Cada
médico tem seu paciente favorito. Negar isso é mentir para si próprio. Admito
que o meu paciente favorito é um homem entre 50 e 60 anos com um humor ácido.
Ele vem ao meu consultório há dois anos, mas nunca topou tomar medicação. Na
primeira vez, após uma longa conversa, fiz essa proposta e quase apanhei. O
homem saiu valente e prometeu nunca mais voltar.
No
mês seguinte lá estava ele uma hora antes do combinado na recepção. E assim foi
até bem pouco tempo, pois meu paciente favorito nunca confirmava sua ida,
dizendo que não via necessidade em ir, mas estava presente uma hora antes do
horário combinado no dia marcado. Eu passei a escutá-lo mais e vez por outra
falava tangenciando sobre uma medicação quando o seu discurso autorizava, porém
era repelido imediatamente.
Quando
eu lhe perguntava como estava a vida, ele me respondia: “Tão bagunçada quanto o
seu cabelo”. Quando a arguição partia para sua vida sentimental, ele me respondia:
“O senhor tem partes com cartomantes e apresentadores de programas que gostam
de juntar casais”. Eu aceitava esse humor cítrico de bom grado e vez por outra
retrucava na mesma moeda.
Seguimos
então até o mês de maio, quando ele adentrou minha sala com barba por fazer,
cara de quem não dormia há várias noites e me intimou: “Me dá a merda do teu
remédio que eu não vou bem”. Depois de dois anos, ele decidiu que aquele era o
seu momento. Perguntei a ele o que seria não estar bem. A resposta veio na lata:
“Quem não está bem só pode estar mal. Coloca um remédio logo antes que eu me
arrependa”. Depois dessas respostas atravessadas o homem falava sobre seu
emprego sem estabilidade, das contas que não param de subir, dos dilemas com
uma filha mais nova e sua desesperança em relação ao futuro.
Ontem
o camarada voltou e eu questionei se ele havia melhorado. A resposta foi
sumária: “Eu continuo me lascando, só que agora sem chorar”.
Fiquei
tonto com a resposta. É possível tratar uma doença que se manifesta num sujeito,
mas que surge pelas condições socioculturais que o circundam? Até que ponto os
quadros depressivos e ansiosos são doenças propriamente ditas? Seriam eles
manifestações individuais de uma crise sistêmica e estrutural da maneira
como vivemos e nos relacionamos?
O capitalismo
trouxe consigo o ideal de que é possível vencer, caso alguém se esforce o
bastante. Ele se alimenta de fenômenos individuais para que o conjunto da
população acredite na veracidade da meritocracia. Anitta é um exemplo claro
disso. Ela inconscientemente diz a várias meninas periféricas que é possível
vencer.
O
futebol também nos empresta alguns exemplos de ascensão econômica meteórica
como forma de manter uma esperança no sistema. Questionamos a nós mesmos quando
não conseguimos e não ao sistema e seus enormes gargalos.
O
que eu tenho visto dia e noite no meu consultório são pessoas que acreditaram
nessa falsa premissa do capitalismo e agora se encontram numa crise. A crise da
culpa. Se o sucesso é mérito seu, o fracasso também é. Não sobra tempo e espaço
para refletir quais os entraves estruturais e sistêmicos levaram as pessoas ao
fracasso. Não há espaço para se discutir o que é o fracasso.
As empresas, com as
reformas implantadas nos últimos anos, conseguem uma rotatividade ainda maior
de funcionários e não se preocupam com a exaustão deles. Tiram até o último
caldo. Qualquer coisa, poderá haver uma troca. É a coisificação do ser humano,
da sua subjetividade. As pessoas passam a ter valor de coisa e podem ser
sumariamente trocadas sem grandes prejuízos para a grande engrenagem.
Como
parte desse processo, as pessoas se sentem sós. Vivem quase paranoicas com uma
possível demissão. A alta competitividade, enfraquecimento das ações sindicais
e a quebra dos laços de solidariedade social — fenômeno mais importante do
capitalismo — têm associação com a vertente teórica neoliberal que defende a
desregulamentação do mercado, a redução do Estado na economia e na proteção
social aos trabalhadores e cidadãos. O Brasil vive uma onda neoliberalista e
isso terá consequências importantes na maneira de se adoecer psiquicamente.
Pessoas
que trabalham mais de 14 horas por dia, que demoram 4 horas por dia no
trânsito, que cumprem metas e logo após recebem outra sem nem ter tempo para
saborear o prazer da sua vitória. Pessoas que se açoitam para consumir, para
produzir, para adoecer. As viagens de 15 dias cobram aos demais dias do ano uma
fatura altíssima. Não há espaço para reflexão mesmo. Viver vira um ato contínuo
para acordar, trabalhar, comer e dormir. O corpo vira um produto, uma máquina.
O sexo se torna um produto para se ter prazer e não um encontro entre pessoas.
O capitalismo diz que quem não goza o tempo inteiro está errado. A consequência
são relacionamentos cada vez mais curtos, superficiais e sem o conhecimento do
outro. O outro é um corpo, uma parte, mas o prazer é somente individual e não
se compartilha.
O que o capitalismo
também nos traz é a sensação de que sempre é possível fazer mais, sair da zona
do conforto como dizem os coachs. Que é possível ir além. Só que essa mentira
encontra até ressonância na nossa mente impregnada ideologicamente, mas não no
corpo.
O
corpo nos dá o limite. Diz que não é possível tudo. Aí as pessoas adoecem. Tem
crises de ansiedade, depressão e a tão atual Síndrome de Esgotamento
Profissional/Síndrome de Burnout. Aí as pessoas não suportam a realidade e
precisam de substâncias lícitas e ilícitas para viver.
Tenho
repensado muito a minha prática a partir dessas reflexões. Caso não faça isso,
virarei um simples prescritor. Quiçá um traficante de drogas legais. Ser médico
vai além de saber medicar. Ontem, quando meu paciente saiu, eu falei que havia
aprendido muito com a sinceridade dele. A sua resposta foi assim: “Então na
próxima o senhor me paga a consulta ao invés de eu te pagar. Ando com umas
contas atrasadas e vai ser de grande valia”. Sorrimos juntos e eu pude perceber
que não foi o remédio o responsável por isso.
Uma espécie de nostalgia ambivalente ainda prevalece nos habitantes da Alemanha Oriental e é impenetrável para os ocidentais.
A queda do Império Romano, a queda de Constantinopla, a queda da
Bastilha. Nós costumamos marcar os períodos históricos por grandes quedas. A
queda do Muro de Berlim, foi sem dúvida, um marco na história do século 20.
Impressionado com o que aconteceu no final dos anos 1980, o filósofo
Francis Fukuyama chegou a anunciar que história havia acabado. Isto é, com a
derrocada do Muro e da União Soviética, acreditava ele que os seres humanos
haviam alcançado o ápice da organização social e política.
O que mais poderia acontecer em matéria de graves mudanças sociais,
econômicas e políticas depois que uma multidão de jovens, munida de martelos e
picaretas, reduziu a pedregulhos um dos ícones do século 20? Fukuyama estava
errado. A roda viva da História continuou a rodar.
O curioso é que, depois de 28 anos, o Muro acabou caindo devido a um equívoco
surpreendente, vindo do próprio governo comunista; no dia 9 de novembro de
1989, durante uma entrevista coletiva de imprensa transmitida ao vivo pela
televisão da Alemanha Oriental, um membro do partido, comunicou a decisão do
Conselho de Ministros de autorizar, sem restrições, as viagens para o lado
Ocidental.
Quando um jornalista perguntou quando a medida entraria em vigor, Günter
Schabowski, que não tinha a informação respondeu: “A partir de agora”.
Imediatamente milhares de berlinenses orientais e ocidentais se dirigiram para
o Muro. É importante destacar que, por mais odioso que fosse, o muro
representou nos anos 1960 uma acomodação entre as superpotências.
Ele representou uma trégua, uma estabilidade, por mais irônico que possa
parecer, numa época em que a possibilidade de um novo confronto mundial pairava
ameaçadoramente sobre o mundo, principalmente após a “crise dos foguetes” em
1962, envolvendo Cuba, URSS e EUA, que esquentou a Guerra Fria.
No campo das ideias o Muro foi uma espécie de um sonho de construir uma
nova sociedade que se transformou em pesadelo e que finalmente terminava. O
sonho da utopia do novo homem. Havia a esperança de que do lado socialista
surgisse alguma coisa diferente do capitalismo tradicional.
Havia alguma coisa que dizia: há uma experiência de alguma planificação
econômica, de apresentar uma alternativa diferente à sociedade de consumo. Era
a esperança de que estava sendo construído um novo modelo de sociedade. A queda
do muro representou o fim desses sonhos.
