas. Sua preocupação é com a economia, o que é legítimo. Mas e as vidas, são secundárias? Na verdade, Bolsonaro está em campanha pela reeleição.

Mais recentemente, deu mais uma demonstração clara do seu caráter. Ao ser questionado sobre o número de mortos com coronavírus, ao invés de apresentar condolências, uma palavra de conforto, de carinho, de apoio aos familiares dos mais de 2 mil brasileiros mortos, como manda o espírito cristão, simplesmente e debochamente afirmou: ” eu não sou coveiro”!!!

Quanta desumanidade!!!

Eis o mito, cujo slogan de governo fala em “Deus acima de todos”. Que Deus? O Deus do mercado ???

Conhecendo o Anglicanismo pelo testemunho de um religioso

Francisco Machado é uma pessoa amigável, transparente e uma ótima companhia, seja em momentos formais (de reunião ou formação) ou em momentos mais descontraídos.

Machado dedicou sua vida à educação, como professor concursado da rede estadual de ensino e à religião anglicana, na qual exerce a função de pastor. Tem 64 anos, sacerdote há 35 anos. Formado em Teologia, Filosofia, Ciências e Letras pela Universidade da Região da Campanha, Bagé. Especialista em Orientação Educacional.

Boa parte de sua vida e de sua história viveu em Tapejara, uma pequena e próspera cidade do interior do RS. Lá estabeleceu raízes, criou filhos e manteve relações amistosas e fraternas com os cristãos da Igreja Católica e da Igreja Evangélica, como nos relatará a seguir.

Revelar um pouco da história de Francisco Machado é importante para reconhecermos a importância de líderes religiosos que, por sua atuação, promovem a convivência ética e respeitosa entre as religiões. É, igualmente importante, para conhecermos um pouco mais dos fundamentos e das práticas religiosas da Religião Anglicana no Brasil e no mundo.



NEI ALBERTO PIES: Irmão Francisco, descreva-nos, de forma breve, como iniciaste a sua caminhada na religião Anglicana? Como surgiu o seu desejo de servir a Igreja Anglicana.

FRANCISCO MACHADO: Fui convidado para participar da reunião da juventude em uma Paróquia anglicana em minha terra natal, São Gabriel. Nunca havia tido em minha vida uma acolhida tão afetiva. A partir daquele encontro com os jovens, nunca mais deixei de participar da vida da Paróquia. Fui presidente do grupo jovem, fiz parte da diretoria paroquial, participei ativamente das celebrações.

Descobri minha vocação para o sacerdócio nesta relação contínua na vida comunitária. Entretanto, devo dizer que minha mãe, católica de nascimento, foi a primeira pessoa que mexeu com minha vocação. Ela costumava escutar um programa religioso que a Matriz do Arcanjo São Gabriel, em São Gabriel, transmitia pela rádio local depois do jornal. Todo santo dia ela ouvia a “Voz da Paróquia”. Por influência desse programa, eu me imaginava padre caminhando com todos aqueles paramentos pelas ruas da cidade, visitando as pessoas.

Neste período, ainda vivíamos na lavoura. Eu não compreendi os primeiros chamados de Deus, mas ele não desistiu de mim até que eu entendesse que Ele havia me escolhido. Hoje sou um padre Católico Anglicano. Sou batizado na Igreja Católica Romana, Crismado e Ordenado Sacerdote na Igreja Anglicana. A primeira me recebeu no batismo e a segunda me acolheu para o sacerdócio. Deus é surpreendente no cuidado com nossa vocação.

NEI ALBERTO PIES: Quais são as suas maiores realizações no serviço e na missão como pastor da Igreja Anglicana no Brasil?

FRANCISCO MACHADO: São tantas. Entretanto, eu colocaria o ecumenismo, a educação o trabalho social. O Centro Social de Capo-Erê, no distrito de Erechim, foi sem dúvida, minha melhor experiência como sacerdote. Resgatamos a dignidade de muitas crianças e famílias que viviam permanentemente em situação de risco em área ocupada. Instalamos luz e água nos casebres, cercamos os lotes e os ensinamos a fazer horta com o apoio de uma técnica aposentada da EMATER. Montamos um centro de distribuição de alimentos e roupas. Aplicamos a Pastoral da Saúde, com o apoio de nossos irmãos católicos romanos. Nesta comunidade nunca mais morreram crianças – tragédia comum naquele lugar.