Foi virada uma página na história. Imediatamente iniciou-se o processo
de reunificação da Alemanha. A junção político-econômica dos dois Estados
alemães ocorreu em 1990, mas gerou novos problemas. O desemprego, a recessão,
um clima social tenso, atentados neonazistas e a diminuição das garantias
sociais.
O capitalismo passou a reinar de forma absoluta e, atolado em suas
contradições, provocou crises como a de 2008, sendo obrigado a recorrer ao
Estado para não virar pó.
Outros muros surgiram como o da Cisjordânia e o muro entre EUA e México.
Falando sobre 1989, o historiador Eric Hobsbawn disse: “a experiência
fundamental de todos que viveram grande parte do século 20 é erro e surpresa. O
que aconteceu foi, quase sempre, totalmente inesperado.
Todos nós nos equivocamos mais de uma vez em nossas avaliações e
expectativas. Alguns se viram agradavelmente surpreendidos pelo curso dos
acontecimentos, mas provavelmente foi maior o número dos que se decepcionaram,
um desapontamento muitas vezes agudizado por esperança anterior, ou mesmo, em
1989, por euforia.”.
Os eufóricos anunciaram a vitória definitiva do modelo capitalista e a
constatação da incompetência do comunismo. Os moderados aconselharam a deixar
que o século 21 tome suas próprias decisões. O historiador Reinhard Koselleck
tem uma observação muito pertinente: “o historiador do lado vencedor facilmente
se inclina a interpretar o sucesso de curto prazo em termos de uma teleologia
ex post de longo prazo”.
Estes 30 anos mostram que não foram suficientes para unir as duas
Alemanhas. Talvez seja porque os habitantes da desaparecida RDA nunca tiveram
espaço para discutir o destino de seu país e de suas vidas. Mais do que uma
reunificação, a união dos dois lados se resumiu em uma anexação, uma
colonização da extinta RDA pela Alemanha federal que, até hoje, escreve sozinha
essa história.
Mas nada piorou mais as relações atuais entre os dois lados do que a
demonização do passado da Alemanha Oriental. A tendência dos alemães ocidentais
em tratar a RDA como uma espécie de campo de concentração dominado por
proletários sádicos é insuportável para quem cresceu nela.
Uma espécie de nostalgia ambivalente ainda prevalece nos habitantes da
Alemanha Oriental e é impenetrável para os ocidentais.
O filósofo alemão Peter Sloterdijk em
um artigo no jornal berlinense Tagesspiegel, tentou compreendê-la: “O
socialismo era de fato um estoicismo político, portanto, uma tentativa de
alcançar, mantendo modestas condições de vida, uma soberania pessoal. É
importante notar que uma parte importante desse esforço foi alcançada”.
Abertura das VII Jornadas de Extensão do Mercosul (JEM) teve a presença do educador popular, Dr. Carlos Rodrigues Brandão, amigo de Paulo Freire
Inesperada. Assim pode-se definir a abertura da sétima edição das Jornadas de Extensão do Mercosul (JEM), ocorrida na noite de quarta-feira, 6 de novembro, na Universidade de Passo Fundo (UPF), que sedia a programação até o dia 8 de novembro. O palestrante da conferência de abertura, o educador popular, escritor e poeta, o carioca Dr. Carlos Rodrigues Brandão, pioneiro ao escrever a expressão educação popular no Brasil, em vez de se ater ao tema do evento “50 anos de extensão ou comunicação? Educação popular e extensão na América Latina”, foi além e trouxe para o encontro ninguém mais, ninguém menos, que o mais célebre educador brasileiro, Paulo Freire, que, embora tenha morrido em 1997, deixou ideias e concepções sobre a educação que parecem se eternizar.
Em
afeto aos quase 30 argentinos que participam das Jornadas, Brandão, aos
seus 79 anos, fez uma coisa inesperada, como ele mesmo revelou. “Vou
trazer para este encontro Paulo Freire, que foi meu amigo durante muitos
anos. Mais do que isso, vou trazer Paulo Freire vindo de Buenos Aires.
Vou explicar. Organizei um conjunto de memórias chamado ‘A pessoa de
Paulo’, que é um apanhado de acontecimentos que vivemos juntos. Todo
mundo conhece as ideias de Paulo, mas quase ninguém conhece a pessoa de
Paulo”, revelou o educador, aos cerca de 350 inscritos no evento, vindos
de 32 instituições de ensino superior de oito estados brasileiros e dos
países da América Latina.
Brandão começou relatando a única vez
que mentiu a Paulo Freire, quando, na década de 1980, o convenceu a
participar de um evento não programado em Buenos Aires. Era uma conversa
com educadores argentinos. Brandão falou que haveria apenas 10
participantes, no entanto, o evento tomou tamanha repercussão que reuniu
mais de 4 mil pessoas. Freire falou uma hora e meia e declarou, em
grande parte do evento, seu amor a Buenos Aires e ao Tango. Essa foi
apenas uma de tantas histórias e experiências vividas ao lado de Paulo
Freire, lidas no evento em espanhol, em mais uma das coisas inesperadas
do educador.
Ao final das suas colocações, o palestrante leu um
poema recente feito por ele em homenagem a Freire. “A barba branca
aveludada, a pausada fala mansa, de quem escuta e então fala o que de
outro ele ouvia, quando ensinando aprendia. E os gestos das mãos tão
largos, como em festa, volteiam sobre quem esquece como bandeira de
guia, e a sua palavra então chamava pra rua e pra luta quem sua fala
calava, quem a coragem perdia, quem suas mãos abaixava, quem seu chamado
esquecia”, declamou Brandão, aplaudido em pé pelo público. A
conferência foi mediada pela estudante extensionista da UPF, acadêmica
de Psicologia, Maria Luisa Nolasco Dal Molim, e pelo vice-reitor de
Extensão e Assuntos Comunitários da UPF, professor Dr. Rogerio da Silva.
Mesa completa
Foi a primeira vez na história das JEM que estudantes extensionistas participaram da mesa de abertura do evento. A estudante extensionista da UPF, Maria Luisa, que mediou a conferência de abertura, apresentou um manifesto realizado em uma das Jornadas, em 2017, e complementou. “Estar aqui me comove muito. É um momento que cumpre com o direito essencial dos homens e das mulheres, revelados a nós por Paulo Freire, que é o direito de dizer a palavra, de dizer a própria palavra a partir da posição que se ocupa no seio das sociedades. Palavra que, no nosso caso, está atravessada pela nossa condição de estudantes, de latino-americanos, e, mais importante do que tudo, palavra atravessada pelo sentir do sofrimento que é gerado a partir das desigualdades do mundo”, declarou a extensionista.
A reitora da UPF, professora
Dra. Bernadete Maria Dalmolin, expressou todo seu carinho pelas Jornadas
e a importância da união entre as instituições comunitárias de ensino
superior. “Vocês não imaginam o quanto eu estou feliz. Que bom estar com
vocês. Isso nos dá esperança, mostra que precisamos desse movimento,
dessa força, alegria e energia para nos fortalecermos e fazermos frente a
tudo que vem ocorrendo nos nossos países. Precisamos fazer que as
nossas instituições possam continuar existindo e resistindo para fazer a
melhor educação, aquela educação que de fato representa a necessidade
de todos os povos”, ressaltou a reitora.
Também participaram da
mesa de abertura o presidente da Fundação Universidade de Passo Fundo
(FUPF), Me. Luiz Fernando Pereira Neto, o vice-reitor de Extensão e
Assuntos Comunitários, Dr. Rogerio da Silva, a pró-reitora da
Universidade Vale do Paraíba e presidente do Fórum Nacional de Extensão e
Ação Comunitária das Universidades e Instituições de Ensino Superior
Comunitárias (Forext), Maria Regina de Aquino Silva, o secretário de
extensão da Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos
Aires, Daniel Herrero, e a estudante extensionista dessa mesma
instituição, Ana Pia Recavarren.
Sobre as Jornadas
As Jornadas fomentam o trabalho em rede e as discussões e os acordos que permitem fortalecer a extensão universitária, contemplando as particularidades disciplinares e, ao mesmo tempo, sustentando a extensão na perspectiva da integralidade e dos direitos humanos. Elas são organizadas de forma conjunta pela Universidade do Centro da Província de Buenos Aires (UNCPBA), UPF, Forext, Secretaria de Políticas Universitárias dependente do Ministério Nacional de Educação da Argentina, Conselho Interuniversitário e Rede Nacional de Extensão Universitária Argentina. Na região latino-americana, as Jornadas têm o apoio da União Latino-americana de Extensão Universitária (ULEU) e da Associação de Universidades do Grupo Montevideo (AUGM).
Paulo César Carbonari é militante de atuação conhecida e reconhecida em todo Brasil. Desde muito jovem, ainda cursando filosofia, engajou-se na Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF) e nunca mais parou de atuar na defesa e promoção dos direitos humanos. Além de sua atuação local, assessora movimentos populares, cooperativas de crédito, ONGs em diferentes estados brasileiros. Participa, ativamente, na formulação de relatórios sobre situação dos direitos humanos no Brasil e que são apresentados e discutidos em fóruns e entidades de representação internacional como a ONU.
Recentemente,
no ano de 2014 assumiu a presidência do Conselho Estadual de Direitos Humanos
no Rio Grande do Sul, estando já no segundo mandato, que vai até agosto de
2020. É, atualmente, coordenador de formação do Movimento Nacional de Direitos
Humanos (MNDH), desde dezembro de 2018, mas já tinha sido membro da direção
nacional por mais de dez anos. Participou da formulação de várias políticas
públicas entre as quais a proposta de um Sistema Nacional de Direitos Humanos,
do Programa Nacional de Direitos Humanos e do Plano Nacional de Educação em
Direitos Humanos, tendo sido membro do Comitê Nacional de Educação em Direitos
Humanos por vários anos.
Sua
atuação também se destaca pela formulação teórica no campo dos direitos
humanos, especialmente pela pesquisa e ensino. É professor de filosofia no
Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) onde coordenou várias edições
do Curso de Especialização em Direitos Humanos, coordenou grupos de pesquisa e
publicações sobre direitos humanos, entre elas coordenou a coleção “Sentido
Filosófico dos Direitos Humanos” e participa do Grupo de Estudo e Pesquisa
sobre Educação em Direitos Humanos.
Seu
doutorado em filosofia aborda uma das questões chave para a atuação em direitos
humanos, a vítima, sendo que a aborda na perspectiva do sujeito ético. A tese
ainda é inédita e está em preparação para publicação.
Conheçamos
um pouco mais Carbonari por ele mesmo, nesta entrevista exclusiva.
NEI
ALBERTO PIES: Como
iniciou tua atuação militante na defesa e promoção dos direitos humanos?
PAULO
CÉSAR CARBONARI: Era 1989, há 30 anos, eu era estudante
de graduação em filosofia no IFIBE, estava no segundo ano, comecei a participar
da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF). www.cdhpf.org.br
No ano seguinte fui contratado para atuação liberada, meio tempo, o que me ajudou a concluir o pagamento da graduação, inclusive. Eu fui encarregado de implementar o projeto Formação de Consciência Crítica, uma atuação junto às comunidades de periferia, que consistia em assistir a um curta-metragem seguido de debate, para o que havia um equipamento próprio de projeção. O curta que mais assistimos foi “Ilha das Flores”. Foi uma experiência única. Muita aprendizagem.
Eu também tinha que fazer o
atendimento das demandas de alegação de violações. No primeiro dia de trabalho
recebi uma ligação de que no dia seguinte haveria uma ação na Polícia Civil na
qual um cidadão que havia acusado policiais de tortura era chamado a fazer
reconhecimento dos responsáveis por esta prática. Liguei para vários dos
membros da coordenação e pedi orientação. Fui até a casa do cidadão, que ficava
na periferia do Bairro São José. No dia seguinte fui com ele à Delegacia. Foi
meu batismo de sangue. Marcou-me para toda a vida. Ter que acompanhar uma
pessoa vítima de tortura para o reconhecimento de seus algozes e dar condições de
responsabilização foi marcante.
O convite para a militância foi feito pelo grande mestre, Padre Roque Zimmermann, falecido recentemente a quem devo meu engajamento nesta luta. No ano seguinte terminei a graduação e decidi que me dedicaria à organização e à luta popular por direitos humanos e também à docência em filosofia. A primeira fiz na CDHPF e a segunda no Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE). Logo também participei pela primeira vez do VI Encontro Nacional de Direitos Humanos, que reunia as filiadas do Movimento Nacional de Direitos Humanos, em Vargem Grande, SP. Foi minha primeira viagem para fora do Rio Grande do Sul. A partir dele participei de quase todos os encontros promovidos nos anos seguintes. Ali conheci referências nacionais que foram fundamentais para inspirar a atuação em direitos humanos.
NEI ALBERTO PIES: O que motiva, ao longo destas três décadas,na militância de direitos humanos no
Brasil?
PAULO CÉSAR
CARBONARI: Eu
me entendo um militante de direitos humanos, pois me sinto um caminheiro, que
está a caminho, em luta. O inacabamento humano e a consciência que temos dele
nos faz tomar posição no mundo, tomar lado, assumir causas, juntar-se em
organização, construir lutas, promovendo processos, afetando pessoas e, acima
de tudo, querer ser mais com os/as outros/as e querer que os/as outros/as sejam
mais.
Os direitos humanos, assim como os entendo, são conquistas da organização e da luta daqueles/as que são excluídos das condições de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humanizada. Por isso, os vejo como projeto de construção social e política, de aprendizagem.
Falar
de direitos humanos é “direitoshumanizar e direitoshumanizar-se
direitoshumanizando-se” (me perdoem o neologismo). Trata-se de um processo de
promoção de “sujeitos de direitos humanos”. E isso é, de alguma forma, querer o
impossível num contexto no qual o necessário e o que parecia possível
tornaram-se impossível. Enfim, o que me motiva a cada luta, a cada processo, a
cada momento é saber que, como diz Zé Vicente: “Se
é pra ir a luta, eu vou! / Se é pra tá presente, eu tô! / Pois na vida da gente
o que vale é o amor”.
NEI ALBERTO PIES: O que significa para ti atuar localmente
(Passo Fundo) e participar ativamente na formulação das diretrizes e na
condução das pautas de direitos humanos em todo o Brasil, junto ao Movimento
Nacional de Direitos Humanos (MNDH)?
PAULO CÉSAR
CARBONARI: A
luta por direitos humanos não tem fronteiras. Mas ela precisa estar enraizada.
Isso significa que se faz a luta articulando o local com o regional, o
nacional, o internacional, o global.
Na verdade, qualquer vítima de violação, em qualquer
lugar do mundo, precisa da solidariedade dos/as militantes de direitos humanos.
Quando
comecei a militância na Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, uma das
tarefas era mandar cartas com manifestação de repúdio ou de solidariedade para
vários lugares do Brasil e do mundo, lá onde houvesse necessidade. Aprendi, por
isso, que a presença do/a militante de direitos humanos é fundamental, onde
está sendo chamado a atuar. A solidariedade e a cooperação são, por isso,
necessárias para fortalecer as lutas por direitos humanos. O Movimento Nacional
de Direitos Humanos (MNDH) me deu a possibilidade de conhecer a realidade
brasileira, conhecer militantes de direitos humanos de vários lugares e, sobretudo,
reconhecer, encontrar e reencontrar companheiros/as de luta que se fortalecem
mutuamente.
A
experiência de participação no conselho nacional e na coordenação nacional do
MNDH me ofereceram oportunidades únicas de aprendizagem e de ação. Também me oportunizaram
a representação em ações internacionais, junto aos organismos das Nações Unidas
(ONU) e a organizações internacionais. O fundamental disso é que qualquer
atuação, importa o local onde seja feita, só faz sentido se estiver
profundamente enraizada com os/as sujeitos/as e as lutas por direitos, estejam
eles/as onde estiverem. Andei muito por vários lugares, mas a casa onde exerço
a militância é a CDHPF, que neste ano celebra 35 anos. Com ela celebro 30 anos
de militância em direitos humanos.
NEI ALBERTO PIES: O que mudou na forma e no jeito de fazer
militância em direitos humanos no Brasil ao longo das últimas décadas?
PAULO CÉSAR
CARBONARI: A
militância em direitos humanos segue sendo um exercício de valentia, o que só
se faz com coragem, com cuidado, com paciência, com firmeza. Agora como sempre,
não dá para compactuar com nenhum tipo de prática de violação dos direitos
humanos, o que exige denunciar as violações. Mas também exige fazer o anúncio
da promoção dos sujeitos e dos direitos. A resistência e a solidariedade são
qualidades das subjetividades militantes em direitos humanos.
Um/a defensor/a de direitos humanos não escolhe a quem
defender, estará sempre do lado das vítimas de violação de direitos, de todos
os direitos humanos.
O
ser militante de direitos humanos é um modo de vida, uma responsabilidade e um
compromisso com aqueles/as que reclamam proteção e cuidado, sempre respeitando
a autonomia e a dignidade de cada um/a.
NEI ALBERTO PIES: Houve ampliação no entendimento de direitos humanos,
sobretudo quando se passou a enfatizar os direitos econômicos, sociais e
culturais: o que isto representou na luta concreta dos direitos humanos?