O ecumenismo e a inter-religiosidade fazem parte da minha vocação para a unidade e comunhão entre as religiões.

Outro trabalho que me fez muito feliz fui ter ajudado, do mesmo modo, as comunidades indígenas Guarani e Caingangue.

NEI ALBERTO PIES: Conte-nos como também escolhestes a profissão de professor e qual é, na sua visão, a importância da educação neste momento histórico?

FRANCISCO MACHADO: Sabe, meu amigo Nei, estas coisas a gente não escolhe, nascem conosco. Ser professor, para mim, é como ser sacerdote. Deus, para o exercício dessa função, coloca em nossas mãos a obra prima da sua criação que é o ser humano. Neste caso, ele nos chama para acrisolar essa pedra e fazer dela um diamante onde se vê refletido: os animais, a natureza e o cosmo, em todo seu esplendor.

Ensinar as linguagens, as ciências, à matemática é muito pouco para o que se espera do professor. Isso até os ladrões aprendem e usam em suas safadezas. Ser professor é entregar-se ao compromisso social, é dar-se ao amor pelo outro, é respeitá-lo como sujeito, é reconhecê-lo impregnado de cultura e inteligência, é dar-se ao diálogo com os diferentes, é chegar ao nível da outra pessoa sem preconceito, discriminação, intolerância. Neste momento histórico, a educação precisa construir o sentido ético, estético, humano e religioso. Não se faz um Município, um Estado e um País sem estes valores.

NEI ALBERTO PIES: Participas há muitos anos do CONER Seccional Passo Fundo, o Conselho do Ensino Religioso. O que aprendeste, nestes anos, no convívio das diferentes crenças e denominações religiosas?

FRANCISCO MACHADO: Realmente, tenho expressado que o CONER foi a melhor universidade que cursei. Conviver com outras religiões é como penetrar no cosmo.

A diversidade religiosa e suas curvas são aspectos que nos ressuscitam. Ela faz-nos romper com nosso pequeno mundo, nossas pequenas e diminutas repúblicas, nossa arrogância religiosa, nossa ilusão de Deus como propriedade divina.

Não foi a Igreja Anglicana que me ensinou ser cristão, não foi o seminário que me ensinou ser sacerdote. Entretanto, o CONER me ensinou ser anglicano e ser sacerdote. Foi neste espaço que ressuscitei da minha morte religiosa e dei sentido para meu sacerdócio. Eu pude ver além dos meus próprios muros, pessoas e religiões de profundo sentido e riqueza cultural.

NEI ALBERTO PIES: Quando, como e porque surgiu a Igreja Anglicana no mundo? Como e quando a Igreja Anglicana chegou ao Brasil?

FRANCISCO MACHADO: A Igreja Anglicana não foi fundada. A Igreja Católica Romana sofreu um corte horizontal no século XVI, por razões políticas e de interesse pessoal do Rei Henrique VIII, o qual não aceitando a negativa do Papa Clemente de casá-lo novamente, retalhou, tornando a Igreja Católica Romana da Inglaterra independente de Roma. Daquele momento em diante, a Igreja da Inglaterra teria vida própria sem qualquer obediência ao Papa.

A partir de então, ela se esparrama pelo mundo e vem para o Brasil via Estados Unidos, onde é muito forte. No Brasil, chegou há mais de um século. Por influência do protestantismo, veio para o Brasil com muitas características evangélicas. Mas, preservou sua catolicidade por meio do uso das liturgias, eclesiologia, ordens paramentos, sacramentos, hinologia. Sua sede fica em Cantuária, na Inglaterra, residência do Arcebispo chefe do Anglicanismo no mundo.

NEI ALBERTO PIES: Que diferenças e que semelhanças a Igreja Anglicana tem com relação à Igreja Católica?