PAULO CÉSAR
CARBONARI: Bobbio,
em “A Era dos Direitos” (1990), dizia
que os direitos humanos não nasceram todos de uma vez e nem de uma vez por
todas, ou seja, foram sendo reconhecidos, declarados e conquistados em
processos históricos. Há direitos que sequer foram reconhecidos, há outros que
ainda não foram declarados e há os que estão longe de ser conquistados, ainda
que já tenham sido declarados. Os diversos (tipos de) direitos: civis,
políticos, econômicos, sociais, culturais, estão juntos na declaração mais
referendada do mundo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948)
Foi a guerra fria que a cindiu em dois Pactos, o Pacto dos Direitos Civis e
Políticos (PIDCP) e o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(PIDESC), em 1966. Na verdade, os direitos humanos formam um todo indivisível e
interdependente, por isso universais (de todos/as e para todos/as). Felizmente
assim os reafirmou a Declaração e o Programa de Ação da II Conferência Mundial
de Direitos Humanos (Viena, 1993).
Ainda
que o Brasil tenha integrado todos os direitos humanos já proclamados ao seu
ordenamento jurídico (Constituição Federal 1988, artigos 5º, 6º, 14 e outros),
a versão predominante sempre valorizou mais os direitos civis e políticos, por
vezes confundindo-os com os direitos humanos, em detrimento dos direitos
econômicos, sociais e culturais. Tanto isso foi forte que, quando da publicação
do primeiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-I), em 1996, não
estavam contemplados os DhESC, como passarem a ser chamados, com o “h” para
realçar que são direitos humanos, pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos
(MNDH), que também denunciou esta deficiência, na II Conferência Nacional de
Direitos Humanos (1997), o que levou a publicação do segundo Programa Nacional
de Direitos Humanos (PNDH-II), em 2002, que viria para reparar isto.
Na
verdade, o tratamento contemporâneo dos direitos humanos só veio com o terceiro
Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-III), publicado há quase dez anos (em
2009). Teve uma publicação chave, feita pelo MNDH, CPT e FIAN, com o título “Direitos Humanos Econômicos, seu tempo
chegou” (1995), que demarcou este processo de afirmação dos DhESC.
A
luta é difícil, a história tem idas e vindas… mas o fundamental é seguir
firme. Em tudo, eu diria que o fundamental é reafirmar a universalidade, a
interdependência e a indivisibilidade do conjunto dos direitos humanos e, num
contexto de retrocesso dos direitos e da “ditadura do dinheiro”, quando, em
nome do fiscal se sacrifica a democracia e os direitos, está em questão
defender todos/as os/as sujeitos/as de direitos e todos os direitos, aqueles já
reconhecidos e declarados, mas também aqueles que ainda precisam ser
reconhecidos, afirmados e declarados. Ainda mais, trata-se de trabalhar para
realizar todos os direitos humanos para todos/as, já.
NEI ALBERTO PIES: Em dezembro de 2018 afirmaste em entrevista ao Jornal
Sul21, que já estava em curso a intenção de acabar com os diferentes ativismos
no Brasil. Com quase um ano de governo Bolsonaro, o que é possível afirmar?
PAULO CÉSAR CARBONARI: O que disse naquela entrevista continua valendo. Aliás a realidade ficou ainda pior. Tudo o que era promessa vem se realizando.
O presidente não tem o menor compromisso com direitos de quem quer que
seja. Ele tem compromissos com privilégios e com a proteção daqueles/as que não
precisam de proteção, pois sempre tiveram acesso e oportunidade. Ele defende
uma concepção seletivista, punitivista e meritocrática de direitos humanos que,
na verdade, abre mão do universalismo dos direitos que afirma que todos/as são
sujeitos de direitos. Para ele, pelo contrário, têm direitos somente os
“humanos direitos”, os “homens de bem”, quem “faz por merecer” em oposição aos
direitos dos bandidos, dos preguiçosos/as, dos que nem humanos podem ser ditos,
segundo ele.
Estes/as para quem não reconhece
direitos, a eles/as a guerra, o cerco, o ataque, como inimigos a serem
destruídos (pela morte, pelo aprisionamento, pela criminalização, pela
desmoralização e tantos outros meios). Por isso, a guerra aos indígenas, aos
sem-terra, aos negros/as, aos jovens, às mulheres, aos indígenas, aos povos e
comunidades tradicionais e tantos/as outros/as… Para estes/as não há
direitos. Contra eles/as tudo, até porque os melhores têm o direito de ser
melhores e de, por isso, atacá-los – são os piores. Que morram os/as que forem
necessários para que uns poucos vivam, assim pensam e agem os que defendem este
tipo de posição. Uma completa inversão e manipulação dos direitos humanos.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância de educar em/para os direitos
humanos?
PAULO CÉSAR
CARBONARI: Educar
em direitos humanos e para os direitos humanos é acreditar no processo
formativo como experiência construtiva de sujeitos de direitos humanos. A
educação é uma obra que se faz em processo e, como lembra Paulo Freire, como
processo de realização da liberdade e em liberdade.
Faz
sentido educar em direitos humanos como processo de formação permanente da
cidadania. Acreditar que os seres humanos podem se humanizar pela educação é o
grande desafio.
Não há um lugar privilegiado para fazer educação em
direitos humanos. Todo lugar social, político, cultural é lugar de formação, de
educação em direitos humanos.
Escolas,
universidades, faculdades, movimentos sociais, grupos religiosos, organizações
de base, dentro de casa, enfim, são todos locais para fazer educação em
direitos humanos. Cada um deles precisa de abordagens próprias. Mas o
fundamental é que em todos eles o central seja formar sujeitos/as que se
reconheçam e que reconheçam a todos/as os/as outros/as como sujeitos. Aqui
também entendo que há um desafio de fazer uma educação “direitoshumanizante”.
Educar em direitos humanos e para os direitos humanos não é uma escolha disponível aos gestores da educação ou mesmo aos/às educadores/as. É uma das obrigações para os processos formativos institucionais. Desde 2012, há Diretrizes Nacionais estabelecidas por um Parecer e uma Resolução do Conselho Nacional de Educação para orientar este processo. É muito importante que professores e professoras conheçam estas diretrizes (educação básica e educação não-formal) e, acima de tudo, desenvolvam práticas educativas para que todos/as os sujeitos em processo formativo conheçam e possam aprender a atuar em direitos humanos. Não se trata de gostar ou não, se trata de conhecer e agir usando um dos principais subsídios para promover a dignidade humana, patrimônio de toda a humanidade.
NEI ALBERTO
PIES: O que
significa presidir o Conselho Estadual de Direitos Humanos no Rio Grande do Sul?
Qual é a importância deste Conselho?
PAULO CÉSAR CARBONARI: Um serviço ao processo de construção de instrumentos públicos de proteção dos direitos humanos. O Conselho Estadual de Direitos Humanos é parte do Sistema Estadual de Direitos Humanos, que conta com vários instrumentos, mecanismos e órgãos de atuação com ampla participação da sociedade civil. Uma conquista da luta dos movimentos sociais e da persistência do MNDH, que por anos e pressionando diversos governos, foi finalmente efetivado com a aprovação pela Assembleia Legislativa e sanção pelo governador Tarso Genro, resultou na Lei Estadual nº 14.481/2014.
O Conselho pode se
manifestar sobre programas, projetos e ações de políticas públicas de direitos
humanos, convocar e coordenar Conferências Estaduais de Direitos Humanos, aprovar
a Política, o Programa e os Planos de Direitos Humanos, propor a elaboração e a
reforma da legislação estadual e avaliar atos normativos, administrativos e
legislativos de interesse dos direitos humanos, emitir pareceres, informações,
recomendações, resoluções sobre temas de direitos humanos, denunciar aos órgãos
competentes o não cumprimento das obrigações constitucionais e legais de
direitos humanos por agentes públicos e privados, entre outras atribuições.
A presidência é
uma atribuição de coordenação, de articulação e de representação e a temos
cumprido como parte de nossa atuação em representação à CDHPF neste espaço. É
compartilhada com a Mesa, da qual participam o MNDH-RS, pela Beatriz Lang, que
também é oriunda da CDHPF, e a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.
Nos últimos tempos
também temos construído junto com outros Conselhos a Rede Nacional de Conselhos
de Direitos Humanos, para fortalecer a atuação nos vários Estados e em nível
Nacional. Um espaço de fortalecimento da participação social, promovendo a
resistência, num tempo de desmonte da democracia participativa.
Acredito que o
fortalecimento destes espaços públicos ajuda a sociedade civil a fazer ressoar
suas denúncias e a buscar caminhos para enfrentar as graves realidades de
violação, além de ajuda-las a realizar ações para promover os direitos humanos.
Infelizmente os órgãos públicos ainda estão pouco permeáveis, há um desafio
imenso para fazer acontecer o que seria óbvio, ou melhor, o que deveria ser de
ofício para qualquer órgão público, cumprir a lei, ou seja, agir sempre em
vista da realização dos direitos humanos.
NEI ALBERTO PIES: Representaste o Brasil, neste mês de outubro, em
evento da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) em Taiwan.
Conte-nos um pouco desta experiência mais recente de sua representação
internacional.
PAULO CÉSAR
CARBONARI: Sim,
tive uma experiência única, participei do 40º Congresso da Federação
Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), à qual o MNDH é associado, uma
organização que reúne mais de 120 países do mundo todo, é quase centenária
(fundada em 1922).
O
Congresso discutiu as dificuldades de manter a universalidade dos direitos
humanos, já que vem sendo atacada de forma contundente nos últimos anos. Foi
possível constatar a gravidade das situações de violação dos direitos humanos
nos vários lugares do mundo e também identificar os grandes desafios para a
proteção dos/as defensores/as de direitos humanos e a necessidade de fazer
lutas em vários temas, além de perceber a importância da solidariedade e da
cooperação internacional. Fortalecemos laços com as organizações das Américas e
estabelecemos programas de atuação conjunta no continente para os próximos
anos.
O mundo está preocupado com o Brasil, sobretudo com o
impacto de um governo de ultradireita nas garantias dos direitos humanos e na
preservação da democracia.
O
Congresso elegeu a primeira mulher como presidenta, é de Botswana, da África.
Uma mudança simbólica importante. O Brasil também elegeu uma representante, uma
das quinze vice-presidentes, Sandra Carvalho, da Justiça Global, que também é
associada à FIDH.
Outro
aspecto foi conhecer a Ásia. O local do encontro foi Taipei, capital de Taiwan.
Uma região de cultura chinesa, mas que tem uma autonomia política em relação à
China, ainda que não seja reconhecido como país pela comunidade internacional.
Enfim, o central da experiência foi perceber que a luta por direitos humanos
está viva e seguirá forte se se alimentar da solidariedade entre os/as
sujeitos/as que se organizam para isso. Voltei ainda mais comprometido com a
construção desta luta nos locais onde atuo, mas também convencido de que
precisamos reforçar os laços internacionalistas.
NEI ALBERTO PIES: Quais são, hoje, os maiores desafios para transformar
os direitos humanos em experiência cotidiana de todas as pessoas no Brasil e no
mundo?
PAULO CÉSAR CARBONARI:
Os
desafios são muitos. Fazer dos direitos humanos presença no cotidiano das
pessoas significa, ao mesmo tempo, criar condições para a realização destes
direitos como fora-de-vida, mas significa também mantê-los como desejo. O
problema é que hoje para as maiorias os direitos humanos sequer seguem como
esperança de realização. E o pior, há o uso dos direitos humanos como recurso
de controle e regulação, formas de intervenção indevida.
Há ainda a questão de enfrentar as compreensões conservadoras
(punitivistas, seletivistas e meritocrática) de direitos humanos que andam
hegemônicas. Enfim, os desafios são imensos!.
Os caminhos para lutar pela garantia da realização dos direitos humanoscontinuam
sendo sempre um quer direitos humanos para todas e todos, lutar pelos
direitos, pois, é assim que, ao longo da história, “os/as sem-direitos”
conquistaram direitos. E há muitas e diversas formas de lutar por direitos.
Em cada contexto é preciso desenvolver a capacidade de compreender a
situação, de agir adequadamente, de modo a tornar efetivas as possibilidades de
afirmação das potências por vezes latentes. Para isso, a organização/luta, a
formação/educação e as alianças são fundamentais para fazer a denúncia corajosa
das violações, a cobrança/monitoramento dos compromissos e responsabilidades em
direito humanos e, acima de tudo, o aprofundamento da solidariedade entre os/as
sujeitos/as.
A resistência é um exercício cotidiano, tecido nas
relações entre os/as sujeitos/as populares. É nisso que creio, nisso é que
esperanço, nisso é que invisto. Ainda que as instituições possam oferecer algum
tipo de proteção, em suas contradições, possam até oferecer resultados
pontuais, nelas não creio estar a saída para o que precisamos em direitos
humanos.
Definitivamente, a institucionalidade disponível não está para os
direitos humanos e, ainda que por vezes delas resvale algum alento, não será
delas que virá a necessária proteção, ao menos a seguirem como estão. A luta
terá que transformar também as instituições para que efetivamente sejam feitas
para promover e proteger os/a sujeitos/as e os direitos.
NEI ALBERTO PIES: Outras questões que queira considerar.
PAULO CÉSAR
CARBONARI: Agradeço
a cada militante de direitos humanos com os quais ombreamos lutas e processos
organizativos. É a presença deles/as que nos mantém animados a seguir atuando.
É porque há milhões de seres humanos que ainda não vivem direitos humanos que
faz com que sigamos com o dever de responsabilidade para lutar pelos direitos
humanos. É porque o capitalismo, o machismo, o patriarcado, o racismo, a
aporofobia, a lgbtifobia e tantas outras formas de desumanização seguem
campeando pelo mundo afora que temos que seguir em luta.
Estou
convencido de que os passos que pudermos dar para transformar a realidade em
vista de promover a realização dos direitos humanos, ainda que pequenos, serão
fundamentais para que possamos “recuperar o quanto de humanidade já tivermos
perdido”, como recomenda Sábato.
Com Alice Mogwe, de Botswana, presidenta eleita da FIDH no 40 Congresso realizado em Taipei, de 21 Foto: Arquivo pessoal
Na frente do Grand Hotel em Taipei, onde foi realizado o 40 Congresso da FIDH Foto: Arquivo pessoal
Nas ruas de Berna, em visita guiada aos pontos que indicam a colaboração suíça com o colonialismo e a escravidão, setembro 2019 Foto: Arquivo pessoal
Nas ruas de Berna, em visita guiada aos pontos que indicam a colaboração suíça com o colonialismo e a escravidão, setembro 2019 Foto: Arquivo pessoal
Intervenção em Evento Paralelo sobre o Relatório de Meio Período da Revisão Periódica Universal RPU do Brasil, na ONU, em Genebra, em 19/09/2019 Foto: Arquivo pessoal
Delegados/as das organizações de direitos humanos de mais de 120 países no 40 Congresso da FIDH, Taipei, de 21 a 25/10/2019 Foto: Arquivo pessoal
Foto 5: Na entrada da ONU em Genebra, setembro de 2019 Foto: Arquivo pessoal
A História, tal como Medéia, sabe ser uma deusa terrível e vingativa. No maior momento de poder, pode vir o revés.
Um fenômeno novo tomou forma na breve história da democracia
brasileira, com a recente introdução das mídias sociais.
“Se de um lado
ele gerou uma
certa democratização de
informações e lugares plurais de fala,
de outro acabou contribuindo para a consolidação de um novo tipo de líder carismático e de
uma nova forma de fazer
política, nem por isso menos
autoritários”, assevera Lilia
Moritz Schwarcz, no livro “Sobre
o Autoritarismo Brasileiro”.
A professora da USP
se refere ao político
populista digital, que prega o ódio
e a intolerância, acusa a
imprensa e os intelectuais, e se
proclama novo ao se dirigir sem mediação alguma à
população.
O bolsonarismo vem se
notabilizando nesta prática desde as eleições de 2018. Uma verdadeira fábrica
de mentiras foi, com muita competência, montada e, para alguns, decisiva para a
vitória de Bolsonaro.
Nota-se que milícias virtuais continuam atuando e
ficando mais violentas conforme a
popularidade do “mito” despenca.
Chafurdando nos grupos de bolsonaristas, é possível encontrar um
tsunami de ódio, preconceito e
notícias falsas.
Neste universo paralelo, Jair Bolsonaro é o estadista incorruptível. Sérgio Moro, antes herói
caçador de corruptos, é agora o mais
mortal exterminador de bandidos.
O Papa Francisco, a rede Globo, a ONU , o Greenpeace, a igreja são “comunistas”. Olavo de Carvalho e Enéas Carneiro são
apresentados como dois dos maiores pensadores que o mundo já produziu nos
últimos 5 séculos.
Fotos de “propriedades” de Lula, o que incluía uma indústria
de grande porte e vista
aérea de um pasto de centenas de
cabeças de gado já foram postadas
pela fábrica de
fakes. Artistas do porte de Chico Buarque
e Caeano Veloso, igualmente, são alvos
das milícias digitais bolsonarianas.
O conteúdo de um grupo é rapidamente replicado em outro. Antes que seja tarde demais, os
incautos precisam ser
esclarecidos via “verdades” espalhadas por grupos como o MG MILITANTES B17 e o BRASIL BOLSONARISTA
RO, de Rondônia, segundo matéria publicada na revista Carta Capital
(16/10).