FRANCISCO MACHADO: A Igreja Anglicana fez algumas mudanças em sua eclesiologia. Os sacerdotes podem casar-se e as mulheres podem ser ordenadas sacerdotisas. Estas questões, mesmo contraditórias para com a eclesiologia Católica Romana, não impedem que Inglaterra e Roma mantenham o diálogo permanente por meio de uma Comissão Anglicano-Católica Romana. Há pontos comuns da prática Católica Romana na Igreja Anglicana. As teologias, liturgias, eclesiologias, convergem positivamente para histórica unidade destas duas grandes igrejas. Elas continuam parte uma da outra.

NEI ALBERTO PIES: Como é a estrutura organizacional da Igreja Anglicana?

FRANCISCO MACHADO: O Arcebispo de Cantuária é o líder simbólico da comunhão anglicana no mundo. Em cada país ela é autônoma e independente em suas decisões. Estrutura-se em dioceses. Cada uma delas tem um bispo. Para representa-la.  É eleito, entre seus pares, um Bispo Primaz que participa da mais importante conferência da igreja – Conferência de Lambeth. Participa também da reunião dos primazes do mundo do Conselho Consultivo Anglicano.

NEI ALBERTO PIES: Quais são os fundamentos da fé professados pelos seguidores do Anglicanismo?

FRANCISCO MACHADO: Fé, Bíblia, Tradição e Razão. Os Credos Nisceno e dos Apóstolos, são sua expressão comunitária de fé. A Bíblia, como Livro Sagrado que tem todas as coisas necessárias para a salvação. A tradição como suporte, coluna e fundamento de sua prática eclesiológica. A razão como elemento que distingue o ser humano das demais formas de vida do mundo e o respeito que ele deve ter com o todo. A razão como equilíbrio da emoção.

NEI ALBERTO PIES: Quais são as práticas religiosas mais importantes de um seguidor da Igreja Anglicana?

FRANCISCO MACHADO: É considerado membro aquele que é batizado, contribuinte e comungante. Deve também comportar-se com ética e respeitar a dignidade de todo ser humano e o meio ambiente onde está inserido. Deve orar e ler a Bíblia, participar ativamente da vida da Igreja.

NEI ALBERTO PIES: Como foi a convivência da sua Igreja/paróquia na próspera cidade de Tapejara, RS, na convivência com os outros irmãos cristãos?

FRANCISCO MACHADO: O ecumenismo está implícito na prática anglicana. A convivência sempre foi muito próxima com os irmãos católicos romanos, irmãos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. Fiz, inclusive, o curso de pós-graduação oferecido pelo ITEPA (Instituto de Teologia e Pastoral, da Arquidiocese de Passo Fundo) em Tapejara. A convivência foi ótima, como sempre.

NEI ALBERTO PIES: A Igreja Anglicana ordena mulheres? Qual é o papel das mulheres na religião?

FRANCISCO MACHADO: Sim, ordena mulheres. Foi uma luta de dez anos para que isso fosse aprovado no Brasil. A aprovação foi antes que a Inglaterra, berço do anglicanismo, aprovasse a ordenação feminina. Hoje boa parte do clero brasileiro é composta de mulheres. Já temos duas bispas eleitas no Brasil. O papel da mulher sempre foi exercido nas ordens paroquiais. Por exemplo: Ordem da Santa Cruz, Ordem das Filhas do Rei, Sociedade Auxiliadora de Mulheres, União das Mulheres Episcopais Anglicanas do Brasil. Há vários espaços para as mulheres na Igreja Anglicana.

NEI ALBERTO PIES: Como a sua Igreja trabalha o envolvimento da juventude na fé?

FRANCISCO MACHADO: Cada diocese tem sua Pastoral da Juventude. Existe o encontro nacional da juventude que acontece anualmente. Este encontro reúne lideranças do Brasil para refletir sobre a problemática do jovem.

NEI ALBERTO PIES: Como vês hoje o esforço do Papa Francisco em promover o diálogo e a paz entre as diferentes religiões do mundo?

FRANCISCO MACHADO: Tenho profunda reverência e admiração pelo Papa Francisco. Um homem santo, humano e coerente. Um grande líder, que pela sua simplicidade, tem se tornado referência no trato do diálogo e da paz para o mundo. A América-Latina nos legou um dos melhores e mais venturosos papas da atualidade. Os anglicanos guardam profunda reverência pelo Papa Francisco.

NEI ALBERTO PIES: Que outras questões da sua Igreja desejarias compartilhar com professores e com estudantes?

FRANCISCO MACHADO: Queridos professores: a dimensão religiosa deve ser a melhor referência da prática pedagógica do professor. O professor deve primar por uma prática pedagógica que respeite a diversidade religiosa. Aos estudantes: vocês devem reconhecer que o amor, a solidariedade, fraternidade e justiça, são práticas que nos unem. Nunca deverão ser intolerantes e preconceituosos em relação a opção religiosa de seus irmãos. Toda a religião é boa. Entretanto, tem muita “igreja” que não é religião, mas é um centro de exploração da boa fé das pessoas.

Os jovens devem ler estudar e refletir sobre a Bíblia para não se deixar levar por falsos profetas e charlatões que falam em nome de Deus para roubar dinheiro dos pobres com a ilusão da prosperidade e da cura.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase que defina os seus sonhos.

FRANCISCO MACHADO: Quem conduz o trem à seu destino são os trilhos finos.

NEI ALBERTO PIES: Uma ideia que defina o mundo na atualidade.

FRANCISCO MACHADO: Os ricos farão tudo pelos pobres, menos descer de suas costas. Tolstoi estava certo. Hoje, o mundo acentua as diferenças entre ricos e pobres. De um lado, o egoísmo, e de outro lado o aprisionamento na condição da pobreza e miséria.

NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem final.

FRANCISCO MACHADO: Puxa! Vamos lá. Leia, leia muito. A leitura tem o dom de ressuscitar. Leia bons romances, leia poesias, contos, narrativas, histórias. A leitura é um belo caminho para nos livrar da ignorância. A leitura nos permite construir autonomia.

Um livro que se leia é uma viagem que afasta o infinito de nossa presença, dois livras, três livros, quatro livros, cinco livros, muitos livros, milhares de livros nos fazem cada vez mais obsessivos em querer alcançar o horizonte. Não chegaremos lá por nós mesmos ou levados por alguém ou alguma coisa, mas ficaremos reconhecidamente sábios. A sabedoria é fruto da simplicidade e nos vem para tornar o mundo mais humano, fraterno e justo.



Sugestões de uma prática pedagógica

Questões para aprofundar conhecimentos da cultura e da história dos anglicanos no Brasil.

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do sétimo ano, segundo trimestre, Unidade temática “Manifestações religiosas/crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento: “Lideranças religiosas” e “Habilidades”: reconhecer papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições religiosas/identificar lideranças religiosas presentes no espaço municipal e suas contribuições à formação espiritual/exemplificar líderes religiosos que se destacam por contribuições à sociedade.

No nono ano, Unidade temática “Crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento “Vida e morte”, habilidades “identificar sentidos de viver e morrer em diferentes tradições” e “caracterizar ritos fúnebres de diferentes tradições”.

Esta prática pedagógica também pode ser aplicada a estudantes do Ensino Médio. Após ler a entrevista de Francisco Machado, da Igreja Anglicana, responder às questões:

  • O que chama atenção na entrevista (conteúdo, conhecimentos do entrevistado, forma de expressão do entrevistado, outros). Por quê?
  • Acesse este link da matéria do site Brasil Escola Após a leitura, faça resumo da história do Anglicanismo.
  • Francisco Machado revela suas experiências com Ecumenismo. O que é Ecumenismo? (Se não consegue responder pela entrevista, faça pesquisa internet)
  • Francisco Machado fala que aprendeu muito com o diálogo inter-religioso na sua participação no CONER. Que aprendizagens foram estas?
  • Como se dá a relação da Igreja Católica e a Igreja Anglicana no Brasil e no mundo? Que diferenças e que semelhanças guardam entre si?
  • Por que Francisco Machado, ao final de sua entrevista, alerta para a importância da leitura na vida da gente?
  • Quais são as características do testemunho de Francisco Machado como religioso, professor a favor da convivência pacífica e respeito entre as religiões?
  • Conheça a Igreja Anglicana através deste vídeo. Depois, faça um resumo do vídeo ( 10 a 15 linhas).