Agora, quando a loucura tomou conta do laranjal, muita coisa sobre a milícia digital virá à tona de parte de bolsonaristas descontentes, como a deputada Joice Hasselman, que ameaçou o clã Bolsonaro de contar o que ela sabe sobre o que os mesmos “fizeram no verão passado”.
Na CPI, criada para apurar as
denúncias de que adversários políticos usaram
notícias falsas para influenciar o resultado
das eleições de
2018, começou a fase de depoimentos. Descobrirá a Comissão o que
“eles fizeram no verão passado?”
A História, tal como Medéia, sabe ser uma deusa terrível e
vingativa. No maior momento de poder, pode vir o revés. É o que poderá
acontecer com o clã Bolsonaro e seus milicianos.
Quem ainda não decidiu que curso de graduação escolher pode buscar em filmes e séries uma ajuda para saber um pouco mais sobre a atuação e sobre a rotina de cada profissão. Confira algumas dicas dos professores da UPF.
Escolher
que profissão seguir não é uma tarefa fácil. Exige bastante autoconhecimento,
mas também é preciso conhecer um pouco sobre a rotina e sobre a atuação
profissional de cada uma delas. E, para isso, às vezes, o cinema pode dar uma
ajuda. É porque vários filmes e até mesmo algumas séries retratam o dia a dia
de diferentes profissões. Além de ser uma ótima forma de se divertir, eles
também ajudam a dar uma ideia de como é seguir por um ou outro caminho na
carreira.
E para quem
está se preparando para prestar vestibular na Universidade de Passo Fundo
(UPF), mas ainda não sabe exatamente que curso escolher, com a ajuda dos
coordenadores dos cursos, preparamos um guia com algumas informações sobre
alguns deles e também dicas de filmes e séries que podem ajudar nessa escolha.
Confira:
Administração
Quem cursa Administração já saí na frente na hora de disputar uma vaga no mercado de trabalho, que ainda busca profissionais graduados. O curso na UPF está estruturado em três eixos principais que compreendem a visão estratégica, empreendedorismo e sustentabilidade econômica das organizações. Além disso, o curso oferece vagas em todos os campi: Passo Fundo, Carazinho, Casca, Lagoa Vermelha, Sarandi e Soledade.
Para
assistir: O
lobo de Wall Street
Agronomia
A região Norte do Rio Grande do Sul é essencialmente agrícola e, por isso, quem escolher a Agronomia terá grandes chances de se posicionar bem no mercado. Na UPF, o curso foi classificado como o melhor do estado entre as instituições de ensino privadas, segundo o Ranking Universitário da Folha (RUF). O agrônomo graduado pela UPF agrega o ensino totalmente integral no currículo, com a vivência do curso fundamentada em atividades práticas realizadas nos 270 hectares do Centro de Extensão e Pesquisas Agropecuárias (Cepagro) e nos mais de 24 laboratórios e setores de suporte que estão à disposição dos acadêmicos.
Para
assistir: Cowspiracy;
Sustentável
Arquitetura
e Urbanismo
Capacitação é a palavra de ordem dentro do mercado de Arquitetura e Urbanismo. Para enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a UPF prepara os arquitetos para projetar, se relacionar com os clientes e a vender o seu trabalho, além do estímulo à pesquisa e à docência. Também prepara profissionais sensíveis e capazes de atuar na transformação da sociedade.
Para
assistir: As casas
mais extraordinárias do mundo
Ciência
da Computação
O mercado de software cresce de forma exponencial no país e já insere o Brasil na 9ª colocação no ranking mundial do setor, segundo o estudo da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes). Estse mercado movimentou, em 2018, US$ 18,6 bilhões. O curso de Ciência da Computação da UPF está atento a esse cenário e também é responsável por números assim. Com 35 anos de história, o curso foi o primeiro ofertado no interior do estado e acompanha a evolução da tecnologia ao longo de mais de três décadas.
Para
assistir: A
rede social; Piratas da Informática
Direito
Um dos cursos de graduação mais procurados de todo o Brasil, o curso de Direito segue sendo também um dos com mais possibilidades de atuação. Na UPF, o curso foi o primeiro de Passo Fundo responsável pela formação dos profissionais que hoje atuam em diversas esferas do Judiciário e áreas afins. A abrangência do curso chega a cidades estratégicas para a região e está presente em Carazinho, Casca, Lagoa Vermelha, Passo Fundo, Sarandi e Soledade.
Com um mercado de trabalho diversificado em toda a região, a Enfermagem é uma profissão ampla. Na UPF, o curso já soma mais de quatro décadas de uma história de transformação que agrega ao currículo do estudante uma trajetória inspiradora, marcada pela inovação constante. Prova disso é que, para o ano de 2020, o curso contará com um novo Laboratório de Simulação Realística, com aparelhos de última geração à disposição dos alunos.
Para
assistir: Intocáveis;
A história de Florence Nightingale; Grey’s Anatomy
Engenharia
de Alimentos
A rápida inserção no mercado de trabalho, potencializada devido a uma rede de contatos consistente formada durante toda a graduação, é um dos grandes diferenciais do curso de Engenharia de Alimentos da UPF. Desde o primeiro semestre do curso, o acadêmico é estimulado à prática da inovação e incentivado a se desenvolver a partir das tecnologias que ele encontra em modernos laboratórios disponibilizados aqui.
Para
assistir: Rotten;
Cooked
Engenharia
Civil
A construção civil no país continua a dar sinais de que está recuperando o vigor do período pré-crise econômica, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em agosto deste ano, o índice de evolução da atividade do setor cresceu 0,8 pontos, alcançando 49,2 pontos. Nessa perspectiva, o curso de Engenharia Civil da UPF se posiciona como um dos mais qualificados do estado, proporcionando ao acadêmico a vivência prática da profissão dentro da universidade. São 30 anos de tradição, credibilidade e inovação, com mais de mil engenheiros civis formados e atuantes no mercado de trabalho.
Para
assistir: Extreme
Engineering; Megastructures
Engenharia
Química
O acadêmico de Engenharia Química da UPF vive a prática da profissão desde o primeiro semestre do curso de graduação e pode aplicar a teoria da sala de aula em laboratórios modernos e completos. A estrutura do curso disponibiliza equipamentos de alta tecnologia, semelhantes aos que o egresso encontrará no mercado de trabalho.
Para
assistir: Breaking
Bad; O Desastre de Chernobyl
Engenharia
Mecânica
A Engenharia Mecânica é considerada a musculatura da indústria e está inserida em diversos setores fundamentais para a economia. Toda essa relevância é vivenciada pelo acadêmico do curso na UPF. São mais de mil engenheiros mecânicos formados ao longo de 45 anos de trabalho, tradição e atualização constante.
Para
assistir: Appolo
13; Gênio indomável
Fisioterapia
O profissional de Fisioterapia formado na UPF está capacitado para atuar em consultórios, clínicas próprias e é estimulado ao empreendedorismo. A atuação se estende a hospitais, entidades de saúde, serviço público e áreas especializadas. Outro mercado em constante crescimento é o assessoramento dos profissionais em clubes esportivos, instituições de longa permanência e home care (cuidados em casa). O papel do fisioterapeuta em empresas e institutos de perícia também é atrativo aos profissionais.
A número um entre as profissões mais buscadas e também uma das formações mais desafiadoras. O curso de Medicina na UPF forma profissionais generalistas, capazes de atuar na rede pública ou privada, bem como de exercer cargos de gestão. Um dos melhores do estado, proporciona aos estudantes conhecer a profissão na prática desde o primeiro semestre, com atividades desenvolvidas em três hospitais-escola: Hospital São Vicente de Paulo e Hospital de Clínicas, em Passo Fundo, e Hospital de Caridade, em Carazinho.
Para assistir: House; Grey´s
Anatomy; The Good Doctor; New Amsterdam
Medicina
Veterinária
Outro mercado com grande demanda é o da Medicina Veterinária. Na UPF, o curso tem 23 anos de atuação e já formou mais de 1200 profissionais. Além disso, a Instituição tem um dos únicos hospitais veterinários do Rio Grande do Sul com atendimento 24 horas. O espaço, que é referência no Brasil, é utilizado para desenvolvimento de atividades práticas dos estudantes. Desde o primeiro semestre, o acadêmico de Medicina Veterinária já pode atuar no HV, por meio de projetos de extensão ou pela estrutura curricular. O local realiza, em média, cerca de 15 mil atendimentos por ano e recentemente passou por uma reforma, o que qualificou ainda mais os atendimentos.