O patinho feio

Era uma vez, numa região campestre, há muito tempo, o verão havia chegado e a temperatura estava muito agradável. Num recanto ensolarado ficava um antigo castelo muito bonito e aconchegante, às margens de um rio onde, nos jardins, viviam vários animais.

Próximo à margem do rio, uma pata repousava tranquila em seu ninho esperando chocar nova ninhada de patinhos. Após longa e paciente espera, os ovos se abriram, um após o outro, surgindo lindos patinhos amarelinhos para alegria da mamãe. Porém, o ovo maior, não se rompia e a pata já estava impaciente; aguardou mais um pouco e bicou o ovo, e surgiu um patinho cinzento, desajeitado e muito grande. Não se parecia em nada com os irmãozinhos.

Para ter certeza de que esse desajeitado era um patinho, e não um peru, a mãe pata levou todos os filhotes até o rio e observou que o patinho nadava mais desenvolto do que os demais. Ela ficou tranquila e pensou: é só um patinho feio, muito feio.

No dia seguinte, a pata levou seus filhotes para os jardins do castelo para conhecer os outros animais que viviam lá. Todos parabenizavam Dona Pata pelos lindos filhinhos, mas não achavam graça no patinho cinzento, por ser grande e feio. Os próprios irmãozinhos do patinho o perseguiam e ridicularizavam também.

Passado um tempo, a mãe passou a ter vergonha dele e o deixou de lado. Ele crescia isolado e triste. Até a menina que levava comida para os bichos no lago do castelo o enxotava.

Um dia, para se livrar dessa rejeição, tão triste no seu grupo, ele resolveu ir-se embora, para bem longe. Caminhou muito e chegou num pântano, onde foi recebido friamente pelos marrecos que ali viviam. Ficou por ali alguns dias e, numa manhã, acordou com barulho de tiros: eram os caçadores de marrecos. Muitos marrecos morreram, mas o patinho feio escondeu-se no meio da mata e se salvou.

Saiu novamente a caminhar. Ao entardecer, encontrou uma cabana velha; a porta estava entreaberta e ele entrou. Foi para um cantinho, pois estava com frio e cansado e adormeceu. Na cabana morava uma velha senhora que tinha um gato que caçava ratos e uma galinha que punha ovos. Quando a senhora viu o patinho, ficou feliz. – Que bom – disse ela, quem sabe é uma patinha! Daqui a algum tempo, passará a pôr ovos. Estou com muita sorte!

O tempo passou e nada de ovos. A senhora ficou impertinente e implicava com o patinho. O gato e a galinha também começaram a fazer chacota com ele.

Novamente o patinho feio vai embora, se aventurar pelo mundo. Encontrou um lindo lago e por ali ficou, ainda era verão, tinha água para nadar e não faltava alimento.

Chegou o outono, as folhas caiam das arvores, o céu se cobria de nuvens escuras e o vento soprava frio. Sozinho, com frio e fome, no entardecer viu surgir, voando nos céus, um bando de aves muito lindas; penas brancas, asas brancas. Eram cisnes que voavam em direção a locais mais quentes. O patinho feio ficou admirando, olhando aquelas aves que voavam bem alto, até desaparecerem no horizonte. Sentiu grande tristeza. Como gostaria de ser como aquelas belas aves! Então, entrou para o lago e nadou até o anoitecer, sentindo-se mais feio, sozinho e infeliz.

O inverno chegou rigoroso, frio e neve. Tudo ficou mais difícil. Um dia, de tanto frio, suas patas ficaram presas ao gelo e ele pensou: agora morrerei. Fechou os olhos e, lembrando as belas aves que havia visto há tanto tempo, adormeceu de cansaço e frio.

Na manhã seguinte, bem cedo, um camponês que por ali passava, viu o patinho já meio morto. Quebrou o gelo de suas patas e o levou para casa, junto a seu peito, para aquecê-lo. Lá foi cuidado e recuperou suas forças. O bom camponês tinha três filhos pequenos, que eram muito ativos, queriam brincar com o patinho, o seguravam, o apertavam, o esfregavam; não era por mal. O patinho feio, acostumado a ser escorraçado, não entendia as brincadeiras, tomava-as por perseguição e resolveu fugir.