Para
assistir: Sempre
ao seu lado; Marley e eu; O encantador de cavalos; O corcel negro; Andar,
montar, rodeio
Profissionais
da Odontologia são habilitados para atuar desde a atenção básica até os
atendimentos em clínicas particulares. Na UPF, o curso já está de olho no
futuro. A partir do primeiro semestre de 2020, a disciplina de Odontologia
Digital será incorporada no currículo, fazendo com que a instituição seja a
primeira do estado a oferecer a qualificação aos acadêmicos da graduação. O
curso oferece estrutura exclusiva. Ao todo, são 176 consultórios
disponíveis.
Para
assistir: O
dentista
Psicologia
Cerca de 70% do mercado profissional do psicólogo consiste na área de políticas públicas. Contudo, o leque de possibilidades profissionais se expande para clínicas, hospitais, centros de reabilitação, agências de comunicação, psicologia jurídica, esportiva ou social, além de empresas e instituições. O curso de Psicologia integra o universo de conhecimento da UPF há mais de três décadas. A ênfase do currículo está fundamentada no tripé de intervenções: clínicas e na saúde; escolares e institucionais; nas organizações e no trabalho.
Depois da sessão de cinema e de decidir que profissão escolher, você pode fazer sua inscrição para o Vestibular de Verão da UPF. As inscrições estão abertas até o dia 11 de novembro e podem ser feitas pelo site vestibular.upf.br. Ao todo, são 57 opções de cursos de graduação em sete áreas do conhecimento: tecnologia; engenharia, arquitetura e exatas; saúde e bem-estar; ciências agrárias e biológicas; comunicação e artes; ciências sociais aplicadas; e educação e humanidades. A prova será no dia 15 de novembro, sexta-feira.
As orações, os cânticos e mantras, jejuns, mudras, propósitos empoderadores, acreditem, usados com profundidade e sinceridade, vão te levar à algum lugar.
Diferente
da abordagem de alguém que prima pelo autoconhecimento, voltado aos processos
libertadores, dos quais pudessem esperar um discurso massacrante sobre
limitações e aprisionamentos provenientes das religiões, não farei isso, porque
respeito a evolução de todos.
As
pessoas comumente confundem as religiões com pessoas que as comandam em
determinada instância. Em uma época de enfoque quântico de libertação da “Matrix”,
há discursos em que nos remetem de imediato à verdadeira conexão do “Eu” com o
“ Eu Sou”.
As
religiões nos oferecem ferramentas profundas e poderosas para esse encontro,
todas elas.
As
orações, os cânticos e mantras, jejuns, mudras, propósitos empoderadores, acreditem,
usados com profundidade e sinceridade, vão te levar à algum lugar.
No
meio místico, usa-se comumente, para fins de purificação e sobre tudo para
obter-se clareza, visão ou clarividência, o jejum. Sim, o mesmo que nos dias de
hoje, de forma intermitente, usa-se para emagrecer.
Adicione
ao seu jejum intermitente um propósito transcendente e também orações sinceras,
mantras, silêncio e introspecção e ou algum foco específico sobre o qual deseja
ter mais compreensão. Irás de imediato experimentar sensações desde físicas à
espirituais que nunca sentiu e terás resultados incríveis.
A
título de exemplo: sentirás no corpo físico leveza, no plano mental clareza, no
plano espiritual unidade com as coisas que te rodeiam, desde seus semelhantes e
também os seres que convivem conosco, como os animais, plantas e outros
criaturas. Sentimento profundo de liberdade.
Mas
em qual religião eu encontro isso?
Em
todas as religiões, contudo, fuja daquelas que detêm e te limitam, das que te
encham o coração e a mente de julgamentos efêmeros e fundamentados em
distorções da realidade e ou até mesmo de suas escrituras sagradas e seus
apócrifos enterrados.
Ahh..
mas e as leis, tábuas e normas das religiões? Existem pessoas de vários níveis
de desenvolvimento, os despertos, os que irão despertar e os que dormem. Portanto,
acredito que elas também sejam necessárias em alguns casos, para literalmente “adestrar
o impulso e o descontrole humano”
Todas
as religiões em algum momento sugerem a meditação. Esta é, seguramente, uma forma
de encontro com o “ Eu Sou”. Meditem!
A Economia de Comunhão deve canalizar capacidades e recursos para produzir riqueza em prol dos que se encontram em dificuldades.
Ao contrário da economia consumista, baseada
na cultura do “ter”, a economia de comunhão é a economia do “dar”. Isto pode
parecer difícil, árduo, heróico. Mas não é assim, porque o homem, feito à
imagem de Deus, que é Amor, encontra a própria realização justamente no amor,
na doação. Esta exigência está no mais profundo do seu ser, tenha ele fé em
Deus ou não. É justamente nesta constatação, comprovada pela nossa experiência,
que está a esperança de uma difusão universal da economia de comunhão.
O distanciamento cada vez mais frequente entre as pessoas, a agressão
sistemática ao meio ambiente em prol de um crescimento econômico sem limites, a
consolidação de um modelo econômico que enaltece substancialmente o consumo
conspícuo, a busca desenfreada pelo dinheiro como sinônimo de felicidade, o crescimento
das injustiças econômicas e sociais e o desmantelamento dos princípios básicos
que modelam a teia da vida.
Desnecessário afirmar categoricamente que a somatória disso provoca
profundo descontentamento no cotidiano dos povos, e tem levado cada vez mais
pessoas à reflexão em torno da mais absoluta necessidade de se resgatar os
laços de sociabilidade e de afirmar um compromisso em prol de um mundo melhor;
de um mundo mais justo e socialmente mais equilibrado; de um mundo social comum.
Nesse sentido, resgatando a possibilidade de se construir um mundo
econômico e social menos injusto, que crescem ações para reverter essa
tendência de distanciamento entre as pessoas, tentando aproximá-las pela
prática da partilha, da comunhão (da comum união).
(Chiara Lubich, 1920 – 2008)
Tentativas de novos agrupamentos em favor de ações coletivas, cercadas
de cooperação e união entre os membros tem se destacado com mais freqüência
numa época em que os valores monetários, como é fácil perceber, têm se
soerguido em relação aos valores éticos, morais e sociais. Uma tentativa nessa
linha de atuação cooperativa que merece destaque é a chamada Economia de
Comunhão (EdC).
A comunhão (comum união entre os membros) tem sido uma porta de
entrada para a solidificação de um novo modo de fazer economia, no qual esteja presente a prática da
comunhão-cooperação-fraternidade.
Em
poucas e objetivas palavras, a Economia de Comunhão pode ser resumida como
sendo a combinação de eficiência econômica com solidariedade, tendo como arrimo
o princípio da cooperação.
A verdade é que a busca pela justiça social e um lugar para se viver
em que “entre eles não haja necessitados” (lema da EdC) tem sido discutido
amplamente entre aqueles que se põem a construir uma nova maneira de pensar a
própria vida a partir das relações econômicas, tendo como elemento integrador
desse sistema a participação das empresas.
Esse é o modelo da Economia de Comunhão que procura, por meio de redes
(conjunto de pessoas ou organizações interligadas direta ou indiretamente) pôr
a economia à serviço do atendimento aos mais pobres, uma vez que percebe
claramente que os sistemas econômicos tradicionais têm sido incapazes de tirar
a fome da boca de uma criança.
O ponto fundamental desse novo jeito de “pensar a economia” é a
cooperação e a ajuda mútua (na prática é a cultura do “dar” e do “doar-se”) entre
os agentes e o amplo e irrestrito apoio aos projetos de cunho social que
enalteçam o papel das pessoas integrando-as no sistema produtivo.
Falando
abertamente, o propósito é um só: levar a dimensão da fraternidade para a
macroeconomia que dita, na essência, as políticas econômicas públicas. O
objetivo? Fazer com que a teoria econômica tradicional seja sensível à economia
social e faça valer o princípio maior dessa ciência social: proporcionar
melhoria (bem-estar) de vida a todos.
Nas palavras de Chiara Lubich (1920-2008), ativista social italiana, criadora
desse movimento a partir de uma visita feita às comunidades carentes em São
Paulo, em 1991: a Economia de Comunhão deve canalizar capacidades e recursos
para produzir riqueza em prol dos que se encontram em dificuldades.
Os lucros devem ser livremente colocados em comum, divididos em três
partes, no seguinte sentido:
Ajudar os pobres e dar-lhes sustento, enquanto não conseguirem um posto de trabalho;
Desenvolver estruturas de formação de ‘homens-novos’, ou seja, pessoas formadas e animadas pelo amor, capazes de viver a ‘ cultura da partilha’;
Incrementar e fortalecer a própria empresa. (CHIARA, L. em “O Movimento dos Focolares e a Economia de Comunhão”, Vargem Grande Paulista, Ed. Cidade Nova, 1999).
Nota-se com isso que algumas ações em prol da construção de um mundo
melhor estão em plena atividade; resta, apenas, de nossa parte, uma maior
participação, afinal, em se tratando de resgatar os mais nobres valores em
torno da vida, isso não pode esperar por muito tempo.
Pais e mães devem admitir que especialistas de comportamento e de alma podem intervir positivamente com crianças e adolescentes, com o objetivo de libertá-las de “amarras psíquicas” que as impedem de viver plenamente.
Sempre
difícil pais e mães acompanhar filhos e filhas em atendimento psicológico. O
acompanhamento parece invocar sentimentos de impotência e incapacidade, mesmo
daqueles pais e mães que já entenderam a importância de uma terapia.
A função de uma psicóloga pode
ser definida nas frases de uma criança de 07 anos, após 10 sessões de terapia: “Sabe, pai, psicóloga é legal. Ela mexe com
os sentimentos e a alma das crianças e, às vezes, muda o pensamento delas”.
Esta mesma criança, ao ser
interrogada sobre superação de seus medos, seguiu adiante e disse: “Pai, estas coisas eu e a psicóloga
conversamos só no consultório, lá dentro”.
A
experiência de levar filhos para atendimento clínico terapêutico coloca pais e
mães em outro lugar: na antessala. Talvez aí resida a chave do
entendimento da terapia psicológica: permitir que outros, além de nós pais e
mães, avôs e avós, professores e professoras possam ser suporte para que nossas
crianças e adolescentes entendam seus sentimentos e aprendam a libertar-se de
seus medos e incompreensões, através do diálogo, fala e escuta especializada.
Controlar a ansiedade e o
desejo injustificado de controlar e dominar o mundo e o imaginário das crianças
parece ser um dos grandes desafios de pais e mães que levam filhos ou filhas ao
consultório de psicólogos ou psicólogas.
Pais e mães devem admitir que
especialistas de comportamento e de alma podem intervir positivamente com
crianças e adolescentes, com o objetivo de libertá-las de “amarras psíquicas”
que as impedem de viver plenamente.
Conforme
afirma a psicóloga Tanise Vieira, “para muitos pais, “a necessidade de recorrer
a um psicólogo atesta a sua incapacidade como cuidador e criador, é como se
fosse uma confirmação de “eu falhei”. A
abordagem do meio da criança envolve as relações mãe-criança-pai-criança o que
desperta sentimentos de responsabilidade e, as vezes, culpa.Quando o psicólogo entra nestas
dificuldades e formas de conflitos, há uma tendência dos pais em querer manter
o status-quo e conservar o padrão de relacionamento, fazendo os pais não
colaborar, boicotar ou interromper o tratamento”.
Foi na antessala de um
consultório clínico que escrevi esta reflexão. No vazio, no silêncio, na espera
pelo término de mais uma sessão, brotou a vontade de compartilhar esta
experiência única de aprendizagem como pai, acompanhante de filho, em terapia.
Escrevi
também para encorajar pais e mães que têm crianças e adolescentes que convivem
com ansiedade, medos e sintomas de depressão.
Queridos: nós não falhamos
como pai e mãe quando não conseguimos ajudar nossos filhos em todas suas
necessidades psíquicas e existenciais. Tenhamos, então, humildade para dividir
esta tarefa com professores e professoras, psicólogos e psicólogas e
psiquiatras. Estes últimos compõe a ajuda especializada que nós não estamos
habilitados a oferecer a eles.
Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.
Falhamos mais quando insistimos que podemos responder sozinhos pela educação e formação de nossos filhos e filhas. Falhamos quando achamos que ninguém, além de nós, pode entender, compreender e orientar nossos filhos e filhas nas questões psíquicas e existenciais e educacionais.
Nossos filhos e filhas, neste
século XXI, já podem contar com a ajuda de conhecimentos amplamente disponíveis
na internet e nas redes sociais sobre como funcionam a alma humana e os
comportamentos. E podem contar, também, com o esforço de seus pais e mães que
agora entendem a complexidade deste momento histórico e de necessidades de seus
filhos nesta fase de suas vidas.
O
que mais afeta as gerações mais jovens são as incertezas do momento e a falta
de clareza nas perspectivas do futuro.
A tarefa da educação e da
formação humana deve ser, cada vez mais, resultado de um esforço conjunto de
toda sociedade e de todos os sujeitos que agem com e sobre as crianças e adolescentes.
“O ser humano do futuro, provavelmente, será alguém com mais inteligência e com menos contato com outros seres humanos. Esta restrição aos espaços de convivência humana apresenta, entre as consequências, um espaço privilegiado para a psicologia, incluindo a necessidade de aperfeiçoar a sintonia entre o desenvolvimento cognitivo e emocional”. (Israel Kujawa)
Projetar o desenvolvimento da educação de qualidade, de abrangência e eficácia, exige que se superem as atuais condições em que se encontra a política educacional no RS.
Educação pública estadual do RS sobrevive e tenta fazer milagres
apesar da instabilidade, da intermitência e do empobrecimento. Projetar o seu
desenvolvimento na qualidade, abrangência e eficácia, exige que se superem
essas condições. Explico.
Os dados pesquisados e organizados no Observatório da Educação no RS,
com dados de 2006 a 2018, identificam que não se alcançou um processo
progressivo de mudanças e incrementos nos insumos, programas e recursos
humanos, ao contrário, há descontinuidade, interrupção e desinvestimento.
A falta de professores e funcionários de escola; o número de contratados
temporários cada vez maior; prédios com pouca manutenção e enorme burocracia e
incapacidade do Estado de fazer restaurações e consertos; o não cumprimento das
Consultas Populares, onde estão várias obras escolares; o fechamento das turmas
de Educação Infantil – o que poderia ser evitado pela cooperação entre os
entes; a descontinuidade de programas de apoio federal, como o Mais Educação
que fazia ampliação de tempo escolar; o fechamento de bibliotecas, ausência de
refeitórios, laboratórios, conexão de internet, etc.
A redução das
equipes pedagógicas, o parcelamento e congelamento de salários, esvaziam as
escolas estaduais, desestimulam a carreira docente, apressando aposentadorias.
Esses e outros tantos elementos implicam muitas vezes na perda de prestígio
junto à comunidade, perda de alunos e de qualidade.
O reflexo no Ensino Médio, exclusiva responsabilidade do Estado, é
brutal: evasão e reprovação aumentando, resultado longe da meta do IDEB,
incapacidade de buscar os adolescentes e jovens que não ingressaram ou
desistiram em idade escolar.
“Opressor pode ser um governo com projeto de poder, um grupo empresarial ou de fanáticos religiosos, não necessariamente o rico, embora dinheiro, poder e sexo mandem nessa bagaça toda. Estão matando os professores, aos poucos!” (Douglas Pereto, professor)
A tradição e qualidade do grupo de trabalhadores e a mobilização da
comunidade, que apoia inclusive financeiramente, ainda mantém o vigor, mas
longe da necessidade dessa geração e do desenvolvimento do Estado!
Essa ampliação de vagas temporárias para professoras em 5020, somando-se
as 19.980 existentes, terá que ser para transição desse momento, em que o
governo deve muitas aulas aos jovens estudantes, para um novo tempo, onde se
retome a aposta na escola pública!
O temporário virar
permanente é destruir o sistema público de ensino e destruir os sonhos da
juventude. Por isso estamos vinculando a aprovação dos novos contratos à renovação
de todos e realização de concurso público: posição que a Comissão de Educação
da Assembleia Legislativa tomou e consolidou numa emenda coletiva.
De 2006 a 2019 passamos de 13% a 31% de contratos temporários de
magistério e para 40% nos demais trabalhadores da educação. Precisamos inverter
esse gráfico!
De outro lado, estamos envolvidos no debate nacional sobre o
financiamento da Educação Básica. Momento extraordinário em que se extingue o
atual Fundeb – Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Professores – e que se discute e irá a voto à nova fórmula do financiamento.
Precisamos que este novo Fundeb se torne permanente, com mais recursos da União
– dos atuais 10% até 40% indicam os projetos de Lei – e que essa complementação
chegue aos municípios.
Já tivemos dois encontros Nacionais das Comissões de Educação, uma
grande audiência na AL/RS e um próximo encontro, em Porto Alegre, no dia 21 de
outubro, com a relatora da PEC do Fundeb, deputada Dorinha. O Seminário
Nacional de Educação, que a Comissão de Educação que presido realizou em
outubro do corrente ano, também soma esforços na compreensão da conjuntura que
atinge a área e na mobilização da sociedade gaúcha para que se abra um novo
horizonte para a sua educação.
“As iniciativas que pautam a educação brasileira seguem nesse sentido perigosíssimo. Números e escalas orientam os discursos, assépticos de gente, cínicos ao comparar realidades bem diversas: público – privado, países ricos – países pobres; perversos ao colocar em suspeita o educador e estimular a filmagem como obtenção de “provas” pelo estudante, suprimindo a ética e a amorosidade da relação educacional”.