Refugiou-se num lago e, quando ficava muito frio, procurava a relva seca para se aquecer. Finalmente chegou a primavera, tudo ficou mais bonito e quente.

O patinho observou que, lá no alto, voavam muitas aves e ele sentiu um desejo inexplicável e incontrolável de voar. Abriu suas asas, que tinham ficado grandes e robustas, e voou. Pairou no ar, vou longe e viu um belo jardim, cheio de árvores e flores, de onde belas aves saiam voando. Ele logo as reconheceu, já as vira antes, sentiu uma grande emoção e amor por elas. Elas pousavam nas águas de um lago para nadar e ele pensou: quero me aproximar delas, talvez me humilhem, não me importo. Voou até o pequeno lago e pousou nas suas águas, expectante, bem onde as belas aves estavam nadando. Aproximou-se humildemente, aguardando ser desmoralizado, baixando a cabeça. Quando se olhou no espelho das águas, o que viu refletido na água? Bela ave de penas brancas, grandes asas, pescoço longo e sinuoso. Era ele? Mal podia acreditar! Era um cisne, como as aves que tanto admirava! Seria um sonho? Não era; era verdade.

Nadava em companhia dos outros cisnes, que o olhavam com admiração e alegria. Um deles disse: – tem um cisne novo conosco, é o mais belo de todos nós! Os cisnes se encantaram com ele, deram-lhe as boas vindas, ofereceram-lhe alimento. O ex patinho feito, tímido diante de tantos elogios e agrados, escondeu a cabeça debaixo das asas.

Talvez um outro, em seu lugar, tivesse ficado envaidecido, mas não ele. O seu coração era muito bom, ele sofrera muito antes de alcançar a felicidade.

(Texto adaptado de Hans Christian Andersen por Gladis Pedersen de Oliveira)



Sugestão de atividades pedagógicas

PARA ALUNOS DE 6º O 9º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL E 1º ANO DO ENSINO MÉDIO

A análise e reflexão sobre a linguagem simbólica da história proporciona a oportunidade de trabalhar conceitos sobre: o bullying, a discriminação, a alteridade, o preconceito, o autoconhecimento, a autoestima, o amor, a caridade, a fé e a esperança.

Propor aos alunos a leitura individual e depois a leitura no grande grupo, por parágrafos. Depois, se quiser, professor poderia ler, de forma eloquente e colocando vida e emoção, o texto já lido e conhecido pelos estudantes, permitindo que os mesmos respondam por partes da história.

Dividir a turma em pequenos grupos para que destaquem as ideias mais importantes, debatam sobre elas e cheguem a conclusões sobre essas questões da vida diária.

Apresentação das conclusões de cada grupo, ao grande grupo, e construção de uma conclusão geral sobre as mensagens da história e sua aplicação na vida diária.


PARA ALUNOS DO 1º AO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL

1 . RESPONDER INDIVIDUALMENTE

         Por que o Patinho Feio era rejeitado?

         Essa conduta é correta? Por quê?

         O que o Patinho Feio procurava em suas fugas?

         Por que ele se preocupava tanto com o que os outros pensavam dele?

         Qual foi a parte mais importante da história para você?

         Coloque-se no lugar do Patinho Feio, quando ele se reconheceu um lindo cisne.

         O que ele sentiu?

2 . FAZER, EM FORMA DE PAINEL, UM JOGO DE TRILHA DA CAMINHADA QUE O PATINHO FEZ DESDE A FUGA DA FAMÍLIA ATÉ SE RECONHECER COMO CISNE, DESTACANDO CADA LOCAL EM QUE ELE CHEGOU.



Gládis Pederson
Autora: Gládis Pederson de Oliveira (texto e Sugestões das atividades). Conheçamos Gladis por ela mesma, nesta entrevista exclusiva ao site. Pedersen contará um pouco da sua história de vida, de seus intensos e importantes trabalhos como pedagoga, dirigente espírita, palestrante e escritora.

